Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



domingo, 16 de setembro de 2012

A cotovia não canta à sede

Embalo a planície da tua mão sobre a minha mão,
Percorro-a com o arado dos meus dedos,
Abro sulcos na terra virgem,
Lanço-lhe as sementes dos teus lábios,
Rego-os com uma lágrima que corre na nostalgia do sonho.
Um aroma a terra húmida, embriaga
O sentir da tua presença.

Trás a barca através da cortina de bruma,
Senhora da madrugada alva,
Minhas mãos no teu longo vestido,
Remam nas águas adormecidas
E deslocam remoinhos no teu corpo nu.
Desfruto nas margens do segredo,
O fruto azedo do teu âmago.
Deixa que a barca desça selvagem
O rio que nasce no vale dos teus seios,
Eu afogo-me no cheiro do teu ventre
No enlace das nossas tormentas,
Vem senhora da barca
Comigo molhar os pés,
Vem sentir as pedras frias dos meus olhos,
Beija-me estes lábios de vento.

Há um refúgio em ti
Onde lanço os meus segredos,
Não há ecos de receios nem traições.
A minha boca encontra a tua boca,
Entre risos e beijos.
Agarras esta torrente que esta prestes a chegar,
Dentro de ti descubro um mar,
Eu transformo-me na onda que invade a tua praia.
Por fim, adormeces, naufragas nos meus braços,
Um lençol de névoa cobre os nosso corpos exaustos,
Um doce odor do amor breve
Denuncia a nossa primavera.

Partes devagar,
Apenas pó e caminhos ficou,
Dizes que alguém descobriu um pôr-do-sol
Na planície verdejante do teu olhar,
E que uma espiga de trigo despontou no teu sorriso.

Sei agora, que esses brincos de urze
Que nas tuas orelhas coloquei,
São já mirradas flores castanhas.
Sabes,a cotovia não canta à sede.
Mas, eu desfaleço num cântico alentejano.

Autor: Sedov

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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

quase não lhe resisto...

surgiu na saia mais azul
que uma pincelada de Van Gogh

respirou o ar como se nada o respirasse
mentiu com a mesma boca (vermelha)
que roubava do vento um lamento

dispôs das armas num lento olhar
inundou o sossego enquanto a chuva bordava
música no telhado

sob o mesmo céu sua cintura desafiava a gravidade
o cinto driblava um pedaço de pele
como uma ilha sem ligação com o continente
sem ponte ou barco para atravessar

com os cabelos ordinariamente distraídos chicoteou o ar
numa total provocação inflamou o chão... carregando o mundo
(foi como encontrar um anjo no inferno)

Deus bem podia arrancar o farfalhar azul dessa saia
que oscila em meu peito
antes de desaparecer como um suspiro
... vendo todas as ruas passarem


Poema de Vânia Lopez

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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

[...e tantas são as viagens que me alumbram


e tantas são as viagens que me alumbram,
quiçá por sonhos nunca dantes realizados
onde se degustam silêncios vogados ao vento
que sempre me arderam.

Ignescente memória revelada
nestes olhos sem choro que miraram além da proa,
além das níveas montanhas.
relembra-me, acolhe-me enquanto o ceu estreleja pelo entardecer dos dias em verão.

Que se extingam as palavras que os deuses libertaram,
que rocem o infinito desejo, quão perenes
penetram mar adentro, quais viagens desassossegadas
mitigadas pelo som destes marulhares sempre presentes.

Acolhe-me em sorriso, desnovelando
cousas incertas aprisionadas, ilusões outrossim,
relembra-me, uma vez mais,
a cor das cerejas dissipada por entre sussurros só nossos.

Inda me peregrino em mim, sabê-lo-ás.

[-Senti-lo-ás? Perguntar-me-ei.]


Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

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sábado, 8 de setembro de 2012

O silêncio do tear

Com um sim se diz não.
No vagar dos tempos
Entre o espaço cidral dos teus dedos abertos
Há um tear mecânico
Onde nossas mãos ávidas
Quiseram tecelar um tapete de orelos
Com os trapos dos momentos partilhados.
Foram as nossas palavras a urdidura
Que fomos esticando
Mas o pente liço atrofiou-se uma manhã
E os fios quebraram-se.

