Manifesto do coletivo Pó de Poesia
O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.
Creia.
A poesia pode.
(Ivone Landim)
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Sobre a importância de Plutão e Caronte
daquele seu trabalho simples, natural, daquele seu cuidado às frágeis criaturas do reino
vegetal, é que ele garantia sustento. A contrapartida de suas mãos calejadas: o quarto
singelo para repousar o seu ser à noite, ante a gravidade da terra e o etéreo das estrelas
flutuantes, acima de sua cabeça; um bom prato de comida que Luiza preparava; e água a
vontade, para beber, lavar o corpo e dar de beber a sua verde companhia.
Daquela sua simplicidade singular irradiava o sorriso ingênuo, e um brilho por vezes inconcebível, que habita apenas os retardados e os mentecaptos. Diogo não entendia das
coisas do homem, cada cuidadoso golpe de sua enxada separava, paulatinamente, as
ervas daninhas das mais variadas espécies de plantas, e resultava em gotas de suor que
lhe corriam a face. O mesmo sol que possibilitava a fotossíntese castigava a sua cara.
Os elegantes moradores da mansão avançavam orgulhosos com os seus visitantes
através de caminhos cuidadosamente traçados, entre magníficas folhagens, as belas
flores e sublimes perfumes, mas mesmo estando ali, em meio às plantas, Diogo passava-
lhes desapercebido. E assim Diogo, abandonado na crosta terrestre, crescia para dentro,
deslocado da escória do ser humano.
Certa noite de primavera, logo após o crepúsculo, Diogo deu-se conta de um corpo sutil
e brilhante que recém avistara no céu. Então ele, como uma criança, correu e chamou
Luiza para compartilhar da descoberta. ‘Onde está, Diogo?’ Ele apontava com o dedo
indicador de sua mão esquerda, ao mesmo tempo em que fechava o seu olho direito,
num espetáculo de lhe tirar o crédito, ‘está lá, viste?’ ‘Pois eu não vejo é nada, hôme.’
‘É pequenino como um grão de areia.’ ‘Deixe de besteira que eu vou me recolher’, disse
Luiza, já imaginando que Diogo tivesse com segundas intenções.
As noites e os dias se desdobravam numa sucessão da mesma rotina, como que para
imprimir-lhes o duro signo da realidade, de uma vida tranquila e sem sobressaltos para
os patrões, do quotidiano sofrido dos empregados. Foi durante esse período que Diogo
acompanhou a aquiescência do firmamento ao surgimento de nova esfera celeste: esta
assomava em volume e brilho a cada anoitecer.
Todas as noites, um Diogo assombrado clamava por Luiza para compartilhar dessa sua
descoberta. Ela olhava, buscava, mas nada via. Ela procurava também perscrutar um
eventual desígnio secundário advindo daqueles miolos matutos de Diogo, mas este
esforço também, lhe era vão. Foi exatamente naquela noite quando Luiza finalmente
decidiu permitir-se e ceder à aproximação do seu corpo ao corpo de Diogo que, para seu
espanto, ela vislumbrou pela primeira vez a pedra celeste que se avolumava e avançava
perigosamente em rota de colisão com o planeta Terra.
Não tardou muito: os observatórios ao redor do planeta só tinham olhos para o
asteróide; os cientistas, alarmados, debatiam sobre as implicações e a possível origem
de misterioso objeto que viajava em velocidade assombrosa, cruzava o espaço, e seguia
em direção a nossa Terra. Os jornais sanguinolentos, os noticiários sensacionalistas da
tv, as páginas fúteis da internet, o assunto monopolizava atenções, causando verdadeiro
alvoroço, especialmente entre os mais abastados, os mais cultos e os eminentes, que temiam a ideia de serem esmagados como se fossem formigas.
Luiza observou um estranho paradoxo no transcorrer daqueles dias. Diogo permanecia
absorto pelas demandas com as plantas do imenso jardim na grande mansão. O seu
cuidado com as verdes criaturas era inabalável. À noite ele passava a admirar o
asteróide, como fizera desde a sua primeira observação da pedra celeste. Um estranho
brilho reluzia de seus olhos, algo nas entranhas daquela cabeça matuta e surrada pelo
Sol parecia começar a ferver a quentura das ideias. Diogo não precisava ir chamar por
Luiza para observarem juntos ao asteróide, ela vinha por vontade própria encontrá-lo,
beber daquela sua gradual e crescente sapiência.
Certa noite Diogo lhe falou da alquimia, que era para ele a supremacia do espírito sobre
a mente, transcendendo a matéria. Ele explicou sobre o conceito do grande regenerador,
sobre a necessária transformação pela destruição, queima e consubstanciação de velhos
aspectos imanentes para o surgimento de padrões organizacionais mais elevados. Luiza
ouvia a essa fala admirada, ao mesmo tempo em que pouco ou quase nada compreendia.
Outra noite parecia a Luiza que os olhos de Diogo tinham luz própria enquanto ele dissertava longamente sobre a mitologia romana e o deus do mundo inferior. Vez por
outra mudava o enfoque, mesmo o seu jeito de narrar, abordava a questão sob a luz de
diferente disciplina. Agora o tema era a astronomia. Diogo falava sobre um senhor de
nome Percival Lowell e o projeto de busca do nono planeta, denominado ‘Planeta X’, ao
alvorecer do século XX.
Com a aproximação gradual, verdadeira invasão do céu pela misteriosa esfera celeste,
que agora competia em área e brilho com a nossa Lua cheia (embora apresentasse
tonalidade ligeiramente mais escura e avermelhada), Luiza percebia que os donos da
mansão e os seus visitantes estavam às raias da loucura; de tão transtornados pelo medo.
Por outro lado, Diogo em sua simplicidade e pureza, parecia exultante com a boa nova.
Foi quando a área do asteróide no céu parecia uma ordem de grandeza superior àquela
da Lua cheia (i.e., pelo menos dez vezes maior), e a Terra dava sinais de claros de exaustão (através da intensa ocorrência de tsunamis, terremotos e a erupção de vulcões); que a comunidade científica admitiu finalmente, em um comunicado oficial à imprensa internacional, que o choque da pedra celeste com o nosso planeta seria inevitável, decretando o fim inexorável da humanidade.
