Manifesto do coletivo Pó de Poesia
O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.
Creia.
A poesia pode.
(Ivone Landim)
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Sarau Donana do mês de setembro
A grande poeta e líder do movimento Pó de Poesia Ivone Landim se diverte no sarau
Os artistas Naldo Calazans, André Luiz Gonçalves e Ivone: altos papos
A platéia curte os artistas que se apresentam no sarau
Vicente Freire, Dida Nascimento e André Luiz
Naldo e Dida
O poeta Cezar Ray
Os artistas se divertem
Dida solta a voz com André Luiz na percussão
André Luiz, Camila Senna, Ivone, nosso convidado especial Euclides Amaral e Cassia Cabral
O Sarau Donana realizado na noite de sábado do dia 29 de setembro foi um sucesso. Amigos do lendário grupo Desmaio Públiko - coletivo de poesia que agitou a cena cultural da Baixada Fluminense nos idos da década de 1990 - confraternizaram com a trupe do Pó de Poesia numa festa contagiante que teve as participações especialíssimas do escritor e músico Euclides Amaral e da Banda Seu Mathias e Panela Zen.
vão chamando coisas
já me chamaram pretensioso, poeta, gentil, nervoso, bêbedo, vaidoso, egotista, frustrado, escritor, senhor, puto, imitador, actor, reles, rude, naif, feio, débil, inveterado, nulo, triste, sorumbático, sujo, negligente, pedante, egoísta, parvo, pateta, invisível, maquiavélico ou manipulador, lisboeta, filho da puta, nada, deus, anjo, pelintra, do povo, padre, pregador, miúdo, velho, monge, corajoso, elitista, luso, de esquerda, de direita, fascista, agitador, sublime, dono, maravilhoso, bondoso, mau, diabo, vizinho, solto, fadista, ensimesmado, fanático, tarado, humilde, simples, puro, burro, ingénuo, escrevinhador, falso, coisa, grato, sui generis, censurável, podre, sem jeito, ruinoso, dúbio, estúpido, vagabundo, grande, melancólico, génio, subtil, tudo, cristo, prima-dona, maricas, degenerado, nulo, merda, simplório, areia, caca, gato, mulher, periquito, homem, mar, terra, estrada, sol, sexo, pénis, ambíguo, inútil, suicida, negro, árabe, cobarde, caldo Knorr, ídolo, jovem, e muito muito mais
tudo em cerca de 4 anos
que seria se fizesse poemas – que me chamariam mais
apresentei-me como sou – tratam-me como personagem, que seria se me apresentasse como personagem? acreditariam em tudo como real e literal? se o contrário é que vale então adoptemos o absurdo - o famoso teatro do absurdo de Beckett que acaba por ser a mais realista e exacta descrição da realidade
não se esqueçam - ao porem (pormos) a pele de poeta-lobo nos vossos lombos de ovelhinhas – sujeitam-se ás consequências inevitáveis da vida real – não a virtual – um dia cai a pele mal colada às costas e surge o pelo brilhante e branco dum animal que ensinamos às crianças que faz mée-mée e uma ovelha nunca será um lobo com pele ou sem pele mais não pode fazer do que em contacto com a sua frustrada inevitabilidade de balir de desgosto
portanto, sempre apareci aqui sem máscara e escusam de puxar pela pele da minha cara que isso dói e não sai – por baixo é só sangue nervos e esqueleto
e se isso não basta – nada mais tenha a dizer
mas fico feliz por ao tentar escrever poesia – vivi tudo isto
e por isso – obrigado
out. 12
Autor: Carlos Teixeira Luís
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quarta-feira, 3 de outubro de 2012
Batoré
Cantarolava enquanto limpava as capas dos elepês, o primeiro lote de animação subvencionada pela prefeitura ; Waldick Soriano acotovelava Teixeirinha que escorava os Golden Boys e a versão 66 das Quatorze Mais. Aceitamos doações, trombeteava o cartaz lá na porta . No braço automático da vitrola , aguardando vez ,o disco mais recente dos Incríveis , chorando alguém morto em plagas vietnamitas e a guerra dos seis dias , na não menos remota Israel.
