Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



sexta-feira, 15 de junho de 2012

carochas, bicicletas & biplanos - 11


Alisei a barba e bati à porta. A bela holandesa veio abrir. Solicitei se podia dormir um pouco e comer alguma coisa. Precisava dum banho mas isso seria pedir muito. Perguntou-me como me chamava. Bem, Fred, tens ali um anexo onde podes fazer isso tudo e de manhã vais embora, não quero que assustes as crianças. Aceitei com muitos agradecimentos e a bela senhora de sardas e vestida como uma hippie antiga conduziu-me a um barracão com um automóvel lá dentro. Apontou-me uma casa de banho, uma espécie de estufa onde podia dormir e disse que já trazia comida. Perguntei se ela queria que eu fizesse algum trabalho ou limpeza como paga por aquela hospitalidade. Ela sorriu. Venho já. Entrei na estufa, uma espécie de sala com um sofá, candeeiro, móvel com livros e um aquecedor a gás. Nem sombras de plantas, apenas umas caixas num dos cantos. Do lado de fora da estufa um Ford Capri verde em excelente estado de pintura mas com os pneus em baixo. Não devia andar há muito tempo. Entrei na casa de banho, pequena, limpa, com um duche a um canto e muita luminosidade. Podia viver ali sem incomodar ninguém. Apenas não havia onde fazer comer. A linda holandesa dos seus bem conservados quarenta anos surgiu com umas calças, uma camisa aos quadrados de pescador, um par de sapatos de sola de borracha e uma grossa camisola. Disse que era do ex-marido e que me devia servir. Quer que lhe dê uma vista de olhos no carro, perguntei. Não anda há séculos, há aí ferramentas mas não vale a pena. Já lhe trago comida, pode ligar o aquecedor que a estufa é fria e já lhe trago umas mantas para o sofá. Agradeci tudo e entrei na casa de banho. Tomei um duche frio e vesti as roupas do ex-marido da mulher. Lavei com sabão as minhas roupas e pendurei-as pelo do Ford numa corda. De manhã estariam secas. A mulher apareceu com umas mantas e uma almofada. Foi lá dentro novamente e trouxe num tabuleiro duas fumegantes sandes com carne e duas garrafas de cerveja. Guardanapos e duas maçãs. Não sei como lhe agradecer, apenas queria um lugar para descansar. Sorriu e desejou-me uma boa noite. Comi uma das sandes de carne assada e bebi uma das cervejas. Abri o capô, comecei a limpar o motor. O óleo parecia estar bom. Enchi os pneus, tirei-lhe as teias de aranha. Limpei o filtro do ar, sacudindo-o. Dei um aperto a alguns tubos. Vi todos os níveis. Só faltava a chave para ver se o conseguia ligar. A roupa ia secando. A noite encheu de sombras todo aquele lugar. A estufa não era assim tão fria. Não liguei o aquecedor. Mexi nos livros. Tudo velharias. Descobri uma Bíblia e comecei a ler o livro de Job. Comi a outra sandes e a cerveja. Tapei-me com uma das mantas e uma simpática escuridão abateu-se-me sobre o meu corpo. Sonhei ou penso que sonhei com gatos, moinhos de vento e com um estranho personagem vestido de pirata que conduzia um Ford que ia mudando de modelo e de cor ao longo de planícies sabe Deus de que país. Acordei cedo com a explosão de luz e calor. Um gato malhado olhou-me e fugiu. Lavei a cara e reconheci os meus olhos. Doía-me o corpo. Juntei a roupa e arrumei-a na mochila. Fazia intenções de me ir. Arrumei o livro e ajeitei as coisas mais ou menos como estavam. Que horas seriam? A mulher surgiu e agradeceu o que fiz ao carro. É capaz de pegar ou a bateria está descarregada. Não interessa, quer tomar o pequeno-almoço lá dentro? Não será um abuso, não me sentirei bem, as crianças… Não tenho crianças, apenas disse isso por uma questão de segurança, mais um pouco e diria que era casada com um polícia mas pareceu-me boa pessoa. Entramos na cozinha, onde o gato comia da sua gamela e um agradável cheiro a café e ovos mexidos pairava. Qual é a sua história, porque anda por aí? Perguntou Eve apresentando-se, enquanto me servia café para uma chávena com figuras de um desenho animado qualquer.

23 Jan.



Autor: Carlos Teixeira Luís

carochas, bicicletas & biplanos - 10


O velho fundou uma banda de jazz. Na primeira jam session convidou um baterista e percussionista brasileiro, um contrabaixista português e um pianista americano. O contrabaixista despediu-se por confusão alcoólica, foi o seu argumento. O baterista vivia num mundo de ritmo próprio que os outros tentavam acompanhar. O pianista era louco o suficiente para aceitar todas as sugestões free. Mas esgotava-se e entrava em colapso. Saiu com um pesado esgotamento após duas únicas sessões de quatro a cinco horas cada. Foi substituído por um guitarrista do Mali. Mas os ritmos não acertavam com a percussão. O baterista não quis adaptar-se e o guitarrista foi emprestado a uma banda de world music. Entraram dois saxofonistas, alcoólicos e suaves, quase irmãos gémeos na abordagem dos temas mas lentos para o percussionista. O velho quis manter assim disfuncional e livre. Entrou novo contrabaixista com muita experiência, homem que nunca falava a não ser através do seu usado contrabaixo. Entendia-se com o baterista louco e colava as improvisações aos solos divagantes dos dois saxofonistas. Mas o velho queria um pianista. Nenhum dos que se apresentaram para fazer testes se encaixaram na secção rítmica. Apenas uma organista muito jovem e de ar angélico. Mas o som era excelente e viciante. O velho aceitou-a. A miúda, de apenas dezanove anos em certas faixas cantava o que deu ideias ao velho de ter uma vocalista. Entre os que surgiram ao anúncio, que foram muito poucos, só uma rapariga de grande porte, africana e de ar hip-hop se aventurava nos velhos standards de jazz que o grupo alterava. Fizeram um concerto memorável e louco. Depois cada um foi para o seu lado. O velho iniciou outra banda de jazz. Na primeira entrevista recebeu um famoso pianista desempregado. O velho ouviu por horas a fio. Mudou de ideias e decidiu gravar um disco mas precisava de um contrabaixista e de um baterista. Procurou e entrevistou milhentos músicos e escolheu o velho guitarrista do Mali. Ele aceitou tocar baixo e a usar uma caixa de ritmos. Fizeram um concerto brilhante e o grupo acabou por falecimento súbito do guitarrista, na noite pós-espectáculo. Após o funeral o velho iniciou os preparativos para uma nova banda, neste caso uma big band.

23 Jan.

Autor: Carlos Teixeira Luís

certidão de pele


façam bem amplo esse peito
e que os relógios parem de contar as horas
enquanto o coração passa pelo juízo final

façam esse peito engarrafar o vento
os dias que não são meus
e nele aguardem as chuvas esparsas

deixem as asas a ponto de tocar o céu
de tanto me afundar nesse leito

façam-me cair do ponto mais alto
e que nada interrompa esse solo

que eu não possa negá-lo
antes possuí-lo sob a pele febril
como gelo correndo nas veias...

façam esse peito com medo
no emaranhado de sua loucura
da profundeza do momento
sem zelo ou perguntas
peito é sujeito à certidão de pele.



Poema de Vânia Lopez

quinta-feira, 14 de junho de 2012

carochas, bicicletas & biplanos - 9


Um gato esperava por uma sombra no vão da escada. A casa tinha heras por todo o lado. Paredes cobertas de tijolo centenário. Um fumo suave e contínuo sai pela chaminé. Levanta-se vento e as folhas caídas no alpendre voam. O gato passa pelo espaço entre a porta e a ombreira como se fosse pecado no mundo dos gatos tocar na madeira ou na pedra e entra. A velha senhora atira a ponta do cigarro para um jarrão com areia. Entra em casa, puxando a gola do casaco mais para si. Dentro de casa, há um chá quente à sua espera e problemas com cadáveres para resolver. A noite abraçaria o bairro dentro de pouco tempo e a inspiração mais fértil. O gato ainda enfiou os bigodes fora da porta como que despedindo-se da tarde. A porta fechou-se.

