Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



quarta-feira, 9 de março de 2011

Era manhã. Sempre fora manhã na infância: as ruas nuas
de brincar. Mas como numa odisseia sob o sol era preciso
subtrair-se aos perigos da corrente voraz e cíclica das
estações. De monstros marinhos, de corsários temerários,
de uma iara mimosa e de peitos de leite que se escondia
atrás de misteriosos escolhos. Como seria fácil a vida
debaixo do azul, este azul todo disperso numa gratuita
tessitura em que os pássaros de cada dia entoassem o pif-
pif de doces antigas flautas. As mãos ávidas tirando o
sono dos olhos ainda pregados à superfície do sonho. A
boca de dentes cariados se abrindo imensa para sorver
num gole a manhã láctea e morna. E depois a água mais
suja — mais pura — envolvendo engenhosamente o rosto
de uma máscara fina e reluzente. As pontas dos dedos
para sempre engelhadas sob a infinitude das unhas, que
crescem como um tubérculo rebelde — sabe-se lá que
outras coisas brotarão? O café com leite ainda está ali,
esfriando na mesa quase eterno. A tarde será como um
longo cochilo. E à noite o menino novamente envelhece-
rá, como uma árvore, como a capa de um livro ou um
quadro pendurado na parede do quarto.

Este texto também está publicado no meu blog,
www.comtexturas.blogspot.com
e na coletânea Cartilha, minha primeira reunião de poe-
mas em livro, publicada sob o pseudônimo José Antonio
Reis e disponível no site Clube dos Autores, no link
http://www.clubedeautores.com.br/book/40015--
CARTILHA
Boa leitura!

Autor: João Lima

Quarta e sono

Perco o sono,
Ligo o som
Coçam-me os pés.

Sambo só,
Canto o tom
Suo na tez.

Vou que vou,
Nessa dor
Síncope dez.

Terça é gorda,
É o calor
Máximo! Festa.

Trio do bom
Rio cantou.
Quarta já chega.

Cinzas, coro,
Reza o povo
Fé brasileira.

Poema de Yayá

terça-feira, 8 de março de 2011

carne quase morta

Para R. Jacobina

não digo que isto me doa
nem que me seja novo não saber dor isto que me dói

— o que me dói é teu corpo:
este amontoado de gordura e carne que respira e vibra
este sangue lácteo que me espana o rosto como um leque

... tua mão está me riscando a coluna agora ou é uma foice?
são teus pés aqueles dois mísseis?

eu não queria saber a dor
pois nunca ma prometeram senão apenas prazer
mas o que é isto? toda esta dor que eu não reconheço
este corpo violado que se transforma em carne quase morta
não me disseram que seria assim, destrinchando...

— tens certeza de aquilo são teus pés?

eu só queria o sonho
(esse sonho aí que chacoalhas quando gemes tão alto
e que precipitas do alto de minha cabeça como se jogasses boliche)

tu não me respeitas: agrides-me com teu corpo
minha fantasia te implora piedade e tu a mastigas
minha fantasia te implora “não me mastigues” e tu a engoles

ah, por que dói tanto? engoles-nos a ambos?

sim. são teus pés. vês?
são tuas mãos. teus olhos.

este emaranhado de arame que me prende
e que me escalpela
são teus músculos.

quer que te conte o que eu queria? que te diga palavra por palavra?

... quando menino, eu gostava escondido cada parte de teu corpo como quem segreda
eu apalpava tua pele cinza, lambia teus braços — tua garganta era minha caverna
desde menino eu quis o teu corpo de homem
mas eu nunca soube teu corpo assim: Arma
eu queria ser teu homem para não ter de ser homem
pois só assim eu saberia esta dor prazer
e este prazer felicidade.

... entendes que te digo tudo
e que nada me resta na boca exceto certa forma de mudez?

— desde menino
meu único desejo
era gozar de meu prazer e de minha Morte
sob o arco obscuro de teu corpo.

Poema de Sodine Üe

o dia tem que terminar

para Marcel Franco

descalço o eu
(a única mãe)
que o corpo teme

o céu declama a alma
ajeita a sombra
enquanto a outra metade
...espera
(na pele e no silencio)

Poema de Vânia Lopez

11 ou n – Dos momonísios, serpentes e outras -inas

* Caros e baratos, existem eventuais ditos erros ortográficos. Estou ebriamente demais bêbado para não corrigir o que escapa.