E a vida corria , em gonzos azeitados . Na tarde mormacenta do mês de outubro , dedicado á Santa Padroeira , a Kombi velha , branca em melhores dias , maracujá sobre rodas envolto em poeira e estranheza , chegou , á reboque do caminhão da roda gigante . Um alto–falante aposto aquela precariedade, anunciava aos quatro ventos a excelência do Elixir de Mastruço e a força do Professor Asa Negra, o magnífico , campeão inconteste de luta livre americana , flagelo dos cabras frouxos e versão tropicalizada de Sansão , ao seu alcance , naquela noite , no Clube Municipal, por meros quinhentos cruzeiros de entrada , com direito a vistosas demonstrações de sua arte, inclusive o temível tacle , a arte de voar sem asas , estraçalhando o oponente .
Em frente á Praça do Fundador , a Kombi estrebuchou e calou-se .Desceu do veículo um homem alto ,musculoso, queimado pelo sol , feições esculpidas á faca cega em sua notável feiura , pernas torneadas por uma justíssima calça Topeka , sobre um par de botas com adereços prateados , bigode decaindo pelos cantos da boca , camiseta preta , cavada ,ensopada de suor , exalando um bodum misturado á desodorante Avanço ; da nuca , precipitava-se um frondoso e luzidio rabo de cavalo cheirando á Glostora , caindo- lhe sobre as costas robustas ,enquanto de megafone em punho , prosseguia na louvação do Elixir e as bravuras de Asa Negra , ele mesmo, alardeando seus atributos , encarando a meninada da praça , que freava as bicicletas, na contemplação do “portento brasileiro e internacional de força e vigor” , entre a perplexidade e o riso fácil das infâncias despreocupadas .
Após uma hora naquele sol que não estava para brincadeira, entrou no mercado publico, aboletou-se numa mesa do bar do Antonino e ordenou uma cerveja , traçada sem mais delongas entre um pedaço de carne-de-sol e uma lasca de queijo de coalho , regurgitados e arrotados com a presteza e sonoridade dos estômagos privilegiados e apressados. Liberando um hálito mais pra urubu dispéptico que qualquer outra coisa , indagou da localização do serviço de alto-falante, enquanto pagava ao desconfiado Antonino , que via das dúvidas, dava na sua foice um trato de esmeril , sob o balcão, enquanto indicava o cubículo no final do corredor . O troco deslizou sobre o balcão de fórmica arranhado pelo transito rastejante da aguardente, do copo ao bico da freguesia. Um punho envolto em pulseira de couro e metal reluzente, bateu na porta entreaberta. Dessa vez, o hálito demolidor despachava um boa tarde sorridente e de mão direita estendida , com direito ao fétido complemento :
- Epitácio Nepomuceno , vulgo Asa Negra, lutador , mágico e andarilho . Toque aqui os ossos , meu distinto . Falo com o grande Quincas Galdino , fera saltitante e premiada do agreste da Paraíba ? Orgulho da Academia Princesa do Capibaribe ?
Batoré ergueu-se da cadeira entrevada , alisou o braço esquerdo , a cabeleira exaltada e confirmou-se , num riso só .
- Meu nobre professor, a que devo a honra , após tantos anos?
- Irmãozinho, estamos em turnê há três meses; a grana tá curta , estou dando beliscão
em azulejo e nó em pingo d’água por dinheiro ; até a Vilma se mandou com um prestamista . Imagina o futuro de um corno liso : merda granulada ou não é ? Vim propor uma luta , amanhã á noite, no Clube Municipal .A gente faz só a munganga , o povão gosta , você ganha , ganho eu e tudo bem .
- Estou nessa.
E foi mesmo , ou melhor, foram mesmo.O resto do dia, foram peripécias do professor a encher as pequenas ruas : rebocar um jipe com o ensebado e duvidoso rabo de cavalo , imobilizar o mesmo o jipe ,engrenado em primeira marcha,com as mãos e outras sansônicas tarefas das quais resolvemos poupá-lo, amigo leitor , pois afinal de contas a luta entre Batoré e Asa Negra já era anunciada em megafone, cartaz grudado e serviço de alto – falante , aos quatro ventos e mais alguns adicionais se a diminuta cidade os comportasse em sua pequenez .
Comentava-se da sacristia do circunspecto padre Eduardo ao forro verde da mesa de bilhar, onde Neco Gato desfolhava os otários dos seus parcos cruzeirinhos entre uma talagada da incandescente Serra Grande e a tacada precisa tal bote de cascavel ; num bilhar onde até o giz era viciado, o comentário era um só:quem venceria a grande luta, de preferência para contar a história de um arranque só , entre uma cerva e outra,de queixo inteiro , no bar do Antonino?
