Manifesto do coletivo Pó de Poesia
O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.
Creia.
A poesia pode.
(Ivone Landim)
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Eu hoje acordei com o pé esquerdo
Hoje, acordei com o pé esquerdo, sendo mais explicito, digo que me despertei com o meu pé esquerdo; Quanto ao direito, ignorando-o, ou não podendo dele me livrar - o que é mais provável - despertei-me também, com o meu pé direito.
Antes de continuarmos com este assunto que tem pé e cabeça, faço-lhe um pedido, ou, até recomendo-lhe com insistência, que me atenda e olhe debaixo do seu pé esquerdo; veja a sua face plantar dele; ainda que a curiosidade queira torcer-lhe o tornozelo direito, para também, deste lado, olhar debaixo do seu homólogo - o do pé esquerdo - afirmo e peço-lhe que tenha certeza maior: Não há necessidade de procurar o que não há, pois, ressalvando alguma pequenina e insignificante diferença anatômica que entre eles possa existir, tudo diferente que um apresenta em relação ao outro, não passa de suas posições “trans” essenciais para ambos.
Agora, levemos a sério este assunto e analisemos um grande e impiedoso paradoxo:
Nós os destros, temos em mente que nosso pé direito é o mais forte. Sendo assim, ele - o todo poderoso e senhor de si - é sempre aquele que dá o primeiro passo, e o faz com firmeza, com maior segurança, com muito equilíbrio, enfim, com grande determinação. Eis abaixo, uma proposição falsa! Ainda assim, há de gerar outra que verdadeira será. Senão, vejamos:
Quase sempre o nosso pé esquerdo não podendo evitar, pois nenhuma prerrogativa tem, uma vez que é o mais fraco, vai seguindo o seu irmão direito passo a passo, ainda que este tropece. Mas, se já no primeiro passo, antes de uma caminhada, consentirmos que pelo nosso pé esquerdo, a iniciativa seja tomada, forçosamente, teremos que fazê-lo com mais cautela; haveremos de avaliar com mais atenção o terreno; analisaremos os nossos movimentos, ainda antes de executá-los; julgaremos a nossa postura corporal, com mais critério; deixaremos livres nossas mãos, e, sobretudo, haveremos de julgar serenamente, a conveniência da jornada empreendida; finalmente, sem nenhuma outra escolha, haveremos de contar com o apoio do nosso pé direito...
Note bem! Tão somente este nosso pé esquerdo e apenas ele, nos oferece esta prévia reflexão antes do primeiro passo; atendendo-o, algumas vezes, mudaremos o curso do nosso trajeto, antes que o nosso pé direito desastrosamente possa trilhar o caminho errado...
Que seja dada ao nosso pé esquerdo, a chance de iniciar uma caminhada, dando o primeiro passo; pois, ele mais que o direito, mais direito pode executá-lo...
Crônica de Elias Barbet
Camaleoa...
Séria e zen quando as coisas fluem bem.
Mais o meu natural mesmo é não ser normal.
Tenho asas invisíveis que só eu sei.
Só eu sei o tamanho,
Só eu sei o preço que eu pago, só eu sei.
Das estranhezas de minha alma.
Alma sincera, quando maliciosa, camaleoa.
Às vezes inflama e bum, explode!
Não ouse entrar sem total asserção.
Primavera fora de época,
Triste sem preconceito de ser...
Idealista sem inquisição,
Nômade com endereço certo.
Quem de verdade, sou eu?
Uma fulana,
Uma sicrana
Ou uma beltrana.
Quero morrer sem saber
Vai perder a graça,
A graça dos meus traços...
Eles escorrem e saem sem medo por aí,
Sem lei, invisível, indomável.
Chorando, chorando, chorando,
Esperando, desejando, possuindo...
Em chamas!
Liberta sem trama, sem máscara.
Só com um sorriso largo, seja feliz ou triste
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
O mar escutava-me...
Se estavas grávida, muito de novo, estarias, pois só hoje, deste à luz do sol, novas de tua prenhez.
Por linda e deserta praia, andávamos.
Tu e eu? Talvez! Tu, nosso filho e eu! Talvez!
Por livres e seguros, roupa, poderíamos nenhuma usar.
Agora, dois seres carregavas.
Poderiam meus olhos tuas pernas incomodar?
Não! Pois, se possível fosse, sonhando caminhavas.
O mar escutava-me! Só ao teu ventre, atenção davas!
A ti, em silêncio, pedia perdão, por quase tudo que fiz.
Só o mar ouvia-me! Apenas o mar, escutavas!
O mar dizia-me: Perdoado está, seja agora, feliz!
Sem receio algum, aqueles que com amor, deleitam a tenra vida, seguiam à frente.
Deveriam Alimentar meu desejo os seios da minha amada?
Responderam-me os grãos de areia: Amanhã talvez! Que espere o hedonista amante!
Alertava-me o mar: Deixe que caminhe em paz, por um novo ser, uma mulher apaixonada!
O azul dos teus olhos desbotava o anil dos céus.
Por mais lindos que fossem, antes, detinham-me teus lábios lindos.
Poderiam os meus lábios alcançar os teus?
Neste momento, assustou-me o mar dizendo com seus bramidos.
- Macho irracional! Não é filho de mulher? Já lhe disse, deixe-a em paz, não a toque!
- Espere! Continuou ele, pois a mãe da vida, para nova vida, livre quer ficar!
- Que em seu ventre, um novo ser, sossegado fique!
Se a mim, falava o senhor de todas as águas, dúvidas tive ao escutar.
Não conhece os pensamentos do homem, o mar!
Destas águas, nada ouvi; minha própria consciência falara-me, por preceito infundado.
Quero possuir esta mulher; antes e depois daqui, não há melhor lugar!
- O seu desejo, agora, não há de ser, e o que não deve ser, das minhas praias, será removido.
Assustei-me! Esta voz, só de um colosso viria.
Baixei os olhos, olhei para os pés da minha amada.
Seus seios avante seguiam; dos lindos lábios da minha razão de ser, ouvindo uma melodia.
Caminhamos livres, dois amantes apaixonados por uma nova vida.
Poema de Elias Barbet
terça-feira, 11 de outubro de 2011
"não.."
eles te esperam..
à curvatura da mobilidade equacionada por um lampejo-só
às pradarias incessantes de verve e de pele
e
lá,
eles te vêem..
(e-só.)
é simples assim,
por idéia de um conto breve
transgressivo ápice de novas-formas
e linhas.. e um fogo perdido por nunca querer esquecer(-se)
ou,
ao sonho mais que devolvido
ao preço que não pago por nem preferir, ou-olhar..
e lá,
eles te querem..
à terça parte de uma qualquer citação
à cena meticulosa e ao império-vasto de lúxurias
e
lá,
eles te fervem
(então..)
aos olhares curiosos de prévia e consumo
ao tempo profícuo de uma vitrine-véspera(sequer..)
ao resultado aparente
à
simetria. de uma manhã, talvez
mas,
embora me comprometam esses erros,
não.
eu sei que nenhum deles,
verdadeiramente,
te encontram.
nem um deles(nem à parte-próxima)
te são.
(te servem..)