Só não falo porque coma é virgula em língua outra. Do mais estou carnavalesticamente afônico em que pese a cuica de outrem. Em que pese a busca outra de algum senso de raiz no sambar , ou algo que o valha como antigo e muito próprio para transferir emoções a fato tal ponto que a fantasia vire algo de realmente(?) fato caricaturizado do largo de algum outro algo que além de não saber morrer, ainda brilha como solução certa de existir e desviar a espontânea atenção que no mudo enxerga tal esforço, tal mania narcisa-mártir que em jocoso pede uma privada larga de algum apartamento antigo entre a copahorrenda e o centro. Peço licença sem desculpas. Me chateiam as frases longas e sobretudo vìrgulas, mas hoje não dá. Os pronomes oblíquos que começam frases? Hoje eles serão a fita inaugural enquanto as metáforas se afogam no raso rio. Do quê? Carnava...e o ridículo é soro encontrado em teste de qualquer gosto. Valha. Ou não. Vai? Vá... é tão curto. Se fosse cobertor era ineficiente frio. És de escola de samba? Conseguiste abstrair o dinheiro do tráfico que faz o pó sambar? Conseguiu acolher o carisma da quadra sem pensar na vontade de poder do sobressalto comunitário a sofrer pena pela policia da morla bastarda? Raiva do dito de origem. Raiva do dito dado como exatamente dado e culturalmente improvável o intransponível. Rate aoiva desse topete ao vento e de todos os bailes passsadistas. A pérola mora dentro de uma ostra armada. Escrevo quando o que é coelho e devorado está dentro do coyote. Foi soprado às zebras o coiote. E ela se arrepiaram tanto que suas listras subiram num aglutinar facial e viraram mascaras. Logo as zebras eram cavalos mascarados: de nada se pareciam com o focinho arguto do coiote. Lamento: não basta tomar banho pelado de cachoeira e masturbar-se com o dedo de Oxum. Estou do dente do coiote que te fala, E sgada anterim. Sou um bom hálito. Do escovado em madrugada em contrário e acordado em chocolate flavôr. Destesto as plumas das inocentes. Ou serão putas hoje ou nunca mais? Então serão puta no nunca porque quando puta... há de se sorver o tempo para o bezunto de mel proposital. Mordem o pote os ursos e as crianças. Muitos desencorajosos de roubar se vestem piratas. Uma piada pela metade mal contada. E de piadas a inocência está farta do que já foi roubado. Agora-ontem-já? Onde a henfil-graúna gralha? Onde eu também não posso morrer . Onde eu não posso morrer sem antes muita coisa. Eu vou ajudar as crianças a botarem uma tachinha no poltrono Piaget. Hemos de descobrir que eles não precisam dar cabo a jornada pensando no melhor. A tentativa há de ser por eles cantada. É o velório precoce do herói. E a libertação temprana da moça viúva que nunca viu o putrefato cônjuge mas já se quer no suor dos sentidos a sensual liberdade. Se fossem essas linhas de caligrafia eu comeria o caderno e vomitaria a cola da brochura. Vomita-se a cola do uno: e o que se tem é um coletivo favorável. O que há de ser o todo sem o singular. A coletividade como solução anti- solidão humana me assusta primeiro, porque ela é cinematicamente colorida; depois me enoja. Sim. É tudo grave. É tudo grota-sarah-vaughan. Quando nos preteridos não é o renegado rouco ópero-Évora-cesáriano. O presente é hesitante mas nasce de parto normal. Vamos ao com saudo exorcista, a cabeça já dói. Criptografo a fluxo hoje turvo. Gozosamente me traio. Escrevo no trunco porque estou eufórico e ainda não sem gritar em caricatos caracteres. Saúdo o exército da florescência travesti.. Amo saias que velam o viril moral escondido e falicamente diferenciado da permissividade tatuada do seguro feminino a ser preenchido. Pena... À vivacidade do trans! À comunicação que espera a bizarra acolhida! : o trans nos lembra do que é sexual para além do platonismo anti-arte no barato; cristão e a suspensão da sensualidade pelo ideal ascético; além do corpo... Ao quisto! : que na profusão do desejo treme o ferro quente do epilético temido se há no pungente o negar que escarra a moral 3D. Chamar Spielbergs e Camerons para o que além da superfície: movimentam o ver que na insistência vê o atrás. Falta falar sobre o atrás. Escrever com o atrás. Ah! Se os de redação vestibulenha ouvissem,,, Chamem os poetas. Os amigos dos poetas. E provem que o quer ser entendido é só a projeção dos teóricos que ainda vêem o belo e sobre ele falam sem ter em si o crivo e o suspiro fatal da criação. A vontade de representação a embarcar na intensidade que sem interesse... acontece. Destoaram em tudo a minha multiplicidade defendida. Escrevo de mosaico turvo, me foram as garantias no tudo poder ser de Momo. Do peneirado sobra um suco que tem gosto de não-finalidade. A arte como despretensão estética que transvalora a reatividade cotidiana em opções singulares de vivência... E os nossos 7 % de crescimento ante a ocular gula mundial! Se o mundo do aberto capital e a eurocêntrica referência já dão hoje em lugar algum mais brilhoso: o prova do jeitinho parco brasileiro a consertar pelas cochias o espetáculo falido: prova da nossa amorosidade vendida em tabuleiros de pimenta e brancas saias . Viste o meu bareback com a etimologia? Pois já alimento teu pequeno pires curioso. Vou abrir o livro e registrar o que meu olho comeu. Não te disse ainda , mas para os pseudo narcisos, os mártires valorais, tenho uma verde parreira amarga. E pouco desdobra a bestialidade que se apresenta em quatro. Não pela sua força de viver o um de cada multidão, mas pela gana miserável de ser equivocadamente outros que não são para sermos no disfarce.. Meus confetes, serpentinas minhas...: que tudo pule! Mas que pule a melindrosa e eu troque a piteira comezinha pelo narguilê onírico. Pelo que não houve existindo: a única maneira de ser tocado pelo acaso sem susto. Irredediável trabalho herculano se fossem doze ou três : é um ofício organicamente depurativo. E isso leva tempo. Fui pelos becos. Me ventou o poder comprar que Lula trouxe ao c, ao d, ao e, ao a...: menos ao z.
O z é o marginal alado. O z são as crianças sem bigode. Não o poético de mendicância. Não ao floreio sujo das portas em templos sacros onde a catarses do povo médio carioca. Não à poesia que pede. Não a poesia que pergunta se você gosta de poesia. Porque isso, este aquilo escrito, aquilo: aquilo não se gosta. Aquilo é: como as fezes são. Expurgadas, necessariamente vitais e mal quistas. Escrever não com floreios sistematizados dos sentidos em reconhecidos símbolos: escrever é se senão se enfezar caso não escrito o quisto, ou o a ser afastado expurgo. Escova-se o dente de bife à rolê e feijão, passa-se o sabonte no suvaco, esfrega-se o pé com marítima esponja, hastes algodoeiras na escuta... e uns escrevem. Uns são depois pelas letras e gozam com o cheiro de páginas mouras quando pessoa. E outros no claro olhar de lince, Clarice... Bebem. E nunca se embriagam, Que o claro não entorpe: só confunde pelo em si tão desprezado o entorno. A lente grave da bruxa faz do armário um ser robusto de apego e pó. Faz do espelho o desafio de passar em sala vazia e figurar só o cheiro. Espelho em sala vazia não guarda corpo imagético se algo louva o instante e se presentificava. O presente não sabe. O presente não tem pés. Contra o espelho é o vampiro induplicável: morde o pescoço e é um. E de certa mereceria um agradecimento. A mordida nos desvirtua da rostidade e do nosso gosto afeito a sujeitos. Espelhos de imagens concubinas falidas e melindrosas molduras. É já perdida a importância dos pomos. Ajeito o cabelo ao olhar no poço a superfície. Uma das desgraças mais mal fazejas: quando troca-se o espelho pela água lisa de cima do poço. Hoje te dei coisa nova mas não espero tua distinção. Me roubei o que eu tinha atrás do pensamento. E te dei qualquer coisa por cima das minhas – inas. –Inas, meninas... -Ina xilocaína que encontra a próstata em massagem póstuma.. – Ina do desaconselho que a moral abomina. Antes os que filosofam tinham que se vestir e ritualizar em magos. Antes comtemplar era sobretudo fugir do vadio olhar e dar medo. Brota aí o ascetismo: nas bruxas alquímicas e gargalhadas. E é dada uma vez que já era e o gargalhar vira mutismo: e esse mutismo quando confessado em cantos infanto-sensuais já é a invenção do pecado. Fixa-se uma circular de Lutero na porta: o bom e o mau não são como antes. O bom pode cobrar e o mal pagar em dinheiro. Resplandece o trevo dos de burgo. Eis que um de burgo diz: que se queimem os altares! Há algo a ser descoberto! Hão regras a serem provadas! Há a tentativa e o erro a serviço de uma comprovação que é sobretudo vontade de verdade! Chutam os santos dos altares! E vestem em miniaturas de véu a verdade. Mataram Deus a favor da divinização da verdade? Sim, digo aos crentes. O que sobra disso é algo de petróleo e país do futuro. Resta disso meu gargalhar íntimo cada vez que os de águia-pilgrim despencam em si e entortam as pernas. Sobram nossas bolsas urgências importantes, as desmerecedoras de tanta celeuma. Resta no aqui viver violentamente calmo e convencer gentilmente o presente a não fugir. Ele ápode, ele que não sabe.... E quantos tombos abraçar o acaso economiza? Compartilharam o parco sinismo dos foliões! Nada contra o ritual exagerado de Momonísio. Mas que fosse todo o dia o jorro. Que fosse todo dia o dia do branco do gozo! Há o embrião-tempo que é o presente! E antes, antes!? Há a feitura do pós beira. anterior à toda gênese. : O frêmito Orgasmo: o acaso: o eletrochoque de tempo que empurra o ápode presente. Ele que mutilado só salta a choques. Que apesar de muito riso lá continua... Que apesar de pena e piteira a melindrosa melancolia continua.... E faz lembrar, varridos os salões, que acompanhado do nada sabido ele samba. Apesar de no bailar solto do it Acompanhemos o ritmo entre o que é calor e água de chuva nossa a subir! Despeja o pingar salgado que é cheiro: dança sem pés. Segue o compasso, balança a cabeça num gesto de improviso: não está sim, nem é não. Ele que não sabe. E suas muletas... A maioria dos gordos momos tem a miséria na barriga!
O carnaval é mutilado presente em rota fantasia de saci : imos e voltamos em pequenas oscilações de cinzas e ventania. Pula sem muletas o presente de gorro vermelho. Cai.
Derruba o acaso cachimbo e fumaça.

