Manifesto do coletivo Pó de Poesia
O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.
Creia.
A poesia pode.
(Ivone Landim)
quarta-feira, 13 de junho de 2012
[...e perco-me nesta terra tão de palavras
…
e perco-me nesta terra tão de palavras que as tormentas
fundearam,
pecado capital antes fosse,
seja-me em vendaval repentino, então,
que toquem as trompetas anunciando o fim,
como um fado negro sem comiseração, sem voz,
que o crepúsculo se refugie por entre nebulosas que pontificavam num céu, antes azul,
que os primeiros ondulares do mar se ombreiem, sem resistência.
Os destroços da madeira, antes seiva, debruam o areal,
rarefaça-se a dor,
as vozes jamais se alterarão.
Hoje sei, o quanto me amaste,
mesmo quando minha alma crepitava, qual sal no fogo,
acreditava ouvir o som de um piano algures
que me atormentava,
perco-me nesta terra tão de palavras jamais ditas,
enquanto estas minhas todas tormentas, fundeiam nenhures,
porque só hoje, sei,
[o quanto me amaste].
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
terça-feira, 12 de junho de 2012
carochas, bicicletas & biplanos - 8
O homem encostou-se à parede de madeira da velha estação e morreu. Os últimos pensamentos foram um belo corpo de mulher a surgir dum nevoeiro citadino e um campo de batalha onde um dos corpos era o seu. Levava numa das mãos uns papéis sujos que se espalharam entre as folhas de erva.
Tiraram o corpo do homem e referiram-se ao seu sorriso. Um sorriso tão acriançado para um corpo tão velho e desfeito. Fazia sol e sombra por entre os passos da multidão que aumentava para verem o homem velho de barba grisalha que simplesmente faleceu onde se assentou.
10 Jan.
Na peça todos os actores estavam empenhados. E ninguém morreu no fim. Saíram todos do teatro com frio. Espalharam-se pelos bares da zona e sentaram-se nos seus automóveis polidos e muitos arrancaram para longe. Só ficou um vagabundo encostado a uma árvore perto da entrada do velho teatro, à espera que o mandassem embora. Mas ninguém apareceu. As portas do teatro fecharam. O frio da noite instalou-se. Certas luzes apagaram-se e o vagabundo acabou por adormecer envolto no seu grosso sobretudo. Morreu congelado à espera dum milagre.
10 Jan.
Onde estavam ondas agora rolam pedras. Como marés. Aonde estava o peso de muitas pedras está um sorriso. Tímido e cheio duma tristeza por catalogar. Melancolia única e de jardim enfeitado. Sabem, aqueles jardins muito bonitos mas sós de gente e crianças. Assim como um corpo nu mas sem ninguém que lhe pegue. Há jardins de cemitério sem gente sepultada. E muitos nos rostos de quem passa. Quem serão essas pessoas? Espelhos andantes? Que diria Virginia de tudo isto?
10 Jan.
Não tenho dinheiro para te dar, mas tenho ali dois pães de hoje. O pão mata a fome. Não mata as noites frias mas aquece o interior. Mas é só pão. E tu só tinhas uns papelitos para me pagar ontem e hoje? Tens mais algum poema? Dou-te os pães na mesma. Ficas-me a dever. Dois poemas dos pequenos, com a tua luz.
Agora as ruas não são as mesmas. Morreram um pouco, torcidas pela memória e sujas pela culpa. A noite matou-te sobre a forma duma motorizada mas os teus poemas são a nossa noite dividida. Entre as tuas sábias expressões e a nossa agonia dos dias. Sabias que tinhas conselhos que nunca os vivestes?
10 Jan.
Autor: Carlos Teixeira Luís
carochas, bicicletas & biplanos - 7
Eva - Anda, deita-te.
Ivan - Não consigo, as costas não endireitam…
Eva - Oh, céus e agora…
Ivan - Ajuda-me só a deitar-me de lado. Empurra-me.
Eva – Oops … e agora?
14 Mar.
Ivan - Eva?
Eva - Ivan, onde estás?
