Manifesto do coletivo Pó de Poesia
O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.
Creia.
A poesia pode.
(Ivone Landim)
terça-feira, 15 de março de 2011
Convento...
BOSQUE
Para cantar a mulher da minha vida
Há que segui-las de adjetivos para que caminhem corretamente adornadas, do contrário seria pouco para falar daquela que me marcou como quem marca gado: a ferro e fogo. De início dói,mas agora permanece - sabor de eternidade - feito tatuagem que enfeita e veste, e dá o tom de quem a gente é. Palavras são poucas.
Há que usar das mais belas e quentes e frias e tácitas metáforas, assim como é próprio dos poetas que cantam suas amadas. Há que usar rimas, das pobres, das ricas e das medianas, sem discriminação de classe. Afinal, para cantar uma mulher faz-se preciso tanto as flores quanto os diamantes. Palavras, há que casá-las muito bem a fim de construir imagens, ofício da (boa) poesia. Que ao ler a mulher amada tenha um filme à sua frente, claro e sutil,
telas de grandes artistas animando-se a cada linha. Mas por mais que as palavras se façam solenes neste momento, há que tocar àquela que me emprestou seu seio e me entregou seu corpo. Tem de haver um beijo, um enlace.
E, por fim, há que dizer: “ainda que o tempo passe, ainda que sua pele perca o viço, ainda que o seu corpo feneça, ainda assim te amarei, cada vez mais”. Há que reproduzir o momento em que ela me viu pela primeira vez e, desamparado, ela me aninhou em seu colo e deixou rolar a primogênita das muitas lágrimas que ainda estavam por vir.
Texto de Fabiana Esteves.
segunda-feira, 14 de março de 2011
Resgate
do ateliê abandonado,
junto pedaços da alma
destroços dos dias.
Em retalhos do tempo
onde a memória agoniza,
costuro de volta a vida.
Foram anos e eu não vi.
Mas o tempo está aqui,
colado nos pincéis secos,
na tinta fosca e esmaecida,
na poeira coberta de maresia.
Recolho serenamente
porções de mim mesma,
a alegria das cores,
o gosto de mar e de vento.
Poema de Elmira Nunes
O Velho e o Bar
Fêmea vive na butique
Bukowski busca uísque
Macho morre no boteco
Fêmea morre na butique
Velho Buk pratica esporte
Fuma por esporte
Bebe por esporte
Escreve por precisão
Jogo bebida mulher
Um vício circuloso
Sexo sem amor é sexo seguro
Por amor se gasta até o que não se tem
Negócios negócios bucetas à parte
A festa nunca começa pra quem sai de mãos vazias
O mundo mudou e domou todo mundo
Sexo drogas & jazz
Sexo drogas & rock ‘n roll
Sexo drogas & AIDS
Velho Buk
Viveu muito
Sobreviveu demais
Atravessou as décadas de 50 60 70 80 poetando
Mas o suficiente não é o bastante
Só foi se afogar na praia dos anos 90
Virou filme Mosca de Bar
Lenda viva
Continuou dormindo na lata de lixo do beco sem saída
Velho Buk
Uma espécie em extinção
Hemingway sem barba
Hemingway menos conservador
Hemingway que caçava mulheres e não tigres na África
Hemingway do turfe e não das touradas
Hemingway apolítico e apocalíptico e não de Guevara e Castro
Hemingway da batalha diária do homem comum e não da Guerra Civil Espanhola
Velho Buk
Não adiantou nada
Encher a lata
Virar o caneco
Tomar umas e outras até tomar todas
E engolir o gargalo
E vomitar no bem-vindo
E ter pesados pesadelos sobre ele
Velho Buk
Poeta etílico
Cadê o Grande Romance Americano
Que você prometeu? Algo no nível de “Suave é a Noite”
Do marido daquela louca?
Velho Buk
Mais lido do que Sade e Miller
Mas não tão respeitado em larga escalada ou maior degrau
Pelo meio intelectual
Velho Buk
No panteão literário do Macho Americano
Seguindo a tradição de Thoreau, Melville,
London, Hemingway, Miller, Mailer,
Conservadas as devidas proporções
Buk meu velho Buk
Imitada persona imortal
Adultos não sabem brincar a sério
Você passou dos limites
Já pra dentro
A geração perdida sim foi a verdadeira geração beat
Já a geração x não se achou
Presa nas teias da internet
No Gold Book of Old Buk
Pensando com a cabeça de baixo
Contando cavalinhos na hora de dormir
Deu no que deu
O velho morreu
E sempre morreu
Meu velho
Poema de Andri Carvão.
Caminhando...
Ando eu ao relento...
Encantada com a madrugada,
Que muitos dormem e não veem nada.
Olho para cima e vejo as árvores se abraçando...
Olho para o chão, parece miragem, mas não.
Vejo folhas secas e vermelhas...
Que mais parecem filosofar de tanta beleza, de tanta sutileza.
Olho para frente...
Me deparo com o farol do carro que vem vindo...
Dilatando minhas pupilas, parece até luz divina.
Vejo uma pedra e me assento nela...
Me sinto forte como uma cidadela
Mesmo estando com lodo e esquecida, me sinto protegida!
Contei para as árvores...
Contei para as pedras....
Meus segredos, belos segredos,
Porque sei que jamais serão revelados.
Posso morrer, e minha vida um dia contada em forma de poesia...
Jamais será esquecida.
Ficará enraizada nas raízes daquelas árvores...
E esculpida nas fortalezas daquelas pedras...
Com letras que só os sensíveis de alma entenderão.
Tantos caminhos...
Precipícios para alguns.
Tantas trilhas...
Morada para muitos.
Tanto céu...
E debaixo dele muitos ao léu.
Tanto sol, farto sol...
E muitos não emprestam nem o anzol.
O amor está pouco.
E o mar? Não está muito para sonhar.
Então eu busco, incessantemente eu busco...
Um pouquinho de verão...
Verão que abrasa o bosque da minha menina...
Que tem vida corrida por suas esquinas...
Mas que anseia avenida para sua partida.
Quero me aprofundar nesse labirinto em busca da felicidade...
Meu instinto diz: você pode.
Eu digo: eu creio.
sábado, 12 de março de 2011
CASA NA ÁRVORE
Ainda
que nao dorme
que nao livra
em passagem acima das telas recém-preferidas
altivas
frias
à vaga no céu por testemunha
qual em signo que salva dos pecados alados de si
em
pacto
dos lados re-criados
por incêndio
a este fogo,
tão breve
tão sendo.
sopro.
o meu tempo-cruzada à revelia destas preces..
por estradas desfeitas que caminhei
na tarde-escura mais inteira qual à chuva e o declínio
parte.
do mapa que(te) pensei,
ora, não é...
..
à falta
enleios continuados por liberdade de escolha
quando tarde,
por um auxilio de mente e vontade,
quando fim,
cura-me.
e lá, depõe o meu ímpeto de te seguir..
eu sei..
ao campo formado destas guerras
onde mensagem de ti, me salva dos alvos vis
que,
um dia tolo destes,
o teu lado
a mim,
há de sumir..
este.
meu posto por um centeio ao deste campo também..
o meu
pacto-acto de dias livres
em desejo-mais-que-pouco. de um gosto, e(ainda.sendo) teu.
Poema de Azke.
Beijo
Do beijo silenciado
Do beijo inacabado
Não quero o beijo
de selinho
de canto de lábio
Não quero o beijo
melado, nem babado
nem o de mau hálito
Quero o beijo
de línguas entrelaçadas
com gosto forte
de carne e saliva.
