Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



terça-feira, 1 de novembro de 2011

Quarenta motivos para te amar

O dia amanheceu frio e chuvoso, apesar de plena a primavera. Tomei o meu carro, segui
pela estrada sinuosa, através da paisagem bucólica, o verde vivo a eclipsar a cor cinza do céu, cercavam-me os montes aqui e acolá, com a estrada a desvencilhar-se deles, em vã tentativa.

Um caminhão lento a minha frente carregava folhas secas como se estas fossem barras
de ouro, leves como penas, a circunscreverem fluidos remoinhos no ar, espalhavam a bondade dessa riqueza aos mais pobres – provavelmente ele chegaria vazio ao seu destino. Imaginava que não houvesse nada tão triste quanto à faixa dupla, contínua, amarela: não ultrapasse!

Foi quando me apercebi de uma árvore a captar, inerte, a lúgubre paisagem. Encerrada
ao silêncio de seu tronco, acenando lenços vivos de folhas verdes, intensas, sabe-se lá por que, através dos seus múltiplos ramos, quantos são os braços de Vishnu. E aquilo me deu um aperto no peito, que é como deve se sentir o velho poeta, sem inspiração já há quase um mês.

Quando isso acontece, é comum achar que o mundo se parece mesmo com o branco e o
preto dos jornais, numa sucessão das mesmas coisas, que as pessoas não vão mudar, que a poesia não tem sentido, que ninguém quer saber da luz dos vagalumes, ou do rastro de uma estrela cadente. Acredito: estão todos enganados. Posso provar isso enquanto sopro o dente-de-leão. Mas a minha certeza é efêmera, num segundo, ela desvanece.

Então me dei conta de que hoje é segunda-feira, que estou indo para o trabalho. Só pode ser isso, como naquela seqüência de caricaturas de um carinha com os dias da semana anotados embaixo; porque entendi que ela vai melhorando, à medida que os dias passam. E eu não posso ficar parado.

Há tanta coisa por fazer, para te dizer, dessas coisas urgentes, como uma nuvem, samba num boteco em dia de chuva ou quanto aos poderes afrodisíacos dos bigodes de um gato. Hoje percebi que precisarei ficar até mais tarde, que precisarei fazer serão do fim de semana. Dou um cavalo de pau na pista, a poeira sobe, os motoristas se assustam, metem a mão na buzina. Acho que quase os despertei.

Agora me lembro da noite de ontem: enquanto eu e você estávamos acordados, todos os
outros dormiam.

estrada sinuosa
o coração
aquele verde insuportável
a cor amarela
a cor vermelha
montes aqui e acolá
barras de ouro leves como penas
remoinhos no ar
diamantes comestíveis
a bondade
pernas longas de um grilo
a riqueza
as guelras de um peixe
a inspiração
cartas de baralho
o destino
lenços vivos
folhas imensas
bolinhas de sabão
um poema sem sentido
vagalumes indicando o caminho
tronco de uma árvore
o longo rastro da estrela cadente
nuvem
uma certeza efêmera
dente-de-leão
os bigodes de um gato
a eterna dúvida
samba num boteco em dia de chuva
esticar o fim de semana
cavalo de pau na pista
muita poeira
e mão na buzina
o mar
o sol
uma paisagem bucólica
rede de descansar
um barco distante
vaga lembrança
o movimento dos braços de Vishnu

www.jorgexerxes.wordpress.com


Conto de Jorge Xerxes

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Pode marcar a hora e o lugar

venha bem vestida
na melhor roupa
como se fosse o último bolero
rasgando dentro de mim

beije-me demoradamente
me olhe do jeito que sempre sonhei

numa palavra rude
rasgue-se em pulsos suicidas
em plena Colômbia junto aos guerrilheiros

só não venha no meio de um banho no chafariz
muito menos na melhor noitada
sem futuro que ainda viverei
também não seja besta igual uma queda de chuveiro!

morte acho que vou te matar!
você que mata tudo...
vais morrer em decepção
...já ando morrendo há tanto tempo
(que posso respirar em seu pescoço)
-E te aviso:
a conta não fecha nunca!

