Manifesto do coletivo Pó de Poesia
O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.
Creia.
A poesia pode.
(Ivone Landim)
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
O dejeto
Causa asco,
Fede,
É humano? Não.
Ou sim.
Vai saber o que é este ser!
Mas, adubada as plantas,
Não ingerimos essa merda?
Poema de Milton Filho
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Um pouco de muitas....
Chacoalhando a vida
Plantando flores na avenida
Colhendo pó, dor e despedidas.
Um pouco de Pagú
Arteira, amante do interno
Moderno da revolução,
Revoltada interrogação?
Um pouco de Maria...
Várias Marias,
Parida com manias
Intérprete de mim mesma.
Um pouco cigana
Sem umbanda, sem nome...
Cheia de cores, com flores na saia
Girando, gingando, cantando...
Um pouco indecente
Singela criança
Carente com dentes
Urgente semente.
Assusto...
Chuto o pau da barraca
Não temo ninguém e a nada
Intensa, ansiosa, corajosa...
Quando erro, boto a cara, não nego!
Sou lembrança...
Esperada do destino...
Sou dedicada às vidas que a minha deu.
Sou barulho...
Quando pensativa e muda,
Culpo a lua, a xingo de puta.
Tantas se encaixam em mim
Tantas moram em mim...
Sou muitas,
Sou nada,
Sou estrela
Sou terra batida
Sou fera ferida
Sou abrigo
Sou o ódio
Sou o amor
Sou poeta!
Escrevo para não morrer de dor
Sou quem você quiser,
Sou quem eu quero ser.
O que bem sabia de mim,
Não está mais aqui, deixaram morrer!
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Dois poemas de Joelma Maia
E que haja sempre um bom vinho
Quando os pirilampos alucinados
Com o cair da tarde nesses beirais
E mergulhados em passiva devoção
Os amantes infiéis dos rigorosos invernos
Solidários cantam em seu mais grave tom
A canção dos aflitos. Benditos sonâmbulos!
Perdidos na boca da noite fria,
Essa aflita viúva desamparada
Que propaga a solidão dos véus
Imortal seja essa ponte passiva
Para tão espetaculosa anunciação!
Um minuto de silêncio
E escuta-se apenas o murmúrio
Das águas que descem
Para regar essas sementes
Agora jazem soterradas
E para selar esse momento
Ouvem-se apenas águas, águas...
Mares que brotam de tantos olhos
Que já mortos, ainda vêem!
Poemas de Joelma Maia
domingo, 6 de novembro de 2011
Homenagem a Carlos Drummond de Andrade no Novo Blog Comtexturas
Nasceste de carne e osso.
E de tanto viver entre montanhas e respirar sobrados
adquiriste o ferro de tua cidade. Por muito tempo
não soubeste se teu corpo
tinha mais da matéria orgânica
ou da metálica.
A vida provinciana que ruminavas
em ruelas paradas e poeirentas
tua vida desafogada e escassa de boi resignado e inócuo
e até tua vida exposta cruamente nas livrarias
das pequenas e grandes cidades do país
habita hoje involuntariamente o dia a dia
de banhistas transeuntes taxistas
besuntada em bronze e azinhavre
perfumada de uma inalcançável maresia.
Os miúdos olhos boiando em complacência
mesmo quando alguém lhe rouba os preciosos óculos.
A cabeça francamente doada ao passeio das aves
e às primeiras gotas de chuva
do inverno de Copacabana.
Enfim o metal em ti prevaleceu.
Te veste essa nudez de ferro
que não se dissipa (de estanho e cobre
os teus pecados?). Mas mesmo imóvel e imortal
rígido e indissolúvel como um teorema
ainda pareces — ainda és — humano demais.
Poema de João Lima
Visite o meu blog, que acaba de ser reformulado!
www.comtexturas.blogspot.com
sábado, 5 de novembro de 2011
o indício
onde combinam estes adereços?
à lua enfileirada no céu(este-tão) obscuro..