Jorge Medeiros
sexta-feira, 11 de março de 2011
Dominatrix
Minha deusa
Minha rosa
Minha princesa
Eu amo você
Meu amor
Meu anjo
Minha flor
Meu doce
Meu bem
Meu bebê
Meu nenem
Minha fada
Minha ninfa
Minha muçulmina
Minha odalisca
Minha matriz
Minha dominatrix
Extensão
Do meu braço
Puta virgem
Uma santa
Meu mel meu fel
Meu céu
Fulana de tal
Beltrana
Cicrana
Mundana celestial
Mata fechada
Serra pelada
Deserto branco
Trilha estrelada
Minha sereia
Minha vampira
Minha stripper
Toda minha
Minha vaca
Minha aranha
Minha galinha
Minha piranha
Minha mãe
Minha filha
Minha irmã
Minha vizinha
Minha favelada
Minha patricinha
Minha empregada
Minha executiva
Meigo furacão
Ciclone angelical
Doce trovão
Suave vendaval
Minha amiga
Minha colegial
Minha enfermeira
Minha policial
Minha paixão
Meu brinquedo
Meu tesão
Meu segredo
Minha vitória
Minha glória
Minha alma gêmea
Minha alma geme
Gota de orvalho
Grão de sal
Doce veneno
Sangue mensal
Minha nordestina
Minha estrangeira
Minha clandestina
Dona da pensão
O chão que
Você pisa
As nuvens
Não alcançam
Você povoa
Meus sonhos
Você me lava
Feito um vulcão
Poema de Andri Carvão.
quinta-feira, 10 de março de 2011
Cetáceo
Do barro ao macadame,
Do macadame ao asfalto,
Dos cortiços e casarios aos prédios,
Dos prédios aos arranha-céus,
Das vielas às alamedas
Das alamedas às intermináveis auto-pistas,
Gerei-me, formei-me e cresci incomensurável –
Criança desmamada nos peitos
Da fome e da exploração.
Cresci, bebi e fartei-me na burra de Balaão,
Nas tendas dos vendilhões do Templo,
Na bolsa dos mercadores sefarditas,
Dos italianos, burgaleses, flamengos e alemães,
Na usura dos Beneviste, dos Évora e dos DiNegro,
No ouro do Sudão, na prata de Potosi,
Nas feiras e praças de Antuérpia, Lyon, Frankfurt e Gênova,
Na cavalaria de Oliver Cromwel,
Nos jacobinos decapitados,
No assassinato de Marat,
Na execução de Danton,
No golpe do nove Termidor,
Na bengala brilhante dos Barões,
No Consulado de Bonaparte,
Na Batalha de Trafalgar,
Nos canhonaços de Villeneuve e Nelson,
Nos bolsos endinheirados
De Ford e Rockeffeller,
No esquadro e compasso
De Niemayer, Gropius e Le Corbusier.
Cresci, bebi e fartei-me
Nos Senhores que escravizaram seus servos,
Nos espoliadores dos povos,
Nas marteladas dos operários,
Nas mães que venderam seus filhos
Nos mercados e fábricas,
Nos homens que assistiram passivos
As mães e esposas se prostituírem.
Cresci, bebi e fartei-me
No Congresso Anarquista Internacional,
No luta e no sonho unionista
De Pelloutier, Proudhon, Monatte e Malatesta,
No mito de Geroges Sorel,
No sonho acalentador
De Vladimir, Rosa e Leon
Que agora é espinho e fere.
Hoje, vegetal, enredo-me
Por toda a vida que acorda e adormece,
Que come, bebe, veste, ama e fuma,
Mas jamais se farta,
Pois deseja o que não é desejo,
O não-desejo que brota fora da carne,
Neste vasto cipoal
Que dificulta o trânsito
E contém as mãos, o afago, o beijo,
Insinuando-se por todos os corações
Com tudo que jamais farta; infarta!
Sabes quem sou?
Eu, espasmo dos séculos,
Estorvo dos desuses,
Sempre adverso ao mundo natural,
Uma outra natureza
Intrusa da ordem e do Século
Que impôs aos homens
Seu mandato e regra,
A despeito de tanta labuta, de tanto suor
E do clamor ignoto da populaça?
Meu nome é Cetáceo –
Rara jóia de Caim e de Nimrode,
Ouro nos dedos do feliz burguês,
Frio cálculo da razão e da mais-valia
À imagem e semelhança
Do rito que sacrificou o mito
Nos altares embebidos de sangue e miséria.
Eu, Sodoma e Gomorra, Mamon,
Babel, Tebas de cem portas, Big Apple!
II
Já os primeiros raios de sol
Batem nos olhos do monstro,
E ele arfa, bufa.
Da madrugada de tiros e sirenes,
De álcool e tranqüilizantes
Nasce mais uma alvorada,
Não de galos ou pássaros,
Mas de um sol bestializado,
Para uma manhã metálica,
De cobre e fiação elétrica,
De asfalto e condução
Que já vai lotada para o centro
Desde às seis horas da manhã,
Repleta de gente mal-dormida,
Babando no ombro alheio.
O cetáceo não dorme
Apenas se lembra que é mais um dia
Para quem tentou dormir
E urra da tv e do rádio:
“- Oi, bom dia, estamos aqui
Na 101,5 mais uma vez juntos,
É hora de acordar. Faz sol lá fora
E o dia promete ser quente.
Meu nome é tua cara, teu lábio e tua tara
E eu tenho um recado para você
Que me leva no trem, no carro, ou a pé
Desde a infância até o escritório:
- Todos em mim, todos em mim,
A trabalhar, a trabalhar,
A produzir, a produzir!
A matar e a odiar,
A reclamar e a adoecer,
A se encarar e se espremer,
A esperar e a bocejar
Nas filas, peças de dominó,
A xingar e a calar,
A temer e a acreditar,
A praguejar e a aceitar,
A beijar e a escarrar,
A odiar depois de amar,
A comer e vomitar,
A chorar e trabalhar,
A sorrir sem ter o que,
A dormir ante a TV,
A caminhar e viajar
Com o cotovelo
Na cara de outrem,
Bicando o calo alheio,
Pedindo licença
A pernas, bundas e pés,
Enquanto tenta amar
E chegar ao trabalho.
Vamos seguindo aqui
Nas entranhas do monstro
E não se esqueça:
- Cuidado nos cruzamentos
O trânsito está complicado
E a impaciência é grande,
Atenção ao sinal:
- Vai ficar amarelo, agora, vermelho,
Podeis prosseguir. Marchai!
Marchai para os consultórios!
Marchai para as repartições!
Marchai para os escritórios!
Marchai para as viaturas!
Marchai para os guichês!
Marchai para os bancos!
Marchai para as estações!
Marchai pelas avenidas!
Marchai para os aeroportos!
Marchai sem qualquer porto!
Marchai por aí louco e torto,
Reto e morto,
Rei deposto,
Marchai para o posto
E enchei o tanque e o coração
De álcool e mau gosto,
Marchai para vossos lares!
Marchai para mim, em mim, de mim,
Marchai, marchai, marchai, marchai,
Marchai, marchai, marchai, marchai
Marchai, marchai, marchai, marchai,
Marchai, marchai, marchai, marchai,
Devorai!!!
Os próprios filhos
E a carne irmã,
A própria vida
Assim mesmo:
Putrefata e malsã,
Vagando a esmo
A trabalhar, a trabalhar,
A produzir, a produzir,
A execrar, a execrar
Quem não quer profissão
Para alimentar de sangue e cifras
O imenso coração do cetáceo!
Cansai, cansai
Dormi, dormi...”
Mas insone o poeta diz:
“- Não tenho lugar aqui!”
Ao que logo o monstro replica:
“- Tolo, eu sou todo o lugar
E lugar nenhum,
Consciência e desdita
Que aferroam todo o dia.
Dormi, dormi, meu filho dileto,
E continuai a berrar esse canto contra mim
De todos os becos e guetos.”
