Manifesto do coletivo Pó de Poesia
O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.
Creia.
A poesia pode.
(Ivone Landim)
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Jasão e a sua riqueza
Ficará com os argonautas. Coro
De Netuno: o navegador Nestor,
Na beleza, desse tão hercúleo encargo;
À coragem dá-se um Teseu, calouro;
E ao lirismo, os dedos de Orfeu, um tesouro.
A viagem, a embarcação, de novo
Encoberta por um dragão nesse antro...
Vãos temores; adormecido o touro.
Semideuses a proteger um argo
Sustentando com mãos de ancoradouro
A fortuna de navegar seguro.
Poema de autoria de Yayá.
domingo, 23 de janeiro de 2011
Um sábado e duas redes
estendeu a garrafa por cima do balcão e abasteceu aquele copo que parecia
sem fundo, saciando a sede peregrina de João Caboclo. Beberrão ele era,
mas naquele dia, embebedou-se diferente de todas as vezes: a fala
enrolada, mas a cabeça lúcida, quase não tombava, virava o copo e
lascava na ponta da faca, o pedaço de charque, que às vezes arremessava
pra cima e aparava com a boca. Algo estranho naquela sede ribeirinha, de
beber até o rio lá embaixo, se virasse aguardente. Mas o ardente mesmo
era o juízo dele, o dono da bodega, pastorando o último bêbado do sábado à
tarde, o banzo de fim de feira, a matutada voltando pros sítios, e ele
aturando um pau dágua esquisito, bom pagador e respeitador, mas só a
imagem de Elza, o que não foi e tantas possibilidades, fazia-o suportar
aquela besta fubana. Namoro de juventude, dez anos atrás, agora cruzavam-
-se na rua, o cumprimento constrangido da Elza recém–casada, virou
silêncio e olhar perturbado para um chão que nenhum dos dois enxergava,
embora vissem. A vergonha pelo que não fizeram, do desejo aspirado à
força bem para dentro, a roedeira terna e eterna, um sofrer fugidio e
pegajoso. E correu o tempo, aquilo ia queimando por baixo, feito fogo de
monturo; João Caboclo, rei da vaquejada, pequeno no tamanho, grande
na brabeza, melhor criador de gado gir das redondezas, cachaceiro emérito
de sábados e domingos, um pirralho a cada ano e nisso já se vão seis.
Desmerecia a esposa, tomando a prima Nicinha como amante, toda a
cidade já sabendo, apenas Elza se fazendo de doida; últimamente, aos
domingos, ia até a igreja acompanhada da pirralhada toda, o marido de
mundo afora, engolindo poeira e farejando aguardente. A Nicinha, boa
bisca, tinha namorado: Doca Faustino, um comerciante de miudezas,
magro, encurvado pela altura e pelo peso dos chifres, diziam as almas
sebosas, na tenda de Biu Barbeiro, entre uma meia–cabeleira e uma
costeleta pé-de-bode no capricho, igual á daquele gringo, Elvis Presley.
Aí os pensamentos de Manézinho fizeram um arco no espaço, feito ave de
arribação buscando rumo, aquela conversa sem fundo nem boca, um lero
–lero de encher até pneu de trem, que nem tinha pneu, olha só. Mas de
supetão, o pau d’ água debruçou-se no balcão e sussurrou, um bafo de
onça filho de todos os alambiques - segredo de bêbado também não tem
dono:
- Manézinho, hoje eu mando Doca Faustino pras profundas dos infernos,
pra derreter os chifres até dar um circuito no zumbi dele, porque corno não
tem alma...
Agora o encachaçado era Manézinho, sem cachaça nem nada, a
confidência entrou no ouvido e começou a dar canga pés, lá dentro do
juízo. A boca secou mas a curiosidade não, debruçou junto dele e
cutucou a onça:
- João, desculpe, não ouvi direito, você vai fazer o que, mesmo?
- Fazer o mundo mais maneiro, mandando Doca Faustino pro inferno,
porra!