Poema de Azke
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
Auto-pista da praia
entregue à própria lassidão, neste casulo de ar condicionado e
silêncio, a duzentos quilômetros por hora. A pista é agora uma reta
sem fim, os pneus produzem um som de água correndo,a paisagem
pouco mais que borrões verdes na minha retina. Pequenas cidades
e povoados surgem e desaparecem, no zapear da velocidade, são
figuras que vão se amontoando lá para trás, comprimidas pelo
vácuo em suas vidas tranqüilas e pacatas. A bela Inês repousa do
mundo bárbaro. O caderno sobre o colo, a caneta presa na espiral
e servindo de marcador , a regularidade dos traços rafaelitas, acima
do bem e do mal, aprisionados num clic de máquina fotográfica. Os
seios de talhe perfeito, maciços, estufando a camiseta no relevo de
mamilos divinos, ainda eriçados pelo frio. Uma deusa pós-moderna,
Pégaso no braço, tentando alcançar o sol de tinta e raios trêmulos.
Fantasia versus Realidade, dizia a mensagem no celular. Nem
lembro mais do escore, apenas abracei-a e beijei-a, um abraço de
náufrago, um ismael escapando do afogamento, agarrado ao
esquife do companheiro, mas tragado para sempre, para dentro
daqueles olhos castanhos e subitamente inexpressivos, límpidos.
A calma suprema de quem contempla uma implosão muito longe,
Anos-luz de rápido distanciamento emocional e compaixão zero,
impossível de fingir, pois fingir nunca foi o seu forte; durante
alguns anos, foi minha fortaleza o fingimento, aturar a mulher que
não me amava mais, um casamento natimorto sem descendentes
a celebrar meu grande vazio. A natureza abomina o vácuo – nem
lembro mais quem falou; surgiu Inês em minha vida, uma neo –
-realidade suburbana, a sensualidade safadinha, sexo na cabeça
e na alma; chutei o pau da barraca, fiquei sozinho do jeito que
nasci, segurei pelos longos cabelos, aquela oportunidade de provar
que ainda estava vivo e buliçoso. Nunca moramos juntos, assim
exigiu, assim existimos. Dois anos e uma crônica de amor louco
para sempre inédita, pois nunca escrevi nada a respeito do amor,
além da sala de aula, dos modernos cânones literários, o suficiente
para o vestibular de qualquer coisa que termine em contra cheque
regular e aposentadoria decrépita e vazia, melhor dizendo, até um
ex-namorado ressurgir do reino das sombras e cravar a estaca no
meu peito arfante de quarenta roliúdes por dia. Estrepitosamente,
ridiculamente, caí de quatro, tomando todas, cafungando, sempre a
chafurdar na própria merda. Não sei quanto tempo fiquei nesse
esgoto, até que resolvi metabolizar aquilo tudo, marcamos um
encontro na praça em frente do cursinho; deixou a estranha
mensagem no celular. Chegou linda,sorridente, beijou-me de leve,
um beijo de lápide funerária, que me virou pelo avesso. Um abraço
cem por cento angústia, dor de corno em estado de arte. Comemos
um sanduíche na lanchonete em frente, convidei-a para uma volta
de carro; aceitou constrangida, rodamos um pouco pelo centro;
do rádio, Stevie Wonder e Superstition não me deixavam espaço
pras abobrinhas, a mente funqueava à toa, gaguejava pensamentos
e fragmentos. Na verdade não tinha mais nada a dizer, muito menos
ouvir, percebi ao contemplar o seu perfil. Parei e pensei. Olhei-
a bem nos olhos grandes, acariciei seus cabelos e atirei entre os
seios; aquele rosto não merecia ser estragado. Ela simplesmente
virou a cabeça para a janela e mergulhou no sono profundo. Dei
partida, peguei a autopista do mar e segui em frente; há dois
dias viajo com a rainha morta, Inês, que seria de Castro se um rei
traído não fosse eu e fossem as pessoas nas ruas, obrigadas a
beijar-lhe as mãos, tão belas e frias, em muda admiração.
Conto de André Albuquerque.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Caçada dos Instantes
É um antigo sonho que se rematerializa
Em formas insanas e incoerentes
Uma tela que se repinta em cores diferentes
Nela dois sinistros pequenos círculos próximos
Me perseguem pelo quadro de imagem árida
Penso que são seus firmes olhos
Mas são os penetrantes olhos de uma águia
Ao despertar não consigo conter o motim que há no leito
Dos fragmentos que surgem no meu ócio
Como um fino som agudo no peito
Surgido aos poucos no fundo do silêncio
Os fragmentos são meus queridos amigos fantasmas
Testemunhas únicas do louco nascedouro de minhas palavras
Arautos de um cruel pôr-do-sol que invade
O crepúsculo evasivo e selvagem de antigas horas
Mas lembro que antigamente as tardes
Eram mais tranqüilas, quase mortas
Na caçada dos instantes
Reverberam inúteis certezes cínicas, incessantes
Vigiando tempos
Perscrutando previsões
Acossando momentos
Tocaiando as ocasiões
Tudo constantemente uma coisa na outra implica
Nada nasce do nada
E até o nada se recicla.
Marcio Rufino
Todos os direitos reservados.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
A jangada
Tosca, rude, feita quase de troncos
Parece pesada, levada ao mar nos roletes
Entra na água, vai deslizando...
Tão leve que fica, que um ventinho
Um leve ventinho leva...
Lá vai a jangada que eu pensei fosse pesada
O jangadeiro equilibra parecendo dançar
Vento, jangada, jangadeiro e o mar
Dá vontade de pintar...
Poema de Victorvapf
Mar marrom...
Eu tenho uma arma...
Eu tenho uma arma...
Exercício N. 1
Pondera, pondera
Pondera essa fala tanta
Não adianta
Som de pressas
No meu silêncio
Espera
O verbo vir
Na primavera
Espera, espera
Deixa a palavra leve
Quieta, quieta
Quieta os gomos
Da tua língua
Cheia de dúvida e terra
Belém/PA, 05/10/2011
Marcel Franco
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Lembrete
só é possível porque
somos um bando de covardes
degenerados filhos-da-puta,
posando para si mesmo,
nus,
nesse hospício cheio de merda.
Eis o que somos, senhores.
Mas, sei que já desconfiam.
É só uma porra de lembrete
jogado ao vento!
Poema de Milton Filho
domingo, 2 de outubro de 2011
Cegueira
Ou não sonha ele, eivado de sentido?
Pode um esto gravoso que evola
ter sido por ele no sonho esculpido?
Podem um queixo, a maçã de um rosto,
serem no sonho tão bem desenhados?
Ou o cego não sabe, no sonho que tem,
incutir nas coisas os significados?
É a visão tão imprescindível?
É, de fato, preciso o olhar
pra que o mundo nos seja tão terrível?
Ou os olhos podem, sim, pintar
tudo o que nos for possível?
Preciso de olhos pra enxergar?
Soneto de Isaac Bugarim
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Epopéias vividas
Sua voz terna fogosa em versos e prosa já soa na mureta
com um bolor misterioso e atroz.
Ouvi um grito irritado com cheiro de betume fresco,
era eu livre com gesso.
Se soubésseis de que as imundices nascem e crescem.
