Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Par

Duas vidas tão diferentes,
Perfeitas em solidão de astro,
Conjugando-se, agora, em rota irregular
De meteorito errante, sem destino.
Essas vidas embevecidas
No laço breve dos dias e noites,
E és noite, madrugadas
De lua ensolarada,
Iluminando-te o rosto lhano
Sem sonho ou mistério,
Sem quimera ou segredo.
Em tua vida,
Todos têm pele, sabor, carícias,
O sonho insonhado, antes vivido,
Quimera transida de medo e desejo,
Segredo rasgado por leitos e veios,
Ideal feito
De seio e regaço,
De promessa e abraço
Qual árvore de pomos pendidos,
Quase todos colhidos,
Iguarias comuns de raro quotidiano.
Quão diferentes nossas vidas!
Ainda assim se uniram,
Encararam-se e, após o fascínio,
Sobreveio o estranhamento.
Uma que é pura invento,
Teoria sem experimento,
Invenção jamais provada
Pelo vento, pelo mar e os homens,
Conservada como relíquia, dor
No fundo de gavetas esquecidas.
E a tua: (invejo-a!)
A vida sem reticências,
A interrogar vetustas exclamações.
Texto bem acabado,
Muitas vezes revisto,
Escrito na tênue folha marinha das águas.
Tua vida: queimadura, cicatriz,
Gozo e generosidade.
Belo 14 Bis, Zepelin,
Mais uma vez,
Alçando-se aos ares.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

Enxurrada das almas...

Ainda hoje te ouço, Carlos
e, mais que ontem, Drummond,
se os olhos aprendessem a chorar
teríamos um segundo dilúvio
e esse teu poema seria levado
pela enxurrada das almas,

e durante, e após o aguaceiro,
restariam gentes,
novas gentes,
à fazer poesia novamente.

Mas não chove;
o tempo é de secura,
não há enchentes
e as ruas são vazias,
apesar das gentes.



((( Zé Carlos Batalhafam )))


Barbitúricos

Barbie no outdoor
Barbie diet-coke
Barbie no Carrefour
Barbie de baby-look
Barbie hippie
Barbie punk
Barbie vamp
Barbie vip
Barbie junkie
Barbie robô bip-bip

Barbie na Ferrari
Barbie ao celular
Barbie rastafári
Barbie super-star
Barbie kitsch
Barbie clubber
Barbie chic
Barbie freak
Barbie poser
Barbie usa aplique

BARBIE
Estrela de primeira grandeza em Hollywood
Pisou na calçada da fama e dispensou um grude
- Quem é Ken?

Barbie banho de sol
Barbie com poodle
Barbie de baby-doll
Barbie sex-symbol
Barbie Madonna
Barbie city
Barbie hit
Barbie cafona
Barbie flit
Barbie só sai à tona

Barbie de biquíni
Barbie stress
Barbie na vitrine
Barbie topless
Barbie Babel
Barbie pop
Barbie top
Barbie Nobel
Barbie stop
Barbie não cai do céu

BARBIE
Chegou com chofer num inferninho toda de Pink
Sentou cruzou as pernas e agradeceu pelo drink
- Quem é Ken?

Barbie overdose
Barbie de porre
Barbie dá um close
Barbie é um porre
Barbie fashion
Barbie flash
Barbie trash
Barbie neon
Barbie sexy
Barbie botox e batom

Barbie na maconha
Barbie puta que pariu
Barbie zen vergonha
Barbie descobriu Brazil
Barbie MTV
Barbie démodé
Barbie karaokê
Barbie bi
Barbie ilariê
Barbie olha o bem-te-vi

Barbie barbárie
Babe baby
Bi-bi
Trêbada trepada
Barbie vai ter um bebê
Diretamente da Zorra Franca do Paraguay
Para a privada da quitinete do papai

Mamãe serial-killer
Papai drag-queen

Barbie deu um pau na Suzy de robe
Não aceita dividir nem o Ken nem o Bob
Barbie deu outro pau na Suzy sem
Não aceita dividir nem o Bob nem o Ken

Nunca aceita dividir nada com ninguém

Poema de Andri Carvão.