(em mel e enxame)

Poema de Vânia Lopez

domingo, 30 de outubro de 2011

A gente se acostuma...

TODO HOMEM É UM EDIFÍCIO

Mito

nada no silêncio
enquanto
tateio
teu rosto marmóreo
— brevíssimo
pequeníssimo
homem
uma sombria
espera
e
porquanto tudo é sonho e
carícias
máquinas além nos espreitam
irmãs
serenas nuvens
viçosas
são teus lábios conjuntos
e
minhas gotas
de pérola
logo atrás
em meio às quais
por intermédio do silêncio
a espera
torna-se
muito.

Órgão

a ferrugem no oxidável
sua gangrena
único meio de amputação

ferro umbilical

da umidade da neblina
a viga escura adoece
escorre no vão, nela, salobras,
ácido puro,
nuvens e nuvens de oxigênio

o desgaste, assim, do todo a nada se compara
elegante ruína

quando enverga sem gravidade
enlaça, sem ruído, a Morte.


Tempo Ausentado

(...)

pouco falta
a prolongar-se
no eixo
a vizinhança das coisas.


Poemas de Sodine Üe

sábado, 29 de outubro de 2011

A carroça de leite

De madrugada eu escutava quase dormindo
O barulho da carroça do "Cabo Quinze"
"Matraqueando" nos "pés-de-moleque" da calçada
Até parar na porta de casa

As garrafas de leite batiam umas nas outras
Deixava o litro no alpendre de casa
Lá com certeza, já estava o pão...
Meu pai, conversava baixinho, eu ouvia

Esperava o jornal que era jogado lá da rua
O barulho agora era o jornal que batia na porta
Meu pai mais que depressa levantava
Queria saber das notícias do dia

Viro na cama
Puxo as cobertas
Ainda bem que hoje é sábado
Durmo novamente!

Poema de Victorvapf

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

The Pirate's Hat: The Giant Man And His Worst Poem

Here I'm, lost, in a city full of lights
learning by the hardest way
to ignore all the sights.

Where were you when they turned off the lights?
When I dreamed alone
things that are already faded and gone?

I'm the worst memory from myself
and, strangely, it is what makes me keep on,
'cause even when I can't rest
there, in my mind, something to hold on.

And what all it means?
Well, I don't care..., thats what I like over it
an open door, and the most beautiful desire of ignoring the exit
for a man that learned that there's no future or past in the dreams.

Poem by Elvys Brito

Tradução:

O Chapéu do Pirata: O Homem Imenso e Seu Pior Poema

Aqui estou eu, perdido, numa cidade repleta de luzes
aprendendo, penosamente,
a ignorar tantas paisagens.

Onde você estava quando as luzes se apagaram?
Quando eu, sozinho, sonhava
coisas há muito mortas e sem brilho?

Sou minha pior lembrança
e, estranhamente, isto é o que me fortalece,
pois, malgrado não consiga descansar,
lá, em minha mente, algo persiste.

Qual o sentido disso tudo?
Ora, não me importo..., este é o meu modo
uma porta aberta, e o mais belo desejo de ignorar a saída
para um homem que aprendeu que não há futuro ou passado nos sonhos.

