Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



domingo, 4 de dezembro de 2011

Dois poemas de Aline Capistrano

Ceia profana

Dane-se o natal e o novo mundo
Deixem somente as rabanadas
As quais eu nutro amor profundo
Rimem heresias e maldições
Pendurem nas árvores os colhões
Pro inferno a poesia
O amor e a hipocrisia
Matem a razão meia noite
Depois sirvam vinagre
Partam o peru a foice
Sirvam na comadre
Bestas apocalípticas
Vergonha da sua nação
Na boca sempre um palavrão
Uma palavra prostituta
A língua falada é puta
A discórdia azeite
O ego um pedaço de pão.

Toco fogo no céu

Tem anjos demais para pouco céu
Alguns devem ir para o inferno
Abro as asas e aponto os réus
Dou a sentença
O céu é de quem o viu primeiro
O ultimo será mesmo o derradeiro
Comigo não tem ditado
Nem a puta da democracia
Aqui é por ordem de hierarquia
Acaso o céu não me aceite como juiz
Toco fogo nesta bagaceira
E tudo fica como fim de feira

Poemas de Aline Capistrano

serragem é o peito vazio

quando o mundo ainda era jovem
a poesia era o reino onde ninguém morre
testemunha o inferno
a raiz da ira
um pulso em flores
como uma árvore
que se dobra pelo vento e volta
porém, a mão não poderá jamais
ser maior que a palavra que empunha
destruindo de dentro para fora
como um prego em uma ferradura
ou um céu sem nuvens a trovejar
nesse imenso salão de baile chamado universo
o meu sangue é da mesma cor que o teu
a alma é imortal
e encontrar um motivo para não puxar uma palavra
em vão ou vã
é justo imortal e divino
os fios das harpas são deuses
mantém o vosso chão
para que tenham o ar da liberdade


Poema de Vânia Lopez

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Arqueologia

Vez ou outra
Dou uma espiadinha pela fresta da porta.
Olho o caminho percorrido
E sempre acho, em meio às pegadas,
Um pequeno tesouro esquecido e enterrado.

Uma mão estendida,
Um olhar compassivo,
Um sorriso no momento exato.
Uma palavra...

Encontro, também, remédios amargos,
Intramusculares,
Daqueles que doem muito,
Marejam os olhos e apertam o peito.

Não observo ossos
Deixados pelo caminho
Porque coisas mortas só assombram
Minhas noites de sono tranquilo.
Minha arqueologia é sobre
As coisa vivas, que pulsam
E me ensinam novos caminhos a percorrer.


Outro dia,
Em um desses passeios,
Encontrei o perdão, só,
A muito tempo esperando por nós dois.

E tento trazê-lo desde então.


Poema de Milton Filho

domingo, 27 de novembro de 2011

Canção da manhã

Nuvens de poeira na estrada
jipe serpenteando
multidão de bóias-frias em marcha
sol nascente se espalhando
quero-queros em revoada
gado ruminando no pasto
galões de leite fresco nas porteiras
ribeirão cantando sobre os seixos
suave ranger de rodas de carroça
galo cocoricando no galho do abacateiro
aboio de peão barítono apaixonado
brilho e tilintar das enxadas e das foices
pés de cafés sendo colhidos
som de berrante potente
abafando todos os outros sons,
tudo na mais perfeita ordem
e eu, voltando do baile
com a viola nas costas,
chutando as pedras do caminho...

Poema de Betusko

Abutres

Podres abutres,
vós destes o corpo do meu nome
Sem benzi mento ou caridade
ao voraz esquecimento.

Os dentes onívoros
Dessas aves insaciáveis
não imaginam a ressurreição
do outro corpo nominal
que desenvolvo no útero do verbo.


Poema de Jean Narciso Bispo Moura

sábado, 26 de novembro de 2011

Supernova

“Porque tu és pó e ao pó retornarás”
(Gn. 3:19)


A supernova
É flor de raios
Apavorando
Floricultores,
A tantos povos
A contemplarem
Imenso brilho,
Origem e fonte
De todo o riso,
Do todo o choro
E da pergunta
Sobre o que somos,
Para onde vamos.

A supernova
É nossa mãe
E nosso pai,
Deu causa a tudo,
Ao teu destino
E à nossa fé,
Gerou profana
Buracos negros
Insaciáveis
E até as unhas
Tão comezinhas
Do nosso pé.

A supernova
É geometria
A ejetar-nos
Um rubro espectro,
Etéreo aspecto,
A quintessência
De todo o cosmo.

A supernova
É substância,
Todo o minério
Do teu planeta,
O claro enigma
Do teu mistério.

A supernova
É ferro e cálcio
Carbono e boro,
Matéria orgânica
Do teu desterro
Em supersônica
Exsudação.

A supernova
É festa e luz,
Tão branca luz,
Tão fero brilho
È vida e morte
A explodir
No céu da China,
Em Cassiopéia
E na Serpente
Ao olho enorme
De Brahe e Kepler.

A supernova
De nada esquece
E a si requer
Matéria outrora
A ti emprestada.

A supernova
Está no fundo
Do altivo céu,
Além do véu
Do firmamento,
Na grande Nuvem
De Magalhães
Que se te espelha
Destino e halo.

A supernova
Não mente ou ri,
Te dá o dente,
Depois o toma,
É tua origem,
É tua esfinge
Espelho e berço
De todo o fim.

A supernova
É muito séria,
Térmico útero,
Fornalha cósmica
Colapsada,
A Sanduleak
Brilhando mais
Que a própria Vésper
A derramar-se
Por vasto céu.

A supernova
Encena os céus,
Condena os céus
Com raios gama
E raios-x,
Ponteia os astros
Do cientista
E do menino.

A supernova
Que tanto amas
Em ti reponta
E te reconta
A própria imagem,
O curso d’água
De toda a vida.

A supernova
É a inflação
De quente lóbulo
Que nos semeia
Novas estrelas,
A sementeira
Evanescente
Que te refaz
E degenera.

A supernova
Põe a serviço
Toda a matéria,
E novas nuvens
E nebulosas
Que te fecundam
E te inoculam
Veneno e pólen
Do céu longínquo.

A supernova,
O bronze e a pátina
De novas vidas
E novas Terras.

A supernova
Deu tempo ao homem
E o subtrai
Do solo ao cosmo.

A supernova
Te dá o câncer
E a rara chance
De redimir-te
Ignorado
E ignorando
O próprio acaso
De toda história.

A supernova,
A destrutiva
A destruir-se,
A destruir-me
E a construir-nos
Do pó sidéreo.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados

Beber essa coragem líquida...

trata-se da terra e da água
os dois lados da mesma moeda
amor eterno por um biquíni

revolta operaria
aguardando um assovio

passos da cama até a porta
leite evaporado

tua sombra na bainha das pernas
repousando na paciência do corpo
criando outra camada de mim

reivindicando a metade
na partilha de momentos felizes
(um duelo do que ainda vai doer)

como se a alma devesse fugir
... e o corpo não aceitasse

dor, só não me empunhe sem motivo
só não me embainhe sem alma

na incansável turnê de dentro
(que conversam ao mesmo tempo)
arredondando cada trilha nascente
do que jaz não vive mais em mim...

Poema de Vânia Lopez

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

VÊNUS

Algumas camisas estão

Penduradas no cabide
Esperando que o guarda roupa
Seja aberto
Para poder apenas
Por um instante
Ver o mundo lá fora
Sabendo que apenas uma
Será escolhida
Para passear

Este poema faz parte do livro NUVENS  de Arnoldo Pimentel
Para adquirir entre em contato
Email: arnoldopimentel@gmail.com

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

jaz um vermelho cheio de grama

chora o sapato negro
perdido nas lágrimas do céu

retalham o peito
anjos inconscientes da imensidão

desdenhosos demônios
de uma saudade carmim

fazes uma falta tão bruta
que a faca não alcança a alma
... morre a sombra em pedaços

(a pensar em mim)


Poema de Vânia Lopez

terça-feira, 22 de novembro de 2011

"carnália.."

carnália..

da pura sede por enredo e fim
ao momento lépido das culpas de mim
ao enunciado e corpo-caso de prévias
quais chamas agrilhoadas em peça

carnália..

minha carta desviada por intenção
assassínio veto que te comparei, é possível?
tal providência à margem de ata-criação
tal elemento evasivo ao que não me é por líbido..

carnália..

minha lenda de rendas e actos do corpo
tropo.. mentira e conselho dos olhos, e aqui
misantropo enleio de guardar-te aos poucos
oh, coloração da pele que tanto/tanto é de ti..

carnália..

prega-me à estaca que te ofereço
mata-me em noites infindas e das quais, esqueço
um.. lado desvio inoportuno conto de sinais
ah, eu.. deitaria o sol pra te ver(um quanto) mais..


carnália..

baixa a minha lâmina
segreda aos ouvidos, dor..
carnália, me acalma, me ama
ou:



dá-me fome(da) pétala do ventre que te roubou.

Poema de Azke

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

"áquila.."

ao lado.
(de cá)

vénia-tombada
(parte-tomada)
da água que me refere
(ou: confissão-imediata)
à: sensação-adjunta
em:
corpo-suave(ou: teu-único.)
queda da casa de causas..
(fonte: lúdica..)
às: asas repentes e lá mais, o que tiver de incisão.


preces sub-entendidas
escadaria da vaidade
(absurdo..)


à linha que me conflagra o desapego
é: arte-cênica
ébrio conto de moções
de
dúvidas
aos meus alheios e preventivos segredos(orações..)
às:
aspas..
em consumo de mentiras(culpas..)
de contacto e: ilusão.



a
linha..



tal alvo por execução aos meus desvios
empregos solícitos de fuga, mas:
eu,
sempre fico.





