Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



sábado, 17 de abril de 2010

É NOITE NO MEU CORAÇÃO



É NOITE NO MEU CORAÇÃO

É noite no meu coração
Vivo tomado pelo medo
Sei que para Ti
Não tenho segredo

Venho aqui pedir Seu perdão
Fico de joelhos
Fecho meus olhos
Tiro minhas vestes

Sou apenas mais um filho a pedir
Que olhe por mim
Que não me deixe cair em tentação
Que ilumine meu caminho

Porque não tenho forças para vencer sozinho
Quero estender-lhe minha mão
Mas meus braços são pequenos
Não sei se O alcançarão

Autor: Arnoldo Pimentel


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terça-feira, 13 de abril de 2010

Adamastor



A tua dor, do que ela é feita?
De escarpa, barba, sal e lágrima,
De pedra e mar em promontório
Alcantilado, mudo abismo
Feito de vales e penhascos
Que o choro pejo vertem no eco.
Aterrador é o teu aspecto
De ancião – velho desprezado,
E ninguém diz que um dia foste
Amante alegre e desejado.
Um capitão que guerra fez
Mais pelo amor que pela guerra,
Porque a batalha que te aferra
Não é por glória, nem por fama,
Não é por África ou Arábia,
Mas a que faz os corações
Serem tachados de ignaros;
Mas a que faz os corações
Pra trás deixarem toda a frota,
Pra trás deixarem toda a tropa
Em mar cortado por trovões
Que vêm dos céus e dos canhões,
Aquela mesma que te fez
Em promontório converter-te.
Foi a paixão por nua ninfa,
Foi a paixão que a sorte mísera
Contradição impôs a ti
Por muito amar e o mar deixar.
Tão puro amor por nua ninfa
Te fez penhasco, um promontório,
Tão fero amor por nua ninfa,
Mais que titã, te fez um homem,
Um ser de rocha, em carne tesa,
Em tensa carne belicosa,
Intensa carne desejosa
A revelar-te a louca fera,
O fero amor que por ser puro
Precipitou teu ser titânico
Contra ti mesmo, imenso monstro,
Ávida carne, à enorme penha,
Brutal amor, em pura pedra...
E se hoje incrível dor naufraga,
Em tormentosas tempestades,
Vetustas naus e novas naves
É só por ti que elas afundam
Em novos casos de naufrágios,
É só por ti, imensamente,
Que de cidades inundadas,
Partem repletas de indivíduos
Que amor não têm, mas que uma dor
Inexplicável, sem razão
Oprime peitos tão civis,
Que mesmo assim cismam doer
Sem promontório e sem esquadra.

Felipe Mendonca -

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domingo, 11 de abril de 2010

Canto de fêmea


Dança por dentro
tua dança, pois somente tu
sabes o sentido.
Sonha no teu ritmo,
desafiando a realidade,
sempre dolorosa de se conceber.
Revira os olhos
para ultrapassar teu limite.
Conduz tua força por este fio estreito,
chamado "Amor teu".
O maior de todos os teus dotes
é articular este verbo,
duro, lindo, frágil e impreciso,
que é Amar, com vida.
Teu brilho se faz luz,
para quem catalisa a essência
da razão do viver.
Retomado agora o princípio de tudo,
se solta as amarras
libertas quem nunca foste
e nunca pudeste ser,
uma fêmea absoluta.

Giano
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O Dia Escuro


Na manhã estranha
De tardes tacanhas
Saio com o dia escuro
Embaixo de nuvens negras
Entre as luzes ainda acesas.

No infinito ainda o reflexo
Da queda do último relâmpago.
As marcas da tempestade
Que escureceu todo meu âmago.

Nada impede que eu ande
Entre casas sem muros
De mármores escuros.

A ventania soprando mundo afora.
Talvez eu quisesse ter alguém
Do meu lado agora.

Na primeira esquina
Cruzo com o sorriso aberto
De uma criança escura
Que clareia toda a rua
Que esclarece toda dúvida.

Ninguém sabe o que se passa dentro dos aviões,
Dos carros, ônibus e caminhões
Que param e passam,
Que dão passagem e atropelam,
Passam por cima e salvem
E deixam morrer na estrada molhada de chuva.

Nem por dentro da cabeça das pessoas que não sabem
Que o sorriso largo da criança
Perante o dia escuro
É tão contraditório
Quanto o vôo da ave de rapina
Pelo céu e mar limpo
Entre o sol mais que vivo.

Dias escuros, noites claras,
Manhãs violentas, tardes lentas.
Amores aflorando, ódios sangrando,
Corpos transando, cabeças rolando.

E o dia escuro cresce.
Assim ele aparece.
Assim ele se determina.
Assim ele domina.

O olhar dos que vêem seus filhos
Irem à escola em capas que os protegem da chuva,
Mas não do frio.
O olhar dos adolescentes mortos de tédio.

A perda da vida das cores das tintas.
O triste impulso sem graça do céu cinza.
O fraco aspecto de ternuras sem carícias.
os cruéis detalhes das últimas notícias
Dos jornais, das revistas, nas bancas, livrarias.

A velha que escorrega
Caindo na lama.
Os corpos que batalham
Desejando ainda estar na cama.

Comanda os pensamentos poluídos dos homens do mal
Que guardam o sexo na cabeça e as idéias no pau.
O fundo do coração das moças de mente vazia
Que fazem bebês assim como fazem comida.

A teimosia das aves que não se cansam de voar.
A bravura das árvores que insistem em respirar.

Talvez o mistério da noite venha esconder o medo no olhar.
Mas a realidade é má e tão fácil não irá nos desvencilhar.

E o negro do sorriso da besta
Cobrirá o branco da lua,
Como a urina do bêbado
Escorrendo da calçada para rua.

Se é doce morrer no mar
É amargo morrer no asfalto
Não vale morrer de enfarte
Depois de escapar do assalto.

Nos móteis, os debates de ego
Que se fingem de sexo
Com certeza se acirrarão.
Só que eles nunca saberão
Que nas minhas mãos está a soluçao
Da limpeza de toda podridão
Que toda mentira possa sujar.

Mas não se percam nas confusas palavras desses versos-pensamentos.
Pois o dia escuro, como um pesadelo,
sucumbirá num só acinte
no despertar do nascer do sol do dia seguinte.

(Marcio Rufino)
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E...



E...

