Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



quarta-feira, 6 de abril de 2011

Morte primeira de um outro querido

dentro parecia
se mover a morte
como um boi pequeno transita
pelas vísceras da cobra
depois de engolido em boca grande:
a morte já se mexia.
intuída num choro sem razão aparente
com o seu suspensório entre o nosso leve abraço :
descia
indigesta
ácida
até
o
fim
do gordo corpo.

eu que mato Deus todos os dias
não sei onde você está
mas sabe onde estou?
na Copacabana que você tanto gostava
mas aquela, avô, também já morreu
e parece que hoje vocês têm a mais fatal coisa em comum.

faltei sua última grande festa
seria um estrangeiro naquela terra preta
onde ninguém celebraria
ficando mais perto da comédia
a cada aperto da desgraça
conteria eu uma gargalhada?
olhariam lancinante
na dança entre túmulos e flores
o tango que você tanto gostava...

seu charuto, seu cachimbo, jazz, whisky e suspensório
seus caros gostos
quando já não podia pagar
foram os cifrões com as árvores queimadas
naquela Mato Grosso de terras suas grandes
do ceifado verde onde se esculpiam cadeiras, mesas e tronos
poderia eu receber maior herança
do que esses amigos-livros deixados ?
do que essa máquina de escrever que datilografa meus olhos todos os dias?
do que seu jazz letárgico condutor de leões?
seu livro de luz ainda não vista?
seu Zeca Malandro de Santa Teresa?
já sentia a solidão como estrela do quase manhã e deserto
agora é mais.
eu nascido de própria placenta
catarei a pá da morte quando bem quiser
e profundamente acredito
que a gente só morre quando quer

resta respeitar a sua decisão de partir
e só.
resta ler seus escritos e conhecer outras multidões suas desconhecidas
para matar saudade daquela turma que conheci.
resta o acaso da sua morte no sono
resta o seu ronco que era um navio chegando
e partindo de outro lugar você foi
sem maiores avisos doentes
como quem some de uma festa
pelo sexo e a moça encontrada
salva é minha dor pela nossa convivência de corpos distantes
porque o cotidiano é que ressente...

Anuncio: é chegada a horda leonina!
com força maior de destruir
tanto maior é o esquecimento
e com essas sementes-páginas que eram suas
já crescem como espinheiros grandes labirintos.

carrego agora a imaginação do teu corpo no meu.
darei a essa leve dor também felicidade
a menor máscara de todas
que é o nariz do palhaço
você morreu:
nasce Lupi.

Do seu coração parado e frio
surge um andar também de suspensórios
que me fará rir de mim mesmo
antes que os outros o faça.

Poema de Carlos Jubah

Clarice: a Lispector.

 

Trecho de um filme inexplicável, ousado, notável, porém de pouca explicação. Detalhes escorregadios, fragmentados, mas de grande intensidade e emoção. Assim sinto Clarice, a Lispector. Uma diva vestida de camaleoa, traçando fundo toda sua angústia, sua veracidade.

Irreverência nata, cuja mesma embasbacava e a alguns amedrontava. Ao responder perguntas em entrevistas, primeiro, o olhar verde banhado de breu, marcando fundo os olhos de quem a entrevistava. Pausa... E resposta. Fala intrépida, cortante, sem ponto final. Dona de si, regada de carência transparecida em seu ar de rainha e urgência.

A impressão que atormenta-me é que Clarice tinha uma fera feroz ferida dentro de sua vida, e de muitas vidas que a mesma criou. Sempre com resposta na ponta da língua. Pobre de mim tentar definir o inefável. É como nadar num mar estrangeiro de mais pura beleza, e o máximo que eu consegui dizer foram detalhes óbvios, sentimentos fortes, porém externos.

O que seria da literatura brasileira e do mundo sem Clarice? Menos ricos. Clarice compõe com grandeza junto com outros tesouros da terra Brasil. A pluralidade cultural e a liberdade de expressão através da escrita, sendo uma personalidade marcante no meio. Tenho certeza que seu filho ou sua filha de doze anos já ouviram falar de Clarice Lispector. Uma mulher que em forma de um vulcão em erupção entrou em cena... E quando se foi deixou o grito de sua voz ecoando como música que nunca fica careta.

Ao ler Clarice é preciso ter fôlego, pois é um suspirar atrás do outro. Dizem: "meu Deus, que mulher é essa..." Quantas marcas, quantas farpas, quantas palavras que muitas das vezes nos identificamos, aguçando nossas mentes, inquietando nossos sentidos mais reprimidos, aflorando em nós uma vontade louca de desatar nós, sendo tomados por um enigma que impregna. Ser for minha sina ler Clarice, quero seguir assim, sendo arrebatada por puro êxtase.





((( Camila Senna )))


http://minhaalmaepoesia.blogspot.com/

 .

terça-feira, 5 de abril de 2011

Lanterninha

Amnésia
Poltergeist
Assassinos por natureza
Koyaanisqatsi

Cortina de fumaça
O céu que nos protege
Cova rasa
A canção de Bernadete

Shine
Um mente brilhante
Pequena miss sunshine
Família rodante

Morango e chocolate
Insônia
Como água para chocolate
A excêntrica família de Antonia

O auto da compadecida
Fantasia
Trem da vida
Festa de família

Psicose
Nascido para matar
Z
Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo mas tinha medo de perguntar

Gata em teto de zinco quente
O incrível exército de brancaleone
Parente é serpente
Indiana Jones

Um drink no inferno
Clube da luta
Tempos modernos
Irmão sol irmã lua

O anjo azul
Nell
A liberdade é azul
Cães de aluguel

Ran
Um sonho de liberdade
A vida de Brian
Luzes da cidade

Os pássaros
Tess
A rosa púrpura do Cairo
O falcão maltês

O livro de cabeceira
9 semanas e ½ de amor
Ensaio sobre a cegueira
Rebobine por favor

Fanny e Alexander
O enigma de kaspar hauser
Perfume de mulher
Taxi driver

Golpe de mestre
Adeus minha concubina
Morangos silvestres
Paisagem na neblina

Edward mãos de tesoura
Carrie a estranha
Mulher solteira procura
O beijo da mulher aranha

Delicatessen
O selvagem da motocicleta
Seven
O carteiro e o poeta

Gilbert grape
Anticristo
Sexo mentiras e videotape
A última tentação de cristo

O touro indomável
O ódio
O gênio indomável
Rastros de ódio

Um estranho no ninho
Tubarão
Marcelino pão e vinho
O poderoso chefão

Chinatown
Inteligência artificial
Apocalypse now
O pagamento final

O bebê de Rosemary
Alien o oitavo passageiro
Jê vous salue Marie
Os bons companheiros

O sol da meia-noite
O colecionador
Os embalos de sábado à noite
O último imperador

Cassino
Os intocáveis
Sem destino
Os imperdoáveis

Linha de passe
Cabo do medo
Scarface
Meu pé esquerdo

Não amarás
Em nome do pai
Não matarás
Um corpo que cai

Fargo
Platoon
Doutor jivago
2001

Laranja mecânica
Coração valente
Coração satânico
O silêncio dos inocentes

A primeira noite de um homem
Os suspeitos
Os últimos passos de um homem
Tomates verdes fritos

Paris Texas
Kids
Despedida em Las Vegas
Trainspotting sem limites

Vestígios do dia
O iluminado
Profecia
Curtindo a vida adoidado

TVSBT
Ditadura do plimplim
VHS DVD
A história sem fim
TV a cabo
TV a gato
DVD pirata blue Ray
Coca
Pipoca
Cinema em casa é de lei

Poema de Andri Carvão

Profissão poeta...