Luiza, que assistiu à grave declaração em transmissão simultânea através de seu
ultrapassado televisor de tubo, estava inconsolável e foi ter com Diogo. ‘Você já ouviu
falar de Plutão? Esse, que já foi considerado o nono planeta do sistema solar, foi rebaixado no início do século XXI ao grau de planeta anão. Plutão e Caronte, o seu maior satélite natural, caracterizam em verdade um sistema binário, porque o baricentro ou centro de massa das suas órbitas está fora do volume definido por cada uma dessas esferas celestes’, disse Diogo com sua tranquilidade habitual.
Fato é que o asteróide continuou a crescer assustadoramente no céu e, quando o choque
e o fim pareciam inevitáveis, o seu movimento subitamente cessou, ao estabelecer com
a Terra a configuração de um novo sistema planetário binário no sistema solar.
Diogo despertou ao meio da noite, num sobressalto. Sua pele eriçada como se lhe
soprassem graves os ventos do espírito. O coração batia forte e descompassado, a ponto
de lhe saltar pela boca. Dada a sua natureza cabocla, matuta, ignara muito pouco ou quase nada ele apreendeu conscientemente de inusitada experiência. Mas, de alguma forma, esse conhecimento foi incutido às instâncias mais profundas de seu ser. Como a
semente que cai na terra, algo em seu íntimo foi posto em movimento.
Diogo passava os seus dias cuidando de imenso jardim na grande mansão. Daquela sua
simplicidade singular irradiava o sorriso ingênuo, e um brilho por vezes inconcebível,
que habita apenas os retardados e os mentecaptos. E assim Diogo, abandonado na crosta
terrestre, crescia para dentro, deslocado da escória do ser humano.
www.jorgexerxes.wordpress.com
Conto de Jorge Xerxes
domingo, 18 de setembro de 2011
Não sei porque chove Portugal
Não sei porque é tão má a saudade de ti
Não porque me vejo Portugal num Tejo de tédios
Quando te ausentas de mim
Não sei porque chove Portugal
Mesmo quando me vejo boreal
Na Paris dos teus abraços
Não sei porque chove Portugal...
Belém/PA, 15/09/2011
Poema de Marcel Franco
sábado, 17 de setembro de 2011
Negritude

Eu sou negro
Quero que meu tronco
Seja seu corpo
E minhas algemas e grilhões
Sejam seu abraço.
Eu sou negro
E não quero que você
Me venda
Quero que você me entenda
Quero que minha presença
Seja o real navio negreiro
Que me liberte do negro afro
E me leve a um sentimento ladino
Me leve ao encontro do negro latino
Dentro do complexo quilombo-continente
Que há em mim.
Pois, então venha
Que ainda sou negro
E meu maior segredo
É que nem abolições, nem cotas
São remédios, nem apagadores
Não desaparecem com as dores
De um passado cruel.
Por isso sou negro
Porque não quero
Que falsos sorrisos e hipócritas políticas
Substitua chibatas
Quero que o amor valha
Para além do samba e da cocada
Para muito além da feijoada.
Pois minha alma é incolor
E ao mesmo tempo tem todas as cores
Possui todos os odores
Que podes supor.
E não há como ser negro
Sem um pingo de maldade
Sem um pingo de piedade
Dentro do quengo.
Pois venha
E quando quizeres me seduzir
Não serei mais um simples negro
E sim a noite que se fez em homem
Pra te possuir.
Marcio Rufino
Todos os direitos reservados.
Crédito de imagem: Site Paixão e Romance.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Uma perna para o meu avô
o outro, com a alma gargalhando de ter enganado a gente, se minha mãe
não percebesse, tentando acordá-lo para a comida da manhã. Eu não gostava
de vê-la despertar meu velhinho, pois ele sonhava muito e passava a manhã inteira
me contando os sonhos, com um brilho nos olhos, que apenas fitavam de mentirinha
as montanhas distantes e as savanas. Eu olhava embevecido os seus olhos, que tinham
umas rodinhas brancas engraçadas abraçando as meninas dos olhos. Meu avô, Mahbub,
já não enxergava há seis anos; um médico americano, muito grande, de cara vermelha,
falou em catarata, mas viajou para outras terras antes de operar o meu avô e ele
continuou sem enxergar nada, mas nunca se importou com isso, pois seu pai, também
ficara cego e morrera do coração, há muitos anos atrás. O doutor explicou que os
anéis em volta das meninas do olhos não eram a catarata, mas também apareciam nos
olhos de gente velha; a catarata era mais pra dentro. Minha mãe ficou preocupada,
pegou o espelho e ficou olhando um tempão, o doutor riu e falou que ainda faltava um
bocado de tempo pros anéis dela nascerem. Depois, fez cara feia pra mim, pois soprei
nos olhos do meu avô, tentando mexer a água da catarata e vê-la. Mas a perna de
madeira, ele disse que ia demorar um pouco, mas chegaria no próximo carro da Cruz
Vermelha e deu à minha mãe um papel, pra ela receber a perna e botar no meu avô,
quando o caminhão de pernas passasse por lá. Fiquei muito triste, mas sabia que meu
avô estaria cantando e dançando, como sempre fizera, lá nas savanas eternas. Não
entendi o choro de minha mãe, que batia a cabeça no chão e exclamava maldição para
todos nós. Deixei que muita água saísse dela e perguntei pela maldição.
- Olorum nos castigará duramente, teu avó vai retornar para ele sem uma das pernas,
tudo no mundo é de Olorum , inclusive nós e nossas pernas. Isso atrai castigo, pois
Olorum nos deu tudo e tudo devemos levar de volta.
Aquilo tudo confundiu minha cabeça. Olhava ao redor, nada via além do meu avô no
calmo sossego dos mortos, sobre uma esteira; o toco da perna envolto por uma
manta; o cheiro da comida pouca oferecida pelos chapéus azuis enchia minha cabeça e
meu nariz, mas a fome veio e passou com a ventania lá fora.
