Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



segunda-feira, 23 de abril de 2012

em flor


I


não sei se calarei a minha voz ou o eco,
cego o ego

pergunto-me se.

Se me envolveste mesmo no sonho
de ontem,
se o respirar era o teu?

Das flores do azevinho que deixaste
esquecidas pelo inverno passado,

ressuscitaram,
enraizadas nos corais amarelos que plantei no soalho de madeira

onde adormeciamos pela aurora.

II

em flor
da flor branca da orquidea

que o vento transporta em pétala,
migram ao longe
rios até ao mar,

cansam-se as tágides do tufão
que as empurra

como barcos à deriva perto de bojadores sem farol.

Avisa-me quando a solidão chegar ao poema,
se a ode entretanto se afundar

liberta as borboletas azuis
que ficaram aprisionadas pelo mar,

e procura-me no areal que aquela noite

deixou a descoberto,
descobre-nos.



Autor: Transversal

domingo, 22 de abril de 2012

seu pudesse escolher o que você vai ler


... essa é uma carta pra ficar
esteve muda o tempo todo
nem fria nem indiferente
uma afronta, apelo, aflição
sem dar um pio por dias e noites
com a raiva de Deus em seus olhos
suas olheiras acetinam seu impasse
chora aos montes por tiros de festim
se alguma vez amou, foi você
meu viaduto de sol
... essa carta roe as unhas, fala alto
é feita de cálice, seu sangue vendeu tanto
impassível em agonia e êxtase
o pulso que surra não usa roupa alguma
ama a seco sua doce devastação
mas houve um tempo em que não havia
nada mais importante que sua risada
... essa carta açoita, sangra e assopra
pergunta pelo sal...
mexe com seus cabelos
despedaça o ponto final
pois sabe que seus olhos não hão de conseguir ir...

... é uma carta de ficar
como água nova nas manhãs
(grávida de ti)




Poema de Vânia Lopez

sábado, 21 de abril de 2012

embrulhou o silêncio ao remetente


deixou o bordado
citou Baudelaire
abordou o rímel com zelo
enquanto o batom ganhava cor na boca
deixou uma ilusãozinha revirando a esquina
cegou as unhas com um vermelho puro
demitiu a meia arrastão
como anjos dispensando a penitência
o espelho sorriu com um brilho de loba rouca
encheu de suspense o relógio
sem trégua derramou os segundos
confortou o perfume Frances entre os seios
desinteressadamente,
como se o corpo estivesse longe
inundou o decote com as costas nuas
o tornozelo ia e voltava dançando na tornozeleira
a música mandava na vontade
apertou a alma dentro do vestido
invadiu a noite

a madrugada não voltou pra casa
sereníssima da silva
(sumiu para sempre estar ao seu lado...)



Poema de Vânia Lopez

molécula de água


nas farpas do arame
pingos cristalizados
- em degelo - refrigeram
o olho de fogo

e

nos lisos do fio
- de alta tensão -
andorinhas ajuntadas
invernam no tempo invernado.


Poema de Edilson José

sexta-feira, 20 de abril de 2012

se sopra onde quer (ir)

o céu empinando pipas, soprando cores no café da tarde, bolo mimoso,sequilhos na cesta anunciando a paz que vai chegar, trazendo flores e o movimento do seu sorriso acorda em mim alguma coisa que tece em ponto miudinho o calor da almofada, o gosto do beijo com folha de hortelã ao pé do assoalho da varanda em noite quente, a chuva fazendo amor com a terra como uma menina escondendo o corpo no vestido, enquanto a beleza cresce e para pegar seus olhos, fazer um suspiro enquanto deixa cair uma frase transparente em ponto alto e corrente, querendo mais com poucas palavras interrompendo a vírgula com tua mão pela cintura transbordando como ano novo no tonel em dia de chuva, ir lá com a minha alma raspar a manteiga com faca ardente, adoecer as mãos de Picasso criando-me do seu lado do pão... Autor: Vânia Lopez

quarta-feira, 18 de abril de 2012

[Ensina-me sobre os segredos do olhar de quem eu não esqueci]

Ensina-me e troca-me o olhar
enquanto tropeço,
afinal a terra parou,

o mar, destapa-se, esperguiça-se nesse algures,
esquece o horizonte
e fala-me dos silêncios,

dos silêncios.

E quantos mais mil anos de memórias terei de me relembrar para voltar nesse dia em preia-mar violenta?

Fala-me do amar, e navega-me até
onde a sede seca os cristais de sal
que o mar deixou esquecidos numa praia deserta,

navega-me até onde os pássaros
imitaram baleias nas migrações,
e voaram,
ou vogaram, tanto me faz.

Ensina-me e troca-me de novo o olhar,
mesmo que a terra se suspenda, se vire e revire,
ou adormeça,

que soprem ventos em remoinhos,
que se enfunem velas esburacadas,
enquanto empurro sem força algumas rochas que o mar esconde,
que me afundam,

que me obrigam a ficar,
que reste o branco das orquídeas que te ofereci um dia.


Ensina-me a regressar mesmo que a água encharque o barco,
e que as borboletas que morrem a voar
sejam enterrados no lado azul do céu.

Ensina-me a silenciar
todos os silêncios que me acordam todos os pesadelos.

Ensina-me sobre os segredos do olhar
de quem eu não esqueci.
Ensina-me.


Autor: Transversal

Amém

é pra você esse poema
como girassóis pelo caminho
água contra a natureza
a primeira tragada da manhã

é pra você
toda palavra que voa
o pulso que treme
minha colheita de milho
tua alma canto baixinho
como pássaros na borda da veste
um punhado de beleza
que ronda o céu do seu peito

passo a vida com teu cheiro
para molhar meu bordado
de lembrar-te
num sentimento fino
do que quer ficar
enquanto você vai em tantos planos

na pausa da oração
... depois do amém




Poema de Vânia Lopez

sábado, 14 de abril de 2012

O dia da terra

22 de abril
A gente
Grita
E berra
Pra ver se alguém
Nessa terra
Se lembra de sonhar
Com um país equilibrado
Desenhando um outro rumo
Com futuro melhor para o Brasil
Pois sabemos
Desde pequenos
Que dinheiro não se come
Que não se vive
Sem água
Sem florestas
Sem biodiversidade preservada
Sem esperança
Sem respeitos aos povos
Que da natureza sobrevivem
Por quem lutam
Cabana e vinha
E por isso morrem
Zumbi
Chico Mndes
Serigi
Até quando ?
Belo Monte
Trans amozónica
Transposição do velho chico
E código florestal vil...
Até quando esse modelo de sociedade
Mercante
Picareta
Entreguista
Inbecil
Vai operar
Matar
Poluir
Desmatar
Salve 22 de abril
Zumbi
Chico mendes
Antônio Conselheiro
Salve Serigi
Povos e nações
Xocó
Yanomami
Xingu
Viva o filho do Brasil
Que não se rende
Que não se vende
Que não foge à luta

Poema de Lizaldo Vieira

sexta-feira, 13 de abril de 2012

[que reste apenaso bater de asas dos pássaros que regressam]

Do que já não te ouço pela noite infinda,
reavivam-se as cores que relembro do caleidoscópio,
enquanto anjos e arcanjos disputam o bater de asas
com os pássaros que regressaram pela primavera;

“- Um dia encontrarás o teu paraiso!”,
por entre os caminhos de pedra banhados pelo sol
que ataganta a pele,
por entre os trópicos onde o sal do mar
encarquilha o corpo,
[escrevi algures],
como se algum inferno viajasse pelas tatuagens
esculpidas na pele;
“- Sombras que ficaram!” dirias.

Sim, porque só o aroma a canela que se cheirava vindo de longe
não nos chegava, queriamos os cheiros das tulipas, do rosmaninho,
tocar a linha que o horizonte tapava com nevoeiros cerrados,
assim eram os equilibrios dos bojadores longinquos de ti ou de mim,
queriamos, oh... desejávamos.

Sinto a tua falta, sinto a falta
dos bojadores que tracejavam o luar refletido
como se tudo fosse acontecer, pudesse acontecer
um dia ou uma noite,

sinto falta do que já não te ouço pela noite infinda.


[Que implodam os paraísos, os infernos, os trópicos inventados pelas primaveras em repetidos equinócios,
canso-me, que implodam os anjos e os arcanjos também,
que reste apenas o bater de asas dos pássaros que regressam].