A poesia do teu corpo ficou fechada
Com todas as vontades viradas do avesso
Não penetrei a poesia da tua flor
Nem cada detalhe do teu corpo desalinhado
Os beijos, a língua, a saliva, o suor, a pele molhada
O falo túrgido
Esmoreceram
Num campo de cardos.
Eu sei que cada um de nós um dia chegou a imaginar
Os nossos corpos fundidos
Num vaivém em suaves entregas
No fio de trama do tear
Onde tecido seria a nossa carne
E os nossos sentidos entregues a um amor sem regras.

Ficou o desejo mudo
O que faz de nós meros filatelistas
Que nos preocupamos com os pormenores mesquinhos
Da integridade da serrilha de um selo.
O desejo mudo
Esmaga-se à noite no silêncio do travesseiro,
Olhos abertos na escuridão
Ao vaguear pelo firmamento de tecto do quarto,
Sente-se o vazio de um corpo ao lado
Que respira e dorme profundamente
E o desejo de noite não é o desejo do dia
E o desejo cala-se
E a lua consente
E o sono chega
E manhã que há-de chegar não será mais uma vez
A manhã
Que com um sim se diz sim
Ao que sempre se disse não.


Autor: Sedov

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Noite

Nesta noite não há cantos de melancolia
Dos bêbados à porta do centro comercial
A florir a noite da cidade,
Nem mesmo os gatos vadios
Com seus miados acutilantes
Dilaceram a escuridão,
Nada se vai refugiar na caverna da memória.
Deixou de ser fria a noite.
O meu corpo está trôpego e ébrio,
Uma visão de plena brancura no meio do breu,
Um pano que se estende sobre o meu rosto
Igualmente branco
De uma macieza doentia
Onde o aparecimento de uma ruga imprevista
Transforma-se numa agonia pior que a morte.
Será isto um pesadelo?
Há muros erguidos em meu redor.
São paredes irregulares de uma cova
Em que me afundo.
Nesta noite primeira
A dança das prostitutas ao longo da Avenida,
Os carros que abrandam e as recolhem
Não me desassossegam os sonhos.
O choro de uma criança recém-nascida
Pode bem ser a minha cama.
A luz difusa numa janela de um apartamento
No cimo de um prédio
Projecta uma sombra chinesa
Sobre as nossas consciências:
Uma mulher é agredida e violada
Na mesma cama em quem imaginou ser amada.
Pressagio terramotos do fim do mundo,
Talvez porque isso me traga a sensação dos marmotos
Que vivi sempre que me tomaste em teu corpo.
Mas a lua está ausente dos teus lábios
E mesmo o lago que um dia descortinaste nos meus,
Nesta noite pouco mais são que um pântano.
Os ventos das planícies afagam-me os cabelos
Dos meus olhos secos brotam lágrimas de abandono
No momento em percorro os caminhos incestuosos da morte.


Autor: Sedov

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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

[...se a terra pariu flores]


se a terra pariu flores e searas que o vento
enlaça,
símiles a mares enterrando sonhos e destinos
que as maresias transportam para tão longe,
mores os sigilos escondidos,
em ti,
em mim.

Dos perenes múrmurios que restaram, hoje
que sejam gritos.

Oiço ecos, um dia relegados como procelas
invadindo desejos redentores, anseios extasiados,

oiço estrelas pelo indesmedido sonhar,
apenas sonhos onde a mímica dos lábios
expressava o que se queria ouvir, entender,

tantas horas mirando, o nascer, o pôr, o sol,
enfim, solilóquios não desvendados,
vã surdez.

Ser-me-ás sempre réstia de luz pelas noites,
quão breve esta vida me seja.