E todos os sonhos que sonhei?
-Simplesmente me obrigaram a acordar
Me proibiram de sonhar
E colocaram meus pés no chão

E todos os castelos que construi?
-Tiraram-me o príncipe
E tiraram o dragão
Tiraram a princesa, agora sem proteção

E todos os suspiros que dei?
Perderam-se num quarto escuro, na solidão
Perderam-se no vazio, ecoando no meu coração
Perderam-se entre soluços e lágrimas
Perderam-se num verso de uma canção

E tudo que senti?
Perdeu-se no último abraço que lhe dei
Perdeu-se na última vez que meus lábios tocaram sua face
Perdeu-se quando te ouvi dizer adeus

Autora: Tamires Alci


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quinta-feira, 8 de abril de 2010

AQUARELA



AQUARELA
(Poesia dedicada a amiga e artista plástica Gabriela)

Eu pinto sonhos que nem sempre têm asas
Sonhos vividos
Sonhos esquecidos
Sonhos que poderão viver na minha tela
Na minha triste aquarela

Minha tela pode estar pintada de vazio
Silêncio vazio
Cores incolores que mostram meu rosto
Tela vazia incolor que inspira minhas cores

Eu pinto meus temores na madrugada
Onde a tempestade é a verdadeira tela
Onde a solidão disfarçada
Invade o meu quarto pela janela

Eu pinto a solidão do meu corpo
Pinto as cores da minha voz nua
Pinto meus olhos perdidos no infinito
Minha tela é meu próprio grito

Autor: Arnoldo Pimentel

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terça-feira, 6 de abril de 2010

Bonde
















Meu bonde que aponta além
Já vai passando bem antes
Do horário de que é refém.

Vou correndo pela via,
Com ambos os pés feridos
Por calos de mais um dia,

Ouvindo o rumor dos corpos
Proliferando-se anônimos,
Nesta cidade de mortos!

Mas, corro e chego de vez
Passando em cima das covas
Dos mortos sem ano ou mês,

Dos que vão pelas calçadas,
Passando pelos semáforos,
Entre sombras apressadas.

Vou pela rua bem vivo
Sentindo no peito ofego
Coração nunca cativo,

Pisando no asfalto duro,
Rosas fanadas num chão
Só de ratos em monturo,

Pisando essa rataria
Que, contra tanta miséria,
De certo, nada faria.

População que consente
Que o tempo todo lhe mintam,
Sempre farta e tão carente.

Sim! O bonde vou pegar
Junto a Prometeus e Sísifos,
Que nunca aceitam estar

Escravos da profissão,
Presos às roupas e à classe
Da falta e da solidão;

Que nunca aceitam estar
Como os que voltam pra casa,
Bovinos, de par em par.

Gente que pensa que assento
Terá sempre garantido,
Mas que é folha, e leva o vento,

Gente que vagueia a esmo,
Pelos carris do vagão
Carregado de si mesmo,

Sem ver que vamos tomar
Dos mortos ainda em vida
Nosso direito e lugar!

Daqueles que em cemitério
Transformaram suas vidas
Sem decifrar-lhe o mistério.

Felipe Mendonça -

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sexta-feira, 2 de abril de 2010

MINHA ESPERANÇA



MINHA ESPERANÇA

O que importa se em Ti está minha fé?
-Nada importa
Pois em Ti está minha esperança
Ainda que me digam: Não, não tem mais jeito
Ainda que me torturem, e esmaguem meu peito
Continuarei afirmando: Tu és meu Deus
E com alegria seguirei Te louvando
Ainda que caminhando contra o vento
Eu caia e morra ao relento
E minha carne seja dividida
Entre as feras do campo
E de mim nada mais restar
Minha fé me conduzirá ao céu
E Contigo sempre irei morar
Mas quando minha sorte for mudada
E pelo Senhor eu for agraciada
Meus lábios mais O louvarão
Feliz então eu serei, por poder dizer
Ao meu Rei:
“Minha fé não foi em vão!”

Autora: Silviah Carvalho


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ÂMAGO



ÂMAGO

O Senhor é meu pastor e nunca me faltará
Devo crer para que possa sorrir, mas não consigo
Minha fé é pequena, porém vejo tua grandeza
Sinto-me perdido, ajuda-me, preciso de um amigo

O Senhor é meu pastor e nunca me faltará
Mas eu não encontro O caminho, me sinto sozinho
Há tantas portas abertas e não sei qual é a certa
Dai- me sua mão, mostra-me o verdadeiro caminho

O Senhor é meu pastor e nunca me faltará
Ainda me sinto preso, ainda não vejo a Luz
Daí- sua paz, me ensina o valor da cruz

Sim, Tu és o meu Pastor e eu mal O conheço
Aproxima-me de Ti, revelas a mim a Tua presença
Quero provar de tua vida, ainda que não mereça

Meu Pastor, muda meu nome e não serei criatura
Quero seguir-te e ser à tua semelhança fiel
Quero ser chamado de filho e poder morar no céu

Autor: Arnoldo Pimentel

quarta-feira, 31 de março de 2010

Os pombos e o homem





Os pombos da Praça XV
Não se parecem com pombos,
Não se parecem co’as aves,
Co’os próprios da sua espécie.
Os pombos da Praça XV
Se parecem mais co’as gentes
Quem vão e vêm pela Praça.
Ou quiçá sejam as gentes
Que com eles se pareçam,
Já que também pela Praça
Vão e vêm seguindo rotas
Como as aves migratórias.
Pois quem será mais antigo:
O homem enfadado da Praça,
Ou a ave cansada de céu?
Não sei! Pombo, gente, pombo
Que vão e vêm pela Praça
Se imiscuem, se confundem
A tal ponto que não notam
Um e outro nesta labuta
Diária por alimento
Nas filas, vias e dutos
Por onde passam e ficam
Às vezes, homem e pombo
Aves, gentes e indigentes,
Quietos, e lado a lado,
Protegendo-se da chuva,
Debaixo do viaduto,
Que rasga a Praça concreto.

O pombo, o homem, a praça
E os mendigos esfaimados,
Debaixo do viaduto,
Cruzam-me sempre o trajeto.
Felipe Mendonça -
Todos os direios reservados.


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terça-feira, 30 de março de 2010

O incerto vem na noite

E te chama

A declamar



Sandra Pimentel


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Quando o beija-flor lilás beija o doce vento do amor



Amanheceu em mim a idéia de morte.
Uma morte que era ressurreição.
Ressureição de um louco desejo
De esquecer que alguém está me vendo
Por trás do buraco da parede.

Nessas horas eu sou um sonho erótico.
Um guarda noturno.
Um animal exótico.
Um herói taciturno.

Uma abelha-rainha.
Uma fada madrinha.
Uma saia rasgada.
Uma camisinha furada.

Nesse conto de bruxas
Minha metade sapo se funde com minha metade príncipe
Ao ser beijado por uma desonrada princesa vestida de pomba-gira.

E enquanto no céu de minha boca
Anjos sensuais me aguardam
Tocando sinos de boas vindas,
Sonho com meu amargo regresso
Acompanhando o natural desenvolvimento do progresso.

Me atiro na terra e me torno o mais selvagem tigre a correr pelo mato.
Mergulho na maresia e sou um terrível e sedento tubarão
A atacar sua frágil presa por sobre as ondas.

