Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

VIDA ENCANTADA



                                                       VIDA ENCANTADA

Agora escrevo meu sangue
Tudo que passou
Atravessou o peito
E o mutilou

Fiz a barba às pressas
Com meu corpo ainda despido
E marcado pelo tempo
Que ainda não chegou

O espelho esmagou
Minha solidão
Com a peste do cacete
Que deixei sobre a mesa do café

Os arrepios são sinais
Das imagens
Que vivem bailando
Nas ruas onde ando

A praça é meu destino
Quando preciso me exilar
Minha caverna para hibernar
Na embriaguez que me naufragou
Que minha alto-estima aniquilou

O inimigo está lá fora
Entre as sombras que
Assombram meus dias

Pronto para me abocanhar
Louco para me torturar
Quando eu sair pela porta
Para justificar a merda de vida
Embriagada que vivo a levar

Poema Desconcertado




Quisera Deus que eu escrevesse estas palavras para me expressar
Mas, na verdade, escrevo para me desabafar.
Como um fantasma obsessor
Tu ressurges do nada para me confundir
como uma dor que se finge de orgasmo só para me iludir.
Eu pisava em nuvens com o asfalto protegendo a minha cabeça
Quando aparecestes conduzindo meus olhos.
Tu eras tão exuberante quanto uma aquarela
e eu me via tão comum quanto uma telenovela
quando eu gostei do teu jeito de andar
do teu jeito de não me notar.
Eu era um peixe falastrão passeando por praias mudas.
Na ânsia de ter o que se quer
todo homem é meio Jesus e meio Judas.
Desse vinho queria eu beber até a última dose
e era em ti que eu refletia toda a minha neurose.
Questionando os vaidosos que arrogantemente somos
não sei se ainda guardas as marcas de meus dentes em teus ombros.
Nesse romance mal interpretado de personagens mal explorados
Tu permitias que eu me perdesse entre frases feitas,
pessoas mal resolvidas,
pensamentos bobos,
coisas mal ditas.
E eu só queria,
pelo menos uma vez na vida,
que os nossos corpos
fizessem parte dos vários pares de corpos que rolam na noite
Mesmo com toda dor que isso pudesse causar,
Mesmo com toda camisinha que disso pudesse cuidar.
Caindo na boca de toda essa gente.
Ao mesmo tempo igual
ao mesmo tempo tão diferente.
Pois teu jeito entrou na minha cabeça
como um espermatozóide enlouquecido
penetrando o óvulo umedecido
que fecundado gerou um abismo
onde eu insisto em afundar.
Caindo na boca de todo esse pessoal.
Ao mesmo tempo tão diferente
e ao mesmo tempo tão igual.
Na simples aventura de amar,
sinto que meu sentimento vale ouro.
Acredito que fomos feitos para nos encontrar,
mas não feitos um para o outro.
Um sentimento que pareça bastante verdadeiro
não quer dizer que seja totalmente sincero.
Um pensamento que se apresente muito mentiroso
não quer dizer que seja absolutamente hipócrita.
Hoje,
por não ter resistido ao fascínio,
grito a minha histeria,
me condenando ao ócio eterno
e entregando minha carne a pernilongos.
Na verdade, não te culpo por não ter me achado.
Sua grande crueldade foi não ter me amado.

Marcio Rufino
Todos os direitos reservados



Ando a dois passos a sua frente...
e não há mais com quem andar.
Ando sem saber o que é amor próprio...
há perigo a quem vier...
estou sempre a margem do rio,
a margem da boca,
a margem do amor e do calor,
a margem de tuas entranhas,
a margem da vida...
sou inteiramente um marginal sem escrúpulos,
amo sem pensar,
satisfaço com prazer...
e onde estou?
Deitado entre teus seios
no meio da noite...
mas quem é você?
a angústia de um tempo impossível,
as lágrimas que nunca chorei,
lembranças de uma história curta.
Ando a dois passos a sua frente
mas teu cheiro me acompanha,
teu olhar desorienta
e me afogo na confusão dos sentidos...
na longa noite a tua espera, perdição,
em sua noite de sono, outro dia amanheceu...

Fabiano Soares da Silva
Todos os direitos reservados

As notas do meu universo




A noite tem um sol,
para colorir estrelas,
e elevar seus tons.
E no céu
a Lua ecoa seu canto,
solitário de dar .
E da terra um grito e mi,
da natureza ,
condenada por um ser nela vivente.
Que pensando só em ,
não ouve a música da noite,
não pensa na dor da Lua,
e toca trombetas em ,
para destruir a natureza.
Mas a harmonia do universo,
composta pelo criador,
afinar-se-á por novos dias.
E trará para a triste terra,
músicos de sintonia,
que farão uma guerra,
por uma nova sinfonia.

Giano Azevedo
Todos os direitos resrvados

Cálice




sossega. a paz é assim mesmo. inversa.
a lua que encontra todo dia seu outro lado.
o oposto de si e o igual. o gêmeo.
o espelho retorcido.
o bruxo. o adivinho. o enigma.
a face obscura da lucidez. véus. diadorim.
a iluminura do eterno. a visão do cego.
a luz. a luz. a luz.
a poesia exata que exala o lodo.
asas. anjos. o rosto do corpo.
o último galo da terra.

sossega. a paz é assim mesmo. diversa.
a mãe dizendo que a filha morreu. e não há mais saída.
o livro dos prazeres sem Clarice.
a roda da vida ao contrário
versos desinventados.
a Mascarada que sorri. tão feia. tão linda. desarvorada.
unhas pintadas como leopardos. Ela - a foice que ceifa.

sossega. a paz é assim mesmo. perversa.
pra bom entendedor nenhuma palavra.
basta.
nesse momento nenhum pássaro é possível.
nenhum cheiro de fruta ácida. nenhum tudo.
nenhum invento de manhãs sem sono.
nem tardes mansas. nem noites mornas.
uma flor nascendo. somente.
um perdão sem medo.
um inverno caloroso.
qualquer humanidade.
qualquer deus.

dorme. a paz é assim mesmo. sossega.

Tanussi Cardoso
Todos os direitos reservados

Um tango no escuro




o último a sair, faça o favor,
desligue o interruptor
quero mergulhar num baú de noites escuras
quero enxergar a cor do som
quero sentir a vida em braile
é no escuro que os brinquedos dançam
pondo medo nas crianças
me deixe dançar com meus medos,
com meus brinquedos,
minhas crianças...
me deixe assustar os monstros
debaixo da minha cama.
e quando o escuro for assustador
quando tudo latejar dor
e quando nada parecer bom
eu danço um tango com a solidão

Beatriz Provasi
Todos os direitos reservados

Jogatina




Algo me diz
que tudo é permitido.
O que antes era proibido
agora passeia nas ruas
olhando vitrines,
ninguém esconde.
A vaca agoniza
mas o seu algoz
chupa-lhe a teta,
sem essa de mutreta
nesse jogo da sorte
quem governa é a morte,
festejando o seu poder
num banquete de cartas
- Quem está no jogo?
Façam suas apostas
a roleta precisa cumprir
o seu papel de girar.

Brasil Barreto
Todos os direitos reservados

Jura Silente




Tua mão cálida
cruzando a minha mão...
Forte imagem afagando o pensamento!
Tempo e espaço
espargindo luz e fé.
Braços-promessa
traçando a cruz de Santo André
num Xis perfeito
ou num explícito juramento.
Mãos incógnitas
juntinhas,
quase sem jeito,
porém assaz harmônicas
com melodioso arpejo
guarnecendo
a dimensão indefinível
dos nossos desejos...
Mãos de paz e claridade
quais seresta e luz sertaneja.
Mãos-verdade!...
Assim seja!

