Manifesto do coletivo Pó de Poesia
O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.
Creia.
A poesia pode.
(Ivone Landim)
terça-feira, 12 de junho de 2012
carochas, bicicletas & biplanos - 5
Gostou dos personagens zangados. E dos que envelhecem e são irascíveis. Quando envelhecer… Quando envelhecer mais, vou ser assim: maldisposto e insolente. Posso muito bem não ser capaz. Mas tentarei. Uma bengala e umas cãs darão uma ajuda. Bem as cãs… Falta a bengala. Feita de pau-teimoso-e-rezingão. Então a vida valerá a pena. Afaste-se que eu vou passar. Vá, despache-se.
4 Jan.
Quer dizer que este senhor norueguês que escreve brilhantemente os seus contos e outros escritos, era um perfeito desconhecido por não haver quem o traduzisse, o que é pena e esta frase já está muito grande. Kjell Askildsen, nascido em 1929, premiado autor – comparado a Raymond Carver e também a Beckett (descubram porquê) não tem frases assim, grandes e com desperdício. Escreve o que é preciso e chega. Simples? O tanas. As suas personagens, cruzamo-nos com elas todos os dias – gente. Tu e eu. Velhos e novos. Doentes e saudáveis. Sóbrios ou nem por isso.
5 Jan.
Dois homens estavam à espera de um outro. Que chegou já de madrugada. Receberam-no perto da luz dum cadeeiro de rua e as sombras de uma grande árvore. Abraçaram-se e atravessaram uma grande avenida. Foram esperar uma mulher num bar dum velho teatro. Sabiam que estava aberto o bar, só para eles. Instalaram-se a um canto bebericando os seus portos. O dia chegou e a mulher não.
9 Jan.
Empurrou a mulher pelas escadas abaixo e chamou a polícia. Amava-a mas não a suportava. A polícia chamou a ambulância e levou a pobre mulher. Já não a suportava, repetiu o homem algemado a entrar no carro de polícia. Não mudou de argumento e ficou preso. Ninguém se lembrou do gato. Esse saltou a vedação e entrou na cozinha da velha senhora da casa ao lado. Aninhou-se num alguidar cheio de roupa lavada. A velha senhora sorriu:
- Estás em casa, gato…
10 Jan.
Autor: Carlos Teixeira Luís
segunda-feira, 11 de junho de 2012
muito embora
uma lágrima só desce de um olho.
perco o sono e o sonho perde vida.
se meu olho queima à tua partida,
a tua ida não sou eu quem escolho.
recolho o verso que canta despedida;
não sou nada alegria, se me encolho.
quem dera um não fizesse aquele verso
e que, disperso, o poeta, fosse vento
pois, se eu fosse vento, tão diverso,
não passaria de poesia e encantamento.
ai, meu vento breve! me leva em tua mão
e então nela me faz sonho e verso eterno!
meu desejo sangra as folhas do caderno
enquanto a folhagem viva vai ao chão...
a esperança de menino ainda é forte,
os desesperos é que soam mais meninos.
quisera eu que, os beijos, entre mortes,
em minutos de silêncio, fossem hinos.
não poderei esconder a saudade
pelos dedos que dançam ao piano;
se quiseres ficar só por vaidade,
vai-te logo, pois te trago desengano.
tenho planos de futuro e brevidade.
a idade conta, no relógio, as horas,
e as demoras falam muito de saudade...
serei feito de lama, caos e auroras
se por acaso tu ficares sem vontade.
Poema de Caíto
sábado, 9 de junho de 2012
para que eu seja mais que um lar
guarda-me
entre minha alma e a tua
me pega ao colo
e a tudo que existe
revele-me pelas retinas
e o que vejo a todo momento
faça-me história
acaso o dia acorde
dá-me sonhos para velejar
despe-me a alma
para que eu nasça
respira-me detrás do peito
para que eu seja mais que um lar
ponha minhas roupas junto aos sapatos
deixe o tempo que arruína tudo
o encargo de colocar esse amor no passado
mesmo que me esvaia em teu olhar profundo
enterra essa maldita felicidade no deserto
que levantarei sem que haja chuva alguma...
Poema de Vânia Lopez
O garçom
- Bem , eu só sei que o nome dele era Rui, o resto, não sei ou não lembro se ele me falou alguma vez. Chegou numa manhã garoenta, falando que viu a placa dependurada na entrada, dizendo da precisão de um garçom. Tinha trabalhado uns tempos num restaurante, lá para as bandas da Augusta. Entendeu-se com o seu Horácio e começou logo a trabalhar. Sotaque nordestino, já meio amaciado, lá de Pernambuco. Simpático, atencioso, mas de simpatia medida aos palmos, bem controlada, sabe? Ria, mas sem mostrar os dentes. Eu, que não nasci ontem, reparo logo essas coisas. Êita, cabra escorregadio. Pontual, nunca faltou um dia em dois anos, nem por doença. Entrava e saía na hora, mas não enjeitava hora extra, não. Falava em tudo, menos de si, da vida dele mesmo. Quando a gente pensava ouvi-lo falando de si, já estava era discutindo a escalação do Corinthians ou os engarrafamentos na Marginal. Vaselina todo, o Rui. Servia muito bem as mesas, dizia nunca ter freqüentado senac nem escola de garçom nenhuma. Claro, a gente pensava que fosse mentira, pabulagem besta. Ah! Bom de serviço mas ruim de bola. Jogava de atacante nas nossas peladas. Meio barrigudo, mais levava baque que jogava bola. Mas sempre bem-humorado. Acho que aquela doidice era o jeito dele jogar mesmo. Grande figura o Rui. Todo mundo gostava dele. Na noite de seis de março, chegou um senhor já meio coroa no restaurante. Tinha telefonado e reservado mesa para três pessoas, ele e mais dois caras mais jovens, parecidos com ele, cara de um, focinho do outro, dizem lá na minha terra. O coroa falava num sotaque nordestino muito forte, puxava de uma perna... não lembro qual. Olhava todo mundo de cima, cara acostumada a mandar, a gente conhece logo, servindo esse povo há anos. O Rui atendeu, ficou meio sem jeito quando encarou o velho, mas não disse nada. Trabalhou muito bem, como sempre. O jantar foi normal, igual a todos os outros. Pediram sobremesa para os três. Fui até à entrada, papear com o Nonato, o manobrista, aquele cearense que esteve aqui também. Retornando ao salão, vejo o Rui trazendo uma compoteira grande, enorme e pouco usada. Pôs em cima da mesa do coroa, fez uma mesura e destampou-a. O coroa olhou para ele, vermelho feito uma manga-rosa. Levantou-se, o guardanapo no pescoço todo enrugado. Rui puxou um revólver não sei de onde, sapecou-lhe três tiros,um champanhe de sangue pipocou no peito do velho, mais um tiro em cada acompanhante e no derradeiro, estourou os próprios miolos... meu Senhor do Bonfim, que bagaceira... mas foi assim mesmo. Olhe, só de maitre tenho já vinte anos. Vi de tudo na minha vida, menos alguém servir compota de merda aos assassinos da sua família, com aquele sangue frio e ainda por cima, dar chumbo grosso de saideira. Desculpe a minha fala, mas esse mundo é muito estranho, doutor delegado.
Conto de André Albuquerque
sexta-feira, 8 de junho de 2012
"minha(...)"
dívida. e excesso. em plenos actos às formas de pares
dentre lados regidos qual igual ponto por arremesso
laço.. teu desenho! em previsível corpo de acto, e. erro
e erros.. e lares. carta em letra/libra à marca que te sabe
mas é..
cada parte de um indício e prévio limite por algum resultado
à luz da menção fugídia que te brilha em reverso pois, advém
combina. pactua.. emerge de tão.. ínfima, em subtítulo predicado
é a lua da manhã(o lado..) à sombra do sol. e à noite e. ao desdém
mas, ainda é..
cada lápide da parte entregue onde reina(já.) o interesse oblíquo
..
toda esta.. prece. que carrega o passo da tua mesma (im)presença
carne da lição em lei que te absorve o meu pensamento.. império!!
meu campo de guerras e lanças e cantos ao redor da tua venda
sou. este cego.. sou. tal conto prévio contínuo e tormento deste verbo
da palavra que te é..
métrica e lima. à tarde acesa da chuva mais carregada d'onde me sei
em vendavais à altitude obscena por reinar em ar aberto, mas perto..
qual olho que te compre, acto que te vem e corrompe.. -"carta", levar-te-ei!!
hoje! e, aos meus dias de queimas e águas.. em, páginas deste repto
da palavra que te faço..
nem à morada por um palmo deste dia
nem à vénia que te bate à porta(e bate/bate/bate..)
seja(me) de noites desiguais em alvoroço
seja(me!) das minhas lâminas, o meu apreço
meu
próprio(e único..)
sopro.
Poema de Azke
[...e quão perto se quer o mar em mim
e quão perto se quer o mar em mim,
e quão inerme me deixa quando longe se espraia.
…
Era-me o vento bonança quando o pisavas descalça
anunciando chegadas, e repetias;
“- o mar não tem quintais, nem latifúndios, as pessoas não moram lá, morrem-se por lá!”
Pudesse eu deslizar-me pelas espumas do mar
sem ruído,
pudesse o céu abrir-se de par em par, como um sorriso
inocentado pelas derivas constantes das correntes,
pudesse eu morrer-me por ti,
perto do mar.
Fundeei-me nesta letargia momentânea, sem visão,
apenas restaram algumas orquideas que vogaram até mim,
suavemente,
silenciosamente,
e,
enquanto as recolhias descalça e núa,
era-me longinquo o marulhar do mar em mim,
tão perto dos silêncios teus.
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
quarta-feira, 6 de junho de 2012
transformas o que fere em arte...
entrou pela porta aberta
gentil tal qual toque de brisa
pousou em torno da cintura
como se fosse um cinto inevitável
um canto atrevido, sagrado
quase um mistério
meigo e cruel lado a lado dentro dos segundos
capturou a paisagem com uma inocência
ostentando o céu nas mãos
o dia reaprendeu seu lirismo
arranhou meu peito esta tarde!
livre como uma flor delicada
domando pétala por pétala
tudo foi junto
José cada vez que canta morre um pouco
do ocre e do azul turquesa
do ponto mais alto da jabuticabeira
açucenas floridas de voos
meus dedos deslizam quando o vento sopra
carregada tão fácil teu canto José
como uma folha
se aninha com uma calma menina
transforma o que fere em arte
pela porta que espera.
Poema de Vânia Lopez
segunda-feira, 4 de junho de 2012
poeta maldito, eu?
não tenho vocação
pra poeta maldito
ainda há precisão -
e mesmo bonito é -
de aceitar no pão
e aquiescer no café
Poema de Caíto
domingo, 3 de junho de 2012
...é tudo tão injusto!
dói tanto quando você está comigo, sinto-me tão perto que não sei onde acabo ou você começa... a almofada arrasta seus cabelos, quebro-me, como um vaso chinês. tropeço nas palavras troco o verbo perco o disfarce, me dando trabalho noite e dia. como um pássaro teimoso empinando asas em seus olhos me esforço tanto em te esquecer, fico em pedaços. deve ser errado, o corpo em claro como febre, que só se acalma dentro do seu peito... é tudo tão injusto! é tão injusto alguém ter os olhos dessa cor... que me calo.