Ivan – Aqui. Olha para baixo. Acho que está a passar. Chamas o médico?
Eva – Mais uma injecção. Tens de pensar na operação, Ivan. Não podes continuar… assim.
Ivan – Tenho medo de ficar impotente ou paralisado. Tu sabes. Vou aguentando.
Eva – Isso é aguentar?
Ivan – Agora deixa-me só ficar aqui um pouco…
Eva – No chão?!
Ivan - … enquanto o médico… Fico aqui à espera de Godot.
Eva – Oh, não comeces… Vou já ligar ao médico. Sabes que horas são? Vou trabalhar daqui a 2 horas.
Ivan – Falta hoje por mim. Diz que estás doente.
Eva – Doente, eu?
Ivan – Sim, das costas e que esperas o médico. Que não te podes mexer. Depois telefona para o meu trabalho, diz que tenho de ficar contigo enquanto o médico chega.
Eva – Porque não ligas tu?
Ivan – Mas eu não me posso mexer. Tens de ser tu.
Eva (liga) – Estou, doutor Samuel? Por acaso não se chama Beckett também? Estou?
(risos)
12 Jun.
Autor: Carlos Teixeira Luís
ORQUÍDEAS NA JANELA
carochas, bicicletas & biplanos - 6
rouco diz o louco
mouco não ouve o que diz o louco e continua a comer os seus torresmos com gordura e tempo, beberica o seu tinto de algures e mofo, sabe-lhe a pouco
rouco teima o louco que coça o toco
- nem por isso, já foi mais
o que o louco discorda e se põe a milhas – rouco, rouco… profere longe o louco
e nem uma moeda nem pouco
rouco cada vez mais
voz sem reboco e fica assim
6 Jan.
Todos os dias os vagabundos precisam de comer.
Todos os dias os vagabundos precisam de dormir.
Todos os dias os vagabundos precisam de beber.
Todos os dias os vagabundos vão pedir até conseguir.
Todos os dias até morrer.
12 Jan.
Autor: Carlos Teixeira Luís
carochas, bicicletas & biplanos - 5
Gostou dos personagens zangados. E dos que envelhecem e são irascíveis. Quando envelhecer… Quando envelhecer mais, vou ser assim: maldisposto e insolente. Posso muito bem não ser capaz. Mas tentarei. Uma bengala e umas cãs darão uma ajuda. Bem as cãs… Falta a bengala. Feita de pau-teimoso-e-rezingão. Então a vida valerá a pena. Afaste-se que eu vou passar. Vá, despache-se.
4 Jan.
Quer dizer que este senhor norueguês que escreve brilhantemente os seus contos e outros escritos, era um perfeito desconhecido por não haver quem o traduzisse, o que é pena e esta frase já está muito grande. Kjell Askildsen, nascido em 1929, premiado autor – comparado a Raymond Carver e também a Beckett (descubram porquê) não tem frases assim, grandes e com desperdício. Escreve o que é preciso e chega. Simples? O tanas. As suas personagens, cruzamo-nos com elas todos os dias – gente. Tu e eu. Velhos e novos. Doentes e saudáveis. Sóbrios ou nem por isso.
5 Jan.
Dois homens estavam à espera de um outro. Que chegou já de madrugada. Receberam-no perto da luz dum cadeeiro de rua e as sombras de uma grande árvore. Abraçaram-se e atravessaram uma grande avenida. Foram esperar uma mulher num bar dum velho teatro. Sabiam que estava aberto o bar, só para eles. Instalaram-se a um canto bebericando os seus portos. O dia chegou e a mulher não.