III
Em cada casa e beco,
Um carcereiro dita as horas de sono.
Não respeita as queixas dos insones,
Qualquer anseio ou fome,
Nem os desejos dos amantes,
Brada feroz e o corpo
Levanta-se autômato, zumbi,
Estica os braços pálidos, de cera,
Passa as mãos por cara cadavérica,
Na frente do espelho
Que busca refletir imagem esmaecida,
A boca bafienta,
Enquanto a escova passa pelos dentes
E o corpo evacua medo
E os detritos do dia anterior.
Olhos baços, no entanto,
Insistem em tremeluzir,
Enquanto bebe café, lê o jornal,
Pega a pasta e a marmita
E mergulha nas tripas do Cetáceo.
Logo nas alamedas e avenidas
Que se estendem para além
Do horizonte coberto por prédios
E espetaculares arranha-céus
É conduzido com todos às obrigações diárias
Sem nenhum desejo para sentir,
Sem nenhuma palavra para negar,
Sem memória que recorde do corpo, o ser,
História e sentido que restaurem
O fio partido, algo que um dia
Chamaram de espírito e utopia.
E a despeito de tantas discussões,
De algaravias e de mortes,
Do jogo e das apostas,
Das drogas e das mulheres,
Do sexo e das certezas
Cuspidas e fumadas,
De tanto arroto e bocejo,
De tanto riso e bravata,
De tanta fumaça e loucura,
De tanto susto e silêncio
Dos lares contíguos,
Amontoados dos subúrbios,
Das mães que oferecem o peito mesquinho
Do consenso geral
Aos filhos do próximo século,
Sois corpo, nada mais do que corpo
Insuspeito!
O Cetáceo sorri e se regozija.
Exibe as magníficas
E complicadíssimas entranhas,
Os caminhos a seguir,
O tempo a cumprir,
Os papéis a assinar,
O status desejado,
A vida mais que determinada.
Ele tripudia, mostra sua escória,
Os filhos desejando o próprio ventre,
Devorando-se entre tiros e abutres.
Sorri sardônico, porque sempre
Haverá uma mulher ou um menino
A nos oferecer sexo e cigarros.
Eleva-se à mais alta
Das protuberâncias do seu estômago,
A mais ingente de todas as babéis
Para contemplar magnífica visão:
O bonde fiel aos trilhos,
O homem fiel à vida,
A vida fiel ao corpo,
O corpo fiel à maquina,
A máquina fiel ao monstro.
“- Que magnífica visão!”
O cetáceo rejubila-se,
De Wall Street manda-nos um beijo,
Da Ilha de Manhattan saúda a todos
A lutar pela ração diária das vitrines,
Dos anúncios e das meretrizes,
Pois ainda que uma mulher
Solte os cabelos e se jogue pela janela,
Que uma criança nasça
Coberta de sangue e avenida
Ou um velho corra nu pela auto-pista
Tudo sempre será o que foi:
Tráfego e Multidão.
“- Que magnífica visão!”
IV
À noite, as casas e os prédios
Recebem seus suarentos habitantes.
Os armários recebem cintos e gravatas.
“Boa noite, caro ouvinte,
Caro ouvinte-telespectador,
Boa noite de sono e traqüilizantes
E não se esqueça:
Amanhã, tem mais,
Amanhã, eu volto
Para de novo cuspi-lo
Em dias que insistem em nascer –
Dormi, dormi...”
V
Mas no outro dia,
Em qualquer dia,
05, 07, 11 ou 16,
23, 19, 21 ou novamente 11;
Em qualquer mês,
12, 10, 03 ou 04,
07, 09, 02 ou 08;
Em qualquer ano,
98, 2004, 95 ou 72,
Novamente em 98,
2001, 93 ou em 2002,
O corpo travado
Sem cronologia ou calendário
Não acorda nem levanta.
A cidade está em chamas;
Nero a incendiou.
O corpo está em chamas;
Roma incendiada,
E os aviões arremetem
Contra o edifício,
Despencam sobre nossas cabeças.
Homens-bomba escondem-se
Na garagem dos prédios,
No subterrâneo dos sonhos.
“É hora de acordar.
Acordai! Marchai!”
Já não podeis.
“Marchai, autômato!”
Já não quereis,
“Marchai, corpo!”
Já não sois.
“Há algo de errado”,
A programação se encerrou
Sem aviso.
“Há algo de errado,
De muito errado mesmo...”
Esta forma extrema,
Escura, crisálida,
Recusa...
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
quarta-feira, 9 de março de 2011
de brincar. Mas como numa odisseia sob o sol era preciso
subtrair-se aos perigos da corrente voraz e cíclica das
estações. De monstros marinhos, de corsários temerários,
de uma iara mimosa e de peitos de leite que se escondia
atrás de misteriosos escolhos. Como seria fácil a vida
debaixo do azul, este azul todo disperso numa gratuita
tessitura em que os pássaros de cada dia entoassem o pif-
pif de doces antigas flautas. As mãos ávidas tirando o
sono dos olhos ainda pregados à superfície do sonho. A
boca de dentes cariados se abrindo imensa para sorver
num gole a manhã láctea e morna. E depois a água mais
suja — mais pura — envolvendo engenhosamente o rosto
de uma máscara fina e reluzente. As pontas dos dedos
para sempre engelhadas sob a infinitude das unhas, que
crescem como um tubérculo rebelde — sabe-se lá que
outras coisas brotarão? O café com leite ainda está ali,
esfriando na mesa quase eterno. A tarde será como um
longo cochilo. E à noite o menino novamente envelhece-
rá, como uma árvore, como a capa de um livro ou um
quadro pendurado na parede do quarto.
Este texto também está publicado no meu blog,
www.comtexturas.blogspot.com
e na coletânea Cartilha, minha primeira reunião de poe-
mas em livro, publicada sob o pseudônimo José Antonio
Reis e disponível no site Clube dos Autores, no link
http://www.clubedeautores.com.br/book/40015--
CARTILHA
Boa leitura!
Autor: João Lima
Quarta e sono
Ligo o som
Coçam-me os pés.
Sambo só,
Canto o tom
Suo na tez.
Vou que vou,
Nessa dor
Síncope dez.
Terça é gorda,
É o calor
Máximo! Festa.
Trio do bom
Rio cantou.
Quarta já chega.
Cinzas, coro,
Reza o povo
Fé brasileira.
Poema de Yayá
terça-feira, 8 de março de 2011
carne quase morta
não digo que isto me doa
nem que me seja novo não saber dor isto que me dói
— o que me dói é teu corpo:
este amontoado de gordura e carne que respira e vibra
este sangue lácteo que me espana o rosto como um leque
... tua mão está me riscando a coluna agora ou é uma foice?
são teus pés aqueles dois mísseis?
eu não queria saber a dor
pois nunca ma prometeram senão apenas prazer
mas o que é isto? toda esta dor que eu não reconheço
este corpo violado que se transforma em carne quase morta
não me disseram que seria assim, destrinchando...
— tens certeza de aquilo são teus pés?
eu só queria o sonho
(esse sonho aí que chacoalhas quando gemes tão alto
e que precipitas do alto de minha cabeça como se jogasses boliche)
tu não me respeitas: agrides-me com teu corpo
minha fantasia te implora piedade e tu a mastigas
minha fantasia te implora “não me mastigues” e tu a engoles
ah, por que dói tanto? engoles-nos a ambos?
sim. são teus pés. vês?
são tuas mãos. teus olhos.
este emaranhado de arame que me prende
e que me escalpela
são teus músculos.
quer que te conte o que eu queria? que te diga palavra por palavra?