Abril 04, 2011



Profissão: POETA
por Mariana Filgueiras

Parece difícil rimar contas do mês com poesia, mas não para todo mundo: há quem viva de livros, sites, oficinas literárias e até eventos para empresas

A polêmica sobre o valor autorizado pelo Ministério da Cultura para captação de recursos para o blog de poesias da cantora Maria Bethânia — R$ 1,3 milhão — deu novo fôlego a um debate há muito esquecido: o valor da poesia.

E, principalmente, o valor de quem a promove. Se o montante pedido para o projeto “O mundo precisa de poesia” é muito ou pouco, talvez nem os 72 heterônimos de Fernando Pessoa saibam dizer. Mas fato é que muita gente, com muito (muito) menos, consegue não somente divulgar, mas até viver de poesia. De autores laureados a vendedores de rua — aqueles do desconcertante “Você gosta de poesia?” — fomos atrás das histórias de quem encara os versos como ofício.
Nos anos 70, quando integrava o grupo de poetas Nuvem Cigana, Ricardo Gomes, o Chacal, chegou a trocar o próprio relógio de pulso por um jegue. O animal seria muito mais útil para quem pretendia viver de poesia num sítio no Sul Fluminense.

Em outra ocasião, decidiu passar um tempo em Londres, mimeografou cem cópias do livro “Preço da passagem” e vendeu no Baixo Gávea. Hoje em dia, avalia, o poeta tem uma realidade muito mais favorável.

— Eu vivo de poesia há 40 anos e posso dizer: as coisas mudaram muito — atesta Chacal, aos 60 anos, enquanto prepara a primeira oficina (remunerada) do g r u p o d e p o e s i a C E P 20.000, fundado por ele há 21 anos. — Hoje, há oficinas, editais, rodas de leitura, eventos pagos. Ainda não é uma situação ideal, muitos grupos precisam de apoio. A poesia corrige o analfabetismo funcional, melhora o uso da língua, malha os neurônios. Hoje, o governo compra poesia e distribui nas escolas, coisa impensável anos atrás. Não sei se aumentou o número de leitores. Mas a circulação e a remuneração, com certeza.

O poeta Ramon Mello, aos 27 anos, é um exemplo de uma novíssima geração que já experimentou esta boa fase. Ramon deixou a pequena Araruama, na Região dos Lagos, aos 16 anos, para estudar teatro no Rio. Como sempre gostou de ler e escrever poesia, criou um blog em que entrevistava autores iniciantes. Ex-editor da Língua Geral, Eduardo Coelho visitou o site e depois perguntou se Ramon tinha algum livro pronto.

Nascia assim “Vinis mofados”, lançado em outubro de 2009, com excelente recepção.
O blog deu origem a um site mais estruturado, onde Ramon já entrevistou mais de 80 escritores. Uma coisa puxou outra: numa das entrevistas, conheceu o escritor Rodrigo de Souza Leão, morto há dois anos. A convite da família, tornou-se curador da obra dele. Em pouco tempo, passou a cuidar também da obra de Dinah Silveira da Queiroz e organiza a antologia de poemas de Adalgisa Nery. Novas poesias vêm em ideias anotadas no celular, o blog segue online e o próximo livro já está quase pronto.

Em janeiro, Ramon organizou, com Chacal e Heloisa Buarque de Hollanda, o festival de poesia “A palavra toda”, e passou a dar oficinas para jovens poetas. Numa delas, no Sesc Tijuca, “adotou” o menino Thiago Levy, de 16 anos, exvendedor de balas que se inscreveu por indicação da professora de Português do colégio público.

— Ele entrou todo marrentinho, e achei que estava ali por engano. Mas ele soltou:
“Ué, aprendi na escola que o Machado de Assis vendia bala, que nem eu”. Como quem diz: “Eu quero ser poeta, como faz?”, ou algo assim. Passei num sebo, catei alguns livros, fiz um “kit-poeta” e dei a ele. Acho que primeiro você vive para a poesia, depois aprende a viver de poesia — ensina Ramon, de malas prontas para Recife, onde ministraria as oficinas no Festival de Literatura Digital, seguindo depois para a Festa Literária de Porto Alegre.

Quando decidiu ser poeta, o niteroiense Paulo Betto Meirelles, de 23 anos, também deu seu jeito: largou a faculdade de Direito, para desespero dos pais, publicou o primeiro livro (“Tabuleiro de egos”) e levou para Niterói o sarau noturno Corujão da Poesia, evento semanal que já frequentava numa livraria do Leblon desde os 19 anos. Criado pelo poeta João Luiz de Souza há cinco anos, o Corujão funciona como uma vigília literária: toda terça-feira de madrugada, o microfone está aberto para leitura de poesias. Quem está sempre lá é o músico Jorge Ben Jor, padrinho afetivo do evento.

— Propus ao João fazer o Corujão em Niterói, ele topou, e hoje a curadoria virou meu trabalho. Meus pais foram ver uma vez, acho que estão se acostumando com a ideia de que poeta também pode ser uma profissão — conta Paulo, que ainda é compositor e músico da banda Pelicano Negro. Foi no Corujão da Poesia que João descobriu uma maneirade remunerar os poetas mais “entregues”:

— Eu vi que gente importante entrava na livraria por acaso, enquanto estávamos botando fogo no Corujão, e olhava interessada. Então eu pensei em apresentar os poetas a esses empresários, oferecendo pequenos saraus para empresas. Deu certo, com o lema “torne o seu evento mais inspirador e emocionante, inclua poesia na programação”. Hoje, instituições como Tribunal de Justiça do Rio, Senac, Firjan e empresas contratam poetas, sempre pagando cachês dignos — reforça João, que já “exporta” seus poetas para eventos no país todo.

Uma delas é a atriz e poeta Betina Kopp, 27 anos, que se formou em Educação Física mas nunca quis exercer a profissão. No Corujão, Betina recita poesias próprias, mas especializou-se nas alheias. Já gravou audiolivros e criou performances poéticas — numa delas, oferece um menu de poesias para degustação, em que declama o “poeta-prato” escolhido pelo espectador — e apresenta-se em festivais de poesia em todo Brasil.

— A poesia me trouxe muito mais do que o teatro. Já conheci 11 estados do Brasil,já me apresentei no Canecão e no presídio Bangu 1, mostrei poesias a gente que nunca tinha lido um livro e ainda recebo por isso — diz Betina, que para a foto posou com as colheres-adereço que usa em suas performances.

Após dez anos trabalhando com poesia na editora 7Letras e na revista eletrônica “Modo de Usar & Co” (que publica em parceria com os poetas Ricardo Domeneck, Fabiano Calixto e Angélica Freitas), a poeta Marília Garcia, de 32 anos, decidiu dar aulas de teoria da poesia em universidades. Às vésperas dos concursos públicos para professor de faculdades de Letras, pode ser encontrada submersa nos livros na biblioteca da PUC.

— Ao longo desses anos na editora, acompanhei de perto o aumento do interesse pela poesia. Isso se reflete em mais possibilidades para o poeta, como a criação de um edital especialmente para a criação literária, que já dura dois anos (ela se refere ao Programa Petrobras Cultural), e na expansão dos grupos de poesia. No Rio, há eventos de poesia todos os dias — comemora Marília, lembrando que no último em que esteve como convidada, no Sesc de Jacarepaguá, surpreendeu-se com a quantidade de jovens na plateia. Depois desta entrevista, Marília aproveitou o tema e publicou em sua revista-site um poema de Bénédicte Houart que começa com os seguintes versos: “Com os direitos de autor/ do meu primeiro livro de poesia/ comprei um m&m amarelo/ duvido que alguém tenha saboreado os meus poemas/ com tanto alarido.”