Rubenio Marcelo
Todos os direitos reservados

Poema Seco




Saio intacto do poema
Não restou nenhum verso em meus sentidos
Nenhuma rima ardendo no meu peito.
Fujo da noite em meu barco sem rota,
nu, vazio.
Nenhum vento me leva,
lua magra.
Ínfimo, inconcreto, busco um nome.
Sou um ponto perdido, sempre além.
Não, não quero poesia que me abrigue.
Quero só a poesia que me nega,
lira cega.
Quero a semente impura da canção
brotando bela e dura em uma pedra.

Pedro Ernesto de Araujo
Todos os direitos reservados

ÁGUA NA BOCA

                                                          ÁGUA NA BOCA

Ficarei com água doce na boca
Quando sentir o olor na entrada da caverna
Enfeitada de flores
E frutos do seu mar que irão me alimentar

Em suas paredes saciarei minha sede
Com seu suco sabor de luar
Em meu eclipse vou derreter
Para mergulhar através de você

Minha loucura
É explorar cada essência sua
Flagrâncias de sândalo à alfazema
Numa noite mágica sem cinema

No meu mergulho
Sentirei a caverna estremecer
Em cada pedaço de luar
De tanto que vou amar

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Estética Central e Pó de Poesia



Olá amigos!

Convoco vocês a comparecerem na sessão especial Festival Estética Central, que será realizada domingo, 13/02, às 19 horas, no Centro Cultural Donana.


Em sua segunda edição, o Festival Estética Central
percorreu o Rio de Janeiro com seu núcleo móvel, produzindo filmes a
cada parada. Numa dessas paradas, a Kombi do Festival estacionou no
Donana, permanecendo durante um dia inteiro do mês de dezembro.


Agora, com filmes prontos e muita história pra contar, o Estética Central retorna para projeção das obras.


Haverá a participação especial do grupo Pó de Poesia, composto por poetas da Baixada Fluminense.


Pra completar, discotecagem do músico Vagner Vieira e pipoca com guaraná!

Serviço:

Entrada franca

19 horas

Centro Cultural Donana

Endereço: Rua Aguapeí, nº197, Piam - Belford Roxo

3rinta e 6eis

fique longe da minha cabeça!
nosso amor morreu essa noite
meu amor
compraria flores bonitas
para o funeral

mas nosso amor foi assassinado
pelo olhar frio dos faróis
se misturou ao tom da rua
como se grafitado no chão

não é o fato de estar morto que o mata
é o fato de que só faltam 36 segundos
para que seja um dia qualquer...

Poema de autoria de Vânia Lopez.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Presto

Os dias despencam
aos pedaços. Logo será janeiro.

Posso farejar o amarelo das amendoeiras
de então (amarelas como teu cabelo)

e a praia, os bares, a ferrugem, nossas costas
e braços liquefeitos. Tanto faz a solidão,

a companhia: tudo são doenças tropicais,
incuráveis. O verão virá, forasteiro,

no vôo tonto, nupcial dos cupins
em volta das lâmpadas. Janeiro

está próximo, pressinto seu peso, a alegria,
o tremor, a sezão, o óleo,

a girândola veloz dos relógios
a nos golpear no ventre. Girassóis

em bando assestarão suas lâminas
em direção aos táxis

enquanto os rios, erráticos, desaguarão
à porta dos edifícios da Senador Vergueiro.

Poema de Eucanaã Ferraz retirado de seu livro "Rua do mundo".

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Creio...




Ergo a escada e subo convicta...
Do paradeiro que quero chegar!
Não olho nem para baixo,
Que é para não impressionar.

Sou melancólica,
Sou sensitiva,
Sou geniosa,
Mas sou de alma genuína.

Vou mergulhar num rio agridoce...
Embebedar-me dessa água pura,
Livrar-me do duro fardo hereditário!...
Pois quero o contrário, quero paz!

Recebi o lenço azul com muita ternura...
O mesmo exalava um perfume tranquilizante.
Colocarei o colar azul com muita estima,
Creio: vai-me trazer sorte e a rima íntima da vida.

Quero sim olhar o verde,
Trilhar o chão de terra sentindo cheiro de mato.
Visualizar uma nova Era... Era da primavera intelectual,
Tirando o alvoroço da minha mente e corpo, adornando meu emocional.


((( Camila Senna )))



segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011




Nesse jogo intenso
Vívido, voraz, feroz
Cheio de verdades inteiras
E meias verdades
E inverdades
Eu nunca mais vou dizer
O que penso
Só não consigo esconder
O que realmente sinto

Jorge Medeiros

Pombais

Abrigados nos pombais da cidade
eis que vejo os pombos.
Vez ou outra
fazem festa nas rações
dos domesticados
cães e gatos.
Com a proximidade
alçam vôo longo...
Misturam-se na multidão
que os espremem.
Creio que partem
por seus sonhos.
À um mundo distante
de paz e esquecimento!
Mas logo percebo o engano.
Eles voltam ao lar.
E já nem sei
a quem deveras
pertencem os beirais, as casas.
Só sei que estão sempre lá
nos pombais.
Os mais antigos moradores
da grande cidade.

Poema de Rosângela Ataíde.

Boca de lobo/Olho da rua

Poema Pirata

Cuidado com o cão!
Cuidado com o ladrão!
Eu sou um mal-intencionado
mas o que vale é a intenção.

E
já que estamos todos aqui
eu proponho um suicídio em massa.
E que passe o que passa!
E
já que estamos todos aqui
eu proponho um suicídio coletivo.
Televisionado e ao vivo!

Estamos todos
quase prontos
para o subsídio.

Paciência!
: mercado informal ou indigência.

Quadrilhas

puxador de fumo
que puxou cana
por puxar carro
chupa e assovia ao mesmo tempo

camisinha furada
pneu furado
papo furado
não valem um tostão furado

carta virada
é carta marcada
carta marcada
é só mais uma carta fora do baralho

beco sem saída
casa abandonada
terreno baldio
depósitos de carros e corpos

Quebre a Rotina do Território Alheio

galo ou relógio
trabalho ao sol
olho por olho
gato por lebre
olho gordo

defenda seu território
com unhas e dentes
e ruja

galo ou relógio
trabalho ao sol
dente por dente
tintim por tintim
dente podre

defenda seu território
com muros e grades
e mije

galo ou relógio
trabalho ao sol
sacuda o vizinho
acuda o vizinho
língua ferina

Poemas de Andri Carvão

domingo, 6 de fevereiro de 2011

FAZENDO AMOR


Para fecundar a terra
Basta o dia ir e vir
Dentro da noite.


Poema de Moduan Matus

Do Livro Acepções do amor
MISCELÂNEAS


Poemas vão e vêm
Em estilos variados
Correria de trem
Movimentação de aquário
Futurista,surreal
Plástico,métrico,petrificado
Romântico,realista,livre,arcaico
Alinhando idéias e significados
Arco e flexa
Do alvo imaginado e inimaginável...



Poema de Sil
Do Livro Miscelâneas
RECEITA PARA SE FAZER UM POEMA


Pegue a pena
Vá, volte, espere.

Mexa , recue, rabisque,
apague,transporte,modere.

Venha,vá,retorne,
puxe, amasse,zune.

Chore,molhe,grite,
avance,apague,rabisque.

Vá,venha,retorne,
estique,conceda,chore.

Fique,desista,volte,
abracadabra,saia da gruta.

Faça tudo de novo;repita:
e você não pegará o filho da puta.