Sabes, não me choro,
a chuva não dá tréguas às cataratas deste mar


Autor: Transversal

(morra como se fosse a lua)

seja gentil
se afaste dos meus olhos

compre o ar
numa tigela cheia de montanhas

deixe as palavras morrendo
nas páginas de velhas revistas

ponha o rio confuso no olhar dos peixes
que nadam em minhas veias
dê sua alma em troca
das loucuras de última hora

{brote em cada galho de silêncio}


coloque Roma em chamas
entre sussurros, champanhe
e estrelas

deixe à vontade esticar a mão
e traga-o de volta
como se a lua brincasse
dentro dos sonhos.

sem cansaço e zelo
voe sobre meu corpo
como se fosse a noite
uma eternidade
no horizonte.


Poema de Vânia Lopez

segunda-feira, 9 de abril de 2012

[um dia quebrarei alguns ventos do norte]

um dia quebrarei alguns ventos norte,
silencia-me,
sim, silencia-me,
enquanto a alma se enfuna e voga
para além do mar, porque não afora
como se as margens não se avistassem [?],
e os faróis se desligassem pela passagem
de um cometa qualquer, ilumina-me a rota,

e mesmo que alguns barcos não resistam
a tantos remares,
repito-te nos gestos, sim,
diferenciando-os depois da pele rasgada,


trespassa-me com as mãos, que
um dia,
se enovelaram no meu corpo.

E não te escrevo sobre o amar,
sim, do amar que se encabrita
e extenua, debilita-me e foge,
sim, que tudo transforma de saudades,
até estes ventos norte que um dia quebrarei,
um dia serei.

E não te descrevo o mar,
sim, do mar que me adormeçe alguns nevoeiros,
que me reflete de dia,
mesmo imagens distorçidas nos oásis de nenúfares
que ficam no meio dos sargaços.

Querem-se os corais em cor,
encaminho-os pelas palavras que o silêncio escolheu sem compreender como são belos,
como se a beleza não me silenciasse sempre,

como se te renunciasse.

Acorda-me, silencia-me, enquanto os teus lábios procuram os meus, respira-me nos ventos norte que um dia quebrarei,
e serei um sopro,
e serei um gigante.




Autor: Transversal

sábado, 7 de abril de 2012

De volta para casa

I

Bocas desmaiadas,
De sono escancaradas,
Viajam de volta para casa
Avenida afora,

Enquanto
Cabeças pendidas,
Em sonolência contrita,
Dormem o sono dos justos,

Nessa hora
Que se prolonga
E devora
O resto do dia
E das horas.

II

Vogam,
Em meio a lixos
E detritos,
Antigos destroços
De outrora;

De viagens,
Tratados, ilhas
E tordesilhas,
De tantas linhas,
Faixas, buzinas e sirenes
Dos que voltam para casa
Infrenes e sem leme.

Vogam
Tiros,
Gritos e vozes
Em meio ao martírio
De quem morre anônimo
Sem nunca ter lutado
Contra mouros ou assírios.

Vogam
Santas cruzes
E arcabuzes
A perpetrarem
O vilipêndio
De missas
Estandartes,
E incêndios,
Dos massacres
Que catalogam
A cidade.

III

Tudo que é perene
É só mais uma forma
Do provisório
Neste empório
Que é a história.

Por isto este mar,
Há muito seco,
Embora infindo,
Que guarda seus ecos
E os endereços
Marítimos ou citadinos
De tantos vascos,
Marcos, pólos e gamas,
Zhengs, vicentes,
Pessanhas, janszs,
Mendonças, lischontens,
Nunes, nunos e homens,
Sem glória e sucesso
Que voltam para casa
De mares, bares e azares.

Por isto este mar,
De quem
Não conseguiu regressar
E que hoje,
Sem canto ou narrativa,
Retorna para casa,
À deriva,
Em meio a vagas
Que aportam,
Em chamas,
As frotas soçobradas,

Lâmina
Que aflige e inflige
A chaga escusa,
Ibero-americana,
De toda uma raça chacinada,

Os becos e logradouros
De ocaso,
Esquecimento e atraso
Que não encontram
Escoadouro.


Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

Ps: Poema modificado após ler o belíssimo poema "Um dia quebrarei alguns ventos do norte".

sexta-feira, 6 de abril de 2012

cala o bico ou calabouço

só um minuto de silêncio
não vale um século calado;
não só ouça, não, pense-o
como sempre tivesse gritado.

cala o bico
ou calabouço
e acabou-se.

um poeta em pé de guerra,
de pé, e com mãos ao alto:
não chama deus, mas berra
flores, canhão ou asfalto.

cala o bico
ou calabouço
e acabou-se.

um poeta quase sem armas,
de arma, o punho febril;
sabendo, dos lados errados,
o lado errado de um fuzil.

cala o bico
ou calabouço
e acabou-se.

é entregue aos algozes
por gritar a voz alheia;
hoje grita só as vozes
nas celas de uma cadeia.

cala o bico
ou calabouço
e acabou-se.

um poeta sem vez, assombrado
por sombras próprias e luzes;
não crendo em outros pecados:
não outros, senão suas cruzes.

cala o bico
ou calabouço
e acabou-se.

tentaram calar-lhe o bico,
quiseram colar-lhe a boca,
mas ouve-se, do calabouço,
o eco da voz menos rouca.*

cala o bico
ou calabouço
e acabou-se.

escondem-se suas palavras
entre as frestas da prisão;
calava, e não mais se calam
as vozes, agora de libertação.

cala o bico
ou calabouço
e acabou-se.

grita aquilo que lhe arde,
pede às guerras, paz e voz;
e outros tons unem-se à voz,
gritando em coro: liberdade!

calou o bico
o calabouço
e acabou-se.





inspirado nas histórias do José Silveira
e do Julio Saraiva,

em conversas com a Punkita, num trecho deste poema
e no poema Minutos de Silêncio.

inspirado também na música
Calabouço, do Sérgio Ricardo

e na música
Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores,
do Geraldo Vandré.

inspirado por tantas histórias de anônimos que sofreram
e sofrem por conta da ditadura militar no Brasil.


perfil do José Silveira
perfil do Julio Saraiva
perfil da Punkita
___________

Autor: Caíto

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O Erro de Português



Achei, achei, achei!!!
Um erro de português!
Um erro de português!
Não o da escravidão negra
Que aflora outrora
Apagando a cor da aurora.
E dirá o teu patrão
Isso não é hora
de falar no assunto
Não é questão de classe
Aumenta o volume da Televisão.

Fabiano Soares

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Mauro & Maurício

O antigo relógio de parede da sala de estar já batia as doze badaladas da meia-noite e nada de Barbara chegar com o novo namorado. O pai Mauro já se encontrava aflito. “O que essa menina está pensando? Ela me paga quando chegar!” Pensava ele em seu andar atarantado pra lá e pra cá. Urgente. Agoniado. Desesperado.

Tocou a campainha e Mauro foi atender ensaiando o discurso de descompostura. Ao abrir a porta encontrou a filha acompanhada de um belo rapaz. Séria. Decidida. Tragicamente decidida. O rapaz constrangedoramente simpático.

- Oi pai! Esse aqui é o Fábio, meu namorado!

- Isso são horas? Perguntou Mauro fatalista.

- Eu posso explicar, seu Mauro. Posso entrar? – Fábio perguntava, argumentava amendrontado, mas firme.

Mauro permitiu. Bom e generoso como era, não era homem de extravasar sua raiva sem antes ouvir as justificativas do objeto de sua ira. Depois de entrar, os três se sentaram. Barbara e fàbio falaram sobre o culto da igreja. Sobre a esticadinha até a pizzaria mais próxima. Sobre o bate-papo que mascarava o amasso e a pegação. Era a primeira vez que Mauro via Fábio em sua vida e o rapaz lhe lembrava algo ou alguém que ele não sabia e no fundo nem queria saber o que nem quem, pois pressentia que era uma coisa muito dolorosa. Em seu papel de pai severo que quer saber com quem a filha anda, ousou perguntalhe o sobrenome.

- Vezzani! – Respondeu Fábio solícito. – Fábio Vezzani. Sou filho de Maurício Vezzani. Ele é um cirurgião super famoso. Conhece?

Mauro preferiria morrer a ter que escutar aquilo. Aquelas palavras eram várias facas a lhe perfurar os tímpanos e o coração; e invadiro os olhos e a alma sem dó nem piedade.