— A relação tão forte com a poesia, no meu caso, vai além do trabalho com os versos, é um modo de ver o mundo, entender as coisas — diz Armando Freitas Filho é uma espécie de “Rilke coroa”, como ele mesmo define. Poeta há quase 50 anos, com 15 livros publicados e muitos prêmios para apoiá-los na estante, é a ele que recorrem jovens poetas ansiosos por orientação. Exatamente como fazia o jovem Franz Kappus com o poeta alemão Rainer Maria Rilke, no início do século passado — e que poeta iniciante, brasileiro ou alemão, não tem a correspondência trocada entreos dois, as famosas “Cartas a um jovem poeta”, no fundo da mochila?

A diferença é que Armando, aos 71 anos, faz tudo por email. Da ânsia dos jovens poetas, ele garimpa os textos mais bem escritos e indica para publicação. É assim que Armando vive de poesia: além de escrevêlas, trabalha atualmente como consultor das editoras. Foi ele quem descobriu as jovens Alice Sant’Anna, de 22 anos, e Laura Liuzi, de 24, que tiveram os primeiros livros (“Dobradura” e “Calcanhar”, respectivamente) muito bem recebidos no meio literário. A próxima aposta de Armando é Silvio Fraga Neto, de 24 anos. Seu primeiro livro vai inaugurar o selo de poesia da editora Bem-te-vi, no próximo mês de junho.

— Fico feliz em apresentar uma novíssima geração. É preciso conhecer poetas novos, senão ficamos com Fernando Pessoa a vida inteira — provoca Armando. — E o melhor é que o trabalho deles é completamentediferente. A Alice roça na poesia de Ana Cristina César; a Laura tem uma escrita mais subjetiva, com mais sombras; o Silvio tem o perfume da brilhantina de João Cabral — elogia o poeta, que teve como um Rilke particular ninguém menos do que Manuel Bandeira.

Quando foi convidado a dar a primeira palestra, no início dos anos 70, Armando percebeu que não estava fazendo um favor, mas um serviço: e que para isso precisava cobrar, oras, afinal não se vive de brisa. Juntou-se ao poeta e amigo Cacaso e juntos montaram uma tabela de preços que usariam a partir de então.

— Não deu muito certo, e eu só fui ser bem pago quando os poemas foram incluídos em livros didáticos — lembra Armando. — Ano passado, meu filho mais novo fez vestibular e trouxe a prova para casa: não é que estava lá um poema que escrevi aos 20 anos? Das três questões relacionadas a eles, acertei duas. E o mais curioso é que o gabarito das três era “C/D/A”, as iniciais de Carlos Drummond de Andrade. Concluí que Drummond é sempre a resposta certa. Da sua casa, na Ilha da Gigóia, o poeta Mano Melo, de 65 anos, concorda. Aos 16, ainda em Fortaleza, descobriu a poesia com Drummond e não sossegou mais. Veio morar no Rio, onde fez parte da “geração mimeógrafo” e de grupos de poesia renomados, como o Ver o Verso, com Claufe Rodrigues e Pedro Bial. Publicou oito livros e hoje conta mais de 40 anos pagando as contas com poesia. E com um pouco de sorte...

— Já passei muito aperto, os deuses da poesia te cobram muito, estão sempre testando sua determinação. Mas sempre que fico pendurado aparece um trabalho muito legal para fazer — conta. — Foi assim quando cheguei ao Rio, nos anos 70, e é assim até hoje. Foi vendendo livros de poesia mimeografados do Leme ao Leblon que juntei dinheiro para passar um tempo na Índia. Quando voltei, tive a ideia de fazer recitais nos auditórios das escolas particulares. Que professor de português recusaria? — recorda Mano, que teve entre os compradores de livro a escritora Clarice Lispector. Mano escreve todos os dias, das 15h às 2h. Acabou de concluir o novo livro, “Poemas do amor eterno”, que será lançado em maio. Mano também faz poesias sob encomenda, muitas para publicidade. Com forte sotaque cearense, gosta de repetir uma história que ouviu em Cuba, durante um evento literário para o qual foi convidado: um dos participantes contou que o filho fizera um pedido ao governo para trocar a profissão de enfermeiro pela de poeta, mas mantendo o salário.

— Ele me mostrou a respostado governo, aceitando a reivindicação, mas exigindo que o rapaz entregasse um livro por ano. Inacreditável, não? — espanta-se Melo, que vez por outra complementa a renda fazendo pontas em novelas.

Se o leitor reconhecer sua fisionomia em algum papel de porteiro, pode ter certeza: ali está um poeta despercebido num uniforme.

Assim como passam batidos os jovens do grupo Geração Delírio, que batem ponto todos os dias, depois do almoço, no “escritório”: as escadas da Biblioteca Nacional. De domingo a domingo, Paulo Alves Filho, Nelson Neto, Thiago Oliveira e Thiago Carvalho atravessam o caminho dos passantes para oferecer zines de poesia com a mal-recebida pergunta “Você gosta de poesia?”.
— De cada cem pessoas, umas 20 compram. Mas só uma dá atenção, para, conversa, lê, estimula... — conta Nelson Neto, que se sustenta há seis anos com os cerca de R$ 700 que tira por mês vendendo poesia por aí nas ruas.

Parceiro das calçadas de Nelson todos esses anos, Paulo foi alfabetizado pela mãe, em casa. Empregada doméstica, ela levava gibis dados pela patroa ao filho, que começou a devorar as revistinhas de “Dylan Dog” e a buscar novas leituras, até trombar com Augusto dos Anjos, o poeta preferido.

Hoje, é Paulo quem ajuda a mãe, com o dinheiro das vendas de sua obra.

— A gente se vira, sobrevive, mas não adianta nada se não houver leitores — analisa o rapaz.

Fonte: http://sorrisodogatodealice.blogspot.com/





Hoje...Não!

Entre o sofá e o quarto
É um caminho largo...
Não pode ser percorrido
Em um dia, um minuto
Como, se nada!
É muito...
E nem o perfume do
Ramalhete de rosas
Sobre a mesa e,
A música de Jimi Hendrix
Tomando conta da sala
Ajudam para o perdão.
Hoje, não!
Mesmo com tantas
Tentações...
Fecho a porta do quarto
E aumento o volume
Da televisão...

Poema de Sandra Soares

Sina

de mãos dadas corríamos o mundo
algo parecido com voar
o calor das conversas ao pé do tapete
não havia hora vazia
tantas lágrimas misturadas ao riso
ficaram na parede da cozinha
tantas pessoas nos cabides da memória
carregavas o amor no cheiro das lembranças
não percebi que tu corrias
porque andaste tão aflito?
mas sabe ainda não pude
ainda não fiz tanta coisa
sequer fui um talvez
ainda não doi profundamente em uma manhã
ainda não adquiri mais espaço
para abrigar viver mais
venho e vou a inumeráveis ventos
mas que acordo foi esse que fizeste?
em que fazes a mão pousar na última lembrança
em que sina te meteste?
onde tudo vira névoa e nada responde
tempo não deslize
me dê tempo sem ruir
ainda não plantei girassóis dentro de mim
permita que meu corpo siga adubo de si
me escorregue aonde vá
não me pare por aí
me leve, me guie

Poema de Vânia Lopez

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Somos mais que uma bunda...


 
Sangue vivo?
Apenas um detalhe em nossos corpos.
Apenas um detalhe em nossas vidas.
Jorramos sangue todo mês
Não tem escassez
Somos fortes!
Tem tempero com coentro
Lençol enrolado no sexo,
Batom na boca,
Sutiã no quarto,
Camisola no banheiro,
Calcinha na mão,
Risadas escandalosas...
Rugas na testa por preocupação.
Ligação para saber se o filho chegou bem,
Café forte fresquinho para inspirar
Adereços para encantar,
Uma vitamina de cores...
De Atitude,
De Amores,
De Vontades...
De pés audazes.
Barrigas que parem
Peitos que caem.
Bunda? - Mais que uma bunda...
Uma mulher, um mulherão!...
Cheia de cio,
Dona dos seus,
Amante da vida...
Que a vida dela deu.


