Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



sábado, 23 de março de 2013

Poema da vida inteira


Outrora, qual a Aquiles,
Quase me devoraste,
Escamandro furioso,
Procela borrascosa – desmesura.
Espremeste-me contra paredes,
Pegaste-me pelos gorgomilos,
Exigindo-me tudo o que não tinha,
Tudo o que perdi ou vendi,
Tudo o que sempre exigiste de todos:
Venalidade!
Enquanto três bocas
Choravam ruidosamente.
Nestas horas, roubaste-me
Até meu corcel negro,
E quando pedi ajuda, decretaste:
“ – Não sei se é verdade... te vira, rapaz!”
Grande artista da esquiva e da omissão,
Quase me arrancaste todas as lágrimas,
Fazendo-me sinistros convites ao mar.
Terrível alquimista,
Transformaste todo meu mar e sal
Em pedra, todo meu céu e lume em lodo.
Entretanto, estou aqui:
Mil vezes amado, desprezado,
Mil vezes perdido e sem caminho,
Mil vezes sem profecia ou futuro
A te encarar nos olhos... vivo!
Com os ombros curvos
De quem muitas vezes baixou a cabeça,
Em cadeira, de quem quebrou
Orgulhosa cerviz.
Hoje, estou aqui te encarando,
A esboçar um sorriso,
Sem perigo de virar pedra.
Outros choram, lamentam-se,
Preferem puxar o gatilho da melancolia,
Embriagar-se da memória dos que partiram.
Comigo não é assim:
Já não sinto sede ou fome
Na língua seca, no estômago enjoado.
O esquecimento é o bálsamo
Que ofereces a esta esponja ressequida.
Hoje, vozes compungidas
Calaram-se em meu peito,
Aguilhões a me ferirem
Já não fazem mal
À carne afeita à dor.
Agora, admiro tardes iluminadas e frescas
Que tanta luta ensombrou, esfriou,
Que tanto arrependimento transformou
Em noite e tempestade...
Sinto-me faltoso, por isso humano, completo.
O futuro não mais me inquieta: vivido está!
Perdido está!
O passado dia-a-dia julga-me,
Mas vou sempre sorvendo as velhas mentiras
Que imobilizam toda a culpa
E as revoluções deixadas por fazer...
O presente reduziu-se a um zéfiro suave,
À profunda aceitação.
Este momento sem perspectivas, metas,
Ou pegadas encapsula-me.
Sou duro, carne de pescoço.
E agora?
Pergunta que já não cabe mais:
Agora estou completo, perdido,
Perdido...


Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados

terça-feira, 19 de março de 2013

"perjúrio,"

(não.)eu nao quero. nem a parte que te corrompe. nem ontem..
eu não tomarei este lado. ora, nem mesmo alvo por explícito!
não deitarei à relva da noite que te ouve, nem ao palco do ar fictício
da morada refém em desigual referência ou alta que te comprem

eu não abrirei os teus olhos mais.. eu sequer, posso te sentir
ao crime que te referi, ao prêmio da minha carne, é: tão.. tarde
ah, eu.. preferia ter-lhe o retrato em branco, à vénia única de ti
mas, hoje/amanhã e depois eu não tentarei a porta que te abre

cai. peça da minha virtude!! tão impulso de reter-me ao chão..
prévia da minha mão.. minha mesa de frutas e o único pão
tal registro da letra que te corre o ventre, da pena que te quer

cai. peça da minha íliada preparada pra perder.. do pecado e fé.
terra de contos quaisquer.. à linha de partes e curvas e frentes..
ao exercício de mentir-te mil dias, mil vezes.. mil letras, e. sempre


Soneto de Azke

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Brincadeira tem hora

Brincar com as palavras
é reconfortante
Somente nesse patamar
as brincadeiras
são possíveis
Não gosto de ludicidade
com os corações
alheios