à. lentidão destes lapsos de ar..
maria..
é este meu tombo que te compromete?
às minhas sub-visões em raptos/passos de criações-vís?
à condição e sub-humanidade, e
à prova de?
maria..
cortam-me os sonhos.
e a tua febre alivia esta lâmina-fria que deitarei em canto(carnívoro) de ti
à minha culpa. e ao crime de te querer mais(um pouco.)
maria..
versa-me aos ouvidos
deixa-me entre-cortado por uma véspera/moeda qualquer..
me revoluciona o sentido/exercido de vida
e alquebra-me: em-in.comum pátria/alienação..
maria..
Poema de Azke
crava a pele e não toca a alma...
o mais bonito que já coloquei os olhos
como um barco noturno
rasgando as luas
parece até que tenho um pouco dele
desmanchado no sangue
solto como água
afogando-se em alma
eu lá mesmo com ele acho que morria
com um punhal nas costas
e um coração no peito
indo pra casa...
perdida no fundo do armário
Poema de Vânia Lopez
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
A Nuvem e o Fogo

Quando eu era menino
Queria ser bonzinho
Para poder andar sobre as nuvens
Até que um dia comi algodão-doce
E a vontade passou.
Quando eu era menino
Eu não queria ser mau
Pois tinha medo de arder no fogo
Até que um dia senti queimar no meu
O calor de outro corpo
E o medo passou.
Hoje, já adulto, tenho plena consciência
Nessa perplexidade caótica em que me movo
Da poderosa sensibilidade de minha essência
Que insiste em ser metade nuvem, metade fogo.
Marcio Rufino
Recado aos navegantes
se teus olhos buscam apreender o leito
mas não possuem garras de estancar
e segue o corpo ao sabor dos remoinhos
ocupa-te de sobrenadar o éter
viver prescinde de todo o resto
Poema de Jorge Xerxes
www.jorgexerxes.wordpress.com
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Da feira de livros, trago Dostoiévski e Pessoa
melhor do que trazer comigo
um exemplar de Crime
e Castigo.
Ponho debaixo do travesseiro
este recreio q'me afeiçoa:
A obra Cancioneiro
de F. Pessoa.
Zelo como quem devota
ao seu labor inconcusso
a obra Idiota,
do russo.
Trago numa plástica sacola
esta grande literatura
que, se não evola,
cura.
Poema de Isaac Bugarim
nem aos olhos
eu te descobrir(o que me encontro?)
se.
te fossem as luzes(o que mais/me guiaria?)
ontem, ou
passos? em fileiras e chuvas
(as)mesmas. das tuas insensatas poses.
onde?
registram-se ao arbítrio dolente
e
à prepotência(in-salva) de te vivenciar
fugaz..
um(pouco)?
e-o crime de ti..
onde?
culpa..
(onde?)
..
qual à revolta da carne.
à minha cama refrigerada
estaca de tantos aspectos
epístolas destes(intrépidos) épicos de cair
em
situação absurda
clemente
de repente
mas,
em verdade e por alguma exclusão..
por interesse relativo
por
insenção(coincidência..) e desapego:
teu nome, ainda é.
o tempo.todo(o-que te vale)
o outro esboço(ao que ainda nem previ)
..
mas,
mera-linha.
tola-frase(tentada)
passo-de: página(nada! de ti)
nem aqui:
ou ali.
ou:
ainda.este:
pecado-presente
e desdito e editado
é teu(este) conselho:
não.
(nem resposta)
não.
nem.refém..
(ou ali/ou além.)
Poema de Azke
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Lançamento do Livro "Nuvens" do Poeta Arnoldo Pimentel
terça-feira, 1 de novembro de 2011
Quarenta motivos para te amar
pela estrada sinuosa, através da paisagem bucólica, o verde vivo a eclipsar a cor cinza do céu, cercavam-me os montes aqui e acolá, com a estrada a desvencilhar-se deles, em vã tentativa.