E a saudade de uma época que eu me esqueço
Me lembra que hoje há crianças cheirando coca-cola
E eu espero minha namorada na porta da escola.

O pai dela é bancário.
Sua mãe é professora.
Seu tio é estelionatário.
Sua prima é sedutora.

Me olha com olhar voluptuoso
Celebrando minha rebeldia.
Me abraça um abraço fogoso
Despertando minha lascívia.

Tudo isso acontece quando o beija-flor lilás
Beija o doce vento do amor
E voa seu vôo veloz por cima da Baixada Fluminense
E bica seu viril bico teso
Nas flores mais murchas e resistentes.

Entardeceu em mim a idéia de vida.
Vida que é verdadeiro falecimento de meu corpo
Dentro de um coração quente.

Nessas horas eu sou um cavalheiro andante.
Uma tradução malfeita.
Uma idéia mirabolante.
Uma proposta desfeita.

Um ator canastrão.
Um cinema em última sessão.
Uma pessoa esquecida.
Uma coisa esquesita.

Nesse romance policial
Minha metade PM se funde com minha metade bandido
Ao ser capturado por um respeitável detetive vestido de traficante.

E enquanto no inferno de minha libido
Demônios castos me escorraçam
Me espetando de baixo para cima
Me preparo para minha festejada ida
E acompanho o natural avanço da tecnologia.

No mato sou a mais venenosa cobra a lançar sua língua pelo ar.
Na areia sou o mais astucioso caranguejo a cortar a carne com sua mão-tesoura.
Na parede sou a mais combativa formiga a lutar pela subsistência.
No ar sou a mais fagueira águia a bater livre suas asas.

E o desespero da época que vivo
Me lembra que ontem haviam crianças que ainda brincavam de roda.
E a vida passa pela minha memória.

Ela vaza pelo meu corpo.
Se aloja em meu peito.
Despenca aos meus pés
E deita em seu leito.

E o beija-flor lilás se deixa tragar pelo vento avassalador
Que nos empurra para o nada
E nos puxa para o nem sei lá aonde.
Nos suga para o fim do mundo
E nos joga aonde Deus quiser.


Marcio Rufino
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quarta-feira, 24 de março de 2010

O amor é incerto
na calada da noite
ele se transforma

Sandra Pimentel

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FÉ ESQUECIDA



FÉ ESQUECIDA

Não tenho nada na vida
Nada que eu possa me agarrar
Nada que eu possa me purificar
Não tenho fé
Não tenho vida
Minha fé foi esquecida
No buraco negro da minha história
Sou feito de inglórias
Não encontro o caminho
Que me levará
Até Aquele que me salvará
Pego a garrafa de vodka
Ela me ajudará
A partir antes do inverno chegar
Não quero ficar aqui
Não pertenço a este lugar
Quanto mais breve eu for
Mais breve irei acabar
Meu coração ficou vazio
Minha pradaria está em permanente estio
Não tenho um fio de esperança
Fiquei perdido em minhas andanças
Não tenho nada na vida
Não tenho mais fé
Só tenho feridas

Autor: Arnoldo Pimentel


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segunda-feira, 22 de março de 2010

Às avessas



Em teu abraço não houve sofreguidão
Nem calma,
Como em Araguaína ou no Bico do Papagaio,
Após tanta poeira e viagem,
Tampouco ardor em teu beijo
Ou alívio
Como na praia de Tucunaré em Marabá,
Após tanto desejo e voragem.

Em teu olhar não houve labor
Nem satisfação,
Como às margens do Araguaia,
Ou na Gamaleira lendo o romance da liberdade
Para roceiros e o povo pobre,
Ou em Xambioá ao lado de índios e posseiros,
Tampouco desespero em tua mão
Mole no meu ombro
Ou a dilaceração,
Na fronte conturbada de emoção,
Ao ver de longe a fumaça negra que se levantava
Dos corpos de Maria Lúcia e tantos outros,
Lá em Andorinhas.

Em ti, houve sincera indiferença,
Em mim, muitos cadáveres
Que enterravas sem lamento e palavra,
Passado sangrento de fugas e torturas
Na tua muda catatonia.

Naquele momento, sem magia ou estupor,
Em que nosso ideário desfeito
Recusava qualquer panteão,
Despencando em tuas mãos áridas,
Nos reencontramos
E nos despedimos,
Sem estação ou trem,
Sem bandeira ou voto,
Sem rio ou praia
E para sempre
Sobre um monte de nada
Num país de ninguém...

Felipe Mendonça -

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sábado, 20 de março de 2010

Diversidade Cultural

Recordando o mês de outubro no Donana que realizou uma belíssima festa de diversidade cultural com muita poesia, música e dança.

O evento reuniu bandas como Inkerito, João Mathias e Caramujos, poesia com Pó de Poesia que convidou o grupo Gambiarra Profana, desfile do Conexão Modelos, dança cigana com a dançarina Maiara Landim, dança de salão e muito mais. Além de exposições com quadros de Dida Nascimento e o trabalho de resgate de memória do Centro Cultural Donana realizado por Érika Nascimento.

Confiram os registros e o vídeo realizado pelo grupo Gambiarra Profona.


BRINCAR DE POESIA



BRINCAR DE POESIA

Um dia sonhei em brincar de poesia
Pensei em inventar coisas
Tipo amor
Tipo nostalgia

Um dia tentei descobrir o que era o mar
Tentei brincar de amar
Imaginando que seria só fantasia
Amar na poesia

Um dia pensei em sentir o perfume das flores
Viver sem sentir dores
Um dia tentei viver
Esquecer que queria morrer

Um dia quis saborear o néctar
Cortei-me nos vidros
Sangrei sem ser ouvido

Um dia vou dizer adeus
Adeus pra minha poesia
Vou deixar de amar
Deixar de chorar

Um dia esquecerei
De me olhar
De me ver passar

Um dia vou deixar de brincar de poesia
E vou morrer para essa vida
Sem sonhos
Nem fantasia

Vou morrer pra poesia

Autor: Arnoldo Pimentel


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quinta-feira, 18 de março de 2010

DESPEDIDA POÉTICA




DESPEDIDA POÉTICA

Por esta minha inspiração desfigurada,
Desfaço-me da poesia e quebra-se o encanto;
Já não sou poeta.
Se um dia o fui, foi por engano
Desses versos que nos iludem.
Das rimas sonoras que no fundo são antagônicas,
Despeço-me e escolho as macieiras como trégua.

E as linhas em branco continuarão cheias
Dos versos que jamais farei.