                 JORGE MEDEIROS
                    (15\09\2010)

sexta-feira, 15 de março de 2013

"torrente"

barcos e rumos em descidas de tais velas 
tardes e cartas em sumos livros degolados
ávidos corpos em dança de mares e pecados
barcos e crimes em alferes iguais destas telas

oh! sereia que te conto ver à noite mais livre..
ao alvitre que devolve em cura puta qual convém
tarde te sejam os seios, os sêlos e o filme
pois, se cantam-te aos ecos, levam-te também

e já cai o horizonte anulado de tolas peças frias
quais tragédias erguidas em comunhão e cor
e carregam-te à imagem que te fiz, e toda a dor

qual assaz delinquência à queda-prévia de cenas
todas estas, vénias. todas elas, à leve novena
do meu terço em credo do teu nome que o desvia





a todo: um dia(outro) teu..


Poema de Azke

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quinta-feira, 14 de março de 2013

pequena flor na janela

pintei o céu quando encontra o mar, e muda de cor lentamente até morrer. enquanto a vida cresce em volta dominando as folhas do calendário, o coração batendo pra onde nasce a chuva, em seus olhos rasos d’água. as ruas começam a estreitar no vagar macio do vai e vem dos seus cabelos. chora o silencio em partes iguais, tal brisa e pipas no fio, que o vento leva pra qualquer lugar... a paz dos moinhos, o quê os braços vão querer e os olhos irão apagar. como um pincel livre por todo céu, e acorrentado à revoada de uma ave. porque uma asa me morre.



Poema de Vânia Lopez


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Boa noite

?

Quando o manto de horas negras cobre a luz de todos os lugares
Não restam sonhos inocentes, nem sentimentos sinceros
Dentro de corpos embriagados, vestidos de vício

Sem sentir, vagueiam sem sentido

Rasgando noites imperfeitas cobertas com véus transparentes
Onde atrás de cada porta o mistério toma a forma de sorrisos
As curvas assumem-se suaves, como idílicos paraísos
Na terra das sensações pronta a conquistar

É o princípio da viagem ao fundo do ser

Quantos corpos largados, dias, semanas, meses por amar?
Tantos brilhos transformados na solidão sob o luar
Tantos corpos enganados por promessas ao por do sol
Vencidos, sem encanto, pela indiferença do destino.

Quando este manto de horas negras revelar o infinito céu estrelado
Cobrindo a vontade de metade do mundo
Mostrará a sua nocturna imensidão, onde cada ponto brilhante é vida
É sonho, por mais ínfimo que seja é luz.

Sim, pode ser diferente.


Poema de Nuno Marques


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quarta-feira, 13 de março de 2013

sábado, 2 de março de 2013

Poesia, MPB e cultura cigana marcam o primeiro Sarau Donana de 2013


Eud Pestana

                                                                              Ana Cajueiro


Roberto Lara


                             
                                      Alessandra David e a companhia de dança Kaminhoo Cigano
                                
                                                                Ivone Landim



                                                                    Dida Nascimento



Marcio Rufino


Camila Senna


                                                               Gabriela Boechat
                                                     

                                                                     Idi Campos



                                                                       Moduan Mattus


                                                                             Sil


                                                          Josy Louzada


                         A menina Marília recita José Paulo Paes sob os olhos orgulhosos da mãe Sil


                                            Pó de Poesia e Enraizados juntos e misturados




                                                                          Poeta Xandú
                     



O Desmaio Públiko foi um coletivo poético que agitou a cena cultural da Baixada Fluminense na última década do século 20. Seus poetas integrantes interpretavam suas performances de forma supreendentemente teatral nos bares, tomando de assalto a boemia da região. Foi para contar a história de sua formação entre outros momentos marcantes do já lendário grupo cultural que o poeta Eud Pestana - um de seus idealizadores ao lado de Cézar Ray - e sua companheira, a também poeta Ana Cajueiro, se apresentaram especialmente a convite do coletivo Pó de Poesia na edição de fevereiro que abriu o Sarau Donana do ano de 2013 no Centro Cultural Donana, na cidade de Belford Roxo.