- Já ouvi falar por alto! – Sua boca respondia pesada e mórbida como a boca de um zumbi.

Barbara tomou a palavra:

-Já tá tarde e eu vou levar o Fábio até o portão, pai. Até daqui a pouquinho.

Mauro não respondia. Seus olhos estavam tristes, distantes, imprecisos, longíquos. Quando Barbara fechou a porta, amesma foi arrombada pelo passado dentro das lembranças do dono da casa em imagens cruéis e torturadoras. Sim. O nome Maurício Vezzani era um nome que lhe soava aos ouvidos com a mesma força apaixonadamente malígna de uma ameaça alienígena.

Se viu aos treze anos na quadra de esportes da escola. Era ótimo no handebol e fazia muito sucesso com as meninas, mas era fiel à sua namoradinha Raquel da mesma idade – pois a mulher sempre defende o homem de si mesmo nos mistérios nefastos da vida. Foi com os amigos pegar a bola que já estava reservada para eles. Mas a turma do primeiro ano do segundo grau já havia pegado a bola. Eles que eram do sétimo ano ginasial foram tomar satisfação com o líder da turma. Quem tinha que estar a frente era o líder Mauro. Chegaram na quadra e o líder do grupo que estava sobre o domínio da bola estava de costas dando as devidas instruções ao time. Bastou Mauro tocar em seu ombro para ele se voltar bem lentamente. Perguntou-lhe o nome antes de reivindicar a bola.

- Me chamo Maurício Vezzani.

Sim. Era a primeira vez que Mauro e Maurício estavam frente a frente. Mauro ficou pertubado com os olhos de Maurício. Olhos de quem era embiagado pela vida. E melifluamente se sentiu vampirizado. Maurício lhe propôs uma partida. Seus times jogariam um contra o outro. Partida feita. Jogo empatado. Zero a zero.

- Vamos jogar um vídeo-game lá em casa? – Maurício era pertinente em seu convite a Mauro. Meus pais estão viajando. Não tem ninguém pra encher o saco.

Mauro sabia que ao aceitar esses e outros convites jamais seria o mesmo; mas quando o clamor dos sentidos grita na veia, ele impele e incita algumas pessoas a fazer o emocional e não o convencional. Aceitou estes e outros convites. Quando chegavam ambos sabiam que não existiria vídeo-game. Existiria sim: o desejo pagão de dois jovens da antigüidade; o amor profano de dois sacerdotes de um deus da colheita; a explosão do gozo maldito; a chuva de sêmem a inundar a cama, as paredes e o chão do quarto de um adolescente; e finalmente, a paz clandestina dos amantes undergrounds.

E foi sendo sempre assim por mais ou menos dez anos. Até que a mãe de Maurício, dona Irma, descobriu tudo. No seu semblante tranqüilo e carismático de uma aparente resignação, fingiu aceitar em sua paz cristã de mulher religiosa. Mas ao se descobrir traída pelo marido, fez questão de visitar a amante do companheiro e lhe intimar:

- Você vai me ajudar a acabar com uma certa palhaçada!

A amante mudou de papel. Foi incubida de abandonar o pai e seduzir o filho. Em seu período fértil foi apresentada a Maurício. Bela e sensual como era não foi difícil levar o jovem para a cama. Engravidou.

No terceiro mês de gravidez foi junto com dona Irma fazer uma visita a Mauro. A mãe de Maurício tomou a palavra:

- Está vendo esta moça ao meu lado, Mauro? Ela está grávida do meu filho Maurício. Agora sim. Meu filho pode ser todo seu; pois por mais que vocês se gostem, jamais terão esse prazer de ver os traços de vocês dois correndo, pulando, rindo, chorando, crescendo em um ser. Jamais vão ver a continuação disso aí que vocês chamam de amor pulsando na vida de uma pessoa.

Mauro não precisava estar passndo por aquilo. Sabia que seu relacionamento com Maurício não seria eterno e enm queria que o fosse. Sabia que Maurício gostava de meninas também e sempre respeitou, pois ele também não as ignorava por completo. Como toda coisa que não é provocada e sim acontecida, não deveria haver acusações, nem condenações , nem punições. Não merecia sentir aquela dor ao ter a gravidez daquela moça que nunca havia visto antes jogada em sua cara. Não merecia descobrir de forma assim tão violenta que o caso entre ele e Maurício era mais forte do que ele pensava; e por isso incomodava.

Aquelas palavras além de machucar o enlouqueceram com perversa doçura. Se sentiu despencando em um abismo escuro e fétido que o destituía de sua identidade. Enchendo-se de vergonha e culpa, nunca mais quis ver Maurício em sua frente. Passou a se vestir de mulher. Não tomava mais banho. Falava sozinho pelas ruas. Se alimentava das oferendas das encruzilhadas. Se feria propositalemnte com gilete. Mas Raquel, a antiga namorada, voltou a cruzar seu caminho; e apaixonada estendeu-lhe a mão – curando sua alma machucada. Levou-o para a igreja e lá se casaram. Raquel engravidou e, doente, morreu do parto da filhinha Barbara – que nasceu linda, forte, saudável. Mauro criou sozinho a filha sendo pai e mãe; melhor amigo e professor; psicólogo e confidente. Barbara era uma luz em sua vida e sua existência lhe dava um novo e maravilhoso significado.

Agora estava ali naquela sala, olhando para aquela porta restaurada pelo memos passado que lhe trazia de volta ao presente.

- Ele já foi! – Disse Barbara entrando receosa.

Mauro foi incisivo:

- Não quero que você veja este rapaz novamente.

- Eu tô grávida! – Barbara respondia com uma gota de lágrima a lhe cair do olho esquerdo.

- Sua louca! – Mauro gritou desferindo-lhe uma sonora bofetada.

Barbara correu a se trancar no quarto, se debulhando entre gritos e lágrimas. Nunca o pai havia lhe encostado um dedo sequer. Sempre fora o mais compreensivo, carinhoso e compassivo nas mais sérias travessuras e peripécias da filha. A moça sofria. Conheceu Fábio três anos antes na festinha da igreja. Depois se descobriram matriculados na mesma escola durante uma partida de handebol meninos versus meninas. Na festinha da escola deram o primeiro beijo, passando a namorar escondido logo em seguida. O período de namoro às escondidas foi delicioso. Aquele mundo maoroso era só dos dois. Nenhum parente, nenhum amigo a pertubar-lhes a paz secreta dos amantes. Mas tudo cresce a tal ponto de se tornar insuportável. É quando entra o sexo. Desmaiou numa aula de Educação Física. Na hora de pegar o resultado com o médico quis desaparecer. Ainda nem conhecia a família de Fábio. Já estava no segundo mês de gravidez e apesar de não esperar uma reação tão violenta do pai, já pressentia que ele não gostaria nada nada daquilo. O único fato que lhe salvava de uma possível tentativa de suicídio era a alegre surpresa de ter visto nos olhos do namorado a felicidade e ternura em se saber futuro papai, apesar de tão jovem. Se sentia fortalecida.

Fábio contou tudo para sua melhor amiga confidente, a avó dona Irma. A velha senhora ficou radiante em se saber futura bisavó. Ainda não conhecia a moça, nem sua família, mas já amava a todos por ajudarem a aumentar seu clã. Sua prole se perpetuava de forma sublime. “E só em imaginar que aquele veadinho sonso e nojento do Mauro quase destruiu isso tudo ao seduzir o meu Mauricinho”. Pensava ela em seus botões de seda. “ Mas graças à Deus aquele lá já se foi. Deve ter morrido de aids a uma altura dessas”.

Fábio levou Barbara para morar com ele no casarão dos Vezzani. Mauro não esboçou nenhuma reação. Apático, impotente deixou a filha ir com o pai do filho que esperava feliz, amendrontada, tensa, esperançosa. Em seu sofrimento de avô que não estava preparado para aquele neto, ele ruminava medos apreensões, recalques e solidões de uma vida toda de fuga de si mesmo. Sabia que jamais poderia matar o passado, mas poderia sufocá-lo como fazia desde a morte de Raquel e do nascimento de Barbara; podia soterra-lo nas preces que entoava aos gritos e nas canções religiosas que ouvia até o último volume do rádio, incomodando toda a vizinhança cada vez que se lembrava de Maurício. Agora, sabendo que sua filha abrigava em seu ventre um neto que era seu e de Maurício, não suportava o fato de saber que Barbara, antes sua tábua de salvação, agora o obrigava a andar sobre o fogo, a água e o ar – pois ela não pariria apenas um bebê. Pariria também o gosto do sexo de Maurício em sua boca, a humilhação de dona Irma, sua própria loucura. Ele usava sua fé para fugir do passado, mas aquele neto era sua fé, seu passado e seu presente. E para conseguir ama-lo no futuroao invés de sufocar, teria que manter sua velha paixão acesa. Nem que fosse em outro patamar. Em outro prisma. Em outra vertente.