Poema de Marlos Degani
Do livro Sangue da Palavra

A morte da minha memória




Abre o pano. A rainha Hécuba está no palco arrasada diante das ruínas de Tróia, destruída pelos gregos. Isso me arrasa também, pois da platéia lembro-me de eu menino, com 5 anos de idade, quando minha mãe me levou no Tivoly Park. Quando estava no cavalinho um fotógrafo bonachão com barba e bigode fartos e brancos parecendo um Papai Noel gostou de mim e tirou uma foto minha. Qual o adulto que não se apaixona por um garotinho rechonchudinho, gordinho e carismático? Só que minha mãe não tinha dinheiro para pagar a foto. E infelizmente fui embora para casa sem aquela memória maravilhosa de um inesquecível momento de minha vida.

Volto a platéia do teatro e vejo Hécuba tomar uma porrada atrás da outra através das notícias do mensageiro. A filha Policena que terá de ser sacrificada no túmulo de Aquiles; a outra filha louca Cassandra que terá de ser sacrificada em honra ao deus Apolo, o netinho recém-nascido, filho de Heitor que será atirado do alto das muralhas de Tróia para não correr o risco de crescer e vingar os seus e a coitada não pode fazer nada. Eu também não pude fazer nada pelos textos infantis que escrevi ainda menino das minhas aventuras no Sítio do Picapau Amarelo onde eu aprontava mil e umas com a Emília, o Pedrinho, a Narizinho e o Visconde de Sabugosa. Eu escrevia tudo num caderno inspirado no programa que mais mexia com a minha cabeça. Mas o caderno se perdeu na poeira do tempo.

Volto novamente à platéia do teatro e vejo Hécuba se lamentar com Zeus de seu infeliz infortúnio e seguir cativa dos gregos. Fecha o pano. Fim do espetáculo.

Vou ao camarim cumprimentar a atriz e qual é o seu assombro quando digo a ela:

- Liga não, Hécubinha. Isso já aconteceu comigo também.

(Marcio Rufino)
Meu coração
Não está partido
Meu coração
Partiu.

Jorge Medeiros

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Sina...

senna


Trago o meu fumo, e observo atenta...
O desenho da fumaça que se forma.
Esclarecida para muitas coisas,
Porém, em outras, enigmática.

O suicídio de outrem,
Para mim é vida.
A cólera maldita,
Para mim é opção e não castigo.

Sigo Traçando traços fortes...
Pois sou assim e serei até a morte!
O que não importa para o ocupado de alma,
Para mim, é intrínseco, é sagrado!

O que para os conformistas sem tesão, é um fardo...
Para mim é sina!
Sina que se pode moldar até o fim da estrada de minha menina.



((( Camila Senna )))

.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Aguada

água de beber
a razão, o devaneio... a purificação!
água fresca
água dos meus sonhos... perfumados
claras águas
pedras sem limo, encostas, arrimos
amores irmãos!
linho engomado, quengo soado...
numa gota d'água
seu chão


AGUADA


Poema de Erhi Araújo

Pombas

No dia fraturado,
Ainda me comovo.
Pra mim não há melhor
Imagem que me evoque
A dor de ser aqui
Que a de contusa pomba
Que tenta em vão voar,
Do chão segura alçar-se.
Sou esta pomba feia,
Que manca pisa o dia,
Em crimes repartidos,
Ferindo todo o alheio,
Ferindo toda gente,
Que não se entende e vê
Que como aquela pomba,
De um ego desmedido,
Mas sempre ignorado,
Também corre perigo,
Mancando o tempo todo,
Enquanto sente a vida
Tão débil levantar-se,
Mas já ferida e breve
Num vôo incerto e frágil –
Sois ave de má sina!
Fazer o quê? E agora?
Pergunta-me o silêncio,
Em meio ao alarido
De quem se acha feliz,
Sem ver que também manca
Por baixo dos casacos,
De capas e aparências
Expostas nas vitrines
Das lojas e balcões
Que cremes e cosméticos
Of’recem nos reclamos
A eterna juventude,
Com código de barras,
A dóceis avezinhas.
Não há respostas certas!
Somente mais perguntas
Que são sempre caladas,
Mas se materializam
No jovem que me assalta
Das vielas da miséria,
Na pomba que não voa
E cata estas migalhas
Ao rés de um chão mesquinho,
Sem ver que se aproxima
Um carro a esmagá-la.
Enfim, as suas penas,
Depois da imensa roda
Que passa impiedosa
Por sobre frágil corpo,
A mim comoverão
Num dia fraturado
Que conta para todos
A pena que por muitos
Eu sinto agora, aqui
Em meio às minhas penas –
Fantasmas de mim mesmo.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
Essas formas febris que vigiei
do andar mais alto da inconstância minha,
formas sem par, raras, sem lei nem grei,
e de onde o próprio inferno se avizinha.
Olhai seus rigores, suas severas
penas, vede a ferrugem e o pó, vede
o cardume de incêndios que, deveras,
há muito se encapela em sua rede.
Não meçais seus dissabores, meçais
Sim outros cuidados, outros novelos,
um gosto de vinho e de antigos sais.
Os degredos todos, vós quereis vê-los,
quereis a certeza de nenhum cais,
o abalo do mar nos vossos cabelos.

Soneto de Iacyr Anderson Freitas retirado de sua antologia poética, intitulada "Oceano coligido".

Grafites rupestres

Cemitério Clã-Destino

Todo santo dia
é um dia santo.
Padre emprenha freira
e gera coroinha.

Fora do Ar

A tevê desligada
é o canal.

Genéricos

made in korea
made in japan
made in china
made in taiwan
produzido na zona franca de manaus
pirata original
do paraguay

Promoção Pro Mocinho

ANAL
ORAL
MANUAL
R$ 1,00

Silogismo

O cão é o melhor amigo do homem.
O cão não gosta do carteiro, logo
o carteiro não é homem.

Poemas de Andri Carvão.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Menina do rio (Silviah Carvalho e Arnoldo Pimentel)



MENINA DO RIO (Silviah Carvalho e Arnoldo Pimentel)

Fiquei na margem do rio
Desanuviando minha mente,
Meditando na constância das águas
No desapego da alma, neste vazio...

Vi pessoas passarem as margens
E notei cada um faz seu próprio rio
E navegam em suas esperanças
Levando as lendas em suas bagagens

Vi a menina sentada à beira do rio
Sonhando com a felicidade
Esperando o boto... Não sei!
Que a tire da beira e se faça seu rei.

Na espera inútil a tristeza vem à tona
Não há encantamento... Eu chorei!
Vendo a tristeza nos olhos da menina
Do rio amazonas...

Eu vi a menina partindo só e com frio
Deixando nas margens o fim do seu rio
Eu a vi sofrer por um conto infantil
Eu soube que nunca mais ela sorriu

E eu! Ainda espero só,
Na margem do rio... do meu Rio

Sua...

Não quero lógica
Nem a equação perfeita
Não quero saber da meteorologia
Não quero saber dos meus próximos dias.
Quero a ilógica mas verdadeira.
Quero dominar a equação imperfeita do meu coração...
Quero Sol, quero Chuva,
"Quero o hoje...! Quero o hoje...!"
Quero-te beijar sem cerimônia...
Quero enlouquecer com sanidade,
Quero ser de verdade!
Quero que me pegue, fazendo-me ser aquela.
Aquela que goza,
Aquela que é escandalosa quando alegre...
Aquela que é um contraste da regra,
Aquela que veste letras poéticas.
Aquela que é divina,
Aquela que é deusa,
Aquela que é pequenina,
Aquela que é sua sina.
Quero sim! Ser só sua... Sua!... Toda nua!