Autora: Luciene Lima Prado


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segunda-feira, 15 de março de 2010

As ondas


As ondas erráticas
Que rolam sem mar
Por entre alamedas,
Por entre esses carros,
Intrusas, incômodas,
Me trazem memórias
Bafio de mar,
De mar que secou,
De nau que afundou
Co’herói e piloto.
Qual doidas sem rumo
Se quebram, rebentam
No pé do edifício
De escarpa e marisco.
Na noite serena,
Do quarto eu as oiço
Marulho de outrora,
Repletas de vozes,
De guerras e amores,
De frotas inteiras
Que não transpuseram
Tormentas e cabos;
Que não encontraram
Bom termo e farol –
Imenso alarido
De gritos no escuro...
E assim quando saio
Com pasta na mão,
Ou chego abatido
Qual ave arribada
Os pés eu remolho,
Cansado e calado,
Num mar de cadáveres,
Atrás de enseada
Pra enfim descansar
Um lenho de carne
Que sulca esquecido
As ondas de um mar
Em que naufragou
Remoto na história.
Por isso o que quero
É enfim devolvê-las
Ao mar dos banhistas,
Ao mar dos surfistas
Que quebra na Atlântica
Sereno e tranqüilo.
Felipe Mendonça -
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sábado, 13 de março de 2010

A Hora Livre


Talvez eu encontre uma hora livre
Para ser o que eu quero e fugir do mundo
Para me refugiar de tudo que me corrige
Até mesmo de um falso ensejo profundo.

Talvez eu encontre uma hora livre
Para me livrar da culpa de algum pecado
Que minha consciência quer e exige
Até de um delito que eu não tenha sonhado.

Talvez eu vire um semideus sensual
Que remova céus e montanhas
Em busca de uma alternativa natural
De lidar com minhas forças estranhas.

Talvez eu encontre uma hora livre
Num dado momento. Num dado instante
Num dado dia que a vida permite
Seja essa hora minha melhor amante.

Talvez eu vire o herói de uma história
Que, na verdade, ninguém quer contar.
Ou que seja publicado num livro de memórias
Livro este que ninguém quer comprar.

Ninguém quer conviver
Com seus horrores, anseios e lamentaçãos.
Ninguém quer reconhecer
Seus crimes, delírios e omissões.

Com certeza eu fugirei do futuro
Ou de qualquer outra coisa que eu tenha passado
Nas ramagens dessa opressiva bonança carmim.

Rubra da cor da minha centelha
Que gera todo tipo de incerteza
E eu beijarei todas as costas que estiverem voltadas para mim

Marcio Rufino
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http://emaranhadorufiniano.blogspot.com


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Julgamento

Hoje contemplas o belo
mas o mais belo nunca viste
não era atraente a ti
e permaneceu cálido
dentro de mim
na ausência de tal exigência
não te permitias conhecer o puro
no escudo da imagem-vitrine
julgaste essência sem tocar
na doce traição do olhar
e insolente, o destino
me deu hoje a tal imagem-vitrine
no caminho dos mistérios
mas além do espelho
só restou dor silenciosa
tornando-o mais puro
em amargosa criatura
de alma vagante
na missão revoltante
de acusar teu mundo doente.

Giano
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Derramado

Venho suave
Beber o vinho tinto
Da cor do sangue quente
Tinto como o molho derramado.

Venho tinto
Beber o vinho suave
E comer a massa quente
Que abriga o molho
Da cor do sangue derramado.

Venho quente
Beber o sangue tinto
Entre a massa molhada
Da cor suave
Do vinho derramado.

Venho molhado
Beber o molho tinto
Na massa suave
Da cor quente
Do sangue do meu eu derramado.

Marcio Rufino
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Tirastes

Tiraste de mim o temor,
de emitir-me sem ser ouvido,
de tanto sonhar com amor,
sem nunca ser entendido.

Tiraste de mim uma lágrima,
transmutaste-a de amarga,
em minha doce rima,
que conforta e não me larga.

Tiraste de mim o desespero,
de esperar sem esperança,
instauraste o desejo derradeiro,
de recompor-me criança.

Tiraste de mim o Amor,
mas guardaste com carinho.
Tiraste de mim uma dor,
de guardar tudo isto sozinho.

Giano
Todos os direitos reservados

O POETA



O POETA
(Poesia postada em homenagem ao dia da poesia, parabéns a todos os poetas e poetisas)

É aquele que ama um pouco mais
E nunca ama por amar
E sonha um pouco mais, voa um pouco mais alto
E um pouco mais longe
Chega onde poucos conseguem chegar

Entra nos labirintos da mente
Conhece o passado e presente
Deduz o futuro com tanta exatidão
Que parece viver um passo a frente

Nele existe um pouco mais de emoção
Um pouco mais de atenção
Um pouco mais de alegria
E um pouco mais de solidão

Um pouco mais de sinceridade
Coisa pouca dentro de muita gente
Um pouco mais da louca igualdade
Que o faz assim, tão diferente

Ele tem um pouco mais de quase tudo
Guardado dentro da mente
De tudo faz um poema, revela tudo que sente

Assim é o poeta
Ama sem ser amado, espera sem ser esperado
E muitas vezes, morre abandonado

Por vezes, só depois da morte
Tem seus poemas lembrados...

Autora: Silviah Carvalho

POESIA E A FLOR



POESIA E A FLOR

(Poesia em homenagem ao dia da poesia)

Eu queria inventar uma flor
Mas que tivesse seus olhos
Que tivesse sua brisa
Que tivesse seu calor

Eu queria inventar uma poesia
Mas que fosse meiga como uma flor
Que fosse delicada como seus versos
Que fosse uma poesia feita de ilusão
Como a flor do coração

Eu queria inventar uma flor
Que saciasse a sede no riacho de água pura e cristalina
Que tivesse assim pétalas de cristais
Que tivesse botões com pontas de estrelas
Que não sofresse com a dor
Que fosse feita de amor

Eu queria inventar uma poesia
Como se inventa uma flor
Mas que não tivesse espinhos
Que tivesse apenas carinho

Eu queria ser uma poesia
Que colorisse sonhos
Para espalhar uma paisagem
Iluminada por todas as flores
Nos seus sonhos

No fundo
Eu apenas queria
Ser só uma flor de poesia
Que nada mais inventasse
Que nada mais precisasse
Além de enfeitar o seu dia

Autor: Arnoldo Pimentel

sexta-feira, 12 de março de 2010

Soneto do avião

















Tão refulgente por estes espaços,
Luminoso aerólito, avião,
Vai cruzando janelas e terraços
De um céu azul sem nuvem ou senão,

Pluma com toneladas de fio e aço
Que, leve, leva em si tanta vanglória,
Não há ninguém que o alcance, nenhum traço
Que o desvie de sua trajetória,

Senão quem inaugura a própria história
Rasgando os corações de conjunturas
Repletas de terror e sepulturas,

Ao som de uma feroz jaculatória,
Homem que encheu os céus de precipícios
E de horizontes sub-reptícios.