Mais uma lapada de cana, outra virada, agora uma lasca de queijo de
coalho, puxou um bolo de dinheiro do bolso, pagou a conta, de gorjeta,
bem, pra que falar na gorjeta agora? Saiu, de cabeça baixa, a Rua do
Carvão estreita pra tanta brabeza movida à cana. Manézinho matutava,
João Caboclo era um bêbado completamente diferente, tombava mas
não conversava miolo de pote, mentira então, muito menos. Assuntou a
vida, olhando pra balança velha, o queijo ainda lá encima, olhou o
prato ainda reluzente por fora e já escuro por dentro. Viuvez à vista,
tiroteio á vista, Elza ainda gostosa, mesmo cheia de menino, aqueles
olhares constrangidos, relâmpagos de desejo mal-satisfeito? Ainda o
queria? Se aquele miserável não acabara com o corpo, a cabeça ainda
dava conta? E a humilhação, depois de tanta esfregação, juração de
amor e ainda fazer sua semente deitar à terra, um medo mais pra nojo que
medo, mesmo. Agora, seis filhos nas costas, a prima raparigando com
o esposo e .... E? Que a vida resolva suas próprias broncas, ele continuava
naquela solteirice viúva, vivendo com a irmã meio louca, na doidice de
ficar na janela da sala, acalentando o filho que só no pano e naquele fundo
destrambelho da cabeça existia. Foi invadido por um cansaço, embalado
no calor de janeiro, sentou num tamborete, escorou-se numas sacas de
feijão, o sono pegou–o de cheio mas desabou correndo de dentro dele,
com os gritos de Neco Gato, de braços abertos, segurando-se no portal,
anunciando que quase agora, no final da tarde, João Caboclo matou Doca
Faustino, e vice-versa, mais pra vice do que versa, pois João Caboclo
levou cinco tiros e só acertou dois, mas no coração de Doca. Manézinho
levantou-se, foi até à porta, olhou para o alto da ladeira da Rua do Carvão,
a tempo de ver duas redes ensangüentadas, transportadas lado a lado.
Os carregadores tentavam proteger o rosto do sol, os chapéus não ajudavam;
mesmo no final da tarde, o sol de janeiro ainda era uma fornalha ardente.
Conto de autoria de André Albuquerque.
sábado, 22 de janeiro de 2011
Passeio sem rumo
Vi uma florzinha resistindo à neve que arroxeava os lábios das crianças
Na rua
Vi um pássaro perdido nos galhos secos e chorosos de uma árvore branca
Nos homens
Não vi sorrisos, apenas esgares, caminhantes de rostos enregelados
Olhando o céu escuro
Sorri feliz por estar viva entre tantos pontos de luz envidraçados
Este poema é de autoria de Paola Rhoden, escrito por ela em dezembro de 2010 quando visitava o Salon du Livre onde será lançada uma Antologia da qual ela faz parte de 18 a 21 de março de 2011.
Fazedoras de filhos fracassadas

Kátia estava triste a passar roupa. Pensava na vida como que pisasse em cacos de vidro e fosse obrigada a engolir a seco o choro de dor. Sua fome de vida estava lhe trazendo conseqüências desagradáveis, dolorosas. Mãe de três filhos, cada um de um relacionamento diferente, e já grávida do quarto - após várias aventuras amorosas - voltava a viver sob as hospitalidades da amiga Noêmia que já havia a acolhido antes na gravidez do primeiro filho em sua casa na rua Aguapeí, no bairro Piam, em Belford Roxo. Kátia tinha sido sempre muito afoita em tudo. Muitos homens entre adolescentes, rapazes e até mesmo alguns senhores casados de todas as cores, idade, peso e altura já tinham sentido na pele do corpo inteiro sua ânsia por prazer intenso em fugidas, pegações, ficadas, noitadas e orgias entre uma batida de funk e uma roda de pagode; entre um copo de cerveja e um cálice de vinho; entre um e outro tapinha num cigarrinho de maconha. Mas como tudo tem seu preço quando o cuidado não faz parte da rotina de um ser-humano, ela agora esta ali... Sem trabalho, sem homem. Respirando o que não queria; comendo o que não queria; ouvindo o que não queria.
Noêmia teve que fugir de casa aos dezessete anos por causa da irmã mais velha que queria rasgar seu rosto com gilete, invejosa de sua beleza. Mas conheceu um homem bom e remediado que se casou com ela e lhe deu um nome, um lar e uma filha. Só que em seu casamento faltou o amor e uma pitada de paixão e com isso Noêmia numa bela tarde se descobriu traída pelo marido. Revoltada, se separou pondo-o para fora de casa. Então passou a aturar cobranças não só dos credores - já que o ex não lhe ajudava em um centavo - mas também do atual namorado que exigia uma relação mais séria e da filha que, já adolescente, crescia exigindo a presença do pai dentro de casa. Tudo isso além de criar o filho mais velho de Kátia.
