Manifesto do coletivo Pó de Poesia
O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.
Creia.
A poesia pode.
(Ivone Landim)
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Planta de Maceió
Do nascimento à morte, os que moram aqui
andam sempre cobertos por leve mortalha
de mormaço e salsugem. Os dentes do mar
mordem, dia e noite, os que não procuram
esconder-se no ventre dos navios
e se deixam sugar por um sol de areia.
Penetrada nas pedras, a maresia
cresta o pêlo dos ratos perdulários
que, nos esgotos, ouvem o vômito escuro
do oceano esvaído em bolsões de mangue
e sonham os celeiros dos porões dos cargueiros.
Foi aqui que nasci, onde a luz do farol
cega a noite dos homens e desbota as corujas.
A ventania lambe as dragas podres,
entra pelas persianas das casas sufocadas
e escalavra as dunas mortuárias
onde os beiços dos mortos bebem o mar.
Mesmo os que se amam nesta terra de ódios
são sempre separados pela brisa
que semeia a insônia nas lacraias
e adultera a fretagem dos navios.
Este é o meu lugar, entranhado em meu sangue
como a lama no fundo da noite lacustre.
E por mais que me afaste, estarei sempre aqui
e serei este vento e a luz do farol,
e minha morte vive na cioba encurralada.
Poema de Lêdo Ivo
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Eu hoje acordei com o pé esquerdo
Hoje, acordei com o pé esquerdo, sendo mais explicito, digo que me despertei com o meu pé esquerdo; Quanto ao direito, ignorando-o, ou não podendo dele me livrar - o que é mais provável - despertei-me também, com o meu pé direito.
Antes de continuarmos com este assunto que tem pé e cabeça, faço-lhe um pedido, ou, até recomendo-lhe com insistência, que me atenda e olhe debaixo do seu pé esquerdo; veja a sua face plantar dele; ainda que a curiosidade queira torcer-lhe o tornozelo direito, para também, deste lado, olhar debaixo do seu homólogo - o do pé esquerdo - afirmo e peço-lhe que tenha certeza maior: Não há necessidade de procurar o que não há, pois, ressalvando alguma pequenina e insignificante diferença anatômica que entre eles possa existir, tudo diferente que um apresenta em relação ao outro, não passa de suas posições “trans” essenciais para ambos.
Agora, levemos a sério este assunto e analisemos um grande e impiedoso paradoxo:
Nós os destros, temos em mente que nosso pé direito é o mais forte. Sendo assim, ele - o todo poderoso e senhor de si - é sempre aquele que dá o primeiro passo, e o faz com firmeza, com maior segurança, com muito equilíbrio, enfim, com grande determinação. Eis abaixo, uma proposição falsa! Ainda assim, há de gerar outra que verdadeira será. Senão, vejamos:
Quase sempre o nosso pé esquerdo não podendo evitar, pois nenhuma prerrogativa tem, uma vez que é o mais fraco, vai seguindo o seu irmão direito passo a passo, ainda que este tropece. Mas, se já no primeiro passo, antes de uma caminhada, consentirmos que pelo nosso pé esquerdo, a iniciativa seja tomada, forçosamente, teremos que fazê-lo com mais cautela; haveremos de avaliar com mais atenção o terreno; analisaremos os nossos movimentos, ainda antes de executá-los; julgaremos a nossa postura corporal, com mais critério; deixaremos livres nossas mãos, e, sobretudo, haveremos de julgar serenamente, a conveniência da jornada empreendida; finalmente, sem nenhuma outra escolha, haveremos de contar com o apoio do nosso pé direito...
Note bem! Tão somente este nosso pé esquerdo e apenas ele, nos oferece esta prévia reflexão antes do primeiro passo; atendendo-o, algumas vezes, mudaremos o curso do nosso trajeto, antes que o nosso pé direito desastrosamente possa trilhar o caminho errado...
Que seja dada ao nosso pé esquerdo, a chance de iniciar uma caminhada, dando o primeiro passo; pois, ele mais que o direito, mais direito pode executá-lo...
Crônica de Elias Barbet
Camaleoa...
Séria e zen quando as coisas fluem bem.
Mais o meu natural mesmo é não ser normal.
Tenho asas invisíveis que só eu sei.
Só eu sei o tamanho,
Só eu sei o preço que eu pago, só eu sei.
Das estranhezas de minha alma.
Alma sincera, quando maliciosa, camaleoa.
Às vezes inflama e bum, explode!
Não ouse entrar sem total asserção.
Primavera fora de época,
Triste sem preconceito de ser...
Idealista sem inquisição,
Nômade com endereço certo.
Quem de verdade, sou eu?
Uma fulana,
Uma sicrana
Ou uma beltrana.
Quero morrer sem saber
Vai perder a graça,
A graça dos meus traços...