Texto de Carlos Juba

segunda-feira, 7 de março de 2011

Arte poética

baixei do lugar de onde vim
e dentro em mim mesmo desci
sem longe nem perto ou aqui
sem rumo princípio nem fim

eu mesmo cavalo-de-mim

Poema de Maurício Matos retirado do seu livro "Aquém das retinas".

Sobrevivendo

Sou sobrevivente
dos ventos de outono,
avesso dormente,
revirada e ferida.
Levando na lida
a carga silente
do que vivo e penso,
nunca ando só.
Sou amor sem apego,
saudade sem dor,
reverso sem cor,
vou sobrevivendo.

Poema de Elmira Nunes.

domingo, 6 de março de 2011

Os degraus...

...
Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...
 
Mário Quintana
....

A rua dos cataventos...


Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meus cadáveres eu sou

O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!

Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!

Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

 

...



...

Mário Quintana


Alpinistas suburbanos

Grafites Rupestres

No alto do prédio
De ponta cabeça
Segurado pelos pés
Por um amigo de mil anos
Quase irmão
O pichador deixa
Seu rastro
Sua pegada
Seu picho
Sua marca
Eu estive aqui

A necessidade de andar em bando
A gíria
O palavrão
O chiste
Analfabeto Funcional
Proletário lumpen
Office-boy no centro da Capital
Dá um duro
E vive duro

Urbanóide periférico
Juventude invisível
Sociedade anônima

Subcultura
A arte das ruas
O risco e o rabisco
Único meio de atingir o topo

O céu não é o limite
O céu não tem limites
No alto do prédio

Poema de Andri Carvão

sábado, 5 de março de 2011

Compostura!

Ele - o poeta -
sobejo léxico,
nímio linotipista,
à penúria de teor
erigiu o silêncio.

Poema de Jorge Xerxes

Paraísos artificiais

Oásis

O rebanho
No repasto
Da colina

A lagoa
Ao pé
Do monte

Um monte
De montanhas
E o manancial

Nas Nuvens

Nuvem branca
Nuvem cinza
Nuvem negra
Nuvem carregada
Nuvem de algodão
Nuvem de fumaça
Nuvem de gafanhotos
Nuvem de calças

O Castelo de Merlin

Silêncio nas trevas
Uma voz dissonante
Precipita-se no precipício
Urro que ecoa no vazio
Por um longo período
Até despertar o dragão
Que mora na montanha
Cospe fogo e lava a cúpula nos ares
Vulcão em erupção
Escrevendo seu nome nas nuvens

Encorporalma
Made in Madame Satã


Olha você
Perdendo
Com medo
De errar

Eu sou
O que eu penso
E não
O que você está vendo

Toda representação do real
É surreal

Poemas de Andri Carvão

sexta-feira, 4 de março de 2011

4º Motivo Da Rosa



Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzidas,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.






Cecília Meireles


Sonho...

Temperamento impulsivo

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.


Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”



"Eu sou à esquerda de quem entra. E estremece em mim o mundo.

(...) Sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro.Sou um coração batendo no mundo."



O sonho


Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas.


Clarice Lispector

SÓ DE SACANAGEM



Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.
Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.
Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."
Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!



Elisa Lucinda
 
 
 

Com licença poética




Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.



Adélia Prado


Eu...


Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!




Florbela Espanca

Pensamentos que reúnem um tema



 

Estou pensando nos que possuem a paz de não pensar,
Na tranqüilidade dos que esqueceram a memória
E nos que fortaleceram o espírito com um motivo de odiar.
Estou pensando nos que vivem a vida
Na previsão do impossível
E nos que esperam o cé
Quando suas almas habitam exiladas o vale intransponível.
Estou pensando nos pintores que já realizaram para as multidões
E nos poetas que correm indefinidamente
Em busca da lucidez dos que possam atingir
A festa dos sentidos nas simples emoções.
Estou pensando num olhar profundo
Que me revelou uma doce e estranha presença,
Estou pensando no pensamento das pedras das estradas sem fim
Pela qual pés de todas as raças, com todas as dores e alegrias
Não sentiram o seu mistério impenetrável,
Meu pensamento está nos corpos apodrecidos durante as batalhas
Sem a companhia de um silêncio e de uma oração,
Nas crianças abandonadas e cegas para a alegria de brincar,
Nas mulheres que correm mundo
Distribuindo o sexo desligadas do pensamento de amor,
Nos homens cujo sentimento de adeus
Se repete em todos os segundos de suas existências,
Nos que a velhice fez brotar em seus sentidos
A impiedade do raciocínio ou a inutilidade dos gestos.
Estou pensando um pensamento constante e doloroso
E uma lágrima de fogo desce pela minha face:
De que nada sou para o que fui criada
E como um número ficarei
Até que minha vida passe. 



Adalgisa Nery 

Caso...


Pode ser mais um capricho
pode ser uma paixão
pode ser coisa de bicho
pode não.

Pode ser já por destino
pelos astros, pelos signos
por uma marca, uma estrela
talvez já estivesse escrito
na palma da minha mão.

Talvez não...

Talvez até nem fique
nem signifique nada
nem me arranhe o coração
pode ser só uma cisma
pode estar só de passagem
Ou não. 



Bruna Lombardi

Das pedras...






Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.

Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.

Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.

Entre pedras que me esmagavam

Levantei a pedra rude
dos meus versos.

...

Cora Coralina


 

quinta-feira, 3 de março de 2011

contradições de pele

um corpo
uma alma que menstrua
(só com a lua)

não me encaixo nos dias
vomito minhas memórias
sou feita
prefiro o frescor do selvagem
um cigarro
um homem
um bolo de chocolate

não existe paz
nem anúncio nas costas
faço barulho com o papel
deixo na pele o recado
(juras e promessas)

minha fome me come viva
treme como folha
gosta da ausência no vestido
um quarto vestido
e o corpo sem botões...

onde eu estive minha vida inteira?
você sabe...
fala!
vivendo o melhor papel da minha vida:
ser mulher!

Caí de um corpo
Completamente eu
(pronta para viver um livro inteiro)

Poema de Vânia Lopez

Dois poemas de Iatamyra Rocha

Delta picante

O silêncio é abrasador
Fecho meus olhos
Entregue na minha leitura
Perdida entre beijos
Sentindo na pele a luxuria.

As palavras me tocam
Como um punhal em fogo
Imagino tua mão censurada
Ao me ler pouco a pouco.

Remeto-me ao longe
Em ligas e cetins
Castelos e condes
Relendo a Anais Nin.

A madrugada excita
Desvirgina a solidão
Entre livros e sonhos
Queimo de tesão.

Guardados

Fecho as cortinas
Meu corpo santo
Minhas presilhas.

Minhas águas cálidas
Meu ventre
As palavras pálidas.

Tranco meu amor
Meu infinito
Guardo a dor.

Minha pele confusa
Meus passos ermos
A febre que pulsa.

O tempo de te ver
A cama perfumada
Meu gosto em você.

Fecho, guardo, tranco
Teus nós e elos
Só por enquanto.