O sarau também teve a participação especial do cantor e compositor Roberto Lara que cantou e tocou diversas de suas composições. A educadora Alessandra David se apresentou com sua companhia de dança cigana Kaminhoo Cigano da Fundação Santa Sara de Kali, nos mostrando e contando um pouco da trajetória da cultura cigana na história da humanidade.

De resto o que rolou foi muita poesia com os poetas do Pó de Poesia como Ivone Landim, Marcio Rufino, Camila Senna, Idi Campos, Gabriela Boechat e do Desmaio Públiko como a própria Ivone, Eud, Ana, Moduan Mattus, Sil e a atriz Josy Louzada. A trupe do Movimento Enraizados Dudu de Morro Agudo, Slow da BF e Samuca Azevedo também prestigiaram o evento nesta linda noite de sábado.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

ensaio de um nada

morre em mim a música das tardes
e os teus cabelos macios

porque aquietas as ruas como um lobo que uiva
pela sombra que foge
espalha a calma ao redor,
como se fosses tu... bêbado em me esquecer

leva essa desordem daqui... que não quero mais

deixe a noite solta no curral
e minha alma d’água, tão líquida quanto à lágrima.
... lavar como chuva colada à tua boca, a vida.
Que é outra.

Poema de Vânia Lopez

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sábado, 23 de fevereiro de 2013

NO TEMPO EM QUE EU NÃO PODIA IR À WOODSTOCK, PROTESTAR CONTRA A GUERRA DO VIETNÃ, GRITAR UM VIVA À CHE GUEVARA, DIZER NÃO À DITADURA, SER LIVRE E BEBER MINHA CERVEJA ATÉ CAIR.


Este poema é dedicado ao meu amigo e companheiro do Gambiarra Profana
Sérgio Salles-Oigers  e seu espírito livre.
“Censurar ninguém se atreverá, meu canto já nasceu livre” Sérgio Salles Oigers


No meu país
Eu tenho hora para acordar
E hora para dormir
Serei preso se não obedecer

A inquisição está atrás do vidro
E nos julga como Josef K foi julgado
Levanta muros entre amigos
Silenciando vidas
Censurando vozes
E expressões artísticas

No meu país eu não posso
Fazer minhas próprias escolhas
E caminhar livre por ai

No meu país eu tenho hora
De acordar e hora de dormir
E serei preso se não obedecer

Na biblioteca não tem os livros
Que eu quero ler
Na loja de discos não tem os discos
Que eu quero ter

No cinema é proibido passar filmes
Como “Fahrenheit 451”, “Easy Rider” ou “Z”,

Na poesia apagam as luzes
Desligam os microfones
E alguns chamam de lixo
A poesia que eu e alguns amigos
Gostamos de escrever

Arnoldo Pimentel

algumas palavras amassadas em uma folha de papel

chegou num barco de pesca 
nos olhos o abismo da simplicidade
... tua fala macia
o abandono dos cabelos,
algo como a água escorrendo pela face
uma muda de roupa que talha a carne
e o que quer que fosse um eu, despido.
enquanto o mundo... caía lá fora

vinhas continuamente como o mar
desvaneceu o concreto, rompeu o dia.
e, decidiu não voltar mais.

... sem saber o que levar
queimou tudo por dentro (de mim)
deixando digitais espalhadas na casa toda
(e nenhuma imagem das câmeras foi sequer recuperada)

ficou o que foi tocado,
com a força de um raio num céu calmo
... como flechas sem pontas
tentando atingir o silencio... tal um blues no ar


Poema de Vânia Lopez


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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Copos vazios


?

Por detrás da luz, fomos noites intermináveis 
Esquecemos palavras no barulho das tabernas de Lisboa 
Bebemos rotinas em rituais silenciosos 
Onde as horas eram um líquido amargo 

[E foi tão fácil desistir] 

No cinzento das calçadas, perdemos o sol
Cedemos ao feitiço no fumo negro das madrugadas

Que travessas estas, nos transformaram 
Por detrás da luz em sombras do passado

Somos agora, copos vazios. 