9 Jan.
Empurrou a mulher pelas escadas abaixo e chamou a polícia. Amava-a mas não a suportava. A polícia chamou a ambulância e levou a pobre mulher. Já não a suportava, repetiu o homem algemado a entrar no carro de polícia. Não mudou de argumento e ficou preso. Ninguém se lembrou do gato. Esse saltou a vedação e entrou na cozinha da velha senhora da casa ao lado. Aninhou-se num alguidar cheio de roupa lavada. A velha senhora sorriu:
- Estás em casa, gato…
10 Jan.
Autor: Carlos Teixeira Luís
segunda-feira, 11 de junho de 2012
muito embora
uma lágrima só desce de um olho.
perco o sono e o sonho perde vida.
se meu olho queima à tua partida,
a tua ida não sou eu quem escolho.
recolho o verso que canta despedida;
não sou nada alegria, se me encolho.
quem dera um não fizesse aquele verso
e que, disperso, o poeta, fosse vento
pois, se eu fosse vento, tão diverso,
não passaria de poesia e encantamento.
ai, meu vento breve! me leva em tua mão
e então nela me faz sonho e verso eterno!
meu desejo sangra as folhas do caderno
enquanto a folhagem viva vai ao chão...
a esperança de menino ainda é forte,
os desesperos é que soam mais meninos.
quisera eu que, os beijos, entre mortes,
em minutos de silêncio, fossem hinos.
não poderei esconder a saudade
pelos dedos que dançam ao piano;
se quiseres ficar só por vaidade,
vai-te logo, pois te trago desengano.
tenho planos de futuro e brevidade.
a idade conta, no relógio, as horas,
e as demoras falam muito de saudade...
serei feito de lama, caos e auroras
se por acaso tu ficares sem vontade.
Poema de Caíto
sábado, 9 de junho de 2012
para que eu seja mais que um lar
guarda-me
entre minha alma e a tua
me pega ao colo
e a tudo que existe
revele-me pelas retinas
e o que vejo a todo momento
faça-me história
acaso o dia acorde
dá-me sonhos para velejar
despe-me a alma
para que eu nasça
respira-me detrás do peito
para que eu seja mais que um lar
ponha minhas roupas junto aos sapatos
deixe o tempo que arruína tudo
o encargo de colocar esse amor no passado
mesmo que me esvaia em teu olhar profundo
enterra essa maldita felicidade no deserto
que levantarei sem que haja chuva alguma...
Poema de Vânia Lopez
O garçom
- Bem , eu só sei que o nome dele era Rui, o resto, não sei ou não lembro se ele me falou alguma vez. Chegou numa manhã garoenta, falando que viu a placa dependurada na entrada, dizendo da precisão de um garçom. Tinha trabalhado uns tempos num restaurante, lá para as bandas da Augusta. Entendeu-se com o seu Horácio e começou logo a trabalhar. Sotaque nordestino, já meio amaciado, lá de Pernambuco. Simpático, atencioso, mas de simpatia medida aos palmos, bem controlada, sabe? Ria, mas sem mostrar os dentes. Eu, que não nasci ontem, reparo logo essas coisas. Êita, cabra escorregadio. Pontual, nunca faltou um dia em dois anos, nem por doença. Entrava e saía na hora, mas não enjeitava hora extra, não. Falava em tudo, menos de si, da vida dele mesmo. Quando a gente pensava ouvi-lo falando de si, já estava era discutindo a escalação do Corinthians ou os engarrafamentos na Marginal. Vaselina todo, o Rui. Servia muito bem as mesas, dizia nunca ter freqüentado senac nem escola de garçom nenhuma. Claro, a gente pensava que fosse mentira, pabulagem besta. Ah! Bom de serviço mas ruim de bola. Jogava de atacante nas nossas peladas. Meio barrigudo, mais levava baque que jogava bola. Mas sempre bem-humorado. Acho que aquela doidice era o jeito dele jogar mesmo. Grande figura o Rui. Todo mundo gostava dele. Na noite de seis de março, chegou um senhor já meio coroa no restaurante. Tinha telefonado e reservado mesa para três pessoas, ele e mais dois caras mais jovens, parecidos com ele, cara de um, focinho do outro, dizem lá na minha terra. O coroa falava num sotaque nordestino muito forte, puxava de uma perna... não lembro qual. Olhava todo mundo de cima, cara acostumada a mandar, a gente conhece logo, servindo esse povo há anos. O Rui atendeu, ficou meio sem jeito quando encarou o velho, mas não disse nada. Trabalhou muito bem, como sempre. O jantar foi normal, igual a todos os outros. Pediram sobremesa para os três. Fui até à entrada, papear com o Nonato, o manobrista, aquele cearense que esteve aqui também. Retornando ao salão, vejo o Rui trazendo uma compoteira grande, enorme e pouco usada. Pôs em cima da mesa do coroa, fez uma mesura e destampou-a. O coroa olhou para ele, vermelho feito uma manga-rosa. Levantou-se, o guardanapo no pescoço todo enrugado. Rui puxou um revólver não sei de onde, sapecou-lhe três tiros,um champanhe de sangue pipocou no peito do velho, mais um tiro em cada acompanhante e no derradeiro, estourou os próprios miolos... meu Senhor do Bonfim, que bagaceira... mas foi assim mesmo. Olhe, só de maitre tenho já vinte anos. Vi de tudo na minha vida, menos alguém servir compota de merda aos assassinos da sua família, com aquele sangue frio e ainda por cima, dar chumbo grosso de saideira. Desculpe a minha fala, mas esse mundo é muito estranho, doutor delegado.