Bragi, deus da poesia

Bragi, deus da poesia.

I
Os seus cantos as guerras entoavam,
O deus versos declama poesias;
Evocado nos gelos que inflamavam
Os mais nobres desejos. Fantasia
Dos gigantes vencidos que ensejavam
A fronteira do céu ao vir desse dia.

II
Da presença de Iduna desfrutavam
As maçãs preciosas. Dividia,
A divina, a beleza que esperavam,
Numa caixa guardada que aprazia.
Eternizam os deuses que encontravam
Juventude, a vaidade em primazia.

III
Ao seguirem maçãs, auto-invocavam
Os poetas: Verseja todo o dia
Ao lirismo que faz desse divã
O pensar numa vida, assim vadia.
Resolvendo ficar na tal maçã
Cuidará da verdade luzidia.


Poema de Yayá.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O poeta...


SENNA



O poeta é o bem-amado
O rejeitado
O artista.
O Poeta é o afinado
Com o coração desafinado
Que vive sempre despedaçado.
Nesse mundo de vida,
Nesse mundo de morte,
A trilha certa do poeta é a dor, que se encontra com o amor.






((( Camila Senna )))




Sem lei...

Não tem lei que me prenda,
Pois sou da avessa...
Viro a mesa toda vez que preciso.
Da ideologia, não sei...
Por que a minha, eu mesma a criei.
Não faço versos letrados...
Faço versos marcados, que são, para mim, sustento!...
Erudito, em mim, só meu coração.
Meu conhecimento vem da minha vivência.
Da calçada pintada, das experiências cravadas!...
A vida ávida que mora em mim, precisa, anseia... Ser livre!


((( Camila Senna )))


Elétrica 1 ou "Do cotidiano fantástico"

A mirra tem sido meu transporte favorito. Talvez as teclas sejam a salvação da minha descoordenância, velocidade entre o dedo e o pensamento. Deixo agora fugir o é que é ser. Penso que as ervas estão na gaveta e procuro uma bacia que possa ser contaminada. Escrever aqui é poder. Uma brincadeira oculta. Uma folia mística de neurônios e elétrica. Traz culpa também essa linha. Derramei o dia pensando nos temas que sou eu. E os alagamentos de fora? Me perguntei hoje o dia inteiro. É engraçado pensar na sua condição de leitor. Esperto ao contrário eu escrever que estou com ervas atrás de mim e fazer você ver um jardim de pés empoeirados. Falo em ervas, sim. Mas estou com malva quente no cú. Li que cura abscessos.

Olho para as cores da paleta. Feia mistura faz brotar quadros patéticos. Não se já falei isso. Mas além de não saber escrever, também não sei pintar. E faço as duas coisas. Elas não tem que ser. Elas já é. Elas já unas no indivisível eu. Elas onde me estouro. Elas onde sou beira. Escrever é a anti-loucura do retroceder. Alquimia de tempo. Contração e descontração para fazer caber no entre criptografadas sombras do que há por trás do pensamento. Só cheguei na sombra. Ainda. Cheiro a malva quente. Tem cheiro de guardado amargo. É como se ela por trás o velho puxasse o velho. A afinidade dos amargos, o segredo do meu corpo rompido pela voz da erva que chama. Leitor, se enlouquecesse ainda mais meu cotidiano você mais me frequentaria? Você é uma criança que gosta de casa de espelhos?

Já começo a inventar motivos para você gostar de mim. Tenho que parar. Não estou disposto hoje a inventar pensamentos. Chutei alegorias. Também quero o claro fluxo. Não quero turvar águas para ser visto profundo. Sujo não é profundo. Vago pelo desejo de ofertar minha fome em troca da sua comida. Tenho que parar. Sem inventos. Vou ver a malva. Ela tem pêlos. Num manual acabo de ler: “ quando chove estas flores choram, ou seja, libera um liquido castanho que faz nódoa na parede e no tecido”, assim falavam sobre os adornos da malva. Fiquei sem entender a parede. Ela nunca falou comigo. Malva é amiga do clima ameno.

