Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



quarta-feira, 7 de novembro de 2012

O tempo sem tempo...






Queria mesmo escrever sobre o tempo,
Mas ele fugiu de mim sem dizer que ia.
Queria mesmo escrever sobre essas horas rápidas,
Mas elas voaram de mim como passe de mágica.
Eu pensei em falar sobre as estações,
Mas quando percebi, já não consegui distinguir.
De janeiro a Dezembro :
Primavera, verão, outono e inverno,
Nada mais os caracterizava.

De frio a flores nascendo,
Calor sorria solto sem se preocupar com mês ou data,
de folhas caindo a vento gelado
Ipês roxos nasciam no ventre da geada.
Queria mesmo entender às 24 horas,
Mas é tempo de menos pra pensamento demais.

Pensei em escrever sobre o tempo
Mas veja que curioso,
Não há mais tempo,
Nem relógio certo, a ampulheta quebrou.

Resta uma estranha agonia,
Mas também um bocado de alegria.

Hoje não olho mais para tempo,
Observo o que me importa.
Eu olho pra dentro.
Com Licença, tempo.
Eu hoje estou sem tempo.
Você deve entender.



Hugo Mendes
 

Crime...

 
 
 
 
O crime dos seus recados
atravessam meu mar revolto
e conseguem chegar.

Tenho os pegado um a um
e guardado numa caixa externamente bonita
tomada de lembranças que "pacifica".

((( Camila Senna )))

Faz de Conta


Na aula de teatro
O menino negro
Põe a coroa na cabeça
Em seu inocente orgulho
Ouço ele dizer:
- Agora eu sou o rei!

A menina morena
Com seu chapéu de bruxa
Em seu inocente descaso
Ouço ela dizer:
- Nunca vi rei preto!

A outra menina, negra
Indignada
Com suas asinhas de fada
Em sua sapiente certeza
Ouço ela dizer:
- Essa garota
Não sabe o que diz.
É melhor
Nem ouvir!