Eles escorrem e saem sem medo por aí,
Sem lei, invisível, indomável.
Chorando, chorando, chorando,
Esperando, desejando, possuindo...
Em chamas!
Liberta sem trama, sem máscara.
Só com um sorriso largo, seja feliz ou triste
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
O mar escutava-me...
Se estavas grávida, muito de novo, estarias, pois só hoje, deste à luz do sol, novas de tua prenhez.
Por linda e deserta praia, andávamos.
Tu e eu? Talvez! Tu, nosso filho e eu! Talvez!
Por livres e seguros, roupa, poderíamos nenhuma usar.
Agora, dois seres carregavas.
Poderiam meus olhos tuas pernas incomodar?
Não! Pois, se possível fosse, sonhando caminhavas.
O mar escutava-me! Só ao teu ventre, atenção davas!
A ti, em silêncio, pedia perdão, por quase tudo que fiz.
Só o mar ouvia-me! Apenas o mar, escutavas!
O mar dizia-me: Perdoado está, seja agora, feliz!
Sem receio algum, aqueles que com amor, deleitam a tenra vida, seguiam à frente.
Deveriam Alimentar meu desejo os seios da minha amada?
Responderam-me os grãos de areia: Amanhã talvez! Que espere o hedonista amante!
Alertava-me o mar: Deixe que caminhe em paz, por um novo ser, uma mulher apaixonada!
O azul dos teus olhos desbotava o anil dos céus.
Por mais lindos que fossem, antes, detinham-me teus lábios lindos.
Poderiam os meus lábios alcançar os teus?
Neste momento, assustou-me o mar dizendo com seus bramidos.
- Macho irracional! Não é filho de mulher? Já lhe disse, deixe-a em paz, não a toque!
- Espere! Continuou ele, pois a mãe da vida, para nova vida, livre quer ficar!
- Que em seu ventre, um novo ser, sossegado fique!
Se a mim, falava o senhor de todas as águas, dúvidas tive ao escutar.
Não conhece os pensamentos do homem, o mar!
Destas águas, nada ouvi; minha própria consciência falara-me, por preceito infundado.
Quero possuir esta mulher; antes e depois daqui, não há melhor lugar!
- O seu desejo, agora, não há de ser, e o que não deve ser, das minhas praias, será removido.
Assustei-me! Esta voz, só de um colosso viria.
Baixei os olhos, olhei para os pés da minha amada.
Seus seios avante seguiam; dos lindos lábios da minha razão de ser, ouvindo uma melodia.
Caminhamos livres, dois amantes apaixonados por uma nova vida.
Poema de Elias Barbet
terça-feira, 11 de outubro de 2011
"não.."
eles te esperam..
à curvatura da mobilidade equacionada por um lampejo-só
às pradarias incessantes de verve e de pele
e
lá,
eles te vêem..
(e-só.)
é simples assim,
por idéia de um conto breve
transgressivo ápice de novas-formas
e linhas.. e um fogo perdido por nunca querer esquecer(-se)
ou,
ao sonho mais que devolvido
ao preço que não pago por nem preferir, ou-olhar..
e lá,
eles te querem..
à terça parte de uma qualquer citação
à cena meticulosa e ao império-vasto de lúxurias
e
lá,
eles te fervem
(então..)
aos olhares curiosos de prévia e consumo
ao tempo profícuo de uma vitrine-véspera(sequer..)
ao resultado aparente
à
simetria. de uma manhã, talvez
mas,
embora me comprometam esses erros,
não.
eu sei que nenhum deles,
verdadeiramente,
te encontram.
nem um deles(nem à parte-próxima)
te são.
(te servem..)
Poema de Azke
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Auto-pista da praia
entregue à própria lassidão, neste casulo de ar condicionado e
silêncio, a duzentos quilômetros por hora. A pista é agora uma reta
sem fim, os pneus produzem um som de água correndo,a paisagem
pouco mais que borrões verdes na minha retina. Pequenas cidades
e povoados surgem e desaparecem, no zapear da velocidade, são
figuras que vão se amontoando lá para trás, comprimidas pelo
vácuo em suas vidas tranqüilas e pacatas. A bela Inês repousa do
mundo bárbaro. O caderno sobre o colo, a caneta presa na espiral
e servindo de marcador , a regularidade dos traços rafaelitas, acima
do bem e do mal, aprisionados num clic de máquina fotográfica. Os
seios de talhe perfeito, maciços, estufando a camiseta no relevo de
mamilos divinos, ainda eriçados pelo frio. Uma deusa pós-moderna,
Pégaso no braço, tentando alcançar o sol de tinta e raios trêmulos.
