Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Lançamento do Fanzine Pó de Poesia na Casa de Cultura Sylvio Monteiro

                          Samuca Azevedo do Enraizados recebe o carinho de nossa musa Camila Senna







                                                        Eu, Camila e Jorge Medeiros

                                                 O grupo cultural Fulanas de Tal

                                      Dida Nascimento, Maria Luíza Rodriguez e Camila

                                 O ator e músico Maurício Gallo declamando um poema

                                           Ivone Landim e o secretário Anderson "Batata" Ávila

                                                              Dida Nascimento

                                                                 Ivone Landim

                                                   Yasmin Thainá admira os fanzines 

                                                               O manifesto do coletivo


                                                                      Ivone e Camila


                                                          Jorge, eu e Rogério Lobo
                                O ator e poeta Ramide Beneret representa seu monólogo O Bêbado
 
                                            As belas poetas Aline Corssais e Camila Senna


                                                Eu declamando um de meus poemas


                                            A grande amiga do Pó de Poesia Maria Luíza
                                                                    Eu e Camila
                                                                 Os fanzines


                                               Ramide, Jorge, Dida e Ivone


                              Jorge interpretando magnificamente o poema Cântico Negro de José Régio
                               Banner dos fanzines do Pó de Poesia confeccionados por Ivone Landim


O sarau de lançamento do fanzine do Coletivo Pó de Poesia na noite de sexta-feira do dia 28 de setembro na Casa de Cultura Sylvio Monteiro em Nova Iguaçú foi um grande sucesso. Os integrantes de grupo Ivone Landim, Dida Nascimento, Jorge Medeiros, Camila Senna, Ramide Beneret e o humilde blogueiro que vos escreve brilharam no sarau junto com amigos como Maurício Gallo e Rogério Lobo. Foi tudo uma iniciativa do secretário municipal de cultura da cidade Anderson "Batata" Ávilla que encantado com os fanzines confeccionados através de colagem pela poeta, professora de literatura, ativista cultural e fanzineira Ivone Landim decidiu lançar formalmente os números já editados num elegante coquetel promovido pela secretaria de cultura. O fanzine Pó de Poesia publica poemas não somente de poetas do grupo como de toda a região da Baixada Fluminense e de todo o país. Famosos ou anônimos.

domingo, 30 de setembro de 2012

"memória,"

colisão..

facto.
aparência de consumo imediato por..
(todos!!) os teus dias
ilícitos
pretendidos e-à, 
menção inclinada de um devaneio meu..

à tua porta..

um
ensaio.
em
declínio.
exposto e, de. tragédias semi-fartas
olhos e o dente
rélicas e nadas
a noite
e hoje..




(e)sempre.. 

ou. sequer aonde houver o teu rastro
ou nome
ou mero quadro precedido de tais motes e cortes
às tuas mesmas insinuações
teus sorrisos descidos 
tua pele
teu

lado(fixo),







ah, colisão..

é mera tinta que deitei de ti
é mera aquisição por respirar-te em verdade
quando,
em ápice dos meus registros,
só a tua letra desfaz
este
fim..
este pérfido inferno-início
pois,




é tarde.. e corre o prêmio lá fora
corre.. ainda acima das minhas intenções
minhas médias-perfeitas
minhas






linhas(e ilíadas..)






qualquer pena que te trazer à minha página, me determina
qualquer cena que te verter em ilustração, me condena





não te espero por cobrir-me à chuva
nem te esqueço à curva que não pretendi
eu apenas,




me lembrei..



Poema de Azke

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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

ausência

não sinto o gosto da tua boca
arde em mim uma paisagem rara
como os dias feitos de viagem
anda em mim uma memória calma
e meus olhos brilham de nuvem

e assim por não te sentir, sonho
em não cantar tua voz à noite
e não mostrar sob os lençóis
o que, por ser sombra, se descobre

por que não sinto o teu gosto
nas noites que passo em claro
nos dias em que deito e paro
e me oferto ao vento em teu lugar?


Poema de Caíto

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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

fruto extremo

voce atravessando uma estrada de chão
desmanchando o truque das nuvens
se interpondo nos espaços criados pelo tempo
bonita e cheia de belas promessas
entre o céu e a terra
o melhor par de olhos
de perder o véu,

a sobrancelha como uma flecha livre e indomada
mancomunadas entre a fé e o pecado
na mais funda suavidade, no melhor do feminino
de tirar à vida,

você se aproximando em sol e chuva
arrancando os colares do dia
como se a música estivesse vindo através dela
era Deus esboçando o que não pode ser...
rasgando as tiras do silencio
de não se acreditar,

você prenha de rimas 
o cheiro do teu batom corre de castelo em castelo
emoldurando o assombro que dá por dentro
é o som da descoberta da alma
o pecado cai sem aviso,

como se segurasse um pássaro nas mãos...


Poema de Vânia Lopez

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No meio do marasmo
Um mísero verde cospe
Uma gotinha de orvalho

Marcio Rufino

domingo, 23 de setembro de 2012

hoje é a noite que me traz para os teus lábios

Hoje regressas ao mar onde está a luz com um 
degrau para os meus anos, e quem te viu trouxe-
me um rio de flores. Começou hoje o Outono, e
como devia ser. Começou e alguém, meu amor, 
pode ter utilizado o teu espelho e pode ter feito
que a noite ande pela primeira vez debaixo das
árvores. Tenho no futuro um pôr do sol com uma
nuvem branca e o amor abraçará a lua, se os 
teus pássaros forem rápidos e seguirem o sol. E,
hoje, nenhuma rua chegou aos teus dedos contra
mim: hoje, quando me mostras o ar que eu per-
dia, o ar quando o sonhava, ao
...........pé do teu rosto.