à exigência de querer mais um pouco
seja-me à lápide que deitarei um dia
seja-me, o retorno.. das minhas (ditas)canções.





ah-eu..



esqueci-me disso tudo..
o que vejo é o teu lado/pecado/conflito(impulso: fogo!)
e,
ainda.. frente.
em
paredes desiguais
eu,
esqueci-me de ter o registro
da calmaria em minhas mãos por remar à revelia
quando em


corpo/bússola, este contracto
este presuposto acto em vão, enfim






te vai.
(e: te cria/e te cria..)


Poema de Azke

Uma carta, um plágio

Milton, esta carta é só para lhe dizer
Que chegou o fim da linha.
E você sabe, é fato.
Você tentou, você lutou,
Mas cadê a competência?
Você não tem, aceite.

Os melindres dessa gente,
O rancor, a hipocrisia,
O olhar enviesado,
A falta, mesmo, de amor,
Como plantar neste solo infértil?

Arrume as malas, Milton,
Separe suas parcas sementes
E vá plantar batatas em outro sítio,
Outras terras...
Não fale de respeito aos surdos
E desdentados,
Porque não há paladar para tal ambrosia.

Não tente mais convencer os convencidos,
Os zumbis, as múmias...
Ame, apenas, como as pedras:
Ninguém as notam,
Mas sustentam edifícios.
E não tente tirar leite das nuvens,
Das brancas nuvens,
Das pálidas nuvens,
Ou daquela brisa em particular, são iguais.

Não esqueça você também, Milton,
Sim, você, também verme,
Hipócrita elevado ao cubo,
À potência de dez, mil, milhões...
Você, feito de átomos e moléculas,
Que irão se transmutar em matéria pútrida,
Banquete para ti mesmo, verme dos vermes.

Vá e não volte mais,
Senão quando for luz e competência,
E puder matar a sede e a fome dos miseráveis.
Até lá, meu filho, cala-te,
Porque é no silêncio que se tempera o espírito
E se forja a boa voz.


Poema de Milton Filho

sábado, 19 de novembro de 2011

Divina Perfeição

Verde vermelho
dourado prateado
lindas cores
lindas luzes
e brilhos
nessa época festiva
a esperança brota
(mais uma vez em nossos corações!)
Que lindo!
Que paz,
e que harmonia encantadoras!
É tempo de confraternização,
união entre seres, famílias,
brindamos à glória do nosso grandioso
Senhor
...
Depois?! ...
Ah! ... Confraternizaremos de novo!
Ziriguidum, é carnaval
folia, festa da carne (nua e crua) ...
E todos digam,
mais uma vez,
Amém!
Assim seja!

Jorge Medeiros
(19/11/2011)

Três poemas de Vânia Lopez

o que se escreve sozinho

canto a voz colorida da tela
as tardes quentes de longas tranças
mil girassóis cabem dentro da minha mão
como um vento curioso
sangrando a morte dos sapatos novos
em gritos largos
há na dor um brilho que cega
o gosto da sua boca
no dourado em contraste com as horas
que perseguem sem trégua
o frio turva
a morte espera na rua
tudo que sou quebra-se em mil espelhos
atrás da porta o vazio me recebe
em murmúrios cálidos
sofrido, vivo
arranhando a tristeza em lágrimas que calam
numa dor pintada na coragem de ser feliz
chorando o vazio que sente
no mais obstinado poema
rompe em pedaços
na sola do sapato de alguém...

na linha de alinhavar...

amor mergulhe nos gestos
armados de dentes de lírios
de mil nuvens afogadas no pêssego
observe até que meu corpo
se torne uma melodia
até poder entoá-la a plenos pulmões

rouba os lábios da noite
inerte no vale do seu umbigo
eu vivo como uma nuvem mergulhada no céu
morrendo no azul imortal
miserável e pleno
solto nas horas da tua sobrancelha

é como se eu não pudesse te reconhecer mais
para saber quem sou
acabo voltando para morrer
morro-te em ais na ponta do lápis

sem uma linha escrita
deixa-me em rostos mortos
penando por ti em sussurros estendidos
em jornais antigos

enche então o instante
como um anfitrião generoso
e uma refeição quente
num jeito de esquecer

ou deixa-me sentir a música parar
molhada de orvalho
que lentamente passa
como alguma coisa que se perdeu
num duelo de vestido sem asas...

Pode marcar a hora e o lugar...

venha bem vestida
na melhor roupa
como se fosse o último bolero
rasgando dentro de mim

beije-me demoradamente
me olhe do jeito que sempre sonhei

numa palavra rude
rasgue-se em pulsos suicidas
em plena Colômbia junto aos guerrilheiros

só não venha no meio de um banho no chafariz
muito menos na melhor noitada
sem futuro que ainda viverei
também não seja besta igual uma queda de chuveiro!

morte acho que vou te matar!
você que mata tudo...
vais morrer em decepção
...já ando morrendo há tanto tempo
(que posso respirar em seu pescoço)
-E te aviso:
a conta não fecha nunca!

(em mel e enxame)


Poemas de Vânia Lopez

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Você seria capaz de me amar?

(Poema dedicado aos seres incompreendidos.)

Você seria capaz de me amar?

Eu só queria entender porque não há flores em meu jardim...
Se ainda há tanto amor em mim.
Eu só queria entender porque não ganhei seu coração...
Se ainda há melodia na canção.
Mas você não ouviu, nem sorriu, nem descobriu a ferida sangrando em meu peito;
E meus sonhos, todos dissipados em seu leito.

A incompreensão arrebatou-me de seus braços e a tempestade desatou nossos laços.
E eu chorei, desesperei-me e gritei feito um louco nas esquinas sombrias;
Garrafas vazias, cacos espalhados, enfincados em meus pés descalços;
Sem seu abraço, sem seu abraço.

Não posso crer que Deus me barraria à porta da cidade onde há felicidade...
Se não fui eu quem escolheu ser assim; E tendo por companhia, uma solidão sem fim;
Se não fui eu quem tornou em cinzas espalhadas ao mar;
À procura de qualquer mundo que me acolha e não me faça chorar...

Mas se você me amasse, eu nem me importaria;
Porque saberia voar e cantaria aos quatro cantos...
Sim, eu saberia voar!
Você seria capaz de decifrar meu olhar?
Você seria capaz de me amar?

Poema de Léia Carmona

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Plágio

As correntes marítimas
Enxugavam minhas lágrimas,
Mas o sangue, não.
Os navios sabiam...
Velas infladas
Feito mulheres grávidas,
Anunciavam minha dor.
Resolvi caminhar sobre as águas,
Distribuir pergaminhos engarrafados,
Culpar a falta de um grande amor!
As correntes marítimas sabiam,
Os navios sabiam...
Todos, indiferentes,
Anunciavam a minha dor.
Menos Tu.

Poema de Milton Filho

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Caminhos

Não é com brandura que se forja um espírito brando,
Mas à marreta.
Por isso, não chore.
Não implore.
Sê digno...
Suporta!
De onde me vens pedir que te indique o caminho, a outro cego?
Abre tu mesmo, teus próprios olhos,
E, vê!
Pouco se me dá, o quereres beber de minha e ou, outras poças.
Acaso, não sabes tu, da fonte?
Acaso, te foi negado o acesso?
Ou, és GRANDE demais, para a estreita passagem?
Encolhe-te!

Poema de Clara-Mei

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

O dejeto

Ele flutua,
Causa asco,
Fede,
É humano? Não.
Ou sim.
Vai saber o que é este ser!

Mas, adubada as plantas,
Não ingerimos essa merda?


Poema de Milton Filho

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Um pouco de muitas....




Um pouco de Frida Kahlo
Chacoalhando a vida
Plantando flores na avenida
Colhendo pó, dor e despedidas.

Um pouco de Pagú
Arteira, amante do interno
Moderno da revolução,
Revoltada interrogação?

Um pouco de Maria...
Várias Marias,
Parida com manias
Intérprete de mim mesma.

Um pouco cigana
Sem umbanda, sem nome...
Cheia de cores, com flores na saia
Girando, gingando, cantando...

Um pouco indecente
Singela criança
Carente com dentes
Urgente semente.

Assusto...
Chuto o pau da barraca
Não temo ninguém e a nada
Intensa, ansiosa, corajosa...
Quando erro, boto a cara, não nego!

Sou lembrança...
Esperada do destino...

Sou dedicada às vidas que a minha deu.
Sou barulho...
Quando pensativa e muda,
Culpo a lua, a xingo de puta.

Tantas se encaixam em mim
Tantas moram em mim...

Sou muitas,
Sou nada,
Sou estrela
Sou terra batida
Sou fera ferida
Sou abrigo
Sou o ódio
Sou o amor
Sou poeta!

Escrevo para não morrer de dor
Sou quem você quiser,
Sou quem eu quero ser.
O que bem sabia de mim,
Não está mais aqui, deixaram morrer!

Camila Senna


segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Dois poemas de Joelma Maia

Anunciação

E que haja sempre um bom vinho
Quando os pirilampos alucinados
Com o cair da tarde nesses beirais
E mergulhados em passiva devoção

Os amantes infiéis dos rigorosos invernos
Solidários cantam em seu mais grave tom
A canção dos aflitos. Benditos sonâmbulos!

Perdidos na boca da noite fria,
Essa aflita viúva desamparada
Que propaga a solidão dos véus

Imortal seja essa ponte passiva
Para tão espetaculosa anunciação!

