Manifesto do coletivo Pó de Poesia
O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.
Creia.
A poesia pode.
(Ivone Landim)
sábado, 5 de março de 2011
Compostura!
sobejo léxico,
nímio linotipista,
à penúria de teor
erigiu o silêncio.
Poema de Jorge Xerxes
Paraísos artificiais
O rebanho
No repasto
Da colina
A lagoa
Ao pé
Do monte
Um monte
De montanhas
E o manancial
Nas Nuvens
Nuvem branca
Nuvem cinza
Nuvem negra
Nuvem carregada
Nuvem de algodão
Nuvem de fumaça
Nuvem de gafanhotos
Nuvem de calças
O Castelo de Merlin
Silêncio nas trevas
Uma voz dissonante
Precipita-se no precipício
Urro que ecoa no vazio
Por um longo período
Até despertar o dragão
Que mora na montanha
Cospe fogo e lava a cúpula nos ares
Vulcão em erupção
Escrevendo seu nome nas nuvens
Encorporalma
Made in Madame Satã
Olha você
Perdendo
Com medo
De errar
Eu sou
O que eu penso
E não
O que você está vendo
Toda representação do real
É surreal
Poemas de Andri Carvão
sexta-feira, 4 de março de 2011
4º Motivo Da Rosa
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzidas,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
Sonho...
“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”
"Eu sou à esquerda de quem entra. E estremece em mim o mundo.
(...) Sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro.Sou um coração batendo no mundo."
Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas.
Clarice Lispector
SÓ DE SACANAGEM
Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.
Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.
Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."
Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!
Com licença poética
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Eu...
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!
Pensamentos que reúnem um tema
Na tranqüilidade dos que esqueceram a memória
E nos que fortaleceram o espírito com um motivo de odiar.
Estou pensando nos que vivem a vida
Na previsão do impossível
E nos que esperam o cé
Quando suas almas habitam exiladas o vale intransponível.
Estou pensando nos pintores que já realizaram para as multidões
E nos poetas que correm indefinidamente
Em busca da lucidez dos que possam atingir
A festa dos sentidos nas simples emoções.
Estou pensando num olhar profundo
Que me revelou uma doce e estranha presença,
Estou pensando no pensamento das pedras das estradas sem fim
Pela qual pés de todas as raças, com todas as dores e alegrias
Não sentiram o seu mistério impenetrável,
Meu pensamento está nos corpos apodrecidos durante as batalhas
Sem a companhia de um silêncio e de uma oração,
Nas crianças abandonadas e cegas para a alegria de brincar,
Nas mulheres que correm mundo
Distribuindo o sexo desligadas do pensamento de amor,
Nos homens cujo sentimento de adeus
Se repete em todos os segundos de suas existências,
Nos que a velhice fez brotar em seus sentidos
A impiedade do raciocínio ou a inutilidade dos gestos.
Estou pensando um pensamento constante e doloroso
E uma lágrima de fogo desce pela minha face:
De que nada sou para o que fui criada
E como um número ficarei
Até que minha vida passe.
Caso...
Pode ser mais um capricho
pode ser uma paixão
pode ser coisa de bicho
pode não.
Pode ser já por destino
pelos astros, pelos signos
por uma marca, uma estrela
talvez já estivesse escrito
na palma da minha mão.
Talvez não...
Talvez até nem fique
nem signifique nada
nem me arranhe o coração
pode ser só uma cisma
pode estar só de passagem
Ou não.
Bruna Lombardi
Das pedras...

Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.
...
Cora Coralina
quinta-feira, 3 de março de 2011
contradições de pele
uma alma que menstrua
(só com a lua)
não me encaixo nos dias
vomito minhas memórias
sou feita
prefiro o frescor do selvagem
um cigarro
um homem
um bolo de chocolate
não existe paz
nem anúncio nas costas
faço barulho com o papel
deixo na pele o recado
(juras e promessas)
minha fome me come viva
treme como folha
gosta da ausência no vestido
um quarto vestido
e o corpo sem botões...
onde eu estive minha vida inteira?
você sabe...
fala!
vivendo o melhor papel da minha vida:
ser mulher!
Caí de um corpo
Completamente eu
(pronta para viver um livro inteiro)
Poema de Vânia Lopez
Dois poemas de Iatamyra Rocha
O silêncio é abrasador
Fecho meus olhos
Entregue na minha leitura
Perdida entre beijos
Sentindo na pele a luxuria.
As palavras me tocam
Como um punhal em fogo
Imagino tua mão censurada
Ao me ler pouco a pouco.