Kátia e Noêmia agora estavam ali, passando roupa naquela casa velha; precisando de uma reforma. Com o telhado quase caindo em suas cabeças. Ouve-se um barulho de portão se abrindo; passos pela varanda. A porta se abre e naquela sala quente entra Verônica, comadre de Noêmia, acompanhada de seu jovem filho Marcelo, afilhado de Noêmia. O papo corre solto e animado até que Verônica fala da ex-cunhada Edilene. Outrora, Noêmia havia tomado conta de Miltinho, filho de Edilene, sobrinho de Verônica.
- Hum! Essa aí se deu bem, minha filha. - Dizia Verônica com sarcasmo e um pinguinho de inveja. Tá com seis filhos. Cada um de um homem diferente. Botou todos eles na justiça e hoje recebe pensão dos seis. Agora tá morando num casarão em Miguel Couto. A mordomia da nega é tanta que os filhos vão levar o café da manhã pra ela na cama. E você pensa que é café e pão com manteiga? Nada disso! É suco, frutas, queijo, presunto, geléia... Tudo na bandeija.
Ao ouvir aquilo, Noêmia deu um tapa no braço de Kátia que da sala a outra quase foi parar na cozinha.
- Tá vendo Kátia? - Perguntava a anfitriã numa fúria intolerante. - Tá vendo, sua fazedora de filho fracassada? Mulher que quer ser piranha tem que ser piranha esperta. Piranha burra fica é pastando pela casa dos outros igual você. Mulher burra tem mais é que tomar no c... pra deixar de ter o grelo no lugar do cérebro.
Marcelo caiu na gargalhada dada a teatralidade histrionicamente humilhadora do esbravejar da madrinha. Constrangida, Verônica começou a beliscar discretamente o filho para que parasse com as risadas.
- Deixa ele rir, Verônica! - Determinou Noêmia ao notar o embaraço da comadre. - Pode rir, Marcelo. Você está na minha casa.
Ao perceber a lágrima invisível que rolava no rosto de Kátia, Marcelo cessou o riso e, sentindo-se culpado, quase despencou da gargalhada escrachadamente histérica para o choro desesperadoramente comovido.
- Bom! Eu já vou indo. - Disse Verônica levantando e puxando Marcelo pelo braço. - Foi só uma visitinha rápida.
Ao sair pelo portão, Verônica assumiu uma aura de tristeza e indignação repreensiva.
- Noêmia não deveria tratar essa moça dessa forma. - Disse ao filho num monólogo inconsciente. - Ela se esquece de tudo que viveu. Ela se esquece que tem uma filha mulher dentro de casa.
Verônica andava pela rua com o olhar parado; misteriosamente distante como o olhar sedutoramente longinquo de uma mulher do Oriente. Marcelo, olhando-a parecia assistir ao filme invisível que passava diante das vistas austeramente melancólicas da mãe através de suas lembranças. Quando ela ajudou Noêmia a fugir da irmã. Neste filme a protagonista era a própria Verônica e as cenas eram dolorosamente cults. Seu pai proibindo-a de continuar seus estudos, ainda menina, para ajudar a mãe a cuidar da casa e tomar conta dos irmãos menores, já que ela era a mais velha de todos. As madrugadas em claro tendo que embalar o sono dos irmãos e tendo que esquentar o leite já que a mãe tinha que atender aos apelos grosseiramente amorosos do pai na fabricação de mais irmãozinhos. Os gritos dos irmãos e o roncar da cama dos pais eram a trilha sonora da infância daquela mulher; somado ao medo de dormir no meio da tarefa e ser despertada por uma surra de moer os ossos.
Na pausa para o intervalo, em frente à banca de jornal, lê na capa de revista de celebridades sobre a famosa socialite da zona sul que acordou numa luxuosíssima cobertura em París ao som de uma orquestra de violinos na manhã seguinte à noite em que disse ao marido, um poderoso empresário, que estava grávida. Isso remeteu-a há alguns anos atrás, num quartinho imundo e abafado do bairro Areia Branca, quando o até então namorado Joaquim arremessou um punhado de dinheiro em sua face para que fizesse o aborto ao saber de sua gravidez; e ela uma vez desobedecendo-o e tendo o filho, tendo que abandonar o emprego de enfermeira dois anos depois para se dedicar integralmente ao pequeno Marcelo, mediante as ameaças do já marido Joaquim de abandonar o lar.
