Manifesto do coletivo Pó de Poesia
O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.
Creia.
A poesia pode.
(Ivone Landim)
domingo, 9 de maio de 2010
Hans, Ísis, Jade e Abel
me agarro
ao cadáver
de minha mãe
caído, ali no chão,
dividindo espaço
com tantos outros corpos
chacinados
pela mesma mão,
que não há muito tempo
com beijos ela abençoou,
entregando seu coração
ferido por um filho
que à beira de seu caixão
suas jóias particulares saqueou.
Dentre suas jóias particulares
se encontrava
um Hierofante de marfim
talhado por mim
enquanto o réu se escondia
atrás do vidro maternal
estampado no funeral
a lágrima de alegria
escorria pelos braços do cortejo
sob velas
transcendentais
e quentinhas de carne-de-sol com jerimum
preparadas
por mamãe
pouco antes de eu matá-la
à marretadas.
Minha marreta Juliana
só ela me entende,
não faz nenhum drama.
Minha marreta Juliana,
minha amada, minha cúmplice;
minha dama.
O terror!
O terror
de quem nunca se arriscou
a nadar na banheira
pra mergulhar
na língua da ribanceira
a testemunhar seu início
no fim da vida de alguém.
O terror!
O terror!
O amor!
A testemunhar seu início
no fim da vida
de outra pessoa.
do livreto "Os Covardes Também Cantam Canções de Amor"
de Sergio-SalleS-oigerS
₢.2000 - Gambiarra Profana / Folha Cultural Pataxó
sábado, 8 de maio de 2010
Pipa

Se a lesta pipa passar em frente,
Num dia claro, da tua janela
Com franca vista do pôr-do-sol,
Estica o braço para pegá-la,
Mas não a apare no pleno vôo;
Sente a rabiola passar apenas
Pelos teus dedos, ligeira e breve,
Pois se sustenta no ar tão somente
Por brisa e linha fina e volúvel.
E se outra vez o acaso do vento,
Pela janela do apartamento
Em que tu moras, encaminhá-la,
Perceba bem que já não há linha
Que a leve leve por estes céus,
Sem deus ou nuvens a organizá-los;
Somente um vento que forte e doido
Mexe febril em toda a paisagem
E a pipa arroja contra a janela
De um edifício que muito lembra
Adamastor no silêncio grave
Do aço, concreto, viga e fastio.
Portanto, deixe que adentre anônima,
Sem epopéia, cantor ou fama:
Ave abatida, louca avoada,
Em desafio contra fachada
De mil janelas sempre fechadas,
No breve instante de um vento leste.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
CASAS DE NUVENS CINZA

CASAS DE NUVENS CINZA
Casas de madeira soltas na terra
Decoradas com cordas de arame que atravessam a ausência de paisagem
Esticadas por postes sem luz que apontam
Para o céu de chuva cinza
Sem esperar nenhuma doce miragem
O silêncio é quebrado pela bicicleta sem acento
Que vaga pela rua de chão solta no vento
Carregando em seu sonho a grama estéril
Vidas vazias
Que nem o pranto solto alivia
No solo molhado pela chuva
A desesperança por saber
Que no fim do dia não haverá fartura
Sempre será assim em cada novo amanhecer
Não haverá escolha
Entre as nuvens que ainda vagam
Nem galhos nas árvores secas
Nem mesmo bichos da seda
Autor: Arnoldo Pimentel
quarta-feira, 5 de maio de 2010
PRIMAVERA NO SEU CORPO

PRIMAVERA NO SEU CORPO
Lindos são seus olhos
Que enfeitam meu olhar
Perfumando a primavera
Embelezando as flores que nascem com ela
Sedutores são seus lábios
Que me convidam para um beijo
Que molham o orvalho
E enchem meu corpo de desejo
Bálsamo é seu corpo
Que passo horas a acariciar
Sentindo a brisa que vem do mar
Felicidade é ter você
Linda como a pérola
Como um novo alvorecer
Autor: Arnoldo Pimentel
quinta-feira, 29 de abril de 2010
O dia da vingança