Autor: Vânia Lopez
sábado, 2 de junho de 2012
O teu pulso é um dia de chuva
Nunca
sei onde nasce o sol,
e nunca o céu que tem o teu vestido,
quando os barcos partem num horizonte oposto:
eu só tenho o véu das tuas chamas,
o suave véu quando sobes a voar a mesma lua
ou a água que ao mar chegava,
e o vento é ainda este pesado crocodilo
quando a noite o perde, quando a noite é ainda uma
úlcera em seda já explicada às cortinas,
ou essa vírgula do céu
a flutuar um poente de rosas
apedrejado ao teu
parto
... »
Poema de Francisco Eugênio Seixas Trigo
Sina
Que me ensina
É que tudo
Nesta vida
Sempre cisma.
Se há algo
Que me ensina
É que tudo
O que cisma
É por sina
E que a sina
De cismar
Faz a vida
Pressupor
Para si
Um sentido,
Um propósito
E destino
Presumidos
Para todos.
Mas se tem
Um sentido,
Por que cisma
Esta vida
Tão sentida?
Mas se tem
Um destino
Por que cisma
E se abisma
Esta vida?
Se ela cisma
É por sina
De não ter
Um sentido,
Um juízo,
Por saber-se
Sem propósito
E destino
Quando cisma
Em surdina.
Por saber
Que cismar
É buscar-se
Bem acima
Dos sofismas
De um destino,
De um sentido
Tão mentido
E fingido
Pelas gentes.
Pois se cisma
Malsinada
E repleta
De sentidos
Presumidos
Nos ensina,
Na verdade,
Que viver
Esta vida
É a sina
De perder-se
Em cismar,
Em amar
E a arriscar-se
Sem sentido.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados
[...quando esqueces as palavras
…
quando esqueces as palavras pela noite tardia,
tacteias à deriva pelas marés os sons dos sussurros,
que,
fugitivos,
se escondem pelas frestas da parede em madeira,
e por mais que queiras adormecer,
os ventos esculpidos no teu peito perscrutam,
aquelas outras ondas que dançam em mim.
Também eu me morrerei sem lápide, nesta imanência longe de mim,
desconhecida, que me oprime,
e se o amar um dia se saciar, mesmo sangrando
das palavras que esqueceste pela noite tardia,
que siga as migrações distantes da borboleta monarca
que um dia sobreviveu ao inverno.
Hoje o dia amanheceu mais cedo, sequioso de claridade,
o mar ficou mais vazio sem ti,
[que o olhar dos barcos esteja sempre pintado na proa].
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
sexta-feira, 1 de junho de 2012
delírios de uma gota de espuma
baila a gota de espuma
sob o olho atento
do vento
ainda ontem
quando era criança
meu maior segredo
era a felicidade
a gota de espuma
baila sob o vento
de olhos atentos
a gota de espuma
é uma criança
com a felicidade
nos bolsos...
Poema de Caíto
FULANAS DE TAL...
-Criado em 2010, o grupo feminino cultural da Baixada Fluminense Fulanas de Tal
é formado por cinco mulheres de grande personalidade, e com muito conhecimento sobre arte e cultura. São elas, as poetisas Ivone Landim, Camila Senna, Aline Merilene, e Gabriela Boechat, que também é artista plástica; e a estudante de Cinema, Yasmin Thayná.
O grupo surgiu da ideia de Ivone Landim, que não se conformava com a situação e a posição da mulher em nossa sociedade, e resolveu formar com mais quatro amigas, um coletivo que agregasse pessoas interessadas pela natureza humana, voltado tanto para homens como para mulheres, mas com um olhar feminino, carinhoso, atento e sagaz. Dessa primeira formação foram reunidas, poetisas, críticas, pesquisadoras e artistas fluminenses, com o objetivo de promover intervenções culturais em todo o território da Baixada Fluminense. O nome “Fulanas” é uma homenagem a um poema escrito pela artista. A comunicação entre elas é realizada por e-mail, e cada uma é encarregada de exercer uma função no Grupo.
A formação original do grupo Fulanas de Tal é composta por Ivone Landim, poetisa, professora de Literatura Brasileira, e ativista cultural desde a adolescência. É a adjunta pedagógica da Coordenadora da FAETEC de Nova Iguaçu; e educadora do Ensino de Jovens e Adultos - EJA na Escola Municipal Heliópolis, em Belford Roxo, com o Projeto “Gramática Afetiva”. Fundou em 2008, com Dida Nascimento, Márcio Rufino, Jorge Medeiros, e outros poetas, o grupo Pó de Poesia. Participou do grupo poético Desmaio Público, criado na década de 1990, por César Ray e Eud Pestana, onde despertou seu interesse pelas letras. Ganhou em 2010, o Prêmio Especial de Literatura da Baixada com o projeto Entre Linhas. Começou a despertar o interesse por debates, quando começou a participar de grupos de mulheres, que discutiam sobre a reflexão de gênero, e garante ter aprendido muito com elas. Obteve grande sucesso com “Aprisco da Palavra”, um fanzine criado para combater a intolerância religiosa, debatendo a religião de maneira mais abrangente. Nascida e criada em Mesquita, veio de uma família humilde, e desde criança sempre foi apaixonada pela leitura. Ivone é a responsável pelas matérias culturais publicadas no Fanzine.
O termo Fanzine é derivado das palavras inglesas fanatic (fan + maga [zine]). Ele se caracteriza por uma mistura de gêneros da imprensa alternativa, ou seja, uma forma de veicular a produção artística ou a informação sobre temas variados. O que define o fanzine é aquilo que o editor deseja compartilhar com seus leitores. Para Ivone “os fanzines são Pontos de Leituras que circulam nos territórios de forma alternativa, em relação às mídias já existentes, caracterizando-os como equipamentos pedagógicos para difundir a leitura entre os seus alunos. Os fanzines possuem a proposta de trabalhar o recorte e a colagem unindo, assim, as artes visuais e a literatura. A intenção é promover de forma sociocultural, o compromisso com a leitura e a escrita, estimulando a juventude a produzir textos e a utilizá-los como forma de divulgação, expondo suas ideias e a sua criatividade.”
A segunda integrante é a poeta Camila Senna, que cuida do Blog das Fulanas de Tal. Camila já escreveu várias poesias, entre elas, O tempo passa, mas não apaga; A melodia da Vitória; A natureza e sua essência; Vento, Assim é Paraty; Caminhando; Para os destemidos; Não quero ser figurante; Falta tudo, menos veneno; Negro de Valor; Suas digitais em mim; Criatura etérea; e Maria Ninguém. ”Mãe, por ser abençoada. Mulher por natureza e puro ímpeto! Sou ponto. Sou vírgula, Sou reticências... Sou loucura serena, intensa e quente exclamação!... Meu sorriso largo mascara a ausência, a carência. Sou todo esse barulho dos meus versos desnudos. Sou urgência! Prazer”. Camila faz parte das seguintes Antologias: III Prêmio Litteris de Cultura com Amor – Ontem, Hoje e Sempre; Papo Cabeça, coletânea juvenil; Do Brasil para Frankfurt, mais que um país uma inspiração; Do Brasil para Guadalajara, o melhor da nossa terra; Palavras sem fronteiras, do Brasil para Buenos Aires; Poesias Encantadas 1ª e 2ª edição.
Aline Merilene é a terceira integrante do Grupo Cultural Fulanas de Tal. Escreve desde seus 14 anos de idade. Toda sua formação acadêmica se deu na rede pública de ensino. Concluiu o Ensino Médio na Escola Técnica Estadual João do Nascimento (FAETEC) em Nova Iguaçu, onde teve a oportunidade de fazer parte do projeto Entre Linhas, criado e coordenado pela sua professora de literatura, Ivone Landim, onde mais tarde se tornou editora-chefe, atualmente não participa mais desse Projeto. Fez parte também do grupo Pó de Poesia. Já escreveu cerca de 50 poesias, e continua compondo outras novas, para um dia publicar seu livro cujo título Delírio Poético, já está definido. Entre outros poemas de sua autoria estão: Desabafo, Mistério, Morada da Poesia, Telas Paralelas, O Mar, e Nostalgia. Aline é estudante de Letras; e amante de filosofia, psiquiatria e psicologia.
A quarta integrante é a artista plástica e poetisa Gabriela Boechat, que contribui com o Coletivo Cultural com suas ideias e trabalhos. Muito atuante na região da Baixada Fluminense, é formada em Educação Física e professora da Rede de Ensino de Mesquita. Segundo Gabriela, “apesar de sempre ter observado o mundo ao meu redor com outros olhos e outras cores, a inspiração para pintar aconteceu de repente e tem se mantido contínua e progressiva desde então.” No ano de 2010, organizou com outras pessoas, uma exposição no Centro Cultural Donana, cujo trabalho O Nu da minha Voz ilustrou a Gambiarra Profana, grupo de artistas que participa. O trabalho "ventos na primavera" ilustrou a capa o livro de poesias homônimo do artista Arnoldo Pimentel. Gabriela trabalha com telas, paineis, ilustrações, e caricaturas, em técnicas variadas.
Yasmin Thayná, estudante de cinema é a quinta integrante do Coletivo Cultural. “Menina, mulher, sagaz. Eletrotécnica, literata, cineasta. Cabelos com flor, com cor, cabelos únicos! Sorriso sincero, olhar tímido, estilo próprio. Chaveiros exóticos, mochila pesada, livros e filmes na cabeça. Yasmin conta que, desde que foi apresentada por Miguel Nagle ao curta “Um Dia de Laura”, foi inserida no mundo do cinema. “Fui fazer um curso com o Miguel, em janeiro de 2010, chamado ‘Do Roteiro à Prática’; e juntos fizemos o curta-metragem ‘Ciclo Eterno das Mudáveis Coisas’. Posteriormente se candidatou a uma vaga para produção de roteiro, e passou. Escritora assídua, roteirista, leitora, cinéfila, e ativista cultural. Este é o perfil de Yasmin, que com mais duas componentes das Fulanas de Tal, é responsável por disponibilizar matérias e ideias que contribuem para o sucesso do grupo.
O Grupo Cultural Fulanas de Tal, permite que outras mulheres, cujo perfil tenha identificação com o trabalho desenvolvido pelo Coletivo, entrem na Rede Mundial e façam parte do elenco, pois o foco do seu trabalho é estimulação da leitura, e a comunicação alternativa. Para mais informações acesse http://
Por Ludimila Bernardes e Seny Fonseca
Revisão: Seny Fonseca
Fotos: Ludimila Bernardes e Divulgação.
poema para um dia de chuva
no naylon preto
do guarda-chuva
tina-tinindo canção.
canção
flechada do céu,
senta a pua
no peito do pé,
molha o sossego do gueto.
chuva-chovendo canção:
percussão nas poças da rua.