[… se a terra pariu flores e searas que o vento
enlaça,
que seja permitido perpetuar-me no aconchego do teu ventre,
enquanto este salso mar me assola]


Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

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terça-feira, 4 de setembro de 2012

Da natureza dos gatos

O que mais se parece com um gato , é o esforço para descrever a leveza de sua consciência e a velocidade de sua determinação ,felina e breve . Abominar a mão que o afaga e partir célere, sem adeus, talvez sabendo que um adeus talvez seja demais e não querendo voltar e repeti-lo, simplesmente vai, sobre os muros e parques, sem consciência de sua natureza andarilha e selvagem, apenas vai andarilho selvagem, disfarçado de criatura doméstica e domada , sem domus e sem dono , sempre igual a si mesmo, um passo cauteloso ; em frente ao desconhecido, simplesmente contorna -o , até mesmo quando não der para contornar com tudo de felino de sua natureza . Mão materna , paterna ,apenas amiga ,pouco importa , um carinho é apenas um carinho , nada além de carinho e o mundo é muito grande ou nós outros, muito pequenos ,de repente monocórdicos em nossa afeição de humanos , desnaturados do que não é gato,contempladores inertes de vidraças embaçadas de felina ignorância
Autor: André Albuquerque

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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Roteiros Anadaluzes - I - Córdoba

.


chegaste já no final do entardecer, quando
o sol queimava a ponte romana sobre o Guadalquivir
(sempre turvo), e atravessaste as ruelas
junto à mesquita-catedral – na magistral gonzalez frances,
onde a sombra te aliviou por um momento
a fé;

pelo bairro judeu caminhas às avessas,
tens todo o tempo para perder no Sepharad antigo
e o tetramorfo bíblico de Ezequiel arde-te
no estômago com um Cava Freixenet Extra perigosíssimo:

Marcos, o Leão
Mateus, o Cordeiro
João, a Águia
Lucas, o Touro

tu viste-o na mesquita, adivinhaste-o depois junto da
estátua de maimónides, onde a sabedoria se une ao caminhante
pela magia simpática de um simples toque;

agora anoitece,
os luzeiros descem no horizonte e inflamam de escarlate
as fachadas tão antigas como o sonho visigótico;

tudo o que foste até chegares a esta cidade dos califas
é tão etéreo como um bilhete esquecido
e agora podes interromper o fluxo das galáxias que se expandem
junto a este Guadalquivir (sempre turvo)
e sabes o segredo
porque é o segredo o instante
é onde tudo é panta rei do tempo curvo;

e tu agora sabes o segredo

não se deve, jamais, olhar atrás

ou o tetramorfo fará de ti mulher de Lot;

castigada impura,


petrificada em estátua de sal.



.

Poema de MarioRevisited

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domingo, 2 de setembro de 2012

como pão no prato sagrado

tua maquiagem indiana
teu olhar vestido de gala
tua boca margem de desejo crescente
tua nuca entorta o vento
teus braços rogam um roubo
tuas unhas correm como veneno se alimentando do sangue
tuas mãos banhadas de silencio
teus pés violam a terra em carícias
tua penteadeira cheia de pistas de colares, pulseiras, digitais de perfumes
tua veste troca de pele na penumbra
tua fita no cabelo unta a alma de lembrança
teu colo um demônio sonhando
tuas veias cantam, causam feridas no céu

dá-me um lugar para fugir do mundo
no fundo do meu ser
tua lágrima como pão no prato sagrado

aceite esse beijo na sobrancelha
escolha minha roupa (uma que cubra pecados)
deixe que nossas almas disputem entre si
enquanto dançamos através dos tempos


Poema de Vânia Lopez

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[...é-me lomgíqua a linha do horizonte]


é-me longínqua a linha do horizonte,
que escaqueira a ondulaçao invisivel do sonho manso,

mansidão que se deseja encabritar em ânsias,
mas que se atrofia sem beijo, sem toque ou cheiro,
destinos incumpridos, direi.

Nos olhos extasiados pela longitude,
prometem-se outros mundos férteis em belezas, desertos
de almas, ou de olhares, prometer-me-ei um dia.

Destinos, direi.

Os homens lançam-se ao mar, sem temer a preia-mar,
as mulheres de negro miram o céu que se abre em azul,

ajoelham-se como pedintes, cumpridoras do ser em súplica,
e mesmo rastejando pelo areal,
jamais serão envolvidas pelo ténue abraço do sol que
insiste em permanecer, vão-se as visões.