((( Camila Senna )))
 
 
 

Poética Hermética

Poética do breu
Poética do deserto
Poética do vazio
Grito silente
Silêncio ensurdecedor

Pode ser que sim
Pode ser que não
Pode ser que seja
Que seja então

De qualquer jeito
De qualquer forma
De qualquer modo
De qualquer maneira

Tudo tem um porém
Nada também

Mas apesar dos pesares
E apesar de tudo
Sigilo absoluto

Um dia dança
Outro dia se dana
Quando não se lasca
Se fode

Até que um dia
Talvez
Você tenha vez
Mas também talvez
Não tenha talvez
E ao invés de
De vez em quando
De quando em vez

Num estalar de dedos
Num piscar de olhos
Numa fração de segundos
Num átimo

Falo ou me calo?
Falo agora,
Me arrependo depois.
Mas falo!
O ser humano é falho.

Identidade secreta:
Poeta!

Para se separar
O diamante fino
Da pedra bruta,
Uma tonelada e meia
De engenho e arte.
Quem se habilita?

Eu acredito piamente
Eu acredito cegamente
Eu acredito até a loucura
Que vale a pena

A poesia é a infância da Humanidade.

Poema de Andri Carvão.

domingo, 3 de abril de 2011

SUI GENERIS É PRECISO QUE SE GRITE PELO AMOR QUE FICOU NO ESTICAR E NO DOBRAR DE LENÇÓES. É PRECISO PÔR O AMOR SOBRE A MESA NA XÍCARA DE CAFÉ REQUENTADO. É PRECISO PROCURAR O AMOR NOS LIXOS DA COZINHA,NO BANHEIRO, NO QUARTO,NO SAL E NO PALHEIRO. EXERCITAR O BEIJO É PRECISO COMPANHEIRO. TROVOAR O AMOR QUE ADORMECE AS NOITES NO CÉU QUE RELAMPEJEIA. É PRECISO SUSPIRAR O AMOR COMO SE FOSSE A PRECIOSA VIDA DOS FILHOS É SUI GENERIS NINAR O AMOR PARA QUE OS SONHOS NÃO SE ACABEM. É PRECISO DAR BOM DIA AO AMOR ANTES DE REPARAR NO CABELO DESFEITO. É PRECISO URGENTEMENTE SURPREENDER O AMOR POIS, O MARASMO E A MARESIA TRAZEM UMA CALMA DESNECESSÁRIA AO AMOR IVONE LANDIM DO LIVRO XXI POETAS DE IGUASSÚ.

sábado, 2 de abril de 2011

Assomo de raiva,
Cansado de tráfego,
Na lívida alcova,
Após o trabalho,
Tu queres prazer.
Amor tu desejas,
Amor, entretanto,
Tu queres sentir
Vibrando no corpo.
Que corpo, que amor
Se todo o fervor
Gastaste nas ruas,
Real sacrifício
De um corpo arruinado
No estuo do sangue?
Tesão vem de pílulas,
Amor das revistas.
Consome, criança,
Porção que te cabe.
Não sofras, não ames,
Encenas tão bem
Tesão e teus casos,
Amor infinito:
Teatro do ser.
Cartório haverá
Que te restitua
O eterno desejo
De amar para sempre –
Clangor corporal.
Por isso não chores
(De fato, não choras!)
A raiva de agora,
Teu pênis caído
É mero detalhe
De amor velho e gasto,
De um corpo abatido
Do dia e semana.
Agora, porém,
Chegou teu remanso:
O fim-de-semana
No rádio a canção
Renova teu ânimo
Seduz com promessas
De um sábado à noite
Repleto de amor.
A vida é a arte
Do encontro já diz
Ditado da moda.
Então, sai à luta,
Criança inconstante.
Nas ruas e bares
Conversas e danças,
Teu copo de uísque
Com outros tilinta,
Pois ébrio de amor
Almejas estar
Nas ilhas de amores,
Ainda que dure
O parco momento
Do orgasmo comprado.
E à noite sozinho,
Depois do motel,
Transido de frio,
Calado em perguntas,
Tu lanças um grito
E escutas somente
Silêncio e sigilo
Dos corpos alheios
Entre ecos profundos.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

Poema Insólito

Quem cuida do descuido?
Ninguém! Num improviso
Resolve-se, contudo,
O credo e o seu benzido.

Nessa arte do vale tudo
Que liga esse sorriso
Suspenso e meio confuso
A um décimo inaudito.

Agir nesse impreciso
Requer esforço e estudo.
Deboche que não é visto;
Cuidado é sobretudo.

Poema de Yayá

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O abandono

Eu sou João. Mas se olho no espelho, a imagem que vejo é aquela do demônio. A besta fera de sete cabeças, as bocas cheias de grandes dentes pontiagudos. A dor é imensa. A baba escorre pegadiça de minhas bocas. A dor é intensa. Os globos vermelhos saltam de minhas órbitas. A dor é insana. Sou meu próprio labirinto aqui na ilha de Patmos. Para descer de onde estou - para dentro de mim - percorro uma miríade de escadas através de nuvens, repleta de bifurcações. Sigo passagens por entre estranhas formações de vapor. São as minhas próprias entranhas. Essa é a única mística na qual ainda acredito. No passado dessas paragens - que agora nada mais dizem - um estrangulamento do tempo colapsou o eterno porvir, naquele que é. Observo a noite. Observo as estrelas. São tão belas! Mas estão ausentes. Por que nos abandonaste? São inextricáveis possibilidades de seres. Desdobramentos da existência. E não adianta lutar: habita-me o devaneio. Um remoinho sobre minha cabeça. (Não eram sete?)


www.jorgexerxes.wordpress.com

Texto de Jorge Xerxes

Me dei o amor...

Camila: a Senna


Eu posso tudo no meu poema.
Posso tudo que vivi.
Dou-me de novo os tapas que tomei.
O tiro que não me atingiu.
A erva que não me matou.
O feitiço que não me derrubou!
Eu posso! Posso tudo no meu poema!
Agora eu quero viver!
Quero gozar,
Quero me dar o presente mais prazeroso...
Que a vida bonita demorou a me dar...
O Amor.


(((Camila Senna )))




SERÁ? (Samantha Barreto)

                                               
Autora:  Samantha Barreto
Blog:  http://marvelousdreams.blogspot.com

Não vale mesmo nem sequer um suspiro,
mas me arranca montes e montes deles.
Não entendo esse tamanho poder.
Talvez eu seja obrigada a acreditar,
que estamos mesmo destinados a ficar juntos.
Pois então, se me pertence, por que não fica de uma vez?
Por que não fica, e me tira essa dúvida.
Será você, minha lagosta

terça-feira, 29 de março de 2011

VENTO COM NUVENS (Arnoldo Pimentel)



VENTO COM NUVENS
Autor: Arnoldo Pimentel
Esse poema faz parte da Trilogia do Dia Nublado, a cena da moto é inspirada na liberdade poética do
meu amigo e parceiro Sérgio Salles-Oigers


Parece até que vi a praia
Que ouvi gaivotas
A minha volta
Quase senti suas palavras
Tocarem meu rosto
Olhei pro céu
E não vi o sol
Subi em minha moto
E segui sem destino
Sem sentir o vento
Nos óculos escuros
Apenas segui por ai
Sem pensar em nada
Na tarde nublada


Xeque-Mate

O cavaleiro toma um chão
O cavalo em disparada
O mensageiro das más notícias
Numa mão bandeira na outra
Espada e cabeças cortadas
Meu reino por um cavalo

O príncipe virou um sapo
A carruagem abóbora e a princesa
Perdeu o cabaço na escadaria
O cocheiro é um homem
Um rato um saco de batatas
Ou farinha do mesmo saco

A tartaruga é uma lesma
E a lesma um bicho-preguiça
O bobo da corte é o povo
Maltrapilho enrolado em
Bandeiras rasgadas empunhando
Machados e enxadas

Castelo de cartas e de areia
Rolam os dados na roleta
E o tempo na ampulheta
As torres tomadas incendiadas
E tombadas os jardins de ossos
Cachorros magros e raivosos

O trono de ouro e o cetro
De ouro e a coroa de ouro
E o coração de pedra e a alma na lama
Por uns parcos trocos trinta
Tostões o conluio dos bispos
Os conchavos políticos

A armadura de lata e pena
Vermelha no capacete de lata
Rubro o tapete em chamas
De sangue a rainha está nua
O rei está morto viva o novo rei
O dízimo mais os impostos

Poema de Andri Carvão

Poetas...