Fantasia versus Realidade, dizia a mensagem no celular. Nem
lembro mais do escore, apenas abracei-a e beijei-a, um abraço de
náufrago, um ismael escapando do afogamento, agarrado ao
esquife do companheiro, mas tragado para sempre, para dentro
daqueles olhos castanhos e subitamente inexpressivos, límpidos.
A calma suprema de quem contempla uma implosão muito longe,
Anos-luz de rápido distanciamento emocional e compaixão zero,
impossível de fingir, pois fingir nunca foi o seu forte; durante
alguns anos, foi minha fortaleza o fingimento, aturar a mulher que
não me amava mais, um casamento natimorto sem descendentes
a celebrar meu grande vazio. A natureza abomina o vácuo – nem
lembro mais quem falou; surgiu Inês em minha vida, uma neo –
-realidade suburbana, a sensualidade safadinha, sexo na cabeça
e na alma; chutei o pau da barraca, fiquei sozinho do jeito que
nasci, segurei pelos longos cabelos, aquela oportunidade de provar
que ainda estava vivo e buliçoso. Nunca moramos juntos, assim
exigiu, assim existimos. Dois anos e uma crônica de amor louco
para sempre inédita, pois nunca escrevi nada a respeito do amor,
além da sala de aula, dos modernos cânones literários, o suficiente
para o vestibular de qualquer coisa que termine em contra cheque
regular e aposentadoria decrépita e vazia, melhor dizendo, até um
ex-namorado ressurgir do reino das sombras e cravar a estaca no
meu peito arfante de quarenta roliúdes por dia. Estrepitosamente,
ridiculamente, caí de quatro, tomando todas, cafungando, sempre a
chafurdar na própria merda. Não sei quanto tempo fiquei nesse
esgoto, até que resolvi metabolizar aquilo tudo, marcamos um
encontro na praça em frente do cursinho; deixou a estranha
mensagem no celular. Chegou linda,sorridente, beijou-me de leve,
um beijo de lápide funerária, que me virou pelo avesso. Um abraço
cem por cento angústia, dor de corno em estado de arte. Comemos
um sanduíche na lanchonete em frente, convidei-a para uma volta
de carro; aceitou constrangida, rodamos um pouco pelo centro;
do rádio, Stevie Wonder e Superstition não me deixavam espaço
pras abobrinhas, a mente funqueava à toa, gaguejava pensamentos
e fragmentos. Na verdade não tinha mais nada a dizer, muito menos
ouvir, percebi ao contemplar o seu perfil. Parei e pensei. Olhei-
a bem nos olhos grandes, acariciei seus cabelos e atirei entre os
seios; aquele rosto não merecia ser estragado. Ela simplesmente
virou a cabeça para a janela e mergulhou no sono profundo. Dei
partida, peguei a autopista do mar e segui em frente; há dois
dias viajo com a rainha morta, Inês, que seria de Castro se um rei
traído não fosse eu e fossem as pessoas nas ruas, obrigadas a
beijar-lhe as mãos, tão belas e frias, em muda admiração.
Conto de André Albuquerque.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Caçada dos Instantes
É um antigo sonho que se rematerializa
Em formas insanas e incoerentes
Uma tela que se repinta em cores diferentes
Nela dois sinistros pequenos círculos próximos
Me perseguem pelo quadro de imagem árida
Penso que são seus firmes olhos
Mas são os penetrantes olhos de uma águia
Ao despertar não consigo conter o motim que há no leito
Dos fragmentos que surgem no meu ócio
Como um fino som agudo no peito
Surgido aos poucos no fundo do silêncio
Os fragmentos são meus queridos amigos fantasmas
Testemunhas únicas do louco nascedouro de minhas palavras
Arautos de um cruel pôr-do-sol que invade
O crepúsculo evasivo e selvagem de antigas horas
Mas lembro que antigamente as tardes
Eram mais tranqüilas, quase mortas
Na caçada dos instantes
Reverberam inúteis certezes cínicas, incessantes
Vigiando tempos
Perscrutando previsões
Acossando momentos
Tocaiando as ocasiões
Tudo constantemente uma coisa na outra implica
Nada nasce do nada
E até o nada se recicla.
Marcio Rufino
Todos os direitos reservados.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
A jangada
Tosca, rude, feita quase de troncos
Parece pesada, levada ao mar nos roletes
Entra na água, vai deslizando...
Tão leve que fica, que um ventinho
Um leve ventinho leva...
Lá vai a jangada que eu pensei fosse pesada
O jangadeiro equilibra parecendo dançar
Vento, jangada, jangadeiro e o mar
Dá vontade de pintar...
Poema de Victorvapf
Mar marrom...
Eu tenho uma arma...
Eu tenho uma arma...