Ouve-se o ranger da madeira, os solavancos da ondulação,
“- mar arriba... mar arriba!”, grita-se,
e o leme que antes roçava as areias, orienta rota,

nada, apenas direi.

Resto-me apenas, o olhar[?]

extasiado, direi.

Poema de Ricardo Pocinho

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sábado, 1 de setembro de 2012

Sarau Donana





Slow da BF e Lírian Tabosa recebem o carinho dos companheiros do Pó de Poesia Camila Senna e Jorge Medeiros.


O público curtindo o sarau.


A poeta Ivone Landim declama seus poemas.


Dida Nascimento e o cantor e compositor Cláudio Camilo.


A brilhante presença da poeta Lírian Tabosa


Eu declamando um de meus poemas.


Eu e Ivone Landim


A bela e doce presença da poeta Ianê Mello.


Eu e os amigos do fenomenal Camaleões do subúrbio Djélli Bonnie, Felipe Rey e Ianê Mello.


Os fanzines criados por Ivone Landim.



Está sendo um sucesso a nova edição do Sarau Donana que está acontecendo no Centro Cultural Donana, na Rua Aguapeí, 197, no bairro Piam em Belford Roxo. O sarau rola todo último sábado de cada mês e tem apresentação do grupo do qual tenho a honra de fazer parte, o Pó de Poesia. Nesta noite do dia 25 de agosto, a récita teve como convidados a poeta Lírian Tabosa e o cantor e compositor Cláudio Camilo. Além da participação dos poetas do grupo Camaleões do Subúrbio Ianê Mello, Felipe Rey e Djélli Bonnie que abrilhantaram a noite com suas extraordinárias performances.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Palavra Andarilha



Vazia é a palavra que não anda
Não se desloca
A palavra que anda
Traz sentido
Intervalo para o entendimento

A palavra andarilha anbre trincheiras
Existência
Experiência

A palavra resolve se anda
Se cai
Se escorre
As vezes se esconde
ou inesperadamente se mostra
A palavra se desloca
e cria e recria territórios

Eu palavra nômade
Nós palavra andarilha
Andar é deixar de ser ilha
Palavra fluxo
Palavra refluxo
Palavra andarilha
Poder implícito
De quem se recria.

Ivone Landim.


Cântico II


Quantas vezes
Já morreu e nasceu
Esta árvore?
Quantas vezes
Já morreu e nasceu
Este pássaro?
Quantas vezes
Já morreu e nasceu
Estas montanhas?
Quantas vezes
As marés já
Me raptaram e devolveram
Este mar?
Quantas vezes
Já morreu e nasceu
Este corpo?
Olho agora
Eternecido
Para meu último renascer,
Para o meu mais recente parecer.
Filho,
Devo dizer-te:
Já fui,
Já fomos
O trilo
Do pássaro,
O grilo
Que tem no bico,
Já fui,
Já fomos
O seu pipilo
Ao nascer,
O pistilo
Da flor
Antes de morrer,
O silêncio
E o sigilo destas serras,
O céu
Quando me rutilo
Em nuvem, em sol
Em mar.
Porque ontem,
Hoje, amanhã
Fui homem,
Pássaro, mar,
Esta manhã
Que, em breve,
Morrerá,
O Cáspio
Ou Egeu
Nos refolhos do eu.
Já estive roto,
Todo sujo
E magnificamente
Pintado
Num vaso etrusco,
Já estive
No esgoto
E no luxo,
Mas sempre cerúleo
No âmago de tudo,
Porque a consciência
Mesmo ciente,
Se perde,
Esvanece,
Mas a matéria
Permanece,
Se atreve
Contra o momento,
É o próprio manto
Espaço-tempo,
O início,
O Quantum.
Porque ontem,
Mais uma vez
Vi a flor e a tez
Que fui, que fomos
No féretro,
No moribundo
Ou na prenhez
Do mundo,
Vi como fui,
Como um dia apareci
Antes de assim parecer,
Mais uma vez,
Antes do que sou,
Deste corpo
Esvanecer-se
Ao morrermos.
Vi que a memória
Da matéria
É a inércia
Desses montes,
Algo que jamais esquece
E guarda-se sempre
Do discurso, da prece
Ou da quimera
De quem se desespera
E se nega
Para nos impingir
Uma única vida
Eterna,
Enquanto somos tantas
Que perecem.


Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados

domingo, 26 de agosto de 2012

...que ao abraçar já não pode me apontar uma arma

nas quentes noites de meu desassossego, quem dera minha mão pudesse expressar o que vai em meu peito repleto da estranha beleza que ocupa meus sonhos, na mesma intensidade, com que tenho assistido a mudança das estações, os pássaros migrarem para o sul... esvaziando o céu quando é inverno e em seguida espalham-se pelos campos na primavera, carregando nas pinceladas como se o céu fosse o teto do mundo. em meu coração o tempo para... parece que tudo se move, até mesmo eu. ao perceber isso... o tumulto do silencio parece uma linha de bordar a profunda e poderosa presença da saudade, que ao me abraçar (treme) já não pode me apontar uma arma... minha alma joga a toalha em três pedaços e dois endereços enraizados em meu coração... ao terminar essa carta, espero que compreenda que a distância que separa é o mesmo paraíso que nos cerca onde a história se repete como uma âncora do vento no céu...

Autor: Vânia Lopez

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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Como estás, estimado amigo

eu não ando bem
envelheço
com os dias tão estranhos sujos de vida e lentos
e tu como vais
tenho saudades
dos tintos naqueles balcões vidrados
até que a mulher nos chame
por vezes a tua
noutras a minha
esta terra tem boa gente e bons tintos
e muitas inconsequências
não achas, amigo
quero saber como andas
não digas que bem
as tuas olheiras trazem metáforas
e todas elas dolorosas
eu escuto
por hábito
porque estou contigo
desde há muito tempo
que quer dizer sempre
sempre é uma palavra de amizade
por onde andas, diz-me
manda uma carta-poema-diário
como costumavas fazer
numa destas tardes
levei o meu desemprego a passear
sentei-me no cais do rio
ao pé da ponte velha
com uma lata gelada de cerveja
um pacote de pão e fatias de presunto
fiquei ali a ver o reflexo da ponte no rio de prata
lembrei-me de ti
ali a meter fatias de presunto
em fatias de pão de forma alentejano
e os turistas a olhar para mim
e eu a comer e a beber a cerveja
ainda pescas, grande amigo
robalos percas trutas
eu pesco poemas e mulheres bonitas
sozinho sempre com a companhia
dum pequeno rádio que canta coisas antigas
até as pilhas acabarem
saudades, amigo
agora vejo petroleiros
fábricas vazias na outra margem
e as gaivotas
vivemos num pais tão sossegado
será que morreu

Poema de Carlos Teixeira Luís

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terça-feira, 21 de agosto de 2012

quem entender o gesto de um piscar de cílios...

sempre no meio dos pensamentos as palavras ditas à meia luz, tudo que pulsa e arde, junto a seus passos pelo chão. na eternidade do verbo o gesto do silencio. o longe e a miragem, o adjetivo jogado, o fundo misterioso de um pratinho com data e hora de seus olhos que me levam muito além... entrelaçam-me na roupa da cadeira, que veste uma delicada espera. me pego amando o mostarda das tardes no eterno do tempo, como suave ilusão. - quando tu partes urgente a se perder em mim...

(tem quem chame de inferno)
eu afirmo que é nesse rosto de menino que tudo se justifica... devolves aquele sorriso nas dores que não existem, com um cântico nos lábios, faz da noite um turbante invisível que desejei ter rezado...

Autor: Vânia Lopez

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Sarau Donana




É neste sábado dia 25/08 apartir das 19:00 horas, mais uma edição do SARAU DONANA. Convidados Especiais: Lírian Tabosa (Poeta), Claudio Camillo (músico e compositor). Apresentação do grupo Pó de Poesia. E teremos exibição dos curtas: Toques de Sancofa, Entre Grades. Local: CCultural Donana, Rua Aguapei, 197, Piam, Belford Roxo. E lembre-se
e você faz parte desse encontro!