Remeto-me ao longe
Em ligas e cetins
Castelos e condes
Relendo a Anais Nin.
A madrugada excita
Desvirgina a solidão
Entre livros e sonhos
Queimo de tesão.
Guardados
Fecho as cortinas
Meu corpo santo
Minhas presilhas.
Minhas águas cálidas
Meu ventre
As palavras pálidas.
Tranco meu amor
Meu infinito
Guardo a dor.
Minha pele confusa
Meus passos ermos
A febre que pulsa.
O tempo de te ver
A cama perfumada
Meu gosto em você.
Fecho, guardo, tranco
Teus nós e elos
Só por enquanto.
Autoria: Iatamyra Rocha
quarta-feira, 2 de março de 2011
O afogado
(rendilhado das ondas a beijar-lhe a boca). Detentor do inerte
mistério da morte, aportou na praia em manhã radiosa, cuspido pelo mar,
como quem sonha que está a sonhar. A pálida face, emoldurada por
longos e louros cabelos; nos traços suaves, uma agonia tão infinita que
já é sublime, deste companheiro de Flebas. Que pensaste durante o
derradeiro amplexo de Netuno, atlântico abraço de acolhida em teu talvez
breve morrer? Viste o filme da tua vida, aquele verdadeiro ou uma das
muitas versões que a mente emulou da realidade? De quão longínqua terra
vieste, pergunto em dúvida ansiosa e inútil. Ninguém te conhece,
ninguem te sabe o nome, ninguém sofreu por ti, nem aqui nem ali e
nem onde? Um vôo de gaivota delineia-me os pensamentos na areia da
praia, seu canto ecoa desesperante, trazendo-me idéias-sentimentos
sombrios, medo de ter medo de encontrar um morto, de que a eternidade
me arraste para si mesma e que eu nela não me dissolva. Que poderias me
contar sobre o reino das sombras em tão radiosa manhã? Nada, apenas,
em toda a simplicidade de tua mortalidade absoluta. Bolsos repletos
de areias profundas e finas, imagino durante tua purificação pela água,
irmão de Flebas, que rendeu o seu arcaico tributo há tantos anos e eras.
Na praia a esvair-se, quase impudicamente deserta, uma menina se
aproxima e te coroa com um ramo de sargaços apodrecidos, como a
memória dos tempos. Deixo-te entregue à própria paz - que é a mesma
do lugar. Tomei da minha solidão e segui em frente.
Conto de André Albuquerque.
Obs: Flebas – Deus fenício da fertilidade .
Homenagem ao poeta T S Eliot, no 46º. ano de sua morte .
Ficção inspirada no poema “ Morte pela água “, tradução de Ivan Junqueira
em Poesia, T S Eliot – Ed Nova Fronteira – 1981 .
Prima-dona
Impreciso
Ilumina,
Reanima.
Imprevisto,
Mostra o viso,
Canta a lírica
Prometida.
Sem juízo
Vive o vinho,
Livra a sina
Solta à vida.
Sem aviso,
Seu motivo
Predomina,
Canta a rima.
Poema de Yayá
terça-feira, 1 de março de 2011
Sucata
Sem o meio-termo da alma.
Com o cinza-chumbo do espírito.
Tendo como luz, o azinhavre.
Como sol, a ferrugem.
Fora de uso do destino.
Detido na espera, na corrosão.
Chapa, cheiro curto, plúmbeo.
Hálito escuro de garagem.
Ex-máquina, isenta de Deus.
Alquebrado bric-à-brac.
Leminskiano inutensílio.
Ofícios sem a irritação da oficina.
Mix de matéria e sombra feroz.
A ferros.
Poema de Armando Freitas Filho
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Voltou?
E o meu olhar brilhou com seu sorriso
Nem o cantar azul do rouxinol
Nem o brilhar dourando o som do sol
Fez assim meu sofrer ser mais preciso.
Minha alma triste foi ao seu encontro
Mas minhas mãos frias quedaram quietas
Nem sussurrei palavras vãs e falsas
Travei ao ver as suas cãs tão alvas,
Pois nem o sal das lágrimas vertidas
Somaram sóis ao seu retorno, embora.
Você voltou? Que quer de mim agora?
Esqueça o existir meu ser assim
Vou caminhar sozinha como sempre
Não posso esquecer o que sofri.
Poema de Paola Rhoden.
10 ou n - Do presente e suas minas terrestres
Melhor assim. Hoje, me amo em flor. Pior enfim. Porque venta forte: o que dramaticamente me despetala.