Conto de André Albuquerque
sexta-feira, 8 de junho de 2012
"minha(...)"
dívida. e excesso. em plenos actos às formas de pares
dentre lados regidos qual igual ponto por arremesso
laço.. teu desenho! em previsível corpo de acto, e. erro
e erros.. e lares. carta em letra/libra à marca que te sabe
mas é..
cada parte de um indício e prévio limite por algum resultado
à luz da menção fugídia que te brilha em reverso pois, advém
combina. pactua.. emerge de tão.. ínfima, em subtítulo predicado
é a lua da manhã(o lado..) à sombra do sol. e à noite e. ao desdém
mas, ainda é..
cada lápide da parte entregue onde reina(já.) o interesse oblíquo
..
toda esta.. prece. que carrega o passo da tua mesma (im)presença
carne da lição em lei que te absorve o meu pensamento.. império!!
meu campo de guerras e lanças e cantos ao redor da tua venda
sou. este cego.. sou. tal conto prévio contínuo e tormento deste verbo
da palavra que te é..
métrica e lima. à tarde acesa da chuva mais carregada d'onde me sei
em vendavais à altitude obscena por reinar em ar aberto, mas perto..
qual olho que te compre, acto que te vem e corrompe.. -"carta", levar-te-ei!!
hoje! e, aos meus dias de queimas e águas.. em, páginas deste repto
da palavra que te faço..
nem à morada por um palmo deste dia
nem à vénia que te bate à porta(e bate/bate/bate..)
seja(me) de noites desiguais em alvoroço
seja(me!) das minhas lâminas, o meu apreço
meu
próprio(e único..)
sopro.
Poema de Azke
[...e quão perto se quer o mar em mim
e quão perto se quer o mar em mim,
e quão inerme me deixa quando longe se espraia.
…
Era-me o vento bonança quando o pisavas descalça
anunciando chegadas, e repetias;
“- o mar não tem quintais, nem latifúndios, as pessoas não moram lá, morrem-se por lá!”
Pudesse eu deslizar-me pelas espumas do mar
sem ruído,
pudesse o céu abrir-se de par em par, como um sorriso
inocentado pelas derivas constantes das correntes,
pudesse eu morrer-me por ti,
perto do mar.
Fundeei-me nesta letargia momentânea, sem visão,
apenas restaram algumas orquideas que vogaram até mim,
suavemente,
silenciosamente,
e,
enquanto as recolhias descalça e núa,
era-me longinquo o marulhar do mar em mim,
tão perto dos silêncios teus.
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
quarta-feira, 6 de junho de 2012
transformas o que fere em arte...
entrou pela porta aberta
gentil tal qual toque de brisa
pousou em torno da cintura
como se fosse um cinto inevitável
um canto atrevido, sagrado
quase um mistério
meigo e cruel lado a lado dentro dos segundos
capturou a paisagem com uma inocência
ostentando o céu nas mãos
o dia reaprendeu seu lirismo
arranhou meu peito esta tarde!
livre como uma flor delicada
domando pétala por pétala
tudo foi junto
José cada vez que canta morre um pouco
do ocre e do azul turquesa
do ponto mais alto da jabuticabeira
açucenas floridas de voos
meus dedos deslizam quando o vento sopra
carregada tão fácil teu canto José
como uma folha
se aninha com uma calma menina
transforma o que fere em arte
pela porta que espera.