Não queria que você me lesse para passar o tempo. Mas escrevo para passar o tempo. Faço pedidos egoístas, é bom saber. Peguei a folha pelo rabo e parecia um camundongo.
Escrever já é a tentativa maga no tempo. A malva coça reto. O velho tá puxando o velho. Amargo guardado com amargo guardado. Isso cura? Arde. A malva é teclado.

É claro o olhar de lis. O clã ri se. Gargalha se se é no it. Sabe que está comigo porque me convidei. Ela gostaria de me ver assim: escrevendo de bruço. Bruxa, teleguiava sementes.

Vou ligar o marimbondo condicionador de ar. Zumbido seguro sempre nina. Inseguro é tudo que não é robô. Homem sanguíneo, o que dirá o trocadilho? O meu sangue pesa mais agora. Penso em dormir. Ou durmo para pensar? É taça cheia, taça vazia, taça cheia, taça vazia... até me embebedar. Bêbado, acordo. Vivo trôpego do meu sono. Desperto para a vida justamente no sonho. É lá onde sou impossível e me ultrapasso. O sono é um it de morte aceita. Na vida sou imortal água-viva. Minto. Ainda me falta correntes para ser água-viva. Mas também não sou água morta. Cheira amargo. Sou dono de ostentados aromas. Não desapeguei do olho outro, sei bem. Ando pelo debaixo aquoso como se o substrato me desse arrepio. E cada arrepio é um passo. Cada arrepio, um passo. Cada... Posso ser estrela do mar? Eu respondo: sim. Já chamaram água viva de hermética bruxa, terror dos ginasiais. Só posso ser estrela do mar. E isso facilita, e muito, seu trabalho de voyeur de mim. Quero ver se você ganha do meu eu em olhar pra mim sem piscar o olho. Pronto, já piscou. Que aqui eu sou o dono do tempo.

Texto de Carlos Juba

Noções

Noções
Mitologia nórdica


I
Gigantes são formados nesse lácteo
Alvar. Desse arco-íris se dizia
O céu, e abaixo o vapor em forma d’água.
Um polo ao arco terrestre induziria
Num próximo futuro atemporal
À mostra desse rol, geografia.

II
Gigantes continentes viram palco
Da Terra apresentada, alegoria
De Odin, Vili e Ve. Sal do Ymir, astral
De um nórdico valente. Moradia
Enorme desse freixo original
Impuro. Magnetismo que surgia.

III
No eterno inconcebido como tal,
Embla e Aske; a esse casal a primazia.
Criados num castelo com um lauto
Banquete. Nessa arcada se fazia
A “nova”, legendada do casal
Adão e Eva, numa história à revelia.


Poema de Yayá

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

+Phylozophya de WC

1.
Me deu um treco
Me deu um troço
Gritei um eco
Cuspi um caroço

2.
Eu faço de tudo
pra não ter
que fazer nada.

3.
Adianto o seu lado
Não ouço um obrigado
Eu preciso de você
Nem me viu nem me vê

Uma mão lava a outra
E juntas lavam a bunda
Do jeito que eu ando
Vou acabar corcunda

4.
As velhas idéias são sempre as grandes idéias.
As novas idéias são apenas faíscas:
demandam certo tempo para pegar fogo.

5.
Sacrifício é o crucifixo
Daquele que pregou até ser pregado.
A décima parte de quem não tem fixo
Já não é um pecado?

6.Você sabe o que eu tenho na língua, além de veneno?
Você não sabe o que está perdendo.


Poema de Andri Carvão

Fogo...

...
 