E hoje é a noite que me traz para os teus lábios 

E, hoje, é a noite que me aproxima de ti, agora
que as flores nascem mais cedo, e os lagos 
ficam a morrer do teu lado, Meu amor 


Poema de Francisco Eugênio Seixas Trigo

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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Desespero romântico II


Ó
Lua, luna
Lunática,

Dize-me
Que sou tua
À minha carne nua.

Desce, te conjuro,
Errática,
Sobre seio perjuro.

Não me venhas
Com tanta gente
Que te olha descrente,

Não me venhas
Com reles vidas,
Ruas e avenidas.

Vem difusa,
Lua prolixa
Dos amantes, intrusa,

Ó
Lua, luna
Hierática.

Vem e mente,
Inunda meu quarto
Profundamente.

Dize-me algo!
Mas nada dizes
Sorumbática.

Surja-me alva!
Mas me apavora
Fantasmática

No meu quarto
Após parir-me
Um lagarto,

Lua réptil
A devorar-me
Autofágica...

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados

49

(seja insectos citadinos que existem onde há pessoas, ou transportes de duas ou mais rodas que nos ensinam o equilíbrio & e libélulas gigantes com motor)

que é que queres
que eu diga mais
eu gosto de pessoas
de música e de boa poesia
de vinho e de gatos
mas não gosto de mariquices
prefiro um poema com verdade
a um ramo de flores poético
na voz duma alma qualquer
flores são bonitas
para quadros antigos impressionistas
mas sou alérgico
como aos gatos
mas estes suporto-os
um pouco de cada vez
e o raio dos gatos
gostam da minha presença
talvez algo de gato 
vadio de rua
sou um poço de incongruências
como qualquer um
que é que queres
que eu diga mais
sou muito vaidoso
todos os santos dias
me miro ao espelho
gosto de rugas
um rosto sem rugas
é uma mentira
um rosto sem rugas de tempo
é uma mentira
quem gosta de sentir uma mentira
debaixo da pele
ando para aqui e entrei porque a porta estava aberta
e ninguém me impediu de entrar
volto e venho 
e não tenho de explicar porque
era o que faltava
que é que queres
que eu diga mais
visto-me assim
com um fato barato e amarrotado
calço sapatos que se podem engraxar
mas não o faço
molho os pés porque estão furados os sapatos
não dispenso gravatas escuras e torcidas
nem sempre faço a barba
e levo no bolso direito
uma garrafa de cachaça
porque gosto de coisas brasileiras
mas fica descansado
abotoo sempre um botão do casaco
a porta estava aberta e entrei
que é que queres
que eu diga mais
se te parecer mal
manda-me embora
mas posso voltar se me apetecer
faço o que me apetece
aprenderás isso
não me dou com o vai para ali
e vem para aqui
não tenho nada
não tenho bens
só pessoas 
tenho-as no coração
nunca morrem
e já são muitas e às vezes gritam
todas juntas
claro que acredito em Deus
e espero que Ele ainda acredite em mim
que é que queres
que eu diga mais
nunca escrevi sobre baratas, bicicletas e avionetas
são meras metáforas
para as coisas que não deitamos fora
e guardamos sem saber porque
ferro-velho e memórias empoeiradas 
é sobre tudo sobre o todo e o nada
sobre a sombra e o que ofusca
não leias
vive
vai beber um chá na companhia 
dum agiota qualquer
existem aos magotes
respiramos e damos mais um passo em frente
não tem muita ciência
andamos por aqui
somos iguais
que haveria de escrever
senão sobre o que me preocupa
que é que queres
que eu diga mais
nasci em 66 vê lá
que interessa as baratas ou os fuscas
as bikes ou as pequenas naves voadoras 
morrerei num destes dias
devagar ou de repente
esta é a minha biografia
que ame quem amo
e que não falte comida a quem de mim depende
um dia amanhã tudo acabará
não te preocupes
olha - Fim
que é que queres
que eu diga mais

set. 12


Poema de Carlos Teixeira Luís

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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

[...e deixa a poeira destas encruzilhadas invadir]


e deixa a poeira destas encruzilhadas invadir
este tédio que me repete,
que me cobre como o tafetá,
santifica-me a emoção em escarlate, nudez essa
de teu peito coberto por nuvens em cirros,

mas...

ensina-me a colher o mel pelo ocaso
onde miçangas reluzem, estrelas cadentes também,
quando o mar se espraia para além das violetas adormecidas,
[clareia-me a noite].

Na verdade dir-te-ei,

pudesse ser eu o verso que treme pelo anoitecer,
pudessem ser as mores distâncias apenas o simples respirar,
pudesse eu afundar olhares de adamastores sempre irados,
pudesse sossegar-me como o aloé que nasce da estrada,
enquanto habitas estas divisões quais páramos em mim.

[E repetir-me-ei: ensina-me a colher o mel pelo ocaso...
que fazer, perguntar-te-ei].


Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

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terça-feira, 18 de setembro de 2012

eu e Deus

pelos olhos os minutos atrás
passos frescos manchando a tinta da escada
os fios do poste invadindo o quarto
no peito da noite uma estrela
um riso suave... namorando os lábios
a pele viciando o perfume
o silencio reclamando abrigo
trilhos, temores, teus favores pelos corredores
os minutos possuindo o relógio...
eu e Deus, à esquerda
o depois de amanhã um demônio
(meu castelo)
a alma de vidro criando beleza
para o desfecho das pedras
o tempo... um abraço forte
já não era meu...
era algo seu esquecido em mim.


Poema de Vânia Lopez

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domingo, 16 de setembro de 2012

A cotovia não canta à sede

Embalo a planície da tua mão sobre a minha mão,
Percorro-a com o arado dos meus dedos,
Abro sulcos na terra virgem,
Lanço-lhe as sementes dos teus lábios,
Rego-os com uma lágrima que corre na nostalgia do sonho.
Um aroma a terra húmida, embriaga
O sentir da tua presença.

Trás a barca através da cortina de bruma,
Senhora da madrugada alva,
Minhas mãos no teu longo vestido,
Remam nas águas adormecidas
E deslocam remoinhos no teu corpo nu.
Desfruto nas margens do segredo,
O fruto azedo do teu âmago.
Deixa que a barca desça selvagem
O rio que nasce no vale dos teus seios,
Eu afogo-me no cheiro do teu ventre
No enlace das nossas tormentas,
Vem senhora da barca
Comigo molhar os pés,
Vem sentir as pedras frias dos meus olhos,
Beija-me estes lábios de vento.

Há um refúgio em ti
Onde lanço os meus segredos,
Não há ecos de receios nem traições.
A minha boca encontra a tua boca,
Entre risos e beijos.
Agarras esta torrente que esta prestes a chegar,
Dentro de ti descubro um mar,
Eu transformo-me na onda que invade a tua praia.
Por fim, adormeces, naufragas nos meus braços,
Um lençol de névoa cobre os nosso corpos exaustos,
Um doce odor do amor breve
Denuncia a nossa primavera.

Partes devagar,
Apenas pó e caminhos ficou,
Dizes que alguém descobriu um pôr-do-sol
Na planície verdejante do teu olhar,
E que uma espiga de trigo despontou no teu sorriso.

Sei agora, que esses brincos de urze
Que nas tuas orelhas coloquei,
São já mirradas flores castanhas.
Sabes,a cotovia não canta à sede.
Mas, eu desfaleço num cântico alentejano.

Autor: Sedov

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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

quase não lhe resisto...

surgiu na saia mais azul
que uma pincelada de Van Gogh

respirou o ar como se nada o respirasse
mentiu com a mesma boca (vermelha)
que roubava do vento um lamento

dispôs das armas num lento olhar
inundou o sossego enquanto a chuva bordava
música no telhado

sob o mesmo céu sua cintura desafiava a gravidade
o cinto driblava um pedaço de pele
como uma ilha sem ligação com o continente
sem ponte ou barco para atravessar

com os cabelos ordinariamente distraídos chicoteou o ar
numa total provocação inflamou o chão... carregando o mundo
(foi como encontrar um anjo no inferno)

Deus bem podia arrancar o farfalhar azul dessa saia
que oscila em meu peito
antes de desaparecer como um suspiro
... vendo todas as ruas passarem


Poema de Vânia Lopez

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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

[...e tantas são as viagens que me alumbram


e tantas são as viagens que me alumbram,
quiçá por sonhos nunca dantes realizados
onde se degustam silêncios vogados ao vento
que sempre me arderam.

Ignescente memória revelada
nestes olhos sem choro que miraram além da proa,
além das níveas montanhas.
relembra-me, acolhe-me enquanto o ceu estreleja pelo entardecer dos dias em verão.

Que se extingam as palavras que os deuses libertaram,
que rocem o infinito desejo, quão perenes
penetram mar adentro, quais viagens desassossegadas
mitigadas pelo som destes marulhares sempre presentes.

Acolhe-me em sorriso, desnovelando
cousas incertas aprisionadas, ilusões outrossim,
relembra-me, uma vez mais,
a cor das cerejas dissipada por entre sussurros só nossos.

Inda me peregrino em mim, sabê-lo-ás.

[-Senti-lo-ás? Perguntar-me-ei.]


Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

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sábado, 8 de setembro de 2012

O silêncio do tear

Com um sim se diz não.
No vagar dos tempos
Entre o espaço cidral dos teus dedos abertos
Há um tear mecânico
Onde nossas mãos ávidas
Quiseram tecelar um tapete de orelos
Com os trapos dos momentos partilhados.
Foram as nossas palavras a urdidura
Que fomos esticando
Mas o pente liço atrofiou-se uma manhã
E os fios quebraram-se.

A poesia do teu corpo ficou fechada
Com todas as vontades viradas do avesso
Não penetrei a poesia da tua flor
Nem cada detalhe do teu corpo desalinhado
Os beijos, a língua, a saliva, o suor, a pele molhada
O falo túrgido
Esmoreceram
Num campo de cardos.
Eu sei que cada um de nós um dia chegou a imaginar
Os nossos corpos fundidos
Num vaivém em suaves entregas
No fio de trama do tear
Onde tecido seria a nossa carne
E os nossos sentidos entregues a um amor sem regras.