I
A espada de Deus está repleta de sangue,
Vibrou sobre a capital do mundo,
Contra sacrílegas Babéis.
O Califa já não dispõe mais de seu harém.
II
Ele sai sereno de sua tenda,
De túnica branca,
E contempla a serpente,
O deserto e o bico das metralhadoras:
Lenda!
Apóia no cajado o peso
De cidades mortas e dos guerreiros de outrora.
Ninguém ousa perscrutar-lhe o coração.
A tenda, o deserto e o cajado
Resumem-lhe a fé, o ser:
Ímpar,
Jamais à venda.
Não imaginam o quanto ele ama,
O quanto os ama
Sob a face justiceira do ódio,
Pois jamais negocia com terroristas.
Lá vem o Pastor...
Hosana!
Felipe Mendonça -
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quarta-feira, 28 de abril de 2010
os momentos
os corpos
que esbarram
em meu corpo
...
Ah felicidade efêmera...
felizes mesmo
são os gatos
que nasceram livres
e uivam
nos telhados da cidade
Jorge Medeiros
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A solidão receita
O vinho amargo de outras bocas
Dentro da garrafa
O tempo espera
Agora
De gole em gole
Te engole
Estalando a língua
No vinho que perdeu o sabor
É o amargo da imposibilidade
Que traça a solidão
O poeta mendiga ouvidos
No tilintar de traças
Peregrina onde o homem silencia
A vontade que berra
A garrafa que quebra
Entre reticências
Sangra vinho ou gargalhada
Que perfura as lágrimas
Ivone Landim
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Esperando que as estrelas
De Falluja caiam do céu
E que as luzes possam
Clarear o caminho.
mas do céu
As estrelas são made in USA
E todo os caminhos
São consumidos por elas.
Fabiano Soares da Silva
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as que se deixam
amar
e as que insistem
em serem
odiadas.
Mas adoro
mesmo,...
até encerrar
essa vidinha,
o grandioso
Pessoa
que me ensinou
que o melhor
e o maior prazer
é ver!
Jorge Medeiros
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Nas coxas da mulher cotidiana
Bacana!
A noite enrijecida
É derretida pelo sol
E o coração se enche
De contínuas ternuras...
(Ivone Landim)
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domingo, 25 de abril de 2010
CRISÂNTEMOS

CRISÂNTEMOS
Não adianta esconder
Não adianta se esconder
Tentar deixar de viver
Não adianta ver o crepúsculo
Do buraco oco do quarto
E tentar esquecer
Não adianta colher crisântemos
Se não tiver para quem oferecer
Para quem valha a pena viver
Não adianta sussurrar
Que tentará deixar de amar
Se já sabe que não conseguirá
Autor: Arnoldo Pimentel
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Rumo à solidão