Um minuto de silêncio

E escuta-se apenas o murmúrio
Das águas que descem
Para regar essas sementes
Agora jazem soterradas

E para selar esse momento
Ouvem-se apenas águas, águas...
Mares que brotam de tantos olhos
Que já mortos, ainda vêem!

Poemas de Joelma Maia

domingo, 6 de novembro de 2011

Homenagem a Carlos Drummond de Andrade no Novo Blog Comtexturas

A Carlos Drummond de Andrade

Nasceste de carne e osso.
E de tanto viver entre montanhas e respirar sobrados
adquiriste o ferro de tua cidade. Por muito tempo
não soubeste se teu corpo
tinha mais da matéria orgânica
ou da metálica.

A vida provinciana que ruminavas
em ruelas paradas e poeirentas
tua vida desafogada e escassa de boi resignado e inócuo
e até tua vida exposta cruamente nas livrarias
das pequenas e grandes cidades do país
habita hoje involuntariamente o dia a dia
de banhistas transeuntes taxistas
besuntada em bronze e azinhavre
perfumada de uma inalcançável maresia.

Os miúdos olhos boiando em complacência
mesmo quando alguém lhe rouba os preciosos óculos.
A cabeça francamente doada ao passeio das aves
e às primeiras gotas de chuva
do inverno de Copacabana.

Enfim o metal em ti prevaleceu.
Te veste essa nudez de ferro
que não se dissipa (de estanho e cobre
os teus pecados?). Mas mesmo imóvel e imortal
rígido e indissolúvel como um teorema
ainda pareces — ainda és — humano demais.

Poema de João Lima

Visite o meu blog, que acaba de ser reformulado!
www.comtexturas.blogspot.com

sábado, 5 de novembro de 2011

o indício

maria..

onde combinam estes adereços?
à lua enfileirada no céu(este-tão) obscuro..
à. lentidão destes lapsos de ar..


maria..

é este meu tombo que te compromete?
às minhas sub-visões em raptos/passos de criações-vís?
à condição e sub-humanidade, e
à prova de?


maria..

cortam-me os sonhos.
e a tua febre alivia esta lâmina-fria que deitarei em canto(carnívoro) de ti
à minha culpa. e ao crime de te querer mais(um pouco.)


maria..

versa-me aos ouvidos
deixa-me entre-cortado por uma véspera/moeda qualquer..
me revoluciona o sentido/exercido de vida
e alquebra-me: em-in.comum pátria/alienação..


maria..

Poema de Azke

crava a pele e não toca a alma...

vesti o único vestido sem alça
o mais bonito que já coloquei os olhos
como um barco noturno
rasgando as luas

parece até que tenho um pouco dele
desmanchado no sangue
solto como água
afogando-se em alma

eu lá mesmo com ele acho que morria
com um punhal nas costas
e um coração no peito
indo pra casa...

perdida no fundo do armário

Poema de Vânia Lopez

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A Nuvem e o Fogo




Quando eu era menino
Queria ser bonzinho
Para poder andar sobre as nuvens
Até que um dia comi algodão-doce
E a vontade passou.

Quando eu era menino
Eu não queria ser mau
Pois tinha medo de arder no fogo
Até que um dia senti queimar no meu
O calor de outro corpo
E o medo passou.

Hoje, já adulto, tenho plena consciência
Nessa perplexidade caótica em que me movo
Da poderosa sensibilidade de minha essência
Que insiste em ser metade nuvem, metade fogo.

Marcio Rufino

Recado aos navegantes

- mensagem deixada numa garrafa

se teus olhos buscam apreender o leito
mas não possuem garras de estancar
e segue o corpo ao sabor dos remoinhos
ocupa-te de sobrenadar o éter
viver prescinde de todo o resto

Poema de Jorge Xerxes

www.jorgexerxes.wordpress.com

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Da feira de livros, trago Dostoiévski e Pessoa

Não há nada mais que me anime
melhor do que trazer comigo
um exemplar de Crime
e Castigo.

Ponho debaixo do travesseiro
este recreio q'me afeiçoa:
A obra Cancioneiro
de F. Pessoa.

Zelo como quem devota
ao seu labor inconcusso
a obra Idiota,
do russo.

Trago numa plástica sacola
esta grande literatura
que, se não evola,
cura.

Poema de Isaac Bugarim

nem aos olhos

se.
eu te descobrir(o que me encontro?)
se.
te fossem as luzes(o que mais/me guiaria?)
ontem, ou
passos? em fileiras e chuvas
(as)mesmas. das tuas insensatas poses.
onde?

registram-se ao arbítrio dolente
e
à prepotência(in-salva) de te vivenciar
fugaz..
um(pouco)?

e-o crime de ti..
onde?
culpa..
(onde?)









..



qual à revolta da carne.

à minha cama refrigerada
estaca de tantos aspectos
epístolas destes(intrépidos) épicos de cair
em
situação absurda
clemente
de repente
mas,

em verdade e por alguma exclusão..
por interesse relativo
por

insenção(coincidência..) e desapego:
teu nome, ainda é.


o tempo.todo(o-que te vale)
o outro esboço(ao que ainda nem previ)







..





mas,









mera-linha.
tola-frase(tentada)
passo-de: página(nada! de ti)
nem aqui:
ou ali.



ou:


ainda.este:
pecado-presente
e desdito e editado
é teu(este) conselho:



não.
(nem resposta)
não.
nem.refém..
(ou ali/ou além.)




























Poema de Azke

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Lançamento do Livro "Nuvens" do Poeta Arnoldo Pimentel


      Uma vida é feita de muitos instantes. Em uma visão superficial tais instantes podem parecer corriqueiros, insignificantes e ou  ordinários. Todavia, olhares atentos os re-significam  e lidam com eles dispensando atenção merecida.
Em Nuvens, Arnoldo Pimentel nos convida a apreciação das belas  imagens de instantes simples.  Ele se torna o anfitrião que nos leva da escolha da camisa ao passeio no Leblon.
Aquele que se atenta à beleza da simplicidade, nos leva a questionar sobre a importância dos instantes, sobre o que o efêmero representa em nossa existência. O poeta nos aconselha que apesar da fugacidade do instante, ele é o que torna o que somos, o que vemos e apreciamos. Não atentar-se a isso é evaporar-se na areia, é desejar partir da vida só para não sentir dor.

 Rosilene Jorge dos Ramos

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Quarenta motivos para te amar

O dia amanheceu frio e chuvoso, apesar de plena a primavera. Tomei o meu carro, segui
pela estrada sinuosa, através da paisagem bucólica, o verde vivo a eclipsar a cor cinza do céu, cercavam-me os montes aqui e acolá, com a estrada a desvencilhar-se deles, em vã tentativa.

Um caminhão lento a minha frente carregava folhas secas como se estas fossem barras
de ouro, leves como penas, a circunscreverem fluidos remoinhos no ar, espalhavam a bondade dessa riqueza aos mais pobres – provavelmente ele chegaria vazio ao seu destino. Imaginava que não houvesse nada tão triste quanto à faixa dupla, contínua, amarela: não ultrapasse!

Foi quando me apercebi de uma árvore a captar, inerte, a lúgubre paisagem. Encerrada
ao silêncio de seu tronco, acenando lenços vivos de folhas verdes, intensas, sabe-se lá por que, através dos seus múltiplos ramos, quantos são os braços de Vishnu. E aquilo me deu um aperto no peito, que é como deve se sentir o velho poeta, sem inspiração já há quase um mês.

Quando isso acontece, é comum achar que o mundo se parece mesmo com o branco e o
preto dos jornais, numa sucessão das mesmas coisas, que as pessoas não vão mudar, que a poesia não tem sentido, que ninguém quer saber da luz dos vagalumes, ou do rastro de uma estrela cadente. Acredito: estão todos enganados. Posso provar isso enquanto sopro o dente-de-leão. Mas a minha certeza é efêmera, num segundo, ela desvanece.

Então me dei conta de que hoje é segunda-feira, que estou indo para o trabalho. Só pode ser isso, como naquela seqüência de caricaturas de um carinha com os dias da semana anotados embaixo; porque entendi que ela vai melhorando, à medida que os dias passam. E eu não posso ficar parado.

Há tanta coisa por fazer, para te dizer, dessas coisas urgentes, como uma nuvem, samba num boteco em dia de chuva ou quanto aos poderes afrodisíacos dos bigodes de um gato. Hoje percebi que precisarei ficar até mais tarde, que precisarei fazer serão do fim de semana. Dou um cavalo de pau na pista, a poeira sobe, os motoristas se assustam, metem a mão na buzina. Acho que quase os despertei.

Agora me lembro da noite de ontem: enquanto eu e você estávamos acordados, todos os
outros dormiam.

estrada sinuosa
o coração
aquele verde insuportável
a cor amarela
a cor vermelha
montes aqui e acolá
barras de ouro leves como penas
remoinhos no ar
diamantes comestíveis
a bondade
pernas longas de um grilo
a riqueza
as guelras de um peixe
a inspiração
cartas de baralho
o destino
lenços vivos
folhas imensas
bolinhas de sabão
um poema sem sentido
vagalumes indicando o caminho
tronco de uma árvore
o longo rastro da estrela cadente
nuvem
uma certeza efêmera
dente-de-leão
os bigodes de um gato
a eterna dúvida
samba num boteco em dia de chuva
esticar o fim de semana
cavalo de pau na pista
muita poeira
e mão na buzina
o mar
o sol
uma paisagem bucólica
rede de descansar
um barco distante
vaga lembrança
o movimento dos braços de Vishnu

www.jorgexerxes.wordpress.com


Conto de Jorge Xerxes

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Pode marcar a hora e o lugar

venha bem vestida
na melhor roupa
como se fosse o último bolero
rasgando dentro de mim

beije-me demoradamente
me olhe do jeito que sempre sonhei

numa palavra rude
rasgue-se em pulsos suicidas
em plena Colômbia junto aos guerrilheiros

só não venha no meio de um banho no chafariz
muito menos na melhor noitada
sem futuro que ainda viverei
também não seja besta igual uma queda de chuveiro!

morte acho que vou te matar!
você que mata tudo...
vais morrer em decepção
...já ando morrendo há tanto tempo
(que posso respirar em seu pescoço)
-E te aviso:
a conta não fecha nunca!