((( Camila Senna )))

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Casa vazia

Um silêncio tumular ressoa
na grande casa agora vazia,
por onde a solidão em pessoa
sobe e desce escadas todo o dia,
na paciente espera do entardecer.
A alegria da natureza que se impõe
escancaradamente no jardim,
dói como um nó pela garganta seca.
E a cadeira vaga na varanda,
à luz do sol a se aquecer
parece ainda mais vazia e muda.
Quem sabe a noite apagará as cores,
traga mistérios que a mim iluda!
E na ausência da luz se acalme
o clamor do peito curvado
sob o peso do passado inteiro.
E a escuridão generosamente encubra
os espaços tão sós e vazios
onde a felicidade andou a passear.

Poema de autoria de Elmira Nunes.

Poemas panfletários

Anti-herói

Você é um homem ou um rato?
Um rato ou um saco de batata?
Seu barraco num barranco,
o barranco num buraco,
o buraco – uma caixinha de fósforo.
A condução, sem condições,
uma lata de sardinhas.
Da quebrada ao centro
ratos em caixinhas de fósforo,
sacos de batata em latas de sardinha.
Ratos e sacos de batata
das caixinhas de fósforo
direto para as latas de sardinha.
Você é um homem, um rato
ou um saco de potato?
Você é um herói,
o meu anti-herói...

A Raspa do Tacho

Os homens dão as cartas.
Os homens voltam para casa.
Os homens fecham a cara.
Os homens vão à caça

enfileirados indianamente
no frigorífico mais próximo.
Carne humana é a fina nata
da mão de obra barata!

Eu só como carne de 2ª
e uso roupa de 2ª mão.
Eu só como carne na 2ª
e no resto da semana não.

Dependurado num gancho
de açougue pela goela,
eu sou a raspa do tacho
no fundo da panela.

SOS Favela

Favela sobe o morro
Favela desce o rio
Favela pede socorro
SOS Brasil

Favela sob a ponte
Favela ano 2000
Favela no horizonte
SOS Brasil

Favela cobre o viaduto
Favela pega no fuzil
Favela subproduto
interno bruto

SOS Vazio

Favela se conscientiza
Favela realiza
Favela se realiza
Favela concretiza


Poemas de autoria de Andri Carvão.

A praça do herói

A força de um vento sem sol e sem alma,
Soberbo relâmpago rasgando o escuro,
Corrida veloz, pombos na praça calma,
Vertendo na fonte um pedido seguro.
Só a força de algo como o pensamento,
Dá ao redemoinho o devido valor,
E a vida que vejo no exato momento,
Do dia findar derradeiro fulgor.
E a estátua da praça, sorrindo gelada,
Mostrando a destreza do herói lutador,
Esqueceu que deixou em distantes estradas,
O lar de Anita, verdeiro amor.
E sempre distante seguiu o caminho,
De lutas constantes por um ideal,
Com ela a seu lado, não segue sozinho,
Mas ela chorando a Terra Natal.


Poema de Paola Rhoden escito em Milão em 12/01/2011 em estilo épico e que fará parte de uma Antologia que será lançada em 11 de maio na Itália.

Viagem ao redor do entardecer

Uma bota gessada de cinqüenta dias de idade, coberta de desenhos,
frases, riscos e rabiscos de netos, outros parentes e aderentes, no
conhecido padrão da teoria do caos: no dorso do pé, homem de ferro
enfrentava um possível agressor extra-terrestre, no meio da canela, uma
caveira com a inscrição gope disposta em colarinho; na parte externa da
perna, pendia quase obscena, a língua carnuda de um rolling stone.
Rivaldo coçava a bota internamente com um mata-moscas, enquanto
acompanhava Bruno, numa hipnótica reprise televisiva com Eddie
Murphy; tão antiga, apenas o neto de nove anos, expert em sessão da
tarde e similares, conseguia rir daquilo tudo, pela zilionésima vez;
concessão de uma infância alegre e despreocupada. Vez por outra,
uma olhada no meticuloso trabalho da nora - sim , para ele nora, para
o filho, simplesmente a ex; bom, problema deles, a sua Amarylis
há muito partira deste mundo aguado; melhor para ela – pensou em
surdina, enquanto Cecília recolhia o quarto tapete com auxílio da
diarista; o carpinteiro fixava uma barra metálica no banheiro próximo
do seu quarto, quatro marcas na parede do corredor, indicavam a
iminente instalação de mais duas – não é o que mata velho mesmo?
Caganeira e queda , não necessáriamente nessa ordem, filosofou
contemplando a bota gessada. Encima da mesa, despontava do
embrulho uma luminária, cor de pêssego para a nora, para ele,
cor de erisipela braba: uma sentinela para o sono já peso – pena.
Rivaldo agora coçava as costas; para a nora, o seu melhor sorriso
aparvalhado. Não deixava de ver naquilo tudo, uma compensação
idiota para um descaso já indolor pela idade. Ele, Cecília e Bruno.
Uma família? Quem sabe? O filho mais velho, jogou tudo pro alto:
casamento, emprego bom, cidade grande e foi plantar uva nas margens
do São Francisco. De usura, deu três meses para o retorno do marido
pródigo, mas as coisas deram certo, vez por outra, uma caixa de uva,
com rótulo em dois idiomas, mimo para o velho pai . Sorriu para dentro
enquanto olhava as radiografias, contra o sol na janela: uma canela
rachada deu naquilo tudo, imagina se quebra o fêmur? Está ali, uma
rachadurazinha no meio do caminho, no meio da perna tinha uma
rachadura aos oitenta bem vividos; apenas aturado por falta de opção,
dizia o sorriso amarelo e o andar rebolante da...mãe do seu neto. Isso
mesmo. Mais oito dias: sem bota, estranhava a brancura pruriginosa
da própria perna, parecia não fazer mais parte dele. Bruno em casa,
as férias definhando, os dias embaralhavam-se no tédio, feito o carteado
sebento com que às vezes divertia o neto. Numa das últimas tardes de
janeiro, perguntou de chofre, as palavras pulando da cabeça para a
boca, direto, sem cerimônia, olhando firme para o garoto
- Bruno, vamos visitar teu pai, lá perto da Bahia?
Estranheza e alegria, os pequenos olhos sinalizaram em rápido movimento:
- Vamos. Nunca mais vi meu pai. Nessas férias não fui pra lugar nenhum.
Selado o trato, dedo nos lábios, pedindo o silêncio do neto e apontou na
garagem, a motocicleta deixada pelo filho, com o resto da antiga vida no
bagageiro: dois capacetes, um par de luvas, num saco plástico transparente;
um desafio negro, imponente até debaixo de poeira tão velha quanto a
fratura da perna. Na manhã seguinte, comprou gasolina que estocou
escondida na garagem. Lavou, limpou, regulou a moto, fingindo trabalhos
de carpintaria que afugentavam a faxineira: boa e oportuna serra elétrica.
Madrugada do dia seguinte, ambos de casaco e capacete, abriram as portas
da garagem, empurraram o cavalo de aço uns bons cinquenta metros.
Acomodou Bruno na traseira, ligou o motor, quicou a partida e
arremeteu, contra o vento seco de janeiro. Agora, a cem por hora, sentindo
o vento forte contra o corpo; o conjunto, uma vela enfunada sobre o
asfalto. Logo, a aridez da paisagem alternava-se com áreas verdejantes; vez
por outra passavam por cavalos e bois raquíticos, parecendo a caminho do
fim do mundo, em marcha desolada. Uma longa reta, surgem as primeiras
algarobeiras; Rivaldo grita para o neto que aquelas árvores são tipo
camelos de vegetação, crescendo no calor, quase sem água. O garoto
escuta de olhos arregalados, grita e gargalha, imaginando um camelo
com quatro galhos ao invés de pernas. Parada para o almoço. Bruno
de olhar parado, vendo um bode virando buchada, na cozinha do
restaurante de beira de estrada. Indignado, comeu apenas o pirão,
que era gostoso nem era bode. Povo danado de ruim, aquele dali,
que ainda matava o bode à cacetada. As pequenas cidades vão-se
emendando, feito um rosário de beato. A tarde vai findando; o sol, um
tição no céu avermelhado, vai saindo de fininho.