Poema de Vânia Lopez
segunda-feira, 4 de junho de 2012
poeta maldito, eu?
não tenho vocação
pra poeta maldito
ainda há precisão -
e mesmo bonito é -
de aceitar no pão
e aquiescer no café
Poema de Caíto
domingo, 3 de junho de 2012
...é tudo tão injusto!
dói tanto quando você está comigo, sinto-me tão perto que não sei onde acabo ou você começa... a almofada arrasta seus cabelos, quebro-me, como um vaso chinês. tropeço nas palavras troco o verbo perco o disfarce, me dando trabalho noite e dia. como um pássaro teimoso empinando asas em seus olhos me esforço tanto em te esquecer, fico em pedaços. deve ser errado, o corpo em claro como febre, que só se acalma dentro do seu peito... é tudo tão injusto! é tão injusto alguém ter os olhos dessa cor... que me calo.
Autor: Vânia Lopez
sábado, 2 de junho de 2012
O teu pulso é um dia de chuva
Nunca
sei onde nasce o sol,
e nunca o céu que tem o teu vestido,
quando os barcos partem num horizonte oposto:
eu só tenho o véu das tuas chamas,
o suave véu quando sobes a voar a mesma lua
ou a água que ao mar chegava,
e o vento é ainda este pesado crocodilo
quando a noite o perde, quando a noite é ainda uma
úlcera em seda já explicada às cortinas,
ou essa vírgula do céu
a flutuar um poente de rosas
apedrejado ao teu
parto
... »
Poema de Francisco Eugênio Seixas Trigo
Sina
Que me ensina
É que tudo
Nesta vida
Sempre cisma.
Se há algo
Que me ensina
É que tudo
O que cisma
É por sina
E que a sina
De cismar
Faz a vida
Pressupor
Para si
Um sentido,
Um propósito
E destino
Presumidos
Para todos.
Mas se tem
Um sentido,
Por que cisma
Esta vida
Tão sentida?
Mas se tem
Um destino
Por que cisma
E se abisma
Esta vida?
Se ela cisma
É por sina
De não ter
Um sentido,
Um juízo,
Por saber-se
Sem propósito
E destino
Quando cisma
Em surdina.
Por saber
Que cismar
É buscar-se
Bem acima
Dos sofismas
De um destino,
De um sentido
Tão mentido
E fingido
Pelas gentes.
Pois se cisma
Malsinada
E repleta
De sentidos
Presumidos
Nos ensina,
Na verdade,
Que viver
Esta vida
É a sina
De perder-se
Em cismar,
Em amar
E a arriscar-se
Sem sentido.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados
[...quando esqueces as palavras
…
quando esqueces as palavras pela noite tardia,
tacteias à deriva pelas marés os sons dos sussurros,
que,
fugitivos,
se escondem pelas frestas da parede em madeira,
e por mais que queiras adormecer,
os ventos esculpidos no teu peito perscrutam,
aquelas outras ondas que dançam em mim.
Também eu me morrerei sem lápide, nesta imanência longe de mim,
desconhecida, que me oprime,
e se o amar um dia se saciar, mesmo sangrando
das palavras que esqueceste pela noite tardia,
que siga as migrações distantes da borboleta monarca
que um dia sobreviveu ao inverno.
Hoje o dia amanheceu mais cedo, sequioso de claridade,
o mar ficou mais vazio sem ti,
[que o olhar dos barcos esteja sempre pintado na proa].
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
sexta-feira, 1 de junho de 2012
delírios de uma gota de espuma
baila a gota de espuma
sob o olho atento
do vento
ainda ontem
quando era criança
meu maior segredo
era a felicidade
a gota de espuma
baila sob o vento
de olhos atentos
a gota de espuma
é uma criança
com a felicidade
nos bolsos...