(em mel e enxame)

Poema de Vânia Lopez

domingo, 30 de outubro de 2011

A gente se acostuma...

TODO HOMEM É UM EDIFÍCIO

Mito

nada no silêncio
enquanto
tateio
teu rosto marmóreo
— brevíssimo
pequeníssimo
homem
uma sombria
espera
e
porquanto tudo é sonho e
carícias
máquinas além nos espreitam
irmãs
serenas nuvens
viçosas
são teus lábios conjuntos
e
minhas gotas
de pérola
logo atrás
em meio às quais
por intermédio do silêncio
a espera
torna-se
muito.

Órgão

a ferrugem no oxidável
sua gangrena
único meio de amputação

ferro umbilical

da umidade da neblina
a viga escura adoece
escorre no vão, nela, salobras,
ácido puro,
nuvens e nuvens de oxigênio

o desgaste, assim, do todo a nada se compara
elegante ruína

quando enverga sem gravidade
enlaça, sem ruído, a Morte.


Tempo Ausentado

(...)

pouco falta
a prolongar-se
no eixo
a vizinhança das coisas.


Poemas de Sodine Üe

sábado, 29 de outubro de 2011

A carroça de leite

De madrugada eu escutava quase dormindo
O barulho da carroça do "Cabo Quinze"
"Matraqueando" nos "pés-de-moleque" da calçada
Até parar na porta de casa

As garrafas de leite batiam umas nas outras
Deixava o litro no alpendre de casa
Lá com certeza, já estava o pão...
Meu pai, conversava baixinho, eu ouvia

Esperava o jornal que era jogado lá da rua
O barulho agora era o jornal que batia na porta
Meu pai mais que depressa levantava
Queria saber das notícias do dia

Viro na cama
Puxo as cobertas
Ainda bem que hoje é sábado
Durmo novamente!

Poema de Victorvapf

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

The Pirate's Hat: The Giant Man And His Worst Poem

Here I'm, lost, in a city full of lights
learning by the hardest way
to ignore all the sights.

Where were you when they turned off the lights?
When I dreamed alone
things that are already faded and gone?

I'm the worst memory from myself
and, strangely, it is what makes me keep on,
'cause even when I can't rest
there, in my mind, something to hold on.

And what all it means?
Well, I don't care..., thats what I like over it
an open door, and the most beautiful desire of ignoring the exit
for a man that learned that there's no future or past in the dreams.

Poem by Elvys Brito

Tradução:

O Chapéu do Pirata: O Homem Imenso e Seu Pior Poema

Aqui estou eu, perdido, numa cidade repleta de luzes
aprendendo, penosamente,
a ignorar tantas paisagens.

Onde você estava quando as luzes se apagaram?
Quando eu, sozinho, sonhava
coisas há muito mortas e sem brilho?

Sou minha pior lembrança
e, estranhamente, isto é o que me fortalece,
pois, malgrado não consiga descansar,
lá, em minha mente, algo persiste.

Qual o sentido disso tudo?
Ora, não me importo..., este é o meu modo
uma porta aberta, e o mais belo desejo de ignorar a saída
para um homem que aprendeu que não há futuro ou passado nos sonhos.

Poema de Elvys Brito

As irmãs Fox

As pessoas chegavam e sentavam-se ao redor da velha e robusta mesa, de madeira

escura, coberta por uma toalha muito puída, livros religiosos e muitas folhas de

papel em branco, lápis apontados, um tinteiro, duas penas. Mr. Duesler contou os

presentes, fechou a porta, lacrou-a com cera, depois de olhar fixamente para

Margaret e receber o discreto assentimento daquela cabeça jovem e tumultuada. Pensou

por trás do antiquado cavalheirismo, que aquilo tudo,poderia ser uma farsa grotesca,

às custas um trabalho desgraçado, com excelentes dividendos para a fé. Por Deus,

uma vez em ação, aquela frágil criatura suava por todos os poros, rangia a bela

dentadura; num esgar demoníaco e assustador, cruzava os braços, estalando os ossos,

franzia o cenho à maneira dos endemoniados, órbitas brancas por olhos revirados,

tal as estátuas da antiguidade. Nesta noite, acompanhava Mr. Duesler, um homem alto,

magro, jovem, de feições finas, queixo resoluto, modos muito reservados, num olhar

seguro e inquieto, musculoso apesar de magro – indicava-o o relevo de suas

coxas, sob a calça de tweed, enquanto sentava, pensativo com o seu chá, em singular

e cabisbaixa vaidade. Contemplava a mão direita, ostentando um pequeno anel de pedra

vermelha e saliente, no dedo médio, distraidamente girado pelo polegar; uma boca de

lábios finos, emoldurada por um ruivo cavanhaque, envelhecendo-o uns bons dez anos.

Observava agora Kate e Margaret, mas em erudita e curiosa atenção, digamos assim,

quem estuda uma dupla de raros espécimes de borboleta, bem fixados por alfinetes e

sob uma potente lupa. Tudo sob o controle da gaia ciência, pensaria aquele jovem

cético,tão britânico em sua frieza, devolvendo a xícara vazia ao aparador próximo de

sua cadeira. Levantou-se ao aceno de Mr. Duesler.

- Irmãos, apresento-vos o Dr. William Crookes, da Sociedade de Investigações

Psíquicas de Londres, estudioso de fenômenos metafísicos, convidado para observar in

loco o trabalho das irmãs Fox, anunciou a voz empostada de um vaidoso Mr. Duesler.

Apresentou-o primeiramente a Katie, entre sorrisos tímidos, até constrangidos de

ambas as partes. Margaret mantinha-se calada; como de costume, abandonaria o

mutismo, após todos se acomodarem ao redor da velha mesa de carvalho, com uma

vela posta no pesado castiçal, que logo seria acesa, com o desligar da iluminação a

gás,no início dos trabalhos.Katie observava aquele moço velho,sentindo-se assustada,

imaginando a distância percorrida pelo cientista; mais um daqueles movidos pela

fama das irmãs, que faziam girar mesas pesadas e grandes, com auxílio dos espíritos,

ajudando a descobrir e prender o autor de um assassinato que abalara a pequena e

sonolenta Hydesville, alguns anos atrás. Imaginava quanta coisa teria visto um

homem com tanta ciência e liberdade de ir e vir onde quisesse, falar com quem

quisesse,talvez flertar com algumas garotas mais desinibidas,enquanto ela e a

irmã, tornavam-se um tipo de atração circense naquele fim de mundo,conquistando

uma notoriedade que não as impedia de seguir acordando pela madrugada, ordenhando

as vacas, tirando água do poço e ainda cuidando da casa e do pai severo, viúvo desde

os trinta anos, pela tuberculose que lhe tomara a esposa. Hydesville, apenas uma

parada no meio do nada, vizinha de New York apenas três centímetros medidos no

papel do mapa; na prática, um mero intervalo empoeirado entre o nada e coisa nenhuma,

em 1847. Margaret fitava os sapatos londrinos do Dr. Crookes: novos, mas

arranhados, sujos, brigando com o restante de uma aparencia meio dândi para um

cientista, retratado pelos jornais, como uma espécie de caçador de fantasmas,

preciso e implacável com os fraudadores que desmistificara; àquela altura, uma

legião,sentados todos à mesa, as irmãs, Mrs Redfeld vizinha e propagandista de

primeira hora daqueles prodígios, Mr. Duesler, pastor e juiz de paz, sério e

ascético tal um mongeem seu trajar pietista, Dr. Crookes e Stephen

Smith, pai das moças e dono da casa, uma face onde a desconfiança e a mais

autêntica perplexidade alternavam-se em tragicômica sequência. Apagado o bico de

gás, a sala ficou um instante às escuras, até a luz da vela encorpar-se e

ganhar força. Seguiu- se a recitação das orações de costume, por Mr. Duesler;

ao final, um silêncio opressivo dominou a sala; quebrou-o a voz de Margaret,

solicitando dos presentes silêncio e pensamentos voltados para Deus, com um olhar

de soslaio e antipatia para o Dr. Crookes, lembrando do ceticismo que polvilhara

pó de arroz ao redor de todas as cadeiras e solicitara o lacre com a sua própria

cera, da porta da sala – suas condições para publicar um artigo sobre os

fenômenos , na prestigiosa revista da Sociedade de Investigações Psíquicas

de Londres; tirando do território do burlesco e da desconfiança, os

acontecimentos de Hydesville, convencendo o mundo da natureza espiritual e

divina que regia tudo aquilo; uma tese defendida há meses, por Mr. Duesler, de

dedo em riste e face em congesta convicção, durante o culto dominical.