Os meus versos não teriam ignomínia, qual será o ipê
amarelo das cercas? Qual será a planta ou erva tórpida
que vai nascer?
Não me preocupam os exércitos das epopéias vividas.
Hoje não há graça nas fábulas elegíacas, diabólicas,
gástricas e desmedida.
Quanto ao poeta estou nos versos nas vestes de tudo que
deve ser, pra muitos deve ser um despautério.
Não ao modo que pensam as outras pessoas, mas na minha
doce loucura sã e com meus mistérios.
Tem uns que a clemência foge e se justifica com a razão.
Mas eu não te esqueço, quase enlouqueço querendo seu
perdão.
Não deu história real feneceu antes de ter você, vou seguir
te esperando com um ensejo de não me matar vivo neste
desejo.
http://poetadefranca.blogspot.com/
O NOVO POETA. (W.Marques).
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Adolescentes na esquina - uma pequena crônica

Numa manhã de sol fui ao centro de Areia Branca, bairro do município de Belford Roxo onde moro, para comprar remédio. Cruzando a esquina da Rua Ribalta - onde fica um prédio que abriga uma padaria desativada - um grupo de cinco adolescentes trajando uniformes escolares ouviam num rádio em alto e bom som o hit Parado na Esquina do MC Robacena. O cenário denunciava o óbvio: os meninos estavam matando aula para curtirem o funk.
Entre eles havia um casal de namorados. A moça estava deitada com a cabeça encostada no colo do namorado (ou ficante) que estava sentado na calçada. Os outros três rapazes em pé riam com prazer, liberdade, descomprometimento. O menor deles dançava com uma debochada timidez - de quem tem o prazer em não mostrar tudo que é capaz de fazer. Uma coisa alí me seduzia; o descompromisso, a irreverência, o desafio e a beleza de jovens adolescentes em uma esquina celebrando a vida. O que importa se eu acho o funk uma porcaria? Se eu acho suas letras pobres? Se há pessoas que acham que elas e sua batida induzem adolescentes e crianças à violência, à pedofilia, à prostituição, ao crime e à promiscuidade sexual? O que importa se os adolescentes de hoje estão à mercê das drogas e da falta de limites? Tudo isso se apagava da minha mente. Até mesmo a crise na Educação; o conflito entre educadores e estudantes, entre pais e filhos.
Na fotografia da minha mente e do meu coração só ficava e fica até agora a cativante e envolvente imagem daqueles adolescentes parados na esquina, festejando o mundo na batida do funk; como anjos festejando o astral ao som de uma harpa.
Marcio Rufino
Créditos da imagem: Site Texto Online.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
O último verão
repousar nua, no leito de amor. Olhava as matas ao redor da casa, recobrindo
as montanhas, o rio corria distante, um tímido sol ainda escondido entre as muitas
nuvens. Os olhos fixaram-se na própria imagem, refletida pelo vidro da janela do
estúdio: um velho barbudo, magro, de olhar patético e perdido entre as mesas e
estantes. Ladeando a máquina de escrever, a foto oficial de Kennedy, àquela hora o
maior desafio da sua vida, tentar encontrar e reunir palavras no nevoeiro de seu
cérebro, para saudá-lo em sua posse. Ninguém escreve uma obra-prima saudando um
político, ele sabia disso, a assessoria da Casa Branca foi até bem generosa, pedindo
“umas poucas palavras“; mas tinha seu nome, uma coisa gostosa ou pesadíssima para
carregar e um Nobel de Literatura com a medalha pendente da parede ali, na sua frente,
acima da estante menor , brilhando conforme o sol cambiante do verão no Idaho. Não
poderia ser qualquer coisa; não era um discurso de abertura do campeonato de golfe,
era algo a ser lido na posse daquele jovem presidente, figura promissora e carismática
que solicitara conhecê-lo pessoalmente. Mas as palavras vagavam pela névoa a
que se resumiam seus processos mentais, sentia-se um velho general da guerra civil de
espada em punho, com a tropa em debandada, apavorada pelo próprio medo.
Ultimamente, viver era um périplo entre psiquiatras, editores, advogados da terceira ex -
esposa e a fuga de si mesmo, pois percebia o fracasso no sabor do whisky e admitia
que um homem pudesse ser destruído, nunca derrotado. Acariciava o teclado da velha
Corona, mas o espírito vazio e embotado, enxergava ali o ringue da derrota, sem
ninguém para jogar a toalha. Trocava olhares com Boise, sorriu lembrando a ocasião na
qual o bichano ingerira um dos seus comprimidos de seconal e usufruiu alguns dias, um
sono bastante tranqüilo, apavorando a sua esposa; o veterinário mais próximo ficava
a quase uma hora de carro. Martha se fora e Boise era sua companhia, sentado sobre
a mesa de trabalho, com o verdor do seu olhar crítico, que tantas vezes levara Ernest
a cortar parágrafos inteiros. Sacou a garrafinha de prata cheia de whisky e sorveu um
gole rápido e sem sabor de nada. Scott Fitzgerald presenteara-a no lançamento de
O sol também se levanta, babando pra Ava Gardner, que fingia ignorá-lo solenemente.
A solidão da casa antes ideal para escrever, afundava-o diariamente alguns metros
na depressão asfixiante, sempre batendo com mais força nas manhãs, desrespeitando
até os verões mais radiosos de Ketchum. Doença escrota. Mergulhava diariamente
naquela espiral de angústia e estupor destrutivo, à prova de todos os medicamentos,
passava horas contemplando as antigas fotos de Paris, do seu tempo de geração perdida
quando todos pareciam acreditar vagamente em algo, Deus, Marx, Baudelaire
ou na xota de Marlene Dietrich, que diferença fazia na época? Paris, em sedutora
decadencia; podia-se esbarrar em James Joyce, Picasso ou Ezra Pound e eles ainda te
pediriam desculpas. Paris, esquina do mundo, meca espiritual dos escritores e do vasto
lumpesinato artístico. Sobre a mesa próxima da janela, a caixa com o enigmático
presente de sua mãe: a caixa contendo a arma com que seu pai se matara. Depois de
tantos anos, aquilo parecia o prenúncio do seu triunfo sobre a depressão, a saída honrosa
de quem não conseguia escrever vinte linhas saudando Kennedy e a esperança de uma
América menos fascista. Mas achou tudo um desfecho de muito mau gosto: pegou a
carabina comprada na África, enquanto escrevia As Neves do Kilimanjaro. Sopesou-a,
sentiu a frieza do metal contendo aquele grande potencial de destruição, abriu a gaveta
da mesa, alimentou a arma com dois cartuchos, caminhou ao léu pelas salas, viu-se
no espelho, segurando aquela máquina de matar: um cartucho derrubava um elefante
em plena fuga; sentou no alto da escadaria, engatilhou cuidadosamente a arma, teve
o cuidado de tirar os dois sapatos, apoiou a carabina no terceiro degrau, acomodou
o cano na boca, contra o palato e acionou o gatilho com o pé esquerdo. A explosão
reverberou pela Ketchum sonolenta. Moise escondeu-se assustado sob a escrivaninha,
enquanto os pássaros voavam em debandada, lá no Idaho.