Poema de Caíto
FULANAS DE TAL...
-Criado em 2010, o grupo feminino cultural da Baixada Fluminense Fulanas de Tal
é formado por cinco mulheres de grande personalidade, e com muito conhecimento sobre arte e cultura. São elas, as poetisas Ivone Landim, Camila Senna, Aline Merilene, e Gabriela Boechat, que também é artista plástica; e a estudante de Cinema, Yasmin Thayná.
O grupo surgiu da ideia de Ivone Landim, que não se conformava com a situação e a posição da mulher em nossa sociedade, e resolveu formar com mais quatro amigas, um coletivo que agregasse pessoas interessadas pela natureza humana, voltado tanto para homens como para mulheres, mas com um olhar feminino, carinhoso, atento e sagaz. Dessa primeira formação foram reunidas, poetisas, críticas, pesquisadoras e artistas fluminenses, com o objetivo de promover intervenções culturais em todo o território da Baixada Fluminense. O nome “Fulanas” é uma homenagem a um poema escrito pela artista. A comunicação entre elas é realizada por e-mail, e cada uma é encarregada de exercer uma função no Grupo.
A formação original do grupo Fulanas de Tal é composta por Ivone Landim, poetisa, professora de Literatura Brasileira, e ativista cultural desde a adolescência. É a adjunta pedagógica da Coordenadora da FAETEC de Nova Iguaçu; e educadora do Ensino de Jovens e Adultos - EJA na Escola Municipal Heliópolis, em Belford Roxo, com o Projeto “Gramática Afetiva”. Fundou em 2008, com Dida Nascimento, Márcio Rufino, Jorge Medeiros, e outros poetas, o grupo Pó de Poesia. Participou do grupo poético Desmaio Público, criado na década de 1990, por César Ray e Eud Pestana, onde despertou seu interesse pelas letras. Ganhou em 2010, o Prêmio Especial de Literatura da Baixada com o projeto Entre Linhas. Começou a despertar o interesse por debates, quando começou a participar de grupos de mulheres, que discutiam sobre a reflexão de gênero, e garante ter aprendido muito com elas. Obteve grande sucesso com “Aprisco da Palavra”, um fanzine criado para combater a intolerância religiosa, debatendo a religião de maneira mais abrangente. Nascida e criada em Mesquita, veio de uma família humilde, e desde criança sempre foi apaixonada pela leitura. Ivone é a responsável pelas matérias culturais publicadas no Fanzine.
O termo Fanzine é derivado das palavras inglesas fanatic (fan + maga [zine]). Ele se caracteriza por uma mistura de gêneros da imprensa alternativa, ou seja, uma forma de veicular a produção artística ou a informação sobre temas variados. O que define o fanzine é aquilo que o editor deseja compartilhar com seus leitores. Para Ivone “os fanzines são Pontos de Leituras que circulam nos territórios de forma alternativa, em relação às mídias já existentes, caracterizando-os como equipamentos pedagógicos para difundir a leitura entre os seus alunos. Os fanzines possuem a proposta de trabalhar o recorte e a colagem unindo, assim, as artes visuais e a literatura. A intenção é promover de forma sociocultural, o compromisso com a leitura e a escrita, estimulando a juventude a produzir textos e a utilizá-los como forma de divulgação, expondo suas ideias e a sua criatividade.”
A segunda integrante é a poeta Camila Senna, que cuida do Blog das Fulanas de Tal. Camila já escreveu várias poesias, entre elas, O tempo passa, mas não apaga; A melodia da Vitória; A natureza e sua essência; Vento, Assim é Paraty; Caminhando; Para os destemidos; Não quero ser figurante; Falta tudo, menos veneno; Negro de Valor; Suas digitais em mim; Criatura etérea; e Maria Ninguém. ”Mãe, por ser abençoada. Mulher por natureza e puro ímpeto! Sou ponto. Sou vírgula, Sou reticências... Sou loucura serena, intensa e quente exclamação!... Meu sorriso largo mascara a ausência, a carência. Sou todo esse barulho dos meus versos desnudos. Sou urgência! Prazer”. Camila faz parte das seguintes Antologias: III Prêmio Litteris de Cultura com Amor – Ontem, Hoje e Sempre; Papo Cabeça, coletânea juvenil; Do Brasil para Frankfurt, mais que um país uma inspiração; Do Brasil para Guadalajara, o melhor da nossa terra; Palavras sem fronteiras, do Brasil para Buenos Aires; Poesias Encantadas 1ª e 2ª edição.