Autoria: Iatamyra Rocha

quarta-feira, 2 de março de 2011

O afogado

Sobre a areia, numa postura de eterno sono, devolvido pela água

(rendilhado das ondas a beijar-lhe a boca). Detentor do inerte

mistério da morte, aportou na praia em manhã radiosa, cuspido pelo mar,

como quem sonha que está a sonhar. A pálida face, emoldurada por

longos e louros cabelos; nos traços suaves, uma agonia tão infinita que

já é sublime, deste companheiro de Flebas. Que pensaste durante o

derradeiro amplexo de Netuno, atlântico abraço de acolhida em teu talvez

breve morrer? Viste o filme da tua vida, aquele verdadeiro ou uma das

muitas versões que a mente emulou da realidade? De quão longínqua terra

vieste, pergunto em dúvida ansiosa e inútil. Ninguém te conhece,

ninguem te sabe o nome, ninguém sofreu por ti, nem aqui nem ali e

nem onde? Um vôo de gaivota delineia-me os pensamentos na areia da

praia, seu canto ecoa desesperante, trazendo-me idéias-sentimentos

sombrios, medo de ter medo de encontrar um morto, de que a eternidade

me arraste para si mesma e que eu nela não me dissolva. Que poderias me

contar sobre o reino das sombras em tão radiosa manhã? Nada, apenas,

em toda a simplicidade de tua mortalidade absoluta. Bolsos repletos

de areias profundas e finas, imagino durante tua purificação pela água,

irmão de Flebas, que rendeu o seu arcaico tributo há tantos anos e eras.

Na praia a esvair-se, quase impudicamente deserta, uma menina se

aproxima e te coroa com um ramo de sargaços apodrecidos, como a

memória dos tempos. Deixo-te entregue à própria paz - que é a mesma

do lugar. Tomei da minha solidão e segui em frente.



Conto de André Albuquerque.


Obs: Flebas – Deus fenício da fertilidade .

Homenagem ao poeta T S Eliot, no 46º. ano de sua morte .

Ficção inspirada no poema “ Morte pela água “, tradução de Ivan Junqueira

em Poesia, T S Eliot – Ed Nova Fronteira – 1981 .

Prima-dona

Um sorriso
Impreciso
Ilumina,
Reanima.

Imprevisto,
Mostra o viso,
Canta a lírica
Prometida.

Sem juízo
Vive o vinho,
Livra a sina
Solta à vida.

Sem aviso,
Seu motivo
Predomina,
Canta a rima.

Poema de Yayá

terça-feira, 1 de março de 2011

Sucata

Entre ser, não ser, ser de ferro-velho.
Sem o meio-termo da alma.
Com o cinza-chumbo do espírito.
Tendo como luz, o azinhavre.
Como sol, a ferrugem.
Fora de uso do destino.
Detido na espera, na corrosão.
Chapa, cheiro curto, plúmbeo.
Hálito escuro de garagem.
Ex-máquina, isenta de Deus.
Alquebrado bric-à-brac.
Leminskiano inutensílio.
Ofícios sem a irritação da oficina.
Mix de matéria e sombra feroz.
A ferros.

Poema de Armando Freitas Filho

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Voltou?

Senti o coração estremecer
E o meu olhar brilhou com seu sorriso
Nem o cantar azul do rouxinol
Nem o brilhar dourando o som do sol
Fez assim meu sofrer ser mais preciso.

Minha alma triste foi ao seu encontro
Mas minhas mãos frias quedaram quietas
Nem sussurrei palavras vãs e falsas
Travei ao ver as suas cãs tão alvas,

Pois nem o sal das lágrimas vertidas
Somaram sóis ao seu retorno, embora.
Você voltou? Que quer de mim agora?
Esqueça o existir meu ser assim
Vou caminhar sozinha como sempre
Não posso esquecer o que sofri.

Poema de Paola Rhoden.

10 ou n - Do presente e suas minas terrestres

Sinto agora menos o cheiro do sândalo. Não pelo meu nariz, nada débil ainda. Mas porque hoje escrevo no ar fresco. Sinto o vento no meu corpo quase nu e quase choro. Choraria se isso fosse poltrona e minha tela cinema. Aqui há muita luz e de tanta quase não vejo o que escrevo. Desvio o meu olhar para não me fitar nos olhos. Não quero me constranger. Preciso fingir para mim que não estou aqui senão não escrevo. Se eu sangrasse perto de você talvez te mataria. Paro. Minha mente fala freneticamente para a mudez. Não. Minha mente fala freneticamente sobre a mudez. Meu ato falho. E não vou usar a tecla do voltar. Quero uma chuva de atos falhos. Acredito melhor ser do que uma garoa de canivetes. No próximo amigo oculto vou te dar um ato falho de presente. Aviso de antemão porque quero que você já vá escolhendo a cor. O tamanho é uma surpresa indizível... A música de fora confunde um pouco a minha naturalidade. Ouço sem querer ouvir. Ela que é repreensível fuga. Vou tentar escrever vendado. Não me posso olhar-te nos meus olhos. Seja lá o que isso queira dizer. Meu escritório é no jardim. Escritório não. Porque não te escrevo por demanda. Hoje, te amo no jardim.
Melhor assim. Hoje, me amo em flor. Pior enfim. Porque venta forte: o que dramaticamente me despetala.

Parei. Nadei no branco. Volto com o fluxo intermitente da minha urgência em ser honesto e não raciocinar. O que há por trás dos parâmetros escolares vividos, da célula familiar imposta pelo bem querer do outro que não quer ser outro só porque tem no sangue igual marca d´agua, do dito mimético do televisivo, dos desamores, da desaprovação, da falta de carinho com todas palavras quando discriminamos os palavrões e tantas outras exclamações que são nosso dom de ainda se arrepiar com o mundo... E principalmente: o que há por trás do pensamento. Tudo se imaginarmos.
E nada na morada do raciocínio: o treino do reconhecível. Olharam agora minha cara de honestidade e perguntaram se estava tudo bem. Acho que não fui reconhecido. Paro. A célula familiar insiste em invadir. Vou abrir concessão. Tão estou comigo. Na verdade abro concessão para que eles fujam. Vou cantar o número do bilhete. E vou fingir com uma corneta o apito do trem.

O claro fluxo da distorção. Como condensar os sentidos até eu cacarejar e botar um (n)ovo? Como condensar toda a tempestade quando se tem apenas um copo de água?
Arde em pequeno copo essa aguardente que é sentir demais. Acho que minha boca deveria ser no pescoço para afastá-la da face. Falta pouco. Já tenho dentes nos dedos.

Mordo e te assopra a brisa. O invisível que bagunça os cabelos e torna visível tua feiúra não fosse o pente. Não fosse o pentecostal. Que aceita teu desgrenhamento porque, caro, tu és bom. Garoa canivete. E tudo que queria te contar já se transformou em outra coisa. Fiz uma lista e até agora nada assinalei. Nado no branco. Fiz bem em transar o acaso. Teus sentidos não podem ser meu diário de bordo. Aliás diários de bordo não deveriam existir. Diário igual a regular. E não é todo dia que se tem papel, nem todo dia se fura olho com caneta. E diários são documentos passadistas. Nosso jogo aqui é o fluxo que estremece, mas não goza. Tântricamente se engole porque o presente não tem pés para fugir. O em si do presente não existe para quem se ...

Acabo de me recuperar de um susto e tenho o coração ainda raivoso. Pensei ter apagado sem querer tudo o que havia escrito. Quase deletei meu agora. Como as teclas são propícias para a auto sabotagem. Basta a mente induzir um escorregamento pelos dedos e pronto. Tudo branco. Como se auto sabotavam os escritores de máquinas de escrever?