Seis meses se passaram. Era chegada a hora de Barbara dar a luz. Foi sentindo as contrações, cercada pelos mimos de Fábio, dona Irma e do sogro Maurício. Este faria o parto. Estava imensamente feliz com a chegada do netinho. Sim. Agora sim. Sua vida eria sentido. Teve vontade de morrer quando Mauro o expulsou de sua vida. Tinha sido embebedado pela mulher que depois de casados ambos um com o outro, descobriu ser ex-amante de seu pai. Após a confirmação do teste de DNA de que Fábio era realmente seu filho, conseguiu amá-lo sem culpas, nem acusações. Mas matou a mulher aos poucos e involuntariamente; quando ela já apaixonada pelo marido teve que suportar seu desprezo, sua frieza, suas traições. As vezes em que ele, bêbado, a amava pelas costas balbuciando baixinho e inconsciente o nome de Mauro. O câncer que a assassinou foi para ela a grande solução.

Quando soube da loucura de Mauro, Maurício quis vê-lo; mas dominado, acuado pelas ameaças da mãe de coagir o pai a deserdá-lo, desistiu. Triste, melancólico e solitário viveu somente para seu filho e sua profissão. Se perdeu e se achou em saunas, banheiros públicos e cines pornôs nos braços de jovens rapazes; na esperança de reencontrar neles pelo menos um pouco de Mauro ou de sí próprio, de sua juventude.

Nasceu um lindo bebê. Amado, esperado, forte.

- O seu pai não irá vir conhecer o neto, minha filha? – Perguntava dona Irma para Barbara.

A jovem abaixava os olhos desamparados de saudades do pai.

Depois de deixar o bebê no colo da mãe por alguns longos minutos, Maurício pegou o neto no colo. A porta do quarto se abriu e nele entrou um taciturno senhor de cabeça baixa. Todos se sobressaltaram. O senhor levantou a testa, depois os olhos, depois o nariz, depois a boca, depois o queixo, depois o pescoço. Até sua cabeça inteira ficar ereta.

- Pai! – Disse sorrindo uma emocionada Barbara.

Dona Irma entrou em estado de choque. Totalmente petrificada, não podia acreditar ser aquilo verdade. Reconheceria aquele rosto até no inferno. Seu bisneto poderia ser neto de qualquer outro infeliz menos daquele degenerado. Depois de tudo que ela fez agora teria que conviver com aquilo. Aquele bisneto a humilharia para o resto da vida. Mas o que puxava seu tapete, também a fazia refletir. Não era má. Muito menos uma bruxa de contos de fada. Apenas precisava de sua perpetuação para continuar tendo fé na vida. Maurício era seu único filho e Mauro era uma ameaça. Por amor às suas certezas, destruiu o que acreditava ser errado. Mas ao ter que engolir o fato de ver Maurício e Mauro avôs de seu bisnetodescobriu que há um mistério muuito maior que suas próprias certezes; onde o certo e o errado perdem todo o sentido. E era esse mistério que fazia ser aquele bisneto a fé na vida, mas também o medo da morta. Ser a esperança, mas também sua maior desgraça. Descobria, enfim, que o amor não se define, não se justifica, não se classifica. Ele é e pronto. E ponto final.

Extremamente fragilizada perante a realidade que se despia em sua frente, pôs-se a chorar copiosamente.

- Vim conhecer meu neto! – Disse Mauro em tom de redenção.

Maurício entre um sorriso e uma lágrima lhe estendia o neto. Mauro olhou em seus olhos. Os mesmos olhos outrora embiagados, agora pareciam dolorosamente sóbrios. Mas o jogo agora era um a zero. Quem vencia? Nenhum dos dois sabia. Talvez o amor. Talvez a vida. Nada mais importava. Nada mais existia. Apenas aquele neto era uma doce realidade. Uma realidade que os religava; que os recomungava para o futuro. Um pedaço dos dois misturados, cujos traços correria, pularia, riria, choraria num só ser. Pulsaria na vida de uma pessoa.


Marcio Rufino
Todos os direitos reservados.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Engana-me que gosto

Sem essa do me engana que eu gosto
Areia
Meu bem areia
Areia de Maruim
Quem não gosta de areia
Também não gosta
De mim
Sou brasileiro
Quebrado da gema
Gosto de carne seca
Sarapateu de bode
Com uma friota
No meio da feira
Aos trancos e barrancos
Vou vivendo
Com ou sem dinheiro
Viramo-nos
Compro banana mais barata
Frutas fresquinhas
Inhame d’água
Na barraca
E sempre produto fresquinho
De primeira ou de terceira
Tudo regateado
Pechinchado
Pinga fogo
Ponto no í .
Só Não ponho lenha
Nem tempero
Na panela alheia
Pode sair queimada
Com caldo insosso
Prefiro não assumir a culpa
Pelo mau gosto
De música
Gosto e entendo
Um pouco de tudo
Escolho a dedo
A letra
Pode ser brega chique
Forró da Clemilda
Prenda o tadeu
Piada do Ton Zé
Na sombra da jaqueira
Do Josa
Não sei por que iludir-se
Em mentir pra você mesmo
Que não assume
O gosto popular
Pode mangar de mim
Chamo mesmo atenção
Tocando meu pancadão
Um bregão
Fzendo isso
Rendo um troco
Para a economia popular
Deixa que xinguem
Que falem
Que virei um bregueiro de primeira
E quem não virou
Vai virar
São João vem ai
Tocando baião
Forró eletrônico
De calcinha preta
Vai dizer que não gosta
Que isso é só pra careta
Ái que bom
Um samba de roda no interior
Um forró no pé da serra
Na casa de nô
Uma ou vez ou outras
Dou uma esticadinha por lá
Quem não passa na banquinha da esquina
Pra por a sorte em dia
Com o bicho do dia
Vai dizer que não come buchada
No meio da feira de gloria
Tomando pinga
Com casca de pau
Na barraca do Babau
Daqui a pouco tem gente
Querendo assumir
Que não gosta do mela mela
No são Pedro de capela
Me-engana-que gosto
Dum trossu dessee
pode ser
Mal me quer
Bem me quer
Bem querer
Falta de grana
Ou má vontade
Com a freguesia
Conversa doida
Pura ressaca
Do meganha
Ói
Vai petear macaco
Que è melhor
Pra não ficar com cara de tacho
Por chilique
E vexame
Nem chame
Vê se estou lá na esquina
Eu tô
Que tô
Nem aí
Pro jegue acuado
Nem tudo o que reluz é ouro
Diz o ditado
É mesmo que dizer
Que o etanol é ecológico
Preserva o verdes
Só se for
O verdinho monetário



Poema de Lizaldo Vieira

domingo, 1 de abril de 2012

a após você

... encosta teu chapéu
vença um anjo pelas veias
dome um couro
traga o silencio no terno mais afiado
seja tão bonito que surgirá
e me golpeará como um martelo
embeleze o atlântico norte
como um par de sapatos novos no natal
... o ar fresco sabe bem
a noite carregada de perfume
(tantos e tão diferentes)
há sempre silencio
quando não ouço de ti
o anjo se funde com a palavra esfinge
vá! Supere o vento!
seu olhar rasgando o céu
assombrando a memória do corpo
o coração batendo como se fosse... (o) meu
... ensine como respirar novamente



Poema de Vânia Lopez

sexta-feira, 30 de março de 2012

[é pela noite que as orquídeas voam]

é pela noite que as orquídeas voam
soltando as pétalas pelo caminho,
e enquanto os olhos não adormeçem,
sento-me num cais algures, olhando
almas que se passeiam como aves pelos campos de linho,

fala-me das almas, conta-me dos caminhos,

enquanto o poema se transfigura e redondo rola como uma pedra na direcção do abismo por mim criado.

Palavras.