Marcio Rufino

sábado, 3 de novembro de 2012

Conversa na Praça

Os pombos não me estranham mais,até pousam aqui no banco, ao meu lado;da espera arrulhante do milho, ao avanço direto sobre o saco , poucos dias de avaliação mútua. Fico a sorrir,da facilidade com que os hábitos se afeiçoam a nós, homens e aves.Passo as tardes aqui, na Praça Rio Branco, a alimenta – los e encorajar rasantes cada vez mais longos sobre mim , bípede implume, na contemplação muda e aparvalhada da sua arte de voar. 
Olho a vida passar nos seus bicos; um ninho em formação,o arrulho de ciúme de um novo parceiro dos céus ; a qualquer ocorrência celeste, chuva ou sol: fuga e regresso, exercícios vespertinos de liberdade e leveza de pombos.Revoam ao longe, fazem um desvio em direção á torre da igreja e aterrisam, alguns sobre a estátua do chanceler , á minha frente, outros se acomodam como podem, no pequeno gramado , perto do rio.
O milho está acabando e ainda não sei se voltarei amanhã.Os dias têm sido frios, feios e cinzentos, uma desolação externa que pega a gente pelo pé, se não tivermos cuidado com o motor da melancolia , esse inverno teimoso. Um sol morno, vez por outra, joga-me depressão no colo, com o pronto exorcismo pelos meus amigos voadores .
Antigos companheiros vêm rever-me , sentam aqui, ao meu lado, conversam ainda furtivamente sobre o passado ou ajudam-me alimentando os pombos, numa espécie de obsequioso silencio , depois saem, no passo trôpego dos velhos, nada mais esperando de mim,alem do silencio.O general Macedo ás vezes aparece á tardinha , no passo miúdo e tremulo do Parkinsonismo . E os do partido ? Passam, olham-me como olhariam a múmia de Lênin e percebo que ainda sou um calo nas suas vidas,uma perna estirada na histórica estrada do partido, para o esbarro ou queda de alguém , pouco importa.
Tornei-me um sobrevivente problemático, pois nem morri nem vivo oficialmente (estaria morto no sentido lato?) ; penso no já longínquo 1973,no fusca metralhado e incendiado,nos quatro cadáveres carbonizados,nas fotos dos jornais, na viagem aflita de minha irmã ao interior, para tranqüilizar minha mãe, dizer que aquela foto bem comportada no jornal era minha, mas nada provava que eu estivesse realmente morto e ainda querer que minha mãe acreditasse ,sem lhe contar o resto.
Mas fiz o que foi preciso para Ângela , às crianças e até para o bem da causa que abandonei como que abandona um navio em chamas.Morri; seis anos depois reapareci, de carrão do ano, visitando minha mãe que chorava de alegria.Vi a última foto de meu pai, morto de verdade no meu interlúdio de defunto, com estadia no Chile e tudo pago. E ninguém me confirmou a ressurreição.
Cumpriram o que prometeram.Queriam uma saída honrosa.Quem diria, os torturadores queriam mudar o jogo e eu seria um instrumento da mudança. .Entreguei nove companheiros que sabia estarem fora do país, viajando sob nomes frios e passaportes quentes , como parte do combinado.Fiquei de queixo caído : eu, ex - terrorista, agente de paz e concórdia.
Surpreendente aquela estrutura em ação.Todo aquele aparato triturador de gente,era apenas anarquia perfilada ,uma gigantesca farra na caserna; iniciaram um processo sobre o qual perderam o controle e depois começou a recuo.A turma que fazia aquilo não era idiota . Inteligência e perversidade , em convivência íntima, fazem coisas terrivelmente notáveis.
Procuraram-me através do Marcos , meu até então alienado parceiro de pelada e colega de curso, lá da Católica ; mijei de surpresa : eu, uma Polyana de esquerda ? Sim senhor, no melhor dos mundos esquerdistas possíveis, até a cantada direta numa mesa do Tio Pepe ,ao som do mar e á luz do céu profundo . 
A anarquia disfarçada em super ordem , em rigidez ditatorial, a baderna fardada, assassinando e até pilhando , nas suas conveniências .A maioria discordante, silenciando . Daí, eu morri.Carbonizado. Tiçãozinho. O então coronel Macedo era o regente daquela outra orquestra vermelha , de sangue.Á perfeição, regeu minha saída e reentrada em cena ; se não triunfal, eficiente. 
Os companheiros dirigentes sabendo de tudo; ninguém foi preso por minha falação.Arranjaram-me até emprego num órgão federal outrora controlado por nós,voltei a usar meu nome verdadeiro e tudo o mais , seis anos depois. Ninguém da imprensa perguntou nada.Quem seria besta , mesmo na tal ditamole ? Ainda empastelavam jornais, Principalmente os nanicos. 
O coronel e sua turma fizeram meia-volta do teatro do paredão e do pau de ararara. Mandaram um relatório para os gringos,informando da minha prisão e morte, durante a fuga, com outros três terroristas,treinados em Cuba, doutorados em terrorismo pela Universidade Patrice Lumumba .Genial a minha nova história de vida.
Na repartição: ex-preso político ,libertado, retomando a vida . Meu (a essas alturas) querido coronel,saiu de cena como torturador e voltou a ser o que deveria ser um militar, o partido e a repressão negociaram minha morte e minha ressurreição .Os gringos aceitaram sem pestanejar a versão do velho Macedo, our old friend , recomendaram até sua promoção e lá se vão trinta e três anos de sua discreta ascensão a general de brigada.
Semana passada, perguntei ao general, o porquê de tudo isso; respondeu-me com uma frase que parecia saída do I Ching ; que a boa estratégia recomenda sempre deixar uma discreta saída para o inimigo encurralado, que não o faça sentir-se acuado,atacando e obrigando o vencedor a massacrá-lo , transformando-o em mártir cultuado de uma causa perdida e inútil ; fazê-lo pensar a retirada como uma estratégia produto exclusivo da sua astúcia, tornando a rendição um processo mais leve e sem o rancor dos perseguidos. No Planalto , um bruxo caolho e fardado , enxergava no horizonte ,a aproximação de hiperinflação , que somada á repressão política daria noutra coisa ,bem mais explosiva que meus inocentes coquetéis molotov.O milagre econômico apresentava a sua conta, tal um garçom bem educado da Bond Street. Então, urge sair enquanto é tempo ; Macedo repaginado e sempre igual a si mesmo, Il Gattopardo da caserna , mesmo de pijama e chinelo franciscano .
Os pombos revoam ; momentaneamente não ouço o general , suas palavras talvez assumam formação em delta, lá no céu , junto ás recém-chegadas andorinhas , seres semi – vespertinos ,evitados pelos pombos .
Acho bonito, semeio de milho as pedras da rua e espero o seu pouso , pacificadas e ruidosas. Contemplo o general, uma fantasmagoria contra o ocaso do sol , em fala trôpega sobre paz , liberdade e o que valia ser feito por ela, até matar. Escuto – o tranqüilo e acrescento que vencedores, faríamos a mesma coisa. Ele esbraveja e tropeça na gagueira espumosa da doença. 
O olhar ainda é firme e enérgico, as mãos tremem em desvario parkinsoniano.Ás vezes cospe as palavras , retoma o ritmo inicial durante algum tempo, a emoção traindo quanto fala de poder , equilíbrio, daquela guerra na qual tomamos parte ; halos senis delineavam suas pupilas . A barba mal feita dos parkinsonianos solitários salpica–lhe a velha face crispada pela arrogância vã e brutalidade resignada.Envelhecia cada vez mais sozinho.
Levantamos do banco , fomos até o boteco em frente , antigo reduto dos portuários . Pedimos café , sorvido em mutismo cúmplice e concentrado . Hoje eu pago a conta , afinal é sexta feira .