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

[Das pétalas espalhadas pelo chão]

Das petalas espalhadas pelo chão que cairam do teu ventre,
apanho-as uma a uma,

chamar-lhes-ei de vida.

E quando as coloco em vasos de cristal,
onde o sol bate desde a aurora,
vejo-as renascerem em flor,
acolhem-se então as aves fugitivas sem poiso.

Da nudez de sonhos teus, qual tafetá que te cobre,
tento agarrar algum que seja,

enquanto a noite aguarda o nascimento de uma nova estrela cadente,

chamar-lhe-ei então de encantamento.

Quantas estrelas encerras em ti, perguntar-te-ei.

Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

carochas, bicicletas & biplanos - 37

À porta do Marquee de Londres. 50 anos depois. Keith Richards, Mick Jagger, Ronnie Wood e o baterista, como é que se chama, brinco, o avô Charlie Watts. 5 décadas de desaires políticos, sociais, económicos. 5 décadas de aniquilamentos e linchamentos, bombardeamentos e limpezas étnicas, assassinatos e violações, fome de milhões e um planeta doente e infeliz, quente e com falta de ar como um pobre velho asmático. Haverá pachorra para mais rock n’roll. Diz-me tu o que pensas.

Eu estou um pouco farto mas ainda a ver como envelhecem mais ainda esta trupe de loucos. Loucos milionários. Uma fórmula que deu resultado. Encarnam o que milhões queriam viver, bem lá no fundo. Mantêm as caricaturas e personagens na linha do que o público espera deles e é vê-los a encherem os estádios. Uma geração, diz-se. Já é mais do que isso há muito tempo. São lendas porque duram. Já lá vai o live fast, die young. O que se admira é a longevidade, o velho sonho que volta. A velha, muito velha utopia. Vida longa. A fazer-se o que dá na gana. A maioria dos que os vêem nos concertos quer ser assim. Não podendo, veneram quem pode. Ou quem encena que pode. São palhaços metafísicos. Que aplaudimos faz 50 anos. Não acham que já chega?

Autor: Carlos Teixeira Luís

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carochas, bicicletas & biplanos - 35

Paris Texas, filme de Wim Wenders (1984), cenas únicas de Harry Dean Stanton perdido a caminhar numa das paisagens mais conhecidas da América, que surgiram em milhentos westerns. Uma homenagem à paisagem e ao cinema americano do realizador europeu mais americano de sempre. Argumento de Sam Shepard, afinal quem mais. Natasha Kinski num dos seus papéis mais emblemáticos. Um filme com banda sonora de Ry Cooder. Marcante. Árida. Ainda hoje a uso para acalmar. Vi e falei tanto do filme que muitos amigos e familiares, a esposa, apontam para mim sempre que alguém fala em Wenders ou Paris Texas. Como se fosse um sinónimo. Paris Texas = Eu. Ry Cooder = Eu.

Mas o filme-metáfora de outras coisas – as coisas que queremos usar e imaginar, para mim um belo um tratado da arte de Fugir. Fugir apenas. Há sempre uma fuga possível para bem longe mas também há o retorno da fuga. Uma outra fuga dentro da mesma, com passos perdidos que nos levam não para longe mas que não deixa de ser fuga. E tu de que foges. Para onde… Não te inquietes, vê o filme, por exemplo.

Retorno. Regresso. Outra espécie de fuga. Andamos fugidos e nada convictos de que seremos agarrados. Nem o espelho nos reconhece. Quem é este que me observa? E aquele que se afasta? A viagem. Eterna.

A paisagem dentro de nós. Através dos filmes das cançonetas de fronteira e dos blues desmaiados em lento ardor de deserto. Com a lentidão das árvores africanas mas noutro continente. Há uma estrada que não termina. Uma route interminável e antológica. Índia e selvagem, poeirenta e sábia. Tudo fica em nós até se desvanecer lentamente na memória.


Autor: Carlos Teixeira Luís

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