Manifesto do coletivo Pó de Poesia
O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.
Creia.
A poesia pode.
(Ivone Landim)
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Menina do rio (Silviah Carvalho e Arnoldo Pimentel)
Sua...
Nem a equação perfeita
Não quero saber da meteorologia
Não quero saber dos meus próximos dias.
Quero dominar a equação imperfeita do meu coração...
Quero Sol, quero Chuva,
"Quero o hoje...! Quero o hoje...!"
Quero enlouquecer com sanidade,
Quero ser de verdade!
Quero que me pegue, fazendo-me ser aquela.
Aquela que é escandalosa quando alegre...
Aquela que é um contraste da regra,
Aquela que veste letras poéticas.
Aquela que é deusa,
Aquela que é pequenina,
Aquela que é sua sina.
((( Camila Senna )))
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Casa vazia
na grande casa agora vazia,
por onde a solidão em pessoa
sobe e desce escadas todo o dia,
na paciente espera do entardecer.
A alegria da natureza que se impõe
escancaradamente no jardim,
dói como um nó pela garganta seca.
E a cadeira vaga na varanda,
à luz do sol a se aquecer
parece ainda mais vazia e muda.
Quem sabe a noite apagará as cores,
traga mistérios que a mim iluda!
E na ausência da luz se acalme
o clamor do peito curvado
sob o peso do passado inteiro.
E a escuridão generosamente encubra
os espaços tão sós e vazios
onde a felicidade andou a passear.
Poema de autoria de Elmira Nunes.
Poemas panfletários
Você é um homem ou um rato?
Um rato ou um saco de batata?
Seu barraco num barranco,
o barranco num buraco,
o buraco – uma caixinha de fósforo.
A condução, sem condições,
uma lata de sardinhas.
Da quebrada ao centro
ratos em caixinhas de fósforo,
sacos de batata em latas de sardinha.
Ratos e sacos de batata
das caixinhas de fósforo
direto para as latas de sardinha.
Você é um homem, um rato
ou um saco de potato?
Você é um herói,
o meu anti-herói...
A Raspa do Tacho
Os homens dão as cartas.
Os homens voltam para casa.
Os homens fecham a cara.
Os homens vão à caça
enfileirados indianamente
no frigorífico mais próximo.
Carne humana é a fina nata
da mão de obra barata!
Eu só como carne de 2ª
e uso roupa de 2ª mão.
Eu só como carne na 2ª
e no resto da semana não.
Dependurado num gancho
de açougue pela goela,
eu sou a raspa do tacho
no fundo da panela.
SOS Favela
Favela sobe o morro
Favela desce o rio
Favela pede socorro
SOS Brasil
Favela sob a ponte
Favela ano 2000
Favela no horizonte
SOS Brasil
Favela cobre o viaduto
Favela pega no fuzil
Favela subproduto
interno bruto
SOS Vazio
Favela se conscientiza
Favela realiza
Favela se realiza
Favela concretiza
Poemas de autoria de Andri Carvão.
A praça do herói
Soberbo relâmpago rasgando o escuro,
Corrida veloz, pombos na praça calma,
Vertendo na fonte um pedido seguro.
Só a força de algo como o pensamento,
Dá ao redemoinho o devido valor,
E a vida que vejo no exato momento,
Do dia findar derradeiro fulgor.
E a estátua da praça, sorrindo gelada,
Mostrando a destreza do herói lutador,
Esqueceu que deixou em distantes estradas,
O lar de Anita, verdeiro amor.
E sempre distante seguiu o caminho,
De lutas constantes por um ideal,
Com ela a seu lado, não segue sozinho,
Mas ela chorando a Terra Natal.
Poema de Paola Rhoden escito em Milão em 12/01/2011 em estilo épico e que fará parte de uma Antologia que será lançada em 11 de maio na Itália.
Viagem ao redor do entardecer
frases, riscos e rabiscos de netos, outros parentes e aderentes, no
conhecido padrão da teoria do caos: no dorso do pé, homem de ferro
enfrentava um possível agressor extra-terrestre, no meio da canela, uma
caveira com a inscrição gope disposta em colarinho; na parte externa da
perna, pendia quase obscena, a língua carnuda de um rolling stone.
Rivaldo coçava a bota internamente com um mata-moscas, enquanto
acompanhava Bruno, numa hipnótica reprise televisiva com Eddie
Murphy; tão antiga, apenas o neto de nove anos, expert em sessão da
tarde e similares, conseguia rir daquilo tudo, pela zilionésima vez;
concessão de uma infância alegre e despreocupada. Vez por outra,
uma olhada no meticuloso trabalho da nora - sim , para ele nora, para
o filho, simplesmente a ex; bom, problema deles, a sua Amarylis
há muito partira deste mundo aguado; melhor para ela – pensou em
surdina, enquanto Cecília recolhia o quarto tapete com auxílio da
diarista; o carpinteiro fixava uma barra metálica no banheiro próximo
do seu quarto, quatro marcas na parede do corredor, indicavam a
iminente instalação de mais duas – não é o que mata velho mesmo?
Caganeira e queda , não necessáriamente nessa ordem, filosofou
contemplando a bota gessada. Encima da mesa, despontava do
embrulho uma luminária, cor de pêssego para a nora, para ele,
cor de erisipela braba: uma sentinela para o sono já peso – pena.
Rivaldo agora coçava as costas; para a nora, o seu melhor sorriso
aparvalhado. Não deixava de ver naquilo tudo, uma compensação
idiota para um descaso já indolor pela idade. Ele, Cecília e Bruno.
Uma família? Quem sabe? O filho mais velho, jogou tudo pro alto:
casamento, emprego bom, cidade grande e foi plantar uva nas margens
do São Francisco. De usura, deu três meses para o retorno do marido
pródigo, mas as coisas deram certo, vez por outra, uma caixa de uva,
com rótulo em dois idiomas, mimo para o velho pai . Sorriu para dentro
enquanto olhava as radiografias, contra o sol na janela: uma canela
rachada deu naquilo tudo, imagina se quebra o fêmur? Está ali, uma
rachadurazinha no meio do caminho, no meio da perna tinha uma
rachadura aos oitenta bem vividos; apenas aturado por falta de opção,
dizia o sorriso amarelo e o andar rebolante da...mãe do seu neto. Isso
mesmo. Mais oito dias: sem bota, estranhava a brancura pruriginosa
da própria perna, parecia não fazer mais parte dele. Bruno em casa,
as férias definhando, os dias embaralhavam-se no tédio, feito o carteado
sebento com que às vezes divertia o neto. Numa das últimas tardes de
janeiro, perguntou de chofre, as palavras pulando da cabeça para a
boca, direto, sem cerimônia, olhando firme para o garoto
- Bruno, vamos visitar teu pai, lá perto da Bahia?
Estranheza e alegria, os pequenos olhos sinalizaram em rápido movimento:
- Vamos. Nunca mais vi meu pai. Nessas férias não fui pra lugar nenhum.
Selado o trato, dedo nos lábios, pedindo o silêncio do neto e apontou na
garagem, a motocicleta deixada pelo filho, com o resto da antiga vida no
bagageiro: dois capacetes, um par de luvas, num saco plástico transparente;
um desafio negro, imponente até debaixo de poeira tão velha quanto a
fratura da perna. Na manhã seguinte, comprou gasolina que estocou
escondida na garagem. Lavou, limpou, regulou a moto, fingindo trabalhos
de carpintaria que afugentavam a faxineira: boa e oportuna serra elétrica.
Madrugada do dia seguinte, ambos de casaco e capacete, abriram as portas
da garagem, empurraram o cavalo de aço uns bons cinquenta metros.
Acomodou Bruno na traseira, ligou o motor, quicou a partida e
arremeteu, contra o vento seco de janeiro. Agora, a cem por hora, sentindo
o vento forte contra o corpo; o conjunto, uma vela enfunada sobre o
asfalto. Logo, a aridez da paisagem alternava-se com áreas verdejantes; vez
por outra passavam por cavalos e bois raquíticos, parecendo a caminho do
fim do mundo, em marcha desolada. Uma longa reta, surgem as primeiras
algarobeiras; Rivaldo grita para o neto que aquelas árvores são tipo
camelos de vegetação, crescendo no calor, quase sem água. O garoto
escuta de olhos arregalados, grita e gargalha, imaginando um camelo
com quatro galhos ao invés de pernas. Parada para o almoço. Bruno
de olhar parado, vendo um bode virando buchada, na cozinha do
restaurante de beira de estrada. Indignado, comeu apenas o pirão,
que era gostoso nem era bode. Povo danado de ruim, aquele dali,
que ainda matava o bode à cacetada. As pequenas cidades vão-se
emendando, feito um rosário de beato. A tarde vai findando; o sol, um
tição no céu avermelhado, vai saindo de fininho.