Conto de autoria de André Albuquerque.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Um encontro especial...



A ponte que me leva todos os dias para casa, já nem sei se devo confiar... Por ser meu único atalho de ida e de volta, não tenho muito o que discordar. Mas algo vem me deixando intrigada: é que eu andei saindo, e na volta, ao invés de eu retornar para meu lar, eu ia parar sempre em algum lugar que, sei lá, é estranho e ao mesmo tempo familiar.

Sentia-me distante de tudo que conhecia, de tudo que vivia. Mas me sentia bem, como se fosse justamente aonde eu sempre quis estar. Talvez por me sentir à vontade e tão bem é que ficava arredia com o desconhecido, digamos: diferente da minha rotina e realidade.

Se eu contar essa história mal contada para minha psicóloga, tenho certeza, ela não vai acreditar, e logo vai-me perguntar: "Como era esse lugar?" Já que não vou contar nada para dra. Margarida, tratei logo de descrevê-lo nas entrelinhas do meu diário. Que é para se caso, ou por ventura, num desses azares da vida, eu caia e bata com a cabeça, esteja registrado. Então escrevo:

O lugar era rico em vida, com muito verde e árvores ao redor, com céu que mais parecia furta-cor. O sol rei parecia gostar da minha presença. O mesmo, escapava pelas fendas das árvores para me visitar... O vento era diferente, exalava jasmim... Mas o que mais me chamou a atenção foi aquela criança, uma menina diferente, que tinha algo especial. No início, pensei que a menina estava perdida e dava uma passada de olhar para ver se achava seus pais, mas nada!

Era lindo de ver como ela me olhava e sorria, como quem tivesse se encontrado, como se EU fosse um achado... Ela não falava, mas era como se ela fosse meu espelho. Eu podia ler todos os seus pensamentos, sentir todos os seus desejos, me alegrar com todas as suas brincadeiras e sentí-la como nunca senti ninguém, a não ser eu mesma.

Ela olhava para mim com olhos de esperança, com olhos de fé, tal como se eu fosse o seu futuro brilhante, o seu destino... E de repente tudo passava como um filme em minha cabeça: lembrava-me da volta para casa, da ponte, dos caminhos, do lugar e da doce menina com olhos regados de inocência, mas ao mesmo tempo urgência de ser aquilo que se sonha... Lembrava-me daquele sorriso que transbordava sinceridade, mas que ansiava liberdade. O cheiro da menina era o mesmo que o meu...

Pensei - tantas coincidências, será que o destino está a me pregar uma peça?
Ou enlouqueci de vez? Intensa que sou, resolvi pegar nas mãos da menina para sentí-la, tocá-la... E passeando meus olhos sobre sua palma, pude perceber que eram as mesmas linhas que as minhas - esfreguei meus olhos na busca de estar louca, com sono, míope... Mas não, era exatamente o que eu via, uma mão como a minha, um cheiro como o meu, os olhos de fé como os meus, o sorriso de sapeca que ansiava liberdade, tal como os meus.


De tanto buscar respostas para as minhas perguntas, cheguei à conclusão de que a linda menina era um anjo, mas logo me veio outra pergunta: como assim, um anjo?Logo eu? - cheia de defeitos, nada angelical, apenas com minha bagagem de fé, coragem, ousadia e na busca incessante da cobiçada liberdade, como pude eu ter contato com um anjo? Não, não, isso não é real. Resolvi procurar uma saída para sumir dali e marcar com urgência uma consulta com a minha psicóloga.

Quem disse que eu achava a saída? Conformada de que eu estava tendo um sonho bonito e louco, resolvi relaxar, cruzar as pernas como Buda e meditar. Meditando, ouvi o sussurrar do vento baixinho no meu ouvido, dizendo: "essa menina é você, Valentina, é apenas um encontro com o seu "Eu" e com sua menina, com seus sonhos, com sua inocência ainda intocável, quando tudo era mais bonito, quando tudo era possível.

Atônita, levantei-me daquela posição de Buda e fui olhar bem de perto aquela menina. Ela estava sentada na pedra, me olhando e, como sempre sorrindo...
Eu encantada com o que tinha ouvido, deslizei minha mão sobre seu cabelo, acariciei seu rosto alvo e notei que o mesmo cordão de ouro que eu tinha ganho com três anos de idade estava ali, bem no pescoço da menina.


Pude ter a certeza de que o vento amigo não brincava comigo. Fitei o breu dos meus olhos sobre o breu dos seus e vi minha'alma. Isso mesmo - vi minha'alma... Enxerguei toda minha trajetória até aqui, vi todos os caminhos que insisti passar, todas as guerras que eu tive que lutar, todas as lágrimas derramadas sobre aquele lençol, todas as vidas que Deus permitiu que partisse, todo o amadurecer de uma menina-mulher. Me vi inteira, desnuda... Corajosa e ao mesmo tempo desprotegida. Vi toda a vontade interior que eu sempre tive de mudar minha história, transformando minha tristeza em alegria, minhas perdas em força, mas que com o tempo e com a vida corrida, já tinha esquecido! Pior, tinha esquecido de mim!

Aquele túnel do tempo com encontro marcado comigo fez-me enxergar novamente... Tirou toda a poeira que embaçava minhas lentes e me deu gana de voltar a ser aquela menina idealista, sonhadora e com alegria na alma. Quando a ficha caiu de verdade, uni minhas mãos sobre as dela, fechamos os olhos, e quando os abrimos, parecia mágica, nos transformamos em uma só.

Fui marcada e jamais esquecerei o motivo pelo qual eu existo, pois não caí de paraquedas nesse mundão de meu Deus para ser só mais uma. Eu fui escolhida, e minha missão aqui na terra é com um propósito: de ser estupendamente feliz!




((( Camila Senna )))

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domingo, 30 de janeiro de 2011

Prometeu passeia entre os dedos

Prometeu passeia entre os dedos



“Our house is very beatiful at night”
Lou Reed, in My House




Nesta sexta conto dois meses sem fumar.
Fecho livro, abro janela, desligo a tevê.
E acendo um cigarro.

- Suzi?
Alê resolve ligar.
- Alê ?
- É você, Suzi?
- Acho que sim, e você?
- Também.

O Alê sempre me convenceu a sair de casa, porque eu nunca me dei tempo de aprender a disfarçar qualquer indisposição. Então troco de roupa, ponho uma malha, e da janela do quarto tento decifrar as horas. No relógio, dezoito e uma fração qualquer.

Fecho a janela do apartamento, a porta do quarto, dobro a chave, e desço as escadas como uma louca, atrás de alguma coisa sem nome, somente guiada pelo convite do Alê, que namoro desde que cheguei aqui e que, como eu, divide apartamento e depende da merreca dos pais para pagar o aluguel de seu pardieiro. Corto duas ruas, e lá está o Bruno, cada dia mais gordo, fazendo sinal com sua mão redonda. Me chama pra subir, como se não soubesse a que vim. E lá estou, abrindo ao avesso a porta de entrada do condomínio, do elevador, e da casa que o Alê divide com o Bruno, o gordo da mão redonda.

- Mas quem é vivo sempre aparece – ele diz sorrindo.
Debaixo da camiseta do Bruno, vejo duas pizzas. Disfarço.
- Sabia que tu engordou?
- Não.
- Fique sabendo.