Ficou o desejo mudo
O que faz de nós meros filatelistas
Que nos preocupamos com os pormenores mesquinhos
Da integridade da serrilha de um selo.
O desejo mudo
Esmaga-se à noite no silêncio do travesseiro,
Olhos abertos na escuridão
Ao vaguear pelo firmamento de tecto do quarto,
Sente-se o vazio de um corpo ao lado
Que respira e dorme profundamente
E o desejo de noite não é o desejo do dia
E o desejo cala-se
E a lua consente
E o sono chega
E manhã que há-de chegar não será mais uma vez
A manhã
Que com um sim se diz sim
Ao que sempre se disse não.


Autor: Sedov

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Noite

Nesta noite não há cantos de melancolia
Dos bêbados à porta do centro comercial
A florir a noite da cidade,
Nem mesmo os gatos vadios
Com seus miados acutilantes
Dilaceram a escuridão,
Nada se vai refugiar na caverna da memória.
Deixou de ser fria a noite.
O meu corpo está trôpego e ébrio,
Uma visão de plena brancura no meio do breu,
Um pano que se estende sobre o meu rosto
Igualmente branco
De uma macieza doentia
Onde o aparecimento de uma ruga imprevista
Transforma-se numa agonia pior que a morte.
Será isto um pesadelo?
Há muros erguidos em meu redor.
São paredes irregulares de uma cova
Em que me afundo.
Nesta noite primeira
A dança das prostitutas ao longo da Avenida,
Os carros que abrandam e as recolhem
Não me desassossegam os sonhos.
O choro de uma criança recém-nascida
Pode bem ser a minha cama.
A luz difusa numa janela de um apartamento
No cimo de um prédio
Projecta uma sombra chinesa
Sobre as nossas consciências:
Uma mulher é agredida e violada
Na mesma cama em quem imaginou ser amada.
Pressagio terramotos do fim do mundo,
Talvez porque isso me traga a sensação dos marmotos
Que vivi sempre que me tomaste em teu corpo.
Mas a lua está ausente dos teus lábios
E mesmo o lago que um dia descortinaste nos meus,
Nesta noite pouco mais são que um pântano.
Os ventos das planícies afagam-me os cabelos
Dos meus olhos secos brotam lágrimas de abandono
No momento em percorro os caminhos incestuosos da morte.


Autor: Sedov

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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

[...se a terra pariu flores]


se a terra pariu flores e searas que o vento
enlaça,
símiles a mares enterrando sonhos e destinos
que as maresias transportam para tão longe,
mores os sigilos escondidos,
em ti,
em mim.

Dos perenes múrmurios que restaram, hoje
que sejam gritos.

Oiço ecos, um dia relegados como procelas
invadindo desejos redentores, anseios extasiados,

oiço estrelas pelo indesmedido sonhar,
apenas sonhos onde a mímica dos lábios
expressava o que se queria ouvir, entender,

tantas horas mirando, o nascer, o pôr, o sol,
enfim, solilóquios não desvendados,
vã surdez.

Ser-me-ás sempre réstia de luz pelas noites,
quão breve esta vida me seja.

[… se a terra pariu flores e searas que o vento
enlaça,
que seja permitido perpetuar-me no aconchego do teu ventre,
enquanto este salso mar me assola]


Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

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terça-feira, 4 de setembro de 2012

Da natureza dos gatos

O que mais se parece com um gato , é o esforço para descrever a leveza de sua consciência e a velocidade de sua determinação ,felina e breve . Abominar a mão que o afaga e partir célere, sem adeus, talvez sabendo que um adeus talvez seja demais e não querendo voltar e repeti-lo, simplesmente vai, sobre os muros e parques, sem consciência de sua natureza andarilha e selvagem, apenas vai andarilho selvagem, disfarçado de criatura doméstica e domada , sem domus e sem dono , sempre igual a si mesmo, um passo cauteloso ; em frente ao desconhecido, simplesmente contorna -o , até mesmo quando não der para contornar com tudo de felino de sua natureza . Mão materna , paterna ,apenas amiga ,pouco importa , um carinho é apenas um carinho , nada além de carinho e o mundo é muito grande ou nós outros, muito pequenos ,de repente monocórdicos em nossa afeição de humanos , desnaturados do que não é gato,contempladores inertes de vidraças embaçadas de felina ignorância
Autor: André Albuquerque

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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Roteiros Anadaluzes - I - Córdoba

.


chegaste já no final do entardecer, quando
o sol queimava a ponte romana sobre o Guadalquivir
(sempre turvo), e atravessaste as ruelas
junto à mesquita-catedral – na magistral gonzalez frances,
onde a sombra te aliviou por um momento
a fé;

pelo bairro judeu caminhas às avessas,
tens todo o tempo para perder no Sepharad antigo
e o tetramorfo bíblico de Ezequiel arde-te
no estômago com um Cava Freixenet Extra perigosíssimo:

Marcos, o Leão
Mateus, o Cordeiro
João, a Águia
Lucas, o Touro

tu viste-o na mesquita, adivinhaste-o depois junto da
estátua de maimónides, onde a sabedoria se une ao caminhante
pela magia simpática de um simples toque;

agora anoitece,
os luzeiros descem no horizonte e inflamam de escarlate
as fachadas tão antigas como o sonho visigótico;

tudo o que foste até chegares a esta cidade dos califas
é tão etéreo como um bilhete esquecido
e agora podes interromper o fluxo das galáxias que se expandem
junto a este Guadalquivir (sempre turvo)
e sabes o segredo
porque é o segredo o instante
é onde tudo é panta rei do tempo curvo;

e tu agora sabes o segredo

não se deve, jamais, olhar atrás

ou o tetramorfo fará de ti mulher de Lot;

castigada impura,


petrificada em estátua de sal.