Poema de Nuno Marques

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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Bélico


Flores bélicas
Rebentavam em todos os canteiros.
Bellum rufava seus tambores
Nas hostes do meu quarto,
Entoando um hino
Repleto de seqüestro e assassinato.
Súbito, então, comecei
A oferecer flores e balas
Nas escolas,
Nos cinemas e teatros,
Em todas as ruas
E casas,
Em ônibus e trens.
Eram lírios e tomilhos
Furibundos,
Narcotizados
E guerreiros,
Lançados dos rifles
E bombardeiros.
E tudo parecia-me terrível e Belo
Como a lua a estuprar-lhe os amantes
E a despregar-se, como um alien,
Sangrenta, crescente,
De nossos ventres.
Colhi todas essas flores
Ao som de desesperadas cigarras
E de justiceiras espadas.
Cheguei mesmo a cultivá-las e traficá-las
Por toda África e Palestina,
Flores fétidas e clandestinas,
Como um jardineiro
A passar tudo a facão,
Como um padeiro a envenenar o próprio pão.
Era preciso cumprir minha pena,
Seviciar todos
Que me maltrataram sem pena
E me entregaram aos chacais e hienas.
Hoje não cultivo mais.
Estou em paz.
Bato ponto,
Leio a bíblia
E entrego o protocolo
A mães que carregam no colo
Filhos e pais
De futuras chacinas.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Pó de Poesia no sarau Identidade Cultural e Movimento Culturalista




                                     A bela anfitriã da tarde a talentosíssima Janaína da Cunha

 
                                                                    Marcio Rufino


                                                            Idi Campos (Colinha)


                     Janaína da Cunha e o Pó de Poesia entre poetas de todos o Rio de Janeiro


                                                                            Ivone Landim





O legado dos poetas da geração da poesia marginal do início dos anos 1970 frutica cada vez mais. Um excelente exemplo disso é o irrepreensível sarau Identidade Cultural e Movimento Culturalista apresentado pela belíssima e brilhante poeta, atriz e agitadora cultural Janaína da Cunha todas as tardes do último sábado do mês no bistrô Café do bom, cachaça da boa na Rua da Carioca no centro do Rio de Janeiro. O coletivo Pó de Poesia teve a honra de se apresentar por lá junto de poetas e artistas de todo o estado no dia 26 de janeiro de 2013. O próximo evento será na tarde do dia 23 de fevereiro e começa a partir das 13:00 da tarde. Para os amantes da poesia vale a pena conferir.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

pequena parte recatada da pele nua

só os loucos me interessam
.os que pedem benção antes de pecar
os que queimam como fogos de artifício pela noite

desorganizando as gavetas
rolando pelas ruas com olhos de chuva

como água que tem sempre muita pressa
com esse sorriso insuportável de felicidade no rosto
esgueirei por dentro
esfaqueai-me pela paz

pequena parte recatada da pele nua
julgue-me como uma obra de arte
flutuando na alma, tal cerejeira enraizada na terra.

como um pintor precisa da tinta
sê rápido e corra para mim, amigo.
assombroso e imprevisível
anjo maior
(só os loucos me interessam)


Poema de Vânia Lopez

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quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

,algures, tardiamente

,que o tempo não pare, nem deixe de parir tempos!

(I)

,e eu abrando,
repetem-se cenas, visões, nenhures imaginados,
criações sem nuvens em redor, ou alfazemas do campo
agarradas à terra seca, gretada,

,e eu abrando,

,o amar torna-se ridículo,
quando regressam os odores conhecidos,
como se à tarde existisse sempre, sempre
um esconder do sol,

,ou um poema por ler.

(II)

,transmuda-se a pele em escamas,
pela viagem sem partida, sem gestos,

mímica que os nevoeiros escondem,
tapam,
,lenços brancos esvoaçam símiles a bandos
de pássaros em migração constante, sem tino,
sem rota,
loucos.

(III)

,quantos os loucos.