Conto de autoria de André Albuquerque.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Um encontro especial...
A ponte que me leva todos os dias para casa, já nem sei se devo confiar... Por ser meu único atalho de ida e de volta, não tenho muito o que discordar. Mas algo vem me deixando intrigada: é que eu andei saindo, e na volta, ao invés de eu retornar para meu lar, eu ia parar sempre em algum lugar que, sei lá, é estranho e ao mesmo tempo familiar.
Sentia-me distante de tudo que conhecia, de tudo que vivia. Mas me sentia bem, como se fosse justamente aonde eu sempre quis estar. Talvez por me sentir à vontade e tão bem é que ficava arredia com o desconhecido, digamos: diferente da minha rotina e realidade.
Se eu contar essa história mal contada para minha psicóloga, tenho certeza, ela não vai acreditar, e logo vai-me perguntar: "Como era esse lugar?" Já que não vou contar nada para dra. Margarida, tratei logo de descrevê-lo nas entrelinhas do meu diário. Que é para se caso, ou por ventura, num desses azares da vida, eu caia e bata com a cabeça, esteja registrado. Então escrevo:
O lugar era rico em vida, com muito verde e árvores ao redor, com céu que mais parecia furta-cor. O sol rei parecia gostar da minha presença. O mesmo, escapava pelas fendas das árvores para me visitar... O vento era diferente, exalava jasmim... Mas o que mais me chamou a atenção foi aquela criança, uma menina diferente, que tinha algo especial. No início, pensei que a menina estava perdida e dava uma passada de olhar para ver se achava seus pais, mas nada!
Era lindo de ver como ela me olhava e sorria, como quem tivesse se encontrado, como se EU fosse um achado... Ela não falava, mas era como se ela fosse meu espelho. Eu podia ler todos os seus pensamentos, sentir todos os seus desejos, me alegrar com todas as suas brincadeiras e sentí-la como nunca senti ninguém, a não ser eu mesma.
Ela olhava para mim com olhos de esperança, com olhos de fé, tal como se eu fosse o seu futuro brilhante, o seu destino... E de repente tudo passava como um filme em minha cabeça: lembrava-me da volta para casa, da ponte, dos caminhos, do lugar e da doce menina com olhos regados de inocência, mas ao mesmo tempo urgência de ser aquilo que se sonha... Lembrava-me daquele sorriso que transbordava sinceridade, mas que ansiava liberdade. O cheiro da menina era o mesmo que o meu...
Pensei - tantas coincidências, será que o destino está a me pregar uma peça?
Ou enlouqueci de vez? Intensa que sou, resolvi pegar nas mãos da menina para sentí-la, tocá-la... E passeando meus olhos sobre sua palma, pude perceber que eram as mesmas linhas que as minhas - esfreguei meus olhos na busca de estar louca, com sono, míope... Mas não, era exatamente o que eu via, uma mão como a minha, um cheiro como o meu, os olhos de fé como os meus, o sorriso de sapeca que ansiava liberdade, tal como os meus.
De tanto buscar respostas para as minhas perguntas, cheguei à conclusão de que a linda menina era um anjo, mas logo me veio outra pergunta: como assim, um anjo?Logo eu? - cheia de defeitos, nada angelical, apenas com minha bagagem de fé, coragem, ousadia e na busca incessante da cobiçada liberdade, como pude eu ter contato com um anjo? Não, não, isso não é real. Resolvi procurar uma saída para sumir dali e marcar com urgência uma consulta com a minha psicóloga.
Quem disse que eu achava a saída? Conformada de que eu estava tendo um sonho bonito e louco, resolvi relaxar, cruzar as pernas como Buda e meditar. Meditando, ouvi o sussurrar do vento baixinho no meu ouvido, dizendo: "essa menina é você, Valentina, é apenas um encontro com o seu "Eu" e com sua menina, com seus sonhos, com sua inocência ainda intocável, quando tudo era mais bonito, quando tudo era possível.
Atônita, levantei-me daquela posição de Buda e fui olhar bem de perto aquela menina. Ela estava sentada na pedra, me olhando e, como sempre sorrindo...
Eu encantada com o que tinha ouvido, deslizei minha mão sobre seu cabelo, acariciei seu rosto alvo e notei que o mesmo cordão de ouro que eu tinha ganho com três anos de idade estava ali, bem no pescoço da menina.
Pude ter a certeza de que o vento amigo não brincava comigo. Fitei o breu dos meus olhos sobre o breu dos seus e vi minha'alma. Isso mesmo - vi minha'alma... Enxerguei toda minha trajetória até aqui, vi todos os caminhos que insisti passar, todas as guerras que eu tive que lutar, todas as lágrimas derramadas sobre aquele lençol, todas as vidas que Deus permitiu que partisse, todo o amadurecer de uma menina-mulher. Me vi inteira, desnuda... Corajosa e ao mesmo tempo desprotegida. Vi toda a vontade interior que eu sempre tive de mudar minha história, transformando minha tristeza em alegria, minhas perdas em força, mas que com o tempo e com a vida corrida, já tinha esquecido! Pior, tinha esquecido de mim!
Aquele túnel do tempo com encontro marcado comigo fez-me enxergar novamente... Tirou toda a poeira que embaçava minhas lentes e me deu gana de voltar a ser aquela menina idealista, sonhadora e com alegria na alma. Quando a ficha caiu de verdade, uni minhas mãos sobre as dela, fechamos os olhos, e quando os abrimos, parecia mágica, nos transformamos em uma só.
Fui marcada e jamais esquecerei o motivo pelo qual eu existo, pois não caí de paraquedas nesse mundão de meu Deus para ser só mais uma. Eu fui escolhida, e minha missão aqui na terra é com um propósito: de ser estupendamente feliz!
domingo, 30 de janeiro de 2011
Prometeu passeia entre os dedos
“Our house is very beatiful at night”
Lou Reed, in My House
Nesta sexta conto dois meses sem fumar.
Fecho livro, abro janela, desligo a tevê.
E acendo um cigarro.
- Suzi?
Alê resolve ligar.
- Alê ?
- É você, Suzi?
- Acho que sim, e você?
- Também.
O Alê sempre me convenceu a sair de casa, porque eu nunca me dei tempo de aprender a disfarçar qualquer indisposição. Então troco de roupa, ponho uma malha, e da janela do quarto tento decifrar as horas. No relógio, dezoito e uma fração qualquer.
Fecho a janela do apartamento, a porta do quarto, dobro a chave, e desço as escadas como uma louca, atrás de alguma coisa sem nome, somente guiada pelo convite do Alê, que namoro desde que cheguei aqui e que, como eu, divide apartamento e depende da merreca dos pais para pagar o aluguel de seu pardieiro. Corto duas ruas, e lá está o Bruno, cada dia mais gordo, fazendo sinal com sua mão redonda. Me chama pra subir, como se não soubesse a que vim. E lá estou, abrindo ao avesso a porta de entrada do condomínio, do elevador, e da casa que o Alê divide com o Bruno, o gordo da mão redonda.
- Mas quem é vivo sempre aparece – ele diz sorrindo.
Debaixo da camiseta do Bruno, vejo duas pizzas. Disfarço.
- Sabia que tu engordou?
- Não.
- Fique sabendo.
O Alê aparece com a toalha enrolada no cabelo. Ele parece um hippie. Acho prescindível, mas gosto dele. E da barba de riponga dele também. Amo o Alê. Mas hoje não sairemos pra nenhum sushi bar, nem arriscaremos um pub. E como não costumo adivinhar bem, atesto o fato a partir do artefato: Jean-Luc Godard. Acossado. Disfarço cínica e exaustiva aquela cara de episódio recorrente. Peço um cigarro.
- Mas não contaria seis meses?
- Sim, mas com o cigarro na boca, a partir de hoje.
- Aluguei um filme pra gente.
- Mesmo? – eu pergunto, olhando enviesada pro dedão do pé.
- Sim. Olha aqui.
Ele me mostra o filme que já vi. E me leva pro quarto. Faz frio. O saco do Alê fica pequeno quando tá frio, mas o pau dele continua firme como uma rocha e doce como um damasco que eu vou chupando calorosamente, enquanto me masturbo. Ele liga o som. Lou Reed canta pra mim, enquanto o Alê me põe de quatro e enfia gostoso, provando a mim como sou carente. Ele goza na minha boca. Eu gozo logo depois, nunca gozamos igual, fato que ele desconhece. Enfim, daí tudo desaba na cama, e o silêncio se quebra logo, como de costume. Ele se acha intelectual, porque diz entender o Godard. Já eu prefiro achá-lo gostoso, para não elencarmos outro atrito aos demais, afinal estamos deitados entre estes lençóis esperando chegar a grana que paga as contas. Ele pergunta como foi o dia.