10 Jan.

Ando triste. Vivo num país triste. As pessoas não são pessoas. Nem números são. Não existem umas para as outras. Tenho a certeza que se disser a um transeunte qualquer: - Tenho uma bomba potente, se não me der uma moeda, ela explode! A resposta seria: - Tenha paciência. Vai trabalhar! Qualquer ideia que possa ser dita: - Estou com fome. – Vou-me matar. – Vou matar alguém. A não ser: - Dá cá o dinheiro ou espeto-te esta faca de cozinha! A menos que vejam a faca, a resposta será: - Não me chateies! Deixa passar! Este país morreu e ainda não sabe disso. Vive uma crise monetária, económica e financeira. Mas a verdadeira crise de que sempre sofreu é de tristeza. Um povo triste. Não acredita em si. Mas que vai dar a volta. Com certeza. Mas vai sempre parar ao mesmo sítio. É sempre uma volta penosa de cento e oitenta graus. Fica-se apenas um pouco mais à frente. Melhor seria, romper a direito.
Por isso ando triste. Sou um desses que andam por aí. Tal e qual.

11 Jan.

Acho que já contei esta história. Eu e ele, parecido com um dos Ramones, o que canta, íamos a um apeadeiro ferroviário esperar o outro que vinha de Vialonga e apanhávamos um lento autocarro até à Encarnação, onde numa vivenda um afável ex-hippie alugava a cave e instrumentos para malta como nós fazer uns barulhos. Chamava-se a Harpa. Assim estava escrito no gradeamento de metal da porta de entrada. O Joey Ramone ficava com um baixo e berrava, sempre de cigarro ao canto das beiças. O de Vialonga, na bateria e eu a solar. Os solos eram longos e cheios de eco. A bateria demolidora.
- Lembras-te do filme Blue in the Face, em que aparece Lou Reed – alguém perguntou.
Algo se passa com esta memória, decorria os meados dos anos oitenta e o filme saiu em noventa e cinco. De toda a forma, teve vida curta a banda Outsiders Revolution Blues Band. Durou uma cassette gravada, algumas tardes e muitas canecas de cerveja.

11 Jan.




Autor: Carlos Teixeira Luís

quarta-feira, 13 de junho de 2012

[...e perco-me nesta terra tão de palavras



e perco-me nesta terra tão de palavras que as tormentas
fundearam,

pecado capital antes fosse,
seja-me em vendaval repentino, então,

que toquem as trompetas anunciando o fim,
como um fado negro sem comiseração, sem voz,

que o crepúsculo se refugie por entre nebulosas que pontificavam num céu, antes azul,
que os primeiros ondulares do mar se ombreiem, sem resistência.

Os destroços da madeira, antes seiva, debruam o areal,

rarefaça-se a dor,
as vozes jamais se alterarão.

Hoje sei, o quanto me amaste,
mesmo quando minha alma crepitava, qual sal no fogo,

acreditava ouvir o som de um piano algures
que me atormentava,

perco-me nesta terra tão de palavras jamais ditas,
enquanto estas minhas todas tormentas, fundeiam nenhures,

porque só hoje, sei,

[o quanto me amaste].




Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

terça-feira, 12 de junho de 2012

carochas, bicicletas & biplanos - 8


O homem encostou-se à parede de madeira da velha estação e morreu. Os últimos pensamentos foram um belo corpo de mulher a surgir dum nevoeiro citadino e um campo de batalha onde um dos corpos era o seu. Levava numa das mãos uns papéis sujos que se espalharam entre as folhas de erva.
Tiraram o corpo do homem e referiram-se ao seu sorriso. Um sorriso tão acriançado para um corpo tão velho e desfeito. Fazia sol e sombra por entre os passos da multidão que aumentava para verem o homem velho de barba grisalha que simplesmente faleceu onde se assentou.
10 Jan.

Na peça todos os actores estavam empenhados. E ninguém morreu no fim. Saíram todos do teatro com frio. Espalharam-se pelos bares da zona e sentaram-se nos seus automóveis polidos e muitos arrancaram para longe. Só ficou um vagabundo encostado a uma árvore perto da entrada do velho teatro, à espera que o mandassem embora. Mas ninguém apareceu. As portas do teatro fecharam. O frio da noite instalou-se. Certas luzes apagaram-se e o vagabundo acabou por adormecer envolto no seu grosso sobretudo. Morreu congelado à espera dum milagre.
10 Jan.


Onde estavam ondas agora rolam pedras. Como marés. Aonde estava o peso de muitas pedras está um sorriso. Tímido e cheio duma tristeza por catalogar. Melancolia única e de jardim enfeitado. Sabem, aqueles jardins muito bonitos mas sós de gente e crianças. Assim como um corpo nu mas sem ninguém que lhe pegue. Há jardins de cemitério sem gente sepultada. E muitos nos rostos de quem passa. Quem serão essas pessoas? Espelhos andantes? Que diria Virginia de tudo isto?
10 Jan.

Não tenho dinheiro para te dar, mas tenho ali dois pães de hoje. O pão mata a fome. Não mata as noites frias mas aquece o interior. Mas é só pão. E tu só tinhas uns papelitos para me pagar ontem e hoje? Tens mais algum poema? Dou-te os pães na mesma. Ficas-me a dever. Dois poemas dos pequenos, com a tua luz.
Agora as ruas não são as mesmas. Morreram um pouco, torcidas pela memória e sujas pela culpa. A noite matou-te sobre a forma duma motorizada mas os teus poemas são a nossa noite dividida. Entre as tuas sábias expressões e a nossa agonia dos dias. Sabias que tinhas conselhos que nunca os vivestes?
10 Jan.


Autor: Carlos Teixeira Luís

carochas, bicicletas & biplanos - 7


Eva - Anda, deita-te.

Ivan - Não consigo, as costas não endireitam…

Eva - Oh, céus e agora…

Ivan - Ajuda-me só a deitar-me de lado. Empurra-me.

Eva – Oops … e agora?

14 Mar.


Ivan - Eva?

Eva - Ivan, onde estás?

Ivan – Aqui. Olha para baixo. Acho que está a passar. Chamas o médico?

Eva – Mais uma injecção. Tens de pensar na operação, Ivan. Não podes continuar… assim.

Ivan – Tenho medo de ficar impotente ou paralisado. Tu sabes. Vou aguentando.

Eva – Isso é aguentar?

Ivan – Agora deixa-me só ficar aqui um pouco…

Eva – No chão?!

Ivan - … enquanto o médico… Fico aqui à espera de Godot.

Eva – Oh, não comeces… Vou já ligar ao médico. Sabes que horas são? Vou trabalhar daqui a 2 horas.

Ivan – Falta hoje por mim. Diz que estás doente.

Eva – Doente, eu?

Ivan – Sim, das costas e que esperas o médico. Que não te podes mexer. Depois telefona para o meu trabalho, diz que tenho de ficar contigo enquanto o médico chega.

Eva – Porque não ligas tu?

Ivan – Mas eu não me posso mexer. Tens de ser tu.

Eva (liga) – Estou, doutor Samuel? Por acaso não se chama Beckett também? Estou?

(risos)

12 Jun.



Autor: Carlos Teixeira Luís

ORQUÍDEAS NA JANELA


Já se conheciam
Mas nunca se sentiram assim
Com aquele desejo cor de jasmim

Os lábios se procuraram
E se acharam
Línguas entrelaçadas
Libido adocicada

Sussurros cobrindo a noite
As mãos deslizando pelos corpos
Entregues ao amor
Poros arrepiados sem pudor

Corpos sob lençóis se entregando
Seios misturados
Mamilos se beijando
Lábios se tocando
Suas orquídeas molhadas se amando

Sendo admiradas pela lua
Que timidamente
Olhava pela janela

Arnoldo Pimentel

carochas, bicicletas & biplanos - 6


rouco diz o louco

mouco não ouve o que diz o louco e continua a comer os seus torresmos com gordura e tempo, beberica o seu tinto de algures e mofo, sabe-lhe a pouco

rouco teima o louco que coça o toco

- nem por isso, já foi mais

o que o louco discorda e se põe a milhas – rouco, rouco… profere longe o louco

e nem uma moeda nem pouco

rouco cada vez mais

voz sem reboco e fica assim

6 Jan.


Todos os dias os vagabundos precisam de comer.

Todos os dias os vagabundos precisam de dormir.

Todos os dias os vagabundos precisam de beber.

Todos os dias os vagabundos vão pedir até conseguir.

Todos os dias até morrer.