... quando menino, eu gostava escondido cada parte de teu corpo como quem segreda
eu apalpava tua pele cinza, lambia teus braços — tua garganta era minha caverna
desde menino eu quis o teu corpo de homem
mas eu nunca soube teu corpo assim: Arma
eu queria ser teu homem para não ter de ser homem
pois só assim eu saberia esta dor prazer
e este prazer felicidade.
... entendes que te digo tudo
e que nada me resta na boca exceto certa forma de mudez?
— desde menino
meu único desejo
era gozar de meu prazer e de minha Morte
sob o arco obscuro de teu corpo.
Poema de Sodine Üe
o dia tem que terminar
descalço o eu
(a única mãe)
que o corpo teme
o céu declama a alma
ajeita a sombra
enquanto a outra metade
...espera
(na pele e no silencio)
Poema de Vânia Lopez
11 ou n – Dos momonísios, serpentes e outras -inas
Só não falo porque coma é virgula em língua outra. Do mais estou carnavalesticamente afônico em que pese a cuica de outrem. Em que pese a busca outra de algum senso de raiz no sambar , ou algo que o valha como antigo e muito próprio para transferir emoções a fato tal ponto que a fantasia vire algo de realmente(?) fato caricaturizado do largo de algum outro algo que além de não saber morrer, ainda brilha como solução certa de existir e desviar a espontânea atenção que no mudo enxerga tal esforço, tal mania narcisa-mártir que em jocoso pede uma privada larga de algum apartamento antigo entre a copahorrenda e o centro. Peço licença sem desculpas. Me chateiam as frases longas e sobretudo vìrgulas, mas hoje não dá. Os pronomes oblíquos que começam frases? Hoje eles serão a fita inaugural enquanto as metáforas se afogam no raso rio. Do quê? Carnava...e o ridículo é soro encontrado em teste de qualquer gosto. Valha. Ou não. Vai? Vá... é tão curto. Se fosse cobertor era ineficiente frio. És de escola de samba? Conseguiste abstrair o dinheiro do tráfico que faz o pó sambar? Conseguiu acolher o carisma da quadra sem pensar na vontade de poder do sobressalto comunitário a sofrer pena pela policia da morla bastarda? Raiva do dito de origem. Raiva do dito dado como exatamente dado e culturalmente improvável o intransponível. Rate aoiva desse topete ao vento e de todos os bailes passsadistas. A pérola mora dentro de uma ostra armada. Escrevo quando o que é coelho e devorado está dentro do coyote. Foi soprado às zebras o coiote. E ela se arrepiaram tanto que suas listras subiram num aglutinar facial e viraram mascaras. Logo as zebras eram cavalos mascarados: de nada se pareciam com o focinho arguto do coiote. Lamento: não basta tomar banho pelado de cachoeira e masturbar-se com o dedo de Oxum. Estou do dente do coiote que te fala, E sgada anterim. Sou um bom hálito. Do escovado em madrugada em contrário e acordado em chocolate flavôr. Destesto as plumas das inocentes. Ou serão putas hoje ou nunca mais? Então serão puta no nunca porque quando puta... há de se sorver o tempo para o bezunto de mel proposital. Mordem o pote os ursos e as crianças. Muitos desencorajosos de roubar se vestem piratas. Uma piada pela metade mal contada. E de piadas a inocência está farta do que já foi roubado. Agora-ontem-já? Onde a henfil-graúna gralha? Onde eu também não posso morrer . Onde eu não posso morrer sem antes muita coisa. Eu vou ajudar as crianças a botarem uma tachinha no poltrono Piaget. Hemos de descobrir que eles não precisam dar cabo a jornada pensando no melhor. A tentativa há de ser por eles cantada. É o velório precoce do herói. E a libertação temprana da moça viúva que nunca viu o putrefato cônjuge mas já se quer no suor dos sentidos a sensual liberdade. Se fossem essas linhas de caligrafia eu comeria o caderno e vomitaria a cola da brochura. Vomita-se a cola do uno: e o que se tem é um coletivo favorável. O que há de ser o todo sem o singular. A coletividade como solução anti- solidão humana me assusta primeiro, porque ela é cinematicamente colorida; depois me enoja. Sim. É tudo grave. É tudo grota-sarah-vaughan. Quando nos preteridos não é o renegado rouco ópero-Évora-cesáriano. O presente é hesitante mas nasce de parto normal. Vamos ao com saudo exorcista, a cabeça já dói. Criptografo a fluxo hoje turvo. Gozosamente me traio. Escrevo no trunco porque estou eufórico e ainda não sem gritar em caricatos caracteres. Saúdo o exército da florescência travesti.. Amo saias que velam o viril moral escondido e falicamente diferenciado da permissividade tatuada do seguro feminino a ser preenchido. Pena... À vivacidade do trans! À comunicação que espera a bizarra acolhida! : o trans nos lembra do que é sexual para além do platonismo anti-arte no barato; cristão e a suspensão da sensualidade pelo ideal ascético; além do corpo... Ao quisto! : que na profusão do desejo treme o ferro quente do epilético temido se há no pungente o negar que escarra a moral 3D. Chamar Spielbergs e Camerons para o que além da superfície: movimentam o ver que na insistência vê o atrás. Falta falar sobre o atrás. Escrever com o atrás. Ah! Se os de redação vestibulenha ouvissem,,, Chamem os poetas. Os amigos dos poetas. E provem que o quer ser entendido é só a projeção dos teóricos que ainda vêem o belo e sobre ele falam sem ter em si o crivo e o suspiro fatal da criação. A vontade de representação a embarcar na intensidade que sem interesse... acontece. Destoaram em tudo a minha multiplicidade defendida. Escrevo de mosaico turvo, me foram as garantias no tudo poder ser de Momo. Do peneirado sobra um suco que tem gosto de não-finalidade. A arte como despretensão estética que transvalora a reatividade cotidiana em opções singulares de vivência... E os nossos 7 % de crescimento ante a ocular gula mundial! Se o mundo do aberto capital e a eurocêntrica referência já dão hoje em lugar algum mais brilhoso: o prova do jeitinho parco brasileiro a consertar pelas cochias o espetáculo falido: prova da nossa amorosidade vendida em tabuleiros de pimenta e brancas saias . Viste o meu bareback com a etimologia? Pois já alimento teu pequeno pires curioso. Vou abrir o livro e registrar o que meu olho comeu. Não te disse ainda , mas para os pseudo narcisos, os mártires valorais, tenho uma verde parreira amarga. E pouco desdobra a bestialidade que se apresenta em quatro. Não pela sua força de viver o um de cada multidão, mas pela gana miserável de ser equivocadamente outros que não são para sermos no disfarce.. Meus confetes, serpentinas minhas...: que tudo pule! Mas que pule a melindrosa e eu troque a piteira comezinha pelo narguilê onírico. Pelo que não houve existindo: a única maneira de ser tocado pelo acaso sem susto. Irredediável trabalho herculano se fossem doze ou três : é um ofício organicamente depurativo. E isso leva tempo. Fui pelos becos. Me ventou o poder comprar que Lula trouxe ao c, ao d, ao e, ao a...: menos ao z.
O z é o marginal alado. O z são as crianças sem bigode. Não o poético de mendicância. Não ao floreio sujo das portas em templos sacros onde a catarses do povo médio carioca. Não à poesia que pede. Não a poesia que pergunta se você gosta de poesia. Porque isso, este aquilo escrito, aquilo: aquilo não se gosta. Aquilo é: como as fezes são. Expurgadas, necessariamente vitais e mal quistas. Escrever não com floreios sistematizados dos sentidos em reconhecidos símbolos: escrever é se senão se enfezar caso não escrito o quisto, ou o a ser afastado expurgo. Escova-se o dente de bife à rolê e feijão, passa-se o sabonte no suvaco, esfrega-se o pé com marítima esponja, hastes algodoeiras na escuta... e uns escrevem. Uns são depois pelas letras e gozam com o cheiro de páginas mouras quando pessoa. E outros no claro olhar de lince, Clarice... Bebem. E nunca se embriagam, Que o claro não entorpe: só confunde pelo em si tão desprezado o entorno. A lente grave da bruxa faz do armário um ser robusto de apego e pó. Faz do espelho o desafio de passar em sala vazia e figurar só o cheiro. Espelho em sala vazia não guarda corpo imagético se algo louva o instante e se presentificava. O presente não sabe. O presente não tem pés. Contra o espelho é o vampiro induplicável: morde o pescoço e é um. E de certa mereceria um agradecimento. A mordida nos desvirtua da rostidade e do nosso gosto afeito a sujeitos. Espelhos de imagens concubinas falidas e melindrosas molduras. É já perdida a importância dos pomos. Ajeito o cabelo ao olhar no poço a superfície. Uma das desgraças mais mal fazejas: quando troca-se o espelho pela água lisa de cima do poço. Hoje te dei coisa nova mas não espero tua distinção. Me roubei o que eu tinha atrás do pensamento. E te dei qualquer coisa por cima das minhas – inas. –Inas, meninas... -Ina xilocaína que encontra a próstata em massagem póstuma.. – Ina do desaconselho que a moral abomina. Antes os que filosofam tinham que se vestir e ritualizar em magos. Antes comtemplar era sobretudo fugir do vadio olhar e dar medo. Brota aí o ascetismo: nas bruxas alquímicas e gargalhadas. E é dada uma vez que já era e o gargalhar vira mutismo: e esse mutismo quando confessado em cantos infanto-sensuais já é a invenção do pecado. Fixa-se uma circular de Lutero na porta: o bom e o mau não são como antes. O bom pode cobrar e o mal pagar em dinheiro. Resplandece o trevo dos de burgo. Eis que um de burgo diz: que se queimem os altares! Há algo a ser descoberto! Hão regras a serem provadas! Há a tentativa e o erro a serviço de uma comprovação que é sobretudo vontade de verdade! Chutam os santos dos altares! E vestem em miniaturas de véu a verdade. Mataram Deus a favor da divinização da verdade? Sim, digo aos crentes. O que sobra disso é algo de petróleo e país do futuro. Resta disso meu gargalhar íntimo cada vez que os de águia-pilgrim despencam em si e entortam as pernas. Sobram nossas bolsas urgências importantes, as desmerecedoras de tanta celeuma. Resta no aqui viver violentamente calmo e convencer gentilmente o presente a não fugir. Ele ápode, ele que não sabe.... E quantos tombos abraçar o acaso economiza? Compartilharam o parco sinismo dos foliões! Nada contra o ritual exagerado de Momonísio. Mas que fosse todo o dia o jorro. Que fosse todo dia o dia do branco do gozo! Há o embrião-tempo que é o presente! E antes, antes!? Há a feitura do pós beira. anterior à toda gênese. : O frêmito Orgasmo: o acaso: o eletrochoque de tempo que empurra o ápode presente. Ele que mutilado só salta a choques. Que apesar de muito riso lá continua... Que apesar de pena e piteira a melindrosa melancolia continua.... E faz lembrar, varridos os salões, que acompanhado do nada sabido ele samba. Apesar de no bailar solto do it Acompanhemos o ritmo entre o que é calor e água de chuva nossa a subir! Despeja o pingar salgado que é cheiro: dança sem pés. Segue o compasso, balança a cabeça num gesto de improviso: não está sim, nem é não. Ele que não sabe. E suas muletas... A maioria dos gordos momos tem a miséria na barriga!
O carnaval é mutilado presente em rota fantasia de saci : imos e voltamos em pequenas oscilações de cinzas e ventania. Pula sem muletas o presente de gorro vermelho. Cai.
Derruba o acaso cachimbo e fumaça.
Texto de Carlos Juba
segunda-feira, 7 de março de 2011
Arte poética
e dentro em mim mesmo desci
sem longe nem perto ou aqui
sem rumo princípio nem fim
eu mesmo cavalo-de-mim
Poema de Maurício Matos retirado do seu livro "Aquém das retinas".
Sobrevivendo
dos ventos de outono,
avesso dormente,
revirada e ferida.
Levando na lida
a carga silente
do que vivo e penso,
nunca ando só.
Sou amor sem apego,
saudade sem dor,
reverso sem cor,
vou sobrevivendo.
Poema de Elmira Nunes.
domingo, 6 de março de 2011
Os degraus...
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...
A rua dos cataventos...
Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.
Hoje, dos meus cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de vela amarelada,
Como único bem que me ficou.
Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!
Alpinistas suburbanos
No alto do prédio
De ponta cabeça
Segurado pelos pés
Por um amigo de mil anos
Quase irmão
O pichador deixa
Seu rastro
Sua pegada
Seu picho
Sua marca
Eu estive aqui
A necessidade de andar em bando
A gíria
O palavrão
O chiste
Analfabeto Funcional
Proletário lumpen
Office-boy no centro da Capital
Dá um duro
E vive duro
Urbanóide periférico
Juventude invisível
Sociedade anônima
Subcultura
A arte das ruas
O risco e o rabisco
Único meio de atingir o topo
O céu não é o limite
O céu não tem limites
No alto do prédio
Poema de Andri Carvão
sábado, 5 de março de 2011
Compostura!
sobejo léxico,
nímio linotipista,
à penúria de teor
erigiu o silêncio.
Poema de Jorge Xerxes
Paraísos artificiais
O rebanho
No repasto
Da colina
A lagoa
Ao pé
Do monte
Um monte
De montanhas
E o manancial
Nas Nuvens
Nuvem branca
Nuvem cinza
Nuvem negra
Nuvem carregada
Nuvem de algodão
Nuvem de fumaça
Nuvem de gafanhotos
Nuvem de calças
O Castelo de Merlin
Silêncio nas trevas
Uma voz dissonante
Precipita-se no precipício
Urro que ecoa no vazio
Por um longo período
Até despertar o dragão
Que mora na montanha
Cospe fogo e lava a cúpula nos ares
Vulcão em erupção
Escrevendo seu nome nas nuvens
Encorporalma
Made in Madame Satã
Olha você
Perdendo
Com medo
De errar
Eu sou
O que eu penso
E não
O que você está vendo
Toda representação do real
É surreal
Poemas de Andri Carvão
sexta-feira, 4 de março de 2011
4º Motivo Da Rosa
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzidas,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
Sonho...
“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade.
Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. [...] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”
"Eu sou à esquerda de quem entra. E estremece em mim o mundo.
(...) Sou caleidoscópica: fascinam-me as minhas mutações faiscantes que aqui caleidoscopicamente registro.Sou um coração batendo no mundo."
Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.
As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.
A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas.
Clarice Lispector
SÓ DE SACANAGEM
Meu coração está aos pulos!
Quantas vezes minha esperança será posta à prova?
Por quantas provas terá ela que passar? Tudo isso que está aí no ar, malas, cuecas que voam entupidas de dinheiro, do meu, do nosso dinheiro que reservamos duramente para educar os meninos mais pobres que nós, para cuidar gratuitamente da saúde deles e dos seus pais, esse dinheiro viaja na bagagem da impunidade e eu não posso mais.
Quantas vezes, meu amigo, meu rapaz, minha confiança vai ser posta à prova?
Quantas vezes minha esperança vai esperar no cais?
É certo que tempos difíceis existem para aperfeiçoar o aprendiz, mas não é certo que a mentira dos maus brasileiros venha quebrar no nosso nariz.
Meu coração está no escuro, a luz é simples, regada ao conselho simples de meu pai, minha mãe, minha avó e os justos que os precederam: "Não roubarás", "Devolva o lápis do coleguinha", "Esse apontador não é seu, minha filha". Ao invés disso, tanta coisa nojenta e torpe tenho tido que escutar.