Minha brasa não incendeia nessa fogueira,
Fogueira da vaidade,
Fogueira do rancor,
Fogueira da inveja.

Meu fogo é outro,
É o fogo do amor,
Fogo do perdão,
Fogo da paixão.

Vaidade de alma é cocaína!
Rancor acumulado, veneno de rato!
Inveja desmedida é putaria!
Ser geniosa, e ter dentro de si o fogo abrasador, que se chama “amor”.
É inefável.



((( Camila Senna )))
 
 
...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Pusilânime, fuzila-me! Fuzila-me, pusilânime

*Pusilânime, fuzila-me!

Não quero a apoteose da estética rasa,
estou muito além
de ser fosco no brio desajeitado.

Fuzila-me, pusilânime!



*Fuzila-me, pusilânime

Não quero ser marinho
quando me adoço
frequentemente com vulcões.

Pusilânime, fuzila-me!


Poema de Isaac Bugarim.

Phylozophya de WC

Validade Vencida

Não vale o que come,
não vale o que caga.
E quem não consome
- paga!

Bezerro Bizarro

Aqui relva com água
nunca caga catarro.
Aqui terra com água
não alaga mais barro.
Aqui pedra com água
nunca bate mas fura.
Aqui merda com água
não vira pasta impura.

EU JURO QUE EU
NÃO DISSE NADA

De cima do viaduto
escarram catarro
em riba dos carros.

De cima do viaduto
espirram esporra
em riba dos carros.

De cima do viaduto
mijam e cagam
em riba dos carros.

E o carro que morre.
E o magro que corre.
E o carro que corre.
E o magro que morre.

O Cu do Cúmulo

O cu do cúmulo
não é o óleo (anarco-íris)
do vômito anônimo na avenida.
O cu do cúmulo
não é a trilha sonora de banheiro.
O cu do cúmulo
não são as lembranças
no porão da memória.
O cu do cúmulo
não são as imensas olheiras do sol.
O cu do cúmulo
é morrer!
Morrer, morrer até cair...

Mantenha Distância

Eu sou Cia ltda.


Poemas de Andri Carvão

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Cidade Perfume...




Andando pelas ruas da cidade,
Me pergunto o porquê do encanto.
Fio pra todo lado, asfalto em todo canto...
Deve ser esse monte de ônibus colorido...
Esse barulho de freio, esse gemido.
Talvez seja o contraste brando...
Da mata com o concreto
O que fala assim simples em minha mente,
Calmo, direto.
A certeza da raiz
Da terra escolhida
Dos amigos que eu fiz...
- Finco aqui!
Uma bandeira de trabalho
Por essa gente, esse assoalho
Que faço parte sem querer
Que me encanta sem saber.
É daqui que eu gosto...
Cidade perfume.
Só me resta saber...
Perfume, de quê? 



(( ( Gabriela Boechat ) ))


.


Mitologia Fantástica - Tétrica

Mitologia Fantástica – Tétrica
Inspirado na mitologia Egípcia


I
Eis um mito originado, Tífon
E o grosseiro funeral de Osíris.
O caixão metrificado do Egito
Na medida do sapato, da íris
Invejosa no tamanho dito,
No traçado das vinganças vis.

II
Era um deus falsificado e Milton
Alegrou-se com seu fim ipsis
In Ipssimus! Uma febre, o tifo
Inspirado no temor. Ides,
Nada mais descomunal. Um rito
Abissal, anti-odisséia de Ulisses.


Poema de Yayá.

atrás das paredes

nossas cadeiras se encostaram
chegou perto antes de sair
seu casaco encostou-se à bolsa
senti o botão cair
...fiquei em pedaços

o coração alternando
entre ontem e hoje
o céu correndo em meus olhos
e tudo mais
grudado na cabeça...