Margaret solicitou que todos se dessem as mãos, para concentrar a energia do

ambiente; seu rosto contraiu-se num espasmo medonho enquanto um frêmito percorria a

mesa em toda sua circunferência,surpreendendo os presentes, que sentiam o móvel

sendo empurrado contra os seus braços, elevando-se do piso. Um forte cheiro de

ozônio saturou rapidamente a sala. Mr. Crookes sentiu todos os seus nervos tensos, a

serviço dos sentidos. Conseguia manter a tranqüilidade, olhando ao redor, mas a semi-

escuridão parecia espessar-se a cada olhar seu. A pesada mesa agora oscilava. Depois

de alguns minutos, retornou lentamente ao solo, o cheiro de ozônio começou a ficar

mais rarefeito. A cabeça de Katie, começou a liberar pelos ouvidos e pela

boca, uma substância vaporosa e luminosa, que parecia expandir-se na progressão

do transe silencioso e trêmulo. À luz mortiça da vela, a substância começou a

condensar-se em duas formas humanas, um homem e uma mulher, rostos indefinidos,

abraçados e nus, em meio a um magnífico e luminoso jardim. A mulher ofereceu uma

maçã ao homem fosforescente, que recebeu a fruta, enquanto uma serpente saía do seu

flanco esquerdo, picando-a furtivamente no pescoço; os rostos indefinidos

eram agora os de Katie e do Dr.Crookes. Exclamações de terror e surpresa

tiveram início, as pessoas ora rezavam aos gritos, ora gemiam de puro medo, voltadas

para uma Katie agora imóvel e de feições serenas. Dr. Crookes, reconheceu a cena de

um antigo livro religioso; estupefato, pulou da cadeira e acendeu o bico de gás; a

substância refluiu imediatamente para o corpo da médium. O cientista aproximou-se de

Kate, a tempo de constatar a sua morte e verificar-lhe o pescoço, perfurado por

dois orifícios diminutos e paralelos,talvez o preço por conhecer o Paraíso.




Conto de André Albuquerque




OBS: Ficção sobre pessoas reais e fenômenos paranormais, observados em 1847 ,

em Amytiville, nos EUA .Os acontecimentos narrados, são produto da imaginação

do autor , exclusivamente .

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O céu, o ar, o amor, o amar

céu
cu é
é cu
ué

o ar
ora
agora

garoa
chora
aurora

no mar
namora
o ar

ramo
amor
mora
em roma

embora
mera
maré

eram
mear
arme
o mar
o céu

ao léo
óleo
olé
elo
melo
elmo

moar
moer
amar
morrer

roer
o réu
no erro
no céu

eu
caô
oca
coa
o céu
da boca

Poema de Isaac Bugarim

"a referência"

ainda.

referência. e iniquidade
o teu: passo-oblíquo
a tua única(carta)
paragem
(inverdade)
exemplo.
e,


ainda.

meticulosa (in)versão
anagrama de mente
de pele
de repente e ao tempo que te denuncia
eu,


ainda(te sou).










..




qual dispêndio

arma-enviesada
turno e noite
posto-desigual
lado-água
parte: carne.
e
hábito.de te crer
espécie:
tua.
nua.
única.
e,


ainda.

facial
curva-absoluta
multiforme ensejo
pré-vício
pretérito(fixo)
e,


ainda(nome-teu.)

ah,
alicerce..

rege à calha que me contamina
teu lépido erro de me instigar
o teu crime.(acima.. é) absorto de vivência
é facto, e: acto ausente
e

ainda(de ti,)
o sempre.


e a:
referência.









Poema de Azke

Dois em um...



Quem dera todos os dias
Esse olhar, essa alegria.
A vida deu voltas
E numa dessas, trouxe-me você. 


Sinto que você, da minha vida,
Não passará assim sem nada deixar.
Tudo é especial e inebriante
Quando na rua caminho contigo. 

Mãos rústicas que quando tocam em mim
Se convertem, ficam leves.
Sinto o mundo vazio,
Ouço o vento declamar poesias de amor.

Sinto meu coração cheio,
Transbordando emoção.
As sensações são mágicas,
Singelas e pequeninas. 

Quando de repente acordo,
Me vejo sem eira nem beira,
Com meus pés com poeira
E só, sozinha pelas ruas, chorosa. 

Meu caminho é distante do seu,
Mas nossos corações
Caminham em sintonia
Numa só melodia. 

Sinto você em mim,
Mesmo partindo.
Sinto você tocando em mim,
Mesmo estando numa multidão. 

Esse castelo cheio de dragões
Que você criou na sua mente
Para mim são inexistentes,
Apenas um medo profundo de errar. 

Mais somos iguais.
Você não acha,
Se engana o tempo todo
Dizendo isso, aquilo. 

Mais somos um.
Por ironia?
- Creio que por poesia
Poesia torta por aparência
Certa por uma questão de alma.


(( Camila Senna )))

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Soneto a Judas

Amar o próprio Judas não é coisa
A quem não renuncia altar vetusto,
A tantas crenças vãs que a muito custo
Turvam o pensamento, frágil loisa.

Amá-Lo contra todos os discursos
É ter a mente sã do criminoso
É sentir afinal o imenso gozo
De trair o que trai nossos excursos;

Ter na boca malditos padre-nossos:
“Ó Senhor, vinde Vós a nosso Reino
Reduzir as doutrinas a destroços;

Revelai as agruras do desejo,
Todo o mal desta vida na qual treino
Beijar os meus irmãos com vosso beijo.”

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Putaria Puritana

Heterossexual
Homossexual
Pansexual
Tarado por animal
Ou por vegetal

Normal anormal
Amoral hormonal

Pedófilo
Necrófilo
Sádico
Masoquista
Sadomasoquista

Voyeur
Assexuado
Depauperado
Remédio azul
Paudurecência de Itu

Sexo sem amor
É sexo seguro

Calcinha comestível
Camisinha musical
A viúva negra
E o reles mortal
Gozo fatal

Entre quatro paredes
De quatro 24 69
Troca de casal
Garganta profunda
Tamanho do pau

Entre quatro paredes
Vale tudo
Mordedor e luva
De boxe pra cada
FIGHT

Primeiro round
Levado a nocaute
Já pro chuveiro
Volta pro treino
O amor na mão
Asas à imaginação

Padre emprenha freira
Nasce coroinha
Cemitério clandestino
A noviça e o menino
O sexo dos anjos
Putas e santos

Poema de Andri Carvão

domingo, 23 de outubro de 2011

Fôrma

As palavras resumem meu sentir,
meu pensar,
por conveniência do manequim.
A poesia é isso,
uma roupa de gala. Apertadíssima.

Poema de Milton Filho

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Gavetas purificadas

Hoje acordei justiceiro
com fome de arrumar as gavetas
que vivem sempre abarrotadas
de coisas sem valia, sem perdão
cujo prazo de validade ficou para trás,
sendo assim condenadas
ao cesto implacável da cremação,

são fotos sem enquadramento
sem pé nem cabeça,
são porcas e parafusos enferrujados
que habitam, há anos, em um tupperware lacrado,
são contas e mais contas pagas e amareladas
cansadas de esperar pela audiência
de um único credor desconfiado,
são receituários antigos de médicos tão velhos
que já não curam a urticária, quanto mais a ansiedade,
são receitas de bacalhau que nunca viram a luz do sol
muito menos o fio de azeite dançando
sobre suas postas imaginárias,
são baterias semi descarregadas
atracadas com aparelhos de celulares pré-históricos
com rabichos e rabichos de carregadores
que por não se encaixarem aos demais equipamentos
tornaram-se casmurros e solitários,
são calças e blusas magras de marré de si
que só fazem lembrar de um passado Zero Cal
longe das bombásticas tentações achocolatadas,
são emoções baratas que já não surtem efeito
neste velho coração bandoleiro
cansado de películas antigas em VHS,
são superstições tão bobas, de um garoto suburbano
que não fazem frente
ao menor dos sintomas de um TOC,
são roupas vermelhas e brancas
de uma era em que se acreditava em Papai Noel
e em políticos politicamente corretos
que não tripudiavam sobre caseiros ingênuos,
ou secretárias sagradas,
nem roubavam merendas escolares;
são esperanças envelhecidas e malsãs
de um dia ganhar o mundo à revelia
fincando uma bandeira em cada canto do planeta

e tem também a gaveta dos projetos esquecidos
dos anseios desnecessários
das canções abandonadas e sem festivais
e, sobretudo, o último compartimento em desalinho
aquele dos amores acontecidos
do qual, sem antes titubear,
rasguei uma foto de Maria
cujo verso mentia em letras garrafais:
te amarei por toda a minha vida...

Poema de Betusko

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Domingo no Centro

Pelas ruas desertas da cidade
Na tarde ensolarada de domingo
As pedras mudas do calçamento
Estão incrustadas de tédio.

Nas opulentas escadarias
Da igreja matriz
Dorme um bêbado:
Por seu corpo ainda jovem
Passa um tremor intermitente.

É triste, sob o sol,
Em meio à beleza do dia,
Ter pensamentos sombrios.

Enquanto caminho, ninguém vê,
Mas à minha volta esvoaça
Invisível horda
De fantasmas do passado.

Poema de Jean Soter

de poeta pra poeta

poeta,
tira o teu da reta
que não vale a pena,
engaveta
o teu poema.

poeta,
segue teu rumo,
que o poema
não tem consumo.

em resumo,
solta esta caneta,
quebra este teclado.
tudo que está na gaveta,
ao teu lado,
tu queima.

faz o que te digo,
não teima.

deixa de ser besta,
tira da tua testa
este rótulo
de poesia.

ninguém quer o teu soluço,
o teu percusso
a ninguém interessa.

peça as contas,
faça a trouxa,
vá embora.

engole o choro,
engole o pranto sonoro
que ninguém ouve.

mas se poeta quiser ser,
guarda silêncio.
o teu silêncio
é o melhor poema

Poema de Isaac Bugarim

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Confusos sentidos, fiel sentimento...