*** Ao escritor Ernest Hemingway, no cinqüentenário de sua morte (2011).
Conto de André Albuquerque.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
Sobre a importância de Plutão e Caronte
daquele seu trabalho simples, natural, daquele seu cuidado às frágeis criaturas do reino
vegetal, é que ele garantia sustento. A contrapartida de suas mãos calejadas: o quarto
singelo para repousar o seu ser à noite, ante a gravidade da terra e o etéreo das estrelas
flutuantes, acima de sua cabeça; um bom prato de comida que Luiza preparava; e água a
vontade, para beber, lavar o corpo e dar de beber a sua verde companhia.
Daquela sua simplicidade singular irradiava o sorriso ingênuo, e um brilho por vezes inconcebível, que habita apenas os retardados e os mentecaptos. Diogo não entendia das
coisas do homem, cada cuidadoso golpe de sua enxada separava, paulatinamente, as
ervas daninhas das mais variadas espécies de plantas, e resultava em gotas de suor que
lhe corriam a face. O mesmo sol que possibilitava a fotossíntese castigava a sua cara.
Os elegantes moradores da mansão avançavam orgulhosos com os seus visitantes
através de caminhos cuidadosamente traçados, entre magníficas folhagens, as belas
flores e sublimes perfumes, mas mesmo estando ali, em meio às plantas, Diogo passava-
lhes desapercebido. E assim Diogo, abandonado na crosta terrestre, crescia para dentro,
deslocado da escória do ser humano.
Certa noite de primavera, logo após o crepúsculo, Diogo deu-se conta de um corpo sutil
e brilhante que recém avistara no céu. Então ele, como uma criança, correu e chamou
Luiza para compartilhar da descoberta. ‘Onde está, Diogo?’ Ele apontava com o dedo
indicador de sua mão esquerda, ao mesmo tempo em que fechava o seu olho direito,
num espetáculo de lhe tirar o crédito, ‘está lá, viste?’ ‘Pois eu não vejo é nada, hôme.’
‘É pequenino como um grão de areia.’ ‘Deixe de besteira que eu vou me recolher’, disse
Luiza, já imaginando que Diogo tivesse com segundas intenções.
As noites e os dias se desdobravam numa sucessão da mesma rotina, como que para
imprimir-lhes o duro signo da realidade, de uma vida tranquila e sem sobressaltos para
os patrões, do quotidiano sofrido dos empregados. Foi durante esse período que Diogo
acompanhou a aquiescência do firmamento ao surgimento de nova esfera celeste: esta
assomava em volume e brilho a cada anoitecer.
Todas as noites, um Diogo assombrado clamava por Luiza para compartilhar dessa sua
descoberta. Ela olhava, buscava, mas nada via. Ela procurava também perscrutar um
eventual desígnio secundário advindo daqueles miolos matutos de Diogo, mas este
esforço também, lhe era vão. Foi exatamente naquela noite quando Luiza finalmente
decidiu permitir-se e ceder à aproximação do seu corpo ao corpo de Diogo que, para seu
espanto, ela vislumbrou pela primeira vez a pedra celeste que se avolumava e avançava
perigosamente em rota de colisão com o planeta Terra.
Não tardou muito: os observatórios ao redor do planeta só tinham olhos para o
asteróide; os cientistas, alarmados, debatiam sobre as implicações e a possível origem
de misterioso objeto que viajava em velocidade assombrosa, cruzava o espaço, e seguia
em direção a nossa Terra. Os jornais sanguinolentos, os noticiários sensacionalistas da
tv, as páginas fúteis da internet, o assunto monopolizava atenções, causando verdadeiro
alvoroço, especialmente entre os mais abastados, os mais cultos e os eminentes, que temiam a ideia de serem esmagados como se fossem formigas.
Luiza observou um estranho paradoxo no transcorrer daqueles dias. Diogo permanecia
absorto pelas demandas com as plantas do imenso jardim na grande mansão. O seu
cuidado com as verdes criaturas era inabalável. À noite ele passava a admirar o
asteróide, como fizera desde a sua primeira observação da pedra celeste. Um estranho
brilho reluzia de seus olhos, algo nas entranhas daquela cabeça matuta e surrada pelo
Sol parecia começar a ferver a quentura das ideias. Diogo não precisava ir chamar por
Luiza para observarem juntos ao asteróide, ela vinha por vontade própria encontrá-lo,
beber daquela sua gradual e crescente sapiência.
Certa noite Diogo lhe falou da alquimia, que era para ele a supremacia do espírito sobre
a mente, transcendendo a matéria. Ele explicou sobre o conceito do grande regenerador,
sobre a necessária transformação pela destruição, queima e consubstanciação de velhos
aspectos imanentes para o surgimento de padrões organizacionais mais elevados. Luiza
ouvia a essa fala admirada, ao mesmo tempo em que pouco ou quase nada compreendia.
Outra noite parecia a Luiza que os olhos de Diogo tinham luz própria enquanto ele dissertava longamente sobre a mitologia romana e o deus do mundo inferior. Vez por
outra mudava o enfoque, mesmo o seu jeito de narrar, abordava a questão sob a luz de
diferente disciplina. Agora o tema era a astronomia. Diogo falava sobre um senhor de
nome Percival Lowell e o projeto de busca do nono planeta, denominado ‘Planeta X’, ao
alvorecer do século XX.
Com a aproximação gradual, verdadeira invasão do céu pela misteriosa esfera celeste,
que agora competia em área e brilho com a nossa Lua cheia (embora apresentasse
tonalidade ligeiramente mais escura e avermelhada), Luiza percebia que os donos da
mansão e os seus visitantes estavam às raias da loucura; de tão transtornados pelo medo.
Por outro lado, Diogo em sua simplicidade e pureza, parecia exultante com a boa nova.
Foi quando a área do asteróide no céu parecia uma ordem de grandeza superior àquela
da Lua cheia (i.e., pelo menos dez vezes maior), e a Terra dava sinais de claros de exaustão (através da intensa ocorrência de tsunamis, terremotos e a erupção de vulcões); que a comunidade científica admitiu finalmente, em um comunicado oficial à imprensa internacional, que o choque da pedra celeste com o nosso planeta seria inevitável, decretando o fim inexorável da humanidade.
Luiza, que assistiu à grave declaração em transmissão simultânea através de seu
ultrapassado televisor de tubo, estava inconsolável e foi ter com Diogo. ‘Você já ouviu
falar de Plutão? Esse, que já foi considerado o nono planeta do sistema solar, foi rebaixado no início do século XXI ao grau de planeta anão. Plutão e Caronte, o seu maior satélite natural, caracterizam em verdade um sistema binário, porque o baricentro ou centro de massa das suas órbitas está fora do volume definido por cada uma dessas esferas celestes’, disse Diogo com sua tranquilidade habitual.
Fato é que o asteróide continuou a crescer assustadoramente no céu e, quando o choque
e o fim pareciam inevitáveis, o seu movimento subitamente cessou, ao estabelecer com
a Terra a configuração de um novo sistema planetário binário no sistema solar.
Diogo despertou ao meio da noite, num sobressalto. Sua pele eriçada como se lhe
soprassem graves os ventos do espírito. O coração batia forte e descompassado, a ponto
de lhe saltar pela boca. Dada a sua natureza cabocla, matuta, ignara muito pouco ou quase nada ele apreendeu conscientemente de inusitada experiência. Mas, de alguma forma, esse conhecimento foi incutido às instâncias mais profundas de seu ser. Como a
semente que cai na terra, algo em seu íntimo foi posto em movimento.