Um caminhão lento a minha frente carregava folhas secas como se estas fossem barras
de ouro, leves como penas, a circunscreverem fluidos remoinhos no ar, espalhavam a bondade dessa riqueza aos mais pobres – provavelmente ele chegaria vazio ao seu destino. Imaginava que não houvesse nada tão triste quanto à faixa dupla, contínua, amarela: não ultrapasse!
Foi quando me apercebi de uma árvore a captar, inerte, a lúgubre paisagem. Encerrada
ao silêncio de seu tronco, acenando lenços vivos de folhas verdes, intensas, sabe-se lá por que, através dos seus múltiplos ramos, quantos são os braços de Vishnu. E aquilo me deu um aperto no peito, que é como deve se sentir o velho poeta, sem inspiração já há quase um mês.
Quando isso acontece, é comum achar que o mundo se parece mesmo com o branco e o
preto dos jornais, numa sucessão das mesmas coisas, que as pessoas não vão mudar, que a poesia não tem sentido, que ninguém quer saber da luz dos vagalumes, ou do rastro de uma estrela cadente. Acredito: estão todos enganados. Posso provar isso enquanto sopro o dente-de-leão. Mas a minha certeza é efêmera, num segundo, ela desvanece.
Então me dei conta de que hoje é segunda-feira, que estou indo para o trabalho. Só pode ser isso, como naquela seqüência de caricaturas de um carinha com os dias da semana anotados embaixo; porque entendi que ela vai melhorando, à medida que os dias passam. E eu não posso ficar parado.
Há tanta coisa por fazer, para te dizer, dessas coisas urgentes, como uma nuvem, samba num boteco em dia de chuva ou quanto aos poderes afrodisíacos dos bigodes de um gato. Hoje percebi que precisarei ficar até mais tarde, que precisarei fazer serão do fim de semana. Dou um cavalo de pau na pista, a poeira sobe, os motoristas se assustam, metem a mão na buzina. Acho que quase os despertei.
Agora me lembro da noite de ontem: enquanto eu e você estávamos acordados, todos os
outros dormiam.
estrada sinuosa
o coração
aquele verde insuportável
a cor amarela
a cor vermelha
montes aqui e acolá
barras de ouro leves como penas
remoinhos no ar
diamantes comestíveis
a bondade
pernas longas de um grilo
a riqueza
as guelras de um peixe
a inspiração
cartas de baralho
o destino
lenços vivos
folhas imensas
bolinhas de sabão
um poema sem sentido
vagalumes indicando o caminho
tronco de uma árvore
o longo rastro da estrela cadente
nuvem
uma certeza efêmera
dente-de-leão
os bigodes de um gato
a eterna dúvida
samba num boteco em dia de chuva
esticar o fim de semana
cavalo de pau na pista
muita poeira
e mão na buzina
o mar
o sol
uma paisagem bucólica
rede de descansar
um barco distante
vaga lembrança
o movimento dos braços de Vishnu
www.jorgexerxes.wordpress.com
Conto de Jorge Xerxes
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Pode marcar a hora e o lugar
na melhor roupa
como se fosse o último bolero
rasgando dentro de mim
beije-me demoradamente
me olhe do jeito que sempre sonhei
numa palavra rude
rasgue-se em pulsos suicidas
em plena Colômbia junto aos guerrilheiros
só não venha no meio de um banho no chafariz
muito menos na melhor noitada
sem futuro que ainda viverei
também não seja besta igual uma queda de chuveiro!
morte acho que vou te matar!
você que mata tudo...
vais morrer em decepção
...já ando morrendo há tanto tempo
(que posso respirar em seu pescoço)
-E te aviso:
a conta não fecha nunca!