Felipe Mendonca -

Todos os direitos reservados.

terça-feira, 9 de março de 2010

TUDO QUE EU QUERIA TER



TUDO QUE EU QUERIA

Tudo que eu queria ter
Era um pedaço de papel e uma caneta
Para escrever minha própria vida
Minhas próprias escolhas
Minha própria sorte

Tudo que eu queria encontrar
Era uma garrafa boiando no mar
Trazendo uma carta sua que me desse esperança
E me fizesse sonhar, viajando no meu próprio tempo
Vencendo barreiras e fronteiras a nos separar

Tudo que eu queria sonhar
Era com minha própria aquarela
Pintar meu próprio céu, aonde na
Realidade estivesse você e que
Nosso encontro deixasse de ser um conto

Tudo que eu queria ser
Era o papel que está escrito minha vida
Para poder ficar na chuva, para molhar
Até a tinta sumir até deixar de existir
Pois a vida não é vida, se você não está aqui

Autor: Arnoldo Pimentel

Dos homens sem cor

Os dias sem você são noites em claro
em que cegamente me calo
para ouvir minha voz.

Mas já não há razão na própria certeza
da minha indócil nobre pobreza
de Mágico de Orós.

Dei-me como açoite a negra sorte
das nuvens brancas do norte
que inundam as folhas do açaí.

Seresteiras como moscas brejeiras
incestuosas e carniceiras
no meu corpo de faquir.

No refluxo ancestral me deito
por entre togas jaz o meu leito
em espasmos venéreos.

Porém nada há de apagar o que nunca foi escrito
no som perfuro-cortante de um beijo ilícito
da amancebidade dos restos.


Todos direitos reservados à Sergio-SalleS-oigerS

domingo, 7 de março de 2010

Ladrão



Um ladrão com arma
De grosso calibre,
À noite e sorrateiro,
Invadiu-me a casa.
Vasculhou-a toda,
Armários e gavetas
Tão impetuoso,
Hábil invasor,
Que até do cofre,
Atrás de um dos quadros,
Revelei-lhe o segredo.
E ereto ante a mim,
Pôs-me então na boca
A arma que tinha
Na mão empunhada.
E assim dominada,
Sem palavra alguma,
Deixei que invadisse
Outros interiores.
No fim, foi embora,
Largando-me ali
Estática e nua
Toda revirada,
Indenunciável,
E aguardando calada
Que então retornasse,
Acompanhado de outros,
Para novos delitos,
Cativa que sou
Agora de toda
A sua quadrilha,
Aprendizado do crime
Para também integrá-la
E do alheio roubar
Gozosos delíquios.

Felipe Mendonça -

Todos os direitos reservados.

sábado, 6 de março de 2010

Razaõ de ser

A poesia é meu grande rio interno e inteiro
Não causa-me transtorno
pois não discuto minha poesia-rio
Não avalio
Não submetu-a aos meus caprichos
Permaneço quieta ela transborda e flui
poeticamene brota na rede de minha razão de ser
É assim que me confesso


(Ivone Landim)

DOMINGO SEM CAFÉ OU BOLA DE FUTEBOL SEM REDES



DOMINGO SEM CAFÉ OU BOLA DE FUTEBOL SE REDES

Sei que tenho me perdido na prorrogação
Ou talvez meu domingo já não exista faz tempo
E não dei conta ainda que as luzes se apagaram
Quando eu estava dormindo longe do violão

Sei que não tenho olhado pela janela
As nuvens sendo levadas pelo vento da incerteza que norteia
Meus dias de domingo a sábado sem café na esquina
Sem palavras que poderiam indicar um caminho sem pranto

Acho que vou correr atrás da bola aos domingos pela manhã
Mesmo sabendo que não alcançarei as redes da vitória
Ou da esmola que venho buscando na banca de jornal
Que fica bem de frente da estrada que segue o rumo sem vida

Sempre vejo apenas os melhores momentos do jogo
Mas os gols que balançam as redes não são os mesmos gols
Que deveriam acontecer no dia a dia de quem se levanta
Para ir atrás do pão sem felicidade que alimenta nossas ilusões

Ou atrás da quentinha que é distribuída pelas almas sem almas
Que pensam apenas nos aplausos que vão receber quando mostrarem
As fotografias dos necessitados recebendo o prêmio que vai alimentar
Seu dia de descrença que passará sentado no paralelepípedo da vida

Bem sei que a noite vem me presentear com a mordaça da solidão
E ainda estarei sentindo o êxtase da fumaça do cigarro do cara do lado
Que ficou assistindo os melhores momentos como se fossem eternos
E se esqueceu que o pior está por vir com a velhice que por azar chegará

Autor: Arnoldo Pimentel

quinta-feira, 4 de março de 2010

Invertido

Que tal peixes voadores
Constelações marítimas
abastados os sonhadores
gananciosos como vítimas?

Que tal pólos quentes
trópicos glaciais
hipócritas impotentes
honrados ascensiais?

Que tal desertos floridos
florestas obscuras
sensatos preteridos
impulsivos de estruturas?

Que tal larvas no firmamento
asteróides vulcânicos
estrategistas sem discernimento
humildes titânicos?

Que tal um novo mundo
de humanos invertidos
com vistas no profundo
só ao amor convertidos?

Giano
Todos os direitos reservados.
O mar
mareia
mareja
os meus olhos...
de tanta
beleza?

Não!
É do sal
mesmo
que me
arde as
vistas!

Jorge Medeiros
Todos os direitos reservados

Único

Nenhum clarão e artifício pirotécnico
iluminam tanto nossas faces
quanto a ebulição intermitente
acesa no beijo, na navegação palmar
sobre o oceano epidérmico
e na penetração visceral do amor.

Sincero, sensorial
profundo e permanente.

Ofuscantes sorrisos
de nitroglicerina hormonal.

Fenômeno único
como único é o prazer de amar.

Giano
Todos os direitos reservados

Conecção

Conectar-me
Exigem-me
Com a internet
Com o novo
Com as tribos...

Minha conecção
É a ausência de tudo
É o trancafiar-me
Dentro de uma alma
Que não é minha.

Minhas conecções
São apenas
Conjecturas.

Jorge Medeiros
Todos os direitos reservados

quarta-feira, 3 de março de 2010

O herói e o piloto




Vasco da Gama
Sem nau capitânia,
Peregrino destes mares,
Te perdeste em Lituânia.

Vasco da Gama
Sem nau capitânia,
Peregrino destes mares
Te perdeste em Mauritânia.

Vasco da Gama
Sem nau capitânia,
Peregrino destes mares,
Te perdeste em tanta insânia.

Vasco da Gama
Sem nau capitânia,
Peregrinos destes mares,
Degredado pela infâmia.