12 Jan.




Autor: Carlos Teixeira Luís

carochas, bicicletas & biplanos - 5


Gostou dos personagens zangados. E dos que envelhecem e são irascíveis. Quando envelhecer… Quando envelhecer mais, vou ser assim: maldisposto e insolente. Posso muito bem não ser capaz. Mas tentarei. Uma bengala e umas cãs darão uma ajuda. Bem as cãs… Falta a bengala. Feita de pau-teimoso-e-rezingão. Então a vida valerá a pena. Afaste-se que eu vou passar. Vá, despache-se.

4 Jan.

Quer dizer que este senhor norueguês que escreve brilhantemente os seus contos e outros escritos, era um perfeito desconhecido por não haver quem o traduzisse, o que é pena e esta frase já está muito grande. Kjell Askildsen, nascido em 1929, premiado autor – comparado a Raymond Carver e também a Beckett (descubram porquê) não tem frases assim, grandes e com desperdício. Escreve o que é preciso e chega. Simples? O tanas. As suas personagens, cruzamo-nos com elas todos os dias – gente. Tu e eu. Velhos e novos. Doentes e saudáveis. Sóbrios ou nem por isso.

5 Jan.

Dois homens estavam à espera de um outro. Que chegou já de madrugada. Receberam-no perto da luz dum cadeeiro de rua e as sombras de uma grande árvore. Abraçaram-se e atravessaram uma grande avenida. Foram esperar uma mulher num bar dum velho teatro. Sabiam que estava aberto o bar, só para eles. Instalaram-se a um canto bebericando os seus portos. O dia chegou e a mulher não.

9 Jan.

Empurrou a mulher pelas escadas abaixo e chamou a polícia. Amava-a mas não a suportava. A polícia chamou a ambulância e levou a pobre mulher. Já não a suportava, repetiu o homem algemado a entrar no carro de polícia. Não mudou de argumento e ficou preso. Ninguém se lembrou do gato. Esse saltou a vedação e entrou na cozinha da velha senhora da casa ao lado. Aninhou-se num alguidar cheio de roupa lavada. A velha senhora sorriu:
- Estás em casa, gato…

10 Jan.


Autor: Carlos Teixeira Luís

segunda-feira, 11 de junho de 2012

muito embora


uma lágrima só desce de um olho.
perco o sono e o sonho perde vida.
se meu olho queima à tua partida,
a tua ida não sou eu quem escolho.
recolho o verso que canta despedida;
não sou nada alegria, se me encolho.

quem dera um não fizesse aquele verso
e que, disperso, o poeta, fosse vento
pois, se eu fosse vento, tão diverso,
não passaria de poesia e encantamento.

ai, meu vento breve! me leva em tua mão
e então nela me faz sonho e verso eterno!
meu desejo sangra as folhas do caderno
enquanto a folhagem viva vai ao chão...

a esperança de menino ainda é forte,
os desesperos é que soam mais meninos.
quisera eu que, os beijos, entre mortes,
em minutos de silêncio, fossem hinos.

não poderei esconder a saudade
pelos dedos que dançam ao piano;
se quiseres ficar só por vaidade,
vai-te logo, pois te trago desengano.

tenho planos de futuro e brevidade.
a idade conta, no relógio, as horas,
e as demoras falam muito de saudade...

serei feito de lama, caos e auroras
se por acaso tu ficares sem vontade.



Poema de Caíto

sábado, 9 de junho de 2012

para que eu seja mais que um lar


guarda-me
entre minha alma e a tua

me pega ao colo
e a tudo que existe

revele-me pelas retinas
e o que vejo a todo momento

faça-me história
acaso o dia acorde
dá-me sonhos para velejar

despe-me a alma
para que eu nasça

respira-me detrás do peito
para que eu seja mais que um lar

ponha minhas roupas junto aos sapatos
deixe o tempo que arruína tudo
o encargo de colocar esse amor no passado

mesmo que me esvaia em teu olhar profundo
enterra essa maldita felicidade no deserto
que levantarei sem que haja chuva alguma...



Poema de Vânia Lopez

O garçom


- Bem , eu só sei que o nome dele era Rui, o resto, não sei ou não lembro se ele me falou alguma vez. Chegou numa manhã garoenta, falando que viu a placa dependurada na entrada, dizendo da precisão de um garçom. Tinha trabalhado uns tempos num restaurante, lá para as bandas da Augusta. Entendeu-se com o seu Horácio e começou logo a trabalhar. Sotaque nordestino, já meio amaciado, lá de Pernambuco. Simpático, atencioso, mas de simpatia medida aos palmos, bem controlada, sabe? Ria, mas sem mostrar os dentes. Eu, que não nasci ontem, reparo logo essas coisas. Êita, cabra escorregadio. Pontual, nunca faltou um dia em dois anos, nem por doença. Entrava e saía na hora, mas não enjeitava hora extra, não. Falava em tudo, menos de si, da vida dele mesmo. Quando a gente pensava ouvi-lo falando de si, já estava era discutindo a escalação do Corinthians ou os engarrafamentos na Marginal. Vaselina todo, o Rui. Servia muito bem as mesas, dizia nunca ter freqüentado senac nem escola de garçom nenhuma. Claro, a gente pensava que fosse mentira, pabulagem besta. Ah! Bom de serviço mas ruim de bola. Jogava de atacante nas nossas peladas. Meio barrigudo, mais levava baque que jogava bola. Mas sempre bem-humorado. Acho que aquela doidice era o jeito dele jogar mesmo. Grande figura o Rui. Todo mundo gostava dele. Na noite de seis de março, chegou um senhor já meio coroa no restaurante. Tinha telefonado e reservado mesa para três pessoas, ele e mais dois caras mais jovens, parecidos com ele, cara de um, focinho do outro, dizem lá na minha terra. O coroa falava num sotaque nordestino muito forte, puxava de uma perna... não lembro qual. Olhava todo mundo de cima, cara acostumada a mandar, a gente conhece logo, servindo esse povo há anos. O Rui atendeu, ficou meio sem jeito quando encarou o velho, mas não disse nada. Trabalhou muito bem, como sempre. O jantar foi normal, igual a todos os outros. Pediram sobremesa para os três. Fui até à entrada, papear com o Nonato, o manobrista, aquele cearense que esteve aqui também. Retornando ao salão, vejo o Rui trazendo uma compoteira grande, enorme e pouco usada. Pôs em cima da mesa do coroa, fez uma mesura e destampou-a. O coroa olhou para ele, vermelho feito uma manga-rosa. Levantou-se, o guardanapo no pescoço todo enrugado. Rui puxou um revólver não sei de onde, sapecou-lhe três tiros,um champanhe de sangue pipocou no peito do velho, mais um tiro em cada acompanhante e no derradeiro, estourou os próprios miolos... meu Senhor do Bonfim, que bagaceira... mas foi assim mesmo. Olhe, só de maitre tenho já vinte anos. Vi de tudo na minha vida, menos alguém servir compota de merda aos assassinos da sua família, com aquele sangue frio e ainda por cima, dar chumbo grosso de saideira. Desculpe a minha fala, mas esse mundo é muito estranho, doutor delegado.



Conto de André Albuquerque

sexta-feira, 8 de junho de 2012

"minha(...)"


dívida. e excesso. em plenos actos às formas de pares
dentre lados regidos qual igual ponto por arremesso
laço.. teu desenho! em previsível corpo de acto, e. erro
e erros.. e lares. carta em letra/libra à marca que te sabe

mas é..

cada parte de um indício e prévio limite por algum resultado
à luz da menção fugídia que te brilha em reverso pois, advém
combina. pactua.. emerge de tão.. ínfima, em subtítulo predicado
é a lua da manhã(o lado..) à sombra do sol. e à noite e. ao desdém

mas, ainda é..

cada lápide da parte entregue onde reina(já.) o interesse oblíquo











..







toda esta.. prece. que carrega o passo da tua mesma (im)presença
carne da lição em lei que te absorve o meu pensamento.. império!!
meu campo de guerras e lanças e cantos ao redor da tua venda
sou. este cego.. sou. tal conto prévio contínuo e tormento deste verbo

da palavra que te é..

métrica e lima. à tarde acesa da chuva mais carregada d'onde me sei
em vendavais à altitude obscena por reinar em ar aberto, mas perto..
qual olho que te compre, acto que te vem e corrompe.. -"carta", levar-te-ei!!
hoje! e, aos meus dias de queimas e águas.. em, páginas deste repto

da palavra que te faço..





nem à morada por um palmo deste dia
nem à vénia que te bate à porta(e bate/bate/bate..)
seja(me) de noites desiguais em alvoroço
seja(me!) das minhas lâminas, o meu apreço

meu
próprio(e único..)








sopro.