Exercício N. 1
Pondera, pondera
Pondera essa fala tanta
Não adianta
Som de pressas
No meu silêncio
Espera
O verbo vir
Na primavera
Espera, espera
Deixa a palavra leve
Quieta, quieta
Quieta os gomos
Da tua língua
Cheia de dúvida e terra
Belém/PA, 05/10/2011
Marcel Franco
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Lembrete
só é possível porque
somos um bando de covardes
degenerados filhos-da-puta,
posando para si mesmo,
nus,
nesse hospício cheio de merda.
Eis o que somos, senhores.
Mas, sei que já desconfiam.
É só uma porra de lembrete
jogado ao vento!
Poema de Milton Filho
domingo, 2 de outubro de 2011
Cegueira
Ou não sonha ele, eivado de sentido?
Pode um esto gravoso que evola
ter sido por ele no sonho esculpido?
Podem um queixo, a maçã de um rosto,
serem no sonho tão bem desenhados?
Ou o cego não sabe, no sonho que tem,
incutir nas coisas os significados?
É a visão tão imprescindível?
É, de fato, preciso o olhar
pra que o mundo nos seja tão terrível?
Ou os olhos podem, sim, pintar
tudo o que nos for possível?
Preciso de olhos pra enxergar?
Soneto de Isaac Bugarim
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Epopéias vividas
Sua voz terna fogosa em versos e prosa já soa na mureta
com um bolor misterioso e atroz.
Ouvi um grito irritado com cheiro de betume fresco,
era eu livre com gesso.
Se soubésseis de que as imundices nascem e crescem.
Os meus versos não teriam ignomínia, qual será o ipê
amarelo das cercas? Qual será a planta ou erva tórpida
que vai nascer?
Não me preocupam os exércitos das epopéias vividas.
Hoje não há graça nas fábulas elegíacas, diabólicas,
gástricas e desmedida.
Quanto ao poeta estou nos versos nas vestes de tudo que
deve ser, pra muitos deve ser um despautério.
Não ao modo que pensam as outras pessoas, mas na minha
doce loucura sã e com meus mistérios.
Tem uns que a clemência foge e se justifica com a razão.
Mas eu não te esqueço, quase enlouqueço querendo seu
perdão.
Não deu história real feneceu antes de ter você, vou seguir
te esperando com um ensejo de não me matar vivo neste
desejo.
http://poetadefranca.blogspot.com/
O NOVO POETA. (W.Marques).
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Adolescentes na esquina - uma pequena crônica

Numa manhã de sol fui ao centro de Areia Branca, bairro do município de Belford Roxo onde moro, para comprar remédio. Cruzando a esquina da Rua Ribalta - onde fica um prédio que abriga uma padaria desativada - um grupo de cinco adolescentes trajando uniformes escolares ouviam num rádio em alto e bom som o hit Parado na Esquina do MC Robacena. O cenário denunciava o óbvio: os meninos estavam matando aula para curtirem o funk.
Entre eles havia um casal de namorados. A moça estava deitada com a cabeça encostada no colo do namorado (ou ficante) que estava sentado na calçada. Os outros três rapazes em pé riam com prazer, liberdade, descomprometimento. O menor deles dançava com uma debochada timidez - de quem tem o prazer em não mostrar tudo que é capaz de fazer. Uma coisa alí me seduzia; o descompromisso, a irreverência, o desafio e a beleza de jovens adolescentes em uma esquina celebrando a vida. O que importa se eu acho o funk uma porcaria? Se eu acho suas letras pobres? Se há pessoas que acham que elas e sua batida induzem adolescentes e crianças à violência, à pedofilia, à prostituição, ao crime e à promiscuidade sexual? O que importa se os adolescentes de hoje estão à mercê das drogas e da falta de limites? Tudo isso se apagava da minha mente. Até mesmo a crise na Educação; o conflito entre educadores e estudantes, entre pais e filhos.
Na fotografia da minha mente e do meu coração só ficava e fica até agora a cativante e envolvente imagem daqueles adolescentes parados na esquina, festejando o mundo na batida do funk; como anjos festejando o astral ao som de uma harpa.