A capa da revista remeteu-a também à casa dos pais de onde foi expulsa aos bofetões pelo pai que não queria uma filha mãe solteira dentro de casa. Ela tendo que se abrigar na casa da amiga Agripina, também grávida, e que mais tarde seria a mãe de leite de Marcelo. É. Se Eva soubesse que a conta que teria que pagar por ter dado o maldito fruto para Adão comer fosse tão alta, teria ela comido a própria serpente assada.
Quando passou em frente à padaria lembrou que tinha que comprar pão. Quando chegou no guichê uma voz melancolicamente doce chegou em seu ouvido como o canto de um anjo:
- Moça, compra uns doce pra me ajudá a dá de comer pros meus fio. É baratinho!!!
Uma bela, mas suja, esfarrapada e maltrapilha jovem negra lhe oferecia uma caixa de bananadas. Duas crianças pequenas e um bebê no seu colo choravam ensurdecedoramente de fome. Os olhos da jovem e das crianças inchados pela violência, desamparo e desesperança eram vários punhais pontiagudos cravados no peito de Verônica.
Marcio Rufino
Todos os direitos reservados
Crédito de imagem: site baixaki
SEIOS CÁLIDOS (Arnoldo Pimentel)
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Saiu Mais Um Fresquinho De Mim.
Saiu mais um fresquinho de mim.....
Às vezes fico queimado comigo mesmo
Não consigo pensar direito
Fico na espera, espera e de vez em quando surge algo
Parece que é uma luz no fim do túnel
Me aclarando as idéias
Me dando ânimo
Parece que vai sair algo da minha mente
E da máquina da vida
Vem uma imagem.
Eu me questiono
- Será que eles me compreenderão?
- Será que saberão o que vai na minha mente?
E de novo me avalio
- Sou poeta ou sou pensador?
- Atuo ou improviso na arte de pensar?
- Improviso ou realmente escrevo ensaios de mim mesmo?
- Você me lê ou me vaia o ser?
Eu quero é mais...
Quero é dar conta de que pensando
Sou mais um que ....
Solta as idéias no ar
E levando na palavra escrita
Meu ar da graça
De ser poeta em mim
Musicando as palavras
Rimando o ser
Com outro Ser Maior do que Eu mesmo....
E saiu.....
Cá está um texto a mais
Na coleção de meu livro roto....
Você me lê ou me copia?
Escreva....
Ensaie....
Baile....
Dance e deixe seu pensamento voar longe....
Se alegre em viver!!!!!
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Janaína

Há anos eu não via Janaína. Ainda me lembrava muito bem daquela menina morena, alta, forte, tímida, triste, rechonchuda, complexada em seus óculos fundo de garrafa. Mas qual não foi minha surpresa quando vi aquele mulherão; charmosa; sexy, um olhar lascivo. Havia operado os olhos, casado, tido filho, descasado, casado novamente. O tempo havia lhe presenteado com uma desenvoltura, articulação e despreendimento de causar inveja a mais competente das relações públicas. Tinha acabado de sair de seu escritório. Tinha se tornado uma advogada. Trocamos e-mail, orkut, msn.
Minha mãe havia colocado uma causa na justiça envolvendo uma importante operadora de comunicação que havia cobrado taxas a mais de pagamento. Batido o martelo, decidiu-se que minha mãe teria direito apenas ao valor já gasto com as taxas pagas a mais. Ficamos indignados: "Ora! E os danos morais?" Decidi me esclarecer com minha amiga advogada Janaína pelo msn. Uma vez adicionados, aceitos e virtualmente reencontrados um ao outro, começamos. Na tela do computador, sua foto com um suave sorriso sarcástico e o mesmo olhar lascivo dava um clima sofisticada e discretamente sensual e brejeiro.
Eu: Minha amiga. Preciso de sua ajuda.
Janaína: Pode tc, meu querido.
Expliquei a situação.
Janaína: Eu vou falar com ela quando ela sair do banho.
Eu (assustado): Mas como? Se vc não é ela, vc é quem?
Janaína: Eu sou o marido dela.