Poema de Azke

[...e quão perto se quer o mar em mim


e quão perto se quer o mar em mim,
e quão inerme me deixa quando longe se espraia.

Era-me o vento bonança quando o pisavas descalça
anunciando chegadas, e repetias;
“- o mar não tem quintais, nem latifúndios, as pessoas não moram lá, morrem-se por lá!”

Pudesse eu deslizar-me pelas espumas do mar
sem ruído,
pudesse o céu abrir-se de par em par, como um sorriso
inocentado pelas derivas constantes das correntes,

pudesse eu morrer-me por ti,
perto do mar.

Fundeei-me nesta letargia momentânea, sem visão,
apenas restaram algumas orquideas que vogaram até mim,

suavemente,
silenciosamente,

e,
enquanto as recolhias descalça e núa,
era-me longinquo o marulhar do mar em mim,

tão perto dos silêncios teus.

Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

quarta-feira, 6 de junho de 2012

transformas o que fere em arte...


entrou pela porta aberta
gentil tal qual toque de brisa
pousou em torno da cintura
como se fosse um cinto inevitável

um canto atrevido, sagrado
quase um mistério
meigo e cruel lado a lado dentro dos segundos
capturou a paisagem com uma inocência
ostentando o céu nas mãos
o dia reaprendeu seu lirismo

arranhou meu peito esta tarde!
livre como uma flor delicada
domando pétala por pétala
tudo foi junto

José cada vez que canta morre um pouco
do ocre e do azul turquesa
do ponto mais alto da jabuticabeira
açucenas floridas de voos
meus dedos deslizam quando o vento sopra
carregada tão fácil teu canto José
como uma folha
se aninha com uma calma menina
transforma o que fere em arte
pela porta que espera.



Poema de Vânia Lopez

segunda-feira, 4 de junho de 2012

poeta maldito, eu?


não tenho vocação
pra poeta maldito
ainda há precisão -
e mesmo bonito é -
de aceitar no pão
e aquiescer no café

Poema de Caíto

domingo, 3 de junho de 2012

...é tudo tão injusto!


dói tanto quando você está comigo, sinto-me tão perto que não sei onde acabo ou você começa... a almofada arrasta seus cabelos, quebro-me, como um vaso chinês. tropeço nas palavras troco o verbo perco o disfarce, me dando trabalho noite e dia. como um pássaro teimoso empinando asas em seus olhos me esforço tanto em te esquecer, fico em pedaços. deve ser errado, o corpo em claro como febre, que só se acalma dentro do seu peito... é tudo tão injusto! é tão injusto alguém ter os olhos dessa cor... que me calo.



Autor: Vânia Lopez

sábado, 2 de junho de 2012

O teu pulso é um dia de chuva


Nunca
sei onde nasce o sol,
e nunca o céu que tem o teu vestido,
quando os barcos partem num horizonte oposto:
eu só tenho o véu das tuas chamas,
o suave véu quando sobes a voar a mesma lua
ou a água que ao mar chegava,
e o vento é ainda este pesado crocodilo
quando a noite o perde, quando a noite é ainda uma
úlcera em seda já explicada às cortinas,
ou essa vírgula do céu
a flutuar um poente de rosas
apedrejado ao teu
parto
... »


Poema de Francisco Eugênio Seixas Trigo

Sina

Se há algo
Que me ensina
É que tudo
Nesta vida
Sempre cisma.

Se há algo
Que me ensina
É que tudo
O que cisma
É por sina

E que a sina
De cismar
Faz a vida
Pressupor
Para si

Um sentido,
Um propósito
E destino
Presumidos
Para todos.

Mas se tem
Um sentido,
Por que cisma
Esta vida
Tão sentida?

Mas se tem
Um destino
Por que cisma
E se abisma
Esta vida?

Se ela cisma
É por sina
De não ter
Um sentido,
Um juízo,

Por saber-se
Sem propósito
E destino
Quando cisma
Em surdina.

Por saber
Que cismar
É buscar-se
Bem acima
Dos sofismas

De um destino,
De um sentido
Tão mentido
E fingido
Pelas gentes.

Pois se cisma
Malsinada
E repleta
De sentidos
Presumidos

Nos ensina,
Na verdade,
Que viver
Esta vida
É a sina

De perder-se
Em cismar,
Em amar
E a arriscar-se
Sem sentido.


Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados

[...quando esqueces as palavras



quando esqueces as palavras pela noite tardia,
tacteias à deriva pelas marés os sons dos sussurros,
que,

fugitivos,

se escondem pelas frestas da parede em madeira,

e por mais que queiras adormecer,
os ventos esculpidos no teu peito perscrutam,
aquelas outras ondas que dançam em mim.

Também eu me morrerei sem lápide, nesta imanência longe de mim,
desconhecida, que me oprime,

e se o amar um dia se saciar, mesmo sangrando
das palavras que esqueceste pela noite tardia,

que siga as migrações distantes da borboleta monarca
que um dia sobreviveu ao inverno.

Hoje o dia amanheceu mais cedo, sequioso de claridade,
o mar ficou mais vazio sem ti,


[que o olhar dos barcos esteja sempre pintado na proa].



Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

sexta-feira, 1 de junho de 2012

delírios de uma gota de espuma


baila a gota de espuma
sob o olho atento
do vento

ainda ontem
quando era criança
meu maior segredo
era a felicidade

a gota de espuma
baila sob o vento
de olhos atentos

a gota de espuma
é uma criança
com a felicidade
nos bolsos...

Poema de Caíto

FULANAS DE TAL...



FULANAS DE TAL
 

-Criado em 2010, o grupo feminino cultural da Baixada Fluminense Fulanas de Tal
é formado por cinco mulheres de grande personalidade, e com muito conhecimento sobre arte e cultura. São elas, as poetisas Ivone Landim, Camila Senna, Aline Merilene, e Gabriela Boechat, que também é artista plástica; e a estudante de Cinema, Yasmin Thayná.



O grupo surgiu da ideia de Ivone Landim, que não se conformava com a situação e a posição da mulher em nossa sociedade, e resolveu formar com mais quatro amigas, um coletivo que agregasse pessoas interessadas pela natureza humana, voltado tanto para homens como para mulheres, mas com um olhar feminino, carinhoso, atento e sagaz. Dessa primeira formação foram reunidas, poetisas, críticas, pesquisadoras e artistas fluminenses, com o objetivo de promover intervenções culturais em todo o território da Baixada Fluminense. O nome “Fulanas” é uma homenagem a um poema escrito pela artista. A comunicação entre elas é realizada por e-mail, e cada uma é encarregada de exercer uma função no Grupo.

A formação original do grupo Fulanas de Tal é composta por Ivone Landim, poetisa, professora de Literatura Brasileira, e ativista cultural desde a adolescência. É a adjunta pedagógica da Coordenadora da FAETEC de Nova Iguaçu; e educadora do Ensino de Jovens e Adultos - EJA na Escola Municipal Heliópolis, em Belford Roxo, com o Projeto “Gramática Afetiva”. Fundou em 2008, com Dida Nascimento, Márcio Rufino, Jorge Medeiros, e outros poetas, o grupo Pó de Poesia. Participou do grupo poético Desmaio Público, criado na década de 1990, por César Ray e Eud Pestana, onde despertou seu interesse pelas letras. Ganhou em 2010, o Prêmio Especial de Literatura da Baixada com o projeto Entre Linhas. Começou a despertar o interesse por debates, quando começou a participar de grupos de mulheres, que discutiam sobre a reflexão de gênero, e garante ter aprendido muito com elas. Obteve grande sucesso com “Aprisco da Palavra”, um fanzine criado para combater a intolerância religiosa, debatendo a religião de maneira mais abrangente. Nascida e criada em Mesquita, veio de uma família humilde, e desde criança sempre foi apaixonada pela leitura. Ivone é a responsável pelas matérias culturais publicadas no Fanzine.