O em si do presente não existe para um espantador de segundos. Mas quem voa? O espantalho ou o passarinho-segundo? Não. Esse espantalho espantador tem asas. E no pouso tudo voa junto. O presente não tem pés para fugir porque só saberá andar no futuro. O presente não sabe. O presente só sabe acaso. Ele cai. Por pensar saber andar, por lembrar de um andar passado ele cai. Tomba pra frente feito árvore pesada e serra. Cai porque anda sem tatear e não vê que os pés são os mesmos, mas mutáveis são as geologias de terreno que nos precedem. Cai pra frente a árvore , rola no íngreme do acaso – já é toco- e torna a cair agora fundo. Cai agora fundo no lago. E os pés são os mesmos. O presente não sabe. A idealização é a corrupção do presente. O por vir imaginado é propina para calar o segredo do acaso. Qual o segredo do acaso? Quando não se sabe desconfia-se de qualquer sapiência. Qual o segredo do acaso? O presente não sabe. O presente é sempre uma criança no devaneio de ser criança. O presente não tem pés: engatinha. E cai. Por isso corrompem o presente com propinas tão vulgares como balas tic tac. Querem calar a criança com balas. E não se fala de boca cheia, dizem os que atordoam o presente com açúcar. Quando há insegurança nunca as crianças são consultadas. Elas possuem o devaneio da verdade que não é verdade: é apenas a linguagem emergencial da franqueza do não saber. O presente não sabe.

De nada adianta o esmero técnico e os revisionismos. Assim como de nada adianta reler o todo escrito até agora em busca de alguma coesão entre mim e tu, leitor do invisível. O presente é fatal e não tem pés. Só anda quando estende os braços até tocar o chão. E o toque não se faz de mãos. O chão beija a muleta e tudo finge andar. Com braço-muleta estendido caminha o presente cambaleante; a muleta esquerda ensaia os passos que aprendeu lembrar e a direita dança os passos tolos da esperança. Leitor, entre esse mal ajambrado e cambaleante presente espantalho propinado e o mutilado presente, fico eu com o ápode acaso, fico eu com o que não tem pé. Nem cabeça. Fico eu com os mutilados das minas terrestres. Pelo gosto do tempo antes as minas do que as balas. Mesmo as de açúcar. Sobretudo as de açúcar. Sobremaneira as que calam a criança-presente por não respeitarem o seu nada saber e tudo falar. Ela vai no âmago da terra porque desaprendeu tudo da vida embrionária e intui a natureza da intuição. E a natureza da intuição é o não-pensamento, ou o pré-pensamento, caso alguém aqui faça questão do que existe. O canhão do passado por onde se mete a bala pela frente ou a traçante de verde facho luminoso do futuro? Nem um. Nenhum. Nem outro. Fico eu com os mutilados das minas terrestres. Se pisa no acaso e logo explode em sangue os pés do presente. Mas não há traumas. Nem lembranças de guerra. O presente nada sabe. E sorri um sorriso de criança que convence o mais duro passado.

Texto de Carlos Juba

Fastfood-se

Bom dia!
Qual é o seu pedido?
O nº 1, o nº 2, o nº 3,
o quatro, o cinco ou o seis?
Mc WC,
Mc marmita,
Mc x, Mc shit,
Mc pão com ovo & fritas!

Boa tarde!
Faça o seu pedido!
O nº 1, o nº 2, o nº 3,
o quatro, o cinco ou o seis?
Sunday de sangue!
Sunday de coco-late!
Coca-Cólica SEMPRE Coca-Cólica!

Próximo!
Benito Mussarela rangando pizza de mussolini
& cachorro-quente (hot-vale)
perseguindo
churrasquinho-de-gato-grego-grelhado
num desenho desanimado...

Poema de Andri Carvão

domingo, 27 de fevereiro de 2011

De la noche

Adolfo caminhava pela Duque de Caxias. Sozinho, em mais uma noitede domingo. A rua era tão diferente, sem o caos fedendo á gasolina, sem a sujeira doscamelôs, sem aquela gritaria tão estúpida e real. Queria mais esquecer de si mesmo,no meio da noite quente e apática. Ponto de prostitutas,último reduto noturno de travestis,
similares e muitos simpatizantes. As formas de solidão mudaram,ao longo dos anos.
Lembrou do tempo em que encostava num balcão e logo alguém vinha ter consigo.
Hoje, sem balcão,apenas caminhar em direção à noite suja e sem atrativos, arriscando
um marinheiro perdido ou um rosto desgarrado da fauna noturna do cais, no espasmo
munganguento de crak, a quem pediria o cigarro de sempre, prenúncio de papo, olhar
de nojo piedoso ou de puro e simples nada consta. Percebeu um cara de jaqueta jeans,
encostando-se no poste, do outro lado da rua; tipo magro musculoso,calças
justas e um olhar vazio em forma e direção, de quem via tudo sem nada observar.
Recostou-se na banca de revistas fechada, sob uma marquise. Olhou os bancos de
camelô desmontados ao longo da rua. As putas desciam dos velhos sobrados, à frente
dos homens da ocasião, com um olhar altaneiro de senso de dever cumprido. Sou
puta e daí? Cada um segura a sua ôia, dizia Zefinha Pé de Garfo, um corpo escultural
sobre um pedestal deformado, um kama sutra ambulante, agora, arremessando um beijo
para Adolfo, sobraçando o presente da neta, no retorno para casa. Mais uma bateu o
ponto e fechou o escritório, pensou Adolfo, cigarro apagado nos lábios de pomada de
cacau. Mãos inquietas procurando um isqueiro. Acendeu, acalmou as longas mãos
manicuradas, dedos luzidios. Fumou pela metade, jogou fora, apreciando a pirueta
da brasa, até cair no chão. Recomeçou a caminhada, percebendo-se seguido à distância
pelo homem de jaqueta jeans. Um discreto olhar para trás. Chegou à porta da
hospedaria Novo Horizonte. Subiu o primeiro lance de escadas e puxou do bolso a
chave do quarto, dando tempo ao cara de subir. Era um homem bonito, olhar sombrio e
braços musculosos. A mão esquerda tatuada, brinco na orelha direita, idade
indefinida,como tantas outras coisas da vida. Trocaram um sorriso meio envergonhado, adentrando o quarto. O estranho preferiu penetrá-lo de pé. Adolfo excitava-se e rangia os dentes de prazer. Ao perceber a corda de náilon no pescoço, o mundo estava cada vez mais cinzento e silencioso.

Conto de André Albuquerque

Marcio Rufino no Putzgrila



Na noite do dia 19 de fevereiro de 2011 aconteceu em Nilópolis a décima edição do evento Putz Grila que envolve música, teatro e poesia. Eu tive a honra de participar representando os coletivos que faço parte que são o Pó de Poesia e o Gambiarra Profana no vídeo acima eu declamo os poemas Louco Currículo e Mulher-Hiena.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Poema Perdido




Cadê o poema?
Onde está o poema?
Aquele poema que eu escrevi
O dia, o lugar, a hora
eu esqueci.
O poema que era muito inteligente
mas os versos, agora,
não vem em minha mente.
O poema
cuja inspiração
minha mente e o meu coração arrebatou
mas como castelo de areia
ao sabor do vento se desmanchou.
O poema que concebi em plena paz
mas a razão de minha elevação
em minha lembrança não vem mais.
O poema que eu criei
pensando em ti, pessoa misteriosa
seu rosto e seu gosto
não me recordo agora.
O poema que eu compus
num turbilhão de impressões,
sensações, desejos e emoções
que nem consigo imaginar.
A definição dos mesmos.
Qual será?
Cadê o poema?
Onde está o poema?
Que busco embaixo da cama,
em cima do guarda-roupa,
dentro da gaveta,
dentro da bolsa.
Eu quero meu poema.
Onde está o poema?
Cadê o poema?