Não diga o que eu devia fazer.
Só escute, se for capaz, as minhas palavras mudas.
Ouça, se for capaz, a dor que eu sinto sem gemer.
Sinta, se for capaz, o segredo que eu tenho sem nunca sabê-lo.
Não diga que tudo irá dar certo
sem antes me apontar o caminho mais curto para a solidão
e não diga
que a solidão não existe,
pois é, na verdade,
o próprio caminho a se trilhar.
Eu já não tenho mais nada a fazer
a não ser atravessar essas portas fechadas
e chegar ao outro lado
com aquela falsa sensação de vitória.
E não há uma vitória sem uma gota de lágrima
mesmo que seja invisível.
E não há uma gota de lágrima sem uma dor
mesmo que seja fraca.
E não há uma dor sem uma mágoa
mesmo que seja esperada.
E não há mágoa sem a morte de qualquer coisa que se amava
mesmo que não seja física.
E o meu próprio-amor-próprio
é a invisível e fraca espera do não físico
do abstrato e diluído no espaço
que está por trás daquilo que é sólido.
E o que é a solidão
a não ser esse ser não sólido
que vive a nos espreitar
num canto da sala?
Mas não há um amor-próprio sem um egoísmo
mesmo que seja domado.
Mas não um egoísmo sem uma raiva
mesmo que seja calma.
Mas não há uma raiva sem um desejo de destruição,
mesmo que seja tolerante
de tudo aquilo que é humano.
E a minha tristeza
é o tolerante e calmo domínio
que tenho sobre tudo aquilo
que é desumano em mim.
E o que é o caminho
a não ser essa estrada insegura e torta
sobre o tapete colorido da sala?
Não esperava essa agressividade
em tua cara.
Não contava com esse pouco caso
em teus olhos.
Não aguardava essa arrogância
em tua casa.
Não pressentia essa decepção
em meu peito.
Agora deixe despedir-me de tudo aquilo
que é vibrante e claro em sua essência
para que não haja nenhuma saudade
do que eu não tenha visto nesta descendência.
E assim sigo rumo à solidão
que não é depressão
e sim o som de uma densa música
e seu refrão.
E assim sigo rumo à solidão
que não é suicídio
e sim a esperança de uma longa felicidade
e seu início.
Marcio Rufino
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quarta-feira, 21 de abril de 2010
Soneto do homem só
Certo homem sai à luta todo o dia.
Num bar, engole rápido um pingado
E mais um sonrisal contra a azia
Co’a conta pendurada, no fiado.
Vai correndo, apressado pela via,
Co’o fraco coração atravessado
Por dúvida inquietante, covardia
De enfrentar o que dizem ser-lhe o fado:
Ralar muito em funções de vil salário:
Beber, jogar no bar feito um otário,
Culpar a todos pelos seus azares.
Mas, quando nos balcões das mãos servis,
Não se esquece do bêbado que diz:
“- Bebo em vão pra esquecer os meus pesares...”
Felipe Mendonça -
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sábado, 17 de abril de 2010
MEU YESTERDAY

MEU YESTERDAY
(Poesia dedicada a minha amiga Sandra Carvalho)
Ontem eu era feliz
Ontem eu estava até sonhando
Sonhando de ser feliz
Sonhando que estava brincando
Ontem tentei alcançar as estrelas do mar
Mas eu não sei nadar
Não sei como ancorar
O meu coração na ilha que poderá me abrigar
Ontem tentei ouvir os sinais do meu céu
Mas as nuvens estavam cinzentas
E as chuvas logo molharam meu rosto
Ontem tentei te olhar nos olhos
Mas você estava distraída olhando seu futuro
E não percebeu
Que iria ficar sozinha
Assim como eu
Ontem até tentei acenar um adeus
Mas o nevoeiro escondeu meus braços
E fiquei acenando para ninguém
Nem você mesma olhou meu rosto
Ontem tentei ser feliz
Tentei dizer adeus
Ontem acabei chorando
Ontem acabei apenas imaginando
Que estava te amando
Ontem eu estava apenas sonhando
Autor: Arnoldo Pimentel
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É NOITE NO MEU CORAÇÃO

É NOITE NO MEU CORAÇÃO
É noite no meu coração
Vivo tomado pelo medo
Sei que para Ti
Não tenho segredo
Venho aqui pedir Seu perdão
Fico de joelhos
Fecho meus olhos
Tiro minhas vestes
Sou apenas mais um filho a pedir
Que olhe por mim
Que não me deixe cair em tentação
Que ilumine meu caminho
Porque não tenho forças para vencer sozinho
Quero estender-lhe minha mão
Mas meus braços são pequenos
Não sei se O alcançarão
Autor: Arnoldo Pimentel
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terça-feira, 13 de abril de 2010
Adamastor