Poema de Edílson José
vai-se o tempo em meus olhos
as noites silenciosas
correm como um mar de vinho
odor de rouge e perfume dançando pelo ar
o trigo secando lá fora
a luz do jardim atravessa a cortina
como um sino dos ventos
quanto mais longe fico de mim
mais nego teu nome como lembrança
respiro o nada
o que não se pode expressar
lenta e apaixonadamente
de forma que não se cale
Poema de Vânia Lopez
quinta-feira, 31 de maio de 2012
Medo
Amanheço. Por entre as dobras do ninho dos cobertores, travesseiros e lençóis, silenciosas mãos côncavas que me escondem como capa mágica da invisibilidade. Arranho por dentro o meu céu e ele, ainda, me sopra estrelas. Queria poder guardá-las na cadencia das horas em que me acho, mas, me perco.
Destranco a janela da alma e avisto os meus medos ao longe confabulando com o cinza do dia. E tudo se cala como uma silenciosa oração desenhada com baforadas no vidro. Meu corpo deságua raios e trovões, convulsão de um vulcão que quer expelir as sombras da caverna.
A neblina dissimula as carícias das mãos frias do medo.
Vou queimando por dentro e amontoando as cinzas em um canto, a espera que algum pássaro voe até a colina mais alta e espalhe o meu olhar inocentemente.
Encaminho-me com passos sonâmbulos como oferenda prestes ao sacrifício. De um lado, a solidão que estende a mão morna; do outro, a incerteza que escancara a sua voraz boca de abismo.
- Não quero mais ter medo de sentir medo!
Estendo os dedos como um cinzel pontiagudo e contorno, descolando, a face da solidão. Não saberei hoje dizer, se como o último ou o primeiro gesto, antes de anoitecer.
Autor: Lápis sem ponta
[...e ouvi alguns velhos do restelo clamando
e ouvi alguns velhos do restelo clamando;
“Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?”,
e vi duas sílfides dançando por entre o perfume das flores em primavera,
levando e trazendo suaves brisas,
e vi alguns poetas queimando palavras incrustadas em folhas preenchidas,
outros não riam, outros viravam as costas ao caminho,
e ouvi militares alteando a voz, encurralados na ilha de Kheros;
“Antiguidade é um posto, antiguidade é um ...”,
ah... e mais vi, e mais ouvi,
declamavam-se elogios, e mais elogios, como se a salvação fosse aqui tão perto;
- vai-te anjo rebelde expulso dos céus, expurgo-te do amanhã, do hoje, do sempre, “rasteja para a terra, possa ela salvar-te do nada”,
e alguns fizeram as pazes, mesmo com os dedos cruzados atrás das costas, alguns suspiraram não sei o porquê, outros guardaram as adagas de istambul ainda a brilhar,
libertaram-se os cheiros da amêndoa e do café.
E tudo vi, e tudo ouvi,
seria esperança, seria morte, seria o fim das trevas [?],
não sei,
sei que ainda ficou uma sílfide,
dançando por entre o perfume das flores em primavera,
[e o silêncio anoiteceu-me a voz, jamais o poema],
...
[que por aqui deposito? jamais].
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
quarta-feira, 30 de maio de 2012
[... e enquanto me espraio longe
enquanto me espraio longe dos lusitanos areais
em mares tão distantes, para além dos imaginados,
acorda-me alguma canção sem refrão,
de um amor para sempre arrastado pela ondulação,
amor, ou desamor que ficou algures, nostalgia ou mesmo interdição,
mas o desejo ainda se mantem, assim, assim...
Tocam os sinos a repique, ainda os ouço da partida,
como um fado que revisito na memória, que se repete,
que se arrasta sem permissão,
e que invade, que sufoca ainda mais que a saudade.
Tão longa a longitude percorrida.
Rogo pela mansidão do amanhecer, sem sons ou síncopes,
doutos os que esperam sem pressas,
e que celebram o renascer sempre anunciado, que se repete,
e se multiplica pelo tempo,
eu, renuncio-me ao acordar,
e jazo-me,
longe dos lusitanos areais em marés distantes que se espraiam
por mim adentro,
[sem fim, sem ti, assim, assim...].
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Vidas em perigo no fogo inimigo
É o fogo inimigo
Lambendo
Derretendo a terra
O morro
A planicie
Moitas nas serras
Grito na floresta
Eitos
E mais eitos
Em chamas
O beija-flor
Um tamanduá bandeira
Denunciam
Reclamam
Clamam
Um tiziu denuncia
Aos pulos
Trancos e barrancos
Revoltado
Sentinela de beira de estrada
Revoltado por tanto crime ecológico
Aos gritos conclama
Help
Help
Uma solução
De salvação
Tem fogo na mata
No topo
Nas ciliares
Na relva
Fúria de ventos quente
Circunda malhadas
Quintais
Muralharas da china
Por ali
Ninguém cisma
Em denunciar
A vida assada
Cozinhada
Em brasa viva
E feroz língua de fogo
Queimando
Assando
Expulsando tudo
Por léguas tiranas
Onde a vista alcança
Muito bicho morto
Tem ninho queimado
Goto
Preá
Jiboia
Saracura
Macaco prego
Morcego
Tamanduá
Doidos
Sem pra onde ir
E vir
Na grota do angico
Na mata do cipó
Nas nascentes do Curralinho
No nicho do guigó
Uma cobra silva
Rebolando
Tonta com tanta fumaça
O bem-te-vi apavorado
Diz que viu
Tudo partir da li
Do aceiro mal preparado
Da queimada do canavial
La das bandas do piranji
Diante de tanta produção insustentável
Parece não se contentar
Para as repetidas denuncias
Das vidas em fogo
Uma válvula de escape se acha
Um monumento de vida
O ícone guigó da Mata atlântica
Seres e vidas da mata que matam
Devoram
Atacam
Devastam
Mal tratam
Por bem prazer e deleite
Do império da cana
No consumismo de espécie humana
Contexto macabro
Que esse modelo superado de desenvolvimento
Encarna
Quando ignora nichos de bichos e florestas
Irmanados
Em festa biodiversa
Poema de Lizaldo Vieira
sábado, 26 de maio de 2012
a palavra e tua boca
o que me queima por dentro
é o silencio do céu
o cigarro que alucina em tragadas lentas
assombra-me
a palavra e tua boca
a chuva que adorna seus cabelos
costurando teu cheiro rente ao peito
teu sorriso criando eco
da vida que bate contra o chão
(do) resto que o peito consome
o que me devora saber
que o vento é o resto
num envelope fechado
o que arde e treme (é saber)
que a imensidão lá fora
é a singela mão do tempo
num envelope que voa.
Poema de Vânia Lopez
sexta-feira, 25 de maio de 2012
[...satura-me o sonambolismo com que a noite se veste
satura-me o sonambulismo com que a noite se veste
e mesmo que se disfarçe no canto de uma sereia,
mantem-me o olhar distante, não me afaga de mar,
e tudo acontece sem inicio, repentinamente
sem cor, sem tempo delimitado.
Desilumina-se o céu, e o cheiro da terra
é moldado pelas mãos no barro, mãos sem sina,
sem ternura, mãos de pedra,
e a dor pergunto-me;
não a sentirei mesmo que me atravesse o peito
e se crave na mais profunda saudade?
Dá-me a chave da porta por onde a noite entrou,
desferrolha-a mesmo,
racha-a de vez, relembra-me como é
a luz do dia em sol,
e, enquanto o céu azul se inunda de mar em cor,
repara nas núvens, velas enfunadas,
soltas,
vogando sem pressa, sem pressas,
esperando, que o destino aproe a sotavento.
Queimam-se as imagens de tantas as miragens nenhures,
nas recusas a este crepúsculo, regurgito da luz frouxa,
impludo-me então,
mais uma vez.
[que a última seja...]
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Na estrada
O velho ônibus parou e o motorista abriu a porta . Subi , segurando a alça de alumínio . Segui em frente .Mais um naquele pandemônio . Carro lotado . Índios aculturados , aspirantes á garimpeiro ,garimpeiros ostentando um sorriso dourado , rostos vincados pelo sol e anos de bateia. Pairavam cheiros de todo tipo , crianças choravam , um velho reclamava e praguejava , ninguém entendia a sua ira cheia de cuspe e o l h o s vermelhos , injetados .
Arranjei um canto no fundo do carro e aboletei – me.Ao meu lado, uma mulher morena , de idade indefinida, olhos castanhos .Na cabeça , um lenço estampado evocava as longínquas calçadas de Copacabana . No colo, uma velha bolsa de lona . Um ocasional olhar de soslaio , por cima dos ombros magros . Do rádio de alguém , Teixeirinha enlutava o coração , de Amazônia afora . Que país ! Pensei nas últimas horas e nas estrepulias da guerrilha : quem não debandava , morria com tiro na cabeça, feito cachorro doido , pelo Brasil grande , em nome da integração e integridade nacionais, quem sabe, por Guevara , Mao, Trotsky , pelo socialismo, pelo declínio do Ocidente , sabe-se lá mais por quem e porque .
Vinha já há dois dias fugindo do A r a g u a i a, vivo ainda, graças ao cadáver de Heriberto , tombando baleado sobre mim , numa matança sádica e frenética . Sequer checaram os mortos. Aí , eu não seria o único para contar a história .Alisei o bigode postiço e o ray-ban . Puxei o chapéu sobre a testa. Camisa estampada , calça de brim : posseiro da cabeça aos pés. O calor castiga e entorpece . M e u cochilo precário e solavancado, termina por estancar num ponto , onde sobe alguém vendendo refrigerante. Nunca o imperialismo ianque foi tão festejado : bendita coca-cola de goela abaixo e volto ao torpor suado e trepidante naquele fim de mundo. Do banco da frente , um garoto ri , dedinho em riste e desdentada inocência:
- Mãe , o bigode do homem tá caindo ! O suor tá desmanchando a cara dele ! - Cala a boca , menino !
Deixa o rapaz cochilar – trovejou ao meu lado , a mulher de lenço.
Ajeito o bigode e enxugo o rosto na manga da camisa . A mãe , um olhar frio e doloroso feito facada . O garoto , matraca fechada e vez por outra , um olharzinho maroto para o rosto que parou de desmanchar-se.O sobe e desce do ônibus é interrompido pela voz anasalada que deu bom-dia e subiu no carro : um jovem capitão do Exército , cara suada de b e b ê johnson e olhinhos d e c a s c a v e l .C o t u r n o s brilhantes , seguidos por três soldados com cara de cachorro sem mãe , perdidos de arma na mão no meio do nada sobre quatro rodas , vindo em minha direção. Bebezão continuou a falar . Na mão , um cartaz com fotos de Terroristas Procurados.