Em cinco minutos...
Vi o mundo.
Minha visão panorâmica filmou
Os gestos, os afetos e os incrédulos.


Era cabeça baixa
Olhando para o nada,
Eram risos vazios
Sem entender por que sorria.

Vozes que falavam de tudo,
Menos de poesia.
Essas vozes ecoavam em minha cabeça
Feito filme de terror.

Olhos, boca, nariz, membros... E tal.
Esperando o banal...
Menos poesia, para eles: "abissal".
Coxixavam: como assim, poesia?

Diziam:
"Gente doida,
Mulheres malucas,
Coisa mais brega,
Periferia de merda"!

Não é por aí não, meu semelhante...
Somos poetas!
Você não sabe, mas a poesia liberta!
Desfaz o preconceito fazendo-nos enxergar o mundo...
Para uns, "mundinho"; para nós, poetas, mundo indizível.

Mas no meio de tanta gente
Teve uma pessoa poesia
Que ao invés de torcer o nariz
Vibrou e nos deu um SALVE de alegria.
Parece nada, mais ganhamos o dia.




((( Camila Senna )))




Calmaria

Noite calma, calmo o vento;
Dorme o mar imorredouro,
Vela o sono o firmamento.

Some a nuvem com o vento,
Desce a terra sem estouro;
Gira a vaga e o cata-vento.

Cada feito tem seu tempo
Cada flor, o seu tesouro.

Poema de Yayá

segunda-feira, 28 de março de 2011

Carta-Deixada

acesso: negado.

letrado, incorrecto.
inerte conceito por in.recuperação
meus redarguidos dados, incompletos
exceptuados..
deixados à in.razão em partes da soma destes erros
qual preço eleito por inserção de cena
à mesma im.presença
à sempre-resenha de lutas-antes ou prévias-quase de identificações
tão dissendentes,
em relevo-sêlo por tentativas
sempre ílicitas,
revestidas,
vãs..

na condição humana de se re-querer

ou, arbítrio.
lado.
lado continuado em
ilusão e lado. reticente
(apenas, parte da mente)
qual prévia da minha ilusão e
mente-cárcere-de-ti.

- vi-me.

alívio em altura imediata por inserção
eu entreguei-te o ouro dos sóis..
à nudez da tua cama. sem chama em frame que te recupere:
inteira.
a maneira sem letra da qual eu nao ouso me confessar..

à
cena.

tão percutida e.de paragens incautas, em
um voto
devoto. da cruz. do.
amém..
e
te digo.
exímio ponto perdido que te conto..
por um palco sempre-incurso, o
meu discurso
retirado
(além, além...)
peculiar de discórdia, à hora-re.volta por onde me sei
é
casa. da manhã, da história onde meu corpo ao pó, te forma
cai e me consola, por:
nunca mais te ver..

eu sei
saudade nunca é à verdade que supus..
na prima ordem qual diária da artéria repetida por teu pulso
(meu outro conselho pra descartar..)

ah, carta..
verifica meu anseio quando me tomar pra registro
me
queima.. com as incisões das preces re-vindas dos templos dela
e me aquece quando não mais ter, o.
fim.

Poema de Azke

Com vi-te de amar

Sucumbe a certeza velha

ao dizer

que talvez tenha encontrado

outro rei desgovernado.



certa forma incerta

ainda alegra meus pensamentos

e mora na calma

o saber

que não é a memória de ti

és tu próximo

e para

tu

o convite

de conversar a vinho

quando puder e quiser

porque pelo que não é sabido

aquela tarde de hoje intui

o que ainda não sei

do teu

mas meu

Dionísio

ainda quer te ouvir

e falar

para um

que não é mais aquele

mas o outro

ainda quisto encontro

com a naturalidade sã do mar

fazendo onda

a saber :

meu corpo leve te quer

sem só por isto

queiras ler

quer como quer o mundo

antes enganado

pensava

amando um todo

que era não ter


Sim, antigo amor e novo quê,

mataram as paixões!

E o que fica são nossas vontades

apesar de.



A rocha antes submersa

depois da maré:

morreu.

(entre paixões suicidadas

de 21 de maio a a-gosto)


Em que pese

o que é de aquário

e não pesa

o jogo do post mortem

das re(l)ações

idealizadas

cá estou

com a coragem branda

de te chamar

depois de tudo claro

depurado

eletrificado para dentro

do mesmo dentro

antes oco

que transborda no agora

falo a mudez dos loucos

que já serenidade

passado o outono do cair

sim.

eu sou um sim

dito apenas

não

ao desamor

intolerável

no mesmo

estreito:

agora.

o que tens e quem sou

é desmedido

como acaso qualquer

e já nem ligo

aquilo de solar

rosa e abóbora

nada afirmado pela repetição

mas pelo que há de lua

a tocar

mais ainda profundamente

assim me parece

tudo ter sido

um trágico ensaio


nem sabes

não que importe

mas intuí no corpo

a tua chegada

como quem rastreia um cheiro

antes de lá no mar

e à beira

encontrar

repetindo

sim

ainda te adimiro

mesmo unguando

teus cortes na minha vaidade

agora

cuidadosamente

dela cuido eu

sem mais ferir tanto

alguém

matadas as moralidades

pelo triunfo do amoral

acredito eu nos novos outonos?

sim.

e gosto

porque te gosto

na lucidez de agora

sem precisar.

Poema de Carlos Jubah

domingo, 27 de março de 2011

O Despertar de Eva No princípio a única existência era ela Que tinha no seu inicio outro nome outra biografia outra era Nesse princípio tudo meninice Inocência, peripécia Cirandinha de gênese Mas Lilih sofreu um feitiço dos tempos E no útero da terra foi gerada a dualidade A saudade e o pesar E é a amizade que ampara as sombras Da luz da física e da ciência E a serpente se enroscou no conhecimento No príncipio a única existência era ela um fluir sem par Era a mãe dos irmãos do único luzeiro Apenas um estalar de dedos E todos sabiam o que fazer Mas um meteoro recriou o ser E fecundou a fêmea E as raças entraram em batalha E Eva ainda chora seus filhos Ivone Landim Dedicado ao poeta Marcio Rufino.

Eureka & Torvelinho

Eureka

Um punhado de terra
Caindo por entre os dedos.
Um pouco de água
Escorrendo pelos vãos dos dedos
De Deus
- EUREKA! –
E Deus criou o Macaco
A sua imagem e semelhança
E de sua costela primitiva
Partiu sua companheira inseparável:
Lilith!
De galho em galho
É natural que
Seguindo o conselho de qualquer bruxa
Experimentassem aquela fruta.
E o Tempo se encarregou do resto.
O Tempo sempre se encarrega de tudo.
Só o tempo dirá!
A Evolução é o que nos tornou
Imperfeitos.

Torvelinho

Não vomito meus poemas como se fosse um jorro de palavras
Rumino, rumino e cuspo palavra por palavra
Palavras supérfluas
Palavras super fulas

Pra onde quer que eu vá
Não vou saber voltar
Pra onde quer que eu vá
Não vou querer ficar
Só o sol
Ascende o dia
Duas luas
Era tudo o que eu queria

l ar
lu
lug

De tanto abaixar a cabeça se acaba de cabeça para baixo.