Poema de Elvys Brito

As irmãs Fox

As pessoas chegavam e sentavam-se ao redor da velha e robusta mesa, de madeira

escura, coberta por uma toalha muito puída, livros religiosos e muitas folhas de

papel em branco, lápis apontados, um tinteiro, duas penas. Mr. Duesler contou os

presentes, fechou a porta, lacrou-a com cera, depois de olhar fixamente para

Margaret e receber o discreto assentimento daquela cabeça jovem e tumultuada. Pensou

por trás do antiquado cavalheirismo, que aquilo tudo,poderia ser uma farsa grotesca,

às custas um trabalho desgraçado, com excelentes dividendos para a fé. Por Deus,

uma vez em ação, aquela frágil criatura suava por todos os poros, rangia a bela

dentadura; num esgar demoníaco e assustador, cruzava os braços, estalando os ossos,

franzia o cenho à maneira dos endemoniados, órbitas brancas por olhos revirados,

tal as estátuas da antiguidade. Nesta noite, acompanhava Mr. Duesler, um homem alto,

magro, jovem, de feições finas, queixo resoluto, modos muito reservados, num olhar

seguro e inquieto, musculoso apesar de magro – indicava-o o relevo de suas

coxas, sob a calça de tweed, enquanto sentava, pensativo com o seu chá, em singular

e cabisbaixa vaidade. Contemplava a mão direita, ostentando um pequeno anel de pedra

vermelha e saliente, no dedo médio, distraidamente girado pelo polegar; uma boca de

lábios finos, emoldurada por um ruivo cavanhaque, envelhecendo-o uns bons dez anos.

Observava agora Kate e Margaret, mas em erudita e curiosa atenção, digamos assim,

quem estuda uma dupla de raros espécimes de borboleta, bem fixados por alfinetes e

sob uma potente lupa. Tudo sob o controle da gaia ciência, pensaria aquele jovem

cético,tão britânico em sua frieza, devolvendo a xícara vazia ao aparador próximo de

sua cadeira. Levantou-se ao aceno de Mr. Duesler.

- Irmãos, apresento-vos o Dr. William Crookes, da Sociedade de Investigações

Psíquicas de Londres, estudioso de fenômenos metafísicos, convidado para observar in

loco o trabalho das irmãs Fox, anunciou a voz empostada de um vaidoso Mr. Duesler.

Apresentou-o primeiramente a Katie, entre sorrisos tímidos, até constrangidos de

ambas as partes. Margaret mantinha-se calada; como de costume, abandonaria o

mutismo, após todos se acomodarem ao redor da velha mesa de carvalho, com uma

vela posta no pesado castiçal, que logo seria acesa, com o desligar da iluminação a

gás,no início dos trabalhos.Katie observava aquele moço velho,sentindo-se assustada,

imaginando a distância percorrida pelo cientista; mais um daqueles movidos pela

fama das irmãs, que faziam girar mesas pesadas e grandes, com auxílio dos espíritos,

ajudando a descobrir e prender o autor de um assassinato que abalara a pequena e

sonolenta Hydesville, alguns anos atrás. Imaginava quanta coisa teria visto um

homem com tanta ciência e liberdade de ir e vir onde quisesse, falar com quem

quisesse,talvez flertar com algumas garotas mais desinibidas,enquanto ela e a

irmã, tornavam-se um tipo de atração circense naquele fim de mundo,conquistando

uma notoriedade que não as impedia de seguir acordando pela madrugada, ordenhando

as vacas, tirando água do poço e ainda cuidando da casa e do pai severo, viúvo desde

os trinta anos, pela tuberculose que lhe tomara a esposa. Hydesville, apenas uma

parada no meio do nada, vizinha de New York apenas três centímetros medidos no

papel do mapa; na prática, um mero intervalo empoeirado entre o nada e coisa nenhuma,

em 1847. Margaret fitava os sapatos londrinos do Dr. Crookes: novos, mas

arranhados, sujos, brigando com o restante de uma aparencia meio dândi para um

cientista, retratado pelos jornais, como uma espécie de caçador de fantasmas,

preciso e implacável com os fraudadores que desmistificara; àquela altura, uma

legião,sentados todos à mesa, as irmãs, Mrs Redfeld vizinha e propagandista de

primeira hora daqueles prodígios, Mr. Duesler, pastor e juiz de paz, sério e

ascético tal um mongeem seu trajar pietista, Dr. Crookes e Stephen

Smith, pai das moças e dono da casa, uma face onde a desconfiança e a mais

autêntica perplexidade alternavam-se em tragicômica sequência. Apagado o bico de

gás, a sala ficou um instante às escuras, até a luz da vela encorpar-se e

ganhar força. Seguiu- se a recitação das orações de costume, por Mr. Duesler;