O termo Fanzine é derivado das palavras inglesas fanatic (fan + maga [zine]). Ele se caracteriza por uma mistura de gêneros da imprensa alternativa, ou seja, uma forma de veicular a produção artística ou a informação sobre temas variados. O que define o fanzine é aquilo que o editor deseja compartilhar com seus leitores. Para Ivone “os fanzines são Pontos de Leituras que circulam nos territórios de forma alternativa, em relação às mídias já existentes, caracterizando-os como equipamentos pedagógicos para difundir a leitura entre os seus alunos. Os fanzines possuem a proposta de trabalhar o recorte e a colagem unindo, assim, as artes visuais e a literatura. A intenção é promover de forma sociocultural, o compromisso com a leitura e a escrita, estimulando a juventude a produzir textos e a utilizá-los como forma de divulgação, expondo suas ideias e a sua criatividade.”

A segunda integrante é a poeta Camila Senna, que cuida do Blog das Fulanas de Tal. Camila já escreveu várias poesias, entre elas, O tempo passa, mas não apaga; A melodia da Vitória; A natureza e sua essência; Vento, Assim é Paraty; Caminhando; Para os destemidos; Não quero ser figurante; Falta tudo, menos veneno; Negro de Valor; Suas digitais em mim; Criatura etérea; e Maria Ninguém. ”Mãe, por ser abençoada. Mulher por natureza e puro ímpeto! Sou ponto. Sou vírgula, Sou reticências... Sou loucura serena, intensa e quente exclamação!... Meu sorriso largo mascara a ausência, a carência. Sou todo esse barulho dos meus versos desnudos. Sou urgência! Prazer”. Camila faz parte das seguintes Antologias: III Prêmio Litteris de Cultura com Amor – Ontem, Hoje e Sempre; Papo Cabeça, coletânea juvenil; Do Brasil para Frankfurt, mais que um país uma inspiração; Do Brasil para Guadalajara, o melhor da nossa terra; Palavras sem fronteiras, do Brasil para Buenos Aires; Poesias Encantadas 1ª e 2ª edição.

Aline Merilene é a terceira integrante do Grupo Cultural Fulanas de Tal. Escreve desde seus 14 anos de idade. Toda sua formação acadêmica se deu na rede pública de ensino. Concluiu o Ensino Médio na Escola Técnica Estadual João do Nascimento (FAETEC) em Nova Iguaçu, onde teve a oportunidade de fazer parte do projeto Entre Linhas, criado e coordenado pela sua professora de literatura, Ivone Landim, onde mais tarde se tornou editora-chefe, atualmente não participa mais desse Projeto. Fez parte também do grupo Pó de Poesia. Já escreveu cerca de 50 poesias, e continua compondo outras novas, para um dia publicar seu livro cujo título Delírio Poético, já está definido. Entre outros poemas de sua autoria estão: Desabafo, Mistério, Morada da Poesia, Telas Paralelas, O Mar, e Nostalgia. Aline é estudante de Letras; e amante de filosofia, psiquiatria e psicologia.

A quarta integrante é a artista plástica e poetisa Gabriela Boechat, que contribui com o Coletivo Cultural com suas ideias e trabalhos. Muito atuante na região da Baixada Fluminense, é formada em Educação Física e professora da Rede de Ensino de Mesquita. Segundo Gabriela, “apesar de sempre ter observado o mundo ao meu redor com outros olhos e outras cores, a inspiração para pintar aconteceu de repente e tem se mantido contínua e progressiva desde então.” No ano de 2010, organizou com outras pessoas, uma exposição no Centro Cultural Donana, cujo trabalho O Nu da minha Voz ilustrou a Gambiarra Profana, grupo de artistas que participa. O trabalho "ventos na primavera" ilustrou a capa o livro de poesias homônimo do artista Arnoldo Pimentel. Gabriela trabalha com telas, paineis, ilustrações, e caricaturas, em técnicas variadas.

Yasmin Thayná, estudante de cinema é a quinta integrante do Coletivo Cultural. “Menina, mulher, sagaz. Eletrotécnica, literata, cineasta. Cabelos com flor, com cor, cabelos únicos! Sorriso sincero, olhar tímido, estilo próprio. Chaveiros exóticos, mochila pesada, livros e filmes na cabeça. Yasmin conta que, desde que foi apresentada por Miguel Nagle ao curta “Um Dia de Laura”, foi inserida no mundo do cinema. “Fui fazer um curso com o Miguel, em janeiro de 2010, chamado ‘Do Roteiro à Prática’; e juntos fizemos o curta-metragem ‘Ciclo Eterno das Mudáveis Coisas’. Posteriormente se candidatou a uma vaga para produção de roteiro, e passou. Escritora assídua, roteirista, leitora, cinéfila, e ativista cultural. Este é o perfil de Yasmin, que com mais duas componentes das Fulanas de Tal, é responsável por disponibilizar matérias e ideias que contribuem para o sucesso do grupo.

O Grupo Cultural Fulanas de Tal, permite que outras mulheres, cujo perfil tenha identificação com o trabalho desenvolvido pelo Coletivo, entrem na Rede Mundial e façam parte do elenco, pois o foco do seu trabalho é estimulação da leitura, e a comunicação alternativa. Para mais informações acesse http://poesiasfulanasdetal.blogspot.com.br/

Por Ludimila Bernardes e Seny Fonseca
Revisão: Seny Fonseca
Fotos: Ludimila Bernardes e Divulgação.






poema para um dia de chuva


no naylon preto
do guarda-chuva
tina-tinindo canção.

canção
flechada do céu,

senta a pua
no peito do pé,
molha o sossego do gueto.

chuva-chovendo canção:
percussão nas poças da rua.


Poema de Edílson José

vai-se o tempo em meus olhos


as noites silenciosas
correm como um mar de vinho
odor de rouge e perfume dançando pelo ar
o trigo secando lá fora
a luz do jardim atravessa a cortina
como um sino dos ventos

quanto mais longe fico de mim
mais nego teu nome como lembrança
respiro o nada
o que não se pode expressar
lenta e apaixonadamente
de forma que não se cale




Poema de Vânia Lopez

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Medo


Amanheço. Por entre as dobras do ninho dos cobertores, travesseiros e lençóis, silenciosas mãos côncavas que me escondem como capa mágica da invisibilidade. Arranho por dentro o meu céu e ele, ainda, me sopra estrelas. Queria poder guardá-las na cadencia das horas em que me acho, mas, me perco.
Destranco a janela da alma e avisto os meus medos ao longe confabulando com o cinza do dia. E tudo se cala como uma silenciosa oração desenhada com baforadas no vidro. Meu corpo deságua raios e trovões, convulsão de um vulcão que quer expelir as sombras da caverna.
A neblina dissimula as carícias das mãos frias do medo.
Vou queimando por dentro e amontoando as cinzas em um canto, a espera que algum pássaro voe até a colina mais alta e espalhe o meu olhar inocentemente.
Encaminho-me com passos sonâmbulos como oferenda prestes ao sacrifício. De um lado, a solidão que estende a mão morna; do outro, a incerteza que escancara a sua voraz boca de abismo.
- Não quero mais ter medo de sentir medo!
Estendo os dedos como um cinzel pontiagudo e contorno, descolando, a face da solidão. Não saberei hoje dizer, se como o último ou o primeiro gesto, antes de anoitecer.


Autor: Lápis sem ponta

[...e ouvi alguns velhos do restelo clamando


e ouvi alguns velhos do restelo clamando;
“Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?”,

e vi duas sílfides dançando por entre o perfume das flores em primavera,
levando e trazendo suaves brisas,

e vi alguns poetas queimando palavras incrustadas em folhas preenchidas,
outros não riam, outros viravam as costas ao caminho,

e ouvi militares alteando a voz, encurralados na ilha de Kheros;
“Antiguidade é um posto, antiguidade é um ...”,

ah... e mais vi, e mais ouvi,
declamavam-se elogios, e mais elogios, como se a salvação fosse aqui tão perto;
- vai-te anjo rebelde expulso dos céus, expurgo-te do amanhã, do hoje, do sempre, “rasteja para a terra, possa ela salvar-te do nada”,

e alguns fizeram as pazes, mesmo com os dedos cruzados atrás das costas, alguns suspiraram não sei o porquê, outros guardaram as adagas de istambul ainda a brilhar,
libertaram-se os cheiros da amêndoa e do café.