Saí e vaguei pela aldeia durante horas.Vez por outra, passava alguém mutilado pelas
minas milicianas e eu imaginava quanta ira caberia no coração de Olorum, com tantas
pernas e braços roubados pela guerra. Mas quem estava morto em minha casa, era o
meu avô, o velho Mahbub, um homem bom e honesto. Não sei quanto tempo passei
vagando pelo campo. Voltei para casa exausto, mais de pensar que de caminhar. Se
meu pai fosse vivo, já teria pensado alguma coisa, mas eu sou Nanji, seu filho de doze
anos, correndo da fome e dos milicianos, com as minhas duas pernas e escondendo a
minha mãe, Abena, que teve um filho gerado à força, durante um ataque dos
milicianos, mas nascido morto pela graça de Olorum, inimigo da maldade dos homens.
Dormi um sono pesado e sem sonhos. Pela manhã, um cheiro de morte começa a crescer
em nossa casa. Minha mãe voltou a chorar e agora descabelava-se. Meu avô continua
na esteira, cercado de flores, nenhum vizinho apareceu, pela vergonha do defunto
perneta que obriga minha mãe a esconder a morte. As moscas varejeiras começam a
fechar o cerco; uma mancha esverdeada já aparece sobre a barriga do meu avô: a morte
fazia a sua parte. Novamente, andando a esmo, cheguei até o riacho, sentei na margem.
Do outro lado, vi Nassar, o mercador de peles, concentrado no seu banho, usando até
o sabonete dos chapéus azuis. Coração acelerado, atravessei o riacho pelo trecho mais
distante e cheio de árvores; dentre as roupas de Nassar puxei a sua perna de madeira,
esquerda, tal a do meu avô. Corri, o coração na garganta, a distender-me o pescoço.
Colocando a perna por dentro da roupa, na parte das costas, fingi uma outra alegria e
Pedi à minha mãe o papel que dava a garantia da perna de meu avô; ela me olhou,
olhos vermelhos de choro desesperado; agora, pura surpresa, pois não ouvira o
barulho da chegada do caminhão das pernas; não respondi, não sabia mesmo o que
dizer. Tirou o papel de um bolso, entregou-me, em chorosa desconfiança. Escondi a
perna atrás do depósito d’água,caminhei até o prédio dos chapéus azuis, entrei na
pequena sala de espera, um deles sorriu meio esquisito, olhando para o relógio. Falei
que estava doido por um dos chicletes de menta, chegados semana passada. Ele
levantou da cadeira, passou por um corredor, enquanto eu abria sua gaveta e carimbava
“ ENTREGUE. ONU “, no papel todo amassado. Recebi sorridente o chiclete
presente do tenente Jones, que fizera, sem saber, a grande ação de sua vida.
Conto de André Albuquerque
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Escrito nas estrelas
Os direitos dos negros
Os direitos dos homossexuais
Os direitos dos idosos
Os direitos dos indígenas
Os direitos dos deficientes
Os direitos das crianças e adolescentes
Deveres para omissos
Deveres para preguiçosos
O seu direito começa
Onde termina
Se todos fossem iguais perante a lei
Não haveria segregação
Racial
Social
Sexual
Justiça não é responsabilidade da Lei
É responsabilidade de Todos
Deus foi morto no século XIX
E ninguém notou a sua ausência
E ninguém aguarda o seu eterno retorno
E ninguém existe
O Paraguai é o México da América do Sul
Não é mesmo
Estados Unidos do Brasil?
Países desenvolvidos
No Hemisfério Norte
Países do 3º Mundo não
Subdesenvolvidos não
Em De-sen-vol-vi-men-to
No Hemisfério Sul
Por que não desenvolvem?
Quando o Planetinha Azul tornar-se inabitável
Não vai ficar barato colonizar o Espaço
VAGAS LIMITADAS
AOS ELEITOS
E não vai ser fácil começar do zero
Sem escravizar alienígenas
Ou ser por eles escravizados
Poema de Andri Carvão
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Acordar
ou vórtice. de uma vaga presença, mas
ar-interino.
onde some.
onde: a pele e o nome,
exercitam-te.
sejam-me às intempéries planejadas
lutas desiguais, e informações ásperas
ora,
que sejam às tuas fúrias, o meu ponto-norte
minha elegia de bússolas descontroladas
e
ainda assim,
a deixarem-me pelo caminho.
sejam. essas linhas, queda.
ou uniforme à praça de tendências, aliás
lugar-preferido.
insone e longe.
onde: a pele e o nome,
exemplificam-te.
Poema de Azke
Amar o Diabo
É como amar o próprio Judas
O mais elevado,
Aquele a quem tentaram
Macular-lhe o brilho,
Denegrir encolerizados
O preferido do único Filho.
Amar o Diabo
É como amar o Evangelho,
A sublime canção,
Boas Novas
De que ninguém precisa de salvação.
Amar o Diabo
É desprezar os doze
Como se nada fossem,
É amar o décimo terceiro,
Ter a carne imolada
No templo de sacerdotes e carniceiros.
Amar o Diabo
É como amar
A geração de Adamás
E seus luminares,
Aquela que tentaram sacrificar
Nos altares
Dos que jejuam e se abstêm
Gritando aleluia e amém.
Amar o Diabo
É ouvir a voz de Satanás
Sussurrar-nos assaz
Que nosso chão,
Que nosso pão e além
Não é uma caixa
Onde se acha
Todo o mal ou todo o bem.
Amar o Diabo
É ter Judas Iscariotes
Como confessor e sacerdote,
Ser facho ou archote,
Apóstata,
Alvo dos apóstolos,
Malditos zelotes.
Amar o Diabo
É não ser gado,
Estar imundo e sem pecado,
Trazido ao mundo,
Da perdição das estrelas
E poder vê-las
Como antiga cela
Onde lhe devoravam
O fígado e as costelas.
Amar o Diabo
É ver o próprio Deus
Despir-se de todas as vestes
É vê-lo nu, sem desejos,
Monstro do Leste,
A contemplar no espelho,
Sem chifre ou rabo,
Toda a pureza do Diabo.