A tua dor, do que ela é feita?
De escarpa, barba, sal e lágrima,
De pedra e mar em promontório
Alcantilado, mudo abismo
Feito de vales e penhascos
Que o choro pejo vertem no eco.
Aterrador é o teu aspecto
De ancião – velho desprezado,
E ninguém diz que um dia foste
Amante alegre e desejado.
Um capitão que guerra fez
Mais pelo amor que pela guerra,
Porque a batalha que te aferra
Não é por glória, nem por fama,
Não é por África ou Arábia,
Mas a que faz os corações
Serem tachados de ignaros;
Mas a que faz os corações
Pra trás deixarem toda a frota,
Pra trás deixarem toda a tropa
Em mar cortado por trovões
Que vêm dos céus e dos canhões,
Aquela mesma que te fez
Em promontório converter-te.
Foi a paixão por nua ninfa,
Foi a paixão que a sorte mísera
Contradição impôs a ti
Por muito amar e o mar deixar.
Tão puro amor por nua ninfa
Te fez penhasco, um promontório,
Tão fero amor por nua ninfa,
Mais que titã, te fez um homem,
Um ser de rocha, em carne tesa,
Em tensa carne belicosa,
Intensa carne desejosa
A revelar-te a louca fera,
O fero amor que por ser puro
Precipitou teu ser titânico
Contra ti mesmo, imenso monstro,
Ávida carne, à enorme penha,
Brutal amor, em pura pedra...
E se hoje incrível dor naufraga,
Em tormentosas tempestades,
Vetustas naus e novas naves
É só por ti que elas afundam
Em novos casos de naufrágios,
É só por ti, imensamente,
Que de cidades inundadas,
Partem repletas de indivíduos
Que amor não têm, mas que uma dor
Inexplicável, sem razão
Oprime peitos tão civis,
Que mesmo assim cismam doer
Sem promontório e sem esquadra.
Felipe Mendonca -
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domingo, 11 de abril de 2010
Canto de fêmea

Dança por dentro
tua dança, pois somente tu
sabes o sentido.
Sonha no teu ritmo,
desafiando a realidade,
sempre dolorosa de se conceber.
Revira os olhos
para ultrapassar teu limite.
Conduz tua força por este fio estreito,
chamado "Amor teu".
O maior de todos os teus dotes
é articular este verbo,
duro, lindo, frágil e impreciso,
que é Amar, com vida.
Teu brilho se faz luz,
para quem catalisa a essência
da razão do viver.
Retomado agora o princípio de tudo,
se solta as amarras
libertas quem nunca foste
e nunca pudeste ser,
uma fêmea absoluta.
Giano
Todos os direitos reservados.
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O Dia Escuro

Na manhã estranha
De tardes tacanhas
Saio com o dia escuro
Embaixo de nuvens negras
Entre as luzes ainda acesas.
No infinito ainda o reflexo
Da queda do último relâmpago.
As marcas da tempestade
Que escureceu todo meu âmago.
Nada impede que eu ande
Entre casas sem muros
De mármores escuros.
A ventania soprando mundo afora.
Talvez eu quisesse ter alguém
Do meu lado agora.
Na primeira esquina
Cruzo com o sorriso aberto
De uma criança escura
Que clareia toda a rua
Que esclarece toda dúvida.
Ninguém sabe o que se passa dentro dos aviões,
Dos carros, ônibus e caminhões
Que param e passam,
Que dão passagem e atropelam,
Passam por cima e salvem
E deixam morrer na estrada molhada de chuva.
Nem por dentro da cabeça das pessoas que não sabem
Que o sorriso largo da criança
Perante o dia escuro
É tão contraditório
Quanto o vôo da ave de rapina
Pelo céu e mar limpo
Entre o sol mais que vivo.
Dias escuros, noites claras,
Manhãs violentas, tardes lentas.
Amores aflorando, ódios sangrando,
Corpos transando, cabeças rolando.
E o dia escuro cresce.
Assim ele aparece.
Assim ele se determina.
Assim ele domina.
O olhar dos que vêem seus filhos
Irem à escola em capas que os protegem da chuva,
Mas não do frio.
O olhar dos adolescentes mortos de tédio.
A perda da vida das cores das tintas.
O triste impulso sem graça do céu cinza.
O fraco aspecto de ternuras sem carícias.
os cruéis detalhes das últimas notícias
Dos jornais, das revistas, nas bancas, livrarias.
A velha que escorrega
Caindo na lama.
Os corpos que batalham
Desejando ainda estar na cama.
Comanda os pensamentos poluídos dos homens do mal
Que guardam o sexo na cabeça e as idéias no pau.
O fundo do coração das moças de mente vazia
Que fazem bebês assim como fazem comida.
A teimosia das aves que não se cansam de voar.
A bravura das árvores que insistem em respirar.
Talvez o mistério da noite venha esconder o medo no olhar.
Mas a realidade é má e tão fácil não irá nos desvencilhar.
E o negro do sorriso da besta
Cobrirá o branco da lua,
Como a urina do bêbado
Escorrendo da calçada para rua.
Se é doce morrer no mar
É amargo morrer no asfalto
Não vale morrer de enfarte
Depois de escapar do assalto.
Nos móteis, os debates de ego
Que se fingem de sexo
Com certeza se acirrarão.
Só que eles nunca saberão
Que nas minhas mãos está a soluçao
Da limpeza de toda podridão
Que toda mentira possa sujar.
Mas não se percam nas confusas palavras desses versos-pensamentos.
Pois o dia escuro, como um pesadelo,
sucumbirá num só acinte
no despertar do nascer do sol do dia seguinte.
(Marcio Rufino)
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E...