- Igual ao seu, só que mais cansativo: cinco entrevistas de emprego: nenhum delas, enquanto tu continua com a bunda sentada na cadeira, sustentando o arquétipo de grande sábio à custa do salário de teu pai. Acho tão forçado. Acho banal e forçado, sabia?
Ele levanta puto, e vai ver o filme. Eu continuo deitada olhando minha bunda empinada no espelho, mas não choro. Não é hora.
( New York Herald Tribune! New York Harold Tribune!)
Jean Seberg. Grita impecavelmente bela aos transeuntes parisienses. Os meninos olham famintos pra ela: Alê põe a mão no queixo. O gordo, no pau. E enquanto os dois marmanjos guardam suas ereções continuo a pensar que chupo muito melhor que a Jean Seberg, e que mesmo aqui, enfurnada neste inferno, levando não na cara a cada vez que mostro esse diploma, que mesmo não cotada sequer para um pornô de quinta, ainda guardo nas marcas de minha face a presunção de uma Liv Ulman.
Tento perguntar por quê tudo acontece nesse ritmo fora de controle, analiso trajetórias e tento achar uma solução menos fatalista, uma decisão que traga resultados ágeis, intercâmbio, metanfetaminas, oportunismo aplicado a docentes senis, mas tudo se estagna tão logo vejo o Alê, transpirando alegria e preguiça.
- Amanhã será um dia diferente – penso comigo mesma. Mas se não tiver sol, será glacialmente mais bonito que agora.
( Bonjour, monsieur inspecteur)
- Tu tem um fósforo? – o gordo pergunta, cigarro no canto da boca.
(Vous organisez voyage maintenant ?)
Empresto minha bituca. E lá estou eu, entre hiatos de silêncio que se movem devagar na sala, alheia a tramas, totalmente cheia de sono, a contemplar o passeio do fogo por entre os lábios de meus dois homens, passeio tedioso, porém dedicado, cujo ciclo se atualiza à medida que a bituca acende um novo cigarro. E se lá vai o último palito de caixa de fósforos.
- Ninguém tá a fim de descer e descolar um fogo?
Michel Poiccard, quanta beleza em teus gestos bruscos. Amo teu senso de negligência, recebo-te como quem te prende a dois instantes em troca do risco de teus pequenos furtos.
A gente se encara cheio de ódio, garras arruinadas, punhais cegos. Estamos absolutamente cansados de continuar a viver. Mas insistimos. Dissesse ele que não me amasse, me encostasse na porta a pontapés, me traísse, enfim. Mas não. Alê preferiu me amar. Pura covardia.
(Ouais, et alors?)
- Porque alguém teria de se levantar, ou tô parecendo muito arbitrário?
( argent a été volé, mais jê vous aime )
Trago bem forte aquele cigarro. Morte paulatina, como o pico de um orgasmo. Capoto na cabeceira do sofá. Bruno, que se encontra exatamente entre mim e o Alê, toma-me o cigarro e dá também seus tragos, produzindo uma espécie hedonista de atividade, cuja ação só terá seu sentido enquanto a chama do cigarro se mantiver acesa. Me olha bem fundo nos olhos.
(Pourquoi vous es triste?)
- Prometeu passeia entre nós – ele diz, como se o segredo do mundo estivesse ao alcance de seus dedos.
(Parce que je suis triste)
Sopro em seu rosto uma lufada de fumaça. Ele ri. Seu riso tem uma duração sui generis, dissipa-se no meio do fumo. Alê esquece o filme pra se aproximar da gente. Somos apenas nós, garimpando nostalgias, como excêntricos escoteiros.
(I don’t know if i’m unhappy, because i’m not free, or if i’m not free because i’m not happy)
- Prometeu está entre nós – ele repete sua epifania, enquanto a gente se integra num único ritmo sob a mesma pena de reacender os últimos cigarros.
(Tu connais William Faulkner ?)
Alê traz algumas long necks. Aos poucos, flagrava seu olhar apagando indícios. Olhava pro céu, igual lobisomem. Aproximo-me. E uivamos os três para a lua que sangrava como uma chaga aberta no firmamento. Sobre sua superfície gigantesca, parcas e fúrias curtem uma trip, enquanto assistem ao trágico espetáculo do inevitável. Então choro, porque o fim é iminente. O último cigarro apaga-se, pondo fim ao nosso harmonioso ciclo.
(C'est un romancier que j'aime bien. Tu as lu Les Palmiers sauvages ?)
- Bruno. Meu pobre Bruno...
Durante toda aquela noite, Prometeu estivera entre nós, a fim de que tudo naquela noite se mantivesse fresco e pacífico, ritual de passagem vagabundo para outro dia. E lá está Belmondo, atirado ao chão, como convém aos marginais, rosto à luz itinerante de um sobejo de tabaco. Alê me beija.
- Você é minha Jean Seberg.
(C'est vraiment dégueulasse)
- E você, meu Poiccard.
(Qu'est ce qu'il a dit?)
À minha volta, tudo acabado e triste: garrafas no chão, Prometeu acorrentado, Bruno adormecido sobre seu sofá.
(Vous êtes vraiment une dégueulasse)
Resolvi nunca mais retornar àquela casa. E nunca mais voltei a fumar.
(Qu'est ce que c'est "dégueulasse"?)
Conto de autoria de Plynio Nava.
sábado, 29 de janeiro de 2011
Pensando triste
Talvez demente!
Quem sabe o sol
Traz o calor
Para um amor
No arrebol.
Seria um pranto
Talvez encanto!
Que em uma vida
Vendo esta luz
Que o som seduz
Alma ferida.
Grito de fera
Uma quimera!
Seria a fonte
Essa lembrança
Sem esperança
Ou uma ponte?
Só abro a mente
E sigo em frente!
Não é de hoje
E nem foi ontem
Foi um desmonte
A dor no alforje.
Poema de Paola Rhoden que será publicado em Antologia na Ciudad de México - Janeiro de 2011.
Navegante
Às vezes leme,
às vezes vela
e toda vez que vem a tempestade
me ancoro num ponto 'ausente.
Escarnecendo meus nós
por uma voz temente.
Navego por onde segue a calmaria...
Às vezes proa,
às vezes popa
E nessa calmaria eu navego...
Sigo a maré que me leva ao porto
onde minha letra desfaça tudo
que tange lúgubre.
E a calmaria segue...
Poema de Rosângela Ataíde.
Mitologias
Por tanto pressa
Foi nosso amor,
Foi nossa dor
Nas vastas vias
Congestionadas
De estreitas gentes
Em amargor
Nas mãos de Chronos
E devorando
Os próprios filhos,
Mitologias,
Enquanto guiam,
Entre Tifeus,
Titãs e cérberos
E vãs certezas,
Os próprios carros,
Os próprios medos
De sós ficarem
Sem posto ou carro,
Sem cargo ou farra,
Paralisadas
E engarrafadas
Nos vãos, semáforos
De uma avenida
Que só conduz
A inútil pressa
De quem perdeu
Há muito tempo
As mãos e o véu,
Úbere céu
Que nos atavam.
E agora assim
Sem nada mais
Que nos vincule
Sem canto ou messe
Para cantar,
Para ceifar
E que traduzam
Feroz vertigem,
Qualquer verdade,
Perdida herdade
Que nos acolha,
E nos recolha
De frio chão,
Procuro em vão
Por nós, velames,
Por quilha e amarras,
Velhas canções,
Arras, camões,
Canhões, guitarras
Num peito arcano
Que mesmo só
Sem vela e insano
Na estrada imensa
Insiste e canta.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
POEMAS DE ANDRI CARVÃO
naquela vila
naquela viela
no fim da fila
lá na favela
nos becos
botecos
nas quebradas
bocadas
aos trancos
e barrancos
barracos
nos buracos
das enxurradas
das enchentes
e cheias
cheias de gentes
soterradas
é a vida
fecharam a entrada
da boca de fumo
do beco sem saída
não moro
no morro
me escondo
onde Judas perdeu as botas
no raio que o parta
na puta que o pariu
na casa do caralho
na casa do chapéu
fico no fundão
moro no fundão
vivo no fundão
sou do fundão
fundão da zona norte
fundão da zona oeste
fundão da zona sul
fundão da zona leste
fundão da sala de aula
fundão do busão
no âmago da alma
do fundo do coração
no fundo do poço
no fundo no fundo
no fim do túnel
no fim do mundo
no cu do mundo
NÃO
logo ali ao lado
lá longe
do outro lado de lá
no cu do Judas
mundo perdido
tudo fodido
na fossa
no fosso
na poça
no poço
no fundo do poço
entre dejetos fetais
cicranos beltranos fulanos de tais
quais
quer +
despojos expurgos
excretos concretos
infelizes fétidos
boatos discretos
secretos
sem destino
na multidão
sem sentido
na solidão
em meio
ao devaneio
mera
quimera
doce ilusão
sem rumo
me arrumo
penico no pires
no ponto final do arco-íris
sem pote de ouro nem anão
(Pra lá de Bagdá
Pra lá de Bangladesh
Pra lá de Shangrillá
Pra lá de Marrakesh
Última partida
Ai de mim
Fim de linha
Dor sem fim!)