Conto de André Albuquerque


Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=234565#ixzz2B9w0TePQ
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

,saturam-me

saturam-me o dia indeciso, a lua,
qual buraco amarelado em De sterrennacht, 

esta loucura que se esvai, definha, 

as cartas de amor e quem nunca as teve,
as palavras que não saem, entopem, engasgam-me,
que provocam vômitos de sangue, ou de vinho tinto,

satura-me a foda que não dei,

o nojo, o grito.

satura-me esse alguém que se quer ninguém,

esse ninguém que se diz uno, indivisível,
que Job questionou,

a mesa de poker envolta pelo fumo dos cigarros queimados,
o vício, a presunção da água benta, a morfina,

saturam-me

as noites perdidas que se julgavam desvendadas,
embriagadas,
as manhãs pelas tardes a dormir, 
(a barba por fazer).

e tantas vezes me saturo de mim que me satura o pensar,
a verve,

suturo a pele das cicatrizes abertas que me saturam
nestes perenes murmúrios, inacabados.

(I)

(intermináveis...)



Poema de Francisco Duarte

Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=234490#ixzz2B4KSlT3x
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Odes ao Pó



Ode ao Pó volume 1


Pó de Poesia
Pode a poesia
Fode, poesia
Voz da poesia
venha sobre nós
Lenha nos fogões
Fogo nos porões
fervem o caldo 
do bombocado
Aconchego, chá 
de Guapi
até Tinguá 
de Itaguaí
a Mauá
de aleluia
a ijexá
dos Anjos
aos Orixás
Hosana
Allah Akbar
Tudo pode
na palavra
Pó de palavra
Pó de poema
Pode poesia.



Ode ao Pó volume 2


Num ato inclassificável
Luz divina
Luz de origem mina
vem da terra
e desvirgina
nossos pais
nossos avós
E faz pós de
...poesia
espalhados por
todos os
lados faz
biscoitos pós
modernos
recheio creme
de menta
Enquanto a
Ivone Landin
inventa outro
vento pra
espalhar o pó
de poesia que
tudo pode...

Jorge Cardozo

domingo, 28 de outubro de 2012

"Abstract & free - o cunho da arte pura"

as mãos

as árvores tensas de vento
manchas verde seco que invadem bairros de pó
as árvores nascentes
que são mães de sol para o dia
pernas de mundo e sonho
ágeis e voláteis
tudo são mãos
o deus do dia é também pincel na tela
colorida louca suja ténue
a rua está suja de tinta como o coração
dos lamentos das pedras
pincela tempos forma a forma
os segundos são árvores
manchas verde sempre seco pairadas no calor
de asfaltos calcados pelos momentos
do sol

os rostos

têm pontos por onde passa o tempo
têm vozes rasgadas no espaço
que cantam a saudade e a cidade
têm medo da morte dos impulsos
harmónicos da dança das sombras
observa e vê rostos limpos
do suor dos minutos minimalistas
metálicos e fáceis duros e intensos
têm estórias por contar que o silêncio
não perdoa
que significa isso
pergunta o céu e o vagabundo
são mapas sem razão
fundidos no fel das horas infiéis
passam por nós como multidões
sem condão nem enredo

os vazios

são asas
e ramos sem dança
casas derrotadas
coxas sem passos
são rimas sem pontos
sonetos sem almas nuas
criança sem horizonte
e estrelas sem infinito
sons sem fagote
jazz sem membros
mas também cores
de Rothko e Pollock
com o Grito de Munch
junto com as nossas quietudes
habitadas e seguras