Parei. Nadei no branco. Volto com o fluxo intermitente da minha urgência em ser honesto e não raciocinar. O que há por trás dos parâmetros escolares vividos, da célula familiar imposta pelo bem querer do outro que não quer ser outro só porque tem no sangue igual marca d´agua, do dito mimético do televisivo, dos desamores, da desaprovação, da falta de carinho com todas palavras quando discriminamos os palavrões e tantas outras exclamações que são nosso dom de ainda se arrepiar com o mundo... E principalmente: o que há por trás do pensamento. Tudo se imaginarmos.
E nada na morada do raciocínio: o treino do reconhecível. Olharam agora minha cara de honestidade e perguntaram se estava tudo bem. Acho que não fui reconhecido. Paro. A célula familiar insiste em invadir. Vou abrir concessão. Tão estou comigo. Na verdade abro concessão para que eles fujam. Vou cantar o número do bilhete. E vou fingir com uma corneta o apito do trem.
O claro fluxo da distorção. Como condensar os sentidos até eu cacarejar e botar um (n)ovo? Como condensar toda a tempestade quando se tem apenas um copo de água?
Arde em pequeno copo essa aguardente que é sentir demais. Acho que minha boca deveria ser no pescoço para afastá-la da face. Falta pouco. Já tenho dentes nos dedos.
Mordo e te assopra a brisa. O invisível que bagunça os cabelos e torna visível tua feiúra não fosse o pente. Não fosse o pentecostal. Que aceita teu desgrenhamento porque, caro, tu és bom. Garoa canivete. E tudo que queria te contar já se transformou em outra coisa. Fiz uma lista e até agora nada assinalei. Nado no branco. Fiz bem em transar o acaso. Teus sentidos não podem ser meu diário de bordo. Aliás diários de bordo não deveriam existir. Diário igual a regular. E não é todo dia que se tem papel, nem todo dia se fura olho com caneta. E diários são documentos passadistas. Nosso jogo aqui é o fluxo que estremece, mas não goza. Tântricamente se engole porque o presente não tem pés para fugir. O em si do presente não existe para quem se ...
Acabo de me recuperar de um susto e tenho o coração ainda raivoso. Pensei ter apagado sem querer tudo o que havia escrito. Quase deletei meu agora. Como as teclas são propícias para a auto sabotagem. Basta a mente induzir um escorregamento pelos dedos e pronto. Tudo branco. Como se auto sabotavam os escritores de máquinas de escrever?
O em si do presente não existe para um espantador de segundos. Mas quem voa? O espantalho ou o passarinho-segundo? Não. Esse espantalho espantador tem asas. E no pouso tudo voa junto. O presente não tem pés para fugir porque só saberá andar no futuro. O presente não sabe. O presente só sabe acaso. Ele cai. Por pensar saber andar, por lembrar de um andar passado ele cai. Tomba pra frente feito árvore pesada e serra. Cai porque anda sem tatear e não vê que os pés são os mesmos, mas mutáveis são as geologias de terreno que nos precedem. Cai pra frente a árvore , rola no íngreme do acaso – já é toco- e torna a cair agora fundo. Cai agora fundo no lago. E os pés são os mesmos. O presente não sabe. A idealização é a corrupção do presente. O por vir imaginado é propina para calar o segredo do acaso. Qual o segredo do acaso? Quando não se sabe desconfia-se de qualquer sapiência. Qual o segredo do acaso? O presente não sabe. O presente é sempre uma criança no devaneio de ser criança. O presente não tem pés: engatinha. E cai. Por isso corrompem o presente com propinas tão vulgares como balas tic tac. Querem calar a criança com balas. E não se fala de boca cheia, dizem os que atordoam o presente com açúcar. Quando há insegurança nunca as crianças são consultadas. Elas possuem o devaneio da verdade que não é verdade: é apenas a linguagem emergencial da franqueza do não saber. O presente não sabe.