Marcio Rufino
Créditos da imagem: Site Texto Online.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
O último verão
repousar nua, no leito de amor. Olhava as matas ao redor da casa, recobrindo
as montanhas, o rio corria distante, um tímido sol ainda escondido entre as muitas
nuvens. Os olhos fixaram-se na própria imagem, refletida pelo vidro da janela do
estúdio: um velho barbudo, magro, de olhar patético e perdido entre as mesas e
estantes. Ladeando a máquina de escrever, a foto oficial de Kennedy, àquela hora o
maior desafio da sua vida, tentar encontrar e reunir palavras no nevoeiro de seu
cérebro, para saudá-lo em sua posse. Ninguém escreve uma obra-prima saudando um
político, ele sabia disso, a assessoria da Casa Branca foi até bem generosa, pedindo
“umas poucas palavras“; mas tinha seu nome, uma coisa gostosa ou pesadíssima para
carregar e um Nobel de Literatura com a medalha pendente da parede ali, na sua frente,
acima da estante menor , brilhando conforme o sol cambiante do verão no Idaho. Não
poderia ser qualquer coisa; não era um discurso de abertura do campeonato de golfe,
era algo a ser lido na posse daquele jovem presidente, figura promissora e carismática
que solicitara conhecê-lo pessoalmente. Mas as palavras vagavam pela névoa a
que se resumiam seus processos mentais, sentia-se um velho general da guerra civil de
espada em punho, com a tropa em debandada, apavorada pelo próprio medo.
Ultimamente, viver era um périplo entre psiquiatras, editores, advogados da terceira ex -
esposa e a fuga de si mesmo, pois percebia o fracasso no sabor do whisky e admitia
que um homem pudesse ser destruído, nunca derrotado. Acariciava o teclado da velha
Corona, mas o espírito vazio e embotado, enxergava ali o ringue da derrota, sem
ninguém para jogar a toalha. Trocava olhares com Boise, sorriu lembrando a ocasião na
qual o bichano ingerira um dos seus comprimidos de seconal e usufruiu alguns dias, um
sono bastante tranqüilo, apavorando a sua esposa; o veterinário mais próximo ficava
a quase uma hora de carro. Martha se fora e Boise era sua companhia, sentado sobre
a mesa de trabalho, com o verdor do seu olhar crítico, que tantas vezes levara Ernest
a cortar parágrafos inteiros. Sacou a garrafinha de prata cheia de whisky e sorveu um
gole rápido e sem sabor de nada. Scott Fitzgerald presenteara-a no lançamento de
O sol também se levanta, babando pra Ava Gardner, que fingia ignorá-lo solenemente.
A solidão da casa antes ideal para escrever, afundava-o diariamente alguns metros
na depressão asfixiante, sempre batendo com mais força nas manhãs, desrespeitando
até os verões mais radiosos de Ketchum. Doença escrota. Mergulhava diariamente
naquela espiral de angústia e estupor destrutivo, à prova de todos os medicamentos,
passava horas contemplando as antigas fotos de Paris, do seu tempo de geração perdida
quando todos pareciam acreditar vagamente em algo, Deus, Marx, Baudelaire
ou na xota de Marlene Dietrich, que diferença fazia na época? Paris, em sedutora
decadencia; podia-se esbarrar em James Joyce, Picasso ou Ezra Pound e eles ainda te
pediriam desculpas. Paris, esquina do mundo, meca espiritual dos escritores e do vasto
lumpesinato artístico. Sobre a mesa próxima da janela, a caixa com o enigmático
presente de sua mãe: a caixa contendo a arma com que seu pai se matara. Depois de
tantos anos, aquilo parecia o prenúncio do seu triunfo sobre a depressão, a saída honrosa
de quem não conseguia escrever vinte linhas saudando Kennedy e a esperança de uma
América menos fascista. Mas achou tudo um desfecho de muito mau gosto: pegou a
carabina comprada na África, enquanto escrevia As Neves do Kilimanjaro. Sopesou-a,
sentiu a frieza do metal contendo aquele grande potencial de destruição, abriu a gaveta
da mesa, alimentou a arma com dois cartuchos, caminhou ao léu pelas salas, viu-se
no espelho, segurando aquela máquina de matar: um cartucho derrubava um elefante
em plena fuga; sentou no alto da escadaria, engatilhou cuidadosamente a arma, teve
o cuidado de tirar os dois sapatos, apoiou a carabina no terceiro degrau, acomodou
o cano na boca, contra o palato e acionou o gatilho com o pé esquerdo. A explosão
reverberou pela Ketchum sonolenta. Moise escondeu-se assustado sob a escrivaninha,
enquanto os pássaros voavam em debandada, lá no Idaho.
*** Ao escritor Ernest Hemingway, no cinqüentenário de sua morte (2011).
Conto de André Albuquerque.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Sobre a importância de Plutão e Caronte
daquele seu trabalho simples, natural, daquele seu cuidado às frágeis criaturas do reino
vegetal, é que ele garantia sustento. A contrapartida de suas mãos calejadas: o quarto
singelo para repousar o seu ser à noite, ante a gravidade da terra e o etéreo das estrelas
flutuantes, acima de sua cabeça; um bom prato de comida que Luiza preparava; e água a
vontade, para beber, lavar o corpo e dar de beber a sua verde companhia.