Eu: Desculpe.
Janaína: Tudo bem.
Eu: O que vc faz da vida?
Ele me respondeu que era promotor de vendas justamente da operadora que estávamos em questão, em causa na justiça.
Janaína: Eu tenho alguns versinhos seus aqui comigo.
Eu: Como? Versinhos meus?
Janaína: Versinhos que vc me deu pra digitar na época da escola.
Eu: É vc Janaína?
Janaína: Sim, sou. Acabei de sair do banho.
Eu: Ah!
Janaína: Sabe que nunca fui a mesma desde aquele dia que vc desmanchou comigo pelo telefone.
Eu: Mas isso foi na época da escola. Eu já nem me lembrava mais disso.
Janaína: Eu quis te matar.
Eu: Que é isso, Janaína?! Seu marido pode ler isso.
Janaína Ele foi na casa da madrinha com um amigo.
Eu: Nós nunca daríamos certo.
Janaína: Porque a gente não dá uma saída pra tomar umas cervejas num bar?
Eu: Sim. Vamos sair pra tomar cerveja num bar qualquer da cidade. Que dia fica bom pra vc?
Janaína: Nenhum. Eu não bebo.
Eu: Vc tá brincando comigo, Janaína?
Janaína: A Janaína foi beber água. Aqui é o marido dela.
Cansei-me daquilo. Desliguei o computador. Na tela o mesmo reflexo do sorriso levemente debochado e do olhar lascivo.
(Marcio Rufino)
CATAVENTO (Silviah Carvalho e Arnoldo Pimentel)
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Ferocidade
Nas grutas acústicas
De um peito ecoando
A dor da cascata
Sem fim desabando,
Mordendo na pedra
A própria desdita.
Vá! roto e precário
De tal desmazelo
Do choque imprevisto
Do escarro na esquina
Dos olhos cruéis
Que fazem tua cara
Cartaz luminoso,
Falácia venal,
Um palco de socos,
De chutes e murros,
De fera disputa
Por álcool e remédios,
Por roupa e alimento,
Por fogo e prazer
Nas sendas soturnas
Da grande cidade
Que encolhe miúdo
Teu corpo tão frágil
À sombra terrível
De atrozes gigantes.
“E agora, José?”
Cadê tua fala
Cadê teu discurso,
Teus pobres excursos
Qual asa ignota –
Voluta partida
Sem haste ou coluna?
Teu peito se ufana,
Mas pobre se infarta
Do que te enfatua,
Do que te enlouquece,
E logo enfastia,
Inútil cosmético,
Inútil doença...
Não tem mais a vida
Aquela beleza
Sensível das musas,
Das frágeis heróidas,
Carnívora flora!
E o que te envilece
É a penha estourada,
Floresta arrasada
Em ávido empório,
É a carne doméstica
À vida selvagem
Dos homens polidos
Jogada de súbito
Sem único aviso.
Por isso, velhaco,
Te fazes feroz
Entre hienas noturnas,
Felinos rapaces,
Que as presas espreitam
Ou sobras de açougues
Disputam famintas
Deixadas por feras
Maiores após
De todo fartarem-se.
Mas se nem entre hienas
Tu podes viver
Ou nem co’os chacais
Tu podes comer
De casca e couraça,
Então te revestes
Tal qual um tatu
Metido na toca
De um alto edifício
Com ratos e cobras.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
domingo, 9 de janeiro de 2011
TORRES
TORRES
Algumas torres derretem com o tempo
Talvez porque
O alicerce seja feito de insegurança
Ou elas próprias tocam o céu com insegurança
sábado, 8 de janeiro de 2011
A Movimentanormalidade

Paranormal é um termo empregado para descrever as proposições de uma grande variedade de fenômenos supostamente anômalos ou estranhos ao conhecimento científico, mesmo se essa percepção for devida à ignorância.
Telúrio Nepomuceno começou a se interessar pelas artes plásticas ainda menino Na verdade as formas sempre lhe assombravam e seduziam desde quando se entendia por gente. Era ele um constante e ambulante assombro. Também, as coisas sempre conspiraram para que ele se surpreendesse assustadoramente com tudo.