Diogo passava os seus dias cuidando de imenso jardim na grande mansão. Daquela sua
simplicidade singular irradiava o sorriso ingênuo, e um brilho por vezes inconcebível,
que habita apenas os retardados e os mentecaptos. E assim Diogo, abandonado na crosta
terrestre, crescia para dentro, deslocado da escória do ser humano.
www.jorgexerxes.wordpress.com
Conto de Jorge Xerxes
domingo, 18 de setembro de 2011
Não sei porque chove Portugal
Não sei porque é tão má a saudade de ti
Não porque me vejo Portugal num Tejo de tédios
Quando te ausentas de mim
Não sei porque chove Portugal
Mesmo quando me vejo boreal
Na Paris dos teus abraços
Não sei porque chove Portugal...
Belém/PA, 15/09/2011
Poema de Marcel Franco
sábado, 17 de setembro de 2011
Negritude

Eu sou negro
Quero que meu tronco
Seja seu corpo
E minhas algemas e grilhões
Sejam seu abraço.
Eu sou negro
E não quero que você
Me venda
Quero que você me entenda
Quero que minha presença
Seja o real navio negreiro
Que me liberte do negro afro
E me leve a um sentimento ladino
Me leve ao encontro do negro latino
Dentro do complexo quilombo-continente
Que há em mim.
Pois, então venha
Que ainda sou negro
E meu maior segredo
É que nem abolições, nem cotas
São remédios, nem apagadores
Não desaparecem com as dores
De um passado cruel.
Por isso sou negro
Porque não quero
Que falsos sorrisos e hipócritas políticas
Substitua chibatas
Quero que o amor valha
Para além do samba e da cocada
Para muito além da feijoada.
Pois minha alma é incolor
E ao mesmo tempo tem todas as cores
Possui todos os odores
Que podes supor.
E não há como ser negro
Sem um pingo de maldade
Sem um pingo de piedade
Dentro do quengo.
Pois venha
E quando quizeres me seduzir
Não serei mais um simples negro
E sim a noite que se fez em homem
Pra te possuir.
Marcio Rufino
Todos os direitos reservados.
Crédito de imagem: Site Paixão e Romance.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Uma perna para o meu avô
o outro, com a alma gargalhando de ter enganado a gente, se minha mãe
não percebesse, tentando acordá-lo para a comida da manhã. Eu não gostava
de vê-la despertar meu velhinho, pois ele sonhava muito e passava a manhã inteira
me contando os sonhos, com um brilho nos olhos, que apenas fitavam de mentirinha
as montanhas distantes e as savanas. Eu olhava embevecido os seus olhos, que tinham
umas rodinhas brancas engraçadas abraçando as meninas dos olhos. Meu avô, Mahbub,
já não enxergava há seis anos; um médico americano, muito grande, de cara vermelha,
falou em catarata, mas viajou para outras terras antes de operar o meu avô e ele
continuou sem enxergar nada, mas nunca se importou com isso, pois seu pai, também
ficara cego e morrera do coração, há muitos anos atrás. O doutor explicou que os
anéis em volta das meninas do olhos não eram a catarata, mas também apareciam nos
olhos de gente velha; a catarata era mais pra dentro. Minha mãe ficou preocupada,
pegou o espelho e ficou olhando um tempão, o doutor riu e falou que ainda faltava um
bocado de tempo pros anéis dela nascerem. Depois, fez cara feia pra mim, pois soprei
nos olhos do meu avô, tentando mexer a água da catarata e vê-la. Mas a perna de
madeira, ele disse que ia demorar um pouco, mas chegaria no próximo carro da Cruz
Vermelha e deu à minha mãe um papel, pra ela receber a perna e botar no meu avô,
quando o caminhão de pernas passasse por lá. Fiquei muito triste, mas sabia que meu
avô estaria cantando e dançando, como sempre fizera, lá nas savanas eternas. Não
entendi o choro de minha mãe, que batia a cabeça no chão e exclamava maldição para
todos nós. Deixei que muita água saísse dela e perguntei pela maldição.
- Olorum nos castigará duramente, teu avó vai retornar para ele sem uma das pernas,
tudo no mundo é de Olorum , inclusive nós e nossas pernas. Isso atrai castigo, pois
Olorum nos deu tudo e tudo devemos levar de volta.
Aquilo tudo confundiu minha cabeça. Olhava ao redor, nada via além do meu avô no
calmo sossego dos mortos, sobre uma esteira; o toco da perna envolto por uma
manta; o cheiro da comida pouca oferecida pelos chapéus azuis enchia minha cabeça e
meu nariz, mas a fome veio e passou com a ventania lá fora.
Saí e vaguei pela aldeia durante horas.Vez por outra, passava alguém mutilado pelas
minas milicianas e eu imaginava quanta ira caberia no coração de Olorum, com tantas
pernas e braços roubados pela guerra. Mas quem estava morto em minha casa, era o
meu avô, o velho Mahbub, um homem bom e honesto. Não sei quanto tempo passei
vagando pelo campo. Voltei para casa exausto, mais de pensar que de caminhar. Se
meu pai fosse vivo, já teria pensado alguma coisa, mas eu sou Nanji, seu filho de doze
anos, correndo da fome e dos milicianos, com as minhas duas pernas e escondendo a
minha mãe, Abena, que teve um filho gerado à força, durante um ataque dos
milicianos, mas nascido morto pela graça de Olorum, inimigo da maldade dos homens.
Dormi um sono pesado e sem sonhos. Pela manhã, um cheiro de morte começa a crescer
em nossa casa. Minha mãe voltou a chorar e agora descabelava-se. Meu avô continua
na esteira, cercado de flores, nenhum vizinho apareceu, pela vergonha do defunto
perneta que obriga minha mãe a esconder a morte. As moscas varejeiras começam a
fechar o cerco; uma mancha esverdeada já aparece sobre a barriga do meu avô: a morte
fazia a sua parte. Novamente, andando a esmo, cheguei até o riacho, sentei na margem.
Do outro lado, vi Nassar, o mercador de peles, concentrado no seu banho, usando até
o sabonete dos chapéus azuis. Coração acelerado, atravessei o riacho pelo trecho mais
distante e cheio de árvores; dentre as roupas de Nassar puxei a sua perna de madeira,
esquerda, tal a do meu avô. Corri, o coração na garganta, a distender-me o pescoço.
Colocando a perna por dentro da roupa, na parte das costas, fingi uma outra alegria e
Pedi à minha mãe o papel que dava a garantia da perna de meu avô; ela me olhou,
olhos vermelhos de choro desesperado; agora, pura surpresa, pois não ouvira o
barulho da chegada do caminhão das pernas; não respondi, não sabia mesmo o que
dizer. Tirou o papel de um bolso, entregou-me, em chorosa desconfiança. Escondi a
perna atrás do depósito d’água,caminhei até o prédio dos chapéus azuis, entrei na
pequena sala de espera, um deles sorriu meio esquisito, olhando para o relógio. Falei
que estava doido por um dos chicletes de menta, chegados semana passada. Ele
levantou da cadeira, passou por um corredor, enquanto eu abria sua gaveta e carimbava
“ ENTREGUE. ONU “, no papel todo amassado. Recebi sorridente o chiclete
presente do tenente Jones, que fizera, sem saber, a grande ação de sua vida.
