Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



sábado, 30 de abril de 2011

Habeas corpus

loucos loucos loucos loucos
loucos e santos são os erros
mil janelas vagas
e um coração partido

loucos loucos loucos loucos
conquistados pelo arame farpado
iludindo o passado
falando dos seus amores
(insaciável como uma garrafa de Whisky)

falamos de nossas torneiras
choro despido
chuva da noite iluminando as lâmpadas

loucos loucos loucos loucos
se escondendo dentro das roupas íntimas
procurando a melhor forma
de pular do telhado
(o purgatório é o peito)

sai para dentro
deixa a palavra de cabeça pra baixo
em rajadas de poesia
pela janela fechada...
(erros são Serafins)

Poema de Vânia Lopez

Só com você....



SENNA

Andei só entre uma rua e outra
Entre um beco e várias pessoas,
Mas sempre sozinha...
Com meu coração sem rédea. 
Andei só, perdi meu pergaminho,
Vi-me por entre espinhos,
Lidando com mesquinhos,
Bebendo vinho da inglória. 

 
Andei só, vi tanta busca infeliz, 
Vi minha vida morrer por um triz,
Sem saída, sem sorte,
Buscando meu norte e tendo que ser forte. 

 
Andei só, entre a marginal e o litoral...
Anelando o natural,
Querendo dar de face com um coração emoção.
Querendo o carinho doce feito rio, desejando o beijo salgado feito o mar. 

 
Andei só...
Por algum tempo!...
Aprendi que não tem dor nem lamento, tudo tem hora e tempo.
Quando você surgiu, resgatou-me do mar revolto que eu iria afundar-me
- E não andei mas só, mas só com você!


((( Camila Senna )))



Cadê o amor?


 Você viu o amor por aí?
O amor que Deus nos ensinou.
Tenho procurado nas pessoas
Tenho revistado os lugares, e....

Está tudo muito frio
A chama está se apagando
As pessoas estão se entregando...
Ao rancor... Ao ódio consumidor.

Vermes famintos estão corroendo
A mente dos fracos e oprimidos
Liga-se o rádio, só trajédia...
Liga-se a tv, só trajédia.

É filho que mata pai
É mãe matando filho
É possesso vingando-se e atirando
Cadê o amor?

Acordo assustada
Durmo pesada
Fico pensando preocupada...
O que será da vida amanhã?

Exclamo de novo!!!
Cadê o amor?
Aquele, que Deus nos confiou
Cadê?

Onde foi parar?
Se alguém achar...
Por favor!...Guarde-o...
Com sete chaves para sujeito nenhum roubar!

 O meu amor está aqui!!!
Estou matendo-o bem.
Oro pedindo a Deus
Que ele nunca suma de mim!


((( Camila Senna )))
 
 
 

O descrente

o. livro.
a. lista.
em. libido.
à. libra

é:
linha-pendente.
(frente.)

da.
caça-carta (e)dessa liberdade
ou.
peça-devoção
(é: área.)
expansão.
pacto de sonhos im.presentes
o conflito
a vénia
carta-gesto, sonho-vago
pó.
desuso
por.
causa-cela
a mente.. por abstenção
o.não.
a. falha..
da febre
que me serve,
à página-sentinela
qual marca d’água(dela) sob à mesa
(e, lá.sempre..)
presa.
da pressão inteira sob à ferida
(minha.)
sina.
parte da parte.
ou
acima da cura
ou
abate.
(e. incertezas.)
por uma linha-rapina de vida
quando em
prece..
ida.
quando ferve,
é..
caída.
- oh, seja..
tela em falha nos lábios por não-inserção
meu.nada-fim
o.meu: não.
em.
continuo acto-gasto
- oh, seja..
à letra.
em.traço
algo/algo
ou.tempo,
ou.gasto
ou.não.
frase da parte sem área-reclusa
lacre.
dos palcos traduzidos
aos
ensaios alheios que te precisei
aos poucos lados de mim
leve
tão leve assim
tropo-asa em declínio.
raso
o.
acto do crime
caso,
este.
fogo-e-facto sem prévias de lei
ou ar
a deixar..
soslaio e cego, tão perto: por alento..
vertido
crivo
qual à estaca pendente por um laço sede-e-preferido
ora, quente
ora,
sopro, solto.e, frio..
o.meu
tempo deixado aqui na terra
a.minha
luta perdida no teu posto-livro
lá,
d'onde em outras vestes,
à quimera sem um erro pouco-previsto,
(ou desejo/ou risco)
eu tolo, um caminho, te planejei.
e,
jaz.aqui..
a minha trilha, sendo lua
tua.
e parte..
da parte que me chama
às causas insanas de mente e anseio
é letra.
é esta.
lenda/vénia ou marca que me queima
ora,
apenas,
é
cena..
imagem-senda à nudez-puta por um grito antes de (me/te)desaparecer, e..