Marcio Rufino
(Do livro Doces Versos da Paixão)

Notícias e filme proibido




Garoa
latinoamericana
aqui, por enquanto, lutamos
para que não se venda a primavera
como as atrizes de Hollywood.
Por aqui ainda restam lembranças;
a Majestade tão linda dos baixinhos
em seu pornô proibido
não será mais santa
também sou teu menino,
teu Rei
sem reinado, sem fortuna.
A televisão ligada esconde a tua geração
mil e uma histórias em uma noite
muitas coisas caem do céu
caem pequenas estrelas de gelo
grandes estrelas de dianmite
sapateando no ar
o beijo da sola
e o odor que rejeita tua presença
diante da tua vergonha;
das crianças que não nasceram
das mães que não pariram.

Fabiano Soares da Silva
(do livro Pequeno Livro de Poemas)

Pétalas



Por um disfarce natural,
deixo pétalas para serem por ti contempladas.
Te trago pétalas, pois são as cores da rosa
que lhes dão o ar de desejo contido.
A face permanente do amor pode mudar sua forma,
mas mantém a essência.
A rosas falam através de suas cores, suas pétalas,
as vidas se manifestam pelos seus amores,
motivos do viver.

Giano Azevedo
(Do livro Caminhos da Vida)

A Hora Absoluta




Estranhos, meus mortos abrem as janelas
penetram em meu quarto
e me sufocam.
Insinuantes, me beijam e sangram em mim
alegrias e pecados
acariciando, sem pudor
meus sonhos, minhas partes e meus ossos.
Meus mortos e seus gemidos
têm rostos, sinais
e olhos que fagulham calafrios.
Ousados, vêm no breu do sono
e dormem em minha cama
e me despem
e se debruçam sobre meu corpo
silentes e queridos
e rezam e choram por mim
como a lua clamando sua outra metade
como um espelho colando os próprios vidros.
Meus mortos sem censura
meus delicados mortos
que, à noite, penteiam meus cabelos
e, solidários, preparam o meu jardim.

Tanussi Cardoso
(Do livro 50 poemas escolhidos pelo autor)

Quando não se acredita




a vida até que é boa
quando você não acredita
em comerciais de margarina
em novelas do manoel carlos

a vida até que é boa
quando você não acredita
em deus e no diabo
no certo e no errado

a vida até que é boa
quando você não acredita
em previsão do futuro
em remissão do passado

a vida é boa
quando não se acredita
quando ela simplesmente
(se fingindo de acaso)
te surpreende

Beatriz Provasi
(Do livro Esfinge)

Mil sóis




Nessa noite
Meus desejos
serão iscas
atiradas ao mar
dos tubarões.

Nessa noite
meus desejos
serão nacos
de carne quente
lançados aos lobos.

Ainda nessa noite
meus desejos
serão grãos de areia
soprados nos olhos
dos camelos em caravanas.

Mas ao final
dessa mesma noite,
meus desejos
já traduzidos em canção,
seguirão velozes
num luzir de estrelas,
antes que um clarão
de mil sóis, venha
estilhaçar a cena.

Brasil Barreto
(Do livro Farpas & Fagulhas)

Taça Poética




Há um vaso dourado sobre o escrínio
Que decora um recinto azul-turqueza,
Ofertando reflexos de fascínio
Aos que sondam o reino da pureza.

Há magia e luz neste condomínio
Esparzindo os arcanos da beleza...
Quem com o estro coabita em tirocínio,
Fertiliza a existência com lhaneza.

Assim como os antigos navegantes
Procuravam tecer notas distantes
Seguindo fielmente a estrela-guia,

Quando o tédio quer invadir meu ser,
Eu procuro guiar meu proceder
Com faróis desta taça de estesia.

Rubenio Marcelo
(Do livro Horizontes d'Versos)

Frederico



Chamava-se Tristeza e Frederico.
Jamais disse palavra que ferisse.
Ladrão de lua, sonâmbulo pateta,
morreu de hepatite e ser poeta.

Andava sempre como quem inventasse coisas:
uma pera de vento, um filho de madeira,
uma aurora mecânica, um deus, um gato
dançarino, o fogo eterno.

Um dia se perdeu.
Procurou olhos, mãos, braços.
Encontrou apenas sulfas,
um pouco de sonho numa garrafa.

Coração sumiu no ar.
Frederico fez força pra ficar no poema.
Pra que, Frederico?

Pedro Ernesto de Araujo
(Do livro Frederico e outros poemas).

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Minha pele
não anda mais
à flor
Minha pele é um
jardim, quase que botânico,
mas secreto
cheio de ervas daninhas,
cipós e trepadeiras
a espera de um jardineiro
diposto a ornamentá-lo.

Jorge Medeiros

Pior que isto

Eles me querem condensado
e eu me quero pior que isto.
Eu me quero pior que eles.
Porque me quero violento e eles o pacifico.

Escrevo com raiva e penso ainda pior que isto.
quero me esmurrar todo pra ver se caibo
na caixa do meu próprio desejo
mas eu escorro, sempre
no fundo e raso
gosto disso

aos interessados: ainda tenho pena!
só do que não sou eu
vitimizem-se longe de mim
não suporto ouvir nem meu próprio choro
troco de face feito um gatilho
que da arma cinza e pesada solta uma flor!

aos atrasados: o barco partirá comigo.
As minhas sirenes serão mudas.
As minhas sereias desafinadas, espantalhas de medusas!

Se virem de longe minhas mãos acenando
dêem um banho de mar para acordar suas ingenuidades!
Comemoro a fato de ter tido coragem para mentir as horas.
E, finalmente, ir só.
Forcei um atraso. A hora equivocada era um não-convite.
“-Cheguei tarde! ", um lamentaria...
E parto satisfeito olhando o cais cheio...
Gritaria com voz de lavadeira:
“Para mim tu nunca vieste, porque convidei apenas o teu equivoco!"

aos que me chamam de egoísta:
sou o mais multiplicador que conheço:
por saber pouco.
agora , se é para partilhar
comungem longe de mim
detesto ver a alegria dos outros quando dividem as migalhas entre si e pelo chão
porcos afarinhados!
Alegram-se por essa caridade ?
obrigada pela culpa ?
enquanto escondem o pão no alto
da vista daqueles que sào suspeitos
Por que cheiram como vocês!

um egoísta suscita -ismos
porque ama o singular

egocêntrico?
orbitando em mim, queimo-me menos
do que guardando a luz do sol nos meus poros
pela frente e depois pelo verso
depois ainda quando estou bem negro,
(a coloração indivisivel da noite e do lago)
rodo, danço, dissipo o calor do que há em minhas poeiras-lodo!
Mas os tolos, sempre friolentos
- certa necessidade de abrigo-
oportunamente gostam.
Oportunamente!
Quando descobrem que o quente lhe dá mais
do que esses arrepios chamados de vontade!

Egocentrífugo! E posso sê-lo!
Querem formas> massa!
Querem trabalho> o cio

Aos que brincam com a minha amizade:
estão voces mais vulneraveis ainda.
Estão perto!
Embora as armações sejam tortas
-pois o afeto assim capta o maior abandonado-
as lentes são afiadas. E de grau.

Que raiva essa mais feliz!
Confia e sorri.
Branda densidade magmática!
Uma senhora que era puta
mas nunca prostituta, nunca se prostrava!
Cristalizar essa raiva?
Seria congelar orvalhos e colecioná-los!
Quando a graça é a grama molhada...
O matinal.