.

Poema de MarioRevisited

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domingo, 2 de setembro de 2012

como pão no prato sagrado

tua maquiagem indiana
teu olhar vestido de gala
tua boca margem de desejo crescente
tua nuca entorta o vento
teus braços rogam um roubo
tuas unhas correm como veneno se alimentando do sangue
tuas mãos banhadas de silencio
teus pés violam a terra em carícias
tua penteadeira cheia de pistas de colares, pulseiras, digitais de perfumes
tua veste troca de pele na penumbra
tua fita no cabelo unta a alma de lembrança
teu colo um demônio sonhando
tuas veias cantam, causam feridas no céu

dá-me um lugar para fugir do mundo
no fundo do meu ser
tua lágrima como pão no prato sagrado

aceite esse beijo na sobrancelha
escolha minha roupa (uma que cubra pecados)
deixe que nossas almas disputem entre si
enquanto dançamos através dos tempos


Poema de Vânia Lopez

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[...é-me lomgíqua a linha do horizonte]


é-me longínqua a linha do horizonte,
que escaqueira a ondulaçao invisivel do sonho manso,

mansidão que se deseja encabritar em ânsias,
mas que se atrofia sem beijo, sem toque ou cheiro,
destinos incumpridos, direi.

Nos olhos extasiados pela longitude,
prometem-se outros mundos férteis em belezas, desertos
de almas, ou de olhares, prometer-me-ei um dia.

Destinos, direi.

Os homens lançam-se ao mar, sem temer a preia-mar,
as mulheres de negro miram o céu que se abre em azul,

ajoelham-se como pedintes, cumpridoras do ser em súplica,
e mesmo rastejando pelo areal,
jamais serão envolvidas pelo ténue abraço do sol que
insiste em permanecer, vão-se as visões.

Ouve-se o ranger da madeira, os solavancos da ondulação,
“- mar arriba... mar arriba!”, grita-se,
e o leme que antes roçava as areias, orienta rota,

nada, apenas direi.

Resto-me apenas, o olhar[?]

extasiado, direi.

Poema de Ricardo Pocinho

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sábado, 1 de setembro de 2012

Sarau Donana





Slow da BF e Lírian Tabosa recebem o carinho dos companheiros do Pó de Poesia Camila Senna e Jorge Medeiros.


O público curtindo o sarau.


A poeta Ivone Landim declama seus poemas.


Dida Nascimento e o cantor e compositor Cláudio Camilo.


A brilhante presença da poeta Lírian Tabosa


Eu declamando um de meus poemas.


Eu e Ivone Landim


A bela e doce presença da poeta Ianê Mello.


Eu e os amigos do fenomenal Camaleões do subúrbio Djélli Bonnie, Felipe Rey e Ianê Mello.


Os fanzines criados por Ivone Landim.



Está sendo um sucesso a nova edição do Sarau Donana que está acontecendo no Centro Cultural Donana, na Rua Aguapeí, 197, no bairro Piam em Belford Roxo. O sarau rola todo último sábado de cada mês e tem apresentação do grupo do qual tenho a honra de fazer parte, o Pó de Poesia. Nesta noite do dia 25 de agosto, a récita teve como convidados a poeta Lírian Tabosa e o cantor e compositor Cláudio Camilo. Além da participação dos poetas do grupo Camaleões do Subúrbio Ianê Mello, Felipe Rey e Djélli Bonnie que abrilhantaram a noite com suas extraordinárias performances.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Palavra Andarilha



Vazia é a palavra que não anda
Não se desloca
A palavra que anda
Traz sentido
Intervalo para o entendimento

A palavra andarilha anbre trincheiras
Existência
Experiência

A palavra resolve se anda
Se cai
Se escorre
As vezes se esconde
ou inesperadamente se mostra
A palavra se desloca
e cria e recria territórios

Eu palavra nômade
Nós palavra andarilha
Andar é deixar de ser ilha
Palavra fluxo
Palavra refluxo
Palavra andarilha
Poder implícito
De quem se recria.

Ivone Landim.


Cântico II


Quantas vezes
Já morreu e nasceu
Esta árvore?
Quantas vezes
Já morreu e nasceu
Este pássaro?
Quantas vezes
Já morreu e nasceu
Estas montanhas?
Quantas vezes
As marés já
Me raptaram e devolveram
Este mar?
Quantas vezes
Já morreu e nasceu
Este corpo?
Olho agora
Eternecido
Para meu último renascer,
Para o meu mais recente parecer.
Filho,
Devo dizer-te:
Já fui,
Já fomos
O trilo
Do pássaro,
O grilo
Que tem no bico,
Já fui,
Já fomos
O seu pipilo
Ao nascer,
O pistilo
Da flor
Antes de morrer,
O silêncio
E o sigilo destas serras,
O céu
Quando me rutilo
Em nuvem, em sol
Em mar.
Porque ontem,
Hoje, amanhã
Fui homem,
Pássaro, mar,
Esta manhã
Que, em breve,
Morrerá,
O Cáspio
Ou Egeu
Nos refolhos do eu.
Já estive roto,
Todo sujo
E magnificamente
Pintado
Num vaso etrusco,
Já estive
No esgoto
E no luxo,
Mas sempre cerúleo
No âmago de tudo,
Porque a consciência
Mesmo ciente,
Se perde,
Esvanece,
Mas a matéria
Permanece,
Se atreve
Contra o momento,
É o próprio manto
Espaço-tempo,
O início,
O Quantum.
Porque ontem,
Mais uma vez
Vi a flor e a tez
Que fui, que fomos
No féretro,
No moribundo
Ou na prenhez
Do mundo,
Vi como fui,
Como um dia apareci
Antes de assim parecer,
Mais uma vez,
Antes do que sou,
Deste corpo
Esvanecer-se
Ao morrermos.
Vi que a memória
Da matéria
É a inércia
Desses montes,
Algo que jamais esquece
E guarda-se sempre
Do discurso, da prece
Ou da quimera
De quem se desespera
E se nega
Para nos impingir
Uma única vida
Eterna,
Enquanto somos tantas
Que perecem.


Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados

domingo, 26 de agosto de 2012

...que ao abraçar já não pode me apontar uma arma

nas quentes noites de meu desassossego, quem dera minha mão pudesse expressar o que vai em meu peito repleto da estranha beleza que ocupa meus sonhos, na mesma intensidade, com que tenho assistido a mudança das estações, os pássaros migrarem para o sul... esvaziando o céu quando é inverno e em seguida espalham-se pelos campos na primavera, carregando nas pinceladas como se o céu fosse o teto do mundo. em meu coração o tempo para... parece que tudo se move, até mesmo eu. ao perceber isso... o tumulto do silencio parece uma linha de bordar a profunda e poderosa presença da saudade, que ao me abraçar (treme) já não pode me apontar uma arma... minha alma joga a toalha em três pedaços e dois endereços enraizados em meu coração... ao terminar essa carta, espero que compreenda que a distância que separa é o mesmo paraíso que nos cerca onde a história se repete como uma âncora do vento no céu...

Autor: Vânia Lopez

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quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Como estás, estimado amigo

eu não ando bem
envelheço
com os dias tão estranhos sujos de vida e lentos
e tu como vais
tenho saudades
dos tintos naqueles balcões vidrados
até que a mulher nos chame
por vezes a tua
noutras a minha
esta terra tem boa gente e bons tintos
e muitas inconsequências
não achas, amigo
quero saber como andas
não digas que bem
as tuas olheiras trazem metáforas
e todas elas dolorosas
eu escuto
por hábito
porque estou contigo
desde há muito tempo
que quer dizer sempre
sempre é uma palavra de amizade
por onde andas, diz-me
manda uma carta-poema-diário
como costumavas fazer
numa destas tardes
levei o meu desemprego a passear
sentei-me no cais do rio
ao pé da ponte velha
com uma lata gelada de cerveja
um pacote de pão e fatias de presunto
fiquei ali a ver o reflexo da ponte no rio de prata
lembrei-me de ti
ali a meter fatias de presunto
em fatias de pão de forma alentejano
e os turistas a olhar para mim
e eu a comer e a beber a cerveja
ainda pescas, grande amigo
robalos percas trutas
eu pesco poemas e mulheres bonitas
sozinho sempre com a companhia
dum pequeno rádio que canta coisas antigas
até as pilhas acabarem
saudades, amigo
agora vejo petroleiros
fábricas vazias na outra margem
e as gaivotas
vivemos num pais tão sossegado
será que morreu

Poema de Carlos Teixeira Luís

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terça-feira, 21 de agosto de 2012

quem entender o gesto de um piscar de cílios...

sempre no meio dos pensamentos as palavras ditas à meia luz, tudo que pulsa e arde, junto a seus passos pelo chão. na eternidade do verbo o gesto do silencio. o longe e a miragem, o adjetivo jogado, o fundo misterioso de um pratinho com data e hora de seus olhos que me levam muito além... entrelaçam-me na roupa da cadeira, que veste uma delicada espera. me pego amando o mostarda das tardes no eterno do tempo, como suave ilusão. - quando tu partes urgente a se perder em mim...

(tem quem chame de inferno)
eu afirmo que é nesse rosto de menino que tudo se justifica... devolves aquele sorriso nas dores que não existem, com um cântico nos lábios, faz da noite um turbante invisível que desejei ter rezado...

Autor: Vânia Lopez

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Sarau Donana




É neste sábado dia 25/08 apartir das 19:00 horas, mais uma edição do SARAU DONANA. Convidados Especiais: Lírian Tabosa (Poeta), Claudio Camillo (músico e compositor). Apresentação do grupo Pó de Poesia. E teremos exibição dos curtas: Toques de Sancofa, Entre Grades. Local: CCultural Donana, Rua Aguapei, 197, Piam, Belford Roxo. E lembre-se
e você faz parte desse encontro!

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

[Das pétalas espalhadas pelo chão]

Das petalas espalhadas pelo chão que cairam do teu ventre,
apanho-as uma a uma,

chamar-lhes-ei de vida.

E quando as coloco em vasos de cristal,
onde o sol bate desde a aurora,
vejo-as renascerem em flor,
acolhem-se então as aves fugitivas sem poiso.

Da nudez de sonhos teus, qual tafetá que te cobre,
tento agarrar algum que seja,

enquanto a noite aguarda o nascimento de uma nova estrela cadente,

chamar-lhe-ei então de encantamento.

Quantas estrelas encerras em ti, perguntar-te-ei.

Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

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sexta-feira, 17 de agosto de 2012

carochas, bicicletas & biplanos - 37

À porta do Marquee de Londres. 50 anos depois. Keith Richards, Mick Jagger, Ronnie Wood e o baterista, como é que se chama, brinco, o avô Charlie Watts. 5 décadas de desaires políticos, sociais, económicos. 5 décadas de aniquilamentos e linchamentos, bombardeamentos e limpezas étnicas, assassinatos e violações, fome de milhões e um planeta doente e infeliz, quente e com falta de ar como um pobre velho asmático. Haverá pachorra para mais rock n’roll. Diz-me tu o que pensas.

Eu estou um pouco farto mas ainda a ver como envelhecem mais ainda esta trupe de loucos. Loucos milionários. Uma fórmula que deu resultado. Encarnam o que milhões queriam viver, bem lá no fundo. Mantêm as caricaturas e personagens na linha do que o público espera deles e é vê-los a encherem os estádios. Uma geração, diz-se. Já é mais do que isso há muito tempo. São lendas porque duram. Já lá vai o live fast, die young. O que se admira é a longevidade, o velho sonho que volta. A velha, muito velha utopia. Vida longa. A fazer-se o que dá na gana. A maioria dos que os vêem nos concertos quer ser assim. Não podendo, veneram quem pode. Ou quem encena que pode. São palhaços metafísicos. Que aplaudimos faz 50 anos. Não acham que já chega?

Autor: Carlos Teixeira Luís

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carochas, bicicletas & biplanos - 35

Paris Texas, filme de Wim Wenders (1984), cenas únicas de Harry Dean Stanton perdido a caminhar numa das paisagens mais conhecidas da América, que surgiram em milhentos westerns. Uma homenagem à paisagem e ao cinema americano do realizador europeu mais americano de sempre. Argumento de Sam Shepard, afinal quem mais. Natasha Kinski num dos seus papéis mais emblemáticos. Um filme com banda sonora de Ry Cooder. Marcante. Árida. Ainda hoje a uso para acalmar. Vi e falei tanto do filme que muitos amigos e familiares, a esposa, apontam para mim sempre que alguém fala em Wenders ou Paris Texas. Como se fosse um sinónimo. Paris Texas = Eu. Ry Cooder = Eu.

Mas o filme-metáfora de outras coisas – as coisas que queremos usar e imaginar, para mim um belo um tratado da arte de Fugir. Fugir apenas. Há sempre uma fuga possível para bem longe mas também há o retorno da fuga. Uma outra fuga dentro da mesma, com passos perdidos que nos levam não para longe mas que não deixa de ser fuga. E tu de que foges. Para onde… Não te inquietes, vê o filme, por exemplo.

Retorno. Regresso. Outra espécie de fuga. Andamos fugidos e nada convictos de que seremos agarrados. Nem o espelho nos reconhece. Quem é este que me observa? E aquele que se afasta? A viagem. Eterna.

A paisagem dentro de nós. Através dos filmes das cançonetas de fronteira e dos blues desmaiados em lento ardor de deserto. Com a lentidão das árvores africanas mas noutro continente. Há uma estrada que não termina. Uma route interminável e antológica. Índia e selvagem, poeirenta e sábia. Tudo fica em nós até se desvanecer lentamente na memória.


Autor: Carlos Teixeira Luís

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quinta-feira, 16 de agosto de 2012

[Naquele caminho onde as náiades nascem]

Naquele caminho onde as náiades nascem, dizias
existirem invernos que ruiram, qual o som das estrelas

penduradas nos mastros de navios pelejando o mar,

encontro apenas silêncios.

Olhar meu que procura infinitos luares
cercados pelo breve vogar das estrelas cadentes,
tudo recomeça,
tudo ruiu antes, até a floresta
que abrigava o descanso dos rouxinóis.

Serão mutações quão interminável vida
tantos estes solilóquios sem chama,
esconderijos, dizias-me,

quando te sentavas a meu lado,

olhares juntos, perdidos, sobreviventes.

Hoje, as náiades dançam em rios lá longe,
onde a vista não alcança,

onde não te alcanço,

onde silêncios são enterrados,

[pudesse eu parar-me no tempo...].


Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

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No varal da varanda
A gota de sangue insiste
Por dentro da camisa branca.

Marcio Rufino

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

rasgue as vestes num pano de guardar silêncio

velhos muros, teu sangue e a cor dos olhosapagai-vos como uma foiça rápida
traga qualquer chuva, uma garra delicada
menor que uma palavra

rouba-me a alma como quem rabisca o sagrado
deixe (só) meu vulto ao redor

converte-me em veneno
quiçá uma assassina ardente
que mata de modo suave
lento... súbito

rogai-me em tua boca
como sinos imóveis
peito em suspensas fugas
... num mundo tão morno
brinque com o verbo e o tempo

traga-me o infinito em golpes precisos
como uma oração cantada
desenhando o pecado
longe do tempo e das horas

como quem sopra o ar e nada vê
porque está olhando com olhos sem firmamento
guarda-me em um par de asas
no mero abandono de um silencio


Poema de Vânia Lopez

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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Sodomia





Na minha frente
Tendo a areia como cama
O céu enrraba o mar.

Marcio Rufino

carochas, bicicletas & biplanos - 34

Às vezes vejo a série de televisão Shameless, versão americana. A versão britânica nunca me atraiu verdadeiramente a atenção. Prioridades de tempo. Não se pode ver tudo. E faz-se uma escolha. Uma hora por dia já é muito. A nossa hora diária e estúpida. Serve de descanso dos neurónios. Que depois morrem logo a seguir. É assim mesmo.