O Alê aparece com a toalha enrolada no cabelo. Ele parece um hippie. Acho prescindível, mas gosto dele. E da barba de riponga dele também. Amo o Alê. Mas hoje não sairemos pra nenhum sushi bar, nem arriscaremos um pub. E como não costumo adivinhar bem, atesto o fato a partir do artefato: Jean-Luc Godard. Acossado. Disfarço cínica e exaustiva aquela cara de episódio recorrente. Peço um cigarro.

- Mas não contaria seis meses?
- Sim, mas com o cigarro na boca, a partir de hoje.
- Aluguei um filme pra gente.
- Mesmo? – eu pergunto, olhando enviesada pro dedão do pé.
- Sim. Olha aqui.

Ele me mostra o filme que já vi. E me leva pro quarto. Faz frio. O saco do Alê fica pequeno quando tá frio, mas o pau dele continua firme como uma rocha e doce como um damasco que eu vou chupando calorosamente, enquanto me masturbo. Ele liga o som. Lou Reed canta pra mim, enquanto o Alê me põe de quatro e enfia gostoso, provando a mim como sou carente. Ele goza na minha boca. Eu gozo logo depois, nunca gozamos igual, fato que ele desconhece. Enfim, daí tudo desaba na cama, e o silêncio se quebra logo, como de costume. Ele se acha intelectual, porque diz entender o Godard. Já eu prefiro achá-lo gostoso, para não elencarmos outro atrito aos demais, afinal estamos deitados entre estes lençóis esperando chegar a grana que paga as contas. Ele pergunta como foi o dia.

- Igual ao seu, só que mais cansativo: cinco entrevistas de emprego: nenhum delas, enquanto tu continua com a bunda sentada na cadeira, sustentando o arquétipo de grande sábio à custa do salário de teu pai. Acho tão forçado. Acho banal e forçado, sabia?

Ele levanta puto, e vai ver o filme. Eu continuo deitada olhando minha bunda empinada no espelho, mas não choro. Não é hora.

( New York Herald Tribune! New York Harold Tribune!)

Jean Seberg. Grita impecavelmente bela aos transeuntes parisienses. Os meninos olham famintos pra ela: Alê põe a mão no queixo. O gordo, no pau. E enquanto os dois marmanjos guardam suas ereções continuo a pensar que chupo muito melhor que a Jean Seberg, e que mesmo aqui, enfurnada neste inferno, levando não na cara a cada vez que mostro esse diploma, que mesmo não cotada sequer para um pornô de quinta, ainda guardo nas marcas de minha face a presunção de uma Liv Ulman.

Tento perguntar por quê tudo acontece nesse ritmo fora de controle, analiso trajetórias e tento achar uma solução menos fatalista, uma decisão que traga resultados ágeis, intercâmbio, metanfetaminas, oportunismo aplicado a docentes senis, mas tudo se estagna tão logo vejo o Alê, transpirando alegria e preguiça.

- Amanhã será um dia diferente – penso comigo mesma. Mas se não tiver sol, será glacialmente mais bonito que agora.

( Bonjour, monsieur inspecteur)

- Tu tem um fósforo? – o gordo pergunta, cigarro no canto da boca.

(Vous organisez voyage maintenant ?)

Empresto minha bituca. E lá estou eu, entre hiatos de silêncio que se movem devagar na sala, alheia a tramas, totalmente cheia de sono, a contemplar o passeio do fogo por entre os lábios de meus dois homens, passeio tedioso, porém dedicado, cujo ciclo se atualiza à medida que a bituca acende um novo cigarro. E se lá vai o último palito de caixa de fósforos.

- Ninguém tá a fim de descer e descolar um fogo?

Michel Poiccard, quanta beleza em teus gestos bruscos. Amo teu senso de negligência, recebo-te como quem te prende a dois instantes em troca do risco de teus pequenos furtos.

A gente se encara cheio de ódio, garras arruinadas, punhais cegos. Estamos absolutamente cansados de continuar a viver. Mas insistimos. Dissesse ele que não me amasse, me encostasse na porta a pontapés, me traísse, enfim. Mas não. Alê preferiu me amar. Pura covardia.

(Ouais, et alors?)

- Porque alguém teria de se levantar, ou tô parecendo muito arbitrário?

( argent a été volé, mais jê vous aime )

Trago bem forte aquele cigarro. Morte paulatina, como o pico de um orgasmo. Capoto na cabeceira do sofá. Bruno, que se encontra exatamente entre mim e o Alê, toma-me o cigarro e dá também seus tragos, produzindo uma espécie hedonista de atividade, cuja ação só terá seu sentido enquanto a chama do cigarro se mantiver acesa. Me olha bem fundo nos olhos.

(Pourquoi vous es triste?)

- Prometeu passeia entre nós – ele diz, como se o segredo do mundo estivesse ao alcance de seus dedos.

(Parce que je suis triste)

Sopro em seu rosto uma lufada de fumaça. Ele ri. Seu riso tem uma duração sui generis, dissipa-se no meio do fumo. Alê esquece o filme pra se aproximar da gente. Somos apenas nós, garimpando nostalgias, como excêntricos escoteiros.

(I don’t know if i’m unhappy, because i’m not free, or if i’m not free because i’m not happy)

- Prometeu está entre nós – ele repete sua epifania, enquanto a gente se integra num único ritmo sob a mesma pena de reacender os últimos cigarros.

(Tu connais William Faulkner ?)

Alê traz algumas long necks. Aos poucos, flagrava seu olhar apagando indícios. Olhava pro céu, igual lobisomem. Aproximo-me. E uivamos os três para a lua que sangrava como uma chaga aberta no firmamento. Sobre sua superfície gigantesca, parcas e fúrias curtem uma trip, enquanto assistem ao trágico espetáculo do inevitável. Então choro, porque o fim é iminente. O último cigarro apaga-se, pondo fim ao nosso harmonioso ciclo.

(C'est un romancier que j'aime bien. Tu as lu Les Palmiers sauvages ?)

- Bruno. Meu pobre Bruno...

Durante toda aquela noite, Prometeu estivera entre nós, a fim de que tudo naquela noite se mantivesse fresco e pacífico, ritual de passagem vagabundo para outro dia. E lá está Belmondo, atirado ao chão, como convém aos marginais, rosto à luz itinerante de um sobejo de tabaco. Alê me beija.

- Você é minha Jean Seberg.

(C'est vraiment dégueulasse)

- E você, meu Poiccard.

(Qu'est ce qu'il a dit?)

À minha volta, tudo acabado e triste: garrafas no chão, Prometeu acorrentado, Bruno adormecido sobre seu sofá.

(Vous êtes vraiment une dégueulasse)

Resolvi nunca mais retornar àquela casa. E nunca mais voltei a fumar.

(Qu'est ce que c'est "dégueulasse"?)


Conto de autoria de Plynio Nava.

sábado, 29 de janeiro de 2011

Pensando triste

Ando temente
Talvez demente!

Quem sabe o sol
Traz o calor
Para um amor
No arrebol.

Seria um pranto
Talvez encanto!

Que em uma vida
Vendo esta luz
Que o som seduz
Alma ferida.

Grito de fera
Uma quimera!

Seria a fonte
Essa lembrança
Sem esperança
Ou uma ponte?

Só abro a mente
E sigo em frente!

Não é de hoje
E nem foi ontem
Foi um desmonte
A dor no alforje.

Poema de Paola Rhoden que será publicado em Antologia na Ciudad de México - Janeiro de 2011.

Navegante

Navego por onde segue a calmaria...
Às vezes leme,
às vezes vela
e toda vez que vem a tempestade
me ancoro num ponto 'ausente.
Escarnecendo meus nós
por uma voz temente.