POEMAS MARÍTIMOS
Mensagem Engarrafada
O marulho do mar
O barulho do bar
O barulho do mar
O marulho do bar
Homem ao mar - náufrago
Garrafa ao mar - mensagem
Homem no bar - bêbado
Garrafa no bar - quebrada
Briga sobre o balcão
Entre sujeitos sujos
De vestes e de almas
Homem do mar - lobo do mar
Homem do bar - bebum do bar
Homem-mar / Homem-bar
Maresia / Bar & Cia.
Ar – Raro Efeito
Abrem brechas
Brisa branda
Breve brilho
Brumas brancas
Sobram sombras
Bravos abrolhos
Ressaca
Garrafa náufraga.
Rolha no gargalo.
Papiro amarelado.
Mensagem indecifrável.
“Liberte o Gênio.”
Letra ilegível.
Língua morta.
No rótulo “BEBA-ME!”
Mau Agouro levou seu olho.
Não seja ingênuo.
O gênio
Se acha
Mas não se encontra.
POEMAS DESCONJUNTADOS
Água2Zero
água natural
água mineral
água torneiral
água de beber
água molhada
água potável
água da fonte
água da bica
água de coco
água de colônia
água gaseificada
água doce
água salgada
água que passarinho não bebe
água oxigenada
água salobra
água cristalina
água tratada
água fresca
água filtrada
água pluvial
água fluvial
água rás
água viva
água-furtada
água líquida
água sólida
água gasosa
água insípida
inodora incolor
água na boca
água de batata
água turva
água benta
água do joelho
Carmen Miranda
banana prata
banana maçã
banana figo
banana da terra
banana frita
banana cozida
banana de pijama
banana d'água
banana ouro
banana pão
banana blue
banana boat
banana verde
banana madura
banana podre
banana nanica
banana de dinamite
banana split
banana pra você
Noz Moscada
nó de gravata
nó na garganta
nó de marinheiro
nó em pingo d'água
[pingo d'água
pouco d'água
copo d'água
cobra d'água]
nó cego
nó no serviço
nó bem dado
nó apertado
nó no peito
nó no nó
FIGURAS NAS NUVENS
Todas as Cores
amarelo com vermelho
uma fruta
vermelho com azul
uma flor
azul com amarelo
uma folha
a pomba
na teoria
o luto
na prática
vermelho com preto
a terra
vermelho com branco
outra flor
preto no branco
restos mortais
Uma Nuvem
avelu
mente
dada
dada
avelu
mente
dada
mente
avelu
mente
avelu
dada
avelu
dada
mente
O Duplo
as sombras
das nuvens
nas montanhas
o reflexo
das árvores
no riacho
o homem
sem reflexo
no espelho
o primata
sem sombra
no chão
puro espírito
a beleza
é terrível
ALGUNS HAIKAIS
Banquete dos Mendigos
Galinha preta
ao molho pardo
na encruzilhada.
Paradisíaco
praias desertas
horas incertas
mentes abertas
Nau
Navio pirata
Navio fantasma
Nau frágil
Você me Lava feito um Vulcão
Fogo na montanha
Lava no mar
Formações rochosas
O Náufrago
Canto de sereia
Cauda de baleia
Castelo de areia
Pretérito Imperfeito
Todo dia
O dia todo
O passado presente
GERAÇÕES EM CONFLITO
Geração Espontânea
Provo
o novo
ovo
do povo
Reprovo
o novo
ovo
do povo
Provo
e reprovo
o ovo
E desaprovo
o ovo
de novo
Geração X
guardei o rolex
no marmitex
passei lubrax
no jontex
enfiei tampax
no rex
cheguei ao clímax
no box
passei um fax
depois ajax
achei o max
o denorex
coloquei durepox
no duralex
passei durex
no sax
tirei xerox
do tex
jantei inox
com pirex
passei látex
no gálax
espirrei antrax
no fedex
e ganhei um tórax
mais sexy
A ALGUMAS QUADRAS DAQUI
o sorriso
amarelo
é um belo
aviso
na hora h
do dia d
a bomba h
no ponto g
gosto
do clima
de gustav
klimt
o sono
profundo
é o dono
do mundo
PÓ DE PIRLIMPIMPIM
aponta
a planta
na ponta
da ponte
e pinta
o poente
de pranto
só
se
sente as-
sim a-
cima do
sétimo
céu a-
quele
que
cai aos
ca-
cos no
caos do
chão de
cal
conta
e canta
quantos
plânctons
na planta
libélula lilás
belisca bétula
POEMAS LILIPUTIANOS
Fábula Verídica
Era uma vez
até que um dia
todos viveram felizes para sempre.
Sal na Lesma
A lesma passeia
construindo sua estrada
de diamantes
enquanto o encanto
inicial se esvai
no ralo sujo da memória.
A Mosca
A mosca tem várias visões do mundo
e eu não alcanço o seu ponto de vista.
E nem a avisto quando ela pisa fundo
e eu perco fácil fácil a sua pista
MADE IN PARAGUAY
charuto cubano
filosofia alemã
cinema americano
e a música brasileira
whisky escocês
tapete persa
perfume francês
e a seleção brasileira
porcelana chinesa
balé russo
tecnologia japonesa
e a mulher brasileira
VC
Você
liga a tevê
e
o quê
você
vê
?
Você
desliga a tevê
e
o quê
você
vê
?
Você
fecha os olhos e
o quê
você
vê
?
Você
!
REQUIEM
Quando eu morrer
quero que queimem todos os meus escritos
em praça pública, caso eu for mais um.
Morto não sente mais dores.
Quando eu morrer
não quero flores e nem quero velas,
não em minhas roupas ou no meu caminho.
Morto não enxerga cores.
Quando eu morrer
quero que queimem todos os manuscritos
em casa mesmo, caso eu for famoso.
Morto não derrama lágrimas.
Quando eu morrer
não quero caixão e nem ser sepultado:
quero apenas o meu corpo atirado ao mar.
Morto não respira mais.
Quando eu morrer
não quero que paguem as minhas contas,
pois quem paga deve ser sempre o devedor.
Morto não deve um tostão.
Quando eu morrer
não quero que chorem no meu velório,
pois só se chora por dor ou por culpa.
Morto não pede perdão.
EU POR MIM
Eu não combino comigo
Eu não pertenço a mim
Eu não vejo nada em mim
Eu sou o meu maior inimigo
Eu não caso comigo
Eu não preciso de mim
Eu não caibo mais em mim
Eu sou o meu próprio castigo
Eu não colaboro comigo
Eu não choro por mim
Eu não sou páreo para mim
Eu sou um modernista antigo
Eu não pareço comigo
Eu não esqueço de mim
Eu não transito em mim
Eu sou do tamanho do meu umbigo
Eu não sonho comigo
Eu não me escondo de mim
Eu não vivo sem mim
Eu sou um fantasma com vitiligo
Eu não durmo comigo
Eu não estou preso a mim
Eu não separo meu eu de mim
Eu sou o medo e o perigo
Eu não encaixo comigo
Eu não sou tarado por mim
Eu não piso em mim
Eu sou a sombra que sigo
Eu não misturo comigo
Eu não fujo de mim
Eu não me espelho em mim
Eu sou o que sou e nem ligo
Eu não convivo comigo
Eu não me sustento em mim
Eu não me perco de mim
Eu sou tudo o que eu digo
Eu não aprendo comigo
Eu não sou o oposto de mim
Eu não estou acima de mim
Eu sou o joio e o trigo
INÉDITO HOJE
Saio da janela e ligo a tevê
Novela rural
Mudo de canal
Comercial
Mudo de canal
Programa musical
Mudo de canal
Entrevista banal
Mudo de canal
Infantil fecal
Mudo de canal
Mapa astral
Mudo de canal
Telejornal
Mudo de canal
Hino Nacional
Mudo de canal
Mundo animal
Desligo a tevê e volto à janela
VARIAÇÕES SOBRE A MESMA TEIMA
i.
Deitado na cama
fumando no escuro.
Sem coberta e com frio,
coberto e com calor.
Baforando zeros do vazio
interior.
ii.
Eu
no centro da capital
e o interior
dentro de mim.
iii.
O tédio do interior
ou o tédio da cidade?