cá.
e
vivo,
me mantém, também.





à véspera desse sol,

desse sol..



e,
sim.



Poema de Azke.

TOQUES


Quero você com todos os anseios
Todas as promessas
Feitas no parque
De amor eterno

Todas as horas que nos envolveram
Nossos beijos
Nossos toques ao luar

Quero seus carinhos
Que me sufocam
Atrás da porta

Em qualquer lugar lhe beijar
Despir seu corpo
Num amasso louco

Quero cobrir-me
Com seus desejos
Suas delícias saborear
Até a lua se deitar

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Desabafo

Não guardo comigo o que não é meu,
Devolvo. Não pago o que não devo.
Não calo e rejeito o fariseu.

Talvez a procura de um museu
Desfaça esse triste desenredo,
Roteiros não faltam no liceu.

Na busca de amor sem Romeu,
Tampouco Julieta de arremedo
Seguindo perdida em meio ao mussiú.

De instinto femínio e não proteu,
Sincera, não nego o que sou e zelo
Ao expor-me aos abraços de Morfeu.


Poema de Yayá

Párias

Acendes a fogueira
Que não é a bem faceira
De roda e de brincar,
De festa e São João
Mas gélida de agosto,
De ser todo em desgosto
Acesa pra espantar
Baratas e friagem,
Sob hirta e fria laje,
Sob hirta e fria noite
Escassa, de estiagem.
Tão fria que arrepio
Provoca qual açoite
De látego no corpo
Baldio, correntio,
Na trágica orfandade
Dos párias da cidade,
Escravos sem senzala.
Entanto tal fogueira
Dos sem eira nem beira,
De restos que tu catas
De esquinas e lixeiras,
Dissipa chama rala
Que pouca força tem
Ao frio secular
Que vem de tropical
Cidade americana
Enfim subjugar,
Enfim de ti afastar
Os ratos que também
Te correm pelos pés.
Contigo todos comem
Semelhos a novo homem
Que rói a velha lápide
Decrépita e ancestral
Que afunda em lamaçal.
E sob rija laje,
Concreto cru de ultraje,
Se esfria até a vontade
Da pobre mão pedinte,
De ser tornado helminte,
Esmolas suplicar –
Terrível condição,
Gravosa de aleijão,
Que além desta matéria
Te inflige a vil miséria.
Dormir é o que tu queres,
Dormir para esqueceres
A frágil noite e seres
Que habitam estes pântanos
De sapos e elefantes
Comendo a cria infante
Com molho de alcaparras
Em meio a loucas farras,
Enquanto tu escarras
Um rio intolerante
Aos pés de nossas casas.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Sinais de fumaça

Eu estou falando com você
Cale-se
Escute
Eu estou falando com você
Ouça
Cale a boca
Eu estou falando com você
Silêncio
Fecha a matraca
Eu estou falando com você
Quieto
Dá um tempo
Eu estou falando com você
Quando um burro fala
Fecha o bico
Eu estou falando com você
Você é surdo?
Esqueça
Não falo mais com você

Meu amigo imaginário não tem um pingo de imaginação.
Meu amigo imaginário: você não existe.

Poema de Andri Carvão

Mulher-Hiena




Linda, louca, livre.
Intensa, híbrida, simples.
Foi mordida por uma hiena
Numa véspera de carnaval.
Recebeu uma alegre maldição serena
Que perdurou nos quatro dias de bacanal.