È , de queixo inteiro sim , pois no último embate registrado nos arquivos muito vivos da cidade ,dois anos atrás, Batoré derrotara Maciste de Oliveira, com o saldo de uma graciosa fratura na tábua do queixo do adversário , região teimosamente chamada de mandíbula pelo rubicundo e luzidio doutor Toninho,(habilitado nas artes médicas, na vizinha Campina Grande) testemunha ocular e manual da fragorosa derrota infligida ao alquebrado e desde então desqueixado Maciste .
Ingressos vendidos em tempo recorde, ás oito da noite , a multidão comprimia-se no pequeno porém decente e superfaturado clube municipal , na expectativa suada e confusamente fedorenta , mistura de perfume Lancaster , pum de batata doce e cheiro de sabonete Vale-Quanto-Pesa , entremeado á fumaça de cigarro Astória ,Gaivota,roliúde , pé de Judas e quejandos , conforme bolso , gosto e pulmão do freguês.
A venda de pipoca , cachaça , mungunzá e amendoim corria solta ; na bolsa de apostas Batoré vencia em três para um . No centro do dancing, nasceu um ringue cercado por cordas , agora inspecionado pelo velho Otílio Cegueta,caolho de espinho de angico,óculos redondinhos que lhe davam um ar meio vago de Virgulino apombalhado, único expert regional em luta livre por consenso próprio e árbitro auto-referendado e aceito para a refrega que se aproximava.
Na tribuna de honra, confabulavam o prefeito João de Toninho e os vereadores da situação, sobre a necessidade urgente e imperiosa de início da quinta reforma do clube , para melhor conforto e segurança dos cidadãos e grande alento nas contas bancárias dos políticos, considerando-se ainda que a cidade não comportava mais praças além das cinco já existentes nas suas três ruas simultaneamente principais e secundárias.
Ás nove da noite em ponto, chegam os lutadores,acompanhados das respectivas equipes,com direito á lata d’água e gelo municipais.Batoré, engalanado em roupão de seda,com letras brancas, Asa Negra fazendo jus ao nome, roupão de seda preta que já vira dias melhores,nas costas uma duvidosa águia bordada pelo método da tentativa e erro.Segundos fora,vão ao centro do ringue, xingam-se e ameaçam-se de estraçalhamento mútuo entre mugangas mil ,conforme combinado.
Otílio morde o charuto de pacaia e dá início ao combate,quinze assaltos de três minutos por um de descanso , os oponentes se estudam , arrodeam – se , cenhos franzidos e muita força para não gargalhar, Asa Negra acerta o batorêico Black Power num sonoro tapa, prontamente revidado por um chute no quadril ; a platéia urra e pede mais ; a concentração é grande, a seqüência de porrada combinada não pode ser esquecida; Batoré negaceia o corpo e toma um sonoro bofetão no pé-do-ouvido, corcoveia , fuça o ar, recupera-se e arremata em tacle sobre o antagonista ; Asa Negra segura a perna no ar e empurrando-lhe o pé para trás, faz Batoré aterrissar em graciosa cambalhota ; termina o primeiro assalto, ecoa a primeira vaia : o pouso foi suave demais ;Otílio recomeça ; temos uma seqüência de rasteiras e simulacros de rabo de arraia ; Asa Negra sai de bandinha feito caranguejo ; o nanico Batoré já bronzeando de suor consegue aproximação ; agarra-o pelo pescoço ; saraivada de socos e cotoveladas no atarantado
Asa Negra , que milagrosamente sai das garras do minúsculo algoz e planta-lhe sonoro bofetão na cara lisa ; Batoré cospe a prótese dentaria de cinco mil cruzeiros, agora caída e fraturada na queda em três inflacionados pedaços; a multidão explode num grito de pega-esfola-estoura-e-mata ;reinicia o combate ; coloca-se o protetor bucal esquecido no caneco da água ; agora Asa Negra beija a lona , após engenhosa manobra que lhe imobiliza o braço direito; ruge feito leão e sacode o oponente para o alto, ninguém é perfeito,as cordas do ringue também, Batoré aterrissa ou melhor amerissa de cabeça no caldeirão de mungunzá de dona Mãezinha ; Otílio reinicia o embate, ergue-se Batoré com mungunzá agranelado a adornar-lhe a juba, passa a mão pelos lábios carnudos ; reassume a pose de mini-gostosão no ringue ; mira a coxa esquerda de Asa Negra , que esperava um tacle , o pontapé atinge em cheio os preciosos envirilhados do lutador , que perdendo a compostura, segura os dito cujos com uma das mãos e com a outra varre do ringue o Batoré, com uma tapa de urso que lhe faz deslizar até os pés da primeira-dama; Rosilda, assustada e loura oxigenada caprichando no laquê ; retorna Batoré ao ringue, em fúria saltitante e cabisbaixa .
