Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



segunda-feira, 7 de março de 2011

Arte poética

baixei do lugar de onde vim
e dentro em mim mesmo desci
sem longe nem perto ou aqui
sem rumo princípio nem fim

eu mesmo cavalo-de-mim

Poema de Maurício Matos retirado do seu livro "Aquém das retinas".

Sobrevivendo

Sou sobrevivente
dos ventos de outono,
avesso dormente,
revirada e ferida.
Levando na lida
a carga silente
do que vivo e penso,
nunca ando só.
Sou amor sem apego,
saudade sem dor,
reverso sem cor,
vou sobrevivendo.

Poema de Elmira Nunes.

domingo, 6 de março de 2011

Os degraus...

...
Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...
 
Mário Quintana
....

A rua dos cataventos...


Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meus cadáveres eu sou

O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!

Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!

Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

 

...



...

Mário Quintana


Alpinistas suburbanos

Grafites Rupestres

No alto do prédio
De ponta cabeça
Segurado pelos pés
Por um amigo de mil anos
Quase irmão
O pichador deixa
Seu rastro
Sua pegada
Seu picho
Sua marca
Eu estive aqui

A necessidade de andar em bando
A gíria
O palavrão
O chiste
Analfabeto Funcional
Proletário lumpen
Office-boy no centro da Capital
Dá um duro
E vive duro

Urbanóide periférico
Juventude invisível
Sociedade anônima

Subcultura
A arte das ruas
O risco e o rabisco
Único meio de atingir o topo

O céu não é o limite
O céu não tem limites
No alto do prédio

Poema de Andri Carvão

sábado, 5 de março de 2011

Compostura!

Ele - o poeta -
sobejo léxico,
nímio linotipista,
à penúria de teor
erigiu o silêncio.

Poema de Jorge Xerxes

Paraísos artificiais

Oásis

O rebanho
No repasto
Da colina

A lagoa
Ao pé
Do monte

Um monte
De montanhas
E o manancial

Nas Nuvens

Nuvem branca
Nuvem cinza
Nuvem negra
Nuvem carregada
Nuvem de algodão
Nuvem de fumaça
Nuvem de gafanhotos
Nuvem de calças

O Castelo de Merlin

Silêncio nas trevas
Uma voz dissonante
Precipita-se no precipício
Urro que ecoa no vazio
Por um longo período
Até despertar o dragão
Que mora na montanha
Cospe fogo e lava a cúpula nos ares
Vulcão em erupção
Escrevendo seu nome nas nuvens

Encorporalma
Made in Madame Satã


Olha você
Perdendo
Com medo
De errar

Eu sou
O que eu penso
E não
O que você está vendo

Toda representação do real
É surreal

Poemas de Andri Carvão

sexta-feira, 4 de março de 2011

4º Motivo Da Rosa



Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzidas,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.






Cecília Meireles


Sonho...

Temperamento impulsivo

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.


Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”



"Eu sou à esquerda de quem entra. E estremece em mim o mundo.

(...) Sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro.Sou um coração batendo no mundo."



O sonho


Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas.


Clarice Lispector

SÓ DE SACANAGEM



Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.
Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.
Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."
Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!



Elisa Lucinda
 
 
 

Com licença poética




Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.



Adélia Prado


Eu...


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!




Florbela Espanca

Pensamentos que reúnem um tema



 

Estou pensando nos que possuem a paz de não pensar,
Na tranqüilidade dos que esqueceram a memória
E nos que fortaleceram o espírito com um motivo de odiar.
Estou pensando nos que vivem a vida
Na previsão do impossível
E nos que esperam o cé
Quando suas almas habitam exiladas o vale intransponível.
Estou pensando nos pintores que já realizaram para as multidões
E nos poetas que correm indefinidamente
Em busca da lucidez dos que possam atingir
A festa dos sentidos nas simples emoções.
Estou pensando num olhar profundo
Que me revelou uma doce e estranha presença,
Estou pensando no pensamento das pedras das estradas sem fim
Pela qual pés de todas as raças, com todas as dores e alegrias
Não sentiram o seu mistério impenetrável,
Meu pensamento está nos corpos apodrecidos durante as batalhas
Sem a companhia de um silêncio e de uma oração,
Nas crianças abandonadas e cegas para a alegria de brincar,
Nas mulheres que correm mundo
Distribuindo o sexo desligadas do pensamento de amor,
Nos homens cujo sentimento de adeus
Se repete em todos os segundos de suas existências,
Nos que a velhice fez brotar em seus sentidos
A impiedade do raciocínio ou a inutilidade dos gestos.
Estou pensando um pensamento constante e doloroso
E uma lágrima de fogo desce pela minha face:
De que nada sou para o que fui criada
E como um número ficarei
Até que minha vida passe. 



Adalgisa Nery 

Caso...


Pode ser mais um capricho
pode ser uma paixão
pode ser coisa de bicho
pode não.

Pode ser já por destino
pelos astros, pelos signos
por uma marca, uma estrela
talvez já estivesse escrito
na palma da minha mão.

Talvez não...

Talvez até nem fique
nem signifique nada
nem me arranhe o coração
pode ser só uma cisma
pode estar só de passagem
Ou não. 