_ Bom dia. Sou o Capitão Felisberto. Algum dos presentes viu ou conhece alguém daqui ? – aponta o cartaz, o dedo manicurado e lustroso. Um balançar de cabeças, um não generalizado, traz-me a respiração de volta . No olhar de serpente , o chocalho do ódio : - Olhem com cuidado...esse aqui ó, Carlos Borromeu Linhares , o Téo , pode estar por aí, por perto .Escapou fedendo, esse terrorista safado .Em São Paulo , jogou um fusca cheio de bomba num quartel , matando um sentinela de serviço. Olhem bem ! – o dedo lustroso cutucava a minha cara assustada da carteira de estudante.
Olhou os soldados, ordenou a descida ,saíram todos. Entraram num jipe , pegaram a estrada de Marabá. Brasil , ame – o ou deixe – o . Impossível, de tão simples. Mais duas horas de viagem e chegamos á Marabá. A parada do ônibus cheia de gente, em outras pessoas a mesma cara de enfado e tristeza nos adultos, a calma resignada dos velhos, dois gêmeos chupando picolé. Escafederam-se a minha companheira de assento e seu garoto. Nem sinal . Bem , e agora ? Sozinho, leve , muito leve,leve como a pluma, que fazer senão pensar ? Atravesso a rua poeirenta, entro no bar do Miguel e peço uma cachaça. No meio do gole, um voz anasalada e já familiar me ordena erguer as mãos.
Conto de André Albuquerque
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Marcio Rufino e a Dita
Dita
Quando eu nasci
A dita não era cuja
E sim dura.
Aos poucos ela foi fingindo que amolecia,
Mas algo embaixo ainda ardia.
Hoje a dureza da dita
Está escondida
Omitida
Embutida
Nas línguas
Nos sorrisos
Das titias da política
Nos bons-sensos dos patrões
Na proteção de alguns falsos guardiões.
Que a gente supere
A sopa amarga;
O dinossauro na pele de sapo
Que a gente tem que engolir.
Todo o poema engavetado
Pelo dedo decepado,
Mas ainda em riste
Levantado pela dureza triste
Da dita.
Marcio Rufino
ensaio das indefinições
o poeta é qualquer coisa
que se move
seta
pedra
para-quedas
paralelepípedo
o poeta é fogo ou algo
que se bole
mato
visgo
bússola
aneurisma
o poeta é tudo quanto
faz faísca
risco
seixos
anagrama
luz do sol
o poeta é tudo
quantas voltas
se lhe dê
vida
morte
sombra
luz
copo de coca-cola
ferida cheia de pus
esconderijo
abrigo repulsa
e nada do que digo
o poeta
é doença
o poema
é úlcera.
Poema de Caíto
segunda-feira, 21 de maio de 2012
[...e como sinto o vento que insiste
…
e como sinto o vento que insiste em levitar-me pelas falésias acamadas como núvens escuras dispersas,
e como sinto o vento tocando-me na face
pelo sorriso desta manhã adormecido,
adormeceram-se as longas distâncias,
adormeceram-se as longas histórias,
adormeceram-se as súplicas.
E como sinto o vento que insiste em repetir-se levemente,
como um linho que me toca,
qual algodão,
e como sinto o vento espraiando-se pela claridade
nesta terra castanha escura que piso,
como o sinto.
Reluzem as pegadas que o vento não levou,
o que restou do amor, talvez,
que as monções resistam nas tatuagens eternas do mar,
que a memória resista como o vento que insiste,
insiste,
ah... como insiste o vento em levitar-me de mim.
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
domingo, 20 de maio de 2012
caso não haja depois
pode entrar como um grande soco de nocaute ou invadir com delicadeza todas as horas, todos os dias. ofereça seu ombro à minha sombra, afugente, me faça sentir sua falta, que transporto na memória nossos dias, vingo- me. banhe-me com surpresas, solidão e uma caneta que crie caminhos inesgotáveis, entardeça em uma igreja, rapte-me como se fosse o Mississipi, ferindo-me com as coisas que disse, faça promessas de flores, enlouqueça a realidade. cultive as pétalas que caem no sopé das montanhas. Seja um apache em meu coração, nunca se renda. aprendi a comer espinhos, tocar as ondas, mover-me como o vento, alçar voo, pega-ló através da neblina. encha o peito de bordados, ruas, praças, fogo, água. enquanto estiver dentro da sua cabeça, caso não haja depois, cuide da minha vida como se o cabelo sem a pele pudesse se quebrar...
Autor: Vânia Lopez
cá entre nós
devidamente penteada
maquiada e bem vestida
um bom salto para dar moral
(de primeira necessidade)
dou uma geral no quarto
abro a janela para ventilar
(saio) pronta para me tornar amiga de infância
da atual do meu ex
felicidade maior que o ser humano pode sentir!
(só quem tem ex pode entender)
já não tem a menor importância (verdade)
num rompante decido deixar a fome na África
Beethoven e Wagner proibidos
Vodca muita vodca, água nem pensar!
quero matar.
amizade com atual do ex?!
é como futuro: não chaga nunca!
beira a desumanidade...
(é pouco provável, mas nunca se sabe)
tão mais simpático olho por olho...
misturando “você” com “tu”
chego perto e sussurro: “vadia” (fica divino)
junto os flanelinhas para te chamar de tia
numa questão de bom gosto
indico uma dieta da lua
numa fazenda ao sul do Afeganistão
(dificilmente vai encontrar uma vaga para estacionar)
oro com força para que ela permaneça nos 34
com cara de 100...
no dia seguinte mando um bilhetinho:
“amiga, se no pileque fiquei estranha, esqueça!
foi tudo para facilitar... tive medo de você cair
quebrar uma perna. esse sofrimento não tem explicação...
antes eu do que você. (juro)”
com tal convicção que até eu mesma acredito!
(aprendam) fica mais barato e não se perde o ex!
cá entre nós (Deus):
Elegância é isso, gente!
fico esperneando de alegria...
e não se fala mais no assunto.
Poema de Vânia Lopez
Ah, é?
num quase-silencio
juntei aquela saia preta justa
de causar reboliço quando passa
o ursinho de vítima de terrorista
mas o que mais dói é a jaqueta di-vi-na
(de contrabando)
o sobretudo bordado por criancinhas da Indochina
a camiseta de passeata pela paz
o óculos finíssimo de camelô
a meia extremamente extravagante
que tu comprou na loja da esquina
rasguei (todas) as nossas fotos que atravancavam o PC
a tua amor, limpei com saliva
mais redonda que cachaça, desapeguei de tudo!
não pergunte por quê...
(puro atraso de vida)
consegui colocar tudo na bolsa importada de Marrakesh
bíblia, terço, jejum, o Corão
naquela bolsa companheira de tantas aventuras
que a alça não caí e o zíper não emperra
tudo na mais perfeita ordem
nesse dia coloquei meu vestido mais sexy
(de ressaca) enviei um buquê de lírios-de-santa-rita
num míssil de generosidade
doei tudo para um bazar de (ex)
com dois tubos de cola
entupi as fechaduras do bazar...
e tome vingança.
esse tipo de vingança é um verdadeiro primor,
(a ser aperfeiçoado, se for o caso)
(vingança) dedicada às bonitinhas
que se engraçam com ex-namorado
... que elas prescrevam (todas)
Glória essa que saberei agradecer ouvindo Vivaldi
(coro) gentilmente Amém!
Poema de Vânia Lopez
sábado, 19 de maio de 2012
da mão ao verso em ciclo eterno
as mãos são versos:
nasceram
versos,
gestos,
gostos,
gritos
sem valor;
pousam
e pesam
sobre os olhos...
tornam-se agudas,
(tornam-se grito)
tornam-se mudas
(tornam-se mito):
nada posso dizer
(criticá-las)
se elas querem
vôo,
malas
se preferem
vidros,
vultos
se me têm nas mãos,
ventres.
Poema de Caíto
sexta-feira, 18 de maio de 2012
me venha sem saber... (ou) antes de ir, venha cá!
talvez eu seja só uma menina
com os pés entrelaçados na meia soquete
que na saída da escola
diminuí dois dedos da saia
acariciando um sonho ou dois dentro do uniforme
tentando esticar o braço e tocar a lua
que ainda deita na sua cama
e acha o melhor lugar do mundo
orando baixinho pelos cantos dos cafés pintados de dourado
deixando em paz à noite
de pileque no carro
com o vestido vermelho vibrante
um par de sapatos de couro
esperando um flagrante
mas se Deus, ao invés de me dar o inferno
fique aguardando minha chegada
eu prometo de qualquer maneira
a partir de amanhã
não passarei mais na sua rua...
antes de entrar em casa
que a sombra alinhe meus cabelos
enquanto ainda não é mentira
(amor, meu ex-grande amor)
quem sabe eu seja só uma menina...
Poema de Vânia Lopez
quarta-feira, 16 de maio de 2012
terça-feira, 15 de maio de 2012
[despojam-se algumas estrelas...
…
despojam-se algumas estrelas dos fátuos brilhos,
que celestes sejam as ténues cores,
que os olhares
se quebrem silenciosos pelas teclas de um piano com cauda.
Ficará um, ou ficarão outros pontos
envolvidos pelo breve nevoeiro nenhures,
pensar-se-à então na imensidão de todos,
e os que rastejam [como serpentes, que sejam],
içar-se-ão contemplando os ecos que restarão das pedras angulares
despidas de tijolos.
Ao longe um breve azul colora as copas
que cobrem a floresta,
azul mar, azul céu, apenas azul,
que interessa
se os sinos já não tocam
anunciando as meias horas. Despojam-se alguns homens e mulheres da pele que os sufoca nos areais ainda em rocha,
esquece-se o tempo,
os corpos, o teu e o meu,
deixaram o espaço,
[desamarraram-se, desamaram-se]
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
sábado, 12 de maio de 2012
[Finalmente]
(que o vulcão irrompa rápido...)
…
I
que se terminem as saudades, os rios, e
que o mar seja chão de terra,
que o silêncio seja buraco negro no meio de nenhures
onde a luz é um fio de linho sem cor.
Renascam novamente as orquideas, os cravos vermelhos,
e que as pétalas sejam doces como o mel,
os pássaros que encontrem poisos nas árvores perfumadas em ilhas escondidas pelo poente do sol.
Que o circulo termine em fogo de artificio,
jamais num breve fogo-fátuo,
e,
se a terra parar por um instante que seja,
que os deuses a rodopiem como o pião das crianças.
…
II
[Finalmente]
descansam os ventos alisios no sopé de uma montanha que pariu
o rio em dor,
ininterruptos os ecos que se repetem, estranha
a noite que não termina, mas que terá um fim,
reina um luar enevoado, adormecem as flores nos vasos,
na terra,
talvez cantem algures algumas sereias desapaixonadamente,
e os olhares fixam outros olhares mais perto,
partirei, sim, partirei
com a primeira maré do amanhecer.
[Que seja finalmente, que seja, que se cumpra o ciclo dos ventos, das primaveras, de mim, talvez de ti meu amor, jamais o saberei, que o vulcão irrompa, finalmente].