De nada adianta o esmero técnico e os revisionismos. Assim como de nada adianta reler o todo escrito até agora em busca de alguma coesão entre mim e tu, leitor do invisível. O presente é fatal e não tem pés. Só anda quando estende os braços até tocar o chão. E o toque não se faz de mãos. O chão beija a muleta e tudo finge andar. Com braço-muleta estendido caminha o presente cambaleante; a muleta esquerda ensaia os passos que aprendeu lembrar e a direita dança os passos tolos da esperança. Leitor, entre esse mal ajambrado e cambaleante presente espantalho propinado e o mutilado presente, fico eu com o ápode acaso, fico eu com o que não tem pé. Nem cabeça. Fico eu com os mutilados das minas terrestres. Pelo gosto do tempo antes as minas do que as balas. Mesmo as de açúcar. Sobretudo as de açúcar. Sobremaneira as que calam a criança-presente por não respeitarem o seu nada saber e tudo falar. Ela vai no âmago da terra porque desaprendeu tudo da vida embrionária e intui a natureza da intuição. E a natureza da intuição é o não-pensamento, ou o pré-pensamento, caso alguém aqui faça questão do que existe. O canhão do passado por onde se mete a bala pela frente ou a traçante de verde facho luminoso do futuro? Nem um. Nenhum. Nem outro. Fico eu com os mutilados das minas terrestres. Se pisa no acaso e logo explode em sangue os pés do presente. Mas não há traumas. Nem lembranças de guerra. O presente nada sabe. E sorri um sorriso de criança que convence o mais duro passado.
Texto de Carlos Juba
Fastfood-se
Qual é o seu pedido?
O nº 1, o nº 2, o nº 3,
o quatro, o cinco ou o seis?
Mc WC,
Mc marmita,
Mc x, Mc shit,
Mc pão com ovo & fritas!
Boa tarde!
Faça o seu pedido!
O nº 1, o nº 2, o nº 3,
o quatro, o cinco ou o seis?
Sunday de sangue!
Sunday de coco-late!
Coca-Cólica SEMPRE Coca-Cólica!
Próximo!
Benito Mussarela rangando pizza de mussolini
& cachorro-quente (hot-vale)
perseguindo
churrasquinho-de-gato-grego-grelhado
num desenho desanimado...
Poema de Andri Carvão
domingo, 27 de fevereiro de 2011
De la noche
similares e muitos simpatizantes. As formas de solidão mudaram,ao longo dos anos.
Lembrou do tempo em que encostava num balcão e logo alguém vinha ter consigo.
Hoje, sem balcão,apenas caminhar em direção à noite suja e sem atrativos, arriscando
um marinheiro perdido ou um rosto desgarrado da fauna noturna do cais, no espasmo
munganguento de crak, a quem pediria o cigarro de sempre, prenúncio de papo, olhar
de nojo piedoso ou de puro e simples nada consta. Percebeu um cara de jaqueta jeans,
encostando-se no poste, do outro lado da rua; tipo magro musculoso,calças
justas e um olhar vazio em forma e direção, de quem via tudo sem nada observar.
Recostou-se na banca de revistas fechada, sob uma marquise. Olhou os bancos de
camelô desmontados ao longo da rua. As putas desciam dos velhos sobrados, à frente
dos homens da ocasião, com um olhar altaneiro de senso de dever cumprido. Sou
puta e daí? Cada um segura a sua ôia, dizia Zefinha Pé de Garfo, um corpo escultural
sobre um pedestal deformado, um kama sutra ambulante, agora, arremessando um beijo
para Adolfo, sobraçando o presente da neta, no retorno para casa. Mais uma bateu o
ponto e fechou o escritório, pensou Adolfo, cigarro apagado nos lábios de pomada de
cacau. Mãos inquietas procurando um isqueiro. Acendeu, acalmou as longas mãos
manicuradas, dedos luzidios. Fumou pela metade, jogou fora, apreciando a pirueta
da brasa, até cair no chão. Recomeçou a caminhada, percebendo-se seguido à distância
pelo homem de jaqueta jeans. Um discreto olhar para trás. Chegou à porta da
hospedaria Novo Horizonte. Subiu o primeiro lance de escadas e puxou do bolso a
chave do quarto, dando tempo ao cara de subir. Era um homem bonito, olhar sombrio e
braços musculosos. A mão esquerda tatuada, brinco na orelha direita, idade
indefinida,como tantas outras coisas da vida. Trocaram um sorriso meio envergonhado, adentrando o quarto. O estranho preferiu penetrá-lo de pé. Adolfo excitava-se e rangia os dentes de prazer. Ao perceber a corda de náilon no pescoço, o mundo estava cada vez mais cinzento e silencioso.
Conto de André Albuquerque
Marcio Rufino no Putzgrila
Na noite do dia 19 de fevereiro de 2011 aconteceu em Nilópolis a décima edição do evento Putz Grila que envolve música, teatro e poesia. Eu tive a honra de participar representando os coletivos que faço parte que são o Pó de Poesia e o Gambiarra Profana no vídeo acima eu declamo os poemas Louco Currículo e Mulher-Hiena.