Quando tinha dois anos estava no colo de sua mãe, no bairro de Areia Branca, em Belford Roxo, esperando o ônibus em frente ao bar, quando presenciou uma violenta discussão entre um bêbado e o dono do bar. O dono do bar mandou o bêbado para um certo lugar este o respondeu com uma navalhada no rosto. Telúrio só se lembra da sensação gostosa de querer lamber aquele suco de groselha que escoria do rosto do dono do bar. Mas sua mãe fugira dali apavorada com a cena.
Desde pequeno as formas causavam sensações deliciosas em Telúrio. Assim como quando passeava por Nova Iguaçu e via as obras em construção, os pedreiros trabalhando, os transeuntes passando e isso o remetia inconscientemente a tempos idos, quando ainda não existia quase nada e os artesões levantavam templos e palácios; os camponeses aravam a terra e a defendiam da seca e os deuses passeavam entre os humanos. Os desenhos animados, as figuras lhe acendiam uma certeza incrível de também ser figura. Ainda mais quando seus sentimentos correspondiam a sentimentos de personagens de ficção. E a descoberta do primeiro amigo; da primeira namoradinha; do primeiro choque.
Primeiro choque?
Sim primeiro choque humanamente elétrico. Ele tinha treze anos. Estava brincando de esconde-esconde e ouviu sem querer de uma vizinha:
- Coitadinho do Telurinho. Mal sabe ele que é filho do próprio avô. O finado Aurélio, que o diabo o tenha num péssimo lugar, aquele cão danado, abusava da pobrezinha da própria filha.
Foi aí que Telúrio descobriu que a pior e maior eletricidade é aquela que existe dentro do próprio corpo. Ele saiu do esconderijo, expôs a sua figura e seu amigo bateu no poste três vezes.
- Agora ta contigo, Telúrio!
Ele não se importou, pois de agora em diante sempre estaria com ele. Não só nos esconde-escondes, mas principalmente nos revela-revelas da vida.
As formas de tudo tomavam uma outra perspectiva para Telurinho. É como se formasse um mosaico além de tudo que lhe rodeava e ele visse tudo ao mesmo tempo. Era algo mais incrível do que a paranormalidade. Era a movimentanormalidade.
A movimentanormalidade era a verdadeira desobediência às convenções, pois rompia com todos os limites das formas sensíveis, sem precisar de nenhuma droga. Era a certeza, a descoberta, a consciência de que nada é lindo ou horroroso; perfeito ou defeituoso; virtuoso ou promíscuo que desencadeava sua manifestação. Isso fazia Telúrio olhar para as loja, os comércios, as casas e saber o que se passava lá dentro sem precisar entrar. E assim era com as pessoas. E assim ele descobriu os homens que pensavam dominar suas mulheres, mas eram por elas manipulados;descobriu as mulheres que pensavam seduzir seus homens, mas eram traídas e abandonadas por elas mesmas; descobria as crianças que provocavam seus próprios abusos para destruir e reinar; descobria os falsos idosos que fingiam ter pena de si próprios para iludir e sugar energias numa vampirística hipnose. E então ele descobriu que as formas internas, muito mais que abstratas e agressivas, eram muito mais poderosas e lhe devoravam num ritual pseudo-antropofágico.
Telúrio então cresceu acariciando e apalpando tudo que lhe era apresentado. Bichos, plantas, objetos, até pessoas. Era muito mal interpretado. Muitas vezes já foi até agredido fisicamente, pois a movimentanormalidade provoca impulsos contínuos e intensos que não cabem na razão humana.
Ele chegava no quintal de sua casa depois da chuva e pegava o barro molhado e amassava e moldava. Fazia também assim com jornais e revistas velhos. Formava pessoas, bichos, objetos, universos. Chegou às suas próprias conclusões de tudo e do nada com a movimentanormalidade. Ousou pensar tudo a partir de si mesmo.
Marcio Rufino
Todos os direitos reservados
Créditos de imagem: Site Baixaki
Sacerdotisa...
Mas sou dura na queda!...
Não permito-me ser submissa...
Não me faço de vítima, sou indomável!
A vida me apresentou pessoas vaidosas
Pessoas orgulhosas, cheias de si.
Tentando fazer a todo instante, com que eu me achasse sem valia...
Pessoas teóricas e frias. - eu sou mulher de prática, de emoção, de fantasia!
Não aceito humilhação. Embora algumas vezes,
A mesma me confronte, me encare, me desafie!
Mas não sou fraca, sou idealista.
Sou Minha Alquimista.