Minha raiva é do vespertino tardio
do horror à buzina do pão e do sonho
E se uns temem palhaços,
eu temo pipoqueiros das saídas escolares!

querem dados os tecnonarcisistas ?
dardos lhes atiro no espelho

Sorrio, gosto de sorrir
gostando ou não de você
gosto antes daquilo que nos perpassa.
Por que a relação haveria de ser você?
a relação em si me apraz
sou linhas, linhas!
sorrio, sorrio confortável
a maciez letárgica que dá dor nas costas.

Não irei mas sanear pensamentos
em nome do asséptico
nem desligar meu curto circuito
entre volume e superfície.

Quero as minhas cadeias de pensamento!
Derreter grades e forjar pedestais-plataformas
para voar, voar!

Poema de Carlos Juba

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Par

Duas vidas tão diferentes,
Perfeitas em solidão de astro,
Conjugando-se, agora, em rota irregular
De meteorito errante, sem destino.
Essas vidas embevecidas
No laço breve dos dias e noites,
E és noite, madrugadas
De lua ensolarada,
Iluminando-te o rosto lhano
Sem sonho ou mistério,
Sem quimera ou segredo.
Em tua vida,
Todos têm pele, sabor, carícias,
O sonho insonhado, antes vivido,
Quimera transida de medo e desejo,
Segredo rasgado por leitos e veios,
Ideal feito
De seio e regaço,
De promessa e abraço
Qual árvore de pomos pendidos,
Quase todos colhidos,
Iguarias comuns de raro quotidiano.
Quão diferentes nossas vidas!
Ainda assim se uniram,
Encararam-se e, após o fascínio,
Sobreveio o estranhamento.
Uma que é pura invento,
Teoria sem experimento,
Invenção jamais provada
Pelo vento, pelo mar e os homens,
Conservada como relíquia, dor
No fundo de gavetas esquecidas.
E a tua: (invejo-a!)
A vida sem reticências,
A interrogar vetustas exclamações.
Texto bem acabado,
Muitas vezes revisto,
Escrito na tênue folha marinha das águas.
Tua vida: queimadura, cicatriz,
Gozo e generosidade.
Belo 14 Bis, Zepelin,
Mais uma vez,
Alçando-se aos ares.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

Enxurrada das almas...

Ainda hoje te ouço, Carlos
e, mais que ontem, Drummond,
se os olhos aprendessem a chorar
teríamos um segundo dilúvio
e esse teu poema seria levado
pela enxurrada das almas,

e durante, e após o aguaceiro,
restariam gentes,
novas gentes,
à fazer poesia novamente.

Mas não chove;
o tempo é de secura,
não há enchentes
e as ruas são vazias,
apesar das gentes.



((( Zé Carlos Batalhafam )))


Barbitúricos

Barbie no outdoor
Barbie diet-coke
Barbie no Carrefour
Barbie de baby-look
Barbie hippie
Barbie punk
Barbie vamp
Barbie vip
Barbie junkie
Barbie robô bip-bip

Barbie na Ferrari
Barbie ao celular
Barbie rastafári
Barbie super-star
Barbie kitsch
Barbie clubber
Barbie chic
Barbie freak
Barbie poser
Barbie usa aplique

BARBIE
Estrela de primeira grandeza em Hollywood
Pisou na calçada da fama e dispensou um grude
- Quem é Ken?

Barbie banho de sol
Barbie com poodle
Barbie de baby-doll
Barbie sex-symbol
Barbie Madonna
Barbie city
Barbie hit
Barbie cafona
Barbie flit
Barbie só sai à tona

Barbie de biquíni
Barbie stress
Barbie na vitrine
Barbie topless
Barbie Babel
Barbie pop
Barbie top
Barbie Nobel
Barbie stop
Barbie não cai do céu

BARBIE
Chegou com chofer num inferninho toda de Pink
Sentou cruzou as pernas e agradeceu pelo drink
- Quem é Ken?

Barbie overdose
Barbie de porre
Barbie dá um close
Barbie é um porre
Barbie fashion
Barbie flash
Barbie trash
Barbie neon
Barbie sexy
Barbie botox e batom

Barbie na maconha
Barbie puta que pariu
Barbie zen vergonha
Barbie descobriu Brazil
Barbie MTV
Barbie démodé
Barbie karaokê
Barbie bi
Barbie ilariê
Barbie olha o bem-te-vi

Barbie barbárie
Babe baby
Bi-bi
Trêbada trepada
Barbie vai ter um bebê
Diretamente da Zorra Franca do Paraguay
Para a privada da quitinete do papai

Mamãe serial-killer
Papai drag-queen

Barbie deu um pau na Suzy de robe
Não aceita dividir nem o Ken nem o Bob
Barbie deu outro pau na Suzy sem
Não aceita dividir nem o Bob nem o Ken

Nunca aceita dividir nada com ninguém

Poema de Andri Carvão.

Bragi, deus da poesia

Bragi, deus da poesia.

I
Os seus cantos as guerras entoavam,
O deus versos declama poesias;
Evocado nos gelos que inflamavam
Os mais nobres desejos. Fantasia
Dos gigantes vencidos que ensejavam
A fronteira do céu ao vir desse dia.

II
Da presença de Iduna desfrutavam
As maçãs preciosas. Dividia,
A divina, a beleza que esperavam,
Numa caixa guardada que aprazia.
Eternizam os deuses que encontravam
Juventude, a vaidade em primazia.

III
Ao seguirem maçãs, auto-invocavam
Os poetas: Verseja todo o dia
Ao lirismo que faz desse divã
O pensar numa vida, assim vadia.
Resolvendo ficar na tal maçã
Cuidará da verdade luzidia.


Poema de Yayá.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O poeta...


SENNA



O poeta é o bem-amado
O rejeitado
O artista.
O Poeta é o afinado
Com o coração desafinado
Que vive sempre despedaçado.
Nesse mundo de vida,
Nesse mundo de morte,
A trilha certa do poeta é a dor, que se encontra com o amor.






((( Camila Senna )))




Sem lei...

Não tem lei que me prenda,
Pois sou da avessa...
Viro a mesa toda vez que preciso.
Da ideologia, não sei...
Por que a minha, eu mesma a criei.
Não faço versos letrados...
Faço versos marcados, que são, para mim, sustento!...
Erudito, em mim, só meu coração.
Meu conhecimento vem da minha vivência.
Da calçada pintada, das experiências cravadas!...
A vida ávida que mora em mim, precisa, anseia... Ser livre!


((( Camila Senna )))


Elétrica 1 ou "Do cotidiano fantástico"

A mirra tem sido meu transporte favorito. Talvez as teclas sejam a salvação da minha descoordenância, velocidade entre o dedo e o pensamento. Deixo agora fugir o é que é ser. Penso que as ervas estão na gaveta e procuro uma bacia que possa ser contaminada. Escrever aqui é poder. Uma brincadeira oculta. Uma folia mística de neurônios e elétrica. Traz culpa também essa linha. Derramei o dia pensando nos temas que sou eu. E os alagamentos de fora? Me perguntei hoje o dia inteiro. É engraçado pensar na sua condição de leitor. Esperto ao contrário eu escrever que estou com ervas atrás de mim e fazer você ver um jardim de pés empoeirados. Falo em ervas, sim. Mas estou com malva quente no cú. Li que cura abscessos.