Até habeas corpus preventivo, coisa da qual nunca tinha visto falar e sobre a qual minha pobre lógica ainda insiste: esse é o tipo de benefício que só ao culpado interessará. Pois bem, se mexeram comigo, com a velha e fiel fé do meu povo sofrido, então agora eu vou sacanear: mais honesta ainda vou ficar.
Só de sacanagem! Dirão: "Deixa de ser boba, desde Cabral que aqui todo mundo rouba" e vou dizer: "Não importa, será esse o meu carnaval, vou confiar mais e outra vez. Eu, meu irmão, meu filho e meus amigos, vamos pagar limpo a quem a gente deve e receber limpo do nosso freguês. Com o tempo a gente consegue ser livre, ético e o escambau."
Dirão: "É inútil, todo o mundo aqui é corrupto, desde o primeiro homem que veio de Portugal". Eu direi: Não admito, minha esperança é imortal. Eu repito, ouviram? Imortal! Sei que não dá para mudar o começo mas, se a gente quiser, vai dar para mudar o final!
Com licença poética
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Eu...
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho,e desta sorte
Sou a crucificada ... a dolorida ...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
E que nunca na vida me encontrou!
Pensamentos que reúnem um tema
Na tranqüilidade dos que esqueceram a memória
E nos que fortaleceram o espírito com um motivo de odiar.
Estou pensando nos que vivem a vida
Na previsão do impossível
E nos que esperam o cé
Quando suas almas habitam exiladas o vale intransponível.
Estou pensando nos pintores que já realizaram para as multidões
E nos poetas que correm indefinidamente
Em busca da lucidez dos que possam atingir
A festa dos sentidos nas simples emoções.
Estou pensando num olhar profundo
Que me revelou uma doce e estranha presença,
Estou pensando no pensamento das pedras das estradas sem fim
Pela qual pés de todas as raças, com todas as dores e alegrias
Não sentiram o seu mistério impenetrável,
Meu pensamento está nos corpos apodrecidos durante as batalhas
Sem a companhia de um silêncio e de uma oração,
Nas crianças abandonadas e cegas para a alegria de brincar,
Nas mulheres que correm mundo
Distribuindo o sexo desligadas do pensamento de amor,
Nos homens cujo sentimento de adeus
Se repete em todos os segundos de suas existências,
Nos que a velhice fez brotar em seus sentidos
A impiedade do raciocínio ou a inutilidade dos gestos.
Estou pensando um pensamento constante e doloroso
E uma lágrima de fogo desce pela minha face:
De que nada sou para o que fui criada
E como um número ficarei
Até que minha vida passe.
Caso...
Pode ser mais um capricho
pode ser uma paixão
pode ser coisa de bicho
pode não.
Pode ser já por destino
pelos astros, pelos signos
por uma marca, uma estrela
talvez já estivesse escrito
na palma da minha mão.
Talvez não...
Talvez até nem fique
nem signifique nada
nem me arranhe o coração
pode ser só uma cisma
pode estar só de passagem
Ou não.
Bruna Lombardi
Das pedras...

Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.
Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.
Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida…
Quebrando pedras
e plantando flores.
Entre pedras que me esmagavam
Levantei a pedra rude
dos meus versos.
...
Cora Coralina
quinta-feira, 3 de março de 2011
contradições de pele
uma alma que menstrua
(só com a lua)
não me encaixo nos dias
vomito minhas memórias
sou feita
prefiro o frescor do selvagem
um cigarro
um homem
um bolo de chocolate
não existe paz
nem anúncio nas costas
faço barulho com o papel
deixo na pele o recado
(juras e promessas)
minha fome me come viva
treme como folha
gosta da ausência no vestido
um quarto vestido
e o corpo sem botões...
onde eu estive minha vida inteira?
você sabe...
fala!
vivendo o melhor papel da minha vida:
ser mulher!
Caí de um corpo
Completamente eu
(pronta para viver um livro inteiro)
Poema de Vânia Lopez
Dois poemas de Iatamyra Rocha
O silêncio é abrasador
Fecho meus olhos
Entregue na minha leitura
Perdida entre beijos
Sentindo na pele a luxuria.
As palavras me tocam
Como um punhal em fogo
Imagino tua mão censurada
Ao me ler pouco a pouco.
Remeto-me ao longe
Em ligas e cetins
Castelos e condes
Relendo a Anais Nin.
A madrugada excita
Desvirgina a solidão
Entre livros e sonhos
Queimo de tesão.
Guardados
Fecho as cortinas
Meu corpo santo
Minhas presilhas.
Minhas águas cálidas
Meu ventre
As palavras pálidas.
Tranco meu amor
Meu infinito
Guardo a dor.
Minha pele confusa
Meus passos ermos
A febre que pulsa.
O tempo de te ver
A cama perfumada
Meu gosto em você.
Fecho, guardo, tranco
Teus nós e elos
Só por enquanto.
Autoria: Iatamyra Rocha
quarta-feira, 2 de março de 2011
O afogado
(rendilhado das ondas a beijar-lhe a boca). Detentor do inerte
mistério da morte, aportou na praia em manhã radiosa, cuspido pelo mar,
como quem sonha que está a sonhar. A pálida face, emoldurada por
longos e louros cabelos; nos traços suaves, uma agonia tão infinita que
já é sublime, deste companheiro de Flebas. Que pensaste durante o
derradeiro amplexo de Netuno, atlântico abraço de acolhida em teu talvez
breve morrer? Viste o filme da tua vida, aquele verdadeiro ou uma das
muitas versões que a mente emulou da realidade? De quão longínqua terra
vieste, pergunto em dúvida ansiosa e inútil. Ninguém te conhece,
ninguem te sabe o nome, ninguém sofreu por ti, nem aqui nem ali e
nem onde? Um vôo de gaivota delineia-me os pensamentos na areia da
praia, seu canto ecoa desesperante, trazendo-me idéias-sentimentos
sombrios, medo de ter medo de encontrar um morto, de que a eternidade
me arraste para si mesma e que eu nela não me dissolva. Que poderias me
contar sobre o reino das sombras em tão radiosa manhã? Nada, apenas,
em toda a simplicidade de tua mortalidade absoluta. Bolsos repletos
de areias profundas e finas, imagino durante tua purificação pela água,
irmão de Flebas, que rendeu o seu arcaico tributo há tantos anos e eras.
Na praia a esvair-se, quase impudicamente deserta, uma menina se
aproxima e te coroa com um ramo de sargaços apodrecidos, como a
memória dos tempos. Deixo-te entregue à própria paz - que é a mesma
do lugar. Tomei da minha solidão e segui em frente.
Conto de André Albuquerque.
Obs: Flebas – Deus fenício da fertilidade .
Homenagem ao poeta T S Eliot, no 46º. ano de sua morte .
Ficção inspirada no poema “ Morte pela água “, tradução de Ivan Junqueira
em Poesia, T S Eliot – Ed Nova Fronteira – 1981 .
Prima-dona
Impreciso
Ilumina,
Reanima.
Imprevisto,
Mostra o viso,
Canta a lírica
Prometida.
Sem juízo
Vive o vinho,
Livra a sina
Solta à vida.
Sem aviso,
Seu motivo
Predomina,
Canta a rima.
Poema de Yayá
terça-feira, 1 de março de 2011
Sucata
Sem o meio-termo da alma.
Com o cinza-chumbo do espírito.
Tendo como luz, o azinhavre.
Como sol, a ferrugem.
Fora de uso do destino.
Detido na espera, na corrosão.
Chapa, cheiro curto, plúmbeo.
Hálito escuro de garagem.