Poema de Vânia Lopez.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Dois poemas de Carlos Juba

PENSÃO FECHADA POR MOTIVOS DE FORÇA MENOR

Até amanhã.

serei hospedeiro de micro fauna
até amanhã

lá depois de abrir portas e janelas
e para sempre fechar
desabrigarei minha memória

ordem de despejo à memória!

chorarás no vazio
no vento ressequido
racharás tuas vísceras até o pó

não lamentes tanto:
até o pó é algo que voa

Esperneia!
enquanto pernas tens
já te sedo em semi-sonho
te alimento de larva onírica
com minhas colheres furadas
cai mais no chão
do que em ti
para desculpar
sem querer
minha maldade proposital

lembras do homem de Vitrúvio em quadro que me deste?
uma pena
teus olhos estarem ausentes
para ver
a árvore que irei amarrá-lo
a dor do homem que esquadrinhado na moldura
( e como tu entendias de molduras !)
sem poder a fuga
queimará da própria inércia
e do meu fogo

prefiro queimar o que está preso
por gostar menos de matar
do que deixar morrer

lenha para isso?
tuas roupas que ainda me restam:
o fogo de fibra

alimentado com o pó
da furada colher
caído no chão
e sem ainda levantar vôo no vento
logo quererás ser
outro bicho que puder
caber no mundo sem jaula

já me traio
o que salva é a falta de propósito

já confundo minha memória com teu tu
hospedagem maldita!
confundem-se o cheiro de musgo da pensão e dos corpos suados pensionistas...
tudo fede a velho
e os vermes se otimizam por não terem narizes

Avise:
hoje não tem refeição!
já te dei a comida eterna :
o dispêndio de energia.

ouça tua barriga roncar
até o obssessivo som metal badalar incessante
dia
noite
e dia nublado
como os tiros imaginários e eternos
de velhos generais de velhas guerras
que já loucos
não dormem sem ser Napoleão

tateaste o vazio da liberdade?

já estende a fibra dos teus braços
para alcançar o fio solto que te presenteará
com tua última eutanásia?

desalojo
desospedo
tu
teus porcos
teus cães
num chute só
amálgama pobre!
erás tudo num só
e isso era motivo de garbor!
então vá de uma só vez!

não, não vá!
agora não...
falta uma coisa ainda
um selinho apenas...
pra carta grande:
meu chute.

despacho
desalojo
desospedo
e aviso:

hoje não tem refeição!
só eu como.

estás pronto para a epifania da eutanásia?

amanhã!
(que já é hoje - longa morte tua descrita)
como na Antiga hecatombe grega!
serão mortos cem bois
e quatrocentas patas
no susto que apaga
se flexionarão
para os corpos de pêlo curto ruírem.

e acredites (já rio) :
não há ruínas em paz

hoje
fechadas as portas
tu não és tu : é mais aquilo

perguntarás o que terei feito
com o cheiro forte dos corpos...

direi o cheiro das fezes das coisas vivas
como incômodo maior
que o cheiro na anunciante inspiração
e respiração
do húmido putrefato
gestação da vida
através de placentas mortas
envoltório próprio dos coveiros
( sim! tu és um coveiro insistente!)
insatisfeitos que o outro morra
sem levar deles
nada que os recordem

acredite:
até os coveiros são vaidosos.

Morres hoje
que é amanhã
e depois
porque não sabes morrer.

Deixaste para mim tarefa
que hoje completo
com serena execução.

olha bem...
observa com aquilina cautela...
por debaixo do capuz...
vês uma luz pequena com dentes?
é o meu sorriso
que te mata
sem precisar de consolo

desalojo
desospedo
desamo tudo para caber espaço
e hoje
que é amanhã
o exílio-pensão-cortiço
de mal aguentar
o próprio cheiro
pelo bem
fecha as portas

e aviso:
hoje não tem refeição!

eternamente
só eu como.