E tudo vi, e tudo ouvi,
seria esperança, seria morte, seria o fim das trevas [?],

não sei,

sei que ainda ficou uma sílfide,
dançando por entre o perfume das flores em primavera,

[e o silêncio anoiteceu-me a voz, jamais o poema],



...
[que por aqui deposito? jamais].

Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

[... e enquanto me espraio longe


enquanto me espraio longe dos lusitanos areais
em mares tão distantes, para além dos imaginados,

acorda-me alguma canção sem refrão,
de um amor para sempre arrastado pela ondulação,

amor, ou desamor que ficou algures, nostalgia ou mesmo interdição,
mas o desejo ainda se mantem, assim, assim...

Tocam os sinos a repique, ainda os ouço da partida,
como um fado que revisito na memória, que se repete,

que se arrasta sem permissão,
e que invade, que sufoca ainda mais que a saudade.

Tão longa a longitude percorrida.

Rogo pela mansidão do amanhecer, sem sons ou síncopes,
doutos os que esperam sem pressas,
e que celebram o renascer sempre anunciado, que se repete,
e se multiplica pelo tempo,

eu, renuncio-me ao acordar,

e jazo-me,
longe dos lusitanos areais em marés distantes que se espraiam
por mim adentro,

[sem fim, sem ti, assim, assim...].




Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Vidas em perigo no fogo inimigo


É o fogo inimigo
Lambendo
Derretendo a terra
O morro
A planicie
Moitas nas serras
Grito na floresta
Eitos
E mais eitos
Em chamas
O beija-flor
Um tamanduá bandeira
Denunciam
Reclamam
Clamam
Um tiziu denuncia
Aos pulos
Trancos e barrancos
Revoltado
Sentinela de beira de estrada
Revoltado por tanto crime ecológico
Aos gritos conclama
Help
Help
Uma solução
De salvação
Tem fogo na mata
No topo
Nas ciliares
Na relva
Fúria de ventos quente
Circunda malhadas
Quintais
Muralharas da china
Por ali
Ninguém cisma
Em denunciar
A vida assada
Cozinhada
Em brasa viva
E feroz língua de fogo
Queimando
Assando
Expulsando tudo
Por léguas tiranas
Onde a vista alcança
Muito bicho morto
Tem ninho queimado
Goto
Preá
Jiboia
Saracura
Macaco prego
Morcego
Tamanduá
Doidos
Sem pra onde ir
E vir
Na grota do angico
Na mata do cipó
Nas nascentes do Curralinho
No nicho do guigó
Uma cobra silva
Rebolando
Tonta com tanta fumaça
O bem-te-vi apavorado
Diz que viu
Tudo partir da li
Do aceiro mal preparado
Da queimada do canavial
La das bandas do piranji
Diante de tanta produção insustentável
Parece não se contentar
Para as repetidas denuncias
Das vidas em fogo
Uma válvula de escape se acha
Um monumento de vida
O ícone guigó da Mata atlântica
Seres e vidas da mata que matam
Devoram
Atacam
Devastam
Mal tratam
Por bem prazer e deleite
Do império da cana
No consumismo de espécie humana
Contexto macabro
Que esse modelo superado de desenvolvimento
Encarna
Quando ignora nichos de bichos e florestas
Irmanados
Em festa biodiversa



Poema de Lizaldo Vieira

sábado, 26 de maio de 2012

a palavra e tua boca


o que me queima por dentro
é o silencio do céu

o cigarro que alucina em tragadas lentas

assombra-me
a palavra e tua boca

a chuva que adorna seus cabelos
costurando teu cheiro rente ao peito

teu sorriso criando eco
da vida que bate contra o chão
(do) resto que o peito consome

o que me devora saber
que o vento é o resto
num envelope fechado

o que arde e treme (é saber)
que a imensidão lá fora
é a singela mão do tempo
num envelope que voa.



Poema de Vânia Lopez
Quando o dilúvio atingiu o sentimento
Retirei o sol da escuridão
Estendi o coração no varal

                          Jorge Mdeiros

sexta-feira, 25 de maio de 2012

[...satura-me o sonambolismo com que a noite se veste


satura-me o sonambulismo com que a noite se veste
e mesmo que se disfarçe no canto de uma sereia,

mantem-me o olhar distante, não me afaga de mar,

e tudo acontece sem inicio, repentinamente
sem cor, sem tempo delimitado.

Desilumina-se o céu, e o cheiro da terra
é moldado pelas mãos no barro, mãos sem sina,
sem ternura, mãos de pedra,
e a dor pergunto-me;
não a sentirei mesmo que me atravesse o peito

e se crave na mais profunda saudade?

Dá-me a chave da porta por onde a noite entrou,
desferrolha-a mesmo,

racha-a de vez, relembra-me como é
a luz do dia em sol,

e, enquanto o céu azul se inunda de mar em cor,
repara nas núvens, velas enfunadas,
soltas,

vogando sem pressa, sem pressas,
esperando, que o destino aproe a sotavento.

Queimam-se as imagens de tantas as miragens nenhures,
nas recusas a este crepúsculo, regurgito da luz frouxa,

impludo-me então,
mais uma vez.

[que a última seja...]


Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Na estrada


O velho ônibus parou e o motorista abriu a porta . Subi , segurando a alça de alumínio . Segui em frente .Mais um naquele pandemônio . Carro lotado . Índios aculturados , aspirantes á garimpeiro ,garimpeiros ostentando um sorriso dourado , rostos vincados pelo sol e anos de bateia. Pairavam cheiros de todo tipo , crianças choravam , um velho reclamava e praguejava , ninguém entendia a sua ira cheia de cuspe e o l h o s vermelhos , injetados .

Arranjei um canto no fundo do carro e aboletei – me.Ao meu lado, uma mulher morena , de idade indefinida, olhos castanhos .Na cabeça , um lenço estampado evocava as longínquas calçadas de Copacabana . No colo, uma velha bolsa de lona . Um ocasional olhar de soslaio , por cima dos ombros magros . Do rádio de alguém , Teixeirinha enlutava o coração , de Amazônia afora . Que país ! Pensei nas últimas horas e nas estrepulias da guerrilha : quem não debandava , morria com tiro na cabeça, feito cachorro doido , pelo Brasil grande , em nome da integração e integridade nacionais, quem sabe, por Guevara , Mao, Trotsky , pelo socialismo, pelo declínio do Ocidente , sabe-se lá mais por quem e porque .

Vinha já há dois dias fugindo do A r a g u a i a, vivo ainda, graças ao cadáver de Heriberto , tombando baleado sobre mim , numa matança sádica e frenética . Sequer checaram os mortos. Aí , eu não seria o único para contar a história .Alisei o bigode postiço e o ray-ban . Puxei o chapéu sobre a testa. Camisa estampada , calça de brim : posseiro da cabeça aos pés. O calor castiga e entorpece . M e u cochilo precário e solavancado, termina por estancar num ponto , onde sobe alguém vendendo refrigerante. Nunca o imperialismo ianque foi tão festejado : bendita coca-cola de goela abaixo e volto ao torpor suado e trepidante naquele fim de mundo. Do banco da frente , um garoto ri , dedinho em riste e desdentada inocência:

- Mãe , o bigode do homem tá caindo ! O suor tá desmanchando a cara dele ! - Cala a boca , menino !
Deixa o rapaz cochilar – trovejou ao meu lado , a mulher de lenço.

Ajeito o bigode e enxugo o rosto na manga da camisa . A mãe , um olhar frio e doloroso feito facada . O garoto , matraca fechada e vez por outra , um olharzinho maroto para o rosto que parou de desmanchar-se.O sobe e desce do ônibus é interrompido pela voz anasalada que deu bom-dia e subiu no carro : um jovem capitão do Exército , cara suada de b e b ê johnson e olhinhos d e c a s c a v e l .C o t u r n o s brilhantes , seguidos por três soldados com cara de cachorro sem mãe , perdidos de arma na mão no meio do nada sobre quatro rodas , vindo em minha direção. Bebezão continuou a falar . Na mão , um cartaz com fotos de Terroristas Procurados.

_ Bom dia. Sou o Capitão Felisberto. Algum dos presentes viu ou conhece alguém daqui ? – aponta o cartaz, o dedo manicurado e lustroso. Um balançar de cabeças, um não generalizado, traz-me a respiração de volta . No olhar de serpente , o chocalho do ódio : - Olhem com cuidado...esse aqui ó, Carlos Borromeu Linhares , o Téo , pode estar por aí, por perto .Escapou fedendo, esse terrorista safado .Em São Paulo , jogou um fusca cheio de bomba num quartel , matando um sentinela de serviço. Olhem bem ! – o dedo lustroso cutucava a minha cara assustada da carteira de estudante.