E...
E todos os sonhos que sonhei?
-Simplesmente me obrigaram a acordar
Me proibiram de sonhar
E colocaram meus pés no chão
E todos os castelos que construi?
-Tiraram-me o príncipe
E tiraram o dragão
Tiraram a princesa, agora sem proteção
E todos os suspiros que dei?
Perderam-se num quarto escuro, na solidão
Perderam-se no vazio, ecoando no meu coração
Perderam-se entre soluços e lágrimas
Perderam-se num verso de uma canção
E tudo que senti?
Perdeu-se no último abraço que lhe dei
Perdeu-se na última vez que meus lábios tocaram sua face
Perdeu-se quando te ouvi dizer adeus
Autora: Tamires Alci
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quinta-feira, 8 de abril de 2010
AQUARELA

AQUARELA
(Poesia dedicada a amiga e artista plástica Gabriela)
Eu pinto sonhos que nem sempre têm asas
Sonhos vividos
Sonhos esquecidos
Sonhos que poderão viver na minha tela
Na minha triste aquarela
Minha tela pode estar pintada de vazio
Silêncio vazio
Cores incolores que mostram meu rosto
Tela vazia incolor que inspira minhas cores
Eu pinto meus temores na madrugada
Onde a tempestade é a verdadeira tela
Onde a solidão disfarçada
Invade o meu quarto pela janela
Eu pinto a solidão do meu corpo
Pinto as cores da minha voz nua
Pinto meus olhos perdidos no infinito
Minha tela é meu próprio grito
Autor: Arnoldo Pimentel
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terça-feira, 6 de abril de 2010
Bonde

Já vai passando bem antes
Do horário de que é refém.
Vou correndo pela via,
Com ambos os pés feridos
Por calos de mais um dia,
Ouvindo o rumor dos corpos
Proliferando-se anônimos,
Nesta cidade de mortos!
Mas, corro e chego de vez
Passando em cima das covas
Dos mortos sem ano ou mês,
Dos que vão pelas calçadas,
Passando pelos semáforos,
Entre sombras apressadas.
Vou pela rua bem vivo
Sentindo no peito ofego
Coração nunca cativo,
Pisando no asfalto duro,
Rosas fanadas num chão
Só de ratos em monturo,
Pisando essa rataria
Que, contra tanta miséria,
De certo, nada faria.
População que consente
Que o tempo todo lhe mintam,
Sempre farta e tão carente.
Sim! O bonde vou pegar
Junto a Prometeus e Sísifos,
Que nunca aceitam estar
Escravos da profissão,
Presos às roupas e à classe
Da falta e da solidão;
Que nunca aceitam estar
Como os que voltam pra casa,
Bovinos, de par em par.
Gente que pensa que assento
Terá sempre garantido,
Mas que é folha, e leva o vento,
Gente que vagueia a esmo,
Pelos carris do vagão
Carregado de si mesmo,
Sem ver que vamos tomar
Dos mortos ainda em vida
Nosso direito e lugar!
Daqueles que em cemitério
Transformaram suas vidas
Sem decifrar-lhe o mistério.
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sexta-feira, 2 de abril de 2010
MINHA ESPERANÇA