Vasco da Gama,
Te esqueça da fama,
Peregrino destes mares
Naufragado dos azares.

Vasco da Gama,
Cadê tua chama,
Peregrino destes mares
Sem ninguém para velares?

Vasco da Gama
Sem nau capitânia,
Em estranha Lituânia
Há polaca que te inflama.

Vasco da Gama
Sem nau capitânia,
Em perdida Mauritânia
Há um porto que te chama.

Vasco da Gama
Sem nau capitânia,
Peregrino destes mares,
Vê se esquece a Lusitânia!
Vasco da Gama
Sem nau capitânia
Neste mundo de nevasca,
Só te resta mesmo o Alasca.

Vasco da Gama
Sem nau capitânia,
Entra agora em nau anônima
Que se esfuma momentânea.

Vasco da Gama,
Sem Ibn Majid,
Que seria de tua fama?
Que seria dos Lusíadas?

Vasco da Gama,
Sem Ibn Majid,
Que seria de tua gana
Em partir assim valido?

Vasco da Gama,
Sem Ibn Majid
A tornar o mar macio,
Conhecido e navegável!

Vasco da Gama,
Com Ibn Majid,
Deu à história de um império
Larga cópia e uma obra-prima.

Ibn Majid,
Sem Vasco da Gama,
Quase nada contaríamos
Pela história e pelo verso.

Ibn Majid
E Vasco da Gama,
Navegai! Ah, navegai!
Neste mar de tantos ais...

Entrai já em nau anônima
Que se esfuma momentânea,
Porque a história recomeça...
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

terça-feira, 2 de março de 2010

O mendigo que suicidou-se com um prato de comida


                    Com o rosto calado, ele vivia sua vida sem vida. Ausente no amor, ausente no tempo, e sempre, sempre presente na dor. Dor que se fazia carinhosa ao afagar seus cabelos negros tornado-os esbranquiçados. Dor que levava a noite, matava o dia e banhava o homem com a fria-ácida melancolia dos destroços de janeiro-dezembro.
                   ___ Ah, Luz! Oh, Luz! Onde estás? Por que partistes? Por que me deixastes aqui a morrer de amor?
                   Com as mãos calejadas e os pés vendendo feridas, ele sonhava com o tempo em que sonhava. Que poderia haver alegria nos cegos olhos paralíticos; na alma do louco que chora à seco; na voz do desafinado que canta os frutos de uma vida perdida, de uma vida não vivida.
                   ___ Ah, Luz! Oh, Luz! Onde estás? Por que partistes? Por que me deixastes aqui a morrer de amor?
                   O ser que rumina dores; pelo silêncio de sua voz feriu os tímpanos do marciano que se bronzeava no Alasca. Pela frieza de seu olhar fez chorar o galã da novela “das oito” fazendo-lhe morrer de desidratação.
E por seu desejo de amar
fez asa sua mão virar
partindo para um outro mundo,
mundo o qual era seu
por seu nome não estar.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Mito e história




O mytho é o nada que é tudo.
(Fernando Pessoa – Mensagem)

O mito é vivo e traz mistérios.
Em bela estância ele revive,
Se faz concreto e puro espírito
Que a nós se liga identitário.
Não há retórica que o exceda,
Pois se estetiza em bela heróida
Do grande bardo da nação
Que sabe a História reescrever.
E se dissessem: - Só de fábulas
É que teu canto se sustenta!
Retorquiria com firmeza:
- Nem só de fábula ou mentiras
É que se arranja a minha estrofe,
Mas desses fatos e pessoas,
Testemunhados pela História,
E que estetizo em pura idéia.
Por isso, digo que é mais belo
Ouvir história em canto e em verso
Do que por crônica ou compêndio,
Já que no início era o poeta
Quem memorava a todo o povo
Que do destino dos heróis
Se entende o fado coletivo,
A própria vida que se vive;
E, deste modo, em verso e ritmo,
Embalsamava ante os instintos
Do sage experto à plebe humilde
A azada história de uma gente,
O senso histórico da vida,
O presumido antes do verbo,
O raro aroma do que é mítico.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

PENÉLOPE



PENÉLOPE

Minha fidelidade abrandará os temores do meu coração
Os anos passados entre mares de águas desconhecidas
Serão lembranças espalhadas pelos moinhos da planície
Que fecundou a esperança nas minhas madrugadas áridas

Meu passado é passageiro na chuva miúda da ilusão
Prisioneira dos pássaros negros que me afundará no anoitecer
Em que tentarei escalar o amanhã que não existe
Nas cantigas de outono do caderno que esconde o beijo roubado na minha vastidão

Meu remorso é não ter partido para a floresta de diamantes
Quando o navio dos sonhos estava com as portas abertas
Então encontraria o impossível nas montanhas verdes
Que se apresentam como futuro cada dia mais distante

Seus olhos entristecidos refletem a imensidão do seu universo
Que só será habitado pela pureza de um amor eterno
E carente dos carinhos guardados no inverno de desesperança
Espero que o canto das sereias não a leve de encontro aos penhascos do desencanto

Sou prisioneiro dos dias que passarei no castelo de areia
Enquanto esperarei que regresse do inverno
Para sentir toda a devoção que tenho
Para alegrar os olhos tristes que o vento irá colorir

Autor: Arnoldo Pimentel

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Identidade

Se alguém perguntar
Quem eu sou
Diga que sou uma criatura quase humana
Algo entre religioso e monstruoso
Um simples moço.

Se alguém perguntar
Em que dia nasci
Diga que foi num dia
Em que Deus, muito estressado,
Com tanta coisa lhe enchendo o saco
Fez com que minha mãe
Bota-se pra fora
Algo que não fosse nem pergunta e nem resposta
Uma complicada incógnita.

Se alguém perguntar
Qual é a minha cor
Diga que é a do mundo inteiro.
Pintada por festas, sofrimentos de amor,
Muitas revelações e alguns segredos.

Se alguém perguntar
Qual é a minha
Curto carne, frango e sardinha
Ou qualquer outra coisa que esteja na panela.
Curto também pessoas
Muito além do que elas têm entre as pernas.

Se alguém perguntar
Onde moro
Diga que por aí
Chegando de repente
Sem hora pra partir.

(Marcio Rufino)
Todos os direitos reservados.


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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Casal





A Dani com amor.
O melhor que fazemos e pensamos
É o que podemos dar-nos, frágeis ramos
Em meio a tiros, becos e fuzis
Na cidade onde a vida é por um triz.

Ser e amar sobejados de reclamos
É um risco, mas aqui nos enleamos
E nos amamos loucos nos perfis
De rostos fractais, de chuva e giz.

Fingidas faces? Corpos encenados
Debaixo dos lençóis de linho e sangue,
Em meio à tanta gente morta e exangue?