Navego por onde segue a calmaria...
Às vezes proa,
às vezes popa
E nessa calmaria eu navego...
Sigo a maré que me leva ao porto
onde minha letra desfaça tudo
que tange lúgubre.
E a calmaria segue...

Poema de Rosângela Ataíde.

Mitologias

Atropelados
Por tanto pressa
Foi nosso amor,
Foi nossa dor

Nas vastas vias
Congestionadas
De estreitas gentes
Em amargor

Nas mãos de Chronos
E devorando
Os próprios filhos,
Mitologias,

Enquanto guiam,
Entre Tifeus,
Titãs e cérberos
E vãs certezas,

Os próprios carros,
Os próprios medos
De sós ficarem
Sem posto ou carro,

Sem cargo ou farra,
Paralisadas
E engarrafadas
Nos vãos, semáforos

De uma avenida
Que só conduz
A inútil pressa
De quem perdeu

Há muito tempo
As mãos e o véu,
Úbere céu
Que nos atavam.

E agora assim
Sem nada mais
Que nos vincule
Sem canto ou messe

Para cantar,
Para ceifar
E que traduzam
Feroz vertigem,

Qualquer verdade,
Perdida herdade
Que nos acolha,
E nos recolha

De frio chão,
Procuro em vão
Por nós, velames,
Por quilha e amarras,

Velhas canções,
Arras, camões,
Canhões, guitarras
Num peito arcano

Que mesmo só
Sem vela e insano
Na estrada imensa
Insiste e canta.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

POEMAS DE ANDRI CARVÃO

FAVELA S.A

naquela vila
naquela viela
no fim da fila
lá na favela

nos becos
botecos
nas quebradas
bocadas
aos trancos
e barrancos
barracos
nos buracos
das enxurradas
das enchentes
e cheias
cheias de gentes
soterradas

é a vida
fecharam a entrada
da boca de fumo
do beco sem saída

não moro
no morro
me escondo
onde Judas perdeu as botas
no raio que o parta
na puta que o pariu
na casa do caralho
na casa do chapéu

fico no fundão
moro no fundão
vivo no fundão
sou do fundão
fundão da zona norte
fundão da zona oeste
fundão da zona sul
fundão da zona leste
fundão da sala de aula
fundão do busão

no âmago da alma
do fundo do coração
no fundo do poço
no fundo no fundo
no fim do túnel
no fim do mundo
no cu do mundo

NÃO

logo ali ao lado
lá longe
do outro lado de lá
no cu do Judas

mundo perdido
tudo fodido

na fossa
no fosso
na poça
no poço

no fundo do poço
entre dejetos fetais
cicranos beltranos fulanos de tais
quais
quer +
despojos expurgos
excretos concretos
infelizes fétidos
boatos discretos
secretos

sem destino
na multidão
sem sentido
na solidão

em meio
ao devaneio
mera
quimera
doce ilusão
sem rumo
me arrumo
penico no pires
no ponto final do arco-íris
sem pote de ouro nem anão

(Pra lá de Bagdá
Pra lá de Bangladesh
Pra lá de Shangrillá
Pra lá de Marrakesh
Última partida
Ai de mim
Fim de linha
Dor sem fim!)


POEMAS MARÍTIMOS

Mensagem Engarrafada

O marulho do mar
O barulho do bar
O barulho do mar
O marulho do bar

Homem ao mar - náufrago
Garrafa ao mar - mensagem
Homem no bar - bêbado
Garrafa no bar - quebrada

Briga sobre o balcão
Entre sujeitos sujos
De vestes e de almas

Homem do mar - lobo do mar
Homem do bar - bebum do bar
Homem-mar / Homem-bar
Maresia / Bar & Cia.

Ar – Raro Efeito

Abrem brechas
Brisa branda

Breve brilho
Brumas brancas

Sobram sombras
Bravos abrolhos

Ressaca

Garrafa náufraga.
Rolha no gargalo.
Papiro amarelado.
Mensagem indecifrável.
“Liberte o Gênio.”

Letra ilegível.
Língua morta.
No rótulo “BEBA-ME!”
Mau Agouro levou seu olho.
Não seja ingênuo.

O gênio
Se acha
Mas não se encontra.

POEMAS DESCONJUNTADOS

Água2Zero


água natural
água mineral
água torneiral
água de beber
água molhada

água potável
água da fonte
água da bica
água de coco
água de colônia

água gaseificada
água doce
água salgada
água que passarinho não bebe
água oxigenada

água salobra
água cristalina
água tratada
água fresca
água filtrada

água pluvial
água fluvial
água rás
água viva
água-furtada

água líquida
água sólida
água gasosa
água insípida
inodora incolor

água na boca
água de batata
água turva
água benta
água do joelho

Carmen Miranda

banana prata
banana maçã
banana figo
banana da terra
banana frita
banana cozida
banana de pijama
banana d'água
banana ouro
banana pão
banana blue
banana boat
banana verde
banana madura
banana podre
banana nanica
banana de dinamite
banana split
banana pra você

Noz Moscada

nó de gravata
nó na garganta
nó de marinheiro
nó em pingo d'água

[pingo d'água
pouco d'água
copo d'água
cobra d'água]

nó cego
nó no serviço
nó bem dado
nó apertado
nó no peito
nó no nó

FIGURAS NAS NUVENS

Todas as Cores

amarelo com vermelho
uma fruta
vermelho com azul
uma flor
azul com amarelo
uma folha

a pomba
na teoria
o luto
na prática

vermelho com preto
a terra
vermelho com branco
outra flor

preto no branco
restos mortais

Uma Nuvem

avelu
mente
dada

dada
avelu
mente

dada
mente
avelu

mente
avelu
dada

avelu
dada
mente

O Duplo

as sombras
das nuvens
nas montanhas

o reflexo
das árvores
no riacho

o homem
sem reflexo
no espelho

o primata
sem sombra
no chão

puro espírito

a beleza
é terrível

ALGUNS HAIKAIS

Banquete dos Mendigos

Galinha preta
ao molho pardo
na encruzilhada.

Paradisíaco

praias desertas
horas incertas
mentes abertas

Nau

Navio pirata
Navio fantasma
Nau frágil

Você me Lava feito um Vulcão

Fogo na montanha
Lava no mar
Formações rochosas

O Náufrago

Canto de sereia
Cauda de baleia
Castelo de areia

Pretérito Imperfeito

Todo dia
O dia todo
O passado presente

GERAÇÕES EM CONFLITO

Geração Espontânea

Provo
o novo
ovo
do povo

Reprovo
o novo
ovo
do povo

Provo
e reprovo
o ovo

E desaprovo
o ovo
de novo

Geração X

guardei o rolex
no marmitex
passei lubrax
no jontex
enfiei tampax
no rex
cheguei ao clímax
no box
passei um fax
depois ajax
achei o max
o denorex
coloquei durepox
no duralex
passei durex
no sax
tirei xerox
do tex
jantei inox
com pirex
passei látex
no gálax
espirrei antrax
no fedex
e ganhei um tórax
mais sexy

A ALGUMAS QUADRAS DAQUI

o sorriso
amarelo
é um belo
aviso

na hora h
do dia d
a bomba h
no ponto g

gosto
do clima
de gustav
klimt

o sono
profundo
é o dono
do mundo

PÓ DE PIRLIMPIMPIM

aponta
a planta
na ponta
da ponte
e pinta
o poente
de pranto


se
sente as-
sim a-
cima do
sétimo
céu a-

quele
que
cai aos
ca-
cos no
caos do
chão de
cal

conta
e canta
quantos
plânctons
na planta

libélula lilás
belisca bétula

POEMAS LILIPUTIANOS

Fábula Verídica

Era uma vez
até que um dia
todos viveram felizes para sempre.