Da Baixada Fluminense
Já ouvia o ronco da cuíca
Que vinha da apoteose
Seus quadris e suas sapatilhas
Criavam vida própria
Numa hipnose.

Ao som do pandeiro e do reco-reco
Balança as ancas feito um boneco
Juntam-se a sua volta
Sambistas, mulheres, gays, crianças e velhos
Entre cerveja, churrasco e batucada
Envolve a todos com seu rebolado
E devora-os sem atraso
Sob histéricas risadas
Desgrenhada
Numa felicidade oca
Com o sangue dos inocentes
Escorrendo de sua boca.

Bacante peluda
Nua
Com seus dentes caninos
Come rindo suas presas
Que morrem canibalizadas
Incertas, sorrindo.

Ela invade blocos,
Luaus,
Boleros,
Pagodes
E saraus.

A polícia a procura
Distinta
Mas ela some
Na quarta feira de cinzas.

Ela está por aí disfarçada
Na professora,
Na empregada,
Na mãe de família,
Na dona de casa.

Na poética da narrativa;
Na surpresa da vida;
Na temática da poesia.

Marcio Rufino
Todos os direitos reservados.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Bico-doce

O tempo passa, e quando deu pela coisa Valdecir estava com trinta e dois mal vividos. Sobrevivia aos trancos e barrancos, de expedientes e favores, vagau e divagador. Como não fazia nada podia ser considerado um craque da subsistência mundana. Sem passagem pela polícia, era malandro manso: olhar dócil, voz respeitosa, gestos medidos. Sempre um argumento a justificar a semivigarice - ora a saúde, ou a pouca instrução, até falta de tempo.

Em permanente atraso na pensão, só não era despejado pela Maria Baiana porque de vez em quando chegava junto, apertava suas carnes fartas, deitava em seu colchão de crina, permitindo que a morena montasse seu corpo esquálido e deslizasse na vara tesa. Ainda ganhava café da manhã.

Entre todas as manhas, essa: gostava da noite. Assim que um dia, em que tinha juntado trocado suficiente, tomou um banhão, tascou um perfume da Baiana, e foi a um cabaré, rever as formas, sentir o calor e a maciez da ilusão.

Quieto num canto, bebida parada no copo. Passavam junto dele loiras de bocas vermelhas, vestidos curtos, corpos quentes. Sorriam, tinham olhos brilhantes, e eram solitárias; putas são seres solitários. Sentia-se bem ali, uma solidariedade concubina.

Uma baixinha lançava olhar insistente. E agora? Se ignorasse, acabaria perdendo a chance; se aceitasse, teria que pagar uma bebida. Sofria a indecisão quando ela se aproximou, e não teve jeito, porque às vezes um é feito pro outro.

Estendeu a mão e o nome - Rosa. Sentou no tamborete ao lado. Coxas roliças são melhores que pouco dinheiro. Ofereceu bebida. Feitos um para o outro, ela colaborou:

- Bebo do teu copo.

Porra, vai por mim: não tinham assunto. Pra quebrar o silêncio, ele falou “Vou ler tua mão.” Além do mais, ler a mão era uma cantada que não costumava falhar. Tem mulher que adora ser enganada, pra dar sem responsabilidade. Rosa estendeu a mãozinha esquerda.

- Você está apaixonada.

- Como você sabe? Conta mais!

Valdecir preparou o bote:

- Ele tem outra.

A mão tinha linhas e marcas, como qualquer outra, só que era mais macia e aflita.

- Outra quem?

- Outra, porra, bonita e gostosa como todas as outras, como vou saber?

- E eu, sou o que?

- Pra mim, você é bonita e gostosa.

- Você também tem outra?

- Não tenho nenhuma.

Ela ajeitou com os dedos os cabelos curtos. Ele já esperava:

- Eu só posso sair depois das duas. Tudo bem?

Elas sempre pagam na mesma moeda.

- Por você eu faço qualquer coisa.

- Mesmo?

- Mesmo.

Duas e meia, garçons empilhavam mesas, varriam o chão, ela veio. Pegou-o pelo braço, e levou-o ao seu apartamento, pequeno, porém pago com o suor dos seus lençóis. Tinham dado a primeira, ela quis saber:

- Onde você aprendeu a ler a mão?