as artes

mulheres e varandas inclinadas
prédios de traça melancólica
sujeitos a leis de abstracção e liberdade
relvas enxutas de cor de outras estações
pedestais de esquecimento
contra o cinzento dos muros
pintados a spray soprado pelo mar
com vontades etéreas
homens em fatos coloridos e gravatas tristes
e sapatos orgânicos
cães e ruínas
tangos e madrugadas
poemas despidos de noite
esquinas e outras dimensões
bibliotecas esguias eternas santas polidas amantes
corredores sem tecto
onde se espreita os labores incomuns


tudo é uma arte desmedida e fervilhante
um centro de arte moderna quotidiano
pinturas sem vírgulas e documentários sem fundo
tudo existe abstracto & livre como os caminhos
e os acordes marinhos do tempo sinfónico
as harmonias e os ritmos das gentes

(Ago. 12)



Poema de Carlos Teixeira Luís



Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=234198#ixzz2AdpWr8bZ
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives

sábado, 27 de outubro de 2012

É o que parece


A Antônio Cícero e Letícia Valentim

É o que parece,
Por isso tantos conflitos,
Tantos gritos e ritos,
Teogonias e preces.

Por isso tantas crenças,
A História e o Tempo,
A voz de Deus
Onde há somente
O sussurro do vento.

É o que parece,
Por isso este poema
Contra a voz cartesiana,
Contra todo sistema
Que nos engana.

Por isso este poema,
Que também será esquema
Propenso ao erro,
Se apenas for
Aquilo com o qual quer parecer-se
Mas com ele não se parecer.

Por isso tantas formas,
O anseio por ordem,
O ilusório encanto da norma,
O canto e as essências
Onde só há aparência.

É o que parece.
E não há
Como ser diferente.
É a virtude
Ou engano da mente.
O que se diz e ilude,
É o interminável museu
Dos discursos do eu.

E o que ouvi
De mais bonito
Foi uma criança dizer,
Após muito contar,
Que depois do mil
Só há o infinito.

É o que parece.
E malgrado
Alguém dissesse:
“Tudo é!”
Não estaria mentindo;
Tudo é!
E com isso se parece.

Não há como dizer
O que é o ser
E entre o que digo ser
E como aos outros me pareço
Vivo e desapareço.

É o que parece
E só ao dizê-lo
Já me traio
Pela linguagem
E mergulho
Nessa imensa viagem

De querer dizer tudo:
O que, efeméride,
Ganha breve aspecto,
Surge e desaparece,

O que não ganha tempo
Para dizer-se
Sequer coisa ou ser,
O que resplandece
Para logo perecer,

Tudo que com a vida
Se parece e que deixa
De com ela parecer-se
Quando se torna
Discurso, regra ou prece.

Tudo que é
E se torna
Uma outra natureza,
Dura empresa
Que a vida
Não mais reconhece.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Tratado de relacionamentos eficazes

“O meu corpo é de argila, estou vivo e aceito o dia.” António Ramos Rosa (corpo de argila», de volante verde, 1986)

--


Porque não me ouves antes de te ouvires?

Porque me cedes a morte como um sono e me cravejas cerejas de tempestade todas as noites?

Porque não falas antes de o dia se entreparar em luz e movimento? 

Porque estropias o sentimento antes de ele amadurecer conciso e arrumado?

Porque ressonas Wagner em vez de me acalantares doces e reticulas doses de mel?

Ressoas como uma cavernícola intempérie de mares históricos?

Penso que sim, ou não, diz-me?

Nobre lusíada, não és ninfa de silêncio nem ilha perdida de atlântida lembrada, nem areia oceânica mitológica, então que és, pura, doce e lânguida?

Porque me gritas sem gesto nem medo de me perderes no vão dos caminhos?

Porque me assedias e despes para me dissecares em vida nervo a nervo, semente a semente de rogo dorido?

Falo sem me ouvires, grosso teatro do absurdo, e porque lamentas o acto ríspido e insular de me ir embora?