O tédio é interior
no campo ou na cidade.
O tédio é solidão.
O tédio é multidão.
O tédio do interior
ou o tédio da cidade?
O tédio é interior
em qualquer localidade.
Na praia ou no deserto
tão longe, tão perto.
Autor: Andri Carvão.
Se Luminar
mesmo em horas a fio
das que me sobrevém o pranto,
as que andas na contramão.
Se Luminar.
Iluminado o sorriso
torto
onde me encontro,
por quem me perco!
És Vida que sobrevive entre
tormentos...
Ultrapassa expectativas,
Supera as esperanças.
Se luminar!
Porquanto minhas reservas a ti
é puro encanto...
É amor de fato.
Penso meu corpo no teu pousado
deveras receptivo,
eterno aliado
...Nós dois vida afora enamorados!
Mas que não seja
vida afora e seja apenas
instante...
Ainda assim,
Se Luminar!
Poema de autoria de Rosângela Ataíde.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Jasão e a sua riqueza
Ficará com os argonautas. Coro
De Netuno: o navegador Nestor,
Na beleza, desse tão hercúleo encargo;
À coragem dá-se um Teseu, calouro;
E ao lirismo, os dedos de Orfeu, um tesouro.
A viagem, a embarcação, de novo
Encoberta por um dragão nesse antro...
Vãos temores; adormecido o touro.
Semideuses a proteger um argo
Sustentando com mãos de ancoradouro
A fortuna de navegar seguro.
Poema de autoria de Yayá.
domingo, 23 de janeiro de 2011
Um sábado e duas redes
estendeu a garrafa por cima do balcão e abasteceu aquele copo que parecia
sem fundo, saciando a sede peregrina de João Caboclo. Beberrão ele era,
mas naquele dia, embebedou-se diferente de todas as vezes: a fala
enrolada, mas a cabeça lúcida, quase não tombava, virava o copo e
lascava na ponta da faca, o pedaço de charque, que às vezes arremessava
pra cima e aparava com a boca. Algo estranho naquela sede ribeirinha, de
beber até o rio lá embaixo, se virasse aguardente. Mas o ardente mesmo
era o juízo dele, o dono da bodega, pastorando o último bêbado do sábado à
tarde, o banzo de fim de feira, a matutada voltando pros sítios, e ele
aturando um pau dágua esquisito, bom pagador e respeitador, mas só a
imagem de Elza, o que não foi e tantas possibilidades, fazia-o suportar
aquela besta fubana. Namoro de juventude, dez anos atrás, agora cruzavam-
-se na rua, o cumprimento constrangido da Elza recém–casada, virou
silêncio e olhar perturbado para um chão que nenhum dos dois enxergava,
embora vissem. A vergonha pelo que não fizeram, do desejo aspirado à
força bem para dentro, a roedeira terna e eterna, um sofrer fugidio e
pegajoso. E correu o tempo, aquilo ia queimando por baixo, feito fogo de
monturo; João Caboclo, rei da vaquejada, pequeno no tamanho, grande
na brabeza, melhor criador de gado gir das redondezas, cachaceiro emérito
de sábados e domingos, um pirralho a cada ano e nisso já se vão seis.
Desmerecia a esposa, tomando a prima Nicinha como amante, toda a
cidade já sabendo, apenas Elza se fazendo de doida; últimamente, aos
domingos, ia até a igreja acompanhada da pirralhada toda, o marido de
mundo afora, engolindo poeira e farejando aguardente. A Nicinha, boa
bisca, tinha namorado: Doca Faustino, um comerciante de miudezas,
magro, encurvado pela altura e pelo peso dos chifres, diziam as almas
sebosas, na tenda de Biu Barbeiro, entre uma meia–cabeleira e uma
costeleta pé-de-bode no capricho, igual á daquele gringo, Elvis Presley.
Aí os pensamentos de Manézinho fizeram um arco no espaço, feito ave de
arribação buscando rumo, aquela conversa sem fundo nem boca, um lero
–lero de encher até pneu de trem, que nem tinha pneu, olha só. Mas de
supetão, o pau d’ água debruçou-se no balcão e sussurrou, um bafo de
onça filho de todos os alambiques - segredo de bêbado também não tem
dono:
- Manézinho, hoje eu mando Doca Faustino pras profundas dos infernos,
pra derreter os chifres até dar um circuito no zumbi dele, porque corno não
tem alma...
Agora o encachaçado era Manézinho, sem cachaça nem nada, a
confidência entrou no ouvido e começou a dar canga pés, lá dentro do
juízo. A boca secou mas a curiosidade não, debruçou junto dele e
cutucou a onça:
- João, desculpe, não ouvi direito, você vai fazer o que, mesmo?
- Fazer o mundo mais maneiro, mandando Doca Faustino pro inferno,
porra!
Mais uma lapada de cana, outra virada, agora uma lasca de queijo de
coalho, puxou um bolo de dinheiro do bolso, pagou a conta, de gorjeta,
bem, pra que falar na gorjeta agora? Saiu, de cabeça baixa, a Rua do
Carvão estreita pra tanta brabeza movida à cana. Manézinho matutava,
João Caboclo era um bêbado completamente diferente, tombava mas
não conversava miolo de pote, mentira então, muito menos. Assuntou a
vida, olhando pra balança velha, o queijo ainda lá encima, olhou o
prato ainda reluzente por fora e já escuro por dentro. Viuvez à vista,
tiroteio á vista, Elza ainda gostosa, mesmo cheia de menino, aqueles
olhares constrangidos, relâmpagos de desejo mal-satisfeito? Ainda o
queria? Se aquele miserável não acabara com o corpo, a cabeça ainda
dava conta? E a humilhação, depois de tanta esfregação, juração de
amor e ainda fazer sua semente deitar à terra, um medo mais pra nojo que
medo, mesmo. Agora, seis filhos nas costas, a prima raparigando com
o esposo e .... E? Que a vida resolva suas próprias broncas, ele continuava
naquela solteirice viúva, vivendo com a irmã meio louca, na doidice de
ficar na janela da sala, acalentando o filho que só no pano e naquele fundo
destrambelho da cabeça existia. Foi invadido por um cansaço, embalado
no calor de janeiro, sentou num tamborete, escorou-se numas sacas de
feijão, o sono pegou–o de cheio mas desabou correndo de dentro dele,
com os gritos de Neco Gato, de braços abertos, segurando-se no portal,
anunciando que quase agora, no final da tarde, João Caboclo matou Doca
Faustino, e vice-versa, mais pra vice do que versa, pois João Caboclo
levou cinco tiros e só acertou dois, mas no coração de Doca. Manézinho
levantou-se, foi até à porta, olhou para o alto da ladeira da Rua do Carvão,
a tempo de ver duas redes ensangüentadas, transportadas lado a lado.
Os carregadores tentavam proteger o rosto do sol, os chapéus não ajudavam;
mesmo no final da tarde, o sol de janeiro ainda era uma fornalha ardente.
Conto de autoria de André Albuquerque.
sábado, 22 de janeiro de 2011
Passeio sem rumo
Vi uma florzinha resistindo à neve que arroxeava os lábios das crianças
Na rua
Vi um pássaro perdido nos galhos secos e chorosos de uma árvore branca
Nos homens
Não vi sorrisos, apenas esgares, caminhantes de rostos enregelados
Olhando o céu escuro
Sorri feliz por estar viva entre tantos pontos de luz envidraçados
Este poema é de autoria de Paola Rhoden, escrito por ela em dezembro de 2010 quando visitava o Salon du Livre onde será lançada uma Antologia da qual ela faz parte de 18 a 21 de março de 2011.
Fazedoras de filhos fracassadas

Kátia estava triste a passar roupa. Pensava na vida como que pisasse em cacos de vidro e fosse obrigada a engolir a seco o choro de dor. Sua fome de vida estava lhe trazendo conseqüências desagradáveis, dolorosas. Mãe de três filhos, cada um de um relacionamento diferente, e já grávida do quarto - após várias aventuras amorosas - voltava a viver sob as hospitalidades da amiga Noêmia que já havia a acolhido antes na gravidez do primeiro filho em sua casa na rua Aguapeí, no bairro Piam, em Belford Roxo. Kátia tinha sido sempre muito afoita em tudo. Muitos homens entre adolescentes, rapazes e até mesmo alguns senhores casados de todas as cores, idade, peso e altura já tinham sentido na pele do corpo inteiro sua ânsia por prazer intenso em fugidas, pegações, ficadas, noitadas e orgias entre uma batida de funk e uma roda de pagode; entre um copo de cerveja e um cálice de vinho; entre um e outro tapinha num cigarrinho de maconha. Mas como tudo tem seu preço quando o cuidado não faz parte da rotina de um ser-humano, ela agora esta ali... Sem trabalho, sem homem. Respirando o que não queria; comendo o que não queria; ouvindo o que não queria.