Amar o Diabo
É tornar-se pio crente,
Ter nas mãos a estrela e a serpente,
A ira acesa,
A marca e o chifre
De quem quer ser livre
E, enfim, se desnuda
Para crer
No evangelho de Judas.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Flores rudes
São flores rudes -
Não atrairiam a tibieza
Do coração dos homens,
Nem as aplaudiriam
Quem mantém os sentidos
Superlativamente excitados
Pelos graxos sons de fonemas,
Que só fazem mesmo o gosto
De estômagos habituados
À compulsória ingestão
Dos venenos aveludados
De tediosas verves e lisonjas,
Que embalam os cantos e as loas
De viciosos bardos... Vates,
Prenunciadores de fátuos arrebóis.
Poema de Lázaro Ben Hashem
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Conselho a um poeta

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? – perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: “eu vos trago a verdade”, enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: “eu te trago a minha verdade.” E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!
Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as digressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escreve os seus poemas?” A poesia é dessas coisas que a gente faz, mas não diz.
A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.
Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes”. Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técnica dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.
Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.
Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que, no entanto, me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.
Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?
Mario Quintana
Cena.ar: letra-Alvo
mar,
ensejo cadente por utopia(à ilha) de papel
ela serve-me
qual,
alvorada revogada.
rente.
ou. (lâmina.. em)plano-fosco, de tintas..
referência-pagã. de preces obsoletas e nulas
do quadro-página que, à insônia,
morada: lhe fiz..
e-é: sempre lenda.
ou.cena..
registro de conformidade aliciada
da im-presença(vaga) acortinada ao palco-febre
desde.
que,
à tela(dela), me formei..
ah, (esta)mensagem re-criada!
livrada..
em pecado rumo por um livro-solto, a presidir
ou
o corpo
e
posto. de face a ruir o nome(alvoroço) ao-que te condenei..
..
ano:
um.
mero tempo..
tão sendo,
do pouco que tenho,
à senda(retirada), e.
de ti.
(ainda-morada)
Poema de Azke
domingo, 4 de setembro de 2011
Nunca vi o mar
Segue uma palhinha do livro! Abraços!!
[Nunca vi o mar]
Nunca vi o mar. Sempre
esperei à beira de um rio.
Guardando o trajeto
da água,
de seus peixes de ar.
Nunca desejei o infinito abraço
aberto do mar.
Me contentava com o rumoroso riso
da correnteza no velho mangue.
As árvores buscaram
aquelas margens.
Tudo que era real ou fantástico.
Fiquei com os ais
das pedras, no antigo cais.
Quantas paragens não naveguei.
Longe, muito longe
de onde este rio corre,
estava a promessa do mar.
Poema de João Lima
sábado, 3 de setembro de 2011
Pó ao pó
recebendo o vento
de tudo que foi e existe
mesmo que tenha que cavar o chão
não terá o que não teve
os sonhos idos
como vento na estepe
mais parecidos com a alma
(que ela mesma)
brincando que as coisas mudam
... e não doem iguais
Poema de Vânia Lopez
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Sou-te sereia senhor, mas não me vês...
exibo-me quimera, arranco-te queixumes.
Ao embalo deste mar – fullgás – sou teu reverso,
a dor que não se esconde – um verso em mil perfumes.
Revelo-te em meu corpo as vidas do Universo,
beleza transcendente, arfar de vis ciúmes.
Ao embalo deste mar – fugaz – um corpo emerso,
resvalo ao teu olhar – não brilhas aos meus lumes.
E canto e canto e canto! Excelso e ardente ai!
Rastejo ao teu mistério e louca em ti delinquo
ao verso, numa estrofe, em mim tudo se esvai!
De que valho em paixão? Em ti nem sou sagrada!
Ao vento do arrebol meu canto tão longinquo
é sonho, é ária, é luz, é sombra, é dor, é nada...
Soneto de Sílvia Mota
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Lucidez Seixas
Edith-se:
O Profeta embriagado
De Len(d)a, Tânia e Glória...
Correu atrás da Historia,
Como o vaqueiro do gado.
Jogou o jogo dos ratos,
Bebeu da Vida os Mistérios,
Voou p’ros mundos etéreos...
Curtiu um milhão de baratos.
E assim...
Kika’ndo entre as esferas,
Num nonsense profundo...
Foi-se a desvendar outros mundos,
Haver-se em novas quimeras...
Vestir-se de querubim.
Poema de Lázaro Ben Hashem.
Carta-Testamento da grande atriz Cacilda Becker

“Viver é conquistar. Não se pode viver em estado de contemplação. Viver é ir ao encontro. Tudo está a nossa espera. É uma questão de coragem e amor.”
“O meio do teatro é um meio como qualquer outro. Existem brigas, discussões, invejas, tudo motivado por falta de estabilidade. Mantenho, no entanto, relações cordiais com meus colegas.”
“Tenho poucos amigos, por uma questão mais de temperamento, pois costumo entregar-me integralmente a muita pouca gente. Sou, por natureza, de feitio ‘mandão’, franco, aberto. Meus ódios e meus amores são declarados. Não tenho tempo para perder com hipocrisias inúteis.”
“Tenho trabalhado muito, demais, quem sabe? Quase não vejo o sol. Principalmente o pôr-do-sol. Sinto tanto. De todas as horas do dia, é essa a que mais se instala em mim. Sempre foi assim, desde pequenina, muito pequenina. É uma sensação de saudade (quem sabe?), um estado coerente com tudo aquilo que a minha natureza sempre ansiou, ir além, além das coisas e de tudo, perder-se.”
“Quando quero, quero. Quero de fato. E vou buscar. Não espero nada de ninguém com relação as coisas materiais, é claro. Tenho confiança cega em mim, apesar das insuficiências toco tudo para a frente. Sempre fui assim.”
“Não quero ser sempre mero instrumento do autor, mas a própria obra, vivendo também momentos de plenitude.”
“De cada personagem que representei guardei uma ‘descoberta’ para mim, de mim mesma.”