(em mel e enxame)
Poema de Vânia Lopez
domingo, 30 de outubro de 2011
TODO HOMEM É UM EDIFÍCIO
nada no silêncio
enquanto
tateio
teu rosto marmóreo
— brevíssimo
pequeníssimo
homem
uma sombria
espera
e
porquanto tudo é sonho e
carícias
máquinas além nos espreitam
irmãs
serenas nuvens
viçosas
são teus lábios conjuntos
e
minhas gotas
de pérola
logo atrás
em meio às quais
por intermédio do silêncio
a espera
torna-se
muito.
Órgão
a ferrugem no oxidável
sua gangrena
único meio de amputação
ferro umbilical
da umidade da neblina
a viga escura adoece
escorre no vão, nela, salobras,
ácido puro,
nuvens e nuvens de oxigênio
o desgaste, assim, do todo a nada se compara
elegante ruína
quando enverga sem gravidade
enlaça, sem ruído, a Morte.
Tempo Ausentado
(...)
pouco falta
a prolongar-se
no eixo
a vizinhança das coisas.
Poemas de Sodine Üe
sábado, 29 de outubro de 2011
A carroça de leite
O barulho da carroça do "Cabo Quinze"
"Matraqueando" nos "pés-de-moleque" da calçada
Até parar na porta de casa
As garrafas de leite batiam umas nas outras
Deixava o litro no alpendre de casa
Lá com certeza, já estava o pão...
Meu pai, conversava baixinho, eu ouvia
Esperava o jornal que era jogado lá da rua
O barulho agora era o jornal que batia na porta
Meu pai mais que depressa levantava
Queria saber das notícias do dia
Viro na cama
Puxo as cobertas
Ainda bem que hoje é sábado
Durmo novamente!
Poema de Victorvapf
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
The Pirate's Hat: The Giant Man And His Worst Poem
learning by the hardest way
to ignore all the sights.
Where were you when they turned off the lights?
When I dreamed alone
things that are already faded and gone?
I'm the worst memory from myself
and, strangely, it is what makes me keep on,
'cause even when I can't rest
there, in my mind, something to hold on.
And what all it means?
Well, I don't care..., thats what I like over it
an open door, and the most beautiful desire of ignoring the exit
for a man that learned that there's no future or past in the dreams.
Poem by Elvys Brito
Tradução:
O Chapéu do Pirata: O Homem Imenso e Seu Pior Poema
Aqui estou eu, perdido, numa cidade repleta de luzes
aprendendo, penosamente,
a ignorar tantas paisagens.
Onde você estava quando as luzes se apagaram?
Quando eu, sozinho, sonhava
coisas há muito mortas e sem brilho?
Sou minha pior lembrança
e, estranhamente, isto é o que me fortalece,
pois, malgrado não consiga descansar,
lá, em minha mente, algo persiste.
Qual o sentido disso tudo?
Ora, não me importo..., este é o meu modo
uma porta aberta, e o mais belo desejo de ignorar a saída
para um homem que aprendeu que não há futuro ou passado nos sonhos.
Poema de Elvys Brito
As irmãs Fox
escura, coberta por uma toalha muito puída, livros religiosos e muitas folhas de
papel em branco, lápis apontados, um tinteiro, duas penas. Mr. Duesler contou os
presentes, fechou a porta, lacrou-a com cera, depois de olhar fixamente para
Margaret e receber o discreto assentimento daquela cabeça jovem e tumultuada. Pensou
por trás do antiquado cavalheirismo, que aquilo tudo,poderia ser uma farsa grotesca,
às custas um trabalho desgraçado, com excelentes dividendos para a fé. Por Deus,
uma vez em ação, aquela frágil criatura suava por todos os poros, rangia a bela
dentadura; num esgar demoníaco e assustador, cruzava os braços, estalando os ossos,
franzia o cenho à maneira dos endemoniados, órbitas brancas por olhos revirados,
tal as estátuas da antiguidade. Nesta noite, acompanhava Mr. Duesler, um homem alto,
magro, jovem, de feições finas, queixo resoluto, modos muito reservados, num olhar
seguro e inquieto, musculoso apesar de magro – indicava-o o relevo de suas
coxas, sob a calça de tweed, enquanto sentava, pensativo com o seu chá, em singular
e cabisbaixa vaidade. Contemplava a mão direita, ostentando um pequeno anel de pedra
vermelha e saliente, no dedo médio, distraidamente girado pelo polegar; uma boca de
lábios finos, emoldurada por um ruivo cavanhaque, envelhecendo-o uns bons dez anos.