ao final, um silêncio opressivo dominou a sala; quebrou-o a voz de Margaret,

solicitando dos presentes silêncio e pensamentos voltados para Deus, com um olhar

de soslaio e antipatia para o Dr. Crookes, lembrando do ceticismo que polvilhara

pó de arroz ao redor de todas as cadeiras e solicitara o lacre com a sua própria

cera, da porta da sala – suas condições para publicar um artigo sobre os

fenômenos , na prestigiosa revista da Sociedade de Investigações Psíquicas

de Londres; tirando do território do burlesco e da desconfiança, os

acontecimentos de Hydesville, convencendo o mundo da natureza espiritual e

divina que regia tudo aquilo; uma tese defendida há meses, por Mr. Duesler, de

dedo em riste e face em congesta convicção, durante o culto dominical.

Margaret solicitou que todos se dessem as mãos, para concentrar a energia do

ambiente; seu rosto contraiu-se num espasmo medonho enquanto um frêmito percorria a

mesa em toda sua circunferência,surpreendendo os presentes, que sentiam o móvel

sendo empurrado contra os seus braços, elevando-se do piso. Um forte cheiro de

ozônio saturou rapidamente a sala. Mr. Crookes sentiu todos os seus nervos tensos, a

serviço dos sentidos. Conseguia manter a tranqüilidade, olhando ao redor, mas a semi-

escuridão parecia espessar-se a cada olhar seu. A pesada mesa agora oscilava. Depois

de alguns minutos, retornou lentamente ao solo, o cheiro de ozônio começou a ficar

mais rarefeito. A cabeça de Katie, começou a liberar pelos ouvidos e pela

boca, uma substância vaporosa e luminosa, que parecia expandir-se na progressão

do transe silencioso e trêmulo. À luz mortiça da vela, a substância começou a

condensar-se em duas formas humanas, um homem e uma mulher, rostos indefinidos,

abraçados e nus, em meio a um magnífico e luminoso jardim. A mulher ofereceu uma

maçã ao homem fosforescente, que recebeu a fruta, enquanto uma serpente saía do seu

flanco esquerdo, picando-a furtivamente no pescoço; os rostos indefinidos

eram agora os de Katie e do Dr.Crookes. Exclamações de terror e surpresa

tiveram início, as pessoas ora rezavam aos gritos, ora gemiam de puro medo, voltadas

para uma Katie agora imóvel e de feições serenas. Dr. Crookes, reconheceu a cena de

um antigo livro religioso; estupefato, pulou da cadeira e acendeu o bico de gás; a

substância refluiu imediatamente para o corpo da médium. O cientista aproximou-se de

Kate, a tempo de constatar a sua morte e verificar-lhe o pescoço, perfurado por

dois orifícios diminutos e paralelos,talvez o preço por conhecer o Paraíso.




Conto de André Albuquerque




OBS: Ficção sobre pessoas reais e fenômenos paranormais, observados em 1847 ,

em Amytiville, nos EUA .Os acontecimentos narrados, são produto da imaginação

do autor , exclusivamente .

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O céu, o ar, o amor, o amar

céu
cu é
é cu
ué

o ar
ora
agora

garoa
chora
aurora

no mar
namora
o ar

ramo
amor
mora
em roma

embora
mera
maré

eram
mear
arme
o mar
o céu

ao léo
óleo
olé
elo
melo
elmo

moar
moer
amar
morrer

roer
o réu
no erro
no céu

eu
caô
oca
coa
o céu
da boca

Poema de Isaac Bugarim

"a referência"

ainda.

referência. e iniquidade
o teu: passo-oblíquo
a tua única(carta)
paragem
(inverdade)
exemplo.
e,


ainda.

meticulosa (in)versão
anagrama de mente
de pele
de repente e ao tempo que te denuncia
eu,


ainda(te sou).