“Não quero negar as qualidades ‘terapêuticas’ do teatro ou de qualquer arte, mas, como tenho horror a meias-verdades, devo confessar o que a mim me parece à verdade inteira. Todo conhecimento cultural ou artístico, toda experiência de vida, filtrados num caráter positivo trazem benefícios para o ser humano. A soma de tudo isso - arte, cultura e vida, deveria obrigatoriamente melhorar qualquer homem.”
“Nasci forte, e desde o dia em que a vida me ensinou a não ter mais medo dos homens e dela mesma, acho que comecei a melhorar como ser humano e como atriz.”
“Minhas insatisfações, minhas angústias, esta fé em meio ao caos foram coisas vitais para a minha arte. Essas coisas fazem os poetas, as atrizes, os devassos e as prostitutas.”
“Tenho um caráter voluntarioso, temerário, perigoso mesmo, porque me faltam as medidas. Vou da extrema generosidade ao mais absoluto egoísmo. Resta-me a esperança de que com o tempo (que já não é muito grande para esse fim), adquira sabedoria.”
“Sei que terei vivido a vida integralmente. Rezo todas as noites antes de dormir. Peço a Deus que não me falte uma consciência alerta e não perca um instante, porque a vida é pequena.”
“A vida é um jogo maravilhoso e Deus nosso parceiro. O que me importa não é o tempo que vou ficar em cena, são aqueles que eu amo.”
“Quando chegar a minha hora, eu vos direi, meu Deus, fiz tudo que podia, me esforcei, não me entreguei a ninguém. A vida não me fez medo, aceitei as condições. Sofri bastante, chorei muito. Feliz não sei se fui, porque não tive tempo de saber. Dei-me inteiramente a tudo. Neguei-me completamente aos que repudiava. Vivi a minha natureza em toda a plenitude.”
Cacilda Becker
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Notícias por e-mail
insana insensatez a gargalhar em vão,
reclamo de prazer, que em eco liquefaz,
eufórbio envenenado, às lavas de vulcão?
Queres saber de mim, esta mulher loquaz,
angústia a se perder ao vento e à erosão,
suspiro e anseio vil, que em choro se perfaz,
vestido a esfrangalhar, sem cor no coração?
Se queres, vais saber. Sou dor e sou tormento!
Trafego em luto meu, sou poço artesiano,
revelo na saudade, um chafariz barrento!
Se queres, vais saber. Não tenho outro Universo!
Envio neste e-mail, anexo profano,
o tudo que possuo, um quase nada: eu-verso!
Soneto de Sílvia Mota
terça-feira, 23 de agosto de 2011
A ti, Maiakóvski
Teu nome que ecoa de tuas vértebras,
e é amarelo como tua camisa.
Componho-te entre os dias que te leio,
no veludo da minha pequenice,
no meu crânio erguido ao povo russo.
O teu amarelo não é antepassado
e tua fala cotidiana inexprimível
é a que melhor traduz o meu século.
Tomo como meu o teu futurismo terrível,
celebrante de Lênin, Iessiênin e de Lila,
tendo a forma poética de uma pólvora.
A tua rima hiperbólica e desmensurada,
par do teu coro retumbante e claro,
aplaudiu o retro levante do teu povo.
No futuro que tu poemaste outrora
ficou o meu passado reminiscente,
de quem te vestiu, te tocou, te ouviu.
Foste um russo adventício, uno e veemente,
cuja leitura não me basta - não me é suficiente! -,
lê-lo tão só por lê-lo e só lê-lo.
Leio-te trajando uma camisa amarela,
tocando Tchaikovsky numa flauta vértebra,
costurando com veludo a tudo e a todos.
Poema de Isaac Bugarim
domingo, 21 de agosto de 2011
Eu, mulher!
E tantas variantes de
Mim mesma, que as vezes
Torno-me pequena
Não me cabem!
(preciso de espaço)
Respirar! Respirar!
Tamanho cansaço
Dissimulado por um
Lindo batom, avermelhado
E um salto alto
(é como um colt 44)
E, estou pronta para
Matar!
Ser multifuncional, altera
a minha função hormonal
e, como toda fêmea
(felina, viro ferina)
E saiam da minha frente
Vou passar!
Algum corajoso
Quer enfrentar?
Poema de Sandra Soares
sábado, 20 de agosto de 2011
11 meses, 19 dias e muitas horas de vida!
Agora têm graça todas as cartas de amor ridículas.
E essas coisas ridículas que todo mundo diz
quando diz que ama.
A lama da UFAL, os braços me abraçando,
O frio, a falta de luz,
O creme no cabelo,
Pipoca e ônibus,
Banana com Catchup, pirulito,
Roupa molhada, corda,
Suor e beijo, tupolevs,
Formigas chatas,
Sombras móveis e nuvens rápidas,
Confissões, caretas bestas,
Chuvas e fotos, tu ia's, sextas,
Questionários, incesto no Teatro,
Saudades sem net, praia e repentista,
Unhas e conceitos, músicas e batom,
Seqüestros e prêmios, saias e Black Sabbath,
03 de julho's, datas do ano todo,
Chicletes e desenhos,
comunidades e mordidas – despedidas,
Cartas e São João, Parque de diversão e Legião Urbana,
Panfletos e timidez, Filosofia e Política,
Enquetes, sábados e domingos, tiroteios e declarações,
Celular e jurubebas na estrada, filmes e filmes,
Etc's e etc's, Reitoria e D.R.,
Tapioca e impressora,
Buraco e Xadrez,
Slides e eleições,
Morango e basquete,
Dããã's e provocações,
Surpresas de 18 anos,
Sapos... Ah, os sapos...
Conquistei-a, com minha teia.
Minha teimosia de querê-la – com querelas.
- Bozó.
Somos um só, um sol, um nó na garganta dos outros
que não sabem amar.
Não há casal como nós, nem terá e nunca terá existido,
porque o nosso cupido
morreu de felicidade
ao vê-la em nós. O nosso cupido não existe mais!
E a todos os casais
que o queriam conhecer: morram de inveja e de desgosto.
Porque, de felicidade, será nossa morte.