Fala-me de mim ou de ti, das fugas
que se esconderam por todas as viagens mesmo as que já foram um dia virgens impolutas,
dos faróis que encadeavam os olhos cansados,
diminuindo distâncias de adamastores furiosos,
do arco-iris que iluminava o fundo das fendas
que reluziam como tesouros destapados da terra submersa, fala-me.

Que me interessa o amar, de que me serve
se a saudade resiste e invade o ar perfumado pela primavera[?].

Palavras.

Sim, é pela noite que as orquideas voam,
e sobre o mar por onde os meus passos calcorreiam levantam-se as pétalas em remoinhos deixados pelo vento adormecido,

acordam marés julgadas perdidas para sempre,
ficam os silêncios de mim ou de ti,
[como se isso importasse agora...]
e nem as palavras que calámos incomodam o içar da âncora.


[nas palavras que ficaram coladas ao céu da boca nasceram versos que se julgavam perdidos pelas folhas rasgadas nos caminhos cobertos por pétalas das orquídeas que voam pela noite].
Palavras[?].



Autor: Transversal

segunda-feira, 26 de março de 2012

Samba...



Do samba eu gostei
Com o enredo, encantei-me...
Do seu quietinho modo...
Conduzindo-me o corpo, mais ainda.

Tem lugares que por mais banal que seja
Só é mágico e acontece com a pessoa escolhida...
Para que aconteça com emoção a melodia
Sem caligrafia, sem teoria.

Num dia, timidamente nos olhamos
Noutro, saímos de mãos separadas...
No decorrer, dançamos, rimos,
Nos beijamos e ao sair, toda a Lapa no silêncio
Bamba da noite aplaudia nossas mãos em efusão.

Mesmo sem saber se depois
Perpetuaria a leveza daquela noite
Que por pouco não aconteceria,
Mais os deuses conspiraram a favor e todo o plano mudou.

Nesse samba não coloco nem as mãos
Deixo o vento guiar conduzindo a direção.

Gostei da sintonia
Senti a energia
Adorei ouvir:" você é meu número""... (rs)
Resumindo:" prazerosa foi a noite boêmia
Com direito a samba tomado de poesia.


Camila Senna


sábado, 24 de março de 2012

[Sou tentado pela cor das cerejas]

Sou tentado pela cor das cerejas como se de tentação eu escrevesse,

mas da cor cai-me a imaginação
direita ao mar, ou o inverso,
[que me importa?],
como se a seda vermelha, por vezes mais escura,
deslizasse pelo teu corpo, e eu,
me completasse no teu peito, no teu ventre.

Desventro-me assim sem dor nos luares finais de março.

E tudo recomeça mais uma vez,
como se as marés ignorassem o homem do leme,
o desconhecessem, o tratassem como
intruso,

e repito-me que sou tentado pela cor das cereja,
porque o sabor não destingue as cores,
porque poucas são as árvores de todas as cores no além do mar onde existe um arco-iris sem inicio que se afunda algures,
sempre longe de mim.

Que alguns desses deuses me recolham enquanto me afundo por perto,
colhendo a cor das cerejas,
que plantei,
no dorso das baleias em migração.

[Migram-me o silêncio, a tentação em colocar [sempre...] a minha cabeça no teu peito].


Emigra-se o medo, assim seja.



Autor: Transversal

quarta-feira, 21 de março de 2012

a seus olhos blues, vá...faça barulho por favor...

Poemas : à seus olhos blues, vá... faça barulho por favor...
através do ar... o som do seu sorriso
os mesmos olhos
a mesma boca
as mesmas sardas
como um bule fervendo o tempo todo...

como posso eu cicatrizar?
se cada vez que vejo seus olhos
sinto dor...
como se partisse um fósforo

minhas mãos não voam mais
vá, faça barulho por favor
mexa o cabelo
como se eu pudesse esticar o braço
e ouvir seu sorriso por meus lábios

nunca me lembro de esquecê-la
bebo-te como a terra depois da seca

eu me deito aqui e queimo
... se não queimar
como posso iluminar a noite?...




Poema de Vânia Lopez

BOMBAS


Onde estão as casas
Que as bombas levaram?
Onde nasceram as bombas
Que os bombardeiros soltaram?
Os gritos das crianças chamando
Por seus pais com os olhos embaçados
Ainda vagam pelas luas
E os pedidos de ajuda
Ainda ecoam sem serem
Ouvidos

Arnoldo Pimentel

sexta-feira, 16 de março de 2012

[estranho]

Sempre quis o silêncio, aquele onde os sons se suspendem, onde, nem o respirar liberta sussurro, por um dia só que seja,

e lá, nas fendas que se querem
em lavas,
entram ilusões que revejo,

palavras em imagens,
isso, eu sei.

Agarro então o ar
que as orquideas libertam, inspiro-o,
sinto a terra raiz de que me libertei,
regresso, rapidamente,

ao pó,
e as minhas mãos colhem searas outrora ondeadas pela brisa da primavera que por ali ficou estancada,

e o tempo passou,
isso, eu já sabia,

renascem as visões repetidas, gastas
partidas sem piedade, porquê a piedade que se parte como cristal ao amanhecer? [ou pelo canto de uma prima-dona inspirada que ouvia nos domingos adolescentes...]. Sim, partidas.

E do amar que o escrito procura, resta o mar no suave ondear das vagas que se quebram em areais cobertos por girassóis ou por algas ou por corais ou...,

estranho,

como se tudo fosse estranho, sem cor,
abanam-se os sorrisos,
abrem-se as rotas naqueles hemisférios que se depenam como garças no além mar em silêncio.

Quanto ao silêncio que me inunda, por este dia só, que seja, regurjito alguns versos,
apenas alguns versos no silêncio do papel.

Isso, desde sempre o soube, desde o sempre.



Como o cavalo louco, sem freio, acendo o cigarro sem filtro que se cola aos meus lábios, teus, estranho.



Autor: Transversal

quinta-feira, 15 de março de 2012

"(qual-breve.)Sortilégio",

alimenta o meu posto.
dá-me trégua de mãos aladas e. em costumes de afronta
bate às trevas em minha porta
apressa-me o passo de ir
de vir
quase julgado de ti e por derrota
eleja-me. em:
lajeado-penitência por rescindir-te
eleja-me fim.




conforma o meu coração
fecha bem os meus ensejos e me conte lá, o teu nome
ou
diga-me pra correr..
ria-me aos escombros e tombos, e assombros de lépidos declínios
à curia que te fiz ao meu lapso
(já agora.. o)meu
acaso.
aos
(in)versos (in)férteis de (in)glórias mundanas e vis..







diz
a que devo ser, em presente..
liquida o que te resta ao meu palco servil, demente(, doente..)
e
acende-te à estopa.













..







traga os meus olhos pra te verem aos de antes
comprima o meu ciúme à uma sala fixa e fria.
desminta-me. quando em sonhos, eu nem(mais) te quiser
à espera da chuva que (ora.)me levará..




exemplifica-me.



qual anedóta de pertences e palavras
às escursões que fiz ao inferno só pra te deixarem, por lá, passar..
(ilesa)




ah,
cortina..

deita-me em linha repetente de tragédias e cenas
às de-limitações de um apenas, "enfim"
lentidão.. seja-me. dos ademais adereços em tua permuta
posto que
não me calarei. até q vc me "escolha"
ou.
até que ao ver-te, eu..









esteja desperto.
(ou não mais te esteja)



ah-eu(nunca!) te serei..

Poema de Azke

segunda-feira, 12 de março de 2012

recaída irrelevante

os olhos não chorarão:
hão de, lentamente, morrer,
e serão invernos na mão.

os lábios serão frios
e não haverá rio a correr:
serão costurados ao frio.

não haverá mais verão,
e o sangue há de escorrer
uma última vez ao chão.

hei de morrer assim:
quando enfim ela beber
o último gole de mim.

Poema de Caíto

sábado, 10 de março de 2012

As gôndolas nas grandes luas de Plutão

Se
ainda nos víamos, foi numa sombra:
é uma noite nos teus olhos e nos meus,
sem ramos, sem braços, sem ser tua:
é um bosque quase perfeito,
e passando por ela vejo os teus olhos
quase sempre,
o véu das tardes, esta neve árida
num forno sem filhos,
a tinta desses chocos loucamente luminosos,
onde as estradas passam
pelos poentes


Poema de Francisco Eugênio Seixas Trigo

sexta-feira, 9 de março de 2012

Mulher

Ser mulher
É não querer do mundo
Jamais provar apenas
Uma colher,

Muito menos
Deixar de sofrer
A dor ao gozar
De prazer.