MINHA ESPERANÇA
O que importa se em Ti está minha fé?
-Nada importa
Pois em Ti está minha esperança
Ainda que me digam: Não, não tem mais jeito
Ainda que me torturem, e esmaguem meu peito
Continuarei afirmando: Tu és meu Deus
E com alegria seguirei Te louvando
Ainda que caminhando contra o vento
Eu caia e morra ao relento
E minha carne seja dividida
Entre as feras do campo
E de mim nada mais restar
Minha fé me conduzirá ao céu
E Contigo sempre irei morar
Mas quando minha sorte for mudada
E pelo Senhor eu for agraciada
Meus lábios mais O louvarão
Feliz então eu serei, por poder dizer
Ao meu Rei:
“Minha fé não foi em vão!”
Autora: Silviah Carvalho
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ÂMAGO

ÂMAGO
O Senhor é meu pastor e nunca me faltará
Devo crer para que possa sorrir, mas não consigo
Minha fé é pequena, porém vejo tua grandeza
Sinto-me perdido, ajuda-me, preciso de um amigo
O Senhor é meu pastor e nunca me faltará
Mas eu não encontro O caminho, me sinto sozinho
Há tantas portas abertas e não sei qual é a certa
Dai- me sua mão, mostra-me o verdadeiro caminho
O Senhor é meu pastor e nunca me faltará
Ainda me sinto preso, ainda não vejo a Luz
Daí- sua paz, me ensina o valor da cruz
Sim, Tu és o meu Pastor e eu mal O conheço
Aproxima-me de Ti, revelas a mim a Tua presença
Quero provar de tua vida, ainda que não mereça
Meu Pastor, muda meu nome e não serei criatura
Quero seguir-te e ser à tua semelhança fiel
Quero ser chamado de filho e poder morar no céu
Autor: Arnoldo Pimentel
quarta-feira, 31 de março de 2010
Os pombos e o homem

Não se parecem com pombos,
Não se parecem co’as aves,
Co’os próprios da sua espécie.
Os pombos da Praça XV
Se parecem mais co’as gentes
Quem vão e vêm pela Praça.
Ou quiçá sejam as gentes
Que com eles se pareçam,
Já que também pela Praça
Vão e vêm seguindo rotas
Como as aves migratórias.
Pois quem será mais antigo:
O homem enfadado da Praça,
Ou a ave cansada de céu?
Não sei! Pombo, gente, pombo
Que vão e vêm pela Praça
Se imiscuem, se confundem
A tal ponto que não notam
Um e outro nesta labuta
Diária por alimento
Nas filas, vias e dutos
Por onde passam e ficam
Às vezes, homem e pombo
Aves, gentes e indigentes,
Quietos, e lado a lado,
Protegendo-se da chuva,
Debaixo do viaduto,
Que rasga a Praça concreto.
O pombo, o homem, a praça
E os mendigos esfaimados,
Debaixo do viaduto,
Cruzam-me sempre o trajeto.
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terça-feira, 30 de março de 2010
E te chama
A declamar
Sandra Pimentel
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Quando o beija-flor lilás beija o doce vento do amor