..




qual dispêndio

arma-enviesada
turno e noite
posto-desigual
lado-água
parte: carne.
e
hábito.de te crer
espécie:
tua.
nua.
única.
e,


ainda.

facial
curva-absoluta
multiforme ensejo
pré-vício
pretérito(fixo)
e,


ainda(nome-teu.)

ah,
alicerce..

rege à calha que me contamina
teu lépido erro de me instigar
o teu crime.(acima.. é) absorto de vivência
é facto, e: acto ausente
e

ainda(de ti,)
o sempre.


e a:
referência.









Poema de Azke

Dois em um...



Quem dera todos os dias
Esse olhar, essa alegria.
A vida deu voltas
E numa dessas, trouxe-me você. 


Sinto que você, da minha vida,
Não passará assim sem nada deixar.
Tudo é especial e inebriante
Quando na rua caminho contigo. 

Mãos rústicas que quando tocam em mim
Se convertem, ficam leves.
Sinto o mundo vazio,
Ouço o vento declamar poesias de amor.

Sinto meu coração cheio,
Transbordando emoção.
As sensações são mágicas,
Singelas e pequeninas. 

Quando de repente acordo,
Me vejo sem eira nem beira,
Com meus pés com poeira
E só, sozinha pelas ruas, chorosa. 

Meu caminho é distante do seu,
Mas nossos corações
Caminham em sintonia
Numa só melodia. 

Sinto você em mim,
Mesmo partindo.
Sinto você tocando em mim,
Mesmo estando numa multidão. 

Esse castelo cheio de dragões
Que você criou na sua mente
Para mim são inexistentes,
Apenas um medo profundo de errar. 

Mais somos iguais.
Você não acha,
Se engana o tempo todo
Dizendo isso, aquilo. 

Mais somos um.
Por ironia?
- Creio que por poesia
Poesia torta por aparência
Certa por uma questão de alma.


(( Camila Senna )))

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Soneto a Judas

Amar o próprio Judas não é coisa
A quem não renuncia altar vetusto,
A tantas crenças vãs que a muito custo
Turvam o pensamento, frágil loisa.

Amá-Lo contra todos os discursos
É ter a mente sã do criminoso
É sentir afinal o imenso gozo
De trair o que trai nossos excursos;

Ter na boca malditos padre-nossos:
“Ó Senhor, vinde Vós a nosso Reino
Reduzir as doutrinas a destroços;

Revelai as agruras do desejo,
Todo o mal desta vida na qual treino
Beijar os meus irmãos com vosso beijo.”

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Putaria Puritana

Heterossexual
Homossexual
Pansexual
Tarado por animal
Ou por vegetal

Normal anormal
Amoral hormonal

Pedófilo
Necrófilo
Sádico
Masoquista
Sadomasoquista

Voyeur
Assexuado
Depauperado
Remédio azul
Paudurecência de Itu

Sexo sem amor
É sexo seguro

Calcinha comestível
Camisinha musical
A viúva negra
E o reles mortal
Gozo fatal

Entre quatro paredes
De quatro 24 69
Troca de casal
Garganta profunda
Tamanho do pau

Entre quatro paredes
Vale tudo
Mordedor e luva
De boxe pra cada
FIGHT

Primeiro round
Levado a nocaute
Já pro chuveiro
Volta pro treino
O amor na mão
Asas à imaginação

Padre emprenha freira
Nasce coroinha
Cemitério clandestino
A noviça e o menino
O sexo dos anjos
Putas e santos

Poema de Andri Carvão

domingo, 23 de outubro de 2011

Fôrma

As palavras resumem meu sentir,
meu pensar,
por conveniência do manequim.
A poesia é isso,
uma roupa de gala. Apertadíssima.