25 Out. 2012 



Autor: Carlos Teixeira Luís

Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=234022#ixzz2AMN2LL00
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives

Curupira




Nunca fui homem de adentrar matas virgens,
Mas em mim já cresceram todas as matas devastadas possíveis
Matas essas que me amendrontavam quando menino
E hoje as enfrento com tesão e ousadia de caçador feroz-felino.
Será que o menino em mim morreu?
Ou será que nasceu outro menino?
Será que ele ficou valente?
Será que ele descobriu que a terra
Não passa de enrosco de paraíso com inferno na gente?
Ele dança como vaga-lume;
Canta como cigarra;
Se excita com as picadas das mutucas;
Sente o atrevimento dos instintos das árvores e suas diretrizes;
Se alimenta vorazmente de carne crua, capim e raízes;
Se banha na embriaguez do curso das águas;
Se compadece do canto triste das aves notívagas...
E suas mágoas;
Se perde nas pegadas tortuosas e confusas do Curupira.
Ele deseja em sua pele verde tocar.
Acariciar seus cabelos de fogo sem medo de se queimar.
Sim.
Sua urbanidade o agride, enoja e desencanta.
A postura? O emprego? O papel na sociedade?
Tudo mentira!
Ele quer ser o poderoso Nada!
Ele quer ser a brisa da Mata!
Melhor amigo dos macacos.
Ele quer montar na garupa do porco do mato.
E dentro dos olhos guardiões do Curupira,
Conjugar na oração da língua da natureza
O seu mais incisivo e efêmero hiato.
Marcio Rufino

o que permanece prece...

um júri de anjos embriagados há de vir
separar uma lágrima da outra
no guardado de meus olhos

a campainha tocará intuitiva anunciando
com a frequência de um amigo íntimo
percorrendo o ar como garoa
sussurrando o breu
o revirado da veste
arrancará do beco a hóstia

há de tirar da boca teu nome
o delírio dos sinos, dos poetas
partirá como boa porcelana

como um pedaço de rua inundado
onde os deuses temem pisar
e mortos de fome integram-se

deixará ir o que escuta o verbo
o que nunca tocou a caneta ou papel
e cresce... onde acaba
... o que permanece prece



Poema de Vânia Lopez

Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=233995#ixzz2AIv4nMrp
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

ALMA INQUIETA



Quem vai salvar minha alma agora
nos caminhos tortuosos e sombrios
nos becos escuros e sem saída
nos passos perdidos a esmo?

Minha alma clama liberdade
chama pela fé que acalma o espírito
Mas como suportar esse torpor
essa coisa quente correndo nas veias?

Mas como suportar esse batimento acelerado
essa nuvens que cobrem minha retina
esse tremor nas mãos nuas e frias
essa destemperada aflição que me preenche?

Como suportar esse vazio de vida
essa busca de algo inexistente
esse querer que não se define
essa prisão que oprime?

Quem vai salvar minha alma agora
se desde que me entendo no mundo
essa solidão no peito me devora
e esse grito preso não quer se calar?

Onde encontrar um abrigo farto
um afeto que seja puro e exato
na medida certa para o meu desejo
em braços que acolham sem medidas?

Quem vai salvar minha alma agora
enquanto o silêncio se resguarda
em palavras não pronunciadas e omissas
enquanto o corpo pede mais espaço?

No chão de cimento e pedras
calejo meus pés sem descanso
Na ternura não encontro meu remanso
nem nas noites que se erguem como sombras

Meu corpo adormece no cansaço das horas
ao sono me entrego sem resistência
Tomara este possa acalmar a inquietude
em meu coração de sal e sangue


Ianê Mello


*Desenho de ERIKA KUHN


Leia mais em Labirintos da Alma
http://labirintosdaalma.blogspot.com.br/

sábado, 20 de outubro de 2012

sete mini-coisemas

I

sempre perco meu isqueiro:
por certo que sumiu no ar
ou então o mundo inteiro
quer que eu pare de fumar

II

por qualquer deserto
que me erme
a epiderme
e germine
o germe
de ler-me

III

o que pensar do outono
que não as folhas
caindo de sono?

IV

não sobra ao verso triste
qualquer tristeza de poeta
o sorriso escrito à lápis
é laivo do que não existe

vestígios de um crime iletrado,
os versos não fazem um poema
é cheiro vago de algum perfume
impossível de ser aspirado

V

porei pares de pérolas em piras 
e porões para pirar os piratas 
puritanos e parentes do paraíso

VI

assobio no ar -
sinal de que o vento
não pode falar


trova-língua

breve trova que trava na língua
prova breve que trava na trova
trova a trava que trinca na prova
trívia é trova que trava na trave
troco trovas por travos e provas
trinco trocos em travas e trovas
trago tudo e em troca trovo