A DOR EMBRANQUECE

A dor embranquece.

não é preciso chorar
se o fim são os outros olhos

vejo entre a porta aberta
alguém espiado por um longo caminho
bate à porta
no impacto de assustar
mal sabendo ser esperado
nada assusta
só dôo
sem nada doar
apesar da gentil recepção

Ah! Se soubessem a dor que mora na gentileza!
Habita mais dor na gentileza
do que na crueldade.
A crueldade é desinteressada
por anterior ser sempre
à qualquer motim que a deflagre.

Para quem ama o tudo
e detesta o nada
ser gentil
é pedir pelo mar passagem
quando se navega em armada
de força sabida.
É pedir com sorriso
e doer.
Dói a dor que doa compaixão
aos tocados pela gentileza
como bruma
mas ela é vento...
Vento!
Um vento condensado
para que se passe
entre duas nuvens
sem chover.

um vento empurra nuvens
mas não arrasta raios
de teimosia imanente
que o chão entre águas
tenta tocar
e quando toca
toca fogo
beija incinerando
muda os estados
abrupto
não volta sem avisar
sendo ele o descarrego de si
finda o corpo no próprio beijo
flameja à exaustão nula:
é energia

gentil com as nuvens
cruel com o chão
como tudo que remenda o contradito
e levita ao inverso

falo de raios
e hoje é sol
em quais curvas andei
então a criar
nuvens em mim?

hoje é sol
só até enquanto
a água não pesa

são gentis os raios
para quem na mata escura
caminha sem lampião
será para os vagalumes carentes
o relâmpago um deus?
cruel e gentil como um deus
que mais Deus é
quanto mais gentil for
estando sem ser

até vir o trovão
denúncia para os que ouvem
e mais nada conseguir disfarçar


Autoria: Carlos Juba

Poema

Durante horas de silêncio e sono,
De leitura e angústia,
Ante o cânone, ante incompreensível estro,
Ante confuso mundo, de tão claros enigmas,
Eu não sabia,
Mas o poema sempre esteve ali,
Qual ferida ou queixume,
Qual fruto ou negrume.
Deu o tempo e a técnica se fez no sofrimento:
- Fiat! disse algo dentro de mim
E, entre o fulgor e a escuridão, tímido, na penumbra,
Entre utopias deglutidas,
Poentas brochuras
E defuntas armas e canções
Contra os donos da ordem e do tempo,
Algo fundo revelou-se,
Fosso, abismo,
Exasperado grito
Ou simples pomo pendido.
Deu a hora e me precipitei,
Colhi o poema,
Trinquei os dentes nele
E o apreciei deveras,
Vociferado, em profundo negror
Com a boca esfaimada do mundo.
Senti sumo acre,
Sabor amaro,
Iniludível
E abismal.
Gostei
E não senti qualquer contentamento!
Hoje, ofereço-o,
Oceano ou ruína,
Fruto
Ou salto no abismo,
A quem quiser
Algo diferente do ópio, da fuga, da nuvem
E do frenesi diário e intenso,
Para sempre infenso
Às águas que afluem da memória.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

deve estar sentindo frio

vasculhei o rio por três dias
queimei a igreja
devastei tudo

você cresceu e ficou mais organizado
as piores partes de mim
passando pelos jornais
(as que te amavam)

sem me curvar, tremer ou desesperar
sem me importar com seu tamanho
te calei para sempre dentro de mim

minha alma saiu do cubículo
indomável e destemida
pronta para falar direto com Deus pelo rádio
pronta para comprar uma bolsa de grife
(ou uma alma)


Poema de Vânia Lopez

Calma criançada tem bala pra todo mundo

Pete Townshend nem ficou vermelho:
queria morrer antes de ficar velho!
Mas quem é quem no The Who?
Ácido lisérgico
é doce psicodélico!
Festa na piscina com Keith Moon!
Mas foi Moon ou Brian Jones
quem fez festa na piscina dos Stones?

Jimi Janis Jim – a trinca de valetes –
tri-overdoses aos vinte e sete!