Otílio faz menção de reiniciar o combate e leva um inesperado dedo no olho, o charuto aceso cai-lhe sobre o peito da camisa modelo Volta-ao-Mundo novinha , puro náilon , agora , pura peneira ; no desespero do calor,ou no calor do desespero,vai de tamborete nas costas de Batoré, que lhe arremessa á platéia em sonoro tacle ; Asa Negra continua avaliando a entornação do caldo, ou melhor, o frigir dos ovos ; a platéia descabela-se e começa a aplaudir ; melhor que o Tele Catch Montilla, grita em uníssono ; Batoré entra de rasteira e Asa Negra sucumbe sob as cordas até as pernas de dona Ana, fornecedora de hóstias da paróquia e mestra no combate com sombrinha e cadeirada ; Asa Negra segura ainda os preciosos, recebe uma cotovelada de Batoré e em certeiro tacle, devolve-o ao ringue , abraçado á velha Ana ; Otílio encontra o apito , a essa altura , no tabuleiro de amendoim, encerrando o combate; nada feito, a platéia tomou gosto pela briga e agora a luta é democrática, digo, agora todos contra todos, depois a gente vê porque foi mesmo ; entra em cena a fleumática guarda municipal , que a golpes de cassetete , botinada nos testículos mais atrevidos e generosas doses de dedos nos olhos, consegue acalmar os ânimos da platéia , porque os combatentes, a essa hora, já rachavam a bilheteria e seu adorado vil metal, dentro da Kombi, a caminho de Deus sabe lá onde , rindo a bom rir.
Conto de André Albuquerque
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segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Lançamento do Fanzine Pó de Poesia na Casa de Cultura Sylvio Monteiro
Eu, Camila e Jorge Medeiros
O grupo cultural Fulanas de Tal
Dida Nascimento, Maria Luíza Rodriguez e Camila
O ator e músico Maurício Gallo declamando um poema
Ivone Landim e o secretário Anderson "Batata" Ávila
Dida Nascimento
Ivone Landim
Yasmin Thainá admira os fanzines
O manifesto do coletivo
Ivone e Camila
Jorge, eu e Rogério Lobo
O ator e poeta Ramide Beneret representa seu monólogo O Bêbado
As belas poetas Aline Corssais e Camila Senna
Eu declamando um de meus poemas
A grande amiga do Pó de Poesia Maria Luíza
Eu e Camila
Os fanzines
Ramide, Jorge, Dida e Ivone
Jorge interpretando magnificamente o poema Cântico Negro de José Régio
Banner dos fanzines do Pó de Poesia confeccionados por Ivone Landim
O sarau de lançamento do fanzine do Coletivo Pó de Poesia na noite de sexta-feira do dia 28 de setembro na Casa de Cultura Sylvio Monteiro em Nova Iguaçú foi um grande sucesso. Os integrantes de grupo Ivone Landim, Dida Nascimento, Jorge Medeiros, Camila Senna, Ramide Beneret e o humilde blogueiro que vos escreve brilharam no sarau junto com amigos como Maurício Gallo e Rogério Lobo. Foi tudo uma iniciativa do secretário municipal de cultura da cidade Anderson "Batata" Ávilla que encantado com os fanzines confeccionados através de colagem pela poeta, professora de literatura, ativista cultural e fanzineira Ivone Landim decidiu lançar formalmente os números já editados num elegante coquetel promovido pela secretaria de cultura. O fanzine Pó de Poesia publica poemas não somente de poetas do grupo como de toda a região da Baixada Fluminense e de todo o país. Famosos ou anônimos.
domingo, 30 de setembro de 2012
"memória,"
facto.
aparência de consumo imediato por..
(todos!!) os teus dias
ilícitos
pretendidos e-à,
menção inclinada de um devaneio meu..