Em dias insípidos, busco o agridoce.
Em dias cortantes, faço-me flexível.
Em dias frios, visto-me de sol.
Em dias sem paixão, não adianta, perco o ímpeto!
Entro em crise na esfera coração!
Busco sinceridade e dou de cara com a soberba.
Sou feliz um dia. E os outros não!
Tenho tudo! Mas não tenho nada!
Será que a vida para mim já basta!
Que mistério é esse?
Indago...
Quero colher o fruto, mas ele nunca está maduro.
Está tudo errado!
O meu passado...
O meu presente.
O futuro não se mostra, quero apenas uma simplória resposta.
Sei que tenho a marca,
Sei que tenho o dom,
Sei que sou sacerdotisa,
Mas estão brincando de pique esconde comigo!
Sou de carne e osso, à espera do alvoroço.
Sou de sangue e vida, à espera da quimera.
Sagrada e desejada é a paz para mim!...
Tenho-a tatuado em meu corpo, ela sim! Deixo-me possuir!
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
SÃO LOURENÇO
SÃO LOURENÇO
Seria apenas um último olhar
Talvez com um pouco de tristeza
De incerteza
Mas um último e profundo olhar
E tudo então ficaria ali
Depois seria só olhar pra frente e caminhar
Acreditar que depois do deserto há um Oasis a esperar
Na bagagem apenas um jeans desbotado
Um sonho para ser alcançado
Um projeto de vida inacabado
Mas as lembranças ainda estarão nos olhos
No rosto marcado pelo sabor amargo
De nunca ter tido ninguém ao seu lado
As noites serão ao relento
Sonhará com a voz meiga e doce
Que toca seus ouvidos e seu coração
Nas noites de São Lourenço
E vinha pelo vento do pensamento
Eternizava cada momento
Era a estrela no deserto a lhe tocar
Pedindo todo amor que tinha para dar
Era o Oasis que precisava encontrar
Seria apenas um último olhar
Um deserto para atravessar
Um Oasis a lhe esperar
Um sonho para acreditar
Sem ter medo de outra vez
No meio do vento
Naufragar
A noite de São Lourenço é quando se vê o maior número de estrelas na Itália, conhecida como a noite mais romântica de todas e muitas pessoas vão a Toscana para ver a chuva de estrelas cadentes e fazer um pedido, realizar o sonho de felicidade.
Tempo
Devagar, promissora
E imperceptível
Somos trabalhados pelo tempo
Não sei até onde vou
Ou até onde posso ir
Penso e falo puerilidades
...
As verdades são perigosas
Criam muros altos
Felizes os que possuem
Verdades
Estão protegidos por muralhas.
Jorge Medeiros
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Vai...
Manhattan Tower

Manhattan Tower, 89,
Tu te ergues
Poderoso e colossal
Da Avenida Rio Branco
Ante súditos de asfalto e carne,
De cimento e aço.
Templo de gravatas e sapatos,
De pastas e investimentos,
É em ti que acionistas
E investidores divertem-se
Disputando cifras,
Em meio às oscilações do mercado,
Vaticinando lucros,
Diante das taxas de juros
Do FED e dos BCs,
Depreciando mercados
E economias,
Ante os humores cambiais,
A despeito de fé, crença
Ou de qualquer drama familiar,
Enquanto compramos
O sagrado pão de cada dia.
Tu, que não és um,
Que não és único
Mas inumerável
Mundo afora,
Geração fustigada pelo vento,
Fragas que se atiram contra os céus,
Clarão envidraçado
De aço e de alumínio
A refletir,
Em mil centelhas,
A luz ligeira
De Xangai, Taipei,
Chicago, Kuala Lumpur,
Hong Kong e Nova Iorque,
Burj Khalifa, Willis Tower,
Taipei 101, Petronas Towers,
Central Plaza,
Empire State Building,
Titã coruscante,
Contemplas vítreo e concreto
Teu irmão
De ponteiros e horas indecifráveis
Em direção ao qual, da Avenida,
Todos os olhos se lançam
Aflitos ou indiferentes.
Irmão que, por sua vez,
Encara firme e altivo
O pai cansado de exploração
A contemplar mudo
Os detritos da baía,
A fração inumana das gentes
Pelas ruas e becos...