Poema de Milton Filho

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Gavetas purificadas

Hoje acordei justiceiro
com fome de arrumar as gavetas
que vivem sempre abarrotadas
de coisas sem valia, sem perdão
cujo prazo de validade ficou para trás,
sendo assim condenadas
ao cesto implacável da cremação,

são fotos sem enquadramento
sem pé nem cabeça,
são porcas e parafusos enferrujados
que habitam, há anos, em um tupperware lacrado,
são contas e mais contas pagas e amareladas
cansadas de esperar pela audiência
de um único credor desconfiado,
são receituários antigos de médicos tão velhos
que já não curam a urticária, quanto mais a ansiedade,
são receitas de bacalhau que nunca viram a luz do sol
muito menos o fio de azeite dançando
sobre suas postas imaginárias,
são baterias semi descarregadas
atracadas com aparelhos de celulares pré-históricos
com rabichos e rabichos de carregadores
que por não se encaixarem aos demais equipamentos
tornaram-se casmurros e solitários,
são calças e blusas magras de marré de si
que só fazem lembrar de um passado Zero Cal
longe das bombásticas tentações achocolatadas,
são emoções baratas que já não surtem efeito
neste velho coração bandoleiro
cansado de películas antigas em VHS,
são superstições tão bobas, de um garoto suburbano
que não fazem frente
ao menor dos sintomas de um TOC,
são roupas vermelhas e brancas
de uma era em que se acreditava em Papai Noel
e em políticos politicamente corretos
que não tripudiavam sobre caseiros ingênuos,
ou secretárias sagradas,
nem roubavam merendas escolares;
são esperanças envelhecidas e malsãs
de um dia ganhar o mundo à revelia
fincando uma bandeira em cada canto do planeta

e tem também a gaveta dos projetos esquecidos
dos anseios desnecessários
das canções abandonadas e sem festivais
e, sobretudo, o último compartimento em desalinho
aquele dos amores acontecidos
do qual, sem antes titubear,
rasguei uma foto de Maria
cujo verso mentia em letras garrafais:
te amarei por toda a minha vida...

Poema de Betusko

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Domingo no Centro

Pelas ruas desertas da cidade
Na tarde ensolarada de domingo
As pedras mudas do calçamento
Estão incrustadas de tédio.

Nas opulentas escadarias
Da igreja matriz
Dorme um bêbado:
Por seu corpo ainda jovem
Passa um tremor intermitente.

É triste, sob o sol,
Em meio à beleza do dia,
Ter pensamentos sombrios.

Enquanto caminho, ninguém vê,
Mas à minha volta esvoaça
Invisível horda
De fantasmas do passado.

Poema de Jean Soter

de poeta pra poeta

poeta,
tira o teu da reta
que não vale a pena,
engaveta
o teu poema.

poeta,
segue teu rumo,
que o poema
não tem consumo.

em resumo,
solta esta caneta,
quebra este teclado.
tudo que está na gaveta,
ao teu lado,
tu queima.

faz o que te digo,
não teima.

deixa de ser besta,
tira da tua testa
este rótulo
de poesia.

ninguém quer o teu soluço,
o teu percusso
a ninguém interessa.

peça as contas,
faça a trouxa,
vá embora.

engole o choro,
engole o pranto sonoro
que ninguém ouve.

mas se poeta quiser ser,
guarda silêncio.
o teu silêncio
é o melhor poema

Poema de Isaac Bugarim

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Confusos sentidos, fiel sentimento...