Muita vez, enquanto sentinelas, desejamos que quebre a nossa vigilância, o sono; assim, presos pelas suas escuras vendas, podemos encontrar liberdade nos sonhos; com efeito, neste momento, livres dos grilhões da vigília, raramente, dormindo estamos, ou antes, enquanto estamos sonhando, raramente, nos vemos em sonhos, dormindo.
Esta confusa ilação, creio que fora concebida em longa vigília, que me torturou durante os meus cinco dias em que passei “as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro”*. Assim, “do pouco dormir e do muito ficar acordado” *, fui mesmo ficando confuso, de tal forma, que quando consegui dormir, me vi em sonhos dormindo, ainda assim, não perdendo a esperança de tudo ver às claras; se é que, possível é, em sonhos assim ver! O certo é que quando me despertei, quis entender que cada uma das minhas vigílias futuras, nada mais seria que um período de tempo que se bem tolerado, ainda que longo fosse, ensejaria a minha oportunidade de contrair o direito de receber em recompensa pela espera, ainda que curta fosse, novas ilações pertinentes ao mundo dos acordados.
Em vigília ou não, quando surge confusão, ainda que pequena, arrasta consigo, outras, e por vez, grandes; assim acordado em sonho, enquanto dormia, ou talvez, acordado esperando o sono, concebi estes versos:

Pode ludibriar nossos sentidos uma suave essência?
Sim! Pois ao ouvir o perfume da tua voz, não me contive,
Ou confuso fiquei por momentânea perda de consciência.

Se confuso estava, poderia sentir o doce gosto de tua pele, se pudesse te tocar!
Não! Confuso não estava! Pois, sei que dos sonhos, tu não vens!
Mas, se queres dominar o meu sono, o que devo fazer, em vigília, contigo, para ti dominar?

Assim tenho vivido, ou antes, quando acordado não estou, assim tenho dormido.
Resta-me para sair deste desarranjo mental, consultar meu coração.
Mas, só posso fazê-lo, ou antes, só poderia fazê-lo, se ele não estivesse deprimido!

Inertes, desanimadas, indiferentes, são as vítimas da depressão!
Assim não estou, logo, hei de me ver reagindo.
Sinto que meus sentidos, ainda que desorientados, não fazem calar meu coração.

E ele, tão forte pulsando, adormecido não pode estar.
Pois, que valha por regra!
Um coração que não se rende ao sono, motivos tem para querer nos despertar...

Pois que assim seja, estou de olhos bem abertos, para senti-lo no meu peito, falar.
Que fale, pois, para ouvi-lo com atenção, atentos estão meus ouvidos.
Mas, se possível for, que fale antes, o coração da minha amada, pois, em seu peito, dúvida nenhuma vou encontrar.

* - Da pena do meu queridíssimo Cervantes, saíram estas referências ao meu amantíssimo “Cavaleiro da Triste Figura”.

Crônica de Elias Barbet

Sorriso Russo




não olhe para mim
com essa cara de moscou
esses olhos orloff
seu sorriso russo
sem mais montes urais
partindo-me em dois
causando o cáucaso
não invoque vladivostok
nem me toque
ingrato, ingrato
leningrado
isso não vai ficar assim
ainda saio da miséria
te largo na sibéria

Lucas Viriato

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

"mar.(minha) revelia"

"mar. (o que) sou"









um,





trepido recife
cume(se for..)
insólito-ponto
alheio, e. refreado frio
indecente e in.salvo
ao dedo que te conta o início
ao tempo. que te sonha(afinal)
termo(obsessivo)
e
nada-mais
(até..)






é. a lua que não te quis um terço?
ou



é você que não te deixa ir..?













..





ah, mar..



alicia-te.
da parte e da mácula por um só erro quando(lhe) vier..
eu,









termino.
e
desencadeio trovas à quase-peça que te preparei
incendeio o meu acto de águas e vésperas
e





apenas. porque não te re-conheço..






(cá.)
farto-me de te exercer.

























Poema de Azke

domingo, 16 de outubro de 2011

Suco de montanha

Pegue cento e cinquenta metros de montanha...
De preferência que seja de Minas
Triture o ferro até virar pó
Coloque tudo, diariamente em 70 vagões

Leve ao porto de Vitória
Entregue no Japão
Derreta tudo, separando o ouro, subproduto
Construa bastantes carros

Mande-os para o Brasil
De preferência para

Minas...

Poema de Victorvapf

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Planta de Maceió

O vento do mar rói as casas e os homens.
Do nascimento à morte, os que moram aqui
andam sempre cobertos por leve mortalha
de mormaço e salsugem. Os dentes do mar
mordem, dia e noite, os que não procuram
esconder-se no ventre dos navios
e se deixam sugar por um sol de areia.
Penetrada nas pedras, a maresia
cresta o pêlo dos ratos perdulários
que, nos esgotos, ouvem o vômito escuro
do oceano esvaído em bolsões de mangue
e sonham os celeiros dos porões dos cargueiros.
Foi aqui que nasci, onde a luz do farol
cega a noite dos homens e desbota as corujas.
A ventania lambe as dragas podres,
entra pelas persianas das casas sufocadas
e escalavra as dunas mortuárias
onde os beiços dos mortos bebem o mar.
Mesmo os que se amam nesta terra de ódios
são sempre separados pela brisa
que semeia a insônia nas lacraias
e adultera a fretagem dos navios.
Este é o meu lugar, entranhado em meu sangue
como a lama no fundo da noite lacustre.
E por mais que me afaste, estarei sempre aqui
e serei este vento e a luz do farol,
e minha morte vive na cioba encurralada.

Poema de Lêdo Ivo

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Eu hoje acordei com o pé esquerdo

Hoje, acordei com o pé esquerdo

Hoje, acordei com o pé esquerdo, sendo mais explicito, digo que me despertei com o meu pé esquerdo; Quanto ao direito, ignorando-o, ou não podendo dele me livrar - o que é mais provável - despertei-me também, com o meu pé direito.
Antes de continuarmos com este assunto que tem pé e cabeça, faço-lhe um pedido, ou, até recomendo-lhe com insistência, que me atenda e olhe debaixo do seu pé esquerdo; veja a sua face plantar dele; ainda que a curiosidade queira torcer-lhe o tornozelo direito, para também, deste lado, olhar debaixo do seu homólogo - o do pé esquerdo - afirmo e peço-lhe que tenha certeza maior: Não há necessidade de procurar o que não há, pois, ressalvando alguma pequenina e insignificante diferença anatômica que entre eles possa existir, tudo diferente que um apresenta em relação ao outro, não passa de suas posições “trans” essenciais para ambos.
Agora, levemos a sério este assunto e analisemos um grande e impiedoso paradoxo:
Nós os destros, temos em mente que nosso pé direito é o mais forte. Sendo assim, ele - o todo poderoso e senhor de si - é sempre aquele que dá o primeiro passo, e o faz com firmeza, com maior segurança, com muito equilíbrio, enfim, com grande determinação. Eis abaixo, uma proposição falsa! Ainda assim, há de gerar outra que verdadeira será. Senão, vejamos:
Quase sempre o nosso pé esquerdo não podendo evitar, pois nenhuma prerrogativa tem, uma vez que é o mais fraco, vai seguindo o seu irmão direito passo a passo, ainda que este tropece. Mas, se já no primeiro passo, antes de uma caminhada, consentirmos que pelo nosso pé esquerdo, a iniciativa seja tomada, forçosamente, teremos que fazê-lo com mais cautela; haveremos de avaliar com mais atenção o terreno; analisaremos os nossos movimentos, ainda antes de executá-los; julgaremos a nossa postura corporal, com mais critério; deixaremos livres nossas mãos, e, sobretudo, haveremos de julgar serenamente, a conveniência da jornada empreendida; finalmente, sem nenhuma outra escolha, haveremos de contar com o apoio do nosso pé direito...
Note bem! Tão somente este nosso pé esquerdo e apenas ele, nos oferece esta prévia reflexão antes do primeiro passo; atendendo-o, algumas vezes, mudaremos o curso do nosso trajeto, antes que o nosso pé direito desastrosamente possa trilhar o caminho errado...
Que seja dada ao nosso pé esquerdo, a chance de iniciar uma caminhada, dando o primeiro passo; pois, ele mais que o direito, mais direito pode executá-lo...

Crônica de Elias Barbet

Camaleoa...




Enigmática às vezes
Divertida quando no fundo estou triste...
Séria e zen quando as coisas fluem bem.
Mais o meu natural mesmo é não ser normal. 

Meus pés criam asas do nada...
Tenho asas invisíveis que só eu sei.
Só eu sei o tamanho,
Só eu sei o preço que eu pago, só eu sei. 

Essa cocaína que naturalmente exalo
É de mim, mora nas entranhas
Das estranhezas de minha alma.
Alma sincera, quando maliciosa, camaleoa. 

Minha cor não tem cor definida
Todas as mulheres moram em mim.
Às vezes inflama e bum, explode!
Sou paixão, terreno perigoso,
Contramão para os indecisos e logo aviso!...
Não ouse entrar sem total asserção. 

Figo viçoso
Flor de espinho
Vinho sozinho
Carinho sem ninho
Destino sem direção.

Não tenho certeza de muitas certezas...
Quimera, sorriso, fada
Atmosfera sem muito sentido,
Primavera fora de época,
Triste sem preconceito de ser...
Idealista sem inquisição,
Nômade com endereço certo.

Espelho, espelho meu...
Quem de verdade, sou eu?
Uma fulana,
Uma sicrana
Ou uma beltrana. 