Não estamos todos no mesmo barco
Somos náufragos
Atracados cada um a sua própria tábua de salvação
Nós e a vela
Destroços de uma mesma mísera embarcação

Somos homens e ratos
Somos homens e sacos de batata
Somos todos farinha do mesmo saco
De estopa roído rasgado
E forrado de migalhas
Em meio às fezes

Somos de lua
Uivamos
Morremos na praia
Gripamos
Escalamos montanhas
Quedamos
Sós SOS sós
E mal-acompanhados
Somamos as perdas
Estamos salvos

Poema de Andri Carvão
O que desceu dos olhos
agora, nesse instante
puro, não são lágrimas
de um pierro perdido
no fim de carnaval
0 que choro agora
são toneladas imensas
de amor acumulado.

Jorge Medeiros
(08-03-2011)

APOCALYPSE (TRILOGIA) (Arnoldo Pimentel)



Não quero passar
O resto do tempo
Sob a terra umedecida
Tendo a lápide
Os dizeres:
Não sei de onde vim
Não sei pra onde vou
Nada sou



Se você não preparar seu coração
Ficará como eu
Num deserto de sal
Deserto sem sol
Sem clamor
Banhado pela dor
Perdido
Habitado pelo medo
Medo de ser esquecido
Esperando o fim
No abismo sem fim


APOCALYPSE 3.3

A dor ainda queima meu corpo
Apesar do tempo
Apesar do arrependimento
Que mesmo cortando o horizonte
Ainda não chegou
Nem mesmo o sangue
Que derramei
Amansará minha dor
A navalha ainda está acesa
E minha garganta está próxima
Do furacão que a cortará
Assim as rochas que protegem
Meu coração, e são frágeis
Irão desmoronar no meio da brisa
Iluminadas pelo luar da doce ilusão
Que o tempo levou
Pelo tempo que acabou



MANIFESTO DAS FULANAS DE TAL.



NÓS, FULANAS TEMOS O PRINCÍPIO FEMININO,NA CONSTRUÇÃO DO UNIVERSO.
SOMOS UM NÚCLEO DE CRIAÇÃO EM TODAS AÇÕES.NOSSOS ÚTEROS A PARTIR DA DOR E DO SOFRIMENTO FABRICAM GUERREIRAS E GUERREIROS...GERAMOS TODAS
PERIFERIAS DOS SERES E DAS COISAS.
SOMOS FULANAS
SOMOS MUITAS E ESTAMOS POR TODOS OS LUGARES.
ESTAMOS EM TUDO QUE FLUI,EM TUDO QUE TRANSFORMA,QUE TRANSCENDE E RETORNA.
ESTAMOS ALINHADAS AO PRINCÍPIO MASCULINO E COM ELE NÓS ESTABELECEMOS O EQUILIBRIO DAS FORÇAS, DAS ENERGIAS E VIBRAÇÕES DO COSMO.
INICIO, MEIO E FIM DE NOSSA HITORIA CÓSMICA E HUMANITÁRIA.

ALINHAMOS ARTE E DIVERSAS CULTURAS.
SOMOS COSTUREIRAS E BORDADEIRAS DE NOSSAS ALMAS,E DE NOSSOS CORPOS.
SOMOS HOLÍSTICAS.
CANTADEIRAS DA CANÇÃO DA INTEIREZA.
TEMOS DÚVIDAS E CERTEZAS.

SOMOS FULANAS DE VÁRIOS RÍTIMOS.
DE VÁRIAS VOZES.
DOS INTERVALOS DO TEMPO DA GESTAÇÃO.
SOMOS PINTORAS DA IMAGEM QUE SURPREENDE NOSSA CRUA REALIDADE.
SOMOS FLORESTA QUE ABASTECE NOSSOS FILHOS E NOSSOS SONHOS,
SOMOS ÁGUA E VENTANIA
CALMARIA E MARESIA
SOMOS REVOLTA E CONSAGRAÇÃO

NÓS, FULANAS, SOMOS O PRINCÍPIO QUE GERA E QUE AGREGA.
TEMOS O PODER DE DESTRUIR E DE CONSTRUIR VIDAS.
NÓS FULANAS, REIVENTAMOS O QUE JÁ ESTÁ ULTRAPASSADO,PARADO E ESTAGNADO.
AREJAMOS PENSAMENTOS ESTÁTICOS E BLINDADOS
SOMOS AS FULANAS DOS ESPINHOS E DAS FLORES DE AÇO
TEMOS EM NÓS UM GRANDE OCEANO DE DIVERSIDADE
E EM NOSSOS COLOS EMBALAMOS A HUMANIDADE

SOMOS FULANAS DE TAL E VAMOS VIRAR A MESA
NÃO QUEREMOS FAZER PARTE DA ALIENAÇÃO E SÓ FICAR COM O PÃO DE CADA DIA
NÃO QUEREMOS DAR AS COSTAS PARA A NECESSIDADES DAS FUTURAS GERAÇÕES

NÓS FULANAS, ESTAMOS UNIDAS PELA JUSTIÇA, PELA RESPONSABILIDADE
NO PROTAGONISMO SOCIAL
ESTAMOS EM TODAS AS QUEBRADAS ARMADAS DE CORAGEM E DE DISPOSIÇÃO PARA
DEMOLIR SE PRECISO FOR O IMAGINÁRIO CULTURAL QUE APRISIONA A GEOGRAFIA DAS MULHRES

NÓS, FULANAS DE TAL DAMOS UM SALVE PARA TODAS AS FRENTES DE RESISTÊNCIA
NA LUTA PELOS DIREITOS DAS MULHERES,POIS ESTAMOS ESCREVENDO NOSSOS
PRÓPRIOS CONTOS DE OPERÁRIAS, PROFESSORAS,MÃES,TIAS, AVÓS, CIENTISTAS,
ESPOSAS,PARAQUEDISTAS,ARTISTAS,JARDINEIRAS,PRESIDENTAS,POETAS, PARTEIRAS,ARTEIRAS E TAL...

SOMOS FULANAS REZADEIRAS DO CAMINHO DO BEM
EM DEFESA DA CULTURA E DOS DIREITOS
SOMOS FULANAS E FAREMOS A TRANSGRESSÃO CONSTANTE E NECESSÁRIA DO AMOR



IVONE LANDIM/03/01/2011

sábado, 26 de março de 2011

Decepção de Primavera

Hoje estou aqui olhando as luzes da rua
Nevoeiro fino acolhe a noite sombria
Nem a lua no céu, nem uma estrela nua
Para dar algum brilho a esta noite fria

Espero por luzes, na escuridão embora.

Conheço bem a esta solidão intensa
Que derruba o sonho e apaga a luz da alma
Faz do meu olhar espada de um gume imenso
No perder de vista desta impossível calma

Eu esperava flores nos jardins lá fora.

Poema de Paola Rhoden.