E, quem dera, a sorte de morrermos
como vivemos e viveremos: juntos.
Nós somos a terminologia dos amantes,
das invariantes da língua – que língua a que beijo!
11 meses e 19 dias da mais pura vida.
Poema de Isaac Buagrim
Como as coisas mudam
E tudo mudou...
O rouge virou blush
O pó-de-arroz virou pó-compacto
O brilho virou gloss
O rímel virou máscara incolor
A Lycra virou stretch
Anabela virou plataforma
O corpete virou porta-seios
Que virou sutiã
Que virou lib,
Que virou silicone
A peruca virou aplique,
interlace,
megahair,
alongamento
A escova virou chapinha
'Problemas de moça' viraram TPM
Confete virou MMA
Crise de nervos virou estresse
A chita virou viscose.
A purpurina virou gliter
A brilhantina virou musse
Os halteres viraram bomba
A ergométrica virou spinning
A tanga virou fio dental
E o fio dental virou anti-séptico bucal
Ninguém mais vê...
Ping-Pong virou BabalooO
A-la-carte virou self-service
A tristeza, depressão
O espaguete virou Miojo pronto
A paquera virou pegação
A gafieira virou dança de salão
O que era praça virou shopping
A areia virou ringue
A caneta virou teclado
O long play virou CD
A fita de vídeo é DVD
O CD já é MP3
É um filho onde éramos seis
O álbum de fotos agora é mostrado por email
O namoro agora é virtual
A cantada virou torpedo
E do 'não' não se tem medo
O break virou street
O samba, pagode
O carnaval de rua virou Sapucaí
O folclore brasileiro, halloween
O piano agora é teclado, também
O forró de sanfona ficou eletrônico
Fortificante não é mais Biotônico
Bicicleta virou Bis
Polícia e ladrão virou Counter Strike
Folhetins são novelas de TV
Fauna e flora a desaparecer
Lobato virou Paulo Coelho
Caetano virou um chato
Chico sumiu da FM e TV
Baby se converteu
RPM desapareceu
Elis ressuscitou em Maria Rita ?
Gal virou fênix
Raul e Renato,Cássia e Cazuza,Lennon e Elvis,
Todos anjosAgora só tocam lira...
A AIDS virou gripe
A bala antes encontrada agora é perdida
A violência está coisa maldita!
A maconha é calmante
O professor é agora o facilitador
As lições já não importam mais
A guerra superou a paz
E a sociedade ficou incapaz......
De tudo.
Inclusive de notar essas diferenças.
(Luiz Fernando Veríssimo)
Afrodite
Nascido entre os escombros do meu dia,
Me surge enquanto dispo-me da cal
Das horas consumidas sem valia.
Teu corpo, epifania conjugal,
Sigilo e afago após a bizarria
Que me aflige tornando mais brutal
A mão que à noite busca-te erradia.
Refúgio de quem vive em meio às feras
De todos os banidos das esferas,
Dos anjos, prometeus e satanás
Que agora gozam, amam e trabalham
Na luta pelo pouco que amealham,
Afã com que teu corpo se compraz.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
A Marca de Pagu....

Pagu nasceu em 1910, em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, mas passou a infância no Brás, bairro da região central paulistana. Na adolescência já chamava a atenção por sua personalidade forte. Poucos anos mais tarde, levada pelo poeta Raul Bopp, Pagu aproximou-se do grupo de intelectuais paulistanos que encabeçaram o movimento modernista brasileiro. Foi quando teve o primeiro contato com a pintora Tarsila do Amaral e o escritor Oswald de Andrade (veja boxe Passagens da Vida Privada). Sua luta contra a ditadura de Getúlio Vargas, iniciada na década de 30 quando tinha apenas 21 anos, foi dura e tortuosa, pontuada por prisões - mais de 20 - e torturas. "Ela sempre sonhou entregar-se totalmente, sem limites, até a aniquilação, ao amor, a uma causa, à vida e até à própria morte", afirma a professora Lúcia Maria Teixeira Furlani, autora de Pagu - Livre na Imaginação, no Espaço e no Tempo (Editora Unisanta, 5ª edição, 1999). "Procurava, freneticamente, o que lhe faltava, a completude que todos perdemos e pela qual ansiamos, esse era seu traço mais marcante. Além de seu olhar sensível, antecipatório e antenado na cultura, na política e no comportamento", ressalta a professora, estudiosa do tema há 18 anos.
E ainda havia a maternidade. Com o primeiro filho, Rudá de Andrade, do casamento com Oswald, teve uma relação que durante muito tempo foi conturbada pela militância política. Com o segundo, Geraldo Galvão Ferraz, da união com o jornalista Geraldo Ferraz, foi uma mãe presente, de acordo com ele próprio. "Minha mãe era um tanto superprotetora, mas também muito carinhosa. Era uma mãe como qualquer outra, apenas com horários diferentes dos das mães dos meus amigos. Ela trabalhava bastante em casa, sempre na máquina de escrever. Mas sabia tirar seu tempo para uma brincadeira comigo, para um gim-tônica e um cigarro", lembra ele.
4 orgasmos
no céu
que a minha língua
reflete
há um banquete
de estrelas
e de glórias
no céu
que a minha boca acolhe
há o teu alcance
sexual
é um poço
de líquidos
-Anatomia
Jazi
no buraco
do seu umbigo
o meu inimigo
é as suas curvas
gosto do reto
-A dança
Sou sua
Não sou seu
Minha alma
Feminina floresceu
Dou-me
Como num balé
De Maria
E José
-Deifico
Apoteose
me goze
me goze
tome uma dose
de mim
faça pose
de jasmin
no fim
Poema de Isaac Bugarim
Três anos de muito Pó de Poesia....
Bolo dos três anos do Grupo Cultural da Baixada Fluminense ((( PÓ DE POESIA ))) Um Salve!
É big, é big, é big é big é big.. rs
Fulaninha Ana Júlia.. Ela também é poeta. rs
Só Fulanas de Tal... Viva!
Márcio Rufino, Divino.
Ivone sempre Landim... Linda.
Sempre pra cima...