No fundo, no fundo,
Quero morrer sem saber
Vai perder a graça,
A graça dos meus traços...
Eles escorrem e saem sem medo por aí,
Sem lei, invisível, indomável.

Girando, cantando, sorrindo...
Chorando, chorando, chorando,
Esperando, desejando, possuindo...
Em chamas!
Liberta sem trama, sem máscara.
Só com um sorriso largo, seja feliz ou triste
Meu verdadeiro estado.


(( Camila Senna ))


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O mar escutava-me...

Juntos, tu e eu Caminhávamos.
Se estavas grávida, muito de novo, estarias, pois só hoje, deste à luz do sol, novas de tua prenhez.
Por linda e deserta praia, andávamos.
Tu e eu? Talvez! Tu, nosso filho e eu! Talvez!

Por livres e seguros, roupa, poderíamos nenhuma usar.
Agora, dois seres carregavas.
Poderiam meus olhos tuas pernas incomodar?
Não! Pois, se possível fosse, sonhando caminhavas.

O mar escutava-me! Só ao teu ventre, atenção davas!
A ti, em silêncio, pedia perdão, por quase tudo que fiz.
Só o mar ouvia-me! Apenas o mar, escutavas!
O mar dizia-me: Perdoado está, seja agora, feliz!

Sem receio algum, aqueles que com amor, deleitam a tenra vida, seguiam à frente.
Deveriam Alimentar meu desejo os seios da minha amada?
Responderam-me os grãos de areia: Amanhã talvez! Que espere o hedonista amante!
Alertava-me o mar: Deixe que caminhe em paz, por um novo ser, uma mulher apaixonada!

O azul dos teus olhos desbotava o anil dos céus.
Por mais lindos que fossem, antes, detinham-me teus lábios lindos.
Poderiam os meus lábios alcançar os teus?
Neste momento, assustou-me o mar dizendo com seus bramidos.

- Macho irracional! Não é filho de mulher? Já lhe disse, deixe-a em paz, não a toque!
- Espere! Continuou ele, pois a mãe da vida, para nova vida, livre quer ficar!
- Que em seu ventre, um novo ser, sossegado fique!
Se a mim, falava o senhor de todas as águas, dúvidas tive ao escutar.

Não conhece os pensamentos do homem, o mar!
Destas águas, nada ouvi; minha própria consciência falara-me, por preceito infundado.
Quero possuir esta mulher; antes e depois daqui, não há melhor lugar!
- O seu desejo, agora, não há de ser, e o que não deve ser, das minhas praias, será removido.

Assustei-me! Esta voz, só de um colosso viria.
Baixei os olhos, olhei para os pés da minha amada.
Seus seios avante seguiam; dos lindos lábios da minha razão de ser, ouvindo uma melodia.
Caminhamos livres, dois amantes apaixonados por uma nova vida.


Poema de Elias Barbet

terça-feira, 11 de outubro de 2011

"não.."

e lá,
eles te esperam..

à curvatura da mobilidade equacionada por um lampejo-só
às pradarias incessantes de verve e de pele
e

lá,
eles te vêem..
(e-só.)




é simples assim,


por idéia de um conto breve
transgressivo ápice de novas-formas
e linhas.. e um fogo perdido por nunca querer esquecer(-se)
ou,



ao sonho mais que devolvido
ao preço que não pago por nem preferir, ou-olhar..






e lá,
eles te querem..


à terça parte de uma qualquer citação
à cena meticulosa e ao império-vasto de lúxurias
e

lá,
eles te fervem
(então..)




aos olhares curiosos de prévia e consumo
ao tempo profícuo de uma vitrine-véspera(sequer..)
ao resultado aparente
à

simetria. de uma manhã, talvez
mas,

embora me comprometam esses erros,










não.
eu sei que nenhum deles,

verdadeiramente,
te encontram.


nem um deles(nem à parte-próxima)
te são.

(te servem..)

Poema de Azke

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Auto-pista da praia

Ao meu lado, tão linda, a beleza flagrada em pleno sono; um corpo

entregue à própria lassidão, neste casulo de ar condicionado e

silêncio, a duzentos quilômetros por hora. A pista é agora uma reta

sem fim, os pneus produzem um som de água correndo,a paisagem

pouco mais que borrões verdes na minha retina. Pequenas cidades

e povoados surgem e desaparecem, no zapear da velocidade, são

figuras que vão se amontoando lá para trás, comprimidas pelo

vácuo em suas vidas tranqüilas e pacatas. A bela Inês repousa do

mundo bárbaro. O caderno sobre o colo, a caneta presa na espiral

e servindo de marcador , a regularidade dos traços rafaelitas, acima

do bem e do mal, aprisionados num clic de máquina fotográfica. Os

seios de talhe perfeito, maciços, estufando a camiseta no relevo de

mamilos divinos, ainda eriçados pelo frio. Uma deusa pós-moderna,

Pégaso no braço, tentando alcançar o sol de tinta e raios trêmulos.

Fantasia versus Realidade, dizia a mensagem no celular. Nem

lembro mais do escore, apenas abracei-a e beijei-a, um abraço de

náufrago, um ismael escapando do afogamento, agarrado ao

esquife do companheiro, mas tragado para sempre, para dentro

daqueles olhos castanhos e subitamente inexpressivos, límpidos.

A calma suprema de quem contempla uma implosão muito longe,

Anos-luz de rápido distanciamento emocional e compaixão zero,

impossível de fingir, pois fingir nunca foi o seu forte; durante

alguns anos, foi minha fortaleza o fingimento, aturar a mulher que

não me amava mais, um casamento natimorto sem descendentes

a celebrar meu grande vazio. A natureza abomina o vácuo – nem

lembro mais quem falou; surgiu Inês em minha vida, uma neo –

-realidade suburbana, a sensualidade safadinha, sexo na cabeça

e na alma; chutei o pau da barraca, fiquei sozinho do jeito que

nasci, segurei pelos longos cabelos, aquela oportunidade de provar

que ainda estava vivo e buliçoso. Nunca moramos juntos, assim

exigiu, assim existimos. Dois anos e uma crônica de amor louco

para sempre inédita, pois nunca escrevi nada a respeito do amor,

além da sala de aula, dos modernos cânones literários, o suficiente

para o vestibular de qualquer coisa que termine em contra cheque

regular e aposentadoria decrépita e vazia, melhor dizendo, até um

ex-namorado ressurgir do reino das sombras e cravar a estaca no

meu peito arfante de quarenta roliúdes por dia. Estrepitosamente,

ridiculamente, caí de quatro, tomando todas, cafungando, sempre a

chafurdar na própria merda. Não sei quanto tempo fiquei nesse

esgoto, até que resolvi metabolizar aquilo tudo, marcamos um

encontro na praça em frente do cursinho; deixou a estranha

mensagem no celular. Chegou linda,sorridente, beijou-me de leve,

um beijo de lápide funerária, que me virou pelo avesso. Um abraço

cem por cento angústia, dor de corno em estado de arte. Comemos

um sanduíche na lanchonete em frente, convidei-a para uma volta

de carro; aceitou constrangida, rodamos um pouco pelo centro;

do rádio, Stevie Wonder e Superstition não me deixavam espaço

pras abobrinhas, a mente funqueava à toa, gaguejava pensamentos

e fragmentos. Na verdade não tinha mais nada a dizer, muito menos

ouvir, percebi ao contemplar o seu perfil. Parei e pensei. Olhei-

a bem nos olhos grandes, acariciei seus cabelos e atirei entre os

seios; aquele rosto não merecia ser estragado. Ela simplesmente

virou a cabeça para a janela e mergulhou no sono profundo. Dei

partida, peguei a autopista do mar e segui em frente; há dois

dias viajo com a rainha morta, Inês, que seria de Castro se um rei

traído não fosse eu e fossem as pessoas nas ruas, obrigadas a

beijar-lhe as mãos, tão belas e frias, em muda admiração.


Conto de André Albuquerque.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Caçada dos Instantes



É um antigo sonho que se rematerializa
Em formas insanas e incoerentes
Uma tela que se repinta em cores diferentes
Nela dois sinistros pequenos círculos próximos
Me perseguem pelo quadro de imagem árida
Penso que são seus firmes olhos
Mas são os penetrantes olhos de uma águia
Ao despertar não consigo conter o motim que há no leito
Dos fragmentos que surgem no meu ócio
Como um fino som agudo no peito
Surgido aos poucos no fundo do silêncio
Os fragmentos são meus queridos amigos fantasmas
Testemunhas únicas do louco nascedouro de minhas palavras
Arautos de um cruel pôr-do-sol que invade
O crepúsculo evasivo e selvagem de antigas horas
Mas lembro que antigamente as tardes
Eram mais tranqüilas, quase mortas
Na caçada dos instantes
Reverberam inúteis certezes cínicas, incessantes
Vigiando tempos
Perscrutando previsões
Acossando momentos
Tocaiando as ocasiões
Tudo constantemente uma coisa na outra implica
Nada nasce do nada
E até o nada se recicla.

Marcio Rufino
Todos os direitos reservados.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A jangada

Não sabia que a jangada era assim
Tosca, rude, feita quase de troncos
Parece pesada, levada ao mar nos roletes
Entra na água, vai deslizando...

Tão leve que fica, que um ventinho
Um leve ventinho leva...
Lá vai a jangada que eu pensei fosse pesada
O jangadeiro equilibra parecendo dançar

Vento, jangada, jangadeiro e o mar

Dá vontade de pintar...

Poema de Victorvapf

Mar marrom...


Ando navegando na minha pupila...
Em volta só vejo mar...
Mar marrom.

Vejo tantos afogados...
Vejo os que foram salvos
Me vejo!