Autor: Caíto

Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=233766#ixzz29sXy3FE1
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Cansaço II

lendo um artigo de jornal
tem guerra à vista na mesa

sangue nos campos de trigo
a pureza é efeito do cal

cocaína no colo da princesa
coca-cola na boca do mendigo

morre uma estrela sem valor
e logo se aumenta o volume

nova mente ao seu dispor
um peixe a mais no cardume

mas o absurdo não é maior
que esse velho costume

de poder vender perfume
só com uma foto no outdoor


Autor: Acento Agudo

Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=233676#ixzz29nMaYsre
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives

"cético,"

pressuposto ensaio de vendas
às serdas locadas por inclinação
qual cor em evidência, convulsão
até.. cena.. linha controlada, apenas

ah,

papel indolor.. digital, víl acesso
tipo em registro de controle irreal
tão.. tarde! a amparar este acto primal
refém, desdito, postulado, imerso..

de ti,

à parede em reticência e ao corte
minha magdalena de tiras, meu contraste
minha perna de ar.. asa da fé, outra parte
breve, criada, se for.. infinda. laço-consorte

ora,

casual repente destoado e consumido
ata de cartas em chamas por não-acervo
às completas premissas de um ar rarefeito
teu nome grifado e inventado,(ainda:) tão lido..

e,

jaz esta lua carregada de ilusões depostas
às praças encimadas de cada caso que te trazem
minhas tragédias evitadas em comum-margem..
..e jaz este posto-refém, tal olho que te olha..











à minha mentira preferida:

tal sopro em ilusão aparte de qualquer imagem
à incisão por reflexo em catálogo perante este fim
esta culpa da tua nuca que me detém o inferno(inteiro..)

ah, eu..

deveria roubar-te ao meio-dia
onde o grito da minha cura te curaria também
onde o conto desta carne não me denomina
nem,
me detém.









um terço em prece de custos.
um outro livro de(teses e.) aproximação..


(..e ainda me seria.)



Poema de Azke

Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=233667#ixzz29k7LbEGW
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Ciclos




Beije-me, mas sem milagres.
Fale-me, mas sem imagens.
São poucas coisas que nos concernem e por isso são indeléveis.
Sussurre em nossa gula, criemos uma melodia partida.
É da sua fadiga que me ama aos toques e com sua guarida o êxtase último.
Ponha-me dentro de sua voz, repita o querer dos nós.
Da infidelidade dialética sairemos salvos em nossas contradições.
Subverta-me sem parcimônia acalme meus pesadelos com seus laços.
Deixemos a perfeição caótica para aqueles que nos despem sem tocar.
Ontem desacreditei, hoje subjugo cada gota do meu suor em sua fronte.
Beije-me rosa e não aceite a morte de suas pétalas.
Beije-me que amanhã saberei dizer o que fiz da vida além retórica.
Abre-me rosa a sua vírgula que vencido, saberei o que é eterno.
  Rodrigo Passos

domingo, 14 de outubro de 2012

sophia

não há génios. nada me dizem as palavras quando de costas para a realidade – todo aquele que trabalha à procura da palavra mais-que-perfeita. sofre – escrevo acoberto de paredes brancas. tudo é branco. tudo menos a abertura da janela. dos olhos – entre o olhar e a luz uma maçã enorme. vermelha e imóvel brilha no tampo da mesa – na parede o reflexo distorce a verdade – sombra – duas realidades. dois tamanhos para um só objecto – na janela o caixilho quadrado guarda um mundo que se quer azul oceano. encoberto por um tule feito a ponto cruz. um círculo sem princípio nem fim. transparente – tudo o que é mar é brilho. tudo menos os barcos à vela pousados num horizonte que a cor dos olhos desconhece – presas ao caixilho quadrado também as gaivotas voam em círculo – às mãos o trabalho. aos olhos a contemplação. ao coração o sentimento – como artesão. de sol a sol. procuro nas palavras o fabrico do belo. faço-o num silêncio aflito que por ser só meu ninguém sabe que existe – há neste escrever “uma felicidade irrecusável. nua e inteira” 

*dedicado a sophia mello breyner 


nota de autor:

sofhia mello breyner aquando do seu discurso de 11 de julho de 1964. na sociedade portuguesa de escritores. na entrega do grande prémio de poesia à sua obra livro sexto:

“A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. Eu também a reconheci, intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeu de Souza Cardoso. Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.”


Autor: Sampaio Rego

Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=233349#ixzz29JtILvJX
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives