Manifesto do coletivo Pó de Poesia
O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.
Creia.
A poesia pode.
(Ivone Landim)
sábado, 19 de março de 2011
Caim e Abel
Que chego já.
Do que eu mais célere
Quem é no passo?
Somos todos irmãos!
Me espere um pouco;
Só eu que falto
Chegar no ponto,
Irmão do asfalto.
Somos todos irmãos!
Me espere um pouco
Que chego em riste.
Será que existe
Quem tem mais passo?
Somos todos irmãos!
Me espere um pouco,
Só eu que falto.
Será que existe
Alguém mais rápido,
(Somos todos irmãos!)
Menos incauto,
Singrando autos,
Irmão do passo
Com mais compasso?
Somos todos irmãos!
Me espere mais;
Passante sou
Também da pressa,
Quem vai depressa
(Somos todos irmãos!)
De lanche e pasta
Sem fé, desejo,
Minguado tejo
Correndo só
(Somos todos irmãos!)
Por nós, cabrestos
No passo lesto,
Pela cidade:
Palimpsesto.
Somos todos irmãos!
Me espere um pouco;
Passante sou
Também do medo
Do denso breu.
Somos todos irmãos!
Um pouco mais
Me espere, amigo.
Deveras corro
Tão só contigo,
(Somos todos irmãos!)
Nós dois, contíguos,
Passo após passo,
Irmão sem paço,
Sem mãe, regaço.
Somos todos irmãos!
Me esperem todos:
Moídos rostos,
Puídos, rotos,
De si cansados.
Somos todos irmãos!
Me esperem mais,
Vou já chegando,
Entanto vem,
Passo ante passo
(Somos todos irmãos?)
(Me esperam todos?)
Quiçá correndo,
Quiçá sem fôlego,
Mais um de pasta.
(Somos todos irmãos?)
(Me esperam todos?)
Tomar-me vai
Lugar – nem meu,
Nem teu: de breu!
Somos mesmo irmãos?
Assim que somos
Irmãos do acaso,
Do meu atraso,
Do lesto passo.
Somos todos irmãos!
Assim que somos
Caim e Abel,
Perdidos passos,
Irmãos sem pai.
Somos todos irmãos!
Espero todos
No breu do mundo,
Mas quem me chega?
Só vejo a sombra
(Somos todos irmãos?)
De um outro irmão,
Que só vagueia,
Expropriado,
Enigmático,
(Somos todos irmãos?)
Sem passo ou rumo,
Irmão do breu,
Sem um lugar
No nosso mundo.
Somos irmãos.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
SONETO A SUA BELEZA (Silviah Carvalho)
sexta-feira, 18 de março de 2011
O Japão Chora...
Por isso nada agora me alegra
O pesadelo que invade a terra
É cortante feito lâmina de serra
by Kazuo.Tokio.15.03.2011...
quinta-feira, 17 de março de 2011
Derramadas...
quarta-feira, 16 de março de 2011
Épico da alma nua
vivem para consumir os momentos
do que ainda não vivi...
sinto o cheiro de sangue
de cada segundo
estendido no tempo
verdes são as horas
longos ais das noites
criam calos dentro de mim
cada hora é parte do corpo
como um dedo
como um dente
o passado escuta a voz
das horas que tirou das almas
(como uma flauta triste sem assinatura)
horas não perdoam
(vivem entre o ponteiro e seu alvo)
sua sombra será sempre maior que o relógio.
Poema de Vânia Lopez
Tudo que transpira
Tudo que respira
Tudo que caminha corre
Ou rasteja
Tudo que se move quiçá imóvel
Tudo que expira
Me inspira
Objeto inanimado ou ser imaginário
Tudo que atinge
Acrescenta
Gênios
Mendigo filósofo
Poeta analfabeto
Cego clarividente
Visão Cinza
Lata rolando ladeira abaixo-assinado
Pró-asfalto contra paralelepípedos
Nevoeiro neblina cerração
Fumaça de ônibus
Fumaça de carro
Fumaça de fábrica
Fumaça de cigarro
Saindo dos olhos
Do yndio navajo
Pares de tênis e sapatos amarrados
Nos fios de alta-tensão dos postes disputados
Por pombas ratos voadores
E outros pássaros de verdade
Coça a nuca
Soca a cuca
Fecha a fuça
Sofá velho na calçada
E os olhos do gato preto
Rasgando as patas nos cacos de vidro
De garrafas verdes em cima do muro
Exorcizando Antigos Demônios
No show de rock
No templo evangélico
No estádio de futebol
No prédio da bolsa de valores
Na feira livre
Gritam
Berram
Esgoelam-se
Não é de admirar que se sintam
Livres
Leves
Soltos
Ninguém se entende porque todos têm razão
Eu sou um poema panfletário
virulento Maiakowhiskiano
rimbaudelaire pós-apocalíptico
tolstóievski de pés acorrentados em outros pés
acorrentados em outros pés acorrentados
em outros pés enfileirados indianamente ad infinitum
quebrando rochas e cabeças a picaretas
num gulag urbano eeeeeeeeeeeeeee
aaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhhhhhhhhh foda-se é isso
Ps. Não repare a bagunça
Autor: Andri Carvão
terça-feira, 15 de março de 2011
Convento...
BOSQUE
Para cantar a mulher da minha vida
Há que segui-las de adjetivos para que caminhem corretamente adornadas, do contrário seria pouco para falar daquela que me marcou como quem marca gado: a ferro e fogo. De início dói,mas agora permanece - sabor de eternidade - feito tatuagem que enfeita e veste, e dá o tom de quem a gente é. Palavras são poucas.
Há que usar das mais belas e quentes e frias e tácitas metáforas, assim como é próprio dos poetas que cantam suas amadas. Há que usar rimas, das pobres, das ricas e das medianas, sem discriminação de classe. Afinal, para cantar uma mulher faz-se preciso tanto as flores quanto os diamantes. Palavras, há que casá-las muito bem a fim de construir imagens, ofício da (boa) poesia. Que ao ler a mulher amada tenha um filme à sua frente, claro e sutil,
telas de grandes artistas animando-se a cada linha. Mas por mais que as palavras se façam solenes neste momento, há que tocar àquela que me emprestou seu seio e me entregou seu corpo. Tem de haver um beijo, um enlace.
E, por fim, há que dizer: “ainda que o tempo passe, ainda que sua pele perca o viço, ainda que o seu corpo feneça, ainda assim te amarei, cada vez mais”. Há que reproduzir o momento em que ela me viu pela primeira vez e, desamparado, ela me aninhou em seu colo e deixou rolar a primogênita das muitas lágrimas que ainda estavam por vir.
Texto de Fabiana Esteves.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Resgate
do ateliê abandonado,
junto pedaços da alma
destroços dos dias.
Em retalhos do tempo
onde a memória agoniza,
costuro de volta a vida.
Foram anos e eu não vi.
Mas o tempo está aqui,
colado nos pincéis secos,
na tinta fosca e esmaecida,
na poeira coberta de maresia.
Recolho serenamente
porções de mim mesma,
a alegria das cores,
o gosto de mar e de vento.
Poema de Elmira Nunes
O Velho e o Bar
Fêmea vive na butique
Bukowski busca uísque
Macho morre no boteco
Fêmea morre na butique
Velho Buk pratica esporte
Fuma por esporte
Bebe por esporte
Escreve por precisão
Jogo bebida mulher
Um vício circuloso
Sexo sem amor é sexo seguro
Por amor se gasta até o que não se tem
Negócios negócios bucetas à parte
A festa nunca começa pra quem sai de mãos vazias
O mundo mudou e domou todo mundo
Sexo drogas & jazz
Sexo drogas & rock ‘n roll
Sexo drogas & AIDS
Velho Buk
Viveu muito
Sobreviveu demais
Atravessou as décadas de 50 60 70 80 poetando
Mas o suficiente não é o bastante
Só foi se afogar na praia dos anos 90
Virou filme Mosca de Bar
Lenda viva
Continuou dormindo na lata de lixo do beco sem saída
Velho Buk
Uma espécie em extinção
Hemingway sem barba
Hemingway menos conservador
Hemingway que caçava mulheres e não tigres na África
Hemingway do turfe e não das touradas
Hemingway apolítico e apocalíptico e não de Guevara e Castro
Hemingway da batalha diária do homem comum e não da Guerra Civil Espanhola
Velho Buk
Não adiantou nada
Encher a lata
Virar o caneco
Tomar umas e outras até tomar todas
E engolir o gargalo
E vomitar no bem-vindo
E ter pesados pesadelos sobre ele
Velho Buk
Poeta etílico
Cadê o Grande Romance Americano
Que você prometeu? Algo no nível de “Suave é a Noite”
Do marido daquela louca?
Velho Buk
Mais lido do que Sade e Miller
Mas não tão respeitado em larga escalada ou maior degrau
Pelo meio intelectual
Velho Buk
No panteão literário do Macho Americano
Seguindo a tradição de Thoreau, Melville,
London, Hemingway, Miller, Mailer,
Conservadas as devidas proporções
Buk meu velho Buk
Imitada persona imortal
Adultos não sabem brincar a sério
Você passou dos limites
Já pra dentro
A geração perdida sim foi a verdadeira geração beat
Já a geração x não se achou
Presa nas teias da internet
No Gold Book of Old Buk
Pensando com a cabeça de baixo
Contando cavalinhos na hora de dormir
Deu no que deu
O velho morreu
E sempre morreu
Meu velho
Poema de Andri Carvão.
Caminhando...
Ando eu ao relento...
Encantada com a madrugada,
Que muitos dormem e não veem nada.
Olho para cima e vejo as árvores se abraçando...
Olho para o chão, parece miragem, mas não.
Vejo folhas secas e vermelhas...
Que mais parecem filosofar de tanta beleza, de tanta sutileza.
Olho para frente...
Me deparo com o farol do carro que vem vindo...
Dilatando minhas pupilas, parece até luz divina.
Vejo uma pedra e me assento nela...
Me sinto forte como uma cidadela
Mesmo estando com lodo e esquecida, me sinto protegida!
Contei para as árvores...
Contei para as pedras....
Meus segredos, belos segredos,
Porque sei que jamais serão revelados.
Posso morrer, e minha vida um dia contada em forma de poesia...
Jamais será esquecida.
Ficará enraizada nas raízes daquelas árvores...
E esculpida nas fortalezas daquelas pedras...
Com letras que só os sensíveis de alma entenderão.
Tantos caminhos...
Precipícios para alguns.
Tantas trilhas...
Morada para muitos.
Tanto céu...
E debaixo dele muitos ao léu.
Tanto sol, farto sol...
E muitos não emprestam nem o anzol.
O amor está pouco.
E o mar? Não está muito para sonhar.
Então eu busco, incessantemente eu busco...
Um pouquinho de verão...
Verão que abrasa o bosque da minha menina...
Que tem vida corrida por suas esquinas...
Mas que anseia avenida para sua partida.
Quero me aprofundar nesse labirinto em busca da felicidade...
Meu instinto diz: você pode.
Eu digo: eu creio.
sábado, 12 de março de 2011
CASA NA ÁRVORE
Ainda
que nao dorme
que nao livra
em passagem acima das telas recém-preferidas
altivas
frias
à vaga no céu por testemunha
qual em signo que salva dos pecados alados de si
em
pacto
dos lados re-criados
por incêndio
a este fogo,
tão breve
tão sendo.
sopro.
o meu tempo-cruzada à revelia destas preces..
por estradas desfeitas que caminhei
na tarde-escura mais inteira qual à chuva e o declínio
parte.
do mapa que(te) pensei,
ora, não é...
..
à falta
enleios continuados por liberdade de escolha
quando tarde,
por um auxilio de mente e vontade,
quando fim,
cura-me.
e lá, depõe o meu ímpeto de te seguir..
eu sei..
ao campo formado destas guerras
onde mensagem de ti, me salva dos alvos vis
que,
um dia tolo destes,
o teu lado
a mim,
há de sumir..
este.
meu posto por um centeio ao deste campo também..
o meu
pacto-acto de dias livres
em desejo-mais-que-pouco. de um gosto, e(ainda.sendo) teu.
Poema de Azke.
Beijo
Do beijo silenciado
Do beijo inacabado
Não quero o beijo
de selinho
de canto de lábio
Não quero o beijo
melado, nem babado
nem o de mau hálito
Quero o beijo
de línguas entrelaçadas
com gosto forte
de carne e saliva.
Jorge Medeiros
sexta-feira, 11 de março de 2011
Dominatrix
Minha deusa
Minha rosa
Minha princesa
Eu amo você
Meu amor
Meu anjo
Minha flor
Meu doce
Meu bem
Meu bebê
Meu nenem
Minha fada
Minha ninfa
Minha muçulmina
Minha odalisca
Minha matriz
Minha dominatrix
Extensão
Do meu braço
Puta virgem
Uma santa
Meu mel meu fel
Meu céu
Fulana de tal
Beltrana
Cicrana
Mundana celestial
Mata fechada
Serra pelada
Deserto branco
Trilha estrelada
Minha sereia
Minha vampira
Minha stripper
Toda minha
Minha vaca
Minha aranha
Minha galinha
Minha piranha
Minha mãe
Minha filha
Minha irmã
Minha vizinha
Minha favelada
Minha patricinha
Minha empregada
Minha executiva
Meigo furacão
Ciclone angelical
Doce trovão
Suave vendaval
Minha amiga
Minha colegial
Minha enfermeira
Minha policial
Minha paixão
Meu brinquedo
Meu tesão
Meu segredo
Minha vitória
Minha glória
Minha alma gêmea
Minha alma geme
Gota de orvalho
Grão de sal
Doce veneno
Sangue mensal
Minha nordestina
Minha estrangeira
Minha clandestina
Dona da pensão
O chão que
Você pisa
As nuvens
Não alcançam
Você povoa
Meus sonhos
Você me lava
Feito um vulcão
Poema de Andri Carvão.
quinta-feira, 10 de março de 2011
Cetáceo
Do barro ao macadame,
Do macadame ao asfalto,
Dos cortiços e casarios aos prédios,
Dos prédios aos arranha-céus,
Das vielas às alamedas
Das alamedas às intermináveis auto-pistas,
Gerei-me, formei-me e cresci incomensurável –
Criança desmamada nos peitos
Da fome e da exploração.
Cresci, bebi e fartei-me na burra de Balaão,
Nas tendas dos vendilhões do Templo,
Na bolsa dos mercadores sefarditas,
Dos italianos, burgaleses, flamengos e alemães,
Na usura dos Beneviste, dos Évora e dos DiNegro,
No ouro do Sudão, na prata de Potosi,
Nas feiras e praças de Antuérpia, Lyon, Frankfurt e Gênova,
Na cavalaria de Oliver Cromwel,
Nos jacobinos decapitados,
No assassinato de Marat,
Na execução de Danton,
No golpe do nove Termidor,
Na bengala brilhante dos Barões,
No Consulado de Bonaparte,
Na Batalha de Trafalgar,
Nos canhonaços de Villeneuve e Nelson,
Nos bolsos endinheirados
De Ford e Rockeffeller,
No esquadro e compasso
De Niemayer, Gropius e Le Corbusier.
Cresci, bebi e fartei-me
Nos Senhores que escravizaram seus servos,
Nos espoliadores dos povos,
Nas marteladas dos operários,
Nas mães que venderam seus filhos
Nos mercados e fábricas,
Nos homens que assistiram passivos
As mães e esposas se prostituírem.
Cresci, bebi e fartei-me
No Congresso Anarquista Internacional,
No luta e no sonho unionista
De Pelloutier, Proudhon, Monatte e Malatesta,
No mito de Geroges Sorel,
No sonho acalentador
De Vladimir, Rosa e Leon
Que agora é espinho e fere.
Hoje, vegetal, enredo-me
Por toda a vida que acorda e adormece,
Que come, bebe, veste, ama e fuma,
Mas jamais se farta,
Pois deseja o que não é desejo,
O não-desejo que brota fora da carne,
Neste vasto cipoal
Que dificulta o trânsito
E contém as mãos, o afago, o beijo,
Insinuando-se por todos os corações
Com tudo que jamais farta; infarta!
Sabes quem sou?
Eu, espasmo dos séculos,
Estorvo dos desuses,
Sempre adverso ao mundo natural,
Uma outra natureza
Intrusa da ordem e do Século
Que impôs aos homens
Seu mandato e regra,
A despeito de tanta labuta, de tanto suor
E do clamor ignoto da populaça?
Meu nome é Cetáceo –
Rara jóia de Caim e de Nimrode,
Ouro nos dedos do feliz burguês,
Frio cálculo da razão e da mais-valia
À imagem e semelhança
Do rito que sacrificou o mito
Nos altares embebidos de sangue e miséria.
Eu, Sodoma e Gomorra, Mamon,
Babel, Tebas de cem portas, Big Apple!
II
Já os primeiros raios de sol
Batem nos olhos do monstro,
E ele arfa, bufa.
Da madrugada de tiros e sirenes,
De álcool e tranqüilizantes
Nasce mais uma alvorada,
Não de galos ou pássaros,
Mas de um sol bestializado,
Para uma manhã metálica,
De cobre e fiação elétrica,
De asfalto e condução
Que já vai lotada para o centro
Desde às seis horas da manhã,
Repleta de gente mal-dormida,
Babando no ombro alheio.
O cetáceo não dorme
Apenas se lembra que é mais um dia
Para quem tentou dormir
E urra da tv e do rádio:
“- Oi, bom dia, estamos aqui
Na 101,5 mais uma vez juntos,
É hora de acordar. Faz sol lá fora
E o dia promete ser quente.
Meu nome é tua cara, teu lábio e tua tara
E eu tenho um recado para você
Que me leva no trem, no carro, ou a pé
Desde a infância até o escritório:
- Todos em mim, todos em mim,
A trabalhar, a trabalhar,
A produzir, a produzir!
A matar e a odiar,
A reclamar e a adoecer,
A se encarar e se espremer,
A esperar e a bocejar
Nas filas, peças de dominó,
A xingar e a calar,
A temer e a acreditar,
A praguejar e a aceitar,
A beijar e a escarrar,
A odiar depois de amar,
A comer e vomitar,
A chorar e trabalhar,
A sorrir sem ter o que,
A dormir ante a TV,
A caminhar e viajar
Com o cotovelo
Na cara de outrem,
Bicando o calo alheio,
Pedindo licença
A pernas, bundas e pés,
Enquanto tenta amar
E chegar ao trabalho.
Vamos seguindo aqui
Nas entranhas do monstro
E não se esqueça:
- Cuidado nos cruzamentos
O trânsito está complicado
E a impaciência é grande,
Atenção ao sinal:
- Vai ficar amarelo, agora, vermelho,
Podeis prosseguir. Marchai!
Marchai para os consultórios!
Marchai para as repartições!
Marchai para os escritórios!
Marchai para as viaturas!
Marchai para os guichês!
Marchai para os bancos!
Marchai para as estações!
Marchai pelas avenidas!
Marchai para os aeroportos!
Marchai sem qualquer porto!
Marchai por aí louco e torto,
Reto e morto,
Rei deposto,
Marchai para o posto
E enchei o tanque e o coração
De álcool e mau gosto,
Marchai para vossos lares!
Marchai para mim, em mim, de mim,
Marchai, marchai, marchai, marchai,
Marchai, marchai, marchai, marchai
Marchai, marchai, marchai, marchai,
Marchai, marchai, marchai, marchai,
Devorai!!!
Os próprios filhos
E a carne irmã,
A própria vida
Assim mesmo:
Putrefata e malsã,
Vagando a esmo
A trabalhar, a trabalhar,
A produzir, a produzir,
A execrar, a execrar
Quem não quer profissão
Para alimentar de sangue e cifras
O imenso coração do cetáceo!
Cansai, cansai
Dormi, dormi...”
Mas insone o poeta diz:
“- Não tenho lugar aqui!”
Ao que logo o monstro replica:
“- Tolo, eu sou todo o lugar
E lugar nenhum,
Consciência e desdita
Que aferroam todo o dia.
Dormi, dormi, meu filho dileto,
E continuai a berrar esse canto contra mim
De todos os becos e guetos.”
III
Em cada casa e beco,
Um carcereiro dita as horas de sono.
Não respeita as queixas dos insones,
Qualquer anseio ou fome,
Nem os desejos dos amantes,
Brada feroz e o corpo
Levanta-se autômato, zumbi,
Estica os braços pálidos, de cera,
Passa as mãos por cara cadavérica,
Na frente do espelho
Que busca refletir imagem esmaecida,
A boca bafienta,
Enquanto a escova passa pelos dentes
E o corpo evacua medo
E os detritos do dia anterior.
Olhos baços, no entanto,
Insistem em tremeluzir,
Enquanto bebe café, lê o jornal,
Pega a pasta e a marmita
E mergulha nas tripas do Cetáceo.
Logo nas alamedas e avenidas
Que se estendem para além
Do horizonte coberto por prédios
E espetaculares arranha-céus
É conduzido com todos às obrigações diárias
Sem nenhum desejo para sentir,
Sem nenhuma palavra para negar,
Sem memória que recorde do corpo, o ser,
História e sentido que restaurem
O fio partido, algo que um dia
Chamaram de espírito e utopia.
E a despeito de tantas discussões,
De algaravias e de mortes,
Do jogo e das apostas,
Das drogas e das mulheres,
Do sexo e das certezas
Cuspidas e fumadas,
De tanto arroto e bocejo,
De tanto riso e bravata,
De tanta fumaça e loucura,
De tanto susto e silêncio
Dos lares contíguos,
Amontoados dos subúrbios,
Das mães que oferecem o peito mesquinho
Do consenso geral
Aos filhos do próximo século,
Sois corpo, nada mais do que corpo
Insuspeito!
O Cetáceo sorri e se regozija.
Exibe as magníficas
E complicadíssimas entranhas,
Os caminhos a seguir,
O tempo a cumprir,
Os papéis a assinar,
O status desejado,
A vida mais que determinada.
Ele tripudia, mostra sua escória,
Os filhos desejando o próprio ventre,
Devorando-se entre tiros e abutres.
Sorri sardônico, porque sempre
Haverá uma mulher ou um menino
A nos oferecer sexo e cigarros.
Eleva-se à mais alta
Das protuberâncias do seu estômago,
A mais ingente de todas as babéis
Para contemplar magnífica visão:
O bonde fiel aos trilhos,
O homem fiel à vida,
A vida fiel ao corpo,
O corpo fiel à maquina,
A máquina fiel ao monstro.
“- Que magnífica visão!”