Conto de André Albuquerque
quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Escrito nas estrelas
Os direitos dos negros
Os direitos dos homossexuais
Os direitos dos idosos
Os direitos dos indígenas
Os direitos dos deficientes
Os direitos das crianças e adolescentes
Deveres para omissos
Deveres para preguiçosos
O seu direito começa
Onde termina
Se todos fossem iguais perante a lei
Não haveria segregação
Racial
Social
Sexual
Justiça não é responsabilidade da Lei
É responsabilidade de Todos
Deus foi morto no século XIX
E ninguém notou a sua ausência
E ninguém aguarda o seu eterno retorno
E ninguém existe
O Paraguai é o México da América do Sul
Não é mesmo
Estados Unidos do Brasil?
Países desenvolvidos
No Hemisfério Norte
Países do 3º Mundo não
Subdesenvolvidos não
Em De-sen-vol-vi-men-to
No Hemisfério Sul
Por que não desenvolvem?
Quando o Planetinha Azul tornar-se inabitável
Não vai ficar barato colonizar o Espaço
VAGAS LIMITADAS
AOS ELEITOS
E não vai ser fácil começar do zero
Sem escravizar alienígenas
Ou ser por eles escravizados
Poema de Andri Carvão
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Acordar
ou vórtice. de uma vaga presença, mas
ar-interino.
onde some.
onde: a pele e o nome,
exercitam-te.
sejam-me às intempéries planejadas
lutas desiguais, e informações ásperas
ora,
que sejam às tuas fúrias, o meu ponto-norte
minha elegia de bússolas descontroladas
e
ainda assim,
a deixarem-me pelo caminho.
sejam. essas linhas, queda.
ou uniforme à praça de tendências, aliás
lugar-preferido.
insone e longe.
onde: a pele e o nome,
exemplificam-te.
Poema de Azke
Amar o Diabo
É como amar o próprio Judas
O mais elevado,
Aquele a quem tentaram
Macular-lhe o brilho,
Denegrir encolerizados
O preferido do único Filho.
Amar o Diabo
É como amar o Evangelho,
A sublime canção,
Boas Novas
De que ninguém precisa de salvação.
Amar o Diabo
É desprezar os doze
Como se nada fossem,
É amar o décimo terceiro,
Ter a carne imolada
No templo de sacerdotes e carniceiros.
Amar o Diabo
É como amar
A geração de Adamás
E seus luminares,
Aquela que tentaram sacrificar
Nos altares
Dos que jejuam e se abstêm
Gritando aleluia e amém.
Amar o Diabo
É ouvir a voz de Satanás
Sussurrar-nos assaz
Que nosso chão,
Que nosso pão e além
Não é uma caixa
Onde se acha
Todo o mal ou todo o bem.
Amar o Diabo
É ter Judas Iscariotes
Como confessor e sacerdote,
Ser facho ou archote,
Apóstata,
Alvo dos apóstolos,
Malditos zelotes.
Amar o Diabo
É não ser gado,
Estar imundo e sem pecado,
Trazido ao mundo,
Da perdição das estrelas
E poder vê-las
Como antiga cela
Onde lhe devoravam
O fígado e as costelas.
Amar o Diabo
É ver o próprio Deus
Despir-se de todas as vestes
É vê-lo nu, sem desejos,
Monstro do Leste,
A contemplar no espelho,
Sem chifre ou rabo,
Toda a pureza do Diabo.
Amar o Diabo
É tornar-se pio crente,
Ter nas mãos a estrela e a serpente,
A ira acesa,
A marca e o chifre
De quem quer ser livre
E, enfim, se desnuda
Para crer
No evangelho de Judas.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Flores rudes
São flores rudes -
Não atrairiam a tibieza
Do coração dos homens,
Nem as aplaudiriam
Quem mantém os sentidos
Superlativamente excitados
Pelos graxos sons de fonemas,
Que só fazem mesmo o gosto
De estômagos habituados
À compulsória ingestão
Dos venenos aveludados
De tediosas verves e lisonjas,
Que embalam os cantos e as loas
De viciosos bardos... Vates,
Prenunciadores de fátuos arrebóis.
Poema de Lázaro Ben Hashem
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Conselho a um poeta

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? – perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: “eu vos trago a verdade”, enquanto o poeta, mais humildemente, se limita a dizer a cada um: “eu te trago a minha verdade.” E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!
Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as digressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escreve os seus poemas?” A poesia é dessas coisas que a gente faz, mas não diz.
A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de idéias, associações de imagem; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema) tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com o cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.
Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacob entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes”. Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técnica dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.
Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso ajustar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que vai lá seguindo com os detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.
Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tu a eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que, no entanto, me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.
Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?
Mario Quintana
Cena.ar: letra-Alvo
mar,
ensejo cadente por utopia(à ilha) de papel
ela serve-me
qual,
alvorada revogada.
rente.
ou. (lâmina.. em)plano-fosco, de tintas..
referência-pagã. de preces obsoletas e nulas
do quadro-página que, à insônia,
morada: lhe fiz..
e-é: sempre lenda.
ou.cena..
registro de conformidade aliciada
da im-presença(vaga) acortinada ao palco-febre
desde.
que,
à tela(dela), me formei..
ah, (esta)mensagem re-criada!
livrada..
em pecado rumo por um livro-solto, a presidir
ou
o corpo
e
posto. de face a ruir o nome(alvoroço) ao-que te condenei..
..
ano:
um.
mero tempo..
tão sendo,
do pouco que tenho,
à senda(retirada), e.
de ti.
(ainda-morada)
Poema de Azke
domingo, 4 de setembro de 2011
Nunca vi o mar
Segue uma palhinha do livro! Abraços!!
[Nunca vi o mar]
Nunca vi o mar. Sempre
esperei à beira de um rio.
Guardando o trajeto
da água,
de seus peixes de ar.
Nunca desejei o infinito abraço
aberto do mar.
Me contentava com o rumoroso riso
da correnteza no velho mangue.
As árvores buscaram
aquelas margens.
Tudo que era real ou fantástico.
Fiquei com os ais
das pedras, no antigo cais.
Quantas paragens não naveguei.
Longe, muito longe
de onde este rio corre,
estava a promessa do mar.
Poema de João Lima
sábado, 3 de setembro de 2011
Pó ao pó
recebendo o vento
de tudo que foi e existe
mesmo que tenha que cavar o chão
não terá o que não teve
os sonhos idos
como vento na estepe
mais parecidos com a alma
(que ela mesma)
brincando que as coisas mudam
... e não doem iguais
Poema de Vânia Lopez
quarta-feira, 31 de agosto de 2011
Sou-te sereia senhor, mas não me vês...
exibo-me quimera, arranco-te queixumes.
Ao embalo deste mar – fullgás – sou teu reverso,
a dor que não se esconde – um verso em mil perfumes.
Revelo-te em meu corpo as vidas do Universo,
beleza transcendente, arfar de vis ciúmes.