Noêmia teve que fugir de casa aos dezessete anos por causa da irmã mais velha que queria rasgar seu rosto com gilete, invejosa de sua beleza. Mas conheceu um homem bom e remediado que se casou com ela e lhe deu um nome, um lar e uma filha. Só que em seu casamento faltou o amor e uma pitada de paixão e com isso Noêmia numa bela tarde se descobriu traída pelo marido. Revoltada, se separou pondo-o para fora de casa. Então passou a aturar cobranças não só dos credores - já que o ex não lhe ajudava em um centavo - mas também do atual namorado que exigia uma relação mais séria e da filha que, já adolescente, crescia exigindo a presença do pai dentro de casa. Tudo isso além de criar o filho mais velho de Kátia.
Kátia e Noêmia agora estavam ali, passando roupa naquela casa velha; precisando de uma reforma. Com o telhado quase caindo em suas cabeças. Ouve-se um barulho de portão se abrindo; passos pela varanda. A porta se abre e naquela sala quente entra Verônica, comadre de Noêmia, acompanhada de seu jovem filho Marcelo, afilhado de Noêmia. O papo corre solto e animado até que Verônica fala da ex-cunhada Edilene. Outrora, Noêmia havia tomado conta de Miltinho, filho de Edilene, sobrinho de Verônica.
- Hum! Essa aí se deu bem, minha filha. - Dizia Verônica com sarcasmo e um pinguinho de inveja. Tá com seis filhos. Cada um de um homem diferente. Botou todos eles na justiça e hoje recebe pensão dos seis. Agora tá morando num casarão em Miguel Couto. A mordomia da nega é tanta que os filhos vão levar o café da manhã pra ela na cama. E você pensa que é café e pão com manteiga? Nada disso! É suco, frutas, queijo, presunto, geléia... Tudo na bandeija.
Ao ouvir aquilo, Noêmia deu um tapa no braço de Kátia que da sala a outra quase foi parar na cozinha.
- Tá vendo Kátia? - Perguntava a anfitriã numa fúria intolerante. - Tá vendo, sua fazedora de filho fracassada? Mulher que quer ser piranha tem que ser piranha esperta. Piranha burra fica é pastando pela casa dos outros igual você. Mulher burra tem mais é que tomar no c... pra deixar de ter o grelo no lugar do cérebro.
Marcelo caiu na gargalhada dada a teatralidade histrionicamente humilhadora do esbravejar da madrinha. Constrangida, Verônica começou a beliscar discretamente o filho para que parasse com as risadas.
- Deixa ele rir, Verônica! - Determinou Noêmia ao notar o embaraço da comadre. - Pode rir, Marcelo. Você está na minha casa.
Ao perceber a lágrima invisível que rolava no rosto de Kátia, Marcelo cessou o riso e, sentindo-se culpado, quase despencou da gargalhada escrachadamente histérica para o choro desesperadoramente comovido.
- Bom! Eu já vou indo. - Disse Verônica levantando e puxando Marcelo pelo braço. - Foi só uma visitinha rápida.
Ao sair pelo portão, Verônica assumiu uma aura de tristeza e indignação repreensiva.
- Noêmia não deveria tratar essa moça dessa forma. - Disse ao filho num monólogo inconsciente. - Ela se esquece de tudo que viveu. Ela se esquece que tem uma filha mulher dentro de casa.
Verônica andava pela rua com o olhar parado; misteriosamente distante como o olhar sedutoramente longinquo de uma mulher do Oriente. Marcelo, olhando-a parecia assistir ao filme invisível que passava diante das vistas austeramente melancólicas da mãe através de suas lembranças. Quando ela ajudou Noêmia a fugir da irmã. Neste filme a protagonista era a própria Verônica e as cenas eram dolorosamente cults. Seu pai proibindo-a de continuar seus estudos, ainda menina, para ajudar a mãe a cuidar da casa e tomar conta dos irmãos menores, já que ela era a mais velha de todos. As madrugadas em claro tendo que embalar o sono dos irmãos e tendo que esquentar o leite já que a mãe tinha que atender aos apelos grosseiramente amorosos do pai na fabricação de mais irmãozinhos. Os gritos dos irmãos e o roncar da cama dos pais eram a trilha sonora da infância daquela mulher; somado ao medo de dormir no meio da tarefa e ser despertada por uma surra de moer os ossos.
Na pausa para o intervalo, em frente à banca de jornal, lê na capa de revista de celebridades sobre a famosa socialite da zona sul que acordou numa luxuosíssima cobertura em París ao som de uma orquestra de violinos na manhã seguinte à noite em que disse ao marido, um poderoso empresário, que estava grávida. Isso remeteu-a há alguns anos atrás, num quartinho imundo e abafado do bairro Areia Branca, quando o até então namorado Joaquim arremessou um punhado de dinheiro em sua face para que fizesse o aborto ao saber de sua gravidez; e ela uma vez desobedecendo-o e tendo o filho, tendo que abandonar o emprego de enfermeira dois anos depois para se dedicar integralmente ao pequeno Marcelo, mediante as ameaças do já marido Joaquim de abandonar o lar.
A capa da revista remeteu-a também à casa dos pais de onde foi expulsa aos bofetões pelo pai que não queria uma filha mãe solteira dentro de casa. Ela tendo que se abrigar na casa da amiga Agripina, também grávida, e que mais tarde seria a mãe de leite de Marcelo. É. Se Eva soubesse que a conta que teria que pagar por ter dado o maldito fruto para Adão comer fosse tão alta, teria ela comido a própria serpente assada.
Quando passou em frente à padaria lembrou que tinha que comprar pão. Quando chegou no guichê uma voz melancolicamente doce chegou em seu ouvido como o canto de um anjo:
- Moça, compra uns doce pra me ajudá a dá de comer pros meus fio. É baratinho!!!
Uma bela, mas suja, esfarrapada e maltrapilha jovem negra lhe oferecia uma caixa de bananadas. Duas crianças pequenas e um bebê no seu colo choravam ensurdecedoramente de fome. Os olhos da jovem e das crianças inchados pela violência, desamparo e desesperança eram vários punhais pontiagudos cravados no peito de Verônica.
Marcio Rufino
Todos os direitos reservados
Crédito de imagem: site baixaki
SEIOS CÁLIDOS (Arnoldo Pimentel)
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Saiu Mais Um Fresquinho De Mim.
Saiu mais um fresquinho de mim.....
Às vezes fico queimado comigo mesmo
Não consigo pensar direito
Fico na espera, espera e de vez em quando surge algo
Parece que é uma luz no fim do túnel
Me aclarando as idéias
Me dando ânimo
Parece que vai sair algo da minha mente
E da máquina da vida
Vem uma imagem.
Eu me questiono
- Será que eles me compreenderão?
- Será que saberão o que vai na minha mente?
E de novo me avalio
- Sou poeta ou sou pensador?
- Atuo ou improviso na arte de pensar?
- Improviso ou realmente escrevo ensaios de mim mesmo?
- Você me lê ou me vaia o ser?
Eu quero é mais...
Quero é dar conta de que pensando
Sou mais um que ....
Solta as idéias no ar
E levando na palavra escrita
Meu ar da graça
De ser poeta em mim
Musicando as palavras
Rimando o ser
Com outro Ser Maior do que Eu mesmo....
E saiu.....
Cá está um texto a mais
Na coleção de meu livro roto....
Você me lê ou me copia?
Escreva....
Ensaie....
Baile....
Dance e deixe seu pensamento voar longe....
Se alegre em viver!!!!!
sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
Janaína

Há anos eu não via Janaína. Ainda me lembrava muito bem daquela menina morena, alta, forte, tímida, triste, rechonchuda, complexada em seus óculos fundo de garrafa. Mas qual não foi minha surpresa quando vi aquele mulherão; charmosa; sexy, um olhar lascivo. Havia operado os olhos, casado, tido filho, descasado, casado novamente. O tempo havia lhe presenteado com uma desenvoltura, articulação e despreendimento de causar inveja a mais competente das relações públicas. Tinha acabado de sair de seu escritório. Tinha se tornado uma advogada. Trocamos e-mail, orkut, msn.
Minha mãe havia colocado uma causa na justiça envolvendo uma importante operadora de comunicação que havia cobrado taxas a mais de pagamento. Batido o martelo, decidiu-se que minha mãe teria direito apenas ao valor já gasto com as taxas pagas a mais. Ficamos indignados: "Ora! E os danos morais?" Decidi me esclarecer com minha amiga advogada Janaína pelo msn. Uma vez adicionados, aceitos e virtualmente reencontrados um ao outro, começamos. Na tela do computador, sua foto com um suave sorriso sarcástico e o mesmo olhar lascivo dava um clima sofisticada e discretamente sensual e brejeiro.