Me vejo com frio, com saudade...
Mais forte!
Na ilha da minha pupila.


 ((( Camila Senna )))

Eu tenho uma arma...



Eu tenho uma arma...
Toda vez que fico brava,
Disparo minha metralhadora de palavras...
Elas saem cortantes,
Elas saem sem rima,
Saem disparadas para todos os cantos:
Canto obscuro,
Canto claro,
Canto santo,
Canto barro.
Deixo-as seguirem sozinhas...
Para onde se deve seguir.
Elas sabem o caminho...
Logo depois elas voltam para mim!...
Libertas.

((( Camila Senna )))

Exercício N. 1

Lê meu riso
Pondera, pondera
Pondera essa fala tanta
Não adianta
Som de pressas

No meu silêncio
Espera
O verbo vir
Na primavera
Espera, espera

Deixa a palavra leve
Quieta, quieta
Quieta os gomos
Da tua língua
Cheia de dúvida e terra

Belém/PA, 05/10/2011

Marcel Franco

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Lembrete

A violência e a corrupção
só é possível porque
somos um bando de covardes
degenerados filhos-da-puta,
posando para si mesmo,
nus,
nesse hospício cheio de merda.
Eis o que somos, senhores.

Mas, sei que já desconfiam.
É só uma porra de lembrete
jogado ao vento!


Poema de Milton Filho

domingo, 2 de outubro de 2011

Cegueira

Com o que sonha um cego de nascença?
Ou não sonha ele, eivado de sentido?
Pode um esto gravoso que evola
ter sido por ele no sonho esculpido?

Podem um queixo, a maçã de um rosto,
serem no sonho tão bem desenhados?
Ou o cego não sabe, no sonho que tem,
incutir nas coisas os significados?

É a visão tão imprescindível?
É, de fato, preciso o olhar
pra que o mundo nos seja tão terrível?

Ou os olhos podem, sim, pintar
tudo o que nos for possível?
Preciso de olhos pra enxergar?


Soneto de Isaac Bugarim

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Epopéias vividas

O meu propósito é a minha nova alegria para eu, tu e vós.

Sua voz terna fogosa em versos e prosa já soa na mureta
com um bolor misterioso e atroz.

Ouvi um grito irritado com cheiro de betume fresco,
era eu livre com gesso.

Se soubésseis de que as imundices nascem e crescem.

Os meus versos não teriam ignomínia, qual será o ipê
amarelo das cercas? Qual será a planta ou erva tórpida
que vai nascer?

Não me preocupam os exércitos das epopéias vividas.

Hoje não há graça nas fábulas elegíacas, diabólicas,
gástricas e desmedida.

Quanto ao poeta estou nos versos nas vestes de tudo que
deve ser, pra muitos deve ser um despautério.

Não ao modo que pensam as outras pessoas, mas na minha
doce loucura sã e com meus mistérios.

Tem uns que a clemência foge e se justifica com a razão.

Mas eu não te esqueço, quase enlouqueço querendo seu
perdão.

Não deu história real feneceu antes de ter você, vou seguir
te esperando com um ensejo de não me matar vivo neste
desejo.






http://poetadefranca.blogspot.com/
O NOVO POETA. (W.Marques).

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Adolescentes na esquina - uma pequena crônica





Numa manhã de sol fui ao centro de Areia Branca, bairro do município de Belford Roxo onde moro, para comprar remédio. Cruzando a esquina da Rua Ribalta - onde fica um prédio que abriga uma padaria desativada - um grupo de cinco adolescentes trajando uniformes escolares ouviam num rádio em alto e bom som o hit Parado na Esquina do MC Robacena. O cenário denunciava o óbvio: os meninos estavam matando aula para curtirem o funk.

Entre eles havia um casal de namorados. A moça estava deitada com a cabeça encostada no colo do namorado (ou ficante) que estava sentado na calçada. Os outros três rapazes em pé riam com prazer, liberdade, descomprometimento. O menor deles dançava com uma debochada timidez - de quem tem o prazer em não mostrar tudo que é capaz de fazer. Uma coisa alí me seduzia; o descompromisso, a irreverência, o desafio e a beleza de jovens adolescentes em uma esquina celebrando a vida. O que importa se eu acho o funk uma porcaria? Se eu acho suas letras pobres? Se há pessoas que acham que elas e sua batida induzem adolescentes e crianças à violência, à pedofilia, à prostituição, ao crime e à promiscuidade sexual? O que importa se os adolescentes de hoje estão à mercê das drogas e da falta de limites? Tudo isso se apagava da minha mente. Até mesmo a crise na Educação; o conflito entre educadores e estudantes, entre pais e filhos.

Na fotografia da minha mente e do meu coração só ficava e fica até agora a cativante e envolvente imagem daqueles adolescentes parados na esquina, festejando o mundo na batida do funk; como anjos festejando o astral ao som de uma harpa.

Marcio Rufino

Créditos da imagem: Site Texto Online.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

O último verão

Contemplava a folha branca, disponível, convidativa tal a mulher amada a

repousar nua, no leito de amor. Olhava as matas ao redor da casa, recobrindo

as montanhas, o rio corria distante, um tímido sol ainda escondido entre as muitas

nuvens. Os olhos fixaram-se na própria imagem, refletida pelo vidro da janela do

estúdio: um velho barbudo, magro, de olhar patético e perdido entre as mesas e

estantes. Ladeando a máquina de escrever, a foto oficial de Kennedy, àquela hora o

maior desafio da sua vida, tentar encontrar e reunir palavras no nevoeiro de seu

cérebro, para saudá-lo em sua posse. Ninguém escreve uma obra-prima saudando um

político, ele sabia disso, a assessoria da Casa Branca foi até bem generosa, pedindo

“umas poucas palavras“; mas tinha seu nome, uma coisa gostosa ou pesadíssima para

carregar e um Nobel de Literatura com a medalha pendente da parede ali, na sua frente,

acima da estante menor , brilhando conforme o sol cambiante do verão no Idaho. Não

poderia ser qualquer coisa; não era um discurso de abertura do campeonato de golfe,

era algo a ser lido na posse daquele jovem presidente, figura promissora e carismática

que solicitara conhecê-lo pessoalmente. Mas as palavras vagavam pela névoa a

que se resumiam seus processos mentais, sentia-se um velho general da guerra civil de

espada em punho, com a tropa em debandada, apavorada pelo próprio medo.

Ultimamente, viver era um périplo entre psiquiatras, editores, advogados da terceira ex -

esposa e a fuga de si mesmo, pois percebia o fracasso no sabor do whisky e admitia

que um homem pudesse ser destruído, nunca derrotado. Acariciava o teclado da velha

Corona, mas o espírito vazio e embotado, enxergava ali o ringue da derrota, sem

ninguém para jogar a toalha. Trocava olhares com Boise, sorriu lembrando a ocasião na

qual o bichano ingerira um dos seus comprimidos de seconal e usufruiu alguns dias, um

sono bastante tranqüilo, apavorando a sua esposa; o veterinário mais próximo ficava

a quase uma hora de carro. Martha se fora e Boise era sua companhia, sentado sobre

a mesa de trabalho, com o verdor do seu olhar crítico, que tantas vezes levara Ernest

a cortar parágrafos inteiros. Sacou a garrafinha de prata cheia de whisky e sorveu um

gole rápido e sem sabor de nada. Scott Fitzgerald presenteara-a no lançamento de

O sol também se levanta, babando pra Ava Gardner, que fingia ignorá-lo solenemente.

A solidão da casa antes ideal para escrever, afundava-o diariamente alguns metros

na depressão asfixiante, sempre batendo com mais força nas manhãs, desrespeitando

até os verões mais radiosos de Ketchum. Doença escrota. Mergulhava diariamente

naquela espiral de angústia e estupor destrutivo, à prova de todos os medicamentos,

passava horas contemplando as antigas fotos de Paris, do seu tempo de geração perdida

quando todos pareciam acreditar vagamente em algo, Deus, Marx, Baudelaire

ou na xota de Marlene Dietrich, que diferença fazia na época? Paris, em sedutora

decadencia; podia-se esbarrar em James Joyce, Picasso ou Ezra Pound e eles ainda te

pediriam desculpas. Paris, esquina do mundo, meca espiritual dos escritores e do vasto

lumpesinato artístico. Sobre a mesa próxima da janela, a caixa com o enigmático

presente de sua mãe: a caixa contendo a arma com que seu pai se matara. Depois de

tantos anos, aquilo parecia o prenúncio do seu triunfo sobre a depressão, a saída honrosa

de quem não conseguia escrever vinte linhas saudando Kennedy e a esperança de uma

América menos fascista. Mas achou tudo um desfecho de muito mau gosto: pegou a

carabina comprada na África, enquanto escrevia As Neves do Kilimanjaro. Sopesou-a,

sentiu a frieza do metal contendo aquele grande potencial de destruição, abriu a gaveta

da mesa, alimentou a arma com dois cartuchos, caminhou ao léu pelas salas, viu-se

no espelho, segurando aquela máquina de matar: um cartucho derrubava um elefante

em plena fuga; sentou no alto da escadaria, engatilhou cuidadosamente a arma, teve

o cuidado de tirar os dois sapatos, apoiou a carabina no terceiro degrau, acomodou

o cano na boca, contra o palato e acionou o gatilho com o pé esquerdo. A explosão

reverberou pela Ketchum sonolenta. Moise escondeu-se assustado sob a escrivaninha,

enquanto os pássaros voavam em debandada, lá no Idaho.


*** Ao escritor Ernest Hemingway, no cinqüentenário de sua morte (2011).


Conto de André Albuquerque.