Ó Irmãos ingentes,
Filhos de um gigante –
Ó Família excelsa
De concreto e laje,
Há carne imunda e fétida
Que se espreme, em vão,
Sob tuas marquises
Contra o frio e a chuva
De teus prognósticos,
Enquanto de vós,
Bem protegidas,
Retinas assustadas
Buscam saudosas
As Torres de outrora,
Consolam-se
Entre álcool e aspirinas,
Em meio a céus
Rasgados de gritos
E WTCs,
De precipícios
E cimitarras chamejantes,
Enquanto buzinas e sirenes
Vaticinam pavores,
Sinistros augúrios
Avenida afora;
Consolam-se,
Entre destroços
De um firmamento estilhaçado,
Com aqueles antigos versos
Que diziam:
“Porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan...”
Enquanto o tráfego e a baía
Refletem ardis
E o mudo perigo que espreita.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
NOITES LONGAS SEM LUAR
NOITES LONGAS SEM LUAR PARA OLHAR
Tenho dormido cedo
Pois sei que não estará
Onde eu poderia te encontrar
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
A mulher de hoje em dia

Traição: Enganar perfidamente, atraiçoar/ Faltar ao cumprimento de/ Revelar/ Deformar, não traduzir com fidelidade/Não ajudar, abandonar/Denunciar-se por imprudência: comprometer-se; desnudar o pensamento.
A lua estava deslumbrantemente linda naquela madrugada de segunda para terça, quando eu e meu amigo, o poeta e sociólogo Henrique Souza saímos do Sport Club Iguaçu na festa de aniversário do cantor e compositor Daniel Guerra e caminhamos até o centro de Nova Iguaçu. Quando chegamos na Otávio Tarquínio, Henrique tomou seu rumo e eu segui o meu olhando para a lua cheia, imponente, inteira, poderosa, resplandecente; luzindo na escuridão enigmática do firmamento. Hipnotizado como eu estava por aquela lua, se viesse um ladrão me roubar eu nem me daria à mínima conta disso. Mas a baixada, graças à Deus, ainda é um pedacinho de Rio de Janeiro onde ainda se pode respirar um mínimo de liberdade ingênua no caos urbano do cotidiano.
Quando cheguei ao ponto para pegar a kombi que me levaria à Belford Roxo, vi parado ali um lindo casal de jovens negros abraçados se beijando apaixonadamente. Seus braços, lábios e coxas se articulavam e interagiam de forma tão harmoniosa que pareciam querer fundir-los em um só como numa experimentação alquímica. Para uma madrugada sedutoramente enluarada como aquela, não poderia existir cena que viesse a calhar melhor.
- Que horas você vai ligar pro meu celular? – Perguntou ela num frenesi.
- Lá pra de tarde! – Respondeu ele num sorriso sem-vergonha de sátiro do bosque.
Enfim a kombi chegou. Como o casal demorava a se entreter no sensual entrelace, tomei a liberdade de ser o primeiro a entrar. Alguns sedentos e calientes minutos de pegação depois, a moça se despediu do rapaz entrou na kombi e sentou-se completamente relaxada na poltrona a meu lado.
- Ai, meu Deus! Quando eu chegar em casa meu marido vai me matar! – Disse ela num sorriso puro de menina sapeca.
Eis que surgiu em mim um sutil choque.
- Ah! Você diz à ele que estava fazendo serão até mais tarde! – Respondi cínico.
- Mas eu não trabalho não, moço! – Respondeu-me num ar escorregadio. – Tô na rua desde às 18:00. Tô aqui só imaginando a cara dele quando chegou em casa e viu as crianças sozinhas sem eu lá.
Quase que eu gritei: ”sua semvergonha, vagabunda. Você não tem vergonha na cara, sua cachorra?”.
- Hoje em dia o homem aceita tudo de uma mulher bonita como você! – Acabei falando amigavelmente.
- Que nada! Quando eu chegar lá em casa vou encontrar minhas coisas na calçada. Aliás! As minhas não! As dele! O quintal é meu!
Quando a kombi chegou no bairro Heliópolis ela pediu para o motorista parar no próximo ponto. Chegando lá.
- Tchau, moço!
-Tchau, gata!
E ela desembarcou, atravessou a rua e seguiu adiante levando consigo, como um anjo que leva sua auréola, aquela bela, rechonchuda e iluminadíssima lua cheia daquela arrebatadora madrugada.
Marcio Rufino
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