Poema de Ricardo Pocinho
quinta-feira, 10 de maio de 2012
As Gôndolas nas grandes luas de Plutão
Há quem
te veja presa ao anoitecer dos ramos:
os relâmpagos vão a escrever nos rosários,
quando se despenham até às novas tabernas
no centro de uma nuvem.
Há quem te veja presa
ao anoitecer dos ramos: perde-me outra vez,
hoje, suavemente, perde-me os teus
copos de lagos frágeis ou um altar
de mães nestas estações rápidas;
se fores pelos rios, verás o tardio Junho
numa noite de casas, a dele, a nossa, uma
estrela agarrada a um ramo quase a
desfazer-se, luminosa, sobre
a noite
Poema de Francisco Eugênio Seixas Trigo
quarta-feira, 9 de maio de 2012
(minha alma é um rio de nuvens para quando suas lágrimas vierem cair)
sou como um barco em silencio
lentamente me abandonando
nesse mundo de meu peito
inala navalhas
encarando os espelhos
como uma lembrança do jardim
colada em minha pele
uma roupa que não me segue mais
noites e cercas
mar que não volta... leve minha voz!
como sol no quintal
em seu todo e suas formas
minha alma é feita de areia
corre atrás da bola
atravessa seu inferno
como quem colhe estrelas
sob a luz do teu cigarro
ouça o vento que arrebenta suas correntes!
em um poema branco leve minha vida
pois minha alma é como um veneno delicado
onde o sangue teme o ar fresco (da sombra)
tanto quanto como quando você apareceu
(em meus olhos...)
Poema de Vânia Lopez
domingo, 6 de maio de 2012
anjos
tenho os meus pulsos
cortados por anjos
não me resta nada
a não ser esperar
a chegada da morte
refreando meus impulsos
anjos não tem culpa
das culpas da minha vida
esfarrapadas em desculpas
cerzidas entre meus pulsos
anjos não sentem raiva
anjos não sentem ciúme
anjos não sentem sangue
nem sentem o gosto do meu
anjos não devem desculpas
pelas tantas penas que trago
minha dor sangrada e oculta
anjos não causam estragos
anjos são feitos de éter
anjos são feitos de luz
anjos são quase etéreos
anjos serão minha cruz
anjos não pedem socorro
agem sempre com honradez
me pergunto enquanto morro
serei eu anjo alguma vez?
nos domínios dos demônios
sou mais um em suas hostes
não sou casto como os anjos
minha iluminação vem de postes.
Poema de Caíto
sábado, 5 de maio de 2012
as velas
I
fala-me dos nenúfares que as núvens
cobrem,
nos barcos naufragados em terra onde nasceram flores silvestres,
das cores soltas pelo pôr-do-sol
que levantam alguns ventos sem direção,
escondem-se outros.
[Ou...],
nessas palavras em que o verso grita sem destino,
aurora seja,
ou...
qual a cor do amar[?]. Pinta-o numa parede em ruínas,
eu,
II
as velas
libertam-se dos mastros de carvalho, regressam com as migrações
das aves,
liberta-me de mim,
e envolve-me o olhar cansado, arrastado-o como num tango em circulos,
os passos tocam-se levemente,
apenas levemente.
Sabes, eu nunca esqueci
porque sonhava naquelas noites com o mar,
era-me maremoto sem as margens que oprimiam, delimitavam.
Liberta de mim o mar que ainda me restou.
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
quinta-feira, 3 de maio de 2012
saudade
I
desaguarei não como um rio
que jamais termina [...] nem pensamento,
como um mar, sim,
desaguarei como esse mar,
um desaguar repentino, violento,
[no teu colo],
e mesmo que não me sossegue
abrevia a distância em mim de nós.
Soltam-se as missangas que enfeitam os pulsos outrora cortados,
cicatrizes que a pele guarda,
ancoro-me num areal desconhecido.
II
saudade
não como o destino das viagens ou da pele que seca,
senta-te bem perto, lê-me o fado nas linhas da mão,
não ligues à linha da vida, fala-me do amanhã,
de algum ou outro sonho impossível, possível,
engana-me com o amar, jamais com o mar,
e no compasso dos pontos cardeais já apagados,
delimita as latitudes que as longitudes fiquem.
Horizontes sem as cataratas que imaginei,
sempre o saberei,
que os ventos despenteiam o mar em espuma esqueço-me,
o olhar fica-me sempre aprisionado
na dança das baleias
que ladeiam o barco que range.
Soltam-se as velas.
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
quarta-feira, 2 de maio de 2012
flui a saudade em minha boca
sem você a vida voa de galho em galho
sorri o dia a desfolhar-se na hora incerta
... esperando por nada
Uma coleção de arranhões das horas
marimbondos girando ao redor de um copo de vinho
este cantar como ramificações de um rio, de tantos lábios
dando de comer, de beber
acolhido em minha mesa
as noites nada negam
exceto quando chuvisca
e as folhas esvoaçam
as lágrimas escorregam das nuvens
umedecem sua sombra
caem vencidas...
entre o olhar e a soleira da porta
Poema de Vânia Lopez
terça-feira, 1 de maio de 2012
segunda-feira, 30 de abril de 2012
do dia
I
das lágrimas, se dizem purificadoras
por serem salgadas,
serão os sete mares
todos os choros da terra?
Sei que,
onde se esconde a noite tapam-se alguns pirilampos
prisioneiros da luz,
sei que,
a noite esconde os olhares das sombras,
algumas escondem-se
delas próprias para sempre, jamais saberei se os lirios trocam entre si as poesias,
onde tantas as vezes os referi.
II
do dia onde encontro a tua nudez,
vingam-se as noites em chuva,
apagando as velas que restam
e na sedição que sempre revelou,
esconde aqueles cometas que um dia viamos
por entre as nuvens transparentes.
Ficam-me os sabores dos seculos que se eternizam
pelo mar onde me navego
e ao longe avisto a ilha deserta que sempre procurei,
uma noite,
miragem, direi,
no centro da tempestade, sou.
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
domingo, 29 de abril de 2012
pedras e céu
da minha janela
os pássaros vão desenhando nuvens
o tempo em seu afligir destelha o céu
como se sonho tivesse prazo
aquele beijo que não voou
pia na janela toda manhã
... vai falando de mim
desfolha-me até o espinho
no labirinto de outro peito
a tudo diz esquecer
perde-me entre dias perfumados
tecem ventos com mãos em concha
ao som da tua voz contornando
(tantas) asas aos lábios...
Poema de Vânia Lopez
Um peixe chamado Zé
Zé peixe
Dos ocenaos
Um sergipaninho
Danadinho
De tinhoso
Teimoso
Era peixe
Mais que um peixe
Peixe
Gente
Passáro
Porque sabia voar
Alem ceus
Alem mar
Por todo gigantismo
Era preciso
Saber dançar com golfinhos
Namorar as sereias
Ser interprete
Dos segredos oceânicos
Um pingo de gente
Que só ele
Tinha a chave do desconhecido
Lançando desafios
Ao singrar outros quantos
Mares e rios
De águas revoltas
Porque nadar
Pra Zé Peixe
Era pouco
Voar também
Era preciso
Descobrir novas minas
Águas salgadas
Doces e cristalinas
Mais que se navegue
Pro belo da vida
Descortinar outros mares
Nunca dantes navegado
Assim foi Zé
Um mestre
Um rei dos rios
Dos oceanos
Achava pouco ser peixe
Desejava ter asas
Por isso nadava contra a corrente
Do velho Sergipe
Rumo ao gigante oceano
Em busca das profundezas
Do sem fim
Sem limite de sonhar
Vento forte
Ondas fortes
Os abraçavam
Pra suportar
Tamanha aventura
Por tão franzino biótipo
Que nada de embarcações
Cada nadada
Descortinavas novos dasafios
Rumo ao horizonte
De navios e barcos
Que mais seguros
Poderiam navegar
E chegar
Além-mar
E o velho marinheiro
Á quem chamavam
De Zé
E era mesmo zé
Mais um Zé Peixe
Parecido os mais fortes
Ferozes tubarões
Nada disso
Um simples golfinho
Conhecedor profundo
Dos segredos do tenebroso
Zé pequeninho
Franzidinho
Contudo
Um senhor marinheiro
De nadadas largas
Rasas e profundas
Rumo ao mundo dos oceanos
Seu nome ganhou fama
Viajou pelo mundo
Virou textos e livros
Feito bem-te-vi
Voou alto
Não satisfeito com feitos
As peripécias por aqui
Desafiar Cielo
Xuxa em nado
Pra que
No alto dos oitenta
Atravessar a costa inteira
Foi coisa pequena
Zé Peixe
Figura popular
Solitária
Lendária
O mar foi pequeno
Pra um gigante navegante
Era mesmo um peixe
Que precisou outros áquarios
Largo e profundo
Pra bem mergulhar
pois tinha que flutuar
Remar contra tudo
E todos
Águas mornas
Frias e serenas
Mais poluídas
Driblar intempéries
Instabilidades das ondas
Do tempo
Rumo ao infinito dos céus
Era preciso
Procurava ser estrela guia
Pro visitante desconhecido
Dia e noite
Noite e dia
Brincando com outros astros
Fez-se gigante navegante
Por quem todos deverão
Aplaudir
E venerar
Seu agir e exemplo
De lição de vida
Mesmo que navegar
Nem seja preciso
Poema de Lizaldo Vieira
sábado, 28 de abril de 2012
Velho tema
Não sei se seguro
Areia ou figura.
Não sei se teus braços
Terei sempre assim:
Abertos, erguidos
Pedindo-me um abraço.
Não sei até quando
Terás no teu rosto
A frágil candura
Que o tempo desnuda,
Arranca e fratura.
Tormentas se formam
E agravam meu medo
De cedo perder-te,
De ver-te tragado
Por frio lajedo,
De ver-te levado
De mim, indefeso,
Tão súbito e quedo.
E embora te veja
Brincando e saltando
As ondas e a espuma
Que beijam teus pés,
Eu sinto, aziago,
As noite e brumas
Que logo virão,
Eu sinto pressagos
Os corpos de agora,
Que logo teremos
O mesmo destino
Das vidas de outrora.
Por isso não sei
Se areia ou figura
Seguro não mãos,
Por quais desventuras
Enfim passarei,
Por quantos extremos
Nós dois passaremos,
Se a paz do teu riso
Com que me jubilo
Será sempre um hino
Tangendo meus dias.
Por isso não sei
Se todo o meu zelo
Não passa de apelo
Que não vai deter
Teus louros cabelos,
O rosto e a figura
Da vã carnadura
Dos nossos momentos.
És folhas ao vento!
A imagem no espelho
Na qual deixarei
Meu lábio, meu beijo,
O fundo desejo
De em mim te reter,
Teimando suster,
Quimera, loucura,
A areia e a figura
Que eu hoje seguro.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
sexta-feira, 27 de abril de 2012
"ontem"
alheio veto(..em têrmo precedente)
casual demanda. de interesse(mútuo?)
pecado refém(e mantido!)
à demonstração incólume
à preferência e o controle
eu..
já eu nem sei a que me denotar..