Ex-máquina, isenta de Deus.
Alquebrado bric-à-brac.
Leminskiano inutensílio.
Ofícios sem a irritação da oficina.
Mix de matéria e sombra feroz.
A ferros.
Poema de Armando Freitas Filho
segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Voltou?
E o meu olhar brilhou com seu sorriso
Nem o cantar azul do rouxinol
Nem o brilhar dourando o som do sol
Fez assim meu sofrer ser mais preciso.
Minha alma triste foi ao seu encontro
Mas minhas mãos frias quedaram quietas
Nem sussurrei palavras vãs e falsas
Travei ao ver as suas cãs tão alvas,
Pois nem o sal das lágrimas vertidas
Somaram sóis ao seu retorno, embora.
Você voltou? Que quer de mim agora?
Esqueça o existir meu ser assim
Vou caminhar sozinha como sempre
Não posso esquecer o que sofri.
Poema de Paola Rhoden.
10 ou n - Do presente e suas minas terrestres
Melhor assim. Hoje, me amo em flor. Pior enfim. Porque venta forte: o que dramaticamente me despetala.
Parei. Nadei no branco. Volto com o fluxo intermitente da minha urgência em ser honesto e não raciocinar. O que há por trás dos parâmetros escolares vividos, da célula familiar imposta pelo bem querer do outro que não quer ser outro só porque tem no sangue igual marca d´agua, do dito mimético do televisivo, dos desamores, da desaprovação, da falta de carinho com todas palavras quando discriminamos os palavrões e tantas outras exclamações que são nosso dom de ainda se arrepiar com o mundo... E principalmente: o que há por trás do pensamento. Tudo se imaginarmos.
E nada na morada do raciocínio: o treino do reconhecível. Olharam agora minha cara de honestidade e perguntaram se estava tudo bem. Acho que não fui reconhecido. Paro. A célula familiar insiste em invadir. Vou abrir concessão. Tão estou comigo. Na verdade abro concessão para que eles fujam. Vou cantar o número do bilhete. E vou fingir com uma corneta o apito do trem.
O claro fluxo da distorção. Como condensar os sentidos até eu cacarejar e botar um (n)ovo? Como condensar toda a tempestade quando se tem apenas um copo de água?
Arde em pequeno copo essa aguardente que é sentir demais. Acho que minha boca deveria ser no pescoço para afastá-la da face. Falta pouco. Já tenho dentes nos dedos.
Mordo e te assopra a brisa. O invisível que bagunça os cabelos e torna visível tua feiúra não fosse o pente. Não fosse o pentecostal. Que aceita teu desgrenhamento porque, caro, tu és bom. Garoa canivete. E tudo que queria te contar já se transformou em outra coisa. Fiz uma lista e até agora nada assinalei. Nado no branco. Fiz bem em transar o acaso. Teus sentidos não podem ser meu diário de bordo. Aliás diários de bordo não deveriam existir. Diário igual a regular. E não é todo dia que se tem papel, nem todo dia se fura olho com caneta. E diários são documentos passadistas. Nosso jogo aqui é o fluxo que estremece, mas não goza. Tântricamente se engole porque o presente não tem pés para fugir. O em si do presente não existe para quem se ...
Acabo de me recuperar de um susto e tenho o coração ainda raivoso. Pensei ter apagado sem querer tudo o que havia escrito. Quase deletei meu agora. Como as teclas são propícias para a auto sabotagem. Basta a mente induzir um escorregamento pelos dedos e pronto. Tudo branco. Como se auto sabotavam os escritores de máquinas de escrever?
O em si do presente não existe para um espantador de segundos. Mas quem voa? O espantalho ou o passarinho-segundo? Não. Esse espantalho espantador tem asas. E no pouso tudo voa junto. O presente não tem pés para fugir porque só saberá andar no futuro. O presente não sabe. O presente só sabe acaso. Ele cai. Por pensar saber andar, por lembrar de um andar passado ele cai. Tomba pra frente feito árvore pesada e serra. Cai porque anda sem tatear e não vê que os pés são os mesmos, mas mutáveis são as geologias de terreno que nos precedem. Cai pra frente a árvore , rola no íngreme do acaso – já é toco- e torna a cair agora fundo. Cai agora fundo no lago. E os pés são os mesmos. O presente não sabe. A idealização é a corrupção do presente. O por vir imaginado é propina para calar o segredo do acaso. Qual o segredo do acaso? Quando não se sabe desconfia-se de qualquer sapiência. Qual o segredo do acaso? O presente não sabe. O presente é sempre uma criança no devaneio de ser criança. O presente não tem pés: engatinha. E cai. Por isso corrompem o presente com propinas tão vulgares como balas tic tac. Querem calar a criança com balas. E não se fala de boca cheia, dizem os que atordoam o presente com açúcar. Quando há insegurança nunca as crianças são consultadas. Elas possuem o devaneio da verdade que não é verdade: é apenas a linguagem emergencial da franqueza do não saber. O presente não sabe.
De nada adianta o esmero técnico e os revisionismos. Assim como de nada adianta reler o todo escrito até agora em busca de alguma coesão entre mim e tu, leitor do invisível. O presente é fatal e não tem pés. Só anda quando estende os braços até tocar o chão. E o toque não se faz de mãos. O chão beija a muleta e tudo finge andar. Com braço-muleta estendido caminha o presente cambaleante; a muleta esquerda ensaia os passos que aprendeu lembrar e a direita dança os passos tolos da esperança. Leitor, entre esse mal ajambrado e cambaleante presente espantalho propinado e o mutilado presente, fico eu com o ápode acaso, fico eu com o que não tem pé. Nem cabeça. Fico eu com os mutilados das minas terrestres. Pelo gosto do tempo antes as minas do que as balas. Mesmo as de açúcar. Sobretudo as de açúcar. Sobremaneira as que calam a criança-presente por não respeitarem o seu nada saber e tudo falar. Ela vai no âmago da terra porque desaprendeu tudo da vida embrionária e intui a natureza da intuição. E a natureza da intuição é o não-pensamento, ou o pré-pensamento, caso alguém aqui faça questão do que existe. O canhão do passado por onde se mete a bala pela frente ou a traçante de verde facho luminoso do futuro? Nem um. Nenhum. Nem outro. Fico eu com os mutilados das minas terrestres. Se pisa no acaso e logo explode em sangue os pés do presente. Mas não há traumas. Nem lembranças de guerra. O presente nada sabe. E sorri um sorriso de criança que convence o mais duro passado.
Texto de Carlos Juba
Fastfood-se
Qual é o seu pedido?
O nº 1, o nº 2, o nº 3,
o quatro, o cinco ou o seis?
Mc WC,
Mc marmita,
Mc x, Mc shit,
Mc pão com ovo & fritas!
Boa tarde!
Faça o seu pedido!
O nº 1, o nº 2, o nº 3,
o quatro, o cinco ou o seis?
Sunday de sangue!
Sunday de coco-late!
Coca-Cólica SEMPRE Coca-Cólica!
Próximo!
Benito Mussarela rangando pizza de mussolini
& cachorro-quente (hot-vale)
perseguindo
churrasquinho-de-gato-grego-grelhado
num desenho desanimado...
Poema de Andri Carvão
domingo, 27 de fevereiro de 2011
De la noche
similares e muitos simpatizantes. As formas de solidão mudaram,ao longo dos anos.
Lembrou do tempo em que encostava num balcão e logo alguém vinha ter consigo.
Hoje, sem balcão,apenas caminhar em direção à noite suja e sem atrativos, arriscando
um marinheiro perdido ou um rosto desgarrado da fauna noturna do cais, no espasmo
munganguento de crak, a quem pediria o cigarro de sempre, prenúncio de papo, olhar
de nojo piedoso ou de puro e simples nada consta. Percebeu um cara de jaqueta jeans,
encostando-se no poste, do outro lado da rua; tipo magro musculoso,calças
justas e um olhar vazio em forma e direção, de quem via tudo sem nada observar.