Eu: Minha amiga. Preciso de sua ajuda.
Janaína: Pode tc, meu querido.
Expliquei a situação.
Janaína: Eu vou falar com ela quando ela sair do banho.
Eu (assustado): Mas como? Se vc não é ela, vc é quem?
Janaína: Eu sou o marido dela.
Eu: Desculpe.
Janaína: Tudo bem.
Eu: O que vc faz da vida?
Ele me respondeu que era promotor de vendas justamente da operadora que estávamos em questão, em causa na justiça.
Janaína: Eu tenho alguns versinhos seus aqui comigo.
Eu: Como? Versinhos meus?
Janaína: Versinhos que vc me deu pra digitar na época da escola.
Eu: É vc Janaína?
Janaína: Sim, sou. Acabei de sair do banho.
Eu: Ah!
Janaína: Sabe que nunca fui a mesma desde aquele dia que vc desmanchou comigo pelo telefone.
Eu: Mas isso foi na época da escola. Eu já nem me lembrava mais disso.
Janaína: Eu quis te matar.
Eu: Que é isso, Janaína?! Seu marido pode ler isso.
Janaína Ele foi na casa da madrinha com um amigo.
Eu: Nós nunca daríamos certo.
Janaína: Porque a gente não dá uma saída pra tomar umas cervejas num bar?
Eu: Sim. Vamos sair pra tomar cerveja num bar qualquer da cidade. Que dia fica bom pra vc?
Janaína: Nenhum. Eu não bebo.
Eu: Vc tá brincando comigo, Janaína?
Janaína: A Janaína foi beber água. Aqui é o marido dela.
Cansei-me daquilo. Desliguei o computador. Na tela o mesmo reflexo do sorriso levemente debochado e do olhar lascivo.
(Marcio Rufino)
CATAVENTO (Silviah Carvalho e Arnoldo Pimentel)
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Ferocidade
Nas grutas acústicas
De um peito ecoando
A dor da cascata
Sem fim desabando,
Mordendo na pedra
A própria desdita.
Vá! roto e precário
De tal desmazelo
Do choque imprevisto
Do escarro na esquina
Dos olhos cruéis
Que fazem tua cara
Cartaz luminoso,
Falácia venal,
Um palco de socos,
De chutes e murros,
De fera disputa
Por álcool e remédios,
Por roupa e alimento,
Por fogo e prazer
Nas sendas soturnas
Da grande cidade
Que encolhe miúdo
Teu corpo tão frágil
À sombra terrível
De atrozes gigantes.
“E agora, José?”
Cadê tua fala
Cadê teu discurso,
Teus pobres excursos
Qual asa ignota –
Voluta partida
Sem haste ou coluna?
Teu peito se ufana,
Mas pobre se infarta
Do que te enfatua,
Do que te enlouquece,
E logo enfastia,
Inútil cosmético,
Inútil doença...
Não tem mais a vida
Aquela beleza
Sensível das musas,
Das frágeis heróidas,
Carnívora flora!
E o que te envilece
É a penha estourada,
Floresta arrasada
Em ávido empório,
É a carne doméstica
À vida selvagem
Dos homens polidos
Jogada de súbito
Sem único aviso.
Por isso, velhaco,
Te fazes feroz
Entre hienas noturnas,
Felinos rapaces,
Que as presas espreitam
Ou sobras de açougues
Disputam famintas
Deixadas por feras
Maiores após
De todo fartarem-se.
Mas se nem entre hienas
Tu podes viver
Ou nem co’os chacais
Tu podes comer
De casca e couraça,
Então te revestes
Tal qual um tatu
Metido na toca
De um alto edifício
Com ratos e cobras.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
domingo, 9 de janeiro de 2011
TORRES
TORRES
Algumas torres derretem com o tempo
Talvez porque
O alicerce seja feito de insegurança
Ou elas próprias tocam o céu com insegurança
sábado, 8 de janeiro de 2011
A Movimentanormalidade

Paranormal é um termo empregado para descrever as proposições de uma grande variedade de fenômenos supostamente anômalos ou estranhos ao conhecimento científico, mesmo se essa percepção for devida à ignorância.
Telúrio Nepomuceno começou a se interessar pelas artes plásticas ainda menino Na verdade as formas sempre lhe assombravam e seduziam desde quando se entendia por gente. Era ele um constante e ambulante assombro. Também, as coisas sempre conspiraram para que ele se surpreendesse assustadoramente com tudo.
Quando tinha dois anos estava no colo de sua mãe, no bairro de Areia Branca, em Belford Roxo, esperando o ônibus em frente ao bar, quando presenciou uma violenta discussão entre um bêbado e o dono do bar. O dono do bar mandou o bêbado para um certo lugar este o respondeu com uma navalhada no rosto. Telúrio só se lembra da sensação gostosa de querer lamber aquele suco de groselha que escoria do rosto do dono do bar. Mas sua mãe fugira dali apavorada com a cena.
Desde pequeno as formas causavam sensações deliciosas em Telúrio. Assim como quando passeava por Nova Iguaçu e via as obras em construção, os pedreiros trabalhando, os transeuntes passando e isso o remetia inconscientemente a tempos idos, quando ainda não existia quase nada e os artesões levantavam templos e palácios; os camponeses aravam a terra e a defendiam da seca e os deuses passeavam entre os humanos. Os desenhos animados, as figuras lhe acendiam uma certeza incrível de também ser figura. Ainda mais quando seus sentimentos correspondiam a sentimentos de personagens de ficção. E a descoberta do primeiro amigo; da primeira namoradinha; do primeiro choque.
Primeiro choque?
Sim primeiro choque humanamente elétrico. Ele tinha treze anos. Estava brincando de esconde-esconde e ouviu sem querer de uma vizinha:
- Coitadinho do Telurinho. Mal sabe ele que é filho do próprio avô. O finado Aurélio, que o diabo o tenha num péssimo lugar, aquele cão danado, abusava da pobrezinha da própria filha.
Foi aí que Telúrio descobriu que a pior e maior eletricidade é aquela que existe dentro do próprio corpo. Ele saiu do esconderijo, expôs a sua figura e seu amigo bateu no poste três vezes.
- Agora ta contigo, Telúrio!
Ele não se importou, pois de agora em diante sempre estaria com ele. Não só nos esconde-escondes, mas principalmente nos revela-revelas da vida.
As formas de tudo tomavam uma outra perspectiva para Telurinho. É como se formasse um mosaico além de tudo que lhe rodeava e ele visse tudo ao mesmo tempo. Era algo mais incrível do que a paranormalidade. Era a movimentanormalidade.
A movimentanormalidade era a verdadeira desobediência às convenções, pois rompia com todos os limites das formas sensíveis, sem precisar de nenhuma droga. Era a certeza, a descoberta, a consciência de que nada é lindo ou horroroso; perfeito ou defeituoso; virtuoso ou promíscuo que desencadeava sua manifestação. Isso fazia Telúrio olhar para as loja, os comércios, as casas e saber o que se passava lá dentro sem precisar entrar. E assim era com as pessoas. E assim ele descobriu os homens que pensavam dominar suas mulheres, mas eram por elas manipulados;descobriu as mulheres que pensavam seduzir seus homens, mas eram traídas e abandonadas por elas mesmas; descobria as crianças que provocavam seus próprios abusos para destruir e reinar; descobria os falsos idosos que fingiam ter pena de si próprios para iludir e sugar energias numa vampirística hipnose. E então ele descobriu que as formas internas, muito mais que abstratas e agressivas, eram muito mais poderosas e lhe devoravam num ritual pseudo-antropofágico.
Telúrio então cresceu acariciando e apalpando tudo que lhe era apresentado. Bichos, plantas, objetos, até pessoas. Era muito mal interpretado. Muitas vezes já foi até agredido fisicamente, pois a movimentanormalidade provoca impulsos contínuos e intensos que não cabem na razão humana.
Ele chegava no quintal de sua casa depois da chuva e pegava o barro molhado e amassava e moldava. Fazia também assim com jornais e revistas velhos. Formava pessoas, bichos, objetos, universos. Chegou às suas próprias conclusões de tudo e do nada com a movimentanormalidade. Ousou pensar tudo a partir de si mesmo.
Marcio Rufino
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Sacerdotisa...
Mas sou dura na queda!...
Não permito-me ser submissa...
Não me faço de vítima, sou indomável!
A vida me apresentou pessoas vaidosas
Pessoas orgulhosas, cheias de si.
Tentando fazer a todo instante, com que eu me achasse sem valia...
Pessoas teóricas e frias. - eu sou mulher de prática, de emoção, de fantasia!