Daquela sua simplicidade singular irradiava o sorriso ingênuo, e um brilho por vezes inconcebível, que habita apenas os retardados e os mentecaptos. Diogo não entendia das
coisas do homem, cada cuidadoso golpe de sua enxada separava, paulatinamente, as
ervas daninhas das mais variadas espécies de plantas, e resultava em gotas de suor que
lhe corriam a face. O mesmo sol que possibilitava a fotossíntese castigava a sua cara.
Os elegantes moradores da mansão avançavam orgulhosos com os seus visitantes
através de caminhos cuidadosamente traçados, entre magníficas folhagens, as belas
flores e sublimes perfumes, mas mesmo estando ali, em meio às plantas, Diogo passava-
lhes desapercebido. E assim Diogo, abandonado na crosta terrestre, crescia para dentro,
deslocado da escória do ser humano.
Certa noite de primavera, logo após o crepúsculo, Diogo deu-se conta de um corpo sutil
e brilhante que recém avistara no céu. Então ele, como uma criança, correu e chamou
Luiza para compartilhar da descoberta. ‘Onde está, Diogo?’ Ele apontava com o dedo
indicador de sua mão esquerda, ao mesmo tempo em que fechava o seu olho direito,
num espetáculo de lhe tirar o crédito, ‘está lá, viste?’ ‘Pois eu não vejo é nada, hôme.’
‘É pequenino como um grão de areia.’ ‘Deixe de besteira que eu vou me recolher’, disse
Luiza, já imaginando que Diogo tivesse com segundas intenções.
As noites e os dias se desdobravam numa sucessão da mesma rotina, como que para
imprimir-lhes o duro signo da realidade, de uma vida tranquila e sem sobressaltos para
os patrões, do quotidiano sofrido dos empregados. Foi durante esse período que Diogo
acompanhou a aquiescência do firmamento ao surgimento de nova esfera celeste: esta
assomava em volume e brilho a cada anoitecer.
Todas as noites, um Diogo assombrado clamava por Luiza para compartilhar dessa sua
descoberta. Ela olhava, buscava, mas nada via. Ela procurava também perscrutar um
eventual desígnio secundário advindo daqueles miolos matutos de Diogo, mas este
esforço também, lhe era vão. Foi exatamente naquela noite quando Luiza finalmente
decidiu permitir-se e ceder à aproximação do seu corpo ao corpo de Diogo que, para seu
espanto, ela vislumbrou pela primeira vez a pedra celeste que se avolumava e avançava
perigosamente em rota de colisão com o planeta Terra.
Não tardou muito: os observatórios ao redor do planeta só tinham olhos para o
asteróide; os cientistas, alarmados, debatiam sobre as implicações e a possível origem
de misterioso objeto que viajava em velocidade assombrosa, cruzava o espaço, e seguia
em direção a nossa Terra. Os jornais sanguinolentos, os noticiários sensacionalistas da
tv, as páginas fúteis da internet, o assunto monopolizava atenções, causando verdadeiro
alvoroço, especialmente entre os mais abastados, os mais cultos e os eminentes, que temiam a ideia de serem esmagados como se fossem formigas.
Luiza observou um estranho paradoxo no transcorrer daqueles dias. Diogo permanecia
absorto pelas demandas com as plantas do imenso jardim na grande mansão. O seu
cuidado com as verdes criaturas era inabalável. À noite ele passava a admirar o
asteróide, como fizera desde a sua primeira observação da pedra celeste. Um estranho
brilho reluzia de seus olhos, algo nas entranhas daquela cabeça matuta e surrada pelo
Sol parecia começar a ferver a quentura das ideias. Diogo não precisava ir chamar por
Luiza para observarem juntos ao asteróide, ela vinha por vontade própria encontrá-lo,
beber daquela sua gradual e crescente sapiência.
Certa noite Diogo lhe falou da alquimia, que era para ele a supremacia do espírito sobre
a mente, transcendendo a matéria. Ele explicou sobre o conceito do grande regenerador,
sobre a necessária transformação pela destruição, queima e consubstanciação de velhos
aspectos imanentes para o surgimento de padrões organizacionais mais elevados. Luiza
ouvia a essa fala admirada, ao mesmo tempo em que pouco ou quase nada compreendia.
Outra noite parecia a Luiza que os olhos de Diogo tinham luz própria enquanto ele dissertava longamente sobre a mitologia romana e o deus do mundo inferior. Vez por
outra mudava o enfoque, mesmo o seu jeito de narrar, abordava a questão sob a luz de
diferente disciplina. Agora o tema era a astronomia. Diogo falava sobre um senhor de
nome Percival Lowell e o projeto de busca do nono planeta, denominado ‘Planeta X’, ao
alvorecer do século XX.
Com a aproximação gradual, verdadeira invasão do céu pela misteriosa esfera celeste,
que agora competia em área e brilho com a nossa Lua cheia (embora apresentasse
tonalidade ligeiramente mais escura e avermelhada), Luiza percebia que os donos da
mansão e os seus visitantes estavam às raias da loucura; de tão transtornados pelo medo.