Amanheceu em mim a idéia de morte.
Uma morte que era ressurreição.
Ressureição de um louco desejo
De esquecer que alguém está me vendo
Por trás do buraco da parede.
Nessas horas eu sou um sonho erótico.
Um guarda noturno.
Um animal exótico.
Um herói taciturno.
Uma abelha-rainha.
Uma fada madrinha.
Uma saia rasgada.
Uma camisinha furada.
Nesse conto de bruxas
Minha metade sapo se funde com minha metade príncipe
Ao ser beijado por uma desonrada princesa vestida de pomba-gira.
E enquanto no céu de minha boca
Anjos sensuais me aguardam
Tocando sinos de boas vindas,
Sonho com meu amargo regresso
Acompanhando o natural desenvolvimento do progresso.
Me atiro na terra e me torno o mais selvagem tigre a correr pelo mato.
Mergulho na maresia e sou um terrível e sedento tubarão
A atacar sua frágil presa por sobre as ondas.
E a saudade de uma época que eu me esqueço
Me lembra que hoje há crianças cheirando coca-cola
E eu espero minha namorada na porta da escola.
O pai dela é bancário.
Sua mãe é professora.
Seu tio é estelionatário.
Sua prima é sedutora.
Me olha com olhar voluptuoso
Celebrando minha rebeldia.
Me abraça um abraço fogoso
Despertando minha lascívia.
Tudo isso acontece quando o beija-flor lilás
Beija o doce vento do amor
E voa seu vôo veloz por cima da Baixada Fluminense
E bica seu viril bico teso
Nas flores mais murchas e resistentes.
Entardeceu em mim a idéia de vida.
Vida que é verdadeiro falecimento de meu corpo
Dentro de um coração quente.
Nessas horas eu sou um cavalheiro andante.
Uma tradução malfeita.
Uma idéia mirabolante.
Uma proposta desfeita.
Um ator canastrão.
Um cinema em última sessão.
Uma pessoa esquecida.
Uma coisa esquesita.
Nesse romance policial
Minha metade PM se funde com minha metade bandido
Ao ser capturado por um respeitável detetive vestido de traficante.
E enquanto no inferno de minha libido
Demônios castos me escorraçam
Me espetando de baixo para cima
Me preparo para minha festejada ida
E acompanho o natural avanço da tecnologia.
No mato sou a mais venenosa cobra a lançar sua língua pelo ar.
Na areia sou o mais astucioso caranguejo a cortar a carne com sua mão-tesoura.
Na parede sou a mais combativa formiga a lutar pela subsistência.
No ar sou a mais fagueira águia a bater livre suas asas.
E o desespero da época que vivo
Me lembra que ontem haviam crianças que ainda brincavam de roda.
E a vida passa pela minha memória.
Ela vaza pelo meu corpo.
Se aloja em meu peito.
Despenca aos meus pés
E deita em seu leito.
E o beija-flor lilás se deixa tragar pelo vento avassalador
Que nos empurra para o nada
E nos puxa para o nem sei lá aonde.
Nos suga para o fim do mundo
E nos joga aonde Deus quiser.
Marcio Rufino
Todos os direitos reservados
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quarta-feira, 24 de março de 2010
na calada da noite
ele se transforma
Sandra Pimentel
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FÉ ESQUECIDA