Ao embalo deste mar – fugaz – um corpo emerso,
resvalo ao teu olhar – não brilhas aos meus lumes.
E canto e canto e canto! Excelso e ardente ai!
Rastejo ao teu mistério e louca em ti delinquo
ao verso, numa estrofe, em mim tudo se esvai!
De que valho em paixão? Em ti nem sou sagrada!
Ao vento do arrebol meu canto tão longinquo
é sonho, é ária, é luz, é sombra, é dor, é nada...
Soneto de Sílvia Mota
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Lucidez Seixas
Edith-se:
O Profeta embriagado
De Len(d)a, Tânia e Glória...
Correu atrás da Historia,
Como o vaqueiro do gado.
Jogou o jogo dos ratos,
Bebeu da Vida os Mistérios,
Voou p’ros mundos etéreos...
Curtiu um milhão de baratos.
E assim...
Kika’ndo entre as esferas,
Num nonsense profundo...
Foi-se a desvendar outros mundos,
Haver-se em novas quimeras...
Vestir-se de querubim.
Poema de Lázaro Ben Hashem.
Carta-Testamento da grande atriz Cacilda Becker

“Viver é conquistar. Não se pode viver em estado de contemplação. Viver é ir ao encontro. Tudo está a nossa espera. É uma questão de coragem e amor.”
“O meio do teatro é um meio como qualquer outro. Existem brigas, discussões, invejas, tudo motivado por falta de estabilidade. Mantenho, no entanto, relações cordiais com meus colegas.”
“Tenho poucos amigos, por uma questão mais de temperamento, pois costumo entregar-me integralmente a muita pouca gente. Sou, por natureza, de feitio ‘mandão’, franco, aberto. Meus ódios e meus amores são declarados. Não tenho tempo para perder com hipocrisias inúteis.”
“Tenho trabalhado muito, demais, quem sabe? Quase não vejo o sol. Principalmente o pôr-do-sol. Sinto tanto. De todas as horas do dia, é essa a que mais se instala em mim. Sempre foi assim, desde pequenina, muito pequenina. É uma sensação de saudade (quem sabe?), um estado coerente com tudo aquilo que a minha natureza sempre ansiou, ir além, além das coisas e de tudo, perder-se.”
“Quando quero, quero. Quero de fato. E vou buscar. Não espero nada de ninguém com relação as coisas materiais, é claro. Tenho confiança cega em mim, apesar das insuficiências toco tudo para a frente. Sempre fui assim.”
“Não quero ser sempre mero instrumento do autor, mas a própria obra, vivendo também momentos de plenitude.”
“De cada personagem que representei guardei uma ‘descoberta’ para mim, de mim mesma.”
“Não quero negar as qualidades ‘terapêuticas’ do teatro ou de qualquer arte, mas, como tenho horror a meias-verdades, devo confessar o que a mim me parece à verdade inteira. Todo conhecimento cultural ou artístico, toda experiência de vida, filtrados num caráter positivo trazem benefícios para o ser humano. A soma de tudo isso - arte, cultura e vida, deveria obrigatoriamente melhorar qualquer homem.”
“Nasci forte, e desde o dia em que a vida me ensinou a não ter mais medo dos homens e dela mesma, acho que comecei a melhorar como ser humano e como atriz.”
“Minhas insatisfações, minhas angústias, esta fé em meio ao caos foram coisas vitais para a minha arte. Essas coisas fazem os poetas, as atrizes, os devassos e as prostitutas.”
“Tenho um caráter voluntarioso, temerário, perigoso mesmo, porque me faltam as medidas. Vou da extrema generosidade ao mais absoluto egoísmo. Resta-me a esperança de que com o tempo (que já não é muito grande para esse fim), adquira sabedoria.”
“Sei que terei vivido a vida integralmente. Rezo todas as noites antes de dormir. Peço a Deus que não me falte uma consciência alerta e não perca um instante, porque a vida é pequena.”
“A vida é um jogo maravilhoso e Deus nosso parceiro. O que me importa não é o tempo que vou ficar em cena, são aqueles que eu amo.”
“Quando chegar a minha hora, eu vos direi, meu Deus, fiz tudo que podia, me esforcei, não me entreguei a ninguém. A vida não me fez medo, aceitei as condições. Sofri bastante, chorei muito. Feliz não sei se fui, porque não tive tempo de saber. Dei-me inteiramente a tudo. Neguei-me completamente aos que repudiava. Vivi a minha natureza em toda a plenitude.”
Cacilda Becker
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Notícias por e-mail
insana insensatez a gargalhar em vão,
reclamo de prazer, que em eco liquefaz,
eufórbio envenenado, às lavas de vulcão?
Queres saber de mim, esta mulher loquaz,
angústia a se perder ao vento e à erosão,
suspiro e anseio vil, que em choro se perfaz,
vestido a esfrangalhar, sem cor no coração?
Se queres, vais saber. Sou dor e sou tormento!
Trafego em luto meu, sou poço artesiano,
revelo na saudade, um chafariz barrento!
Se queres, vais saber. Não tenho outro Universo!
Envio neste e-mail, anexo profano,
o tudo que possuo, um quase nada: eu-verso!
Soneto de Sílvia Mota
terça-feira, 23 de agosto de 2011
A ti, Maiakóvski
Teu nome que ecoa de tuas vértebras,
e é amarelo como tua camisa.
Componho-te entre os dias que te leio,
no veludo da minha pequenice,
no meu crânio erguido ao povo russo.
O teu amarelo não é antepassado
e tua fala cotidiana inexprimível
é a que melhor traduz o meu século.
Tomo como meu o teu futurismo terrível,
celebrante de Lênin, Iessiênin e de Lila,
tendo a forma poética de uma pólvora.
A tua rima hiperbólica e desmensurada,
par do teu coro retumbante e claro,
aplaudiu o retro levante do teu povo.
No futuro que tu poemaste outrora
ficou o meu passado reminiscente,
de quem te vestiu, te tocou, te ouviu.
Foste um russo adventício, uno e veemente,
cuja leitura não me basta - não me é suficiente! -,
lê-lo tão só por lê-lo e só lê-lo.
Leio-te trajando uma camisa amarela,
tocando Tchaikovsky numa flauta vértebra,
costurando com veludo a tudo e a todos.
Poema de Isaac Bugarim
domingo, 21 de agosto de 2011
Eu, mulher!
E tantas variantes de
Mim mesma, que as vezes
Torno-me pequena
Não me cabem!
(preciso de espaço)
Respirar! Respirar!
Tamanho cansaço
Dissimulado por um
Lindo batom, avermelhado
E um salto alto
(é como um colt 44)
E, estou pronta para
Matar!
Ser multifuncional, altera
a minha função hormonal
e, como toda fêmea
(felina, viro ferina)
E saiam da minha frente
Vou passar!
Algum corajoso
Quer enfrentar?
Poema de Sandra Soares
sábado, 20 de agosto de 2011
11 meses, 19 dias e muitas horas de vida!
Agora têm graça todas as cartas de amor ridículas.
E essas coisas ridículas que todo mundo diz
quando diz que ama.