Ele me viu pequena... rs
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Apologia da poesia
Eu não sou bom de prosa
Há uma pérola no casulo da mariposa
Eu não sou bom de prosa
Depois de um dia de cão banho e tosa
Eu não sou bom de prosa
Meu fracasso deixa minha família orgulhosa
Eu não sou bom de prosa
Pelo conjunto da obra menção horrorosa
Eu não sou bom de prosa
O cravo brigou com a rosa é a rosa é a rosa
Eu não sou bom de prosa
Mas que coisa ruim mais gostosa
Eu não sou bom de prosa
Nobel de 2010 Mario Vargas Llosa
Eu não sou bom de prosa
Agora é a hora do mote e da glosa
Eu não sou bom de prosa
Menina moça com poeta fica toda prosa
Eu não sou bom de prosa
Eu
Espectador de
Entrevistas de
Escritores
Espectros
Expectorantes
Fora o que está expresso em versos
Não tenho mais nada a dizer
Confesso
Não temo
Peixe grande morre pela boca
O escritor confunde literatura com falação
Senhor de si
Ser dominante em todos os assuntos
Abarca o mundo e outros mundos
Arrota uma simplicidade complexa
Esbanja erudição e simpatia
Parece um padre porco ou um político poltrão
Tentando angariar mais fiéis e mais e mais eleitores entre os fiéis eleitores
Nada a declarar
E tenho dito
Poema de Andri Carvão
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Este lado para cima
para ler este poema é necessário
CUIDADO
muito cuidado
sua arquitetura branca e
FRÁGIL
pode não impressionar no princípio
afinal, para compreendê-lo a fundo é preciso
familiaridade e um manual prático
para interpretação de tipos
porque nem toda surpresa vem embrulhada
em papel de presente
nem toda surpresa
inclui pilhas
nem toda surpresa
chega lacrada com um
cartão: de: para:
que nem todo entregador não
consiga violá-la
porque o poema, caro leitor,
é um eterno convite
conteúdo que cabe
numa embalagem que se abre
Poema de Caio Carmacho
domingo, 7 de agosto de 2011
Negro Éden
Da floresta negra ao redor de mim
Só vejo a penumbra de uma luz vazia
Só sinto o calor gelado de um serafim
Só canto o que restou de uma vida luzidia
Há vultos que perambulam cabisbaixos
Pisando em galhos secos emaranhados.
Estrelas dançando um balé mórbido
Cinzentas nuvens vagando imponentes
A fauna se agitando num grito sórdido
A flora se erguendo, seguindo em frente.
Há rios vermelhos de groselha e de sangue
Há margens sinistras de areia e de mangue.
O azul-marinho desse intenso céu
paira lento no ar sedutor
Que rasga seu estranho e denso véu
Numa fracassada tentativa de sufocar seu fulgor.
Frutos que não alimentam, mas matam a fome
Sementes que não brotam, mas erguem um homem.
A folha seca é a roupa nua
O caroço carcomido é o alimento minguado
Ah quem dera ver tua carne crua
Ser violada por um pensamento alado.
Gozo que te jogue no inferno
Sofrimento que te erga ao paraíso eterno.
Mundo orgulhoso por vencer o bem e o mal
De servir e de se negar a toda essa gente
Que supera o sabor insípido do açúcar e do sal
Mundo livre; protegido de Deus e da serpente.
Ambiente puro por reconhecer sua perversão
Ambiente resolvido por assumir sua questão.
Marcio Rufino
Todos os direitos reservados
Imagem: Foto de Christian Cravo
sexta-feira, 5 de agosto de 2011
Movediças em interiores da casa
um vulcão em temperamento
saindo dos ponteiros
roçando pela última ceia da mesa
nas contas a pagar
mistura ovo e bife no prato
alterna momentos raspando o azulejo
esticando a noite como um bárbaro
(repara por dentro)
na boca cheia da vontade de lhe ver
passeiam pelo quarto para testar a alma
de ainda me procurar
no horizonte dos seus olhos...
Poema de Vânia Lopez
Maria ninguém...
Triste e colorida.
Não me faço de vítima,
Quando erro boto a cara, não nego.
Sou uma criatura carente com dentes...
Sou uma abandonada de pai,
Uma alma perturbada o tirou de mim,
Foi precoce a perda, como tudo na minha danada vida.
Mas é responsável com aquilo que semeou.
Uma garotinha que sonha acordada tentando fazer do amor um conto de fadas.
Tenho certeza, o amor existe!
Fadas?
- Na minha vida, só a da minhas costas, a mesma é tatuada, talvez por querer tanto ser uma.
Que escreve o que lhe vem à mente...
Com palavras e alguns palavrões...
Umas inocentes, outras indecentes.
Aquela que nunca imaginou em ser poeta, que sonhava em ser bailarina e cantora.
No início, poesia tímida sem muitas palavras, rimas medrosas.
Hoje, o barulho do meu mundo interno nu, sem querer saber da aprovação do mundo.
Confesso que sou explosão!...
Escrever e procurar me entender fez bem ao meu jeito,
Fez bem ao meu coração.
Mas quando deprimida, perco o ritmo, deixo cair no chão meu semblante...
Esqueço minha essência, me vejo num motim, dou de cara com a morte,
Minha casa vira uma espelunca,
A lua vira puta,
O passado, triste e errante,
Os amores, todos fracassados,
O presente, precipitado.
Fico louca por uns dias... No decorrer vou varrendo toda a rua do meu coração, recolho lixo por lixo....
Tentando deixar fluir a beleza dos sentimentos bons.
Teve tudo para ter uma estrutura familiar...
Mas não teve!
Tive que traçar e escolher quem eu queria ser...
Tive que me reinventar para não ficar na margem de lá,
Margem dos fracassados, viciados...
Com o futuro ameaçado.
Corri do mal, chorei todo o inferno astral, passei o pão que o diabo pisou.
A única coisa boa que eu via eram as estrelas...
Quando chorosa corria para laje para chorar todas as minhas lágrimas...
Deixando as estrelas me ninar, me acalmar.
Mas que entende que para ser mulher
É necessário ser forte, sagaz, intrépida.