- Eu não sei ler a mão. Estava a fim de você.

Apoiada no cotovelo, voz irritada:

- Quer dizer que ele não tem outra?

- Ele, quem?

Ouviram a chave abrindo a porta de entrada. Mal tiveram tempo de cobrir os corpos com o lençol, um tipo mal-encarado, careca e forte, entrou no quarto:

- Que merda é essa?

- Ele disse que você tem outra.

A janela estava aberta, calor sufocante, agora insuportável. O brutamontes puxou um revólver da cintura:

- Põe a roupa.

Valdecir respirou aliviado, e vestiu-se rapidinho.

- Agora, salta.

- Salta?

- Pela janela. Salta.

- Mas estamos no décimo - segundo andar!

- Por isso mesmo. Salta! Ou eu atiro na tua cabeça.

Uma bala na cabeça é sempre fatal. Salto no escuro tinha sido sempre sua vida. Chegou perto da janela, a rua tava longe pra caralho, explodiria como uma melancia, sangue e merda espalhados no asfalto. Lançou a fala mansa:

- Quantos você já matou?

- Não interessa, você não é polícia. Pula, ou te furo a cabeça!

- Posso ler tua mão, antes?

- Pra que?

- Pra eu saber quantos você já matou, ou se serei o primeiro.

- Você não vai pular?

- Nem fodendo.

- Então vou atirar!

- Deixa eu ler primeiro, que diferença faz?

- Bom... Então vem ler. Se você acertar, só atiro no joelho. Se errar...

Pegou a mão do cara, virou a palma pra cima, e viu que era igual a todas as outras: linhas e marcas. Fez alguns sons com a boca, murmurando consigo mesmo, balançando a cabeça em desaprovação. Olhou pro rosto boçal do outro, ar piedoso. O grandalhão se impacientou:

- O que foi? Viu o que?

- Você não vai gostar...

- Fala logo, porra!

- Ela tem outro. Você tá sendo chifrado. Sinto muito.

O brutamontes olhou a amante, que já estava pálida:

- Você sempre disse que eu era o único... Que não teria outro...

- Ele é um mentiroso, Armando, não sabe ler mão, nem nada... Assim você me deixa preocupada!

Enquanto Armando sentava na cama, a arma apontando para o chão, o olhar buscando os cornos da lua, a mulher se explicava, entre lágrimas.

Valdecir deslizou em direção à porta. Abriu, saiu, e tomou o elevador. Não ouviu tiros, nem gritos. Andando sem pressa rente à parede, juntava forças pra chegar em casa e garantir o café da manhã.

Conto de Luís Valise

terça-feira, 26 de abril de 2011

CUBOS DE GELO

Acho que até esqueci a fumaça que traguei
Não espera ouvir o disco agora
Assim no meio da tarde
Tipo ir pelo mundo a fora

Ainda sobraram umas doses do whisky
É só colocar no copo
Com uns cubos de gelo
E ir ao encontro do meu flagelo

Tem horas que é melhor mesmo
Ficar ouvindo o Pink  Floyd
Do que sair pela rua

Imaginando que a vida é sua
Então ficarei por aqui
Imitando a vida

Que existe dentro de mim
E longe das serenas
Flores do jardim

sábado, 23 de abril de 2011

Singular

A centelha de luz que te cabe,
Que te segue e conduz; tua guia
Nesse mundo que pulsa e te sabe
Uma estrela perdida na via
Percorrida por muitos.

Singular que do escuro se entreabre
E se firma no breu, maravilha
Da galáxia na láctea amizade
Percebida; que surge e turbina
A impressão: somos únicos.

Desconhece-se a luz que não esparge,
Que se fecha e se esconde em surdina.
O pensar se faz vivo e sem par
Em magnéticas ondas; um ímã
De atração, denso e plúmbeo.

Poema de Yayá

BAIXADA É ARTE

Olá a todos,

segue a divulgação virtual. Por favor, enviem para suas listas para "bombarmos" a Semana Baixada é Arte!
O material impresso (folder e filipeta) ficará pronto na segunda-feira. Vamos avisar vocês para marcarmos, com quem desejar, de cada um pegar um pouquinho para divulgar!