Olho para as cores da paleta. Feia mistura faz brotar quadros patéticos. Não se já falei isso. Mas além de não saber escrever, também não sei pintar. E faço as duas coisas. Elas não tem que ser. Elas já é. Elas já unas no indivisível eu. Elas onde me estouro. Elas onde sou beira. Escrever é a anti-loucura do retroceder. Alquimia de tempo. Contração e descontração para fazer caber no entre criptografadas sombras do que há por trás do pensamento. Só cheguei na sombra. Ainda. Cheiro a malva quente. Tem cheiro de guardado amargo. É como se ela por trás o velho puxasse o velho. A afinidade dos amargos, o segredo do meu corpo rompido pela voz da erva que chama. Leitor, se enlouquecesse ainda mais meu cotidiano você mais me frequentaria? Você é uma criança que gosta de casa de espelhos?

Já começo a inventar motivos para você gostar de mim. Tenho que parar. Não estou disposto hoje a inventar pensamentos. Chutei alegorias. Também quero o claro fluxo. Não quero turvar águas para ser visto profundo. Sujo não é profundo. Vago pelo desejo de ofertar minha fome em troca da sua comida. Tenho que parar. Sem inventos. Vou ver a malva. Ela tem pêlos. Num manual acabo de ler: “ quando chove estas flores choram, ou seja, libera um liquido castanho que faz nódoa na parede e no tecido”, assim falavam sobre os adornos da malva. Fiquei sem entender a parede. Ela nunca falou comigo. Malva é amiga do clima ameno.

Não queria que você me lesse para passar o tempo. Mas escrevo para passar o tempo. Faço pedidos egoístas, é bom saber. Peguei a folha pelo rabo e parecia um camundongo.
Escrever já é a tentativa maga no tempo. A malva coça reto. O velho tá puxando o velho. Amargo guardado com amargo guardado. Isso cura? Arde. A malva é teclado.

É claro o olhar de lis. O clã ri se. Gargalha se se é no it. Sabe que está comigo porque me convidei. Ela gostaria de me ver assim: escrevendo de bruço. Bruxa, teleguiava sementes.

Vou ligar o marimbondo condicionador de ar. Zumbido seguro sempre nina. Inseguro é tudo que não é robô. Homem sanguíneo, o que dirá o trocadilho? O meu sangue pesa mais agora. Penso em dormir. Ou durmo para pensar? É taça cheia, taça vazia, taça cheia, taça vazia... até me embebedar. Bêbado, acordo. Vivo trôpego do meu sono. Desperto para a vida justamente no sonho. É lá onde sou impossível e me ultrapasso. O sono é um it de morte aceita. Na vida sou imortal água-viva. Minto. Ainda me falta correntes para ser água-viva. Mas também não sou água morta. Cheira amargo. Sou dono de ostentados aromas. Não desapeguei do olho outro, sei bem. Ando pelo debaixo aquoso como se o substrato me desse arrepio. E cada arrepio é um passo. Cada arrepio, um passo. Cada... Posso ser estrela do mar? Eu respondo: sim. Já chamaram água viva de hermética bruxa, terror dos ginasiais. Só posso ser estrela do mar. E isso facilita, e muito, seu trabalho de voyeur de mim. Quero ver se você ganha do meu eu em olhar pra mim sem piscar o olho. Pronto, já piscou. Que aqui eu sou o dono do tempo.

Texto de Carlos Juba

Noções

Noções
Mitologia nórdica


I
Gigantes são formados nesse lácteo
Alvar. Desse arco-íris se dizia
O céu, e abaixo o vapor em forma d’água.
Um polo ao arco terrestre induziria
Num próximo futuro atemporal
À mostra desse rol, geografia.

II
Gigantes continentes viram palco
Da Terra apresentada, alegoria
De Odin, Vili e Ve. Sal do Ymir, astral
De um nórdico valente. Moradia
Enorme desse freixo original
Impuro. Magnetismo que surgia.

III
No eterno inconcebido como tal,
Embla e Aske; a esse casal a primazia.
Criados num castelo com um lauto
Banquete. Nessa arcada se fazia
A “nova”, legendada do casal
Adão e Eva, numa história à revelia.


Poema de Yayá

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

+Phylozophya de WC

1.
Me deu um treco
Me deu um troço
Gritei um eco
Cuspi um caroço

2.
Eu faço de tudo
pra não ter
que fazer nada.

3.
Adianto o seu lado
Não ouço um obrigado
Eu preciso de você
Nem me viu nem me vê

Uma mão lava a outra
E juntas lavam a bunda
Do jeito que eu ando
Vou acabar corcunda

4.
As velhas idéias são sempre as grandes idéias.
As novas idéias são apenas faíscas:
demandam certo tempo para pegar fogo.

5.
Sacrifício é o crucifixo
Daquele que pregou até ser pregado.
A décima parte de quem não tem fixo
Já não é um pecado?

6.Você sabe o que eu tenho na língua, além de veneno?
Você não sabe o que está perdendo.


Poema de Andri Carvão

Fogo...

...
 
Minha brasa não incendeia nessa fogueira,
Fogueira da vaidade,
Fogueira do rancor,
Fogueira da inveja.

Meu fogo é outro,
É o fogo do amor,
Fogo do perdão,
Fogo da paixão.

Vaidade de alma é cocaína!
Rancor acumulado, veneno de rato!
Inveja desmedida é putaria!
Ser geniosa, e ter dentro de si o fogo abrasador, que se chama “amor”.
É inefável.



((( Camila Senna )))
 
 
...

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Pusilânime, fuzila-me! Fuzila-me, pusilânime

*Pusilânime, fuzila-me!

Não quero a apoteose da estética rasa,
estou muito além
de ser fosco no brio desajeitado.

Fuzila-me, pusilânime!



*Fuzila-me, pusilânime

Não quero ser marinho
quando me adoço
frequentemente com vulcões.

Pusilânime, fuzila-me!


Poema de Isaac Bugarim.

Phylozophya de WC

Validade Vencida

Não vale o que come,
não vale o que caga.
E quem não consome
- paga!

Bezerro Bizarro

Aqui relva com água
nunca caga catarro.
Aqui terra com água
não alaga mais barro.
Aqui pedra com água
nunca bate mas fura.
Aqui merda com água
não vira pasta impura.

EU JURO QUE EU
NÃO DISSE NADA

De cima do viaduto
escarram catarro
em riba dos carros.

De cima do viaduto
espirram esporra
em riba dos carros.

De cima do viaduto
mijam e cagam
em riba dos carros.

E o carro que morre.
E o magro que corre.
E o carro que corre.
E o magro que morre.

O Cu do Cúmulo

O cu do cúmulo
não é o óleo (anarco-íris)
do vômito anônimo na avenida.
O cu do cúmulo
não é a trilha sonora de banheiro.
O cu do cúmulo
não são as lembranças
no porão da memória.
O cu do cúmulo
não são as imensas olheiras do sol.
O cu do cúmulo
é morrer!
Morrer, morrer até cair...

Mantenha Distância

Eu sou Cia ltda.


Poemas de Andri Carvão

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Cidade Perfume...




Andando pelas ruas da cidade,
Me pergunto o porquê do encanto.
Fio pra todo lado, asfalto em todo canto...
Deve ser esse monte de ônibus colorido...
Esse barulho de freio, esse gemido.
Talvez seja o contraste brando...
Da mata com o concreto
O que fala assim simples em minha mente,
Calmo, direto.
A certeza da raiz
Da terra escolhida
Dos amigos que eu fiz...
- Finco aqui!
Uma bandeira de trabalho
Por essa gente, esse assoalho
Que faço parte sem querer
Que me encanta sem saber.
É daqui que eu gosto...
Cidade perfume.
Só me resta saber...
Perfume, de quê? 



(( ( Gabriela Boechat ) ))


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