à tua porta..
um
ensaio.
em
declínio.
exposto e, de. tragédias semi-fartas
olhos e o dente
rélicas e nadas
a noite
e hoje..
(e)sempre..
ou. sequer aonde houver o teu rastro
ou nome
ou mero quadro precedido de tais motes e cortes
às tuas mesmas insinuações
teus sorrisos descidos
tua pele
teu
lado(fixo),
ah, colisão..
é mera tinta que deitei de ti
é mera aquisição por respirar-te em verdade
quando,
em ápice dos meus registros,
só a tua letra desfaz
este
fim..
este pérfido inferno-início
pois,
é tarde.. e corre o prêmio lá fora
corre.. ainda acima das minhas intenções
minhas médias-perfeitas
minhas
linhas(e ilíadas..)
qualquer pena que te trazer à minha página, me determina
qualquer cena que te verter em ilustração, me condena
não te espero por cobrir-me à chuva
nem te esqueço à curva que não pretendi
eu apenas,
me lembrei..
Poema de Azke
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sexta-feira, 28 de setembro de 2012
ausência
arde em mim uma paisagem rara
como os dias feitos de viagem
anda em mim uma memória calma
e meus olhos brilham de nuvem
e assim por não te sentir, sonho
em não cantar tua voz à noite
e não mostrar sob os lençóis
o que, por ser sombra, se descobre
por que não sinto o teu gosto
nas noites que passo em claro
nos dias em que deito e paro
e me oferto ao vento em teu lugar?
Poema de Caíto
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quarta-feira, 26 de setembro de 2012
fruto extremo
desmanchando o truque das nuvens
se interpondo nos espaços criados pelo tempo
bonita e cheia de belas promessas
entre o céu e a terra
o melhor par de olhos
de perder o véu,
a sobrancelha como uma flecha livre e indomada
mancomunadas entre a fé e o pecado
na mais funda suavidade, no melhor do feminino
de tirar à vida,
você se aproximando em sol e chuva
arrancando os colares do dia
como se a música estivesse vindo através dela
era Deus esboçando o que não pode ser...
rasgando as tiras do silencio
de não se acreditar,
você prenha de rimas
o cheiro do teu batom corre de castelo em castelo
emoldurando o assombro que dá por dentro
é o som da descoberta da alma
o pecado cai sem aviso,
como se segurasse um pássaro nas mãos...
Poema de Vânia Lopez
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domingo, 23 de setembro de 2012
hoje é a noite que me traz para os teus lábios
degrau para os meus anos, e quem te viu trouxe-
me um rio de flores. Começou hoje o Outono, e
como devia ser. Começou e alguém, meu amor,
pode ter utilizado o teu espelho e pode ter feito
que a noite ande pela primeira vez debaixo das
árvores. Tenho no futuro um pôr do sol com uma
nuvem branca e o amor abraçará a lua, se os
teus pássaros forem rápidos e seguirem o sol. E,
hoje, nenhuma rua chegou aos teus dedos contra
mim: hoje, quando me mostras o ar que eu per-
dia, o ar quando o sonhava, ao
...........pé do teu rosto.
E hoje é a noite que me traz para os teus lábios
E, hoje, é a noite que me aproxima de ti, agora
que as flores nascem mais cedo, e os lagos
ficam a morrer do teu lado, Meu amor
Poema de Francisco Eugênio Seixas Trigo
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quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Desespero romântico II
49
que é que queres
que eu diga mais
eu gosto de pessoas
de música e de boa poesia
de vinho e de gatos
mas não gosto de mariquices
prefiro um poema com verdade
a um ramo de flores poético
na voz duma alma qualquer
flores são bonitas
para quadros antigos impressionistas
mas sou alérgico
como aos gatos
mas estes suporto-os
um pouco de cada vez
e o raio dos gatos
gostam da minha presença
talvez algo de gato
vadio de rua
sou um poço de incongruências
como qualquer um
que é que queres
que eu diga mais
sou muito vaidoso
todos os santos dias
me miro ao espelho
gosto de rugas
um rosto sem rugas
é uma mentira
um rosto sem rugas de tempo
é uma mentira
quem gosta de sentir uma mentira
debaixo da pele
ando para aqui e entrei porque a porta estava aberta
e ninguém me impediu de entrar
volto e venho
e não tenho de explicar porque
era o que faltava
que é que queres
que eu diga mais
visto-me assim