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Sobre o projeto:


A Semana BAIXADA É ARTE une, em um mesmo espaço, importantes trabalhos de diferentes linguagens artísticas – música, cinema, literatura, teatro e dança – a debates temáticos, com o objetivo de valorizar a produção cultural da região. Mais do que um evento, esta Semana deve ser um movimento de união dos artistas da Baixada em prol da cultura local. Nestes cinco dias, artistas de expressão irão mostrar que a Baixada Fluminense pode e deve estar integrada à sua riqueza cultural.


BAIXADA É ARTE nasceu do projeto O Canto da Baixada, do cantor e compositor Bira da Vila, que reúne exclusivamente obras de compositores de samba da região.

"A valorização cultural da Baixada Fluminense deve prestar homenagem aos antigos artistas, mas também olhar em direção ao futuro, e encorajar a produção dos novos criadores. Fazendo uma ponte entre estes e o público, o evento busca incentivar o desenvolvimento cultural da região."

Bira da Vila

ESPERAMOS TODOS LÁ!


--
Pagu Produções Culturais
Carolina Bellardi
21 7719-7489
21 8118-7525


sexta-feira, 22 de abril de 2011

Assovio

as janelas se abriam
todas as casas olhavam o céu
afastava a cortina
o dia vinha raiando
se espreguiçando em minha boca
a terra chamava com pressa
afofava um travesseiro
para os sonhos
o vento embaraçava as folhas
eu assistia a calmaria do dia
no céu escrevia minhas lendas
o vento vinha e apagava
subia pelas árvores
me lia pelos galhos
não tinha hora
não tinha relógio
nos pés calçava o ar
em seu vestido vermelho
a Joaninha passeava
as formigas todas de pé no chão
ah, brincava e corria tanto
que o dia não me alcançava
o vento assoviava
a última folha caia
era hora de voltar...

Poema de Vânia Lopez

BOSQUE

A vida é uma caminhada
Que às vezes nem sabemos onde dará
Mas é nesse bosque
Onde nos confidenciamos
Com árvores e pedras
Banhados pelos raios de sol
Que furam a floresta
Que tentamos nos encontrar

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O lenhador

O lenhador desce a lenha com o machado
E parte a lenha ao meio
O lenhador desce o machado na lenha
E parte a madeira ao meio
O lenhador desce a parte ao meio
E lenha a madeira do machado

O lenhador esculpe um novo cabo

O lenhador decepa um dedo
E enfurecido decepa a mão o braço o pé a perna
O lenhador escalpela a consciência
O lenhador inconsciente
O lenhador inconseqüente
Sem ciência nem paciência

Cantarola enquanto corta:

O Mundo é cruel porque o Homem é cruel!
O Homem é cruel porque a Vida é cruel!
A Vida é cruel por que, meu Deus?

Uma tese não prova nada
Uma tese nada comprova
Um caminhão carregado
É meio caminho andado
Uma ova

Imposto pro Estado
Dízimo pra Igreja
O pobre quebrado
Sem cobre pra breja

Espanco a mulher
Espanco meu filho
Não meta a colher
No meu estribilho

Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar
Não se banha duas vezes no mesmo rio
Ninguém cava sua própria cova
Uma ova

A árvore centenária bipartida
A árvore da vida
A árvore caída

O homem morreu

O raio caiu
O rio correu

Poema de Andri Carvão

terça-feira, 19 de abril de 2011

Mãe Paula


Sou filho de Mãe Paula
Que não é do santo
Mas namorou com o misticismo
Sou filho de Mãe Paula
Rezadeira de primeira
Tirava quebranto e mau olhado
Abria a boca e lacrimejava os "oios"
Ao tocar nos "fios" carregados
Sou filho de Mãe Paula
De cabloco forte e seguro
De passes certos e decisões impassíveis
E com a permissão de Deus
Escolheu a hora de partir.

Jorge Medeiros

A passagem do tempo custa caro

Quase Um Feto

Quem você pensa que é?
Você sabe com quem está falando?