Ser mulher
É matar em si
Quem se troca
Por uma vida qualquer,

É ser o que se quer ser,
Mulher, desejo fundo
De jamais ser mãe
Senão de um novo mundo,

É querer ser muito mais,
Amar meninos
E vagabundos,
Poetas e assassinos,

Ser mulher
É coser
Para emaranhar-nos
Inda mais no querer,

Ser mulher:
Madalena, Lilith
Ou Helena a amar-nos
Como hiena ou menina,

Ah mulher,
São luas cheias
Tuas nádegas
E minha boca as pleiteia!

Ah mulher,
Esparjo-me
No teu seio e sexo
Sedento e gago.

Ah, e minha língua
Bebe teu gozo e saliva
Toda a vida
Que em ti nunca míngua!

E nos teus cabelos
Sorvo o perfume
Que me transporta
Aos altos cumes...

Sorvo tudo
Em longos haustos
O teu corpo desnudo
Onde me farto exausto.

É alongado espasmo
O meu gozo
É cair, transe, orgasmo,
Num fundo poço.

E quando descanso
Enfim
É porque te traduziste
Em mim...

E só descanso
Quando sei
Que foste além da colher
Que te impede mulher!

Quando sei
Que enfim
Cumpriste o teu mister
E te tornaste, sim!, a Mulher.

E o teu mister
É amar,
É querer beber
Todo o mar!

É saciar
Desejos inconfessos,
É quebrar
Os votos professos,

É rezar
Para o Diabo
E deixar que te amem
Toda, de cabo a rabo!

Ah mulher,
Que fizeste?
Estamos nus
E é a nossa nudez o que nos veste.

Mulher,
Que fizeste
Senão amar tanto
Santos e cafajestes,

A ver neste chão
No qual piso
Tudo que é sublime
E celeste?

Ah mulher!

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

quarta-feira, 7 de março de 2012

[nos reflexos do sorriso]

Cantam-me as manhãs de luz,
iluminadas,
e nos reflexos do sorriso, teu,
desapareceram as ansiedades, minhas,

mudam-se os ventos, molda-se
o barro, e da água constroem-se
castelos de núvens que ficam
como os de areia, aguardando.

Aguardo-me no tempo da viagem,
que o tempo me esqueça,
que março termine,
que o mar acalme,
e nestes tempos que o tempo
tenta desfazer,
brotam corais nas lagoas paradas,
trotam cavalos loucos pelos
campos de linho,e o sol
destapa-se da noite em aurora.

Posso não compreender as faces
do mar, nem as alturas das ondas,
nem o cantar da baleia azul,
posso,

do tempo que me escasseia olho-o,
sem temor, sem nostalgia,
que o raio seja breve,
e que da terra sem margens
ou barreiras, sossegue a flor de lótus.

No sorriso, só teu,
ficou o olhar, só meu,
e,
no tempo de todo o sempre tempo,
se encurtem as viagens,
que regressem as andorinhas,

por fim.

[Afinal, a tua primavera, está tão tatuada em mim],
[...]
final: nada mais me interessa,
resta-me o mar, e o som de um violino,
que o tempo então, me esqueça.


Autor: Transversal

terça-feira, 6 de março de 2012

ave maria Cheia de Graça

mulher é Eva
garra que agarra
terra acolhedora
luxúria no corpo
sonhos de conhaque
reflexos do infinito
por centímetro ou quilometro
devoram caminhos

costela de Adão gerada no útero
choram intensidades
para saborear com seus chinelos
sufocam abismos com um biscoito

há algo poético quando afastam o mundo
ajeitando os cabelos
quando a primavera reflete-se
no canto dos lábios
teme-se a doçura da cor

passam como séculos
mas se eu disser a você
... tudo desaparece
(como se se esconde-se de Deus)


Uma pequena homenagem
as mulheres.




Poema de Vânia Lopez

segunda-feira, 5 de março de 2012

rubor

Sai de ti um pincel perfeito
pintando a aquarela perdida
nas sete cinzas do meu peito

Caem as gotas na minha teia
de sangue em veios da ferida
que me atingem de lua cheia

Abro abraços em sete léguas
mediando noites entre vida
e adormeço flores nas águas

Reino por sobre o escombro
da paz feita árvore vencida,
esperança partida no ombro

Lançam as cores que me deste
amor em véu e terra abatida
no azul do céu, nada celeste

Entram mais umas inocências
na paleta à guache escorrida
cores e gestos de infâncias

Trabalham meus fios de trigo
misturando em rima à medida
o pão de verso que é consigo

Poema de Caíto

sábado, 3 de março de 2012

Tinta e raiva

achei que descobriria o gosto das manhãs, o pôr de sol castanho, o batom com cheiro de flor de maça, o significado do seu nome, frágil e doce. mostrar como se voa ou como o vento penteia seus cabelos enquanto me olha menos... que teus olhos. choram os lírios como guitarras emudecidas, outra noite se desdobra, pequeno grão de nada, morto por trás desses olhos. vá! diga-me porque posso odiá-la mais e mais em doce desespero, como cicatrizes voltando e minha voz torna-se tinta e raiva sem nunca amá-la menos... como se nuvens estivessem
vagando em seus olhos arranhando o céu
(da minha alma).



Autor: Vânia Lopez

UM VENTO NA NOITE DO TENNESSE (Arnoldo Pimentel)

UM VENTO NA NOITE DO TENNESSE

                                 

     Abriu a porta e saiu para a varanda, queria sentir o frescor do anoitecer, ficaria por ali olhando a estrada de terra que passava em frente ao portão. A varanda era grande, com algumas plantas, assim como o quintal daquela tranqüila casa de campo. Caminhou até a cadeira de balanço do lado esquerdo da mesa de madeira e sentou-se. Do outro lado da estrada havia uma casa, do lado esquerdo uma curva e do direito uma reta até o centro do bairro.  Ali é tudo quieto, vez por outra passava um automóvel e podia-se ouvir os pássaros e o som do riacho lá no fundo após a curva da estrada de terra. Seu coração já não era tão forte como em tempos passados e por isso não se sentia bem na cidade, não se sentia mais um homem urbano. Depois de alguns minutos sua esposa, companheira há mais de cinqüenta anos veio sentar-se ao seu lado, com passos também curtos, um tanto cansados, atravessou a distância entre a porta e sentou na cadeira de balanço ao lado da sua. Ficaram alguns minutos em silêncio admirando o anoitecer. Ela sabia que ele gostava de sentir o toque do vento em seu rosto sem muitas palavras. Assim ficaram e a noite cobriu o quintal, ela levantou, acendeu a lâmpada e voltou a sentar.
- O que você pensa quando está aqui? Perguntou Maria
- Sinto que algo escapa de mim aos poucos.  – Respondeu José
- Algo como?
- A vida, talvez.
- Sente-se infeliz?
- Não, sinto-me feliz pela vida que tive.
- sente saudades de quando éramos mais jovens?
- Acho que não, tudo tem seu tempo, agora só me resta esperar enquanto fico aqui sentado observando a natureza.
- Eu sou feliz por todo tempo que vivemos juntos.
- É tão bom ouvir isso de você.
Ficaram novamente em silêncio, quem sabe não estavam lembrando cada um ao seu modo tudo que passaram juntos. A noite era fresca e as estrelas piscavam, talvez para a lua cheia que ilustrava com sua beleza aquele pedaço do céu.

- Quer um refresco? Perguntou Maria
- Quero sim, uma laranjada sem açúcar – Respondeu José
- Vou preparar.
- Enquanto espero ficarei observando a lua e as estrelas.
Maria levantou-se para ir à cozinha e José ficou na cadeira de balanço, balançando e ouvindo a voz das estrelas cantando pra lua. Era apenas um lugar, que ficou escondido no tempo em que a cadeira balançava na varanda, tocada pelo vento, protegida do sol, protegida da chuva, dos olhares ermos que passavam na estrada, dos sonhos que vagavam perdidos, enquanto o outono não dobrava a esquina pra deixar a manhã vazia.

Maria voltou com a laranjada e colocou sobre a mesa, ao lado de José, mas ele não esticou as mãos para pegar, ela sentiu um aperto no coração quando viu seus olhos fechados.