(tardio, tardio..)
oh,
liberdade por decisão abstracta
das.
(minhas)linhas inteiras de ti..
às minhas preces
às minhas colheitas de febres
e
ainda,
é carta..
(é causa.)
- ferve!!
..
não te detém o crime simples
nem à terça parte do espaço em lapso que te há
uma. cena duvidosa por um pacto desfeito
e,
não te vêem em ilícito olho nú
não te controlam à marca da agulha
qual presença e qual história..
qual desvio.
império de mim.
..
vai.. é a tua trégua dos sonhos preferidos e meus
vai e te livra em assoalho dos desenhos que te fiz
me condena em fúria por um fogo que nao te ardeu
me denomina. ao predicado lugar em letra(fria) e giz
renega a frente do meu nome.. cai à minha esquerda
entrega à linha e partitura um erro crasso que despertou
ainda que te sonhem à alvorada, é sempre chama acesa
ainda que te consuma.. vai e nao olhe pra tras, meu amor..
deito este conto voraz.. à quimera passageira e carta-final
eu.. despeço-me da noite que nao te é, nao te faz ou vê
eu.. entendo-te! são os teus pecados fixos em água que te crê
eu sou a lâmina de todos os dias desiguais, um acto de frente
eu desfio a minha tragédia que te qualifica longe e lado poente
então.. é esta! a tola lápide do teu nome criado: um teatro-carnal
eu..
já nem sei o que te colhe
(eu nao pretendo esperar e ver!)
porque eu..
já nem acredito nestas chamas
eu.
nao me lembro de você..
..hoje.
Poema de Azke
descobre-nos
I
quero-me em tantos eus
que por vezes os esqueço,
e quando os reencontro já não os conheço
ignoro-os,
nesta
ignota viagem que queima a pele
ainda por sarar,
descobertas direi
nesta imensidão que o olhar já não abrange,
e,
quando me sento no meio de mim,
fala-me o eu que eu sempre serei.
descansam os outros.
II
descobre-nos,
descobre-nos no meio das orquídeas
que o nevoeiro escondeu
como se não existissemos, apenas sussurros
incompletos, repetidos.
e mesmo que invisiveis fiquemos na terra onde regressámos,
ficarão sempre as saudades
do dia em que partimos.
Ricardo Pocinho (Transversal)
quarta-feira, 25 de abril de 2012
(e como eram bonitos os cravos vermelhos de abril)
Das certezas que deixei ancoradas
no algures do tempo,
vogaram algumas folhas de plátano
completando o circulo de todas as estações,
das certezas não tive saudades,
ou senti sequer falta,
tudo se modifica, tudo se altera,
mesmo brevemente que seja,
do tempo, nesse algures indefinido,
sim, e do areal também.
Mesmo que o mar tudo cubra nessas
revoltas constantes,
nessas idas e vindas,
mesmo sem o virar de costas ao olhar,
finco-me sem oscilar, enraizo-me
nas rochas como o albatroz cansado
se esconde da tempestade que o fustiga.
E esqueço o nevoeiro,
e esqueço-me, e rio-me do plátano, do arco-íris, das certezas, do mar, do areal, do albatroz, e do nevoeiro que cobre a espuma das ondas.
Afinal, nem o poema tem a certeza nas palavras,
nem a magia do coração que concentra o ritmo,
tantas as viagens com que nos brinda, brindará[?]
Brindemos então, e o vinho que inunde a mesa,
que escorra pelo soalho de madeira que range,
que regue os cravos de abril que jamais cresceram no algures indefinido do tempo mesmo que as saudades os provoquem.
E como eram bonitos os cravos vermelhos de abril,
termino assim:
das certezas que deixei ancoradas
no algures do tempo,
vogaram algumas pétalas de cravos vermelhos de abril
completando o circulo de todas as estações,
e mesmo que nesse dia no algures do tempo, chovesse,
e se gritassem vivas aos vivos, e a alguns que se despediram a lutar, poucas as certezas restaram,
saudades, sim, sempre as terei,
que os cravos vermelhos de abril ressuscitem hoje,
que se completem todas as cores em arco-íris,
finalmente.
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
terça-feira, 24 de abril de 2012
carnação da canção
choro, me recusando;
o passado não esconde,
o tempo me indaga onde,
o lugar questiona quando.
velando, chamo: não venho.
aos duelos contra a parede,
meu pesadelo franze o cenho.
essa manhã me traz mais sede;
a tez da água em que me banho
torna-se, ao toque, mais clara.
lavo o rosto em frente ao sonho,
mas o olhar d'água não se separa.
a cada jorro o sorriso me escorre,
outro morre num verso que componho.
era feliz antes do sonho moribundo:
lágrimas novas, velhas conversas,
e o mar que sou vai mais bravio
às vontades as mais dispersas.
eu tenho pressa e não afundo
meu sonho em nenhum navio;
essa nau, recolho logo
e meu sonho, sombrio,
levo à água e afogo.
Poema de Caíto
Inspirado no poema "Canção" de Cecília Meireles.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
em flor
I
não sei se calarei a minha voz ou o eco,
cego o ego
pergunto-me se.
Se me envolveste mesmo no sonho
de ontem,
se o respirar era o teu?
Das flores do azevinho que deixaste
esquecidas pelo inverno passado,
ressuscitaram,
enraizadas nos corais amarelos que plantei no soalho de madeira
onde adormeciamos pela aurora.
II
em flor
da flor branca da orquidea
que o vento transporta em pétala,
migram ao longe
rios até ao mar,
cansam-se as tágides do tufão
que as empurra
como barcos à deriva perto de bojadores sem farol.
Avisa-me quando a solidão chegar ao poema,
se a ode entretanto se afundar
liberta as borboletas azuis
que ficaram aprisionadas pelo mar,
e procura-me no areal que aquela noite
deixou a descoberto,
descobre-nos.
Autor: Transversal
domingo, 22 de abril de 2012
seu pudesse escolher o que você vai ler
... essa é uma carta pra ficar
esteve muda o tempo todo
nem fria nem indiferente
uma afronta, apelo, aflição
sem dar um pio por dias e noites
com a raiva de Deus em seus olhos
suas olheiras acetinam seu impasse
chora aos montes por tiros de festim
se alguma vez amou, foi você
meu viaduto de sol
... essa carta roe as unhas, fala alto
é feita de cálice, seu sangue vendeu tanto
impassível em agonia e êxtase
o pulso que surra não usa roupa alguma
ama a seco sua doce devastação
mas houve um tempo em que não havia
nada mais importante que sua risada
... essa carta açoita, sangra e assopra
pergunta pelo sal...
mexe com seus cabelos
despedaça o ponto final
pois sabe que seus olhos não hão de conseguir ir...
... é uma carta de ficar
como água nova nas manhãs
(grávida de ti)
Poema de Vânia Lopez
sábado, 21 de abril de 2012
embrulhou o silêncio ao remetente
deixou o bordado
citou Baudelaire
abordou o rímel com zelo
enquanto o batom ganhava cor na boca
deixou uma ilusãozinha revirando a esquina
cegou as unhas com um vermelho puro
demitiu a meia arrastão
como anjos dispensando a penitência
o espelho sorriu com um brilho de loba rouca
encheu de suspense o relógio
sem trégua derramou os segundos
confortou o perfume Frances entre os seios
desinteressadamente,
como se o corpo estivesse longe
inundou o decote com as costas nuas
o tornozelo ia e voltava dançando na tornozeleira
a música mandava na vontade
apertou a alma dentro do vestido
invadiu a noite
a madrugada não voltou pra casa
sereníssima da silva
(sumiu para sempre estar ao seu lado...)
Poema de Vânia Lopez
molécula de água
nas farpas do arame
pingos cristalizados
- em degelo - refrigeram
o olho de fogo
e
nos lisos do fio
- de alta tensão -
andorinhas ajuntadas
invernam no tempo invernado.
Poema de Edilson José
sexta-feira, 20 de abril de 2012
se sopra onde quer (ir)
quarta-feira, 18 de abril de 2012
[Ensina-me sobre os segredos do olhar de quem eu não esqueci]
enquanto tropeço,
afinal a terra parou,
o mar, destapa-se, esperguiça-se nesse algures,
esquece o horizonte
e fala-me dos silêncios,
dos silêncios.
E quantos mais mil anos de memórias terei de me relembrar para voltar nesse dia em preia-mar violenta?
Fala-me do amar, e navega-me até
onde a sede seca os cristais de sal
que o mar deixou esquecidos numa praia deserta,
navega-me até onde os pássaros
imitaram baleias nas migrações,
e voaram,
ou vogaram, tanto me faz.
Ensina-me e troca-me de novo o olhar,
mesmo que a terra se suspenda, se vire e revire,
ou adormeça,
que soprem ventos em remoinhos,
que se enfunem velas esburacadas,
enquanto empurro sem força algumas rochas que o mar esconde,
que me afundam,
que me obrigam a ficar,
que reste o branco das orquídeas que te ofereci um dia.
Ensina-me a regressar mesmo que a água encharque o barco,
e que as borboletas que morrem a voar
sejam enterrados no lado azul do céu.
Ensina-me a silenciar
todos os silêncios que me acordam todos os pesadelos.
Ensina-me sobre os segredos do olhar
de quem eu não esqueci.
Ensina-me.
Autor: Transversal
Amém
como girassóis pelo caminho
água contra a natureza
a primeira tragada da manhã
é pra você
toda palavra que voa
o pulso que treme
minha colheita de milho
tua alma canto baixinho
como pássaros na borda da veste
um punhado de beleza
que ronda o céu do seu peito
passo a vida com teu cheiro
para molhar meu bordado
de lembrar-te
num sentimento fino
do que quer ficar
enquanto você vai em tantos planos
na pausa da oração
... depois do amém
Poema de Vânia Lopez
sábado, 14 de abril de 2012
O dia da terra
A gente
Grita
E berra
Pra ver se alguém
Nessa terra
Se lembra de sonhar
Com um país equilibrado
Desenhando um outro rumo
Com futuro melhor para o Brasil
Pois sabemos
Desde pequenos
Que dinheiro não se come
Que não se vive
Sem água
Sem florestas
Sem biodiversidade preservada
Sem esperança
Sem respeitos aos povos
Que da natureza sobrevivem
Por quem lutam
Cabana e vinha
E por isso morrem
Zumbi
Chico Mndes
Serigi
Até quando ?
Belo Monte
Trans amozónica
Transposição do velho chico
E código florestal vil...
Até quando esse modelo de sociedade
Mercante
Picareta
Entreguista
Inbecil
Vai operar
Matar
Poluir
Desmatar
Salve 22 de abril
Zumbi
Chico mendes
Antônio Conselheiro
Salve Serigi
Povos e nações
Xocó
Yanomami
Xingu
Viva o filho do Brasil
Que não se rende
Que não se vende
Que não foge à luta
Poema de Lizaldo Vieira
sexta-feira, 13 de abril de 2012
[que reste apenaso bater de asas dos pássaros que regressam]
reavivam-se as cores que relembro do caleidoscópio,
enquanto anjos e arcanjos disputam o bater de asas
com os pássaros que regressaram pela primavera;
“- Um dia encontrarás o teu paraiso!”,
por entre os caminhos de pedra banhados pelo sol
que ataganta a pele,
por entre os trópicos onde o sal do mar
encarquilha o corpo,
[escrevi algures],
como se algum inferno viajasse pelas tatuagens
esculpidas na pele;
“- Sombras que ficaram!” dirias.