Observava agora Kate e Margaret, mas em erudita e curiosa atenção, digamos assim,
quem estuda uma dupla de raros espécimes de borboleta, bem fixados por alfinetes e
sob uma potente lupa. Tudo sob o controle da gaia ciência, pensaria aquele jovem
cético,tão britânico em sua frieza, devolvendo a xícara vazia ao aparador próximo de
sua cadeira. Levantou-se ao aceno de Mr. Duesler.
- Irmãos, apresento-vos o Dr. William Crookes, da Sociedade de Investigações
Psíquicas de Londres, estudioso de fenômenos metafísicos, convidado para observar in
loco o trabalho das irmãs Fox, anunciou a voz empostada de um vaidoso Mr. Duesler.
Apresentou-o primeiramente a Katie, entre sorrisos tímidos, até constrangidos de
ambas as partes. Margaret mantinha-se calada; como de costume, abandonaria o
mutismo, após todos se acomodarem ao redor da velha mesa de carvalho, com uma
vela posta no pesado castiçal, que logo seria acesa, com o desligar da iluminação a
gás,no início dos trabalhos.Katie observava aquele moço velho,sentindo-se assustada,
imaginando a distância percorrida pelo cientista; mais um daqueles movidos pela
fama das irmãs, que faziam girar mesas pesadas e grandes, com auxílio dos espíritos,
ajudando a descobrir e prender o autor de um assassinato que abalara a pequena e
sonolenta Hydesville, alguns anos atrás. Imaginava quanta coisa teria visto um
homem com tanta ciência e liberdade de ir e vir onde quisesse, falar com quem
quisesse,talvez flertar com algumas garotas mais desinibidas,enquanto ela e a
irmã, tornavam-se um tipo de atração circense naquele fim de mundo,conquistando
uma notoriedade que não as impedia de seguir acordando pela madrugada, ordenhando
as vacas, tirando água do poço e ainda cuidando da casa e do pai severo, viúvo desde
os trinta anos, pela tuberculose que lhe tomara a esposa. Hydesville, apenas uma
parada no meio do nada, vizinha de New York apenas três centímetros medidos no
papel do mapa; na prática, um mero intervalo empoeirado entre o nada e coisa nenhuma,
em 1847. Margaret fitava os sapatos londrinos do Dr. Crookes: novos, mas
arranhados, sujos, brigando com o restante de uma aparencia meio dândi para um
cientista, retratado pelos jornais, como uma espécie de caçador de fantasmas,
preciso e implacável com os fraudadores que desmistificara; àquela altura, uma
legião,sentados todos à mesa, as irmãs, Mrs Redfeld vizinha e propagandista de
primeira hora daqueles prodígios, Mr. Duesler, pastor e juiz de paz, sério e
ascético tal um mongeem seu trajar pietista, Dr. Crookes e Stephen
Smith, pai das moças e dono da casa, uma face onde a desconfiança e a mais
autêntica perplexidade alternavam-se em tragicômica sequência. Apagado o bico de
gás, a sala ficou um instante às escuras, até a luz da vela encorpar-se e
ganhar força. Seguiu- se a recitação das orações de costume, por Mr. Duesler;
ao final, um silêncio opressivo dominou a sala; quebrou-o a voz de Margaret,
solicitando dos presentes silêncio e pensamentos voltados para Deus, com um olhar
de soslaio e antipatia para o Dr. Crookes, lembrando do ceticismo que polvilhara
pó de arroz ao redor de todas as cadeiras e solicitara o lacre com a sua própria
cera, da porta da sala – suas condições para publicar um artigo sobre os
fenômenos , na prestigiosa revista da Sociedade de Investigações Psíquicas
de Londres; tirando do território do burlesco e da desconfiança, os
acontecimentos de Hydesville, convencendo o mundo da natureza espiritual e
divina que regia tudo aquilo; uma tese defendida há meses, por Mr. Duesler, de
dedo em riste e face em congesta convicção, durante o culto dominical.