Herança

Por que chorais
Mar seco ausente,
Sem úmido elemento?
Por que chorais
Como se quisésseis
Com vossas lágrimas
De marítima saudade
Restituir-lhe vigor e força?
Por que protestais
Se não podeis
Arrancar-vos as pernas e os braços,
Se há vice-reis
Por onde vão tantos passos?
Se seguis tão escasso,
Perdido e sem grei?
Vede bem:
A cidade já foi inundada
(E acho que sempre esteve)
E da enxurrada,
Após fevereiro e março,
Após Cabral e Gama,
Restou um simples sargaço,
O sapato roto, sem cadarço –
Nau sem amarras,
Em vossos pés encalhada,
Carcaça de beira de estrada.
Quem sabe uma escama,
Algo que vos proclama
Brasileiro?
Rio de Janeiro?
Sem paradeiro?
Desterrado panorama
Que vos amalgama
A camas e mucamas...
Restou a avenida Beira-mar,
O Forte,
A rua Luís de Camões,
O Paço,
O amigo Bonifácio,
O Real Gabinete Português,
Tanta tez
Suada, salgada
E todo este lugar
Banhado pelo mar.
Restou um corpo sem rotas,
Soçobrada frota,
Restou a memória,
Algo que errático
Perdeu a trajetória,
Algo que afro ou asiático
Em vós se agarra feito
Alga e algo
Que não consigo definir,
Heráldico,
Luz e visgo
De chão alagadiço...
Vede,
Litorâneos
Ou suburbanos,
Extemporâneos
Ou ibero-americanos,
Estamos todos
Impregnados
Do Eldorado castelhano,
Da alga e sal
Do mar lusitano.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Ou tônus?

abre o portão de madeira
tomando
fôlego
vem

com o rosto pintado
de azul
e estrelas que nadam
no seco do preto
ele é o que beija
antes de esfriar

cobre
prata
lua
cobre
o chão de folhas
secas
o pisar estala

nas tardes
de 5:30
agora tão agora
depois de esperados doze meses
ele volta
com a calma solar
cravejada nos olhos

depois de tudo que foi evaporado no verão
volta
trazendo o cheiro
das flores geladas
que se dão devagar

no vento brando que cavalga a areia do tempo
o vidro da ampulheta
onde um grão sempre conta
e conta para outro grão
conta
que quando estiverem bem unidos
quando o de baixo não suportar mais o peso dos outros
quando o que sobra cair para os lados
quando tudo tiver que virar de ponta cabeça
ele volta

dizem as folhas secas
que antes de tudo ser cinza
só o outono
faz
cair
e azulando o olho do mundo
beija seco a terra
antes de gelar
faz cair
sem chorar o verde
só o seco sucumbe
conformado
aos seus gentis afagos de ventania

Poema de Carlos Jubah

quinta-feira, 24 de março de 2011

A Pouca Elipse Nau

Uma Bad Trip

O Fim do Mundo vai acabar comigo
O Fim do Mundo vai acabar com você
O Fim do Mundo vai acabar com tudo
O Fim do Mundo vai acabar

Uso e abuso das minhas drogas
A vida é uma droga
O mundo é uma droga
A vida é uma droga maior do que a droga do mundo
A vida carrega o mundo nas costas
E ainda sobra espaço para outros mundos
Espaços infinitos por todos os lados

Uso e abuso das minhas drogas
Para o bem da droga do planeta
Para o futuro da droga do Universo
A humanidade extinta
Torço para que existam outros seres
Em outros mundos afastados muito mais avançados
Os seres visíveis estão com os dias contados

Rejeita a carne humana
Seu leão
Rejeita a carne humana
Tu oh tubarão
Rejeita a carne humana
Seu jacaré
Rejeita a carne humana
Oh bicho de pé
Carne humana dá indigestão
Nos vermes

A droga do mundo é dos insetos
A droga do mundo pertence aos vermes
Aos micróbios aos vírus
Os microrganismos dominarão a droga do mundo

Homem madeira
Podre por dentro
Expelindo a podridão por todos os vãos
Olhos ouvidos boca nariz umbigo pau cu buceta poros
E armazenando ainda mais
Para mais tarde

Já que eu não posso destruir o mundo
Já que eu não posso acabar com tudo
Já que eu não posso comigo
Já que eu não posso com você
Eu não preciso de nada
Eu não preciso de ninguém
Eu não preciso de mim
Eu não preciso de mim
Eu não preciso de mim eu não preciso de mim

Poema de Andri Carvão

quarta-feira, 23 de março de 2011

TREM DA ILUSÃO

                                                            TREM DA ILUSÃO

             Hoje é só um dia que o trem não irá enfeitar sua vida.  O dia amanheceu sem alegria,  a chuva embaça a janela por onde seus olhos procuram o céu para saber se está claro para poder sonhar com seu trem no quintal. Hoje a chuva embaça seus sonhos de liberdade no apito que invade o espaço cortando o ar com a delicadeza de sua voz. Seus olhos já estão embaçados como a janela pelas lágrimas que escorrem pelo rosto, pelo desgosto.
             Nesses dias de chuva o pequeno quintal de sua casa passa ser como um horizonte longe demais, então sua sala seria o lugar para seu  trem. Se tivesse um trem de brinquedo, pegaria a máquina e tiraria a poeira com um pequenino espanador, pegaria uma flanela e daria um brilho para ficar bonita como uma princesa de aço, limparia o vagão de lenha e depois os vagões de carga, que seriam dois e por fim os três de passageiros, sim, seria um trem grande, bonito, vistoso. Armaria a estrada de ferro pela sala, emendando pedaço com pedaço, sem pressa, passando a estrada por trás da estante, do sofá, das poltronas e pelo meio da sala, ali seria como o deserto, uma pradaria sem fim, cercada de nada por todos os lados, pelos fantasmas da sede e da solidão, pela noite fria e pelo dia escaldante, com o sol brilhando com toda sua beleza e sua força, assim os passageiros iriam sentir toda a solidão que existe no deserto, no deserto dos lobos, das pessoas, dos poetas, até a caixa d’água, sim, ele não esqueceria a caixa d’água no meio do deserto, ela iria matar a sede do trem e das pessoas, sua sede de brincar, sua sede de amar cada pedaço do trem, sua sede de viver cada minuto da sua infância, depois de matar a sede todos iriam seguir viagem pelo meio da sala, meio do nada, do quadro pintado ao seu redor,  medo de ficar só.Depois de algum tempo de viagem, iriam avistar o povoado, o trem apitando, as pessoas se aglomerando na estação, estação onde chegavam sonhos, de onde partiam sonhos, estação de todos, estação de ninguém, estação de trem, mas não havia trem, apenas uma sala vazia, vazia como sua infância, por onde perambula, por onde só pode ficar com seus pensamentos de um dia ir adiante. Seu olhar só quer fitar os pingos da chuva, tentar enxergar quando passar, para saber se ainda poderá viver, poderá brincar, brincar com seu trem feito de madeira, pedaços de madeira, feito de imaginação, feito de coração, então quando a chuva passar, correrá para o quintal, nem mesmo esperará a terra secar, e montará seu trem com os pedaços de madeira, com os pedaços de sua história, que um dia há de se montar e se mostrar.
             O menino ficou ali observando a chuva pela janela embaçada, as nuvens negras que escondiam o sol, que cobriam o céu, os raios que cortavam sua esperança, como a realidade adulta corta os sonhos de criança. A noite caiu, não tinham estrelas, olhou mais uma vez pela janela, sentiu o frio do desencanto e resolveu entregar-se ao sono, deitou-se desejando sonhar com um dia de sol, que enfeitaria seu quintal para poder sentir alegria no seu coração e montar seu trem de madeira, seu trem feito de ilusão.

segunda-feira, 21 de março de 2011

o acolheu como filho

vai ter que ir lá para ver!
irá se sentir atropelado por um trem
abraçado por trovões

mas há algo enterrado lá
...naquele espelho
que quero que seja meu...

farei uma cabana de salgueiro
ao pé do espelho
e meu espírito entrará
(como uma serra a me abrir)

Poema de Vânia Lopez.

domingo, 20 de março de 2011

cenas das portas

meu bem saiu
o barulho dos passos
corre nas pessoas
(no corpo e na cabeça)

deixo aqui um bilhete e uma planta
que rego desde que te conheci
e um chá quente esperando por você
vou manter a poesia acesa
e o portão cerrado
nessa saudade interminável

vou me refugiar no batom
calar teu nome
na porta da frente

não vou te amar
do jeito que quer que eu te ame
(vou estar com frio... pegando fogo)

Poema de Vânia Lopez.