- “Talvez tenha dormido” – Pensou
- José
- José
Ela tocou seu ombro e sua cabeça caiu para o lado
- Meu velho, não me deixe sozinha
- Não me deixe sozinha meu amor, não me deixe sozinha
O vento parou de balançar a cadeira e lua escondeu-se atrás das nuvens que deixaram as lágrimas caírem na noite.


Arnoldo Pimentel

quinta-feira, 1 de março de 2012

uma guitarra de pecados

Irás sozinha,
como se perdesses a noite e sempre a noite
que faltou aos campos
no meio das tuas mãos e poderei,
também eu, ver o que não vi: a geada dos
cordeiros ou a surdez da lua
dominada pelas nuvens.
Eu sei que o teu amor está fechado,
e que é sempre cedo para tê-lo: parece que
o vento é das cegonhas que salvam as jóias
do teu seio e às vezes é de noite, às vezes é
de manhã e o vento prende-se com pequenas
chamas, com a meia urze dos cálices
no horizonte para onde ias: às vezes são
gestos, rosas, uma guitarra de pecados,
os papéis assinados às fontes,
os papéis assinados pelo Novembro, sobre
os degraus para as ilhas que anoitecem,
ou o sol que as segue até tão longe.
Eu já não te escrevia nada e está sempre
vento e quase sempre o lugar
vaginal do quarto crescente,
como um vitelo sobre as marés,
e um vitelo em vigas sóbrias
depois sobre a seda
que um dia trouxe
das harpas e se
como os teus dedos
à volta o dissessem tão suaves
voando, como voando vai um
poente de veias na evocação dos cristais
que alguém atirou para o céu, ou as lágrimas
dessas esmeraldas onde durmo e para onde eu
ia com a tua urgência,
Meu Amor


Poema de Francisco Eugênio Seixas Trigo

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

"quase"

refém,


(d)esta! queda-pátria de mim, hora absorta de fins e meios
e termos.. já obsoletos por denotada conduta(e freio..)
ao lapso que te ascende em céu abstracto, parte e pecado
à fé.. por centímetros de linhas, e sinas a este tolo acto..

já nao é a curva que me tomba, nem às rodas que bem sei..
nem à mácula da mentira-pia que te vence, (oh!)não há lei..
não há terras, não há contos e tampouco a predilecção
destes dias inconstantes, quais te perco, de fins e nãos

eu nao aceito que te queiram, eu(já) não quero te aceitar
nem à minha carta que te queimo, nem este lado de mar..
eu.. tenciono deixar-me à deriva, ora, se não me perderei

ao meu teatro de casos impossíveis, letrado, privado, à vez
qual íliada repartida, minha guerra vencida, minha lâmina febril
é este pacto de corpo, de outro consolo que não te seguiu..


e
eu(quase!)
não(te)
quero(mais..)

Soneto de Azke

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

[Há noites escuras]

Há noites escuras,
mais escuras que outras,
noites sem a lua dos amantes,

há noites que escrevo sem pensar,
tudo é possível, cometas
no quarto, corais na cama,
caravelas no copo de água
baloiçando,
noites.

Noites que removo o coração,
noites que dispo esta pele tatuada,
e o sangue espalha-se pelo
soalho, e o papel avermelha-se
também.

Há noites que escrevo nas paredes,
sentimentos,
histórias de alguém,
podem ser histórias minhas,
podem ser histórias,

e olham-me as sombras, assim,
apenas assim, que fazer?

Há noites que as saudades corroem,
queimam o que resta,
como labaredas desenfreadas,
línguas de fogo sem aurora boreal,
sem,
sem explicar.

Há noites tão escuras,
sem soluços, com todas as lágrimas,
que toda a minha vida me reaparece,
novamente, sim,
novamente,
só não a consigo agarrar,
só não a consigo tocar,
não consigo.

Há essas noites mais escuras ainda,
as noites das lembranças,
as noites das recordações,

esqueço-me dos dias,
esqueço-me do sonho,
esqueço-me,

e tudo revejo,
até a cor do dia,
até a cor daqueles dias
que antecedem estas noites tão escuras.

Há noites,
há tantas saudades,
são tantas as minhas saudades,
são tão escuras as noites.


Autor: Transversal

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Flor Camila





para a poeta Camila Senna

Camila menina,
Camila mulher,
Camila poeta,
Camila camélia
Senna entra em cena
E mostra ao que veio.

Em sua doce rebeldia.
Melancólica em sua poesia.
Guerreira em sua ousadia.
Musa, ninfa que não precisa
Perguntar nada ao pó,
Pois o pó já lhe declara todo o amor
E ela como toda mulher-flor
Se abre inteira.
Tesa em sua beleza.
Fenix restaurada das cinzas.
Cinza que faz, desfaz e refaz Camila.
Cinza do pó de poesia.

Marcio Rufino

hidróxido de alumínio

engulo a rodovia, frentes.
o ponto de fuga
quer meu sorriso de canto,
minha fome,
a metamorfose das metáforas.

mas toda rodovia tem duas,
quatro vias
engolindo, engolidas...

e no refluxo da volta
o verde do oeste,
meio a poeira densa do piche,
revela o sono letárgico das gentes.



Poema de Edilson José

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

[apenas quis]

Apagam-se algumas estrelas
e mesmo que sextantes as encontrem,
ficam vazios os horizontes,
desconhecidos, descreverei então,

perdi-me de ti,
desconhecia
como se encontram as águas,
como se de um rio nascesse mar.

Voam as sedas vermelhas além,
além do mar,
e no teu colo me deitava,
assim seja, dizias-me,
na imensidão de sonhos.

Quis-me o destino partida,

apenas quis,

nem uma gota de água transbordou
as margens só nossas,
onde banhávamos os pés cansados,
dos nossos caminhos, disseste-me,
no dia em que o beijo
afastou o vento norte.

Quis-me o destino partida

apenas quis,

sorriste quando escrevemos
poemas no areal que o mar,
um dia, escondeu,

recordar-me-às sempre,
disseste-me.

Jamais me esqueci do mar,
jamais me esqueci do nosso mar,
e hoje, escrevo-te amar,

apenas quis, digo-te,
apenas quisemos, dirás.


Autor: Transversal

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

sempre-viva

Meus devaneios são rasos,
neles não me afogo nunca
e as vontades sem podas
sempre-vivas
ornam o cesto do balão – imenso cachepô.

E não há cotovelos gastos sobre peitoris de janelas
ou lugar fixo,
o longe, o perto
ficaria, ficará, ficarei sem rigores nem minúcias.
Não meço espaços entre mim e o mundo.




Poema de Maria Verde

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Ciranda....



Canto sozinha no estio de frente pro mar
E aquela sua ciranda sempre a me rodear
Fazendo brotar a semente ardente
Duma paixão veloz que sem esboçar,
Causou alvoroço sem se esperar

O poema li antes mesmo de você chegar...
Mas com o tempo e seus desencontros
Esqueci de declamar
Mas também não sabia para quem
Além do sentimento profundo
De contigo de mãos dadas cirandar....

Hoje entendo sem proteger meu coração
Larguei toda minha razão no vento
Do esquecimento milenar...
Sem querer saber da aprovação do mundo.

Nessa ciranda encontrei você,
Cirandeiro do amor...
Que ao me olhar, desnudou...
A mais preciosa flor de um sonhador.

Cirandeiro do amor,
No seu recanto junto com seu canto e seu violão
Eu quero estar, deixar desaguar em mim o mar de verão
O mesmo que desde do início aqueceu minh'alma
Deixando marcas, deixando frisson.