Aline Merilene é a terceira integrante do Grupo Cultural Fulanas de Tal. Escreve desde seus 14 anos de idade. Toda sua formação acadêmica se deu na rede pública de ensino. Concluiu o Ensino Médio na Escola Técnica Estadual João do Nascimento (FAETEC) em Nova Iguaçu, onde teve a oportunidade de fazer parte do projeto Entre Linhas, criado e coordenado pela sua professora de literatura, Ivone Landim, onde mais tarde se tornou editora-chefe, atualmente não participa mais desse Projeto. Fez parte também do grupo Pó de Poesia. Já escreveu cerca de 50 poesias, e continua compondo outras novas, para um dia publicar seu livro cujo título Delírio Poético, já está definido. Entre outros poemas de sua autoria estão: Desabafo, Mistério, Morada da Poesia, Telas Paralelas, O Mar, e Nostalgia. Aline é estudante de Letras; e amante de filosofia, psiquiatria e psicologia.
A quarta integrante é a artista plástica e poetisa Gabriela Boechat, que contribui com o Coletivo Cultural com suas ideias e trabalhos. Muito atuante na região da Baixada Fluminense, é formada em Educação Física e professora da Rede de Ensino de Mesquita. Segundo Gabriela, “apesar de sempre ter observado o mundo ao meu redor com outros olhos e outras cores, a inspiração para pintar aconteceu de repente e tem se mantido contínua e progressiva desde então.” No ano de 2010, organizou com outras pessoas, uma exposição no Centro Cultural Donana, cujo trabalho O Nu da minha Voz ilustrou a Gambiarra Profana, grupo de artistas que participa. O trabalho "ventos na primavera" ilustrou a capa o livro de poesias homônimo do artista Arnoldo Pimentel. Gabriela trabalha com telas, paineis, ilustrações, e caricaturas, em técnicas variadas.
Yasmin Thayná, estudante de cinema é a quinta integrante do Coletivo Cultural. “Menina, mulher, sagaz. Eletrotécnica, literata, cineasta. Cabelos com flor, com cor, cabelos únicos! Sorriso sincero, olhar tímido, estilo próprio. Chaveiros exóticos, mochila pesada, livros e filmes na cabeça. Yasmin conta que, desde que foi apresentada por Miguel Nagle ao curta “Um Dia de Laura”, foi inserida no mundo do cinema. “Fui fazer um curso com o Miguel, em janeiro de 2010, chamado ‘Do Roteiro à Prática’; e juntos fizemos o curta-metragem ‘Ciclo Eterno das Mudáveis Coisas’. Posteriormente se candidatou a uma vaga para produção de roteiro, e passou. Escritora assídua, roteirista, leitora, cinéfila, e ativista cultural. Este é o perfil de Yasmin, que com mais duas componentes das Fulanas de Tal, é responsável por disponibilizar matérias e ideias que contribuem para o sucesso do grupo.
O Grupo Cultural Fulanas de Tal, permite que outras mulheres, cujo perfil tenha identificação com o trabalho desenvolvido pelo Coletivo, entrem na Rede Mundial e façam parte do elenco, pois o foco do seu trabalho é estimulação da leitura, e a comunicação alternativa. Para mais informações acesse http://
Por Ludimila Bernardes e Seny Fonseca
Revisão: Seny Fonseca
Fotos: Ludimila Bernardes e Divulgação.
poema para um dia de chuva
no naylon preto
do guarda-chuva
tina-tinindo canção.
canção
flechada do céu,
senta a pua
no peito do pé,
molha o sossego do gueto.
chuva-chovendo canção:
percussão nas poças da rua.
Poema de Edílson José