Recostou-se na banca de revistas fechada, sob uma marquise. Olhou os bancos de
camelô desmontados ao longo da rua. As putas desciam dos velhos sobrados, à frente
dos homens da ocasião, com um olhar altaneiro de senso de dever cumprido. Sou
puta e daí? Cada um segura a sua ôia, dizia Zefinha Pé de Garfo, um corpo escultural
sobre um pedestal deformado, um kama sutra ambulante, agora, arremessando um beijo
para Adolfo, sobraçando o presente da neta, no retorno para casa. Mais uma bateu o
ponto e fechou o escritório, pensou Adolfo, cigarro apagado nos lábios de pomada de
cacau. Mãos inquietas procurando um isqueiro. Acendeu, acalmou as longas mãos
manicuradas, dedos luzidios. Fumou pela metade, jogou fora, apreciando a pirueta
da brasa, até cair no chão. Recomeçou a caminhada, percebendo-se seguido à distância
pelo homem de jaqueta jeans. Um discreto olhar para trás. Chegou à porta da
hospedaria Novo Horizonte. Subiu o primeiro lance de escadas e puxou do bolso a
chave do quarto, dando tempo ao cara de subir. Era um homem bonito, olhar sombrio e
braços musculosos. A mão esquerda tatuada, brinco na orelha direita, idade
indefinida,como tantas outras coisas da vida. Trocaram um sorriso meio envergonhado, adentrando o quarto. O estranho preferiu penetrá-lo de pé. Adolfo excitava-se e rangia os dentes de prazer. Ao perceber a corda de náilon no pescoço, o mundo estava cada vez mais cinzento e silencioso.
Conto de André Albuquerque
Marcio Rufino no Putzgrila
Na noite do dia 19 de fevereiro de 2011 aconteceu em Nilópolis a décima edição do evento Putz Grila que envolve música, teatro e poesia. Eu tive a honra de participar representando os coletivos que faço parte que são o Pó de Poesia e o Gambiarra Profana no vídeo acima eu declamo os poemas Louco Currículo e Mulher-Hiena.
sábado, 26 de fevereiro de 2011
Poema Perdido

Cadê o poema?
Onde está o poema?
Aquele poema que eu escrevi
O dia, o lugar, a hora
eu esqueci.
O poema que era muito inteligente
mas os versos, agora,
não vem em minha mente.
O poema
cuja inspiração
minha mente e o meu coração arrebatou
mas como castelo de areia
ao sabor do vento se desmanchou.
O poema que concebi em plena paz
mas a razão de minha elevação
em minha lembrança não vem mais.
O poema que eu criei
pensando em ti, pessoa misteriosa
seu rosto e seu gosto
não me recordo agora.
O poema que eu compus
num turbilhão de impressões,
sensações, desejos e emoções
que nem consigo imaginar.
A definição dos mesmos.
Qual será?
Cadê o poema?
Onde está o poema?
Que busco embaixo da cama,
em cima do guarda-roupa,
dentro da gaveta,
dentro da bolsa.
Eu quero meu poema.
Onde está o poema?
Cadê o poema?
Marcio Rufino
(Do livro Doces Versos da Paixão)
Notícias e filme proibido

Garoa
latinoamericana
aqui, por enquanto, lutamos
para que não se venda a primavera
como as atrizes de Hollywood.
Por aqui ainda restam lembranças;
a Majestade tão linda dos baixinhos
em seu pornô proibido
não será mais santa
também sou teu menino,
teu Rei
sem reinado, sem fortuna.
A televisão ligada esconde a tua geração
mil e uma histórias em uma noite
muitas coisas caem do céu
caem pequenas estrelas de gelo
grandes estrelas de dianmite
sapateando no ar
o beijo da sola
e o odor que rejeita tua presença
diante da tua vergonha;
das crianças que não nasceram
das mães que não pariram.
Fabiano Soares da Silva
(do livro Pequeno Livro de Poemas)
Pétalas

Por um disfarce natural,
deixo pétalas para serem por ti contempladas.
Te trago pétalas, pois são as cores da rosa
que lhes dão o ar de desejo contido.
A face permanente do amor pode mudar sua forma,
mas mantém a essência.
A rosas falam através de suas cores, suas pétalas,
as vidas se manifestam pelos seus amores,
motivos do viver.
Giano Azevedo
(Do livro Caminhos da Vida)
A Hora Absoluta

Estranhos, meus mortos abrem as janelas
penetram em meu quarto
e me sufocam.
Insinuantes, me beijam e sangram em mim
alegrias e pecados
acariciando, sem pudor
meus sonhos, minhas partes e meus ossos.
Meus mortos e seus gemidos
têm rostos, sinais
e olhos que fagulham calafrios.
Ousados, vêm no breu do sono
e dormem em minha cama
e me despem
e se debruçam sobre meu corpo
silentes e queridos
e rezam e choram por mim
como a lua clamando sua outra metade
como um espelho colando os próprios vidros.
Meus mortos sem censura
meus delicados mortos
que, à noite, penteiam meus cabelos
e, solidários, preparam o meu jardim.
Tanussi Cardoso
(Do livro 50 poemas escolhidos pelo autor)
Quando não se acredita

a vida até que é boa
quando você não acredita
em comerciais de margarina
em novelas do manoel carlos
a vida até que é boa
quando você não acredita
em deus e no diabo
no certo e no errado
a vida até que é boa
quando você não acredita
em previsão do futuro
em remissão do passado
a vida é boa
quando não se acredita
quando ela simplesmente
(se fingindo de acaso)
te surpreende
Beatriz Provasi
(Do livro Esfinge)
Mil sóis

Nessa noite
Meus desejos
serão iscas
atiradas ao mar
dos tubarões.
Nessa noite
meus desejos
serão nacos
de carne quente
lançados aos lobos.
Ainda nessa noite
meus desejos
serão grãos de areia
soprados nos olhos
dos camelos em caravanas.
Mas ao final
dessa mesma noite,
meus desejos
já traduzidos em canção,
seguirão velozes
num luzir de estrelas,
antes que um clarão
de mil sóis, venha
estilhaçar a cena.
Brasil Barreto
(Do livro Farpas & Fagulhas)
Taça Poética

Há um vaso dourado sobre o escrínio
Que decora um recinto azul-turqueza,
Ofertando reflexos de fascínio
Aos que sondam o reino da pureza.
Há magia e luz neste condomínio
Esparzindo os arcanos da beleza...
Quem com o estro coabita em tirocínio,
Fertiliza a existência com lhaneza.
Assim como os antigos navegantes
Procuravam tecer notas distantes
Seguindo fielmente a estrela-guia,
Quando o tédio quer invadir meu ser,
Eu procuro guiar meu proceder
Com faróis desta taça de estesia.
Rubenio Marcelo
(Do livro Horizontes d'Versos)
Frederico

Chamava-se Tristeza e Frederico.
Jamais disse palavra que ferisse.
Ladrão de lua, sonâmbulo pateta,
morreu de hepatite e ser poeta.
Andava sempre como quem inventasse coisas:
uma pera de vento, um filho de madeira,
uma aurora mecânica, um deus, um gato
dançarino, o fogo eterno.
Um dia se perdeu.
Procurou olhos, mãos, braços.
Encontrou apenas sulfas,
um pouco de sonho numa garrafa.
Coração sumiu no ar.
Frederico fez força pra ficar no poema.
Pra que, Frederico?
Pedro Ernesto de Araujo
(Do livro Frederico e outros poemas).