É o que somos – atores enganados
Co’as máscaras partidas por cidade
Anônima que nosso quarto invade.
12.06.2009.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

NÃO DOEU



NÃO DOEU


Foste embora pensando que eu ia sofrer
Eu mesmo achei que não iria sobreviver
Mas, agora que já foste, trate de me esquecer

Num dia disse: Te amo
No outro disse: Foi engano
Na verdade enganado ficou você

Não perdi você, você me perdeu
Achava que era amor, engano seu
Não pode ser amor, uma perda que não doeu

Autora: Silviah

SEM LEMBRANÇAS BOAS NA MOCHILA



SEM LEMBRANÇAS BOAS NA MOCHILA

Vou partir sem olhar pra trás
Esquecer todo o bem que foi feito
Porque os ladrilhos quebrados
Sempre cortam mais fundo a carne crua

As lembranças boas não servem na estrada
São apenas ítens que farão a mochila pesar mais
Enquanto a sede agrava a solidão que deveria morrer logo
Para não deixar vestígios na poeira

Talvez eu não tenha mesmo direito de viver na lua
Tenho perdido água durante a noite sem desejo de viver
Meu coração já não sente o bater da aurora
Bem sei que o dia não amanhece no meu bosque

Sou filhote de lobo faminto sem presa para caçar
Sem vírgula para separar as frases sem sentido
Um grito solto no deserto escuro
Tentando ser ouvido nos muros do paraíso

Meu paraíso naufragou numa noite sem chuva
Nem meus braços puderam alcançar uma ilha
Vou padecer sem lembranças boas na mochila
As lembranças saciavam minha sede e escorreram para o chão seco

Meu corpo deixará de ser meu abrigo
Vou vagar no deserto longe do sol
Serei o ato descartado no final da peça
Palco vazio que ficou sem vida

Autor: Arnoldo Pimentel

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Jardim

Neste jardim em que há muito
Não cultivo, passo ou cuido,
Quero plantar, pôr botas
E mexer na terra,
Lançar fora
Seixos e abrolhos.
Nele quero labutar,
Reconstruir minha sebe
Ver minha gota de bile
Irrigando a terra.
Quero regá-lo pela manhã
E segá-lo com afã.
Quero levantar bem cedo,
Preparar meu espírito,
Pegar na pá e no ancinho
Cuidar do solo maninho
E não deixar que o sono
Prolongue o verão e o estio
Para despertar minha esposa
E dar bom exemplo ao meu filho.
Não quero ver de novo
O trabalho perdido,
O mato crescendo
E o espírito alquebrado
Sem saber recomeçar.
Assim quando a primavera chegar
E eu já estiver morto,
Depositem no meu túmulo
Tanta rosa e gente vingadas
Que um dia disseram fanadas.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

Jardim

Neste jardim em que há muito
Não cultivo, não passo ou cuido,
Quero plantar, pôr botas
E mexer na terra, lançar fora
Seixos e abrolhos.
Nele quero voltar a labutar,
A amar e a cantar,
Ver minha gota de bile
Irrigando a terra.
Quero regá-lo pela manhã,
Embalá-lo no berço do solo maninho
E contemplá-lo do meu alpendre.
Quero levantar bem cedo,
Preparar meu espírito,
Pegar na pá e no ancinho
E não deixar que o sono
Se prolongue
Para despertar minha esposa
E dar bom exemplo ao meu filho.
Não quero ver outra vez
O trabalho perdido,
O mato crescendo
E o espírito alquebrado
Sem saber como recomeçar.
Assim quando a primavera chegar
E eu já estiver morto,
Depositem no meu túmulo
Tanta rosa e gente vingadas
Que um dia disseram fanadas.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

POESIA SEM LADOS



POESIA SEM LADOS

Minha poesia se desencantou
Como o mamão maduro que caiu
No chão molhado pela chuva ácida
Maduro
E sem futuro

Minha poesia não é mais encanto
É o pranto
Que foi iluminado na paisagem sem lados
Sem o azul céu
Sem gostas de mel

Minha poesia voltou para o gueto
Onde viu os pombos desalinhados
Procurando caminhar descalços
Sem saber escrever um soneto

Minha poesia morreu
No meio da vastidão sem palco
Sem campo para pousar
Sem corda para se enforcar

Autor: Arnoldo Pimentel

domingo, 14 de fevereiro de 2010

MINHA BANDEIRA

Minha bandeira tem verde
Que representa toda a mata
Amarelo que representa o ouro
Branco que representa a paz
Azul que representa as águas
E as estrelas que representam
As malas brancas indo viajar
Seja para a Suiça ou outro lugar

Minha bandeira é a mais bela
Mas o verde foi queimado
O amarelo foi roubado
O azul está imundo
E o branco ensangüentado

Minha bandeira é a mais bela
Mas está em meio mastro
Em algum lugar
Pelas mortes que nós
Não conseguimos evitar

A bandeira que é a mais bela
Representa todo o povo
Povo brasileiro, povo orgulhoso
Representa tua esperança
Que morre, no ato de votar

Mas sei comigo mesmo
Que minha bandeira
O povo quem irá costurar

Autor: Romulo Pimentel

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

POESIA

já imaginou se
um porco construísse uma igreja
já imaginou se
um urubu construísse um avião
já imaginou se
um cachorro construísse um poste
já imaginou se
uma tartaruga construísse um edifício
já imaginou se
um ben-te-vi construísse uma orquestra
já imaginou se
um galo construísse um navio
já imaginou se
um mosquito construísse um hospital
já imaginou se
uma formiga construísse uma casa

já imaginou se
uma coruja construísse uma noite
já imaginou se
um escorpião construísse um hospício
já imaginou se
se um boi construísse um grito
já imaginou se
um peixe construísse uma fábrica de águas
já imaginou se
um cavalo construísse uma oficina
de conserto de asas

incrível mas tudo isso e mais é possível
basta você se aproximar da poesia


Rubervam Du Nascimento

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Fuga

Ah, eu queria apenas
Uma exígua porção
Da rara antimatéria
Capaz de devastar
Todo bairro onde moro,
E a excelsa espaçonave
Lançá-la nos confins
Do espaço sideral.

Partículas tão raras
Presentes nos primórdios
Da nossa formação,
Imagem especular
Do que não nos tornamos,
Matéria negativa
Que enfim se consumiu
Em luz e em energia.

Ah, eu queria apenas
Atingir os limites
Deste imenso universo
Finito, mas sem margens,
Contemplar enlevado
A máquina do mundo,
A primordialidade
De seu funcionamento.

Ah, eu queria apenas
Ver todas as estrelas
Que nascem lá nas Nuvens
De Magalhães, pilares
De outros mundos e sóis.
Contemplar as moléculas
Chocando-se entre si
Em espirais sem fim.