(IIII)

,um dia abate-se o céu pelo peso das estrelas,

,eu, abrandar-me-ei,

agitando esse pó que me cobrirá
inexoravelmente,
implacável o ondear sem reflexo, nexo,

figuras, sombras, pessoas,

uma amálgama que se debaterá então.

,o tempo parará a loucura,
,as aves morrerão em pelo voo, suspensas,
acamadas nos cirros estáticos, eternizados,
enraizados no parir dos tempos.

(IIIII)

,e eu repetirei-me-ei,
,sem pejo, impedimento;

“-As amendoeiras renasceram em flor, algures, tardiamente.”


Poema de Francisco Duarte

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terça-feira, 22 de janeiro de 2013

No estalar da madeira, na chuva deste Inverno

?

No estalar da madeira, na chuva deste Inverno
Encontro-te à lareira, tardiamente respostas.

O quadro é uma história

As vagas castigam o molhe, o cais, as rochas.
Na tempestade o farol cede em dúvidas
Como perguntas submersas, um oceano, talvez de nós

Sem guia, ao sabor das ondas
O barco navega à deriva, entre certezas

Há tanto tempo, que nos perdemos por fim
No fundo do mar, na calma de um coral.


Poema de Nuno Marques

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domingo, 20 de janeiro de 2013

RE-CRIAÇÃO





Des-construir a forma

des-membrar

des-estruturar o verbo

des-ordenar  a estrutura

des-mitificar

ir além do provável

e - assim - instituído o caos

re-modelar
o imponderável



Ianê Mello




*

Arte de Alberto Seveso





sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Sobre o sentido da vida

?

Se tiver tempo, vou sentar-me junto ao Tejo ao fim do dia
E contemplar a paisagem, o pôr-do-sol acontecer.

Sim, se tiver tempo, vou olhar a ponte suspensa de Abril 
Estendendo-se sobre o rio em direcção ao horizonte
[até onde os olhos não alcançam

E nela, vou ver os carros e os comboios 
Durante o breve momento da travessia entre as duas margens 
Passarem plenos de sentido

E o sentido que os preenche, é o mesmo que os leva em frente 
[sem que o saibam

Aparecem do nada, atravessam a ponte desaparecendo no nada
E eu com eles, enquanto os olho, vivendo
Fazendo a mesma travessia 

Sim, vou sentar-me junto ao Tejo ao fim do dia 
Olhar a ponte, os carros e os comboios acontecerem comigo 
[um pôr-do-sol

E se tiver tempo, talvez pensar sobre o sentido da vida.


Poema de Nuno Marques


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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

A HORA DE 50 MINUTOS





com as mãos sobre o colo sentada naquele divã um profundo sentimento de estranheza  toma conta de mim e a vontade que tenho é sair correndo dali sem pestanejar mas a consciência me impede e distraidamente pouso os olhos nas paredes brancas com alguns quadros dependurados que me fazem lembrar a visita que fizera recentemente a galeria de artes que era  por sinal uma de minhas distrações prediletas e sinto meu rosto corar quando me deparo com o olhar inquisidor do terapeuta a minha frente esperando que eu desse inicio a sessão o que com certeza eu não tinha a menor vontade de fazer porque hoje me sentia esvaziada de palavras mas sabia que quanto mais eu demorasse mais me sentiria constrangida e seria dinheiro posto fora coisa que eu não poderia me dar ao luxo assim como também em anos de terapia aprendera que essa resistência de minha parte significava algo importante que estava submerso representando material de primeira a ser trabalhado em terapia e tudo o que tinha a fazer era dizer a primeira frase que depois o resto fluiria como um rio caudaloso e o tempo passaria a ser pouco para extravasar uma torrente de emoções que aflorariam o que traria em mim um arrependimento por não ter começado logo a falar e assim pensando não me demorei nem  mais um segundo e só me dei conta que o tempo havia terminado quando meu terapeuta olhou discretamente o relógio em seu pulso


Ianê Mello


*

Pintura de Paulo Thumé


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