Bruna Lombardi

Das pedras...






Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.

Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.

Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.

Entre pedras que me esmagavam

Levantei a pedra rude
dos meus versos.

...

Cora Coralina


 

quinta-feira, 3 de março de 2011

contradições de pele

um corpo
uma alma que menstrua
(só com a lua)

não me encaixo nos dias
vomito minhas memórias
sou feita
prefiro o frescor do selvagem
um cigarro
um homem
um bolo de chocolate

não existe paz
nem anúncio nas costas
faço barulho com o papel
deixo na pele o recado
(juras e promessas)

minha fome me come viva
treme como folha
gosta da ausência no vestido
um quarto vestido
e o corpo sem botões...

onde eu estive minha vida inteira?
você sabe...
fala!
vivendo o melhor papel da minha vida:
ser mulher!

Caí de um corpo
Completamente eu
(pronta para viver um livro inteiro)

Poema de Vânia Lopez

Dois poemas de Iatamyra Rocha

Delta picante

O silêncio é abrasador
Fecho meus olhos
Entregue na minha leitura
Perdida entre beijos
Sentindo na pele a luxuria.

As palavras me tocam
Como um punhal em fogo
Imagino tua mão censurada
Ao me ler pouco a pouco.

Remeto-me ao longe
Em ligas e cetins
Castelos e condes
Relendo a Anais Nin.

A madrugada excita
Desvirgina a solidão
Entre livros e sonhos
Queimo de tesão.

Guardados

Fecho as cortinas
Meu corpo santo
Minhas presilhas.

Minhas águas cálidas
Meu ventre
As palavras pálidas.

Tranco meu amor
Meu infinito
Guardo a dor.

Minha pele confusa
Meus passos ermos
A febre que pulsa.

O tempo de te ver
A cama perfumada
Meu gosto em você.

Fecho, guardo, tranco
Teus nós e elos
Só por enquanto.

Autoria: Iatamyra Rocha

quarta-feira, 2 de março de 2011

O afogado

Sobre a areia, numa postura de eterno sono, devolvido pela água

(rendilhado das ondas a beijar-lhe a boca). Detentor do inerte

mistério da morte, aportou na praia em manhã radiosa, cuspido pelo mar,

como quem sonha que está a sonhar. A pálida face, emoldurada por

longos e louros cabelos; nos traços suaves, uma agonia tão infinita que

já é sublime, deste companheiro de Flebas. Que pensaste durante o

derradeiro amplexo de Netuno, atlântico abraço de acolhida em teu talvez

breve morrer? Viste o filme da tua vida, aquele verdadeiro ou uma das

muitas versões que a mente emulou da realidade? De quão longínqua terra

vieste, pergunto em dúvida ansiosa e inútil. Ninguém te conhece,

ninguem te sabe o nome, ninguém sofreu por ti, nem aqui nem ali e

nem onde? Um vôo de gaivota delineia-me os pensamentos na areia da

praia, seu canto ecoa desesperante, trazendo-me idéias-sentimentos

sombrios, medo de ter medo de encontrar um morto, de que a eternidade

me arraste para si mesma e que eu nela não me dissolva. Que poderias me

contar sobre o reino das sombras em tão radiosa manhã? Nada, apenas,

em toda a simplicidade de tua mortalidade absoluta. Bolsos repletos

de areias profundas e finas, imagino durante tua purificação pela água,

irmão de Flebas, que rendeu o seu arcaico tributo há tantos anos e eras.

Na praia a esvair-se, quase impudicamente deserta, uma menina se

aproxima e te coroa com um ramo de sargaços apodrecidos, como a

memória dos tempos. Deixo-te entregue à própria paz - que é a mesma

do lugar. Tomei da minha solidão e segui em frente.



Conto de André Albuquerque.


Obs: Flebas – Deus fenício da fertilidade .

Homenagem ao poeta T S Eliot, no 46º. ano de sua morte .

Ficção inspirada no poema “ Morte pela água “, tradução de Ivan Junqueira

em Poesia, T S Eliot – Ed Nova Fronteira – 1981 .

Prima-dona

Um sorriso
Impreciso
Ilumina,
Reanima.

Imprevisto,
Mostra o viso,
Canta a lírica
Prometida.

Sem juízo
Vive o vinho,
Livra a sina
Solta à vida.

Sem aviso,
Seu motivo
Predomina,
Canta a rima.

Poema de Yayá

terça-feira, 1 de março de 2011

Sucata

Entre ser, não ser, ser de ferro-velho.
Sem o meio-termo da alma.
Com o cinza-chumbo do espírito.
Tendo como luz, o azinhavre.
Como sol, a ferrugem.
Fora de uso do destino.
Detido na espera, na corrosão.
Chapa, cheiro curto, plúmbeo.
Hálito escuro de garagem.
Ex-máquina, isenta de Deus.
Alquebrado bric-à-brac.
Leminskiano inutensílio.
Ofícios sem a irritação da oficina.
Mix de matéria e sombra feroz.
A ferros.

Poema de Armando Freitas Filho