((( Camila Senna )))

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Fevereiro

Será que um dia ele vai rir de tudo isso? Quais serão os comentários póstumos direcionados à sua descendência? Seu pai era um grande homem? Seu pai era um filho da puta? Seu pai era muito louco? Mas, por que póstumos se está vivo e não tem filhos? O que o aflige, afinal? A morte do sentimento e o crescimento e rebelião do que parece inadequado? A persistência no erro? O fim de seus dias de celebração à vida? A mutilação? Ou seriam os julgamentos de uma sociedade cuja percepção quase sempre foi distorcida? Mas, o que acontece? Quando foi que sorrir se tornou um fardo? Quem roubou aquele sorriso? Ele mesmo? Para que tantos anos de autopunição disfarçada de euforia? Por que essa sede, esse apetite que nunca encontra um fim? E a obsessão pelo inadequado, de onde veio, quando tudo parecia sob controle? E toda a compaixão, alivia ou joga sal sobre sangue e carne que não são só dele? Aprisiona? Conforta? Por que o incomodam as demonstrações de afeto que se sobrepõem à barbárie? Seria a descoberta de que o amor do próximo machuca, afinal? Mas, o que tanto incomoda? O que seria esse apego insano pelo frescor de uma juventude que não lhe pertence? É o que deseja, transformar-se em deformidade e aberração, agora que já é monstro? Conviver com o incômodo que atravessa a alma e envenena os pensamentos? Há quanto não dorme direito? Mas, para que dormir senão para reviver os sons, cheiros, cores, texturas, gritos e sussurros perdidos no ar da madrugada? Quando o prazer se fundiu com a dor? Quando todas aquelas luzes foram engolidas pela sombra que, agora, estende-se por todos os pedaços de sua vida? Como pode um ego tão gigantesco ser destroçado pela rejeição e inferioridade que sempre estiveram ali? Quanto mais poderá aguentar? Qual o sentido de todo aquele sentimento, todo aquele sofrimento que não é só dele? Por quanto tempo mais o diabo o provocará com seus convites e apostas? Quando, afinal, chegarão os bárbaros? Por que amor nenhum é suficiente para aplacar o apetite insaciável pelo que ele nem sabe o que é? O que deseja? Por que deseja tanto assim? Quanto desconhece a respeito daquela natureza?Quantos miligramas são suficientes para dar fim a todas as perguntas?


Texto de Bruno Clemente Machado

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

[e quando as tuas pétalas caem]

e quando as tuas petalas caem
das nuvens azuis,
e quando as tuas petalas se
misturam com o mar,
os ventos que sopram sossegam,
as calmarias regressam,

os adamastores, em bojadores
floridos,
respiram os odores das madressilvas,
e das tulipas que lá plantaste.

Queria-se o poema assim,
apenas assim,
sem tormentas, vulcões,
sem tempestade, furacões,

e no tocar do teu cabelo,
e no tocar do teu seio,
e no colar-me ao teu corpo,
[nesse teu aroma de canela],

nasce um arco-iris na noite,
e rasga-a,
na escuridão do inverno.


Não sei se é amor, não sei,
nem sei de mim, não sei,
sei da ondulação do teu corpo,
desta minha tatuagem de ti,
sei, que

me ondeio nas tuas ondas,

sei, que

quando te penso, penso-te
mar,

sei, que,

sempre assim será.

[Queria-se este poema...assim],
apenas,
assim...


Autor: Transversal

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Haikai da Catástrofe




A catástrofe só interessa
Antes de se desfazer a demanda
Depois de já feita a merda.

Marcio Rufino

[Relembro-te]

Relembro-me,

das cerejas que se queriam
em cor,
das árvores descoloridas
cobertas por sombras, de núvens
que vogavam sem rumo,

relembro-me,
dos dias que seguiam noites,
e o piar do mocho, que se escondia
nos ramos despidos,

relembro a terra nos castanhos
da madeira que rangia,
no sal que se entranhava
nas entranhas do meu corpo.

Relembro um mar em fevereiro,
longinquo, longe,
onde o cheiro a canela
invadia espaços fechados,
invadia o ar decompondo-o,
como o prenúncio de uma rota
qualquer,
seguida nas estrelas brilhantes,
adormecidas.

Relembro-te nos sorrisos do areal,
no meio do frio vento,
olhando imensidões,

distâncias jamais percorridas,
nem pelo sonho.Rasgava
então os mapas,
e sem caminhos,
adormecia no teu colo,
sossegava-nos, relembro-me.

Relembro-te em saudades distantes de um mar em fevereiro nas distâncias jamais percorridas... relembro-me dos dias que seguiam as noites e dos meus olhos que se fechavam... esqueci-me da forma das núvens que vogavam sem rumo.


Autor: Transversal

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Digestais

o que sei de meus dedos finos
quando os olho, enternecido:
na mão leve, cinco bandidos
transfigurados em meninos.

uma mão procura o fogo-fátuo,
o verso que se relê no ventre,
permitindo, ao verbo incauto,
que, riscando seu nome, entre.

e há leveza em outros dedos
quando voam, pássaros ateus
ao céu do aceno, sem nuvens,
perdidos em gestos de adeus.



Poema de Caíto

domingo, 12 de fevereiro de 2012

"pós-dia"

face.
à face com um produto exigido
amor..
eterno confronto da minha recém-acepção
da minha mentira
aversão
modo operante por manipular-me
acaso do corpo
do ponto previsto

todo..
..quisto.

lado e preparação ao absurdo..

pouco tempo pra te contar
minhas resistências mundanas
quais simetrias de catálogos
das fileiras e fileiras de giz..

asfalto
chão
queda.

por ensejo daquilo que te traria o nome
por inserção ao sonho que te comove
ao proveito desta noite
da última parte que nos importa
ao exílio
ao açoite que me devora..

o teu nome solto
a tua imprecisão
a voz doce
a
minha

ilusão..













..






jaz este período.

composto
oblíquo
minhas cenas trágicas
minha comédia de viver
meu aplauso retirado
ou
até

do teus laços,
esquecer-me..





jaz este posto.

em lado-pouco
coercivo
intrépido
abusivo


jaz este pacto que te queria
ora,
agora
é apenas:



cena.
(apenas isto.)













..





deito os meus olhos à terra que te cobre.
prego a minha seta na lembrança que te aproxima
e
então,



assim,
eu:






deixarei.


Poema de Azke

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Escrever

Escrever poesia
Como quem escreve
Um livro tombo,
Ter olho pra tudo,
Pra quem corre certeiro
Ou toma um tombo.
Ter olho pra tudo,
Até mesmo pro pombo.

Escrever poesia
Como quem chora
Ou se devora
Louco sem deus ou memória,
Culto de súplica e prece
Sem pai, pão ou perdão,
De quem não vive sem pressa
E só crê e obedece
Ao rito livro das horas
De um herege.

Escrever poesia
Onde nada é imorredouro
E tudo é sujo, sujo, sujo
Como um matadouro
Mundo imundo,
Sorvedouro.

Anotar todo nome
E a garatuja suja,
Vasto palavrório
Inútil
E o palavrão
Sempre útil
Na rua ou no escritório
Da massa inconsútil
Comedida e comezinha.

Escrever poesia,
Todo o logradouro
Ilustre ou anônimo
De gente, topônimo,
Escol, escória
Que aparece e some
Cadente
Neste livro de ouro.

Escrever poesia
Em confronto
Com um dia e breviário
De fadiga e soluço
Que nos varam, translúcidos,
Com a luz dos semáforos;
Que só nos querem lúcidos
E sempre prontos
Para labuta
E o livro de ponto.

Escrever poesia
Para gente perdida,
Sem porto ou caminho,
Homens tortos,
Dos descaminhos
Para quem não há
Guia ou oração,
Via ou confissão,
Exorcismo ou escaninho,
Nenhum livro
Seja dos vivos,
Seja dos mortos.

Escrever poesia
No meio da rua
Sentindo no estômago
Queimação, azia,
Trazendo no peito
Crônico,
Ânsia, taquicardia
E a aflição
De quem fala, fala, fala
Sem ninguém
Que lhe ouça a voz e o pleito,
De quem cansa e se cala
Na multidão.

Escrever poesia,
Códice, gravura,
Xingamento e mesura,
Pergaminho no estojo,
Página e rolo
De náusea e de nojo.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados

sábado, 4 de fevereiro de 2012

[diz-se]

Quebram-se os galhos secos
puxados pela terra castanha,
quebra-se o vento contra as
asas dos rouxinois,
apaga-se a luz quando acordam
os pirilampos,
e do mar que se quebra contra a
rocha,
diz-se: um dia, assim será.

Quebram-se as promessas de uma
noite, noite em sobressalto,
noite quebrada pelo silêncio
de um beijo,
e na sonolência do olhar,
perde-se a visão num horizonte
sem astros, sem rastos,
quebram-se os passos perdidos,
sem eira, sem lirios.

Restos descritos ao acaso,
no ocaso das viagens, nas
escuridões das manhãs sem céu,
manhãs que não quebram as núvens,
por mais que insistam,

assim,
quebrando o barco contra
as ondas, apenas partindo,
quebrando o amar, talvez longinquo,
neste suspiro de mar que
se quer vulcão.

Quebram-se alguns sonhos em
vagaroso acordar,
sem fim,
sem fim diz-se,
assim seja, alguém dirá.



Autor: Transversal