Embora os primeiros episódios sejam cheios de mamas e sexo como forma de marketing para se viciar espectadores e embora a história aconteça aos tropeções vão surgindo momentos brilhantes e dum realismo interessante. Como a tradução da série pretende: No Limite. Todos os personagens vivem no limite. No meio das caricaturas do pretenso real, há uma mensagem que perdura e é feliz na sua representação. Uma ideia de família, de comunidade, de entre ajuda. e nesse sentido não podia ser pior nem melhor. Podia ser bem pior e nada melhor. Podia passar-se contigo. Comigo. Mudemos o verbo: Não pode ser melhor, nem pior. Ponto assente. Sem vergonha. Apenas vida. A de todos os dias. Com os que estão connosco. Família ou os que estão connosco, amigos ou outra coisa qualquer. Sempre sem vergonha. Nos filmes são todos bonitos. Não há verrugas, nem excesso de peso, se o houver é sempre glamoroso. Nos filmes os dias passam e têm música sempre a acompanhar. Não se ouve os gritos nem o som dos automóveis na estrada a seguir ao nosso inferno. Mas isso é nos filmes. Aqui ao pé de nós só há gente feia e gente velha e gente desdentada. Nem bons nem maus. Apenas gente.

Na série temos William H. Macy como pai ausente e alcoólico. Um pai que prefere aleijar-se e receber do seguro a qualquer tipo de trabalho. Uma figura execrável que só um bom actor consegue mostrar. A figura central da série – a personagem que se odeia. Quantas vezes, no mundo real não é assim mesmo.
Jul./Ago. 12


Autor: Carlos Teixeira Luís

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carochas, bicicletas & biplanos - 33

No dia em que deixei de escrever poemas fui à praia na sua hora fria em que as pessoas a largam e deitei-me no areal esperando o pôr-do-sol e sorvi-o momento a momento e a partir desse mesmo momento dir-se-ia mágico, decidi que a poesia não mais seria uma muleta na minha vida. Na verdade nunca o foi mas decidi que não o seria. Nunca.

Assim que cheguei a casa, violei a minha própria regra e escrevi um poema de um só take, desculpem a expressão mas pareceu-me como que filmado mais do escrito. Sempre que quero sair o clube manda um cobrador a solicitar o pagamento de mais uma quota. Chega a ser opressivo. Como qualquer cobrador sempre impõem uma silenciosa ideia de desconforto ou de que algo de perigoso nos pode acontecer e jogam com o que não sabemos. Será que nos partem as pernas se não pagarmos? Nos riscam o carro? Invadem a privacidade manchando uma certa reputação adquirida? Podem fazer isso e outras coisas até nos convencerem a pagar? A simples ideia proposta por nós próprios quando avaliamos a atitude de quem nos assedia com um dever não cumprido causa-nos terror e é dentro desse jogo psicológico que o cobrador vive. Bem, ainda estou a falar de poesia? É a poesia um clube em que não se admite sair? Por exemplo, sair para nunca mais voltar. Ou sair para voltar se houver a vontade de o fazer, com a indefinição desta mesma medida. Por vezes é encarado assim. Poeta, logo poeta para sempre. Não concordo. Neste sentido, e só neste sentido, nunca literalmente, proponho de vez em quando, espancar o cobrador e ordenar-lhe que não volte. Um ataque frontal como defesa. Talvez ele nos deixe em paz. Ou mande outro cobrador mais sólido com outra capacidade de resposta e outras ideias perversas com o fim de nos convencer a voltar ao clube. E já que entramos no jogo, com violência, que é fértil em se multiplicar até á ruptura. E ainda estou a falar de poesia?

Bem, a poesia não é algo dominável como por vezes se pretende. Vai e volta quando quer e comporta-se como um rude agiota que cobra o que não podemos pagar. Ou não é assim e devemos atribuir misticismo ou divinizar a origem do acto de criar. Temos a liberdade de escolher o que bem entendermos. Eu não faço a mínima ideia de que escolher. Vou espancando o agiota de vez em quando e espero o dia seguinte, não antevendo nada. Absolutamente nada.
Ago. 12

Autor: Carlos Teixeira Luís

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Campo vasto...


Olhos de profundo segredo sagrado...
De campo vasto,
Metade malícia,
Metade casto.

((( Camila Senna )))

Ejaculo...


Com o Olho de Hórus,
Te observo...
Ejaculo todo seu desafeto.
Feto secreto, me faço!...
Não indago a pobre caça
Desgraçada que tenta o vinho da minha taça.


((( Camila Senna )))

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

é para dizer que parto

Estava
sentado, estaria sempre sentado
e vou escrever-te,
hoje,
que o vento é apenas um leque de flechas
aos pés
e só depois um salmão roendo foi
os teus moinhos de asma
e esse tojo coado para o mar.
E, hoje,
põe-te sentada,
o teu amor tem a urgência de uma metáfora
e essa podia bem ser o chão
do nosso quarto
quando a encontro de repente.
E, hoje,
não vejo os pássaros,
e por ser tarde conseguia ter os carros
como nuvens numa rota do nosso mel,
e correria pelo teu corpo
para dizer que parto
meu amor

Poema de Francisco Eugênio Seixas Trigo

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