Muita vez, enquanto sentinelas, desejamos que quebre a nossa vigilância, o sono; assim, presos pelas suas escuras vendas, podemos encontrar liberdade nos sonhos; com efeito, neste momento, livres dos grilhões da vigília, raramente, dormindo estamos, ou antes, enquanto estamos sonhando, raramente, nos vemos em sonhos, dormindo.
Esta confusa ilação, creio que fora concebida em longa vigília, que me torturou durante os meus cinco dias em que passei “as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro”*. Assim, “do pouco dormir e do muito ficar acordado” *, fui mesmo ficando confuso, de tal forma, que quando consegui dormir, me vi em sonhos dormindo, ainda assim, não perdendo a esperança de tudo ver às claras; se é que, possível é, em sonhos assim ver! O certo é que quando me despertei, quis entender que cada uma das minhas vigílias futuras, nada mais seria que um período de tempo que se bem tolerado, ainda que longo fosse, ensejaria a minha oportunidade de contrair o direito de receber em recompensa pela espera, ainda que curta fosse, novas ilações pertinentes ao mundo dos acordados.
Em vigília ou não, quando surge confusão, ainda que pequena, arrasta consigo, outras, e por vez, grandes; assim acordado em sonho, enquanto dormia, ou talvez, acordado esperando o sono, concebi estes versos:

Pode ludibriar nossos sentidos uma suave essência?
Sim! Pois ao ouvir o perfume da tua voz, não me contive,
Ou confuso fiquei por momentânea perda de consciência.

Se confuso estava, poderia sentir o doce gosto de tua pele, se pudesse te tocar!
Não! Confuso não estava! Pois, sei que dos sonhos, tu não vens!
Mas, se queres dominar o meu sono, o que devo fazer, em vigília, contigo, para ti dominar?

Assim tenho vivido, ou antes, quando acordado não estou, assim tenho dormido.
Resta-me para sair deste desarranjo mental, consultar meu coração.
Mas, só posso fazê-lo, ou antes, só poderia fazê-lo, se ele não estivesse deprimido!

Inertes, desanimadas, indiferentes, são as vítimas da depressão!
Assim não estou, logo, hei de me ver reagindo.
Sinto que meus sentidos, ainda que desorientados, não fazem calar meu coração.

E ele, tão forte pulsando, adormecido não pode estar.
Pois, que valha por regra!
Um coração que não se rende ao sono, motivos tem para querer nos despertar...

Pois que assim seja, estou de olhos bem abertos, para senti-lo no meu peito, falar.
Que fale, pois, para ouvi-lo com atenção, atentos estão meus ouvidos.
Mas, se possível for, que fale antes, o coração da minha amada, pois, em seu peito, dúvida nenhuma vou encontrar.

* - Da pena do meu queridíssimo Cervantes, saíram estas referências ao meu amantíssimo “Cavaleiro da Triste Figura”.

Crônica de Elias Barbet

Sorriso Russo




não olhe para mim
com essa cara de moscou
esses olhos orloff
seu sorriso russo
sem mais montes urais
partindo-me em dois
causando o cáucaso
não invoque vladivostok
nem me toque
ingrato, ingrato
leningrado
isso não vai ficar assim
ainda saio da miséria
te largo na sibéria

Lucas Viriato

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

"mar.(minha) revelia"

"mar. (o que) sou"









um,





trepido recife
cume(se for..)
insólito-ponto
alheio, e. refreado frio
indecente e in.salvo
ao dedo que te conta o início
ao tempo. que te sonha(afinal)
termo(obsessivo)
e
nada-mais
(até..)






é. a lua que não te quis um terço?
ou



é você que não te deixa ir..?













..





ah, mar..



alicia-te.
da parte e da mácula por um só erro quando(lhe) vier..
eu,









termino.
e
desencadeio trovas à quase-peça que te preparei
incendeio o meu acto de águas e vésperas
e





apenas. porque não te re-conheço..






(cá.)
farto-me de te exercer.

























Poema de Azke

domingo, 16 de outubro de 2011

Suco de montanha

Pegue cento e cinquenta metros de montanha...
De preferência que seja de Minas
Triture o ferro até virar pó
Coloque tudo, diariamente em 70 vagões

Leve ao porto de Vitória
Entregue no Japão
Derreta tudo, separando o ouro, subproduto
Construa bastantes carros

Mande-os para o Brasil
De preferência para

Minas...

Poema de Victorvapf