Olhou os soldados, ordenou a descida ,saíram todos. Entraram num jipe , pegaram a estrada de Marabá. Brasil , ame – o ou deixe – o . Impossível, de tão simples. Mais duas horas de viagem e chegamos á Marabá. A parada do ônibus cheia de gente, em outras pessoas a mesma cara de enfado e tristeza nos adultos, a calma resignada dos velhos, dois gêmeos chupando picolé. Escafederam-se a minha companheira de assento e seu garoto. Nem sinal . Bem , e agora ? Sozinho, leve , muito leve,leve como a pluma, que fazer senão pensar ? Atravesso a rua poeirenta, entro no bar do Miguel e peço uma cachaça. No meio do gole, um voz anasalada e já familiar me ordena erguer as mãos.




Conto de André Albuquerque

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Marcio Rufino e a Dita




Dita

Quando eu nasci
A dita não era cuja
E sim dura.
Aos poucos ela foi fingindo que amolecia,
Mas algo embaixo ainda ardia.
Hoje a dureza da dita
Está escondida
Omitida
Embutida
Nas línguas
Nos sorrisos
Das titias da política
Nos bons-sensos dos patrões
Na proteção de alguns falsos guardiões.
Que a gente supere
A sopa amarga;
O dinossauro na pele de sapo
Que a gente tem que engolir.
Todo o poema engavetado
Pelo dedo decepado,
Mas ainda em riste
Levantado pela dureza triste
Da dita.

Marcio Rufino

ensaio das indefinições


o poeta é qualquer coisa
que se move

seta
pedra
para-quedas
paralelepípedo

o poeta é fogo ou algo
que se bole

mato
visgo
bússola
aneurisma

o poeta é tudo quanto
faz faísca

risco
seixos
anagrama
luz do sol

o poeta é tudo
quantas voltas
se lhe dê

vida
morte
sombra
luz

copo de coca-cola
ferida cheia de pus

esconderijo
abrigo repulsa
e nada do que digo

o poeta
é doença

o poema
é úlcera.

Poema de Caíto

segunda-feira, 21 de maio de 2012

[...e como sinto o vento que insiste



e como sinto o vento que insiste em levitar-me pelas falésias acamadas como núvens escuras dispersas,

e como sinto o vento tocando-me na face

pelo sorriso desta manhã adormecido,

adormeceram-se as longas distâncias,
adormeceram-se as longas histórias,
adormeceram-se as súplicas.

E como sinto o vento que insiste em repetir-se levemente,
como um linho que me toca,
qual algodão,

e como sinto o vento espraiando-se pela claridade
nesta terra castanha escura que piso,

como o sinto.

Reluzem as pegadas que o vento não levou,
o que restou do amor, talvez,

que as monções resistam nas tatuagens eternas do mar,
que a memória resista como o vento que insiste,

insiste,


ah... como insiste o vento em levitar-me de mim.


Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

domingo, 20 de maio de 2012

caso não haja depois


pode entrar como um grande soco de nocaute ou invadir com delicadeza todas as horas, todos os dias. ofereça seu ombro à minha sombra, afugente, me faça sentir sua falta, que transporto na memória nossos dias, vingo- me. banhe-me com surpresas, solidão e uma caneta que crie caminhos inesgotáveis, entardeça em uma igreja, rapte-me como se fosse o Mississipi, ferindo-me com as coisas que disse, faça promessas de flores, enlouqueça a realidade. cultive as pétalas que caem no sopé das montanhas. Seja um apache em meu coração, nunca se renda. aprendi a comer espinhos, tocar as ondas, mover-me como o vento, alçar voo, pega-ló através da neblina. encha o peito de bordados, ruas, praças, fogo, água. enquanto estiver dentro da sua cabeça, caso não haja depois, cuide da minha vida como se o cabelo sem a pele pudesse se quebrar...



Autor: Vânia Lopez



cá entre nós


devidamente penteada
maquiada e bem vestida
um bom salto para dar moral
(de primeira necessidade)
dou uma geral no quarto
abro a janela para ventilar
(saio) pronta para me tornar amiga de infância
da atual do meu ex
felicidade maior que o ser humano pode sentir!
(só quem tem ex pode entender)
já não tem a menor importância (verdade)
num rompante decido deixar a fome na África
Beethoven e Wagner proibidos
Vodca muita vodca, água nem pensar!
quero matar.
amizade com atual do ex?!
é como futuro: não chaga nunca!
beira a desumanidade...
(é pouco provável, mas nunca se sabe)
tão mais simpático olho por olho...
misturando “você” com “tu”
chego perto e sussurro: “vadia” (fica divino)
junto os flanelinhas para te chamar de tia
numa questão de bom gosto
indico uma dieta da lua
numa fazenda ao sul do Afeganistão
(dificilmente vai encontrar uma vaga para estacionar)
oro com força para que ela permaneça nos 34
com cara de 100...

no dia seguinte mando um bilhetinho:
“amiga, se no pileque fiquei estranha, esqueça!
foi tudo para facilitar... tive medo de você cair
quebrar uma perna. esse sofrimento não tem explicação...
antes eu do que você. (juro)”
com tal convicção que até eu mesma acredito!
(aprendam) fica mais barato e não se perde o ex!

cá entre nós (Deus):
Elegância é isso, gente!
fico esperneando de alegria...
e não se fala mais no assunto.


Poema de Vânia Lopez



Ah, é?


num quase-silencio
juntei aquela saia preta justa
de causar reboliço quando passa
o ursinho de vítima de terrorista
mas o que mais dói é a jaqueta di-vi-na
(de contrabando)
o sobretudo bordado por criancinhas da Indochina
a camiseta de passeata pela paz
o óculos finíssimo de camelô
a meia extremamente extravagante
que tu comprou na loja da esquina
rasguei (todas) as nossas fotos que atravancavam o PC
a tua amor, limpei com saliva
mais redonda que cachaça, desapeguei de tudo!
não pergunte por quê...
(puro atraso de vida)
consegui colocar tudo na bolsa importada de Marrakesh
bíblia, terço, jejum, o Corão
naquela bolsa companheira de tantas aventuras
que a alça não caí e o zíper não emperra
tudo na mais perfeita ordem
nesse dia coloquei meu vestido mais sexy
(de ressaca) enviei um buquê de lírios-de-santa-rita
num míssil de generosidade
doei tudo para um bazar de (ex)
com dois tubos de cola
entupi as fechaduras do bazar...
e tome vingança.
esse tipo de vingança é um verdadeiro primor,
(a ser aperfeiçoado, se for o caso)

(vingança) dedicada às bonitinhas
que se engraçam com ex-namorado

... que elas prescrevam (todas)
Glória essa que saberei agradecer ouvindo Vivaldi

(coro) gentilmente Amém!


Poema de Vânia Lopez

sábado, 19 de maio de 2012

da mão ao verso em ciclo eterno


as mãos são versos:

nasceram

versos,
gestos,
gostos,

gritos
sem valor;

pousam
e pesam

sobre os olhos...


tornam-se agudas,
(tornam-se grito)

tornam-se mudas
(tornam-se mito):

nada posso dizer
(criticá-las)

se elas querem

vôo,

malas

se preferem

vidros,

vultos


se me têm nas mãos,

ventres.

Poema de Caíto

sexta-feira, 18 de maio de 2012

me venha sem saber... (ou) antes de ir, venha cá!


talvez eu seja só uma menina
com os pés entrelaçados na meia soquete

que na saída da escola
diminuí dois dedos da saia
acariciando um sonho ou dois dentro do uniforme
tentando esticar o braço e tocar a lua
que ainda deita na sua cama
e acha o melhor lugar do mundo

orando baixinho pelos cantos dos cafés pintados de dourado
deixando em paz à noite
de pileque no carro
com o vestido vermelho vibrante
um par de sapatos de couro
esperando um flagrante

mas se Deus, ao invés de me dar o inferno
fique aguardando minha chegada
eu prometo de qualquer maneira
a partir de amanhã
não passarei mais na sua rua...

antes de entrar em casa
que a sombra alinhe meus cabelos
enquanto ainda não é mentira
(amor, meu ex-grande amor)

quem sabe eu seja só uma menina...



Poema de Vânia Lopez

quarta-feira, 16 de maio de 2012

terça-feira, 15 de maio de 2012

[despojam-se algumas estrelas...



despojam-se algumas estrelas dos fátuos brilhos,
que celestes sejam as ténues cores,

que os olhares

se quebrem silenciosos pelas teclas de um piano com cauda.

Ficará um, ou ficarão outros pontos

envolvidos pelo breve nevoeiro nenhures,

pensar-se-à então na imensidão de todos,
e os que rastejam [como serpentes, que sejam],
içar-se-ão contemplando os ecos que restarão das pedras angulares

despidas de tijolos.

Ao longe um breve azul colora as copas
que cobrem a floresta,

azul mar, azul céu, apenas azul,
que interessa

se os sinos já não tocam
anunciando as meias horas. Despojam-se alguns homens e mulheres da pele que os sufoca nos areais ainda em rocha,

esquece-se o tempo,
os corpos, o teu e o meu,

deixaram o espaço,
[desamarraram-se, desamaram-se]

Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

sábado, 12 de maio de 2012

[Finalmente]


(que o vulcão irrompa rápido...)


I

que se terminem as saudades, os rios, e
que o mar seja chão de terra,

que o silêncio seja buraco negro no meio de nenhures
onde a luz é um fio de linho sem cor.

Renascam novamente as orquideas, os cravos vermelhos,
e que as pétalas sejam doces como o mel,

os pássaros que encontrem poisos nas árvores perfumadas em ilhas escondidas pelo poente do sol.

Que o circulo termine em fogo de artificio,
jamais num breve fogo-fátuo,

e,

se a terra parar por um instante que seja,
que os deuses a rodopiem como o pião das crianças.


II

[Finalmente]
descansam os ventos alisios no sopé de uma montanha que pariu
o rio em dor,

ininterruptos os ecos que se repetem, estranha
a noite que não termina, mas que terá um fim,

reina um luar enevoado, adormecem as flores nos vasos,
na terra,
talvez cantem algures algumas sereias desapaixonadamente,
e os olhares fixam outros olhares mais perto,

partirei, sim, partirei
com a primeira maré do amanhecer.

[Que seja finalmente, que seja, que se cumpra o ciclo dos ventos, das primaveras, de mim, talvez de ti meu amor, jamais o saberei, que o vulcão irrompa, finalmente].


Poema de Ricardo Pocinho

quinta-feira, 10 de maio de 2012

As Gôndolas nas grandes luas de Plutão


Há quem
te veja presa ao anoitecer dos ramos:
os relâmpagos vão a escrever nos rosários,
quando se despenham até às novas tabernas
no centro de uma nuvem.
Há quem te veja presa
ao anoitecer dos ramos: perde-me outra vez,
hoje, suavemente, perde-me os teus
copos de lagos frágeis ou um altar
de mães nestas estações rápidas;
se fores pelos rios, verás o tardio Junho
numa noite de casas, a dele, a nossa, uma
estrela agarrada a um ramo quase a
desfazer-se, luminosa, sobre
a noite


Poema de Francisco Eugênio Seixas Trigo

quarta-feira, 9 de maio de 2012

(minha alma é um rio de nuvens para quando suas lágrimas vierem cair)


sou como um barco em silencio
lentamente me abandonando
nesse mundo de meu peito

inala navalhas
encarando os espelhos
como uma lembrança do jardim

colada em minha pele
uma roupa que não me segue mais
noites e cercas
mar que não volta... leve minha voz!
como sol no quintal
em seu todo e suas formas

minha alma é feita de areia
corre atrás da bola
atravessa seu inferno
como quem colhe estrelas
sob a luz do teu cigarro

ouça o vento que arrebenta suas correntes!

em um poema branco leve minha vida
pois minha alma é como um veneno delicado
onde o sangue teme o ar fresco (da sombra)
tanto quanto como quando você apareceu
(em meus olhos...)



Poema de Vânia Lopez

domingo, 6 de maio de 2012

anjos


tenho os meus pulsos
cortados por anjos
não me resta nada
a não ser esperar
a chegada da morte
refreando meus impulsos

anjos não tem culpa
das culpas da minha vida
esfarrapadas em desculpas
cerzidas entre meus pulsos

anjos não sentem raiva
anjos não sentem ciúme
anjos não sentem sangue
nem sentem o gosto do meu

anjos não devem desculpas
pelas tantas penas que trago
minha dor sangrada e oculta
anjos não causam estragos

anjos são feitos de éter
anjos são feitos de luz
anjos são quase etéreos
anjos serão minha cruz

anjos não pedem socorro
agem sempre com honradez
me pergunto enquanto morro
serei eu anjo alguma vez?

nos domínios dos demônios
sou mais um em suas hostes
não sou casto como os anjos
minha iluminação vem de postes.




Poema de Caíto

sábado, 5 de maio de 2012

as velas


I

fala-me dos nenúfares que as núvens
cobrem,

nos barcos naufragados em terra onde nasceram flores silvestres,

das cores soltas pelo pôr-do-sol
que levantam alguns ventos sem direção,
escondem-se outros.

[Ou...],

nessas palavras em que o verso grita sem destino,
aurora seja,
ou...

qual a cor do amar[?]. Pinta-o numa parede em ruínas,
eu,

II

as velas
libertam-se dos mastros de carvalho, regressam com as migrações
das aves,

liberta-me de mim,

e envolve-me o olhar cansado, arrastado-o como num tango em circulos,

os passos tocam-se levemente,
apenas levemente.

Sabes, eu nunca esqueci
porque sonhava naquelas noites com o mar,
era-me maremoto sem as margens que oprimiam, delimitavam.

Liberta de mim o mar que ainda me restou.


Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

quinta-feira, 3 de maio de 2012

saudade


I

desaguarei não como um rio
que jamais termina [...] nem pensamento,
como um mar, sim,
desaguarei como esse mar,

um desaguar repentino, violento,
[no teu colo],

e mesmo que não me sossegue
abrevia a distância em mim de nós.
Soltam-se as missangas que enfeitam os pulsos outrora cortados,
cicatrizes que a pele guarda,


ancoro-me num areal desconhecido.

II


saudade

não como o destino das viagens ou da pele que seca,
senta-te bem perto, lê-me o fado nas linhas da mão,

não ligues à linha da vida, fala-me do amanhã,
de algum ou outro sonho impossível, possível,

engana-me com o amar, jamais com o mar,
e no compasso dos pontos cardeais já apagados,
delimita as latitudes que as longitudes fiquem.

Horizontes sem as cataratas que imaginei,
sempre o saberei,

que os ventos despenteiam o mar em espuma esqueço-me,
o olhar fica-me sempre aprisionado

na dança das baleias

que ladeiam o barco que range.

Soltam-se as velas.



Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

quarta-feira, 2 de maio de 2012

flui a saudade em minha boca


sem você a vida voa de galho em galho
sorri o dia a desfolhar-se na hora incerta
... esperando por nada
Uma coleção de arranhões das horas

marimbondos girando ao redor de um copo de vinho
este cantar como ramificações de um rio, de tantos lábios
dando de comer, de beber
acolhido em minha mesa

as noites nada negam
exceto quando chuvisca
e as folhas esvoaçam
as lágrimas escorregam das nuvens
umedecem sua sombra
caem vencidas...
entre o olhar e a soleira da porta



Poema de Vânia Lopez

segunda-feira, 30 de abril de 2012

do dia


I

das lágrimas, se dizem purificadoras
por serem salgadas,

serão os sete mares
todos os choros da terra?

Sei que,
onde se esconde a noite tapam-se alguns pirilampos
prisioneiros da luz,

sei que,
a noite esconde os olhares das sombras,
algumas escondem-se
delas próprias para sempre, jamais saberei se os lirios trocam entre si as poesias,

onde tantas as vezes os referi.


II

do dia onde encontro a tua nudez,

vingam-se as noites em chuva,
apagando as velas que restam

e na sedição que sempre revelou,

esconde aqueles cometas que um dia viamos
por entre as nuvens transparentes.

Ficam-me os sabores dos seculos que se eternizam

pelo mar onde me navego


e ao longe avisto a ilha deserta que sempre procurei,
uma noite,

miragem, direi,

no centro da tempestade, sou.

Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)