Sim, porque só o aroma a canela que se cheirava vindo de longe
não nos chegava, queriamos os cheiros das tulipas, do rosmaninho,
tocar a linha que o horizonte tapava com nevoeiros cerrados,
assim eram os equilibrios dos bojadores longinquos de ti ou de mim,
queriamos, oh... desejávamos.
Sinto a tua falta, sinto a falta
dos bojadores que tracejavam o luar refletido
como se tudo fosse acontecer, pudesse acontecer
um dia ou uma noite,
sinto falta do que já não te ouço pela noite infinda.
[Que implodam os paraísos, os infernos, os trópicos inventados pelas primaveras em repetidos equinócios,
canso-me, que implodam os anjos e os arcanjos também,
que reste apenas o bater de asas dos pássaros que regressam].
Sabes, não me choro,
a chuva não dá tréguas às cataratas deste mar
Autor: Transversal
(morra como se fosse a lua)
se afaste dos meus olhos
compre o ar
numa tigela cheia de montanhas
deixe as palavras morrendo
nas páginas de velhas revistas
ponha o rio confuso no olhar dos peixes
que nadam em minhas veias
dê sua alma em troca
das loucuras de última hora
{brote em cada galho de silêncio}
coloque Roma em chamas
entre sussurros, champanhe
e estrelas
deixe à vontade esticar a mão
e traga-o de volta
como se a lua brincasse
dentro dos sonhos.
sem cansaço e zelo
voe sobre meu corpo
como se fosse a noite
uma eternidade
no horizonte.
Poema de Vânia Lopez
segunda-feira, 9 de abril de 2012
[um dia quebrarei alguns ventos do norte]
silencia-me,
sim, silencia-me,
enquanto a alma se enfuna e voga
para além do mar, porque não afora
como se as margens não se avistassem [?],
e os faróis se desligassem pela passagem
de um cometa qualquer, ilumina-me a rota,
e mesmo que alguns barcos não resistam
a tantos remares,
repito-te nos gestos, sim,
diferenciando-os depois da pele rasgada,
trespassa-me com as mãos, que
um dia,
se enovelaram no meu corpo.
E não te escrevo sobre o amar,
sim, do amar que se encabrita
e extenua, debilita-me e foge,
sim, que tudo transforma de saudades,
até estes ventos norte que um dia quebrarei,
um dia serei.
E não te descrevo o mar,
sim, do mar que me adormeçe alguns nevoeiros,
que me reflete de dia,
mesmo imagens distorçidas nos oásis de nenúfares
que ficam no meio dos sargaços.
Querem-se os corais em cor,
encaminho-os pelas palavras que o silêncio escolheu sem compreender como são belos,
como se a beleza não me silenciasse sempre,
como se te renunciasse.
Acorda-me, silencia-me, enquanto os teus lábios procuram os meus, respira-me nos ventos norte que um dia quebrarei,
e serei um sopro,
e serei um gigante.
Autor: Transversal
sábado, 7 de abril de 2012
De volta para casa
Bocas desmaiadas,
De sono escancaradas,
Viajam de volta para casa
Avenida afora,
Enquanto
Cabeças pendidas,
Em sonolência contrita,
Dormem o sono dos justos,
Nessa hora
Que se prolonga
E devora
O resto do dia
E das horas.
II
Vogam,
Em meio a lixos
E detritos,
Antigos destroços
De outrora;
De viagens,
Tratados, ilhas
E tordesilhas,
De tantas linhas,
Faixas, buzinas e sirenes
Dos que voltam para casa
Infrenes e sem leme.
Vogam
Tiros,
Gritos e vozes
Em meio ao martírio
De quem morre anônimo
Sem nunca ter lutado
Contra mouros ou assírios.
Vogam
Santas cruzes
E arcabuzes
A perpetrarem
O vilipêndio
De missas
Estandartes,
E incêndios,
Dos massacres
Que catalogam
A cidade.
III
Tudo que é perene
É só mais uma forma
Do provisório
Neste empório
Que é a história.
Por isto este mar,
Há muito seco,
Embora infindo,
Que guarda seus ecos
E os endereços
Marítimos ou citadinos
De tantos vascos,
Marcos, pólos e gamas,
Zhengs, vicentes,
Pessanhas, janszs,
Mendonças, lischontens,
Nunes, nunos e homens,
Sem glória e sucesso
Que voltam para casa
De mares, bares e azares.
Por isto este mar,
De quem
Não conseguiu regressar
E que hoje,
Sem canto ou narrativa,
Retorna para casa,
À deriva,
Em meio a vagas
Que aportam,
Em chamas,
As frotas soçobradas,
Lâmina
Que aflige e inflige
A chaga escusa,
Ibero-americana,
De toda uma raça chacinada,
Os becos e logradouros
De ocaso,
Esquecimento e atraso
Que não encontram
Escoadouro.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
Ps: Poema modificado após ler o belíssimo poema "Um dia quebrarei alguns ventos do norte".
sexta-feira, 6 de abril de 2012
cala o bico ou calabouço
não vale um século calado;
não só ouça, não, pense-o
como sempre tivesse gritado.
cala o bico
ou calabouço
e acabou-se.
um poeta em pé de guerra,
de pé, e com mãos ao alto:
não chama deus, mas berra
flores, canhão ou asfalto.
cala o bico
ou calabouço
e acabou-se.
um poeta quase sem armas,
de arma, o punho febril;
sabendo, dos lados errados,
o lado errado de um fuzil.
cala o bico
ou calabouço
e acabou-se.
é entregue aos algozes
por gritar a voz alheia;
hoje grita só as vozes
nas celas de uma cadeia.
cala o bico
ou calabouço
e acabou-se.
um poeta sem vez, assombrado
por sombras próprias e luzes;
não crendo em outros pecados:
não outros, senão suas cruzes.
cala o bico
ou calabouço
e acabou-se.
tentaram calar-lhe o bico,
quiseram colar-lhe a boca,
mas ouve-se, do calabouço,
o eco da voz menos rouca.*
cala o bico
ou calabouço
e acabou-se.
escondem-se suas palavras
entre as frestas da prisão;
calava, e não mais se calam
as vozes, agora de libertação.
cala o bico
ou calabouço
e acabou-se.
grita aquilo que lhe arde,
pede às guerras, paz e voz;
e outros tons unem-se à voz,
gritando em coro: liberdade!
calou o bico
o calabouço
e acabou-se.
inspirado nas histórias do José Silveira
e do Julio Saraiva,
em conversas com a Punkita, num trecho deste poema
e no poema Minutos de Silêncio.
inspirado também na música
Calabouço, do Sérgio Ricardo
e na música
Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores,
do Geraldo Vandré.
inspirado por tantas histórias de anônimos que sofreram
e sofrem por conta da ditadura militar no Brasil.
perfil do José Silveira
perfil do Julio Saraiva
perfil da Punkita
___________
Autor: Caíto
quinta-feira, 5 de abril de 2012
O Erro de Português
Achei, achei, achei!!!
Um erro de português!
Um erro de português!
Não o da escravidão negra
Que aflora outrora
Apagando a cor da aurora.
E dirá o teu patrão
Isso não é hora
de falar no assunto
Não é questão de classe
Aumenta o volume da Televisão.
Fabiano Soares
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Mauro & Maurício
Tocou a campainha e Mauro foi atender ensaiando o discurso de descompostura. Ao abrir a porta encontrou a filha acompanhada de um belo rapaz. Séria. Decidida. Tragicamente decidida. O rapaz constrangedoramente simpático.
- Oi pai! Esse aqui é o Fábio, meu namorado!
- Isso são horas? Perguntou Mauro fatalista.
- Eu posso explicar, seu Mauro. Posso entrar? – Fábio perguntava, argumentava amendrontado, mas firme.
Mauro permitiu. Bom e generoso como era, não era homem de extravasar sua raiva sem antes ouvir as justificativas do objeto de sua ira. Depois de entrar, os três se sentaram. Barbara e fàbio falaram sobre o culto da igreja. Sobre a esticadinha até a pizzaria mais próxima. Sobre o bate-papo que mascarava o amasso e a pegação. Era a primeira vez que Mauro via Fábio em sua vida e o rapaz lhe lembrava algo ou alguém que ele não sabia e no fundo nem queria saber o que nem quem, pois pressentia que era uma coisa muito dolorosa. Em seu papel de pai severo que quer saber com quem a filha anda, ousou perguntalhe o sobrenome.
- Vezzani! – Respondeu Fábio solícito. – Fábio Vezzani. Sou filho de Maurício Vezzani. Ele é um cirurgião super famoso. Conhece?
Mauro preferiria morrer a ter que escutar aquilo. Aquelas palavras eram várias facas a lhe perfurar os tímpanos e o coração; e invadiro os olhos e a alma sem dó nem piedade.
- Já ouvi falar por alto! – Sua boca respondia pesada e mórbida como a boca de um zumbi.
Barbara tomou a palavra:
-Já tá tarde e eu vou levar o Fábio até o portão, pai. Até daqui a pouquinho.
Mauro não respondia. Seus olhos estavam tristes, distantes, imprecisos, longíquos. Quando Barbara fechou a porta, amesma foi arrombada pelo passado dentro das lembranças do dono da casa em imagens cruéis e torturadoras. Sim. O nome Maurício Vezzani era um nome que lhe soava aos ouvidos com a mesma força apaixonadamente malígna de uma ameaça alienígena.
Se viu aos treze anos na quadra de esportes da escola. Era ótimo no handebol e fazia muito sucesso com as meninas, mas era fiel à sua namoradinha Raquel da mesma idade – pois a mulher sempre defende o homem de si mesmo nos mistérios nefastos da vida. Foi com os amigos pegar a bola que já estava reservada para eles. Mas a turma do primeiro ano do segundo grau já havia pegado a bola. Eles que eram do sétimo ano ginasial foram tomar satisfação com o líder da turma. Quem tinha que estar a frente era o líder Mauro. Chegaram na quadra e o líder do grupo que estava sobre o domínio da bola estava de costas dando as devidas instruções ao time. Bastou Mauro tocar em seu ombro para ele se voltar bem lentamente. Perguntou-lhe o nome antes de reivindicar a bola.
- Me chamo Maurício Vezzani.
Sim. Era a primeira vez que Mauro e Maurício estavam frente a frente. Mauro ficou pertubado com os olhos de Maurício. Olhos de quem era embiagado pela vida. E melifluamente se sentiu vampirizado. Maurício lhe propôs uma partida. Seus times jogariam um contra o outro. Partida feita. Jogo empatado. Zero a zero.