Eu sou um velho decrépito
D e t e r i o r a n d o . . .

Eu não sou velho:
Só sou jovem há mais tempo.

Eu não estou ficando velho:
Estou virando um clássico.

Ei!
Acorda meu caro!
Levanta e anda!
Caminha!
Ei!
Ainda está vivo?
Sacode a poeira!
Respira!

Aviso aos Navegantes

Aos que ainda estiverem vivos
Levantem as mãos!
Aos que já estiverem mortos
Levantem aos céus!

Aos que ainda estiverem vivos
Morram!
Aos que já estiverem mortos
VIVAAA!

Aos mortos-vivos!

Aos que estiverem exaustos
Insônia!

Aos íntimos!

Poesia

Um porto seguro
Uma válvula de escape
Uma tábua de salvação

Línguas Mortas

Devia amanhecer bem morto
E ao arregalar bem as janelas da alma
Furar a terra e o cimento
E levantar do berço de barro
E velhinho de tudo durante o caminho cansado
Soerguer lentamente
Conforme as rugas desaparecessem
E a cara corasse
E o ímpeto e o ânimo irradiassem
E raiassem
E viveria cada vez mais jovem
E toda noite só o sol
E a cada dia mais jovem
E peralta com o passar dos anos
E cada vez mais e mais
Até o útero da mãe natureza
E o saco do pai todo poderoso

Mas não

A cabeça num travesseiro infantil
Repousa
As mãos cruzadas sobre o peito
Calcanhares unidos e as pontas dos pés
Pendendo em separado
O cheiro de incenso
As roupas de domingo
A chuva encolhendo a todos
Até enferrujar os ossos
Silêncio
Principia a cerimônia derradeira
Em meio a soluços
De dor ou de alívio
A sete palmos do céu
Um passo em falso
E chão
Pás de terra sobre o pó
A pedra cinza e fria sobre a
Madeira frágil
A graça entre a estrela e a cruz
A relva e a pátina do tempo
Cobrindo tudo
As doze badaladas
O canto do galo
E o ostracismo inevitável

Uma estrela que cai
É uma pena
Um poeta que sai
De cena

O meio é o fim
E o fim um recomeço

O Inferno são os outros que me habitam


Poemas de Andri Carvão

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Música para elevadores

A porta abriu para um andar vazio. Continuei sozinho, em ereta e determinada

contemplação do nada, a língua esgravatando o buraco da cárie, de reparo sempre

adiado pelo mestre da procrastinação. As paredes metálicas, um todo de assepsia

brilhosa, numa paz erma e escorregadia. Emparedado e móvel, a setenta metros

de altura. O aço por testemunho do que piso e me cobre a cabeça; perturba–me

essa música rastejante sob o silêncio, a ausência de cheiros, odores e nuances.

Um ser assustado me observa, do outro lado deste dilema de aço: eu mesmo,

sobraçando meu jornal e minha circunstância. Talvez a vida me tenha sido leve:

sentimentos anódinos, memórias desinfetadas, o fim da infância descoberto no

limiar da velhice. Agora, a música tão próxima, quase a brotar–me dos olhos,

ligados na tinta forte das manchetes. Paramos. Mais alguém na caixa. Uma

mulher–ruiva de fato ou circunstância? Procura na bolsa, tateando um sentido

inexistente aqui fora, até esbarrar no batom; joga os cabelos para trás, em frio

e largo gesto; retoca os lábios fazendo minhas pupilas de espelho, mas não me vê.


Conto de André Albuquerque

domingo, 17 de abril de 2011

Hoje...Não!... Por que?

Entre o sofá e o quarto é um caminho largo?
Mas quem dita dogmática regra?
O certo e errado não está na sola do sapato
Quando o pé por vontade nos carrega!!!

E se o desabrochar da flor dobra o tempo
E a libido, das certezas, faz imprecisão
O melhor é aproveitar o doce momento
Já sem culpa, nem necessidade de perdão

Assim sem ética e pecado, sugiro, deite
Sem ritual de no primeiro dia dizer não,
Permita-se, aumente o volume do teu deleite
Ouça o peito, desligue a danada televisão.

Poema de Dupoeta