O cetáceo rejubila-se,
De Wall Street manda-nos um beijo,
Da Ilha de Manhattan saúda a todos
A lutar pela ração diária das vitrines,
Dos anúncios e das meretrizes,
Pois ainda que uma mulher
Solte os cabelos e se jogue pela janela,
Que uma criança nasça
Coberta de sangue e avenida
Ou um velho corra nu pela auto-pista
Tudo sempre será o que foi:
Tráfego e Multidão.
“- Que magnífica visão!”
IV
À noite, as casas e os prédios
Recebem seus suarentos habitantes.
Os armários recebem cintos e gravatas.
“Boa noite, caro ouvinte,
Caro ouvinte-telespectador,
Boa noite de sono e traqüilizantes
E não se esqueça:
Amanhã, tem mais,
Amanhã, eu volto
Para de novo cuspi-lo
Em dias que insistem em nascer –
Dormi, dormi...”
V
Mas no outro dia,
Em qualquer dia,
05, 07, 11 ou 16,
23, 19, 21 ou novamente 11;
Em qualquer mês,
12, 10, 03 ou 04,
07, 09, 02 ou 08;
Em qualquer ano,
98, 2004, 95 ou 72,
Novamente em 98,
2001, 93 ou em 2002,
O corpo travado
Sem cronologia ou calendário
Não acorda nem levanta.
A cidade está em chamas;
Nero a incendiou.
O corpo está em chamas;
Roma incendiada,
E os aviões arremetem
Contra o edifício,
Despencam sobre nossas cabeças.
Homens-bomba escondem-se
Na garagem dos prédios,
No subterrâneo dos sonhos.
“É hora de acordar.
Acordai! Marchai!”
Já não podeis.
“Marchai, autômato!”
Já não quereis,
“Marchai, corpo!”
Já não sois.
“Há algo de errado”,
A programação se encerrou
Sem aviso.
“Há algo de errado,
De muito errado mesmo...”
Esta forma extrema,
Escura, crisálida,
Recusa...
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
quarta-feira, 9 de março de 2011
de brincar. Mas como numa odisseia sob o sol era preciso
subtrair-se aos perigos da corrente voraz e cíclica das
estações. De monstros marinhos, de corsários temerários,
de uma iara mimosa e de peitos de leite que se escondia
atrás de misteriosos escolhos. Como seria fácil a vida
debaixo do azul, este azul todo disperso numa gratuita
tessitura em que os pássaros de cada dia entoassem o pif-
pif de doces antigas flautas. As mãos ávidas tirando o
sono dos olhos ainda pregados à superfície do sonho. A
boca de dentes cariados se abrindo imensa para sorver
num gole a manhã láctea e morna. E depois a água mais
suja — mais pura — envolvendo engenhosamente o rosto
de uma máscara fina e reluzente. As pontas dos dedos
para sempre engelhadas sob a infinitude das unhas, que
crescem como um tubérculo rebelde — sabe-se lá que
outras coisas brotarão? O café com leite ainda está ali,
esfriando na mesa quase eterno. A tarde será como um
longo cochilo. E à noite o menino novamente envelhece-
rá, como uma árvore, como a capa de um livro ou um
quadro pendurado na parede do quarto.
Este texto também está publicado no meu blog,
www.comtexturas.blogspot.com
e na coletânea Cartilha, minha primeira reunião de poe-
mas em livro, publicada sob o pseudônimo José Antonio
Reis e disponível no site Clube dos Autores, no link
http://www.clubedeautores.com.br/book/40015--
CARTILHA
Boa leitura!
Autor: João Lima
Quarta e sono
Ligo o som
Coçam-me os pés.
Sambo só,
Canto o tom
Suo na tez.
Vou que vou,
Nessa dor
Síncope dez.
Terça é gorda,
É o calor
Máximo! Festa.
Trio do bom
Rio cantou.
Quarta já chega.
Cinzas, coro,
Reza o povo
Fé brasileira.
Poema de Yayá