com um fato barato e amarrotado
calço sapatos que se podem engraxar
mas não o faço
molho os pés porque estão furados os sapatos
não dispenso gravatas escuras e torcidas
nem sempre faço a barba
e levo no bolso direito
uma garrafa de cachaça
porque gosto de coisas brasileiras
mas fica descansado
abotoo sempre um botão do casaco
a porta estava aberta e entrei
que é que queres
que eu diga mais
se te parecer mal
manda-me embora
mas posso voltar se me apetecer
faço o que me apetece
aprenderás isso
não me dou com o vai para ali
e vem para aqui
não tenho nada
não tenho bens
só pessoas
tenho-as no coração
nunca morrem
e já são muitas e às vezes gritam
todas juntas
claro que acredito em Deus
e espero que Ele ainda acredite em mim
que é que queres
que eu diga mais
nunca escrevi sobre baratas, bicicletas e avionetas
são meras metáforas
para as coisas que não deitamos fora
e guardamos sem saber porque
ferro-velho e memórias empoeiradas
é sobre tudo sobre o todo e o nada
sobre a sombra e o que ofusca
não leias
vive
vai beber um chá na companhia
dum agiota qualquer
existem aos magotes
respiramos e damos mais um passo em frente
não tem muita ciência
andamos por aqui
somos iguais
que haveria de escrever
senão sobre o que me preocupa
que é que queres
que eu diga mais
nasci em 66 vê lá
que interessa as baratas ou os fuscas
as bikes ou as pequenas naves voadoras
morrerei num destes dias
devagar ou de repente
esta é a minha biografia
que ame quem amo
e que não falte comida a quem de mim depende
um dia amanhã tudo acabará
não te preocupes
olha - Fim
que é que queres
que eu diga mais
set. 12
Poema de Carlos Teixeira Luís
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quarta-feira, 19 de setembro de 2012
[...e deixa a poeira destas encruzilhadas invadir]
e deixa a poeira destas encruzilhadas invadir
este tédio que me repete,
que me cobre como o tafetá,
santifica-me a emoção em escarlate, nudez essa
de teu peito coberto por nuvens em cirros,
mas...
ensina-me a colher o mel pelo ocaso
onde miçangas reluzem, estrelas cadentes também,
quando o mar se espraia para além das violetas adormecidas,
[clareia-me a noite].
Na verdade dir-te-ei,
pudesse ser eu o verso que treme pelo anoitecer,
pudessem ser as mores distâncias apenas o simples respirar,
pudesse eu afundar olhares de adamastores sempre irados,
pudesse sossegar-me como o aloé que nasce da estrada,
enquanto habitas estas divisões quais páramos em mim.
[E repetir-me-ei: ensina-me a colher o mel pelo ocaso...
que fazer, perguntar-te-ei].
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
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terça-feira, 18 de setembro de 2012
eu e Deus
passos frescos manchando a tinta da escada
os fios do poste invadindo o quarto
no peito da noite uma estrela
um riso suave... namorando os lábios
a pele viciando o perfume
o silencio reclamando abrigo
trilhos, temores, teus favores pelos corredores
os minutos possuindo o relógio...
eu e Deus, à esquerda
o depois de amanhã um demônio
(meu castelo)
a alma de vidro criando beleza
para o desfecho das pedras
o tempo... um abraço forte
já não era meu...
era algo seu esquecido em mim.
Poema de Vânia Lopez
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domingo, 16 de setembro de 2012
A cotovia não canta à sede
Percorro-a com o arado dos meus dedos,
Abro sulcos na terra virgem,
Lanço-lhe as sementes dos teus lábios,
Rego-os com uma lágrima que corre na nostalgia do sonho.
Um aroma a terra húmida, embriaga
O sentir da tua presença.
Trás a barca através da cortina de bruma,
Senhora da madrugada alva,
Minhas mãos no teu longo vestido,
Remam nas águas adormecidas
E deslocam remoinhos no teu corpo nu.
Desfruto nas margens do segredo,
O fruto azedo do teu âmago.
Deixa que a barca desça selvagem
O rio que nasce no vale dos teus seios,
Eu afogo-me no cheiro do teu ventre
No enlace das nossas tormentas,
Vem senhora da barca
Comigo molhar os pés,
Vem sentir as pedras frias dos meus olhos,
Beija-me estes lábios de vento.
Há um refúgio em ti
Onde lanço os meus segredos,
Não há ecos de receios nem traições.