Canópus e Capela,
Vega, Rigel e Prócion,
Poláris e Altair,
Aldebaran e Pólux,
Betelgeuse, Castor,
Sírius e Belatrix,
Dossel de astros que apontam
De Cão a Ursa Menor.

Ver todas as estrelas
Verrumando nos céus
Noturnos das cidades
Que também se iluminam
De luzes e néon
Nas ruas e avenidas
Em que os homens se perdem
Feito estrelas cadentes.

A mim basta só isso.
Da deusa não preciso,
Nem de revelação
Na estrada pedregosa
Daquele ancião de Minas.
A mim basta só isso:
A energia que possa
Lançar-me neste espaço.

Porque a realidade
Não é um teorema,
Nem clara se desvenda
Em rápido relance,
Nem a reinos nos chama,
Porque já estamos nela
Sem sequer se importar
Se a queremos ou não.

Oh, este mundo! Sim
É possível medi-lo,
Entender seus princípios,
A origem e o destino
Do que nos concebeu:
A primeva matéria,
Ínfima e subatômica –
Os quarks e antiquarks,

Matéria e antimatéria
No espaço colidindo,
Gerando mais partículas
No caos das incertezas
Que fez as quatro forças
Então se separarem
E enfim impulsionarem
A máquina do mundo.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Lágrimas

Estás sentado calado e sem despistar o choro, suas lágrimas caem ao chão.
Estás sentado nesta pedra que te faz viajar ao tempo sem rumo e sem volta.
Estás sofrendo de uma forma imunda e sem razão.
Na beira deste rio movimentado com o seu choro.
Escondido entre as árvores que balançam com sua dor.

Seu olhar frio e violento pelo brilho
Me faz temer sua nova versão de seu novo ser.
Felicidade por um fio e os dias contados daquele menino
O que eu posso fazer?
Cercado com carinho estirado em seu silêncio
Amargurastes neste vazio.
Quê será de você?

Não queres comer
Não queres beber
Não queres dormi
Que serás de ti, meu caro amigo?
Serás capataz de sua própria tristeza?
Me deixas acrescentar a felicidade neste coração.
Levarei para caminhos que possa sentir esperança.
E rejuvenescer para o novo mundo que estás em sua espera.
Pois só há razão em viver se houver esperança de crescer,
Através de cada lágrima.

- Cristiano Soares Moura

sábado, 6 de fevereiro de 2010

ENTARDECER



ENTARDECER

Os ventos já não balançam as flores
Já não sinto o toque das pontas do mar
Estou sentindo meu entardecer ancorar
Nas bordas do porto exausto de tanto esperar

Meu mergulho lívido já não é profundo como quando buscava tesouros
E as sombras do fundo do mar norteiam a superfície com pouco sol
Que está escondido entre as nuvens partidas que se assemelham com o fim da lua
Desnuda pelos olhares de marte

O horizonte já perdeu o tom avermelhado que o diferencia da manhã
Onde os ventos eram fortes e os moinhos viviam a plenitude
Nas planícies repletas de amores furtivos e vazios que transbordavam o coração
Nos celeiros escuros e cobertos pelos olhares inocentes que vinham de longe

Os ventos já não movem meus olhos na esperança de vislumbrar
A fada que iluminava meus dias com sua sedução tímida
E mãos de seda que passeavam pelo corpo sem descaminhos
Descobrindo o amor na sensualidade exprimida entre beijos atrás da estrela cadente

O anoitecer é a desilusão do dia
Tudo que era claro fez-se escuridão
Parece que a vida vai deixando de existir aos poucos, lentamente
Enquanto o sol se esconde entre nossos sonhos

Já não sinto os ventos no meu rosto entristecido pela palidez
Minha sedução virou lembrança entre as paredes do meu oceano
Meu dia está enfraquecendo enquanto o entardecer toma forma
A noite vai cobrir meu corpo e dormirei o sono sereno da quietude sem fim

Autor: Arnoldo Pimentel

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Deuses

Se existe um deus
Que se interessa
Por tanta gente,
De certo é o sol

Com seu calor,
Feixe de fótons
De labaredas
Por vasto céu.

Se existe um deus
Ínclito e forte,
Só pode ser
Alfa Centauro,

A Betelgeuse,
Gigante prestes
A desabar
Sobre si mesma,

Cisne X-1
Ou os pulsáres
Como faróis
A irradiarem

Raios letais
Por todo o espaço;
Ou os quasáres
A propagarem

Luz e matéria
Pelo infinito;
Ou os severos
Buracos negros

A devorarem
A própria luz
Que me ilumina
Do firmamento.

Se existe um deus,
Só pode ser
As centilhões
De estrelas vivas

Que vão morrer
Numa explosão
De gás e pó,
Matéria à vida

À formação
De novos sóis
E novas terras,
Ao chão e ao berço

De mais espécies
Que indagarão
Se não surgimos
Do pó de estrelas.

Deuses que não
Protegem, cuidam,
Que não se alegram
Com quem formaram,

Que não te julgam
Por não ter fé,
Tão pouco amor
A Deus e ao próximo,

Porque são gases,
São reações
Que geram luz,
Toda energia

Que faz do solo
Nascer o trigo
E o pasto ao gado,
Enquanto rezas,

Enquanto pedes
Sem perceberes
Que a vastidão
Não tem memória

Não tem vontade,
Sequer um plano
Diverso disto:
Do que formou

E destruiu
Pela entropia,
Por tantas vezes,
Teu firmamento.

Por isso, eu peço,
Aos deuses, rogo:
- Vem, contra mim,
Ó imensa Andrômeda,

Chocar-se toda
Devoradora
E canibal
Para formar

Do caos, a lei,
Novas galáxias
E aglomerados
De leite e luz.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Faltou luz

Faltou luz na rua.
Estou na escuridão.
Estou nas trevas.
Estou no vácuo.
Refletindo o que me resta.
Que uma só estrela
não ilumina toda a terra.
Ouço vozes.
Vejo vultos.
Sinto pessoas.
Reclamando
cantando
conversando
xingando.
Busco um sentido.
Procuro um sentimento.
Viro um nó cego
na garganta do mundo
que me move parado no breu
e se divide
entre o medo e a volúpia
o receio e a malícia
o pavor e a luxúria
o terror e a cobiça.
O quero eu desse lugar?
O que quero eu de mim?
Porque permito que o que eu não quero
venha me humilhar
e rebaixar toda a idéia e vida
parida em fim?
Cada coisa tem seu tempo
firme ou nublado
limpo ou nuveado.
Não me preocupo com o que já era para ter chegado
mas com o que está para chegar.
No meio do nada
recobro um verde-esperança
vindo de um sonho azul-céu
trazendo a luz que volta, mansa-branca
dentro dos seus olhos castanhos de mel.

(Marcio Rufino)