Não aceito humilhação. Embora algumas vezes,
A mesma me confronte, me encare, me desafie!
Mas não sou fraca, sou idealista.
Sou Minha Alquimista.
Em dias insípidos, busco o agridoce.
Em dias cortantes, faço-me flexível.
Em dias frios, visto-me de sol.
Em dias sem paixão, não adianta, perco o ímpeto!
Entro em crise na esfera coração!
Busco sinceridade e dou de cara com a soberba.
Sou feliz um dia. E os outros não!
Tenho tudo! Mas não tenho nada!
Será que a vida para mim já basta!
Que mistério é esse?
Indago...
Quero colher o fruto, mas ele nunca está maduro.
Está tudo errado!
O meu passado...
O meu presente.
O futuro não se mostra, quero apenas uma simplória resposta.
Sei que tenho a marca,
Sei que tenho o dom,
Sei que sou sacerdotisa,
Mas estão brincando de pique esconde comigo!
Sou de carne e osso, à espera do alvoroço.
Sou de sangue e vida, à espera da quimera.
Sagrada e desejada é a paz para mim!...
Tenho-a tatuado em meu corpo, ela sim! Deixo-me possuir!
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
SÃO LOURENÇO
SÃO LOURENÇO
Seria apenas um último olhar
Talvez com um pouco de tristeza
De incerteza
Mas um último e profundo olhar
E tudo então ficaria ali
Depois seria só olhar pra frente e caminhar
Acreditar que depois do deserto há um Oasis a esperar
Na bagagem apenas um jeans desbotado
Um sonho para ser alcançado
Um projeto de vida inacabado
Mas as lembranças ainda estarão nos olhos
No rosto marcado pelo sabor amargo
De nunca ter tido ninguém ao seu lado
As noites serão ao relento
Sonhará com a voz meiga e doce
Que toca seus ouvidos e seu coração
Nas noites de São Lourenço
E vinha pelo vento do pensamento
Eternizava cada momento
Era a estrela no deserto a lhe tocar
Pedindo todo amor que tinha para dar
Era o Oasis que precisava encontrar
Seria apenas um último olhar
Um deserto para atravessar
Um Oasis a lhe esperar
Um sonho para acreditar
Sem ter medo de outra vez
No meio do vento
Naufragar
A noite de São Lourenço é quando se vê o maior número de estrelas na Itália, conhecida como a noite mais romântica de todas e muitas pessoas vão a Toscana para ver a chuva de estrelas cadentes e fazer um pedido, realizar o sonho de felicidade.
Tempo
Devagar, promissora
E imperceptível
Somos trabalhados pelo tempo
Não sei até onde vou
Ou até onde posso ir
Penso e falo puerilidades
...
As verdades são perigosas
Criam muros altos
Felizes os que possuem
Verdades
Estão protegidos por muralhas.
Jorge Medeiros
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
Vai...
Manhattan Tower

Manhattan Tower, 89,
Tu te ergues
Poderoso e colossal
Da Avenida Rio Branco
Ante súditos de asfalto e carne,
De cimento e aço.
Templo de gravatas e sapatos,
De pastas e investimentos,
É em ti que acionistas
E investidores divertem-se
Disputando cifras,
Em meio às oscilações do mercado,
Vaticinando lucros,
Diante das taxas de juros
Do FED e dos BCs,
Depreciando mercados
E economias,
Ante os humores cambiais,
A despeito de fé, crença
Ou de qualquer drama familiar,
Enquanto compramos
O sagrado pão de cada dia.
Tu, que não és um,
Que não és único
Mas inumerável
Mundo afora,
Geração fustigada pelo vento,
Fragas que se atiram contra os céus,
Clarão envidraçado
De aço e de alumínio
A refletir,
Em mil centelhas,
A luz ligeira
De Xangai, Taipei,
Chicago, Kuala Lumpur,
Hong Kong e Nova Iorque,
Burj Khalifa, Willis Tower,
Taipei 101, Petronas Towers,
Central Plaza,
Empire State Building,
Titã coruscante,
Contemplas vítreo e concreto
Teu irmão
De ponteiros e horas indecifráveis
Em direção ao qual, da Avenida,
Todos os olhos se lançam
Aflitos ou indiferentes.
Irmão que, por sua vez,
Encara firme e altivo
O pai cansado de exploração
A contemplar mudo
Os detritos da baía,
A fração inumana das gentes
Pelas ruas e becos...
Ó Irmãos ingentes,
Filhos de um gigante –
Ó Família excelsa
De concreto e laje,
Há carne imunda e fétida
Que se espreme, em vão,
Sob tuas marquises
Contra o frio e a chuva
De teus prognósticos,
Enquanto de vós,
Bem protegidas,
Retinas assustadas
Buscam saudosas
As Torres de outrora,
Consolam-se
Entre álcool e aspirinas,
Em meio a céus
Rasgados de gritos
E WTCs,
De precipícios
E cimitarras chamejantes,
Enquanto buzinas e sirenes
Vaticinam pavores,
Sinistros augúrios
Avenida afora;
Consolam-se,
Entre destroços
De um firmamento estilhaçado,
Com aqueles antigos versos
Que diziam:
“Porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan...”
Enquanto o tráfego e a baía
Refletem ardis
E o mudo perigo que espreita.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
NOITES LONGAS SEM LUAR
NOITES LONGAS SEM LUAR PARA OLHAR
Tenho dormido cedo
Pois sei que não estará
Onde eu poderia te encontrar
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
A mulher de hoje em dia

Traição: Enganar perfidamente, atraiçoar/ Faltar ao cumprimento de/ Revelar/ Deformar, não traduzir com fidelidade/Não ajudar, abandonar/Denunciar-se por imprudência: comprometer-se; desnudar o pensamento.
A lua estava deslumbrantemente linda naquela madrugada de segunda para terça, quando eu e meu amigo, o poeta e sociólogo Henrique Souza saímos do Sport Club Iguaçu na festa de aniversário do cantor e compositor Daniel Guerra e caminhamos até o centro de Nova Iguaçu. Quando chegamos na Otávio Tarquínio, Henrique tomou seu rumo e eu segui o meu olhando para a lua cheia, imponente, inteira, poderosa, resplandecente; luzindo na escuridão enigmática do firmamento. Hipnotizado como eu estava por aquela lua, se viesse um ladrão me roubar eu nem me daria à mínima conta disso. Mas a baixada, graças à Deus, ainda é um pedacinho de Rio de Janeiro onde ainda se pode respirar um mínimo de liberdade ingênua no caos urbano do cotidiano.
Quando cheguei ao ponto para pegar a kombi que me levaria à Belford Roxo, vi parado ali um lindo casal de jovens negros abraçados se beijando apaixonadamente. Seus braços, lábios e coxas se articulavam e interagiam de forma tão harmoniosa que pareciam querer fundir-los em um só como numa experimentação alquímica. Para uma madrugada sedutoramente enluarada como aquela, não poderia existir cena que viesse a calhar melhor.
- Que horas você vai ligar pro meu celular? – Perguntou ela num frenesi.
- Lá pra de tarde! – Respondeu ele num sorriso sem-vergonha de sátiro do bosque.
Enfim a kombi chegou. Como o casal demorava a se entreter no sensual entrelace, tomei a liberdade de ser o primeiro a entrar. Alguns sedentos e calientes minutos de pegação depois, a moça se despediu do rapaz entrou na kombi e sentou-se completamente relaxada na poltrona a meu lado.
- Ai, meu Deus! Quando eu chegar em casa meu marido vai me matar! – Disse ela num sorriso puro de menina sapeca.
Eis que surgiu em mim um sutil choque.
- Ah! Você diz à ele que estava fazendo serão até mais tarde! – Respondi cínico.
- Mas eu não trabalho não, moço! – Respondeu-me num ar escorregadio. – Tô na rua desde às 18:00. Tô aqui só imaginando a cara dele quando chegou em casa e viu as crianças sozinhas sem eu lá.
Quase que eu gritei: ”sua semvergonha, vagabunda. Você não tem vergonha na cara, sua cachorra?”.
- Hoje em dia o homem aceita tudo de uma mulher bonita como você! – Acabei falando amigavelmente.
- Que nada! Quando eu chegar lá em casa vou encontrar minhas coisas na calçada. Aliás! As minhas não! As dele! O quintal é meu!
Quando a kombi chegou no bairro Heliópolis ela pediu para o motorista parar no próximo ponto. Chegando lá.
- Tchau, moço!
-Tchau, gata!
E ela desembarcou, atravessou a rua e seguiu adiante levando consigo, como um anjo que leva sua auréola, aquela bela, rechonchuda e iluminadíssima lua cheia daquela arrebatadora madrugada.
Marcio Rufino
Todos os direitos reservados