Por outro lado, Diogo em sua simplicidade e pureza, parecia exultante com a boa nova.
Foi quando a área do asteróide no céu parecia uma ordem de grandeza superior àquela
da Lua cheia (i.e., pelo menos dez vezes maior), e a Terra dava sinais de claros de exaustão (através da intensa ocorrência de tsunamis, terremotos e a erupção de vulcões); que a comunidade científica admitiu finalmente, em um comunicado oficial à imprensa internacional, que o choque da pedra celeste com o nosso planeta seria inevitável, decretando o fim inexorável da humanidade.
Luiza, que assistiu à grave declaração em transmissão simultânea através de seu
ultrapassado televisor de tubo, estava inconsolável e foi ter com Diogo. ‘Você já ouviu
falar de Plutão? Esse, que já foi considerado o nono planeta do sistema solar, foi rebaixado no início do século XXI ao grau de planeta anão. Plutão e Caronte, o seu maior satélite natural, caracterizam em verdade um sistema binário, porque o baricentro ou centro de massa das suas órbitas está fora do volume definido por cada uma dessas esferas celestes’, disse Diogo com sua tranquilidade habitual.
Fato é que o asteróide continuou a crescer assustadoramente no céu e, quando o choque
e o fim pareciam inevitáveis, o seu movimento subitamente cessou, ao estabelecer com
a Terra a configuração de um novo sistema planetário binário no sistema solar.
Diogo despertou ao meio da noite, num sobressalto. Sua pele eriçada como se lhe
soprassem graves os ventos do espírito. O coração batia forte e descompassado, a ponto
de lhe saltar pela boca. Dada a sua natureza cabocla, matuta, ignara muito pouco ou quase nada ele apreendeu conscientemente de inusitada experiência. Mas, de alguma forma, esse conhecimento foi incutido às instâncias mais profundas de seu ser. Como a
semente que cai na terra, algo em seu íntimo foi posto em movimento.
Diogo passava os seus dias cuidando de imenso jardim na grande mansão. Daquela sua
simplicidade singular irradiava o sorriso ingênuo, e um brilho por vezes inconcebível,
que habita apenas os retardados e os mentecaptos. E assim Diogo, abandonado na crosta
terrestre, crescia para dentro, deslocado da escória do ser humano.
www.jorgexerxes.wordpress.com
Conto de Jorge Xerxes
domingo, 18 de setembro de 2011
Não sei porque chove Portugal
Não sei porque é tão má a saudade de ti
Não porque me vejo Portugal num Tejo de tédios
Quando te ausentas de mim
Não sei porque chove Portugal
Mesmo quando me vejo boreal
Na Paris dos teus abraços
Não sei porque chove Portugal...
Belém/PA, 15/09/2011
Poema de Marcel Franco
sábado, 17 de setembro de 2011
Negritude

Eu sou negro
Quero que meu tronco
Seja seu corpo
E minhas algemas e grilhões
Sejam seu abraço.
Eu sou negro
E não quero que você
Me venda
Quero que você me entenda
Quero que minha presença
Seja o real navio negreiro
Que me liberte do negro afro
E me leve a um sentimento ladino
Me leve ao encontro do negro latino
Dentro do complexo quilombo-continente
Que há em mim.
Pois, então venha
Que ainda sou negro
E meu maior segredo
É que nem abolições, nem cotas
São remédios, nem apagadores
Não desaparecem com as dores
De um passado cruel.
Por isso sou negro
Porque não quero
Que falsos sorrisos e hipócritas políticas
Substitua chibatas
Quero que o amor valha
Para além do samba e da cocada
Para muito além da feijoada.
Pois minha alma é incolor
E ao mesmo tempo tem todas as cores
Possui todos os odores
Que podes supor.
E não há como ser negro
Sem um pingo de maldade
Sem um pingo de piedade
Dentro do quengo.
Pois venha
E quando quizeres me seduzir
Não serei mais um simples negro
E sim a noite que se fez em homem
Pra te possuir.
Marcio Rufino
Todos os direitos reservados.