- Vamos jogar um vídeo-game lá em casa? – Maurício era pertinente em seu convite a Mauro. Meus pais estão viajando. Não tem ninguém pra encher o saco.
Mauro sabia que ao aceitar esses e outros convites jamais seria o mesmo; mas quando o clamor dos sentidos grita na veia, ele impele e incita algumas pessoas a fazer o emocional e não o convencional. Aceitou estes e outros convites. Quando chegavam ambos sabiam que não existiria vídeo-game. Existiria sim: o desejo pagão de dois jovens da antigüidade; o amor profano de dois sacerdotes de um deus da colheita; a explosão do gozo maldito; a chuva de sêmem a inundar a cama, as paredes e o chão do quarto de um adolescente; e finalmente, a paz clandestina dos amantes undergrounds.
E foi sendo sempre assim por mais ou menos dez anos. Até que a mãe de Maurício, dona Irma, descobriu tudo. No seu semblante tranqüilo e carismático de uma aparente resignação, fingiu aceitar em sua paz cristã de mulher religiosa. Mas ao se descobrir traída pelo marido, fez questão de visitar a amante do companheiro e lhe intimar:
- Você vai me ajudar a acabar com uma certa palhaçada!
A amante mudou de papel. Foi incubida de abandonar o pai e seduzir o filho. Em seu período fértil foi apresentada a Maurício. Bela e sensual como era não foi difícil levar o jovem para a cama. Engravidou.
No terceiro mês de gravidez foi junto com dona Irma fazer uma visita a Mauro. A mãe de Maurício tomou a palavra:
- Está vendo esta moça ao meu lado, Mauro? Ela está grávida do meu filho Maurício. Agora sim. Meu filho pode ser todo seu; pois por mais que vocês se gostem, jamais terão esse prazer de ver os traços de vocês dois correndo, pulando, rindo, chorando, crescendo em um ser. Jamais vão ver a continuação disso aí que vocês chamam de amor pulsando na vida de uma pessoa.
Mauro não precisava estar passndo por aquilo. Sabia que seu relacionamento com Maurício não seria eterno e enm queria que o fosse. Sabia que Maurício gostava de meninas também e sempre respeitou, pois ele também não as ignorava por completo. Como toda coisa que não é provocada e sim acontecida, não deveria haver acusações, nem condenações , nem punições. Não merecia sentir aquela dor ao ter a gravidez daquela moça que nunca havia visto antes jogada em sua cara. Não merecia descobrir de forma assim tão violenta que o caso entre ele e Maurício era mais forte do que ele pensava; e por isso incomodava.
Aquelas palavras além de machucar o enlouqueceram com perversa doçura. Se sentiu despencando em um abismo escuro e fétido que o destituía de sua identidade. Enchendo-se de vergonha e culpa, nunca mais quis ver Maurício em sua frente. Passou a se vestir de mulher. Não tomava mais banho. Falava sozinho pelas ruas. Se alimentava das oferendas das encruzilhadas. Se feria propositalemnte com gilete. Mas Raquel, a antiga namorada, voltou a cruzar seu caminho; e apaixonada estendeu-lhe a mão – curando sua alma machucada. Levou-o para a igreja e lá se casaram. Raquel engravidou e, doente, morreu do parto da filhinha Barbara – que nasceu linda, forte, saudável. Mauro criou sozinho a filha sendo pai e mãe; melhor amigo e professor; psicólogo e confidente. Barbara era uma luz em sua vida e sua existência lhe dava um novo e maravilhoso significado.
Agora estava ali naquela sala, olhando para aquela porta restaurada pelo memos passado que lhe trazia de volta ao presente.
- Ele já foi! – Disse Barbara entrando receosa.
Mauro foi incisivo:
- Não quero que você veja este rapaz novamente.
- Eu tô grávida! – Barbara respondia com uma gota de lágrima a lhe cair do olho esquerdo.
- Sua louca! – Mauro gritou desferindo-lhe uma sonora bofetada.
Barbara correu a se trancar no quarto, se debulhando entre gritos e lágrimas. Nunca o pai havia lhe encostado um dedo sequer. Sempre fora o mais compreensivo, carinhoso e compassivo nas mais sérias travessuras e peripécias da filha. A moça sofria. Conheceu Fábio três anos antes na festinha da igreja. Depois se descobriram matriculados na mesma escola durante uma partida de handebol meninos versus meninas. Na festinha da escola deram o primeiro beijo, passando a namorar escondido logo em seguida. O período de namoro às escondidas foi delicioso. Aquele mundo maoroso era só dos dois. Nenhum parente, nenhum amigo a pertubar-lhes a paz secreta dos amantes. Mas tudo cresce a tal ponto de se tornar insuportável. É quando entra o sexo. Desmaiou numa aula de Educação Física. Na hora de pegar o resultado com o médico quis desaparecer. Ainda nem conhecia a família de Fábio. Já estava no segundo mês de gravidez e apesar de não esperar uma reação tão violenta do pai, já pressentia que ele não gostaria nada nada daquilo. O único fato que lhe salvava de uma possível tentativa de suicídio era a alegre surpresa de ter visto nos olhos do namorado a felicidade e ternura em se saber futuro papai, apesar de tão jovem. Se sentia fortalecida.
Fábio contou tudo para sua melhor amiga confidente, a avó dona Irma. A velha senhora ficou radiante em se saber futura bisavó. Ainda não conhecia a moça, nem sua família, mas já amava a todos por ajudarem a aumentar seu clã. Sua prole se perpetuava de forma sublime. “E só em imaginar que aquele veadinho sonso e nojento do Mauro quase destruiu isso tudo ao seduzir o meu Mauricinho”. Pensava ela em seus botões de seda. “ Mas graças à Deus aquele lá já se foi. Deve ter morrido de aids a uma altura dessas”.
Fábio levou Barbara para morar com ele no casarão dos Vezzani. Mauro não esboçou nenhuma reação. Apático, impotente deixou a filha ir com o pai do filho que esperava feliz, amendrontada, tensa, esperançosa. Em seu sofrimento de avô que não estava preparado para aquele neto, ele ruminava medos apreensões, recalques e solidões de uma vida toda de fuga de si mesmo. Sabia que jamais poderia matar o passado, mas poderia sufocá-lo como fazia desde a morte de Raquel e do nascimento de Barbara; podia soterra-lo nas preces que entoava aos gritos e nas canções religiosas que ouvia até o último volume do rádio, incomodando toda a vizinhança cada vez que se lembrava de Maurício. Agora, sabendo que sua filha abrigava em seu ventre um neto que era seu e de Maurício, não suportava o fato de saber que Barbara, antes sua tábua de salvação, agora o obrigava a andar sobre o fogo, a água e o ar – pois ela não pariria apenas um bebê. Pariria também o gosto do sexo de Maurício em sua boca, a humilhação de dona Irma, sua própria loucura. Ele usava sua fé para fugir do passado, mas aquele neto era sua fé, seu passado e seu presente. E para conseguir ama-lo no futuroao invés de sufocar, teria que manter sua velha paixão acesa. Nem que fosse em outro patamar. Em outro prisma. Em outra vertente.
Seis meses se passaram. Era chegada a hora de Barbara dar a luz. Foi sentindo as contrações, cercada pelos mimos de Fábio, dona Irma e do sogro Maurício. Este faria o parto. Estava imensamente feliz com a chegada do netinho. Sim. Agora sim. Sua vida eria sentido. Teve vontade de morrer quando Mauro o expulsou de sua vida. Tinha sido embebedado pela mulher que depois de casados ambos um com o outro, descobriu ser ex-amante de seu pai. Após a confirmação do teste de DNA de que Fábio era realmente seu filho, conseguiu amá-lo sem culpas, nem acusações. Mas matou a mulher aos poucos e involuntariamente; quando ela já apaixonada pelo marido teve que suportar seu desprezo, sua frieza, suas traições. As vezes em que ele, bêbado, a amava pelas costas balbuciando baixinho e inconsciente o nome de Mauro. O câncer que a assassinou foi para ela a grande solução.
Quando soube da loucura de Mauro, Maurício quis vê-lo; mas dominado, acuado pelas ameaças da mãe de coagir o pai a deserdá-lo, desistiu. Triste, melancólico e solitário viveu somente para seu filho e sua profissão. Se perdeu e se achou em saunas, banheiros públicos e cines pornôs nos braços de jovens rapazes; na esperança de reencontrar neles pelo menos um pouco de Mauro ou de sí próprio, de sua juventude.
Nasceu um lindo bebê. Amado, esperado, forte.
- O seu pai não irá vir conhecer o neto, minha filha? – Perguntava dona Irma para Barbara.
A jovem abaixava os olhos desamparados de saudades do pai.
Depois de deixar o bebê no colo da mãe por alguns longos minutos, Maurício pegou o neto no colo. A porta do quarto se abriu e nele entrou um taciturno senhor de cabeça baixa. Todos se sobressaltaram. O senhor levantou a testa, depois os olhos, depois o nariz, depois a boca, depois o queixo, depois o pescoço. Até sua cabeça inteira ficar ereta.
- Pai! – Disse sorrindo uma emocionada Barbara.
Dona Irma entrou em estado de choque. Totalmente petrificada, não podia acreditar ser aquilo verdade. Reconheceria aquele rosto até no inferno. Seu bisneto poderia ser neto de qualquer outro infeliz menos daquele degenerado. Depois de tudo que ela fez agora teria que conviver com aquilo. Aquele bisneto a humilharia para o resto da vida. Mas o que puxava seu tapete, também a fazia refletir. Não era má. Muito menos uma bruxa de contos de fada. Apenas precisava de sua perpetuação para continuar tendo fé na vida. Maurício era seu único filho e Mauro era uma ameaça. Por amor às suas certezas, destruiu o que acreditava ser errado. Mas ao ter que engolir o fato de ver Maurício e Mauro avôs de seu bisnetodescobriu que há um mistério muuito maior que suas próprias certezes; onde o certo e o errado perdem todo o sentido. E era esse mistério que fazia ser aquele bisneto a fé na vida, mas também o medo da morta. Ser a esperança, mas também sua maior desgraça. Descobria, enfim, que o amor não se define, não se justifica, não se classifica. Ele é e pronto. E ponto final.
Extremamente fragilizada perante a realidade que se despia em sua frente, pôs-se a chorar copiosamente.
- Vim conhecer meu neto! – Disse Mauro em tom de redenção.
Maurício entre um sorriso e uma lágrima lhe estendia o neto. Mauro olhou em seus olhos. Os mesmos olhos outrora embiagados, agora pareciam dolorosamente sóbrios. Mas o jogo agora era um a zero. Quem vencia? Nenhum dos dois sabia. Talvez o amor. Talvez a vida. Nada mais importava. Nada mais existia. Apenas aquele neto era uma doce realidade. Uma realidade que os religava; que os recomungava para o futuro. Um pedaço dos dois misturados, cujos traços correria, pularia, riria, choraria num só ser. Pulsaria na vida de uma pessoa.
Marcio Rufino
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