Sal na Lesma

A lesma passeia
construindo sua estrada
de diamantes
enquanto o encanto
inicial se esvai
no ralo sujo da memória.

A Mosca

A mosca tem várias visões do mundo
e eu não alcanço o seu ponto de vista.
E nem a avisto quando ela pisa fundo
e eu perco fácil fácil a sua pista


MADE IN PARAGUAY

charuto cubano
filosofia alemã
cinema americano
e a música brasileira

whisky escocês
tapete persa
perfume francês
e a seleção brasileira

porcelana chinesa
balé russo
tecnologia japonesa
e a mulher brasileira

VC

Você
liga a tevê
e
o quê
você

?

Você
desliga a tevê
e
o quê
você

?

Você
fecha os olhos e
o quê
você

?
Você
!

REQUIEM

Quando eu morrer
quero que queimem todos os meus escritos
em praça pública, caso eu for mais um.
Morto não sente mais dores.
Quando eu morrer
não quero flores e nem quero velas,
não em minhas roupas ou no meu caminho.
Morto não enxerga cores.

Quando eu morrer
quero que queimem todos os manuscritos
em casa mesmo, caso eu for famoso.
Morto não derrama lágrimas.
Quando eu morrer
não quero caixão e nem ser sepultado:
quero apenas o meu corpo atirado ao mar.
Morto não respira mais.

Quando eu morrer
não quero que paguem as minhas contas,
pois quem paga deve ser sempre o devedor.
Morto não deve um tostão.
Quando eu morrer
não quero que chorem no meu velório,
pois só se chora por dor ou por culpa.
Morto não pede perdão.

EU POR MIM

Eu não combino comigo
Eu não pertenço a mim
Eu não vejo nada em mim
Eu sou o meu maior inimigo

Eu não caso comigo
Eu não preciso de mim
Eu não caibo mais em mim
Eu sou o meu próprio castigo

Eu não colaboro comigo
Eu não choro por mim
Eu não sou páreo para mim
Eu sou um modernista antigo

Eu não pareço comigo
Eu não esqueço de mim
Eu não transito em mim
Eu sou do tamanho do meu umbigo

Eu não sonho comigo
Eu não me escondo de mim
Eu não vivo sem mim
Eu sou um fantasma com vitiligo

Eu não durmo comigo
Eu não estou preso a mim
Eu não separo meu eu de mim
Eu sou o medo e o perigo

Eu não encaixo comigo
Eu não sou tarado por mim
Eu não piso em mim
Eu sou a sombra que sigo

Eu não misturo comigo
Eu não fujo de mim
Eu não me espelho em mim
Eu sou o que sou e nem ligo

Eu não convivo comigo
Eu não me sustento em mim
Eu não me perco de mim
Eu sou tudo o que eu digo

Eu não aprendo comigo
Eu não sou o oposto de mim
Eu não estou acima de mim
Eu sou o joio e o trigo

INÉDITO HOJE

Saio da janela e ligo a tevê
Novela rural
Mudo de canal
Comercial
Mudo de canal
Programa musical
Mudo de canal
Entrevista banal
Mudo de canal
Infantil fecal
Mudo de canal
Mapa astral
Mudo de canal
Telejornal
Mudo de canal
Hino Nacional
Mudo de canal
Mundo animal
Desligo a tevê e volto à janela

VARIAÇÕES SOBRE A MESMA TEIMA

i.
Deitado na cama
fumando no escuro.
Sem coberta e com frio,
coberto e com calor.
Baforando zeros do vazio
interior.

ii.
Eu
no centro da capital
e o interior
dentro de mim.

iii.
O tédio do interior
ou o tédio da cidade?
O tédio é interior
no campo ou na cidade.

O tédio é solidão.
O tédio é multidão.

O tédio do interior
ou o tédio da cidade?
O tédio é interior
em qualquer localidade.

Na praia ou no deserto
tão longe, tão perto.


Autor: Andri Carvão.

Se Luminar

Se Luminar
mesmo em horas a fio
das que me sobrevém o pranto,
as que andas na contramão.
Se Luminar.

Iluminado o sorriso
torto
onde me encontro,
por quem me perco!

És Vida que sobrevive entre
tormentos...
Ultrapassa expectativas,
Supera as esperanças.

Se luminar!
Porquanto minhas reservas a ti
é puro encanto...
É amor de fato.
Penso meu corpo no teu pousado
deveras receptivo,
eterno aliado
...Nós dois vida afora enamorados!

Mas que não seja
vida afora e seja apenas
instante...
Ainda assim,
Se Luminar!

Poema de autoria de Rosângela Ataíde.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

SEDUZIR



Um simples carinho
Que seduz o amanhecer
Leves toques
De prazer
Que só a estrela vai ver

Jasão e a sua riqueza

A riqueza do velocino de ouro
Ficará com os argonautas. Coro
De Netuno: o navegador Nestor,
Na beleza, desse tão hercúleo encargo;
À coragem dá-se um Teseu, calouro;
E ao lirismo, os dedos de Orfeu, um tesouro.

A viagem, a embarcação, de novo
Encoberta por um dragão nesse antro...
Vãos temores; adormecido o touro.
Semideuses a proteger um argo
Sustentando com mãos de ancoradouro
A fortuna de navegar seguro.


Poema de autoria de Yayá.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Um sábado e duas redes

Manézinho contemplou os olhos vermelhos de ódio e cachaça à sua frente,

estendeu a garrafa por cima do balcão e abasteceu aquele copo que parecia

sem fundo, saciando a sede peregrina de João Caboclo. Beberrão ele era,

mas naquele dia, embebedou-se diferente de todas as vezes: a fala

enrolada, mas a cabeça lúcida, quase não tombava, virava o copo e

lascava na ponta da faca, o pedaço de charque, que às vezes arremessava

pra cima e aparava com a boca. Algo estranho naquela sede ribeirinha, de

beber até o rio lá embaixo, se virasse aguardente. Mas o ardente mesmo

era o juízo dele, o dono da bodega, pastorando o último bêbado do sábado à

tarde, o banzo de fim de feira, a matutada voltando pros sítios, e ele

aturando um pau dágua esquisito, bom pagador e respeitador, mas só a

imagem de Elza, o que não foi e tantas possibilidades, fazia-o suportar

aquela besta fubana. Namoro de juventude, dez anos atrás, agora cruzavam-

-se na rua, o cumprimento constrangido da Elza recém–casada, virou

silêncio e olhar perturbado para um chão que nenhum dos dois enxergava,

embora vissem. A vergonha pelo que não fizeram, do desejo aspirado à

força bem para dentro, a roedeira terna e eterna, um sofrer fugidio e

pegajoso. E correu o tempo, aquilo ia queimando por baixo, feito fogo de

monturo; João Caboclo, rei da vaquejada, pequeno no tamanho, grande

na brabeza, melhor criador de gado gir das redondezas, cachaceiro emérito

de sábados e domingos, um pirralho a cada ano e nisso já se vão seis.

Desmerecia a esposa, tomando a prima Nicinha como amante, toda a

cidade já sabendo, apenas Elza se fazendo de doida; últimamente, aos

domingos, ia até a igreja acompanhada da pirralhada toda, o marido de

mundo afora, engolindo poeira e farejando aguardente. A Nicinha, boa

bisca, tinha namorado: Doca Faustino, um comerciante de miudezas,

magro, encurvado pela altura e pelo peso dos chifres, diziam as almas

sebosas, na tenda de Biu Barbeiro, entre uma meia–cabeleira e uma

costeleta pé-de-bode no capricho, igual á daquele gringo, Elvis Presley.

Aí os pensamentos de Manézinho fizeram um arco no espaço, feito ave de