Crédito de imagem: Site Paixão e Romance.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Uma perna para o meu avô
o outro, com a alma gargalhando de ter enganado a gente, se minha mãe
não percebesse, tentando acordá-lo para a comida da manhã. Eu não gostava
de vê-la despertar meu velhinho, pois ele sonhava muito e passava a manhã inteira
me contando os sonhos, com um brilho nos olhos, que apenas fitavam de mentirinha
as montanhas distantes e as savanas. Eu olhava embevecido os seus olhos, que tinham
umas rodinhas brancas engraçadas abraçando as meninas dos olhos. Meu avô, Mahbub,
já não enxergava há seis anos; um médico americano, muito grande, de cara vermelha,
falou em catarata, mas viajou para outras terras antes de operar o meu avô e ele
continuou sem enxergar nada, mas nunca se importou com isso, pois seu pai, também
ficara cego e morrera do coração, há muitos anos atrás. O doutor explicou que os
anéis em volta das meninas do olhos não eram a catarata, mas também apareciam nos
olhos de gente velha; a catarata era mais pra dentro. Minha mãe ficou preocupada,
pegou o espelho e ficou olhando um tempão, o doutor riu e falou que ainda faltava um
bocado de tempo pros anéis dela nascerem. Depois, fez cara feia pra mim, pois soprei
nos olhos do meu avô, tentando mexer a água da catarata e vê-la. Mas a perna de
madeira, ele disse que ia demorar um pouco, mas chegaria no próximo carro da Cruz
Vermelha e deu à minha mãe um papel, pra ela receber a perna e botar no meu avô,
quando o caminhão de pernas passasse por lá. Fiquei muito triste, mas sabia que meu
avô estaria cantando e dançando, como sempre fizera, lá nas savanas eternas. Não
entendi o choro de minha mãe, que batia a cabeça no chão e exclamava maldição para
todos nós. Deixei que muita água saísse dela e perguntei pela maldição.
- Olorum nos castigará duramente, teu avó vai retornar para ele sem uma das pernas,
tudo no mundo é de Olorum , inclusive nós e nossas pernas. Isso atrai castigo, pois
Olorum nos deu tudo e tudo devemos levar de volta.
Aquilo tudo confundiu minha cabeça. Olhava ao redor, nada via além do meu avô no
calmo sossego dos mortos, sobre uma esteira; o toco da perna envolto por uma
manta; o cheiro da comida pouca oferecida pelos chapéus azuis enchia minha cabeça e
meu nariz, mas a fome veio e passou com a ventania lá fora.
Saí e vaguei pela aldeia durante horas.Vez por outra, passava alguém mutilado pelas
minas milicianas e eu imaginava quanta ira caberia no coração de Olorum, com tantas
pernas e braços roubados pela guerra. Mas quem estava morto em minha casa, era o
meu avô, o velho Mahbub, um homem bom e honesto. Não sei quanto tempo passei
vagando pelo campo. Voltei para casa exausto, mais de pensar que de caminhar. Se
meu pai fosse vivo, já teria pensado alguma coisa, mas eu sou Nanji, seu filho de doze
anos, correndo da fome e dos milicianos, com as minhas duas pernas e escondendo a
minha mãe, Abena, que teve um filho gerado à força, durante um ataque dos
milicianos, mas nascido morto pela graça de Olorum, inimigo da maldade dos homens.
Dormi um sono pesado e sem sonhos. Pela manhã, um cheiro de morte começa a crescer
em nossa casa. Minha mãe voltou a chorar e agora descabelava-se. Meu avô continua
na esteira, cercado de flores, nenhum vizinho apareceu, pela vergonha do defunto
perneta que obriga minha mãe a esconder a morte. As moscas varejeiras começam a
fechar o cerco; uma mancha esverdeada já aparece sobre a barriga do meu avô: a morte
fazia a sua parte. Novamente, andando a esmo, cheguei até o riacho, sentei na margem.
Do outro lado, vi Nassar, o mercador de peles, concentrado no seu banho, usando até
o sabonete dos chapéus azuis. Coração acelerado, atravessei o riacho pelo trecho mais
distante e cheio de árvores; dentre as roupas de Nassar puxei a sua perna de madeira,
esquerda, tal a do meu avô. Corri, o coração na garganta, a distender-me o pescoço.
Colocando a perna por dentro da roupa, na parte das costas, fingi uma outra alegria e
Pedi à minha mãe o papel que dava a garantia da perna de meu avô; ela me olhou,
olhos vermelhos de choro desesperado; agora, pura surpresa, pois não ouvira o
barulho da chegada do caminhão das pernas; não respondi, não sabia mesmo o que
dizer. Tirou o papel de um bolso, entregou-me, em chorosa desconfiança. Escondi a
perna atrás do depósito d’água,caminhei até o prédio dos chapéus azuis, entrei na
pequena sala de espera, um deles sorriu meio esquisito, olhando para o relógio. Falei
que estava doido por um dos chicletes de menta, chegados semana passada. Ele
levantou da cadeira, passou por um corredor, enquanto eu abria sua gaveta e carimbava
“ ENTREGUE. ONU “, no papel todo amassado. Recebi sorridente o chiclete
presente do tenente Jones, que fizera, sem saber, a grande ação de sua vida.
Conto de André Albuquerque