Ao fogo brando

A manta que se veste,
A sopa que se esquenta,
O outono que se esquece
Do inverno que aparenta.

À tarde, que se aquiesce,
Acresce. O que se inventa
Encaixa ao que parece
Ao forno uma polenta.

Quem dera que estivesse
À venda o que apascenta;
E o fogo, meio indolente,
Unisse a referência.

Poema de Yayá.

Bagunça Organizada

Albinos e Daltônicos
Poema a quatro mãos
com Paulo Cruz


Borboleta amarela...
Estrela preta...
O sol é incerto e a noite, certeza.
O dia é uma noite clara.
A noite é um dia escuro.
E se o dia é uma noite clara...
E se a noite é um dia escuro...
- E o meio-dia?
- E a meia-noite?
A noite cai e o sol se impõe.
Borboleta preta!
Estrela amarela!

Amigo Secreto

Meu amigo imaginário
não tem um pingo de imaginação.

A Outra Face

O reverso
da moeda
é o troco.

Catedral Interior

praias paradisíacas
paraísos artificiais
regiões inóspitas
eu
meu retiro espiritual

Cinco Pontas

Eu queria entender
de estrelas do mar
de estrelas do céu
para desengatar
a estrela cadente
da estrela do mar

Competição Desleal

Dia a dia
no pódio
os frutos da discórdia
e as sementes do ódio.

Aos Vermes

§
deus me defenda
do imposto de renda
deus me defenda
da calcinha de renda
deus me defenda
antes que eu me renda

deus não se ofenda
minha alma não está a venda
é uma oferenda
uma mera merenda

§
a água devora a rocha
a criança devora o ancião
a máquina devora o homem
pombo correio devora pomba da paz

corvos devoram espantalho
planta carnívora devora animal vegetariano
a serpente devora a si mesma
os sapos também comem rãs

na cadeia alimentar dos seres livres
decifra-me ou devora-te a ti mesmo
a lei do antropófago
é pôr no do outro


Andri Carvão.

a Culpa

eis-me por calor insistente..

à reles.. cena da mente
e
derruba-me por sonho quisto
nunca visto
antes.
da imagem retirada,
um quadro fixo, mas impostor
porém,
da estiagem lasciva dos meus espaços-olhos,
visão de corpo
tal posto
minha obsessão resfriada
em grito cego
pois, sendo
à meada..
do repto.
do “um” curso que não volta
por ora, eu penso que sei
mas,

eis-me, por conselho deixado pra mim..

é cedo
qual pátio da vénia-desespero, que
eleva-me..
canta-me honras ao contos dos vis
sendo-me o oposto do que prego
e,
ofereço-me à segregação do meu interesse
próprio,
quando não mais vier o lado do canto que eu quero
quando
apartar-me, em letra reparada
antes versada,
mas, ainda palavra
que.
à espera,
te fiz..

jogue-me. às redes por um fim de tarde..
oh!
afronta-me por temores que não soube declarar
e.ainda assim, me impeço

de cair.



..






por um nada que consome o fogo
sendo ao todo começo pensado
sendo fim, ao termo-outro que tentei-me à paginar
oh, tolo tempo paginado!
tolo conto sem memória de um dia em prévias de fim!!
tolo! tolo pacto de ilusão à queda, quando,
à peça tragédia, é parte.
da parte.
em casa-criada da época acima de mim.

então,
leve-me. estaca por recomeço,
meu preço, é este:



tudo.


http://www.youtube.com/watch?v=VlHka4gJP_k


Poema de Azke.

sábado, 19 de março de 2011

Sobre a arte de esquecer

Na janela, a gota desliza e (delgada) pára num ângulo da moldura, um ato

suicida falho, por excesso de sentido. O cinza-céu desloca-se, revoluteia,

evolui em espaço alheio e negro, nuvens chocam-se entre si e tudo o que

resta fazer é contemplar à janela,um pensamento em suspensão no alto

do cérebro, em profunda e livre queda, no calmo abismo do esquecimento,

oblívio/alívio de viver entre tantas lembranças do que não vi nem fui.


Em 21-01-2011. André Albuquerque

Caim e Abel

Me espere um pouco
Que chego já.
Do que eu mais célere
Quem é no passo?

Somos todos irmãos!

Me espere um pouco;
Só eu que falto
Chegar no ponto,
Irmão do asfalto.

Somos todos irmãos!

Me espere um pouco
Que chego em riste.
Será que existe
Quem tem mais passo?

Somos todos irmãos!

Me espere um pouco,
Só eu que falto.
Será que existe
Alguém mais rápido,

(Somos todos irmãos!)

Menos incauto,
Singrando autos,
Irmão do passo
Com mais compasso?

Somos todos irmãos!

Me espere mais;
Passante sou
Também da pressa,
Quem vai depressa

(Somos todos irmãos!)

De lanche e pasta
Sem fé, desejo,
Minguado tejo
Correndo só

(Somos todos irmãos!)

Por nós, cabrestos
No passo lesto,
Pela cidade:
Palimpsesto.

Somos todos irmãos!

Me espere um pouco;
Passante sou
Também do medo
Do denso breu.

Somos todos irmãos!

Um pouco mais
Me espere, amigo.
Deveras corro
Tão só contigo,

(Somos todos irmãos!)

Nós dois, contíguos,
Passo após passo,
Irmão sem paço,
Sem mãe, regaço.

Somos todos irmãos!

Me esperem todos:
Moídos rostos,
Puídos, rotos,
De si cansados.

Somos todos irmãos!

Me esperem mais,
Vou já chegando,
Entanto vem,
Passo ante passo

(Somos todos irmãos?)

(Me esperam todos?)
Quiçá correndo,
Quiçá sem fôlego,
Mais um de pasta.

(Somos todos irmãos?)

(Me esperam todos?)
Tomar-me vai
Lugar – nem meu,
Nem teu: de breu!

Somos mesmo irmãos?

Assim que somos
Irmãos do acaso,
Do meu atraso,
Do lesto passo.

Somos todos irmãos!

Assim que somos
Caim e Abel,
Perdidos passos,
Irmãos sem pai.

Somos todos irmãos!

Espero todos
No breu do mundo,
Mas quem me chega?
Só vejo a sombra

(Somos todos irmãos?)

De um outro irmão,
Que só vagueia,
Expropriado,
Enigmático,

(Somos todos irmãos?)

Sem passo ou rumo,
Irmão do breu,
Sem um lugar
No nosso mundo.

Somos irmãos.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

SONETO A SUA BELEZA (Silviah Carvalho)



Seus olhos têm o brilho das estrelas do céu
Seus lábios o doce néctar da flor na primavera
Suas mãos a maciez da pluma, o véu
Um toque seu, só um toque... Quem dera!

O seu dorso inspira o amor ardente
O seu cheiro é a fragrância que fica no ar
A sua voz é o som que seduz minha mente
O seu corpo é fonte do meu desejo de amar

Nos seus braços aconchego minha ilusão
Que faz carícias nos meus pensamentos
E iludo-me em solitários momentos...

Buscando um lugar no seu coração...
Disfarço palavras doando-te meu tempo
De tanto querer-te, tornaste meu tormento

sexta-feira, 18 de março de 2011

O Japão Chora...



Depois de criar esta imagem/símbolo da tragédia no Japão, enviei para muitos amigos e amigas do Orkut.
 Uma delas, a Poeta Márcia Sá, reenviou a um amigo poeta no Japão,
que inspirado pela imagem escreveu este poema.

Meu coração muito sangra
Por isso nada agora me alegra
O pesadelo que invade a terra
É cortante feito lâmina de serra

by Kazuo.Tokio.15.03.2011...


O poeta Kazuo



Fonte: Mural dos Escritores