A lama da UFAL, os braços me abraçando,
O frio, a falta de luz,
O creme no cabelo,
Pipoca e ônibus,
Banana com Catchup, pirulito,
Roupa molhada, corda,
Suor e beijo, tupolevs,
Formigas chatas,
Sombras móveis e nuvens rápidas,
Confissões, caretas bestas,
Chuvas e fotos, tu ia's, sextas,
Questionários, incesto no Teatro,
Saudades sem net, praia e repentista,
Unhas e conceitos, músicas e batom,
Seqüestros e prêmios, saias e Black Sabbath,
03 de julho's, datas do ano todo,
Chicletes e desenhos,
comunidades e mordidas – despedidas,
Cartas e São João, Parque de diversão e Legião Urbana,
Panfletos e timidez, Filosofia e Política,
Enquetes, sábados e domingos, tiroteios e declarações,
Celular e jurubebas na estrada, filmes e filmes,
Etc's e etc's, Reitoria e D.R.,
Tapioca e impressora,
Buraco e Xadrez,
Slides e eleições,
Morango e basquete,
Dããã's e provocações,
Surpresas de 18 anos,
Sapos... Ah, os sapos...
Conquistei-a, com minha teia.
Minha teimosia de querê-la – com querelas.
- Bozó.
Somos um só, um sol, um nó na garganta dos outros
que não sabem amar.
Não há casal como nós, nem terá e nunca terá existido,
porque o nosso cupido
morreu de felicidade
ao vê-la em nós. O nosso cupido não existe mais!
E a todos os casais
que o queriam conhecer: morram de inveja e de desgosto.
Porque, de felicidade, será nossa morte.
E, quem dera, a sorte de morrermos
como vivemos e viveremos: juntos.
Nós somos a terminologia dos amantes,
das invariantes da língua – que língua a que beijo!
11 meses e 19 dias da mais pura vida.
Poema de Isaac Buagrim
Como as coisas mudam
E tudo mudou...
O rouge virou blush
O pó-de-arroz virou pó-compacto
O brilho virou gloss
O rímel virou máscara incolor
A Lycra virou stretch
Anabela virou plataforma
O corpete virou porta-seios
Que virou sutiã
Que virou lib,
Que virou silicone
A peruca virou aplique,
interlace,
megahair,
alongamento
A escova virou chapinha
'Problemas de moça' viraram TPM
Confete virou MMA
Crise de nervos virou estresse
A chita virou viscose.
A purpurina virou gliter
A brilhantina virou musse
Os halteres viraram bomba
A ergométrica virou spinning
A tanga virou fio dental
E o fio dental virou anti-séptico bucal
Ninguém mais vê...
Ping-Pong virou BabalooO
A-la-carte virou self-service
A tristeza, depressão
O espaguete virou Miojo pronto
A paquera virou pegação
A gafieira virou dança de salão
O que era praça virou shopping
A areia virou ringue
A caneta virou teclado
O long play virou CD
A fita de vídeo é DVD
O CD já é MP3
É um filho onde éramos seis
O álbum de fotos agora é mostrado por email
O namoro agora é virtual
A cantada virou torpedo
E do 'não' não se tem medo
O break virou street
O samba, pagode
O carnaval de rua virou Sapucaí
O folclore brasileiro, halloween
O piano agora é teclado, também
O forró de sanfona ficou eletrônico
Fortificante não é mais Biotônico
Bicicleta virou Bis
Polícia e ladrão virou Counter Strike
Folhetins são novelas de TV
Fauna e flora a desaparecer
Lobato virou Paulo Coelho
Caetano virou um chato
Chico sumiu da FM e TV
Baby se converteu
RPM desapareceu
Elis ressuscitou em Maria Rita ?
Gal virou fênix
Raul e Renato,Cássia e Cazuza,Lennon e Elvis,
Todos anjosAgora só tocam lira...
A AIDS virou gripe
A bala antes encontrada agora é perdida
A violência está coisa maldita!
A maconha é calmante
O professor é agora o facilitador
As lições já não importam mais
A guerra superou a paz
E a sociedade ficou incapaz......
De tudo.
Inclusive de notar essas diferenças.
(Luiz Fernando Veríssimo)
Afrodite
Nascido entre os escombros do meu dia,
Me surge enquanto dispo-me da cal
Das horas consumidas sem valia.
Teu corpo, epifania conjugal,
Sigilo e afago após a bizarria
Que me aflige tornando mais brutal
A mão que à noite busca-te erradia.
Refúgio de quem vive em meio às feras
De todos os banidos das esferas,
Dos anjos, prometeus e satanás
Que agora gozam, amam e trabalham
Na luta pelo pouco que amealham,
Afã com que teu corpo se compraz.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
A Marca de Pagu....

Pagu nasceu em 1910, em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, mas passou a infância no Brás, bairro da região central paulistana. Na adolescência já chamava a atenção por sua personalidade forte. Poucos anos mais tarde, levada pelo poeta Raul Bopp, Pagu aproximou-se do grupo de intelectuais paulistanos que encabeçaram o movimento modernista brasileiro. Foi quando teve o primeiro contato com a pintora Tarsila do Amaral e o escritor Oswald de Andrade (veja boxe Passagens da Vida Privada). Sua luta contra a ditadura de Getúlio Vargas, iniciada na década de 30 quando tinha apenas 21 anos, foi dura e tortuosa, pontuada por prisões - mais de 20 - e torturas. "Ela sempre sonhou entregar-se totalmente, sem limites, até a aniquilação, ao amor, a uma causa, à vida e até à própria morte", afirma a professora Lúcia Maria Teixeira Furlani, autora de Pagu - Livre na Imaginação, no Espaço e no Tempo (Editora Unisanta, 5ª edição, 1999). "Procurava, freneticamente, o que lhe faltava, a completude que todos perdemos e pela qual ansiamos, esse era seu traço mais marcante. Além de seu olhar sensível, antecipatório e antenado na cultura, na política e no comportamento", ressalta a professora, estudiosa do tema há 18 anos.
E ainda havia a maternidade. Com o primeiro filho, Rudá de Andrade, do casamento com Oswald, teve uma relação que durante muito tempo foi conturbada pela militância política. Com o segundo, Geraldo Galvão Ferraz, da união com o jornalista Geraldo Ferraz, foi uma mãe presente, de acordo com ele próprio. "Minha mãe era um tanto superprotetora, mas também muito carinhosa. Era uma mãe como qualquer outra, apenas com horários diferentes dos das mães dos meus amigos. Ela trabalhava bastante em casa, sempre na máquina de escrever. Mas sabia tirar seu tempo para uma brincadeira comigo, para um gim-tônica e um cigarro", lembra ele.
4 orgasmos
no céu
que a minha língua
reflete
há um banquete
de estrelas
e de glórias
no céu
que a minha boca acolhe
há o teu alcance
sexual
é um poço
de líquidos
-Anatomia
Jazi
no buraco
do seu umbigo
o meu inimigo
é as suas curvas
gosto do reto
-A dança
Sou sua
Não sou seu
Minha alma
Feminina floresceu
Dou-me
Como num balé
De Maria
E José
-Deifico
Apoteose
me goze
me goze
tome uma dose
de mim
faça pose
de jasmin
no fim
Poema de Isaac Bugarim