Entende que esse mundo vagabundo é uma selva
De animais racionais gemendo por dentro, querendo seu lamento.
Entende que nem tudo é véu, flores na janela, lua-de-mel, primavera...
Muitas coisas são crueis...
Viver a dois sem sintonia,
Viver só sem melodia,
O ser humano e seus sentimentos mesquinhos,
Morrer sem ter visto de perto a cara da gostosa alegria...
Virando cinzas e nada.
E que se dane a teoria,
E que se dane a opinião dos que me detestam, não fico puta, não fico virgem, não fico nada!
Falo o que quero na hora certa ou na hora errada.
Não ganho nada, mas também não perco.
Sobrevivo nesse mundo de palhaços sofridos, onde muitas das vezes me vejo...
Mãe de filhos que ergueram minha vida solo e vazia.
Uma mortal que tem horror à rotina,
Uma esquisita que se coça toda só de pensar em conversar com pessoas explicadinhas em demasia.
Uma humana cheia de defeitos, mas que não suporta hipocrisia.
Quando faço uma receita, nada é medido; no final, tudo sai gostoso, apetitoso.
Tenho algumas roupas que eu mesma corto e refaço.
Saio despojada, de boina, de tênis, sem pensar em nada.
Mas tem dias que a vaidade me condena, me visto como princesa...
Princesa sem eira, nem beira, sem castelo, sem cavalo, só com meu sorriso largo.
Uma imediatista que não curte saber da meteorologia e nem dos próximos dias.
Uma tatuada na vida, oito externas e várias internas (rs).
Sofro de insônia e sou viciada em café.
Adoro correr na chuva,
Sentir e receber amor...
Janeiro e fevereiro são meus meses preferidos...
Levo minha vida retalhada e colorida sem muito roteiro.
Penso que a paz é o melhor presente que alguém possui no seu âmago. Desejo-a tanto...
Ah, só mais uma Maria ninguém para esse mundo de tantos gostos, rostos, olhares, pensamentos e tal.
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
domingo, 31 de julho de 2011
O rei da chuva
Apenas um louco, era o que diziam. O maluco oficial da cidade, se antiguidade
na doidice, fosse posto. Cabelos imemorialmente grisalhos, coroando a testa ampla e
enrugada, que avançava tal promontório sobre dois abestalhados olhos azuis, de olhar
triste;não daquela tristeza dos que têm olhos tristes por profissão(já falava alguém),
mas uma tristeza que era a toda hora jogada pra fora pelos olhos, assim parecia
funcionar sua natureza: jogando aquela ganga ruim contra a cara dos outros e as
pedras da rua; ainda assim uma tristeza intrigante, porque sábia e aparvalhada era o
que também parecia e tudo de uma vez só, confundindo as pessoas, que passavam a
vê-lo só de baixo pra cima. Ah, sim: chamavam-no de Biu do Cego, ironia de
vida ou de morte, o possuidor de tão diferentes olhos, filho de um cego. Sentava–se por
horas a fio, na ponta da calçada do mercado, sempre no final da tarde, cismando sabe
Deus lá sobre o que, tirando do bolso esfarrapado, grãos de milho pegados do chão
escuro do mercado, que atirava no pátio, na festa dos pombos, alternando as mãos,
jogando ora por cima da cabeça, ora de costas, por cima dos ombros, arrulhando feito
pombo, com a pronta resposta deles, à sua louca generosidade; vez por outra, um
mais afoito segredava-lhe em vôo rente ao ouvido, Biu escancarava aquele riso de
porteira velha desconjuntada e a ave partia rápida, em direção ao ocaso do sol. O riso
apombalhado - porque não? Cansava-se, às vezes. Dava lugar ao rosto crispado e
ausente, angústia demente e silenciosa, barragem de pensamento, sem suspiro pra
correr. Nesses dias, parecia desligar-se do mundo, puxando um fio que só ele via,
trepando-se na velha jaqueira da entrada da cidade - quem sabe, pra ele uma saída? Ali,
matutando horas naquele juízo desleriado e pacífico, naquela doidice só pra uso dele
mesmo. Depois, dava por encerrada a questão e descia faceiro como um sagüi de tronco
abaixo, rindo, homem menino satisfeito consigo mesmo e com o mundo. Às vezes,
alguma mão caridosa, quem sabe negociando um lugarzinho lá no céu, deixava um de
comer pro miserável,lá entre as velhas raízes, sem dizer nada; se chamasse ele fazia –
se de mouco. Depois, descia, comia e voltava ao seu adoidado filosofar de pé-de-pau.
Não lembro mais quando - já sou promissória vencida nesse mundo de Deus, mas sei
que Biu do Cego já estava há quase quinze dias na jaqueira, sem comer nem se mexer.
Aboletou–se num galho e disparou um olhar de canhão enferrujado no horizonte, dias,
semanas. Depois, ficou olhando pra barriga, como se tentando entrar em si mesmo
pela porta do umbigo. Então, começaram as chuvas, que viraram aguaceiro, depois
cheia, depois flagelo de Deus ou do Diabo contra nós e ele mesmo, pois não é tudo
natureza? A correnteza levava tudo: homem, mulher, menino, jumento, todo tipo de
criação, nem a imagem do padroeiro agüentou, o cemitério virou campo sem porteira,
já não tinha vivos para enterrar os mortos, em muitas léguas. Os políticos vieram,
depois que a desgraça já era passada, engravatados, tirando retratos mais deles mesmos
que do arraso, muito dinheiro se prometeu. Os poucos sobreviventes ouviam, mas eu
sabia que o destino do palavrório era o mesmo do vento que lambia as serras, uma ida
sem retorno. Desci do abrigo do meu roçado no Morro do Agudo e caminhei feito
barata tonta, dando voltas, fazendo com os pés o que na cabeça já fazia desde há muito.
Na entrada da rua, vi a velha jaqueira, ainda de pé sabe por obra de Deus ou do
Tinhoso. Num dos galhos mais grossos, aboletava-se Biu do Cego, chorando de tanto
rir.
André Albuquerque