Margaret solicitou que todos se dessem as mãos, para concentrar a energia do
ambiente; seu rosto contraiu-se num espasmo medonho enquanto um frêmito percorria a
mesa em toda sua circunferência,surpreendendo os presentes, que sentiam o móvel
sendo empurrado contra os seus braços, elevando-se do piso. Um forte cheiro de
ozônio saturou rapidamente a sala. Mr. Crookes sentiu todos os seus nervos tensos, a
serviço dos sentidos. Conseguia manter a tranqüilidade, olhando ao redor, mas a semi-
escuridão parecia espessar-se a cada olhar seu. A pesada mesa agora oscilava. Depois
de alguns minutos, retornou lentamente ao solo, o cheiro de ozônio começou a ficar
mais rarefeito. A cabeça de Katie, começou a liberar pelos ouvidos e pela
boca, uma substância vaporosa e luminosa, que parecia expandir-se na progressão
do transe silencioso e trêmulo. À luz mortiça da vela, a substância começou a
condensar-se em duas formas humanas, um homem e uma mulher, rostos indefinidos,
abraçados e nus, em meio a um magnífico e luminoso jardim. A mulher ofereceu uma
maçã ao homem fosforescente, que recebeu a fruta, enquanto uma serpente saía do seu
flanco esquerdo, picando-a furtivamente no pescoço; os rostos indefinidos
eram agora os de Katie e do Dr.Crookes. Exclamações de terror e surpresa
tiveram início, as pessoas ora rezavam aos gritos, ora gemiam de puro medo, voltadas
para uma Katie agora imóvel e de feições serenas. Dr. Crookes, reconheceu a cena de
um antigo livro religioso; estupefato, pulou da cadeira e acendeu o bico de gás; a
substância refluiu imediatamente para o corpo da médium. O cientista aproximou-se de
Kate, a tempo de constatar a sua morte e verificar-lhe o pescoço, perfurado por
dois orifícios diminutos e paralelos,talvez o preço por conhecer o Paraíso.
Conto de André Albuquerque
OBS: Ficção sobre pessoas reais e fenômenos paranormais, observados em 1847 ,
em Amytiville, nos EUA .Os acontecimentos narrados, são produto da imaginação
do autor , exclusivamente .
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
O céu, o ar, o amor, o amar
cu é
é cu
ué
o ar
ora
agora
garoa
chora
aurora
no mar
namora
o ar
ramo
amor
mora
em roma
embora
mera
maré
eram
mear
arme
o mar
o céu
ao léo
óleo
olé
elo
melo
elmo
moar
moer
amar
morrer
roer
o réu
no erro
no céu
eu
caô
oca
coa
o céu
da boca
Poema de Isaac Bugarim
"a referência"
referência. e iniquidade
o teu: passo-oblíquo
a tua única(carta)
paragem
(inverdade)
exemplo.
e,
ainda.
meticulosa (in)versão
anagrama de mente
de pele
de repente e ao tempo que te denuncia
eu,
ainda(te sou).
..
qual dispêndio
arma-enviesada
turno e noite
posto-desigual
lado-água
parte: carne.
e
hábito.de te crer
espécie:
tua.
nua.
única.
e,
ainda.
facial
curva-absoluta
multiforme ensejo
pré-vício
pretérito(fixo)
e,
ainda(nome-teu.)
ah,
alicerce..
rege à calha que me contamina
teu lépido erro de me instigar
o teu crime.(acima.. é) absorto de vivência
é facto, e: acto ausente
e
ainda(de ti,)
o sempre.
e a:
referência.
Poema de Azke