Noel Rosa morreu aos 27 anos!
Brian Jones morreu aos 27 anos!
Bom Scott morreu aos 27 anos!
Kurt Cobain morreu aos 27 anos!
Quem vive 27 horas por dia
merece no mínimo 27 vidas!

Elvis Presley, John Lennon, Syd Vicious,
Michael Hutchence, Ian Curtis não morreram aos 27 anos.
Agora o grito tupiniquim:
Raul Seixas, Cazuza, Renato Russo,
Cássia Eller, Chico Science não morreram aos 27 anos.
Mas todos foram vítimas do Rock ‘n Roll!

John Bonham
virado na porra!
Cerca de 100 espécies de piolho
no rastafári de cheiro verde do vale
de Bob Marley.

Enforcamento com gás na cadeira-elétrica
para Marylin Manson!
Injeção letal e um copo de veneno
para Trent Reznor!

Marylin Monroe foi atriz – já era!
James Dean foi ator – já era!
Todo ator é à toa!
As melhores atrizes são as putas!

Uma Temporada no Inferno com
Jean Arthur Rimbaud e você
vai ver o que é bom pra tosse:
purgante ou laxante, seu xarope?!

Quem Castro(u) Alves?
Quem castrou Álvares de Azevedo?
Jovem azedo!

Fred Mercury – uma foda e meia –
AIDS no cu ao invés de na veia!

O Herói do Nosso Tempo, Mikhail Liérmontov,
partiu dessa para melhor, bateu as botas,
bateu a caçoleta, abotoou o paletó de madeira,
moleu-moleu-antes-ele-do-que-eu, foice e foi-se: foda-se!,
carregando aquela idade maldita no peito e
carregando a mesma idade maldita nas costas,
farto com o fardo da farda que usou e ousou
e só foi endeusado pela juventude
por ter sido mais um bendito poeta maldito!

Quem ou o quê
pensa que é você
pra me dizer
o que não dizer?

A poetisa NÃO! A poeta Sylvia Plath
enfiou a cabeça no forno e PLAFT!
ligou o gás,
sOl pra ver se encontrava a paz...
Tudo por mó de Tédio & Rugas
por cremes/crimes/ciúmes do ex-marido Ted Hughes
que, ao trocá-la por outra,
carregou a pesada cruz de Poeta Culpado
por toda a sua parcela de Eternidade!...
É triste pra cacete, é claro...
Mais triste pra Boceta do Caralho Plath:
apenas 30 anos cravados na pedra da lápide!...
Tédio & Rugas de preocupação:
poetisa parece palavrão!

Torquato Neto, Nara Leão, Elis Regina,
Paulo Leminski, Ana Cristina
César, Gonzaguinha...
No início, o Verbo, no final, só farinha!

Basquiat também empacotou aos 27 anos!
Não foi músico e sua praia não era
o terreno arenoso e o quebrar das ondas
nas rochas do bom e velho rock ‘n roll,
o JuRáSsIcO & m á g i c o ROCK, errou!
De grafiteiro a artista-plástico
foi um pulo maior do que a perna
e por isso se esborrachou.
Negro de corpo e alma apreciava
o Jazz, o Blues, o Reggae, o Soul...
Talvez, se fosse vivo, pintaria
sob influência do Hip Hop e do Rap...
Mas quem sou eu? Onde estou?

Mano Brown, com sua verve, veia artística,
27 anos contrariando a estatística!

Por causa do tênis – PAU!
Por causa do sk8 – PAU!
Por causa da camiseta – PAU!
Por causa da bombeta – PAU!
Por causa de drogas ou garotas
- PAU! PAU! PAU!

Adonde se esconde a Posteridade Anônima?

Dívidas são antigas promessas não cumpridas.
Tããããooo compriiiidas.........................................................................
Promessa de Vida: prometo não comparecer
ao meu enterro, no dia 29 de abril
de 2005! Pau no cu de quem tem tempo!
O Tempo não cai do céu.
O Tempo não se come. O Templo é de papel!


Poema de Andri Carvão.