A minha boca encontra a tua boca,
Entre risos e beijos.
Agarras esta torrente que esta prestes a chegar,
Dentro de ti descubro um mar,
Eu transformo-me na onda que invade a tua praia.
Por fim, adormeces, naufragas nos meus braços,
Um lençol de névoa cobre os nosso corpos exaustos,
Um doce odor do amor breve
Denuncia a nossa primavera.
Partes devagar,
Apenas pó e caminhos ficou,
Dizes que alguém descobriu um pôr-do-sol
Na planície verdejante do teu olhar,
E que uma espiga de trigo despontou no teu sorriso.
Sei agora, que esses brincos de urze
Que nas tuas orelhas coloquei,
São já mirradas flores castanhas.
Sabes,a cotovia não canta à sede.
Mas, eu desfaleço num cântico alentejano.
Autor: Sedov
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quinta-feira, 13 de setembro de 2012
quase não lhe resisto...
que uma pincelada de Van Gogh
respirou o ar como se nada o respirasse
mentiu com a mesma boca (vermelha)
que roubava do vento um lamento
dispôs das armas num lento olhar
inundou o sossego enquanto a chuva bordava
música no telhado
sob o mesmo céu sua cintura desafiava a gravidade
o cinto driblava um pedaço de pele
como uma ilha sem ligação com o continente
sem ponte ou barco para atravessar
com os cabelos ordinariamente distraídos chicoteou o ar
numa total provocação inflamou o chão... carregando o mundo
(foi como encontrar um anjo no inferno)
Deus bem podia arrancar o farfalhar azul dessa saia
que oscila em meu peito
antes de desaparecer como um suspiro
... vendo todas as ruas passarem
Poema de Vânia Lopez
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quarta-feira, 12 de setembro de 2012
[...e tantas são as viagens que me alumbram
e tantas são as viagens que me alumbram,
quiçá por sonhos nunca dantes realizados
onde se degustam silêncios vogados ao vento
que sempre me arderam.
Ignescente memória revelada
nestes olhos sem choro que miraram além da proa,
além das níveas montanhas.
relembra-me, acolhe-me enquanto o ceu estreleja pelo entardecer dos dias em verão.
Que se extingam as palavras que os deuses libertaram,
que rocem o infinito desejo, quão perenes
penetram mar adentro, quais viagens desassossegadas
mitigadas pelo som destes marulhares sempre presentes.
Acolhe-me em sorriso, desnovelando
cousas incertas aprisionadas, ilusões outrossim,
relembra-me, uma vez mais,
a cor das cerejas dissipada por entre sussurros só nossos.
Inda me peregrino em mim, sabê-lo-ás.
[-Senti-lo-ás? Perguntar-me-ei.]
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
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sábado, 8 de setembro de 2012
O silêncio do tear
No vagar dos tempos
Entre o espaço cidral dos teus dedos abertos
Há um tear mecânico
Onde nossas mãos ávidas
Quiseram tecelar um tapete de orelos
Com os trapos dos momentos partilhados.
Foram as nossas palavras a urdidura
Que fomos esticando
Mas o pente liço atrofiou-se uma manhã
E os fios quebraram-se.
A poesia do teu corpo ficou fechada
Com todas as vontades viradas do avesso
Não penetrei a poesia da tua flor
Nem cada detalhe do teu corpo desalinhado
Os beijos, a língua, a saliva, o suor, a pele molhada
O falo túrgido
Esmoreceram
Num campo de cardos.
Eu sei que cada um de nós um dia chegou a imaginar
Os nossos corpos fundidos
Num vaivém em suaves entregas
No fio de trama do tear
Onde tecido seria a nossa carne
E os nossos sentidos entregues a um amor sem regras.
Ficou o desejo mudo
O que faz de nós meros filatelistas
Que nos preocupamos com os pormenores mesquinhos
Da integridade da serrilha de um selo.
O desejo mudo
Esmaga-se à noite no silêncio do travesseiro,
Olhos abertos na escuridão
Ao vaguear pelo firmamento de tecto do quarto,
Sente-se o vazio de um corpo ao lado
Que respira e dorme profundamente
E o desejo de noite não é o desejo do dia
E o desejo cala-se
E a lua consente
E o sono chega
E manhã que há-de chegar não será mais uma vez
A manhã
Que com um sim se diz sim
Ao que sempre se disse não.
Autor: Sedov
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