FÉ ESQUECIDA
Não tenho nada na vida
Nada que eu possa me agarrar
Nada que eu possa me purificar
Não tenho fé
Não tenho vida
Minha fé foi esquecida
No buraco negro da minha história
Sou feito de inglórias
Não encontro o caminho
Que me levará
Até Aquele que me salvará
Pego a garrafa de vodka
Ela me ajudará
A partir antes do inverno chegar
Não quero ficar aqui
Não pertenço a este lugar
Quanto mais breve eu for
Mais breve irei acabar
Meu coração ficou vazio
Minha pradaria está em permanente estio
Não tenho um fio de esperança
Fiquei perdido em minhas andanças
Não tenho nada na vida
Não tenho mais fé
Só tenho feridas
Autor: Arnoldo Pimentel
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segunda-feira, 22 de março de 2010
Às avessas
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Em teu abraço não houve sofreguidão
Nem calma,
Como em Araguaína ou no Bico do Papagaio,
Após tanta poeira e viagem,
Tampouco ardor em teu beijo
Ou alívio
Como na praia de Tucunaré em Marabá,
Após tanto desejo e voragem.
Em teu olhar não houve labor
Nem satisfação,
Como às margens do Araguaia,
Ou na Gamaleira lendo o romance da liberdade
Para roceiros e o povo pobre,
Ou em Xambioá ao lado de índios e posseiros,
Tampouco desespero em tua mão
Mole no meu ombro
Ou a dilaceração,
Na fronte conturbada de emoção,
Ao ver de longe a fumaça negra que se levantava
Dos corpos de Maria Lúcia e tantos outros,
Lá em Andorinhas.
Em ti, houve sincera indiferença,
Em mim, muitos cadáveres
Que enterravas sem lamento e palavra,
Passado sangrento de fugas e torturas
Na tua muda catatonia.
Naquele momento, sem magia ou estupor,
Em que nosso ideário desfeito
Recusava qualquer panteão,
Despencando em tuas mãos áridas,
Nos reencontramos
E nos despedimos,
Sem estação ou trem,
Sem bandeira ou voto,
Sem rio ou praia
E para sempre
Sobre um monte de nada
Num país de ninguém...
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
sábado, 20 de março de 2010
Diversidade Cultural
O evento reuniu bandas como Inkerito, João Mathias e Caramujos, poesia com Pó de Poesia que convidou o grupo Gambiarra Profana, desfile do Conexão Modelos, dança cigana com a dançarina Maiara Landim, dança de salão e muito mais. Além de exposições com quadros de Dida Nascimento e o trabalho de resgate de memória do Centro Cultural Donana realizado por Érika Nascimento.
Confiram os registros e o vídeo realizado pelo grupo Gambiarra Profona.
BRINCAR DE POESIA

BRINCAR DE POESIA
Um dia sonhei em brincar de poesia
Pensei em inventar coisas
Tipo amor
Tipo nostalgia
Um dia tentei descobrir o que era o mar
Tentei brincar de amar
Imaginando que seria só fantasia
Amar na poesia
Um dia pensei em sentir o perfume das flores
Viver sem sentir dores
Um dia tentei viver
Esquecer que queria morrer
Um dia quis saborear o néctar
Cortei-me nos vidros
Sangrei sem ser ouvido
Um dia vou dizer adeus
Adeus pra minha poesia
Vou deixar de amar
Deixar de chorar
Um dia esquecerei
De me olhar
De me ver passar
Um dia vou deixar de brincar de poesia
E vou morrer para essa vida
Sem sonhos
Nem fantasia
Vou morrer pra poesia
Autor: Arnoldo Pimentel
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quinta-feira, 18 de março de 2010
DESPEDIDA POÉTICA

DESPEDIDA POÉTICA
Por esta minha inspiração desfigurada,
Desfaço-me da poesia e quebra-se o encanto;
Já não sou poeta.
Se um dia o fui, foi por engano
Desses versos que nos iludem.
Das rimas sonoras que no fundo são antagônicas,
Despeço-me e escolho as macieiras como trégua.
E as linhas em branco continuarão cheias
Dos versos que jamais farei.
Autora: Luciene Lima Prado
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segunda-feira, 15 de março de 2010
As ondas

Que rolam sem mar
Por entre alamedas,
Por entre esses carros,
Intrusas, incômodas,
Me trazem memórias
Bafio de mar,
De mar que secou,
De nau que afundou
Co’herói e piloto.
Qual doidas sem rumo
Se quebram, rebentam
No pé do edifício
De escarpa e marisco.
Na noite serena,
Do quarto eu as oiço
Marulho de outrora,
Repletas de vozes,
De guerras e amores,
De frotas inteiras
Que não transpuseram
Tormentas e cabos;
Que não encontraram
Bom termo e farol –
Imenso alarido
De gritos no escuro...
E assim quando saio
Com pasta na mão,
Ou chego abatido
Qual ave arribada
Os pés eu remolho,
Cansado e calado,
Num mar de cadáveres,
Atrás de enseada
Pra enfim descansar
Um lenho de carne
Que sulca esquecido
As ondas de um mar
Em que naufragou
Remoto na história.
Por isso o que quero
É enfim devolvê-las
Ao mar dos banhistas,
Ao mar dos surfistas
Que quebra na Atlântica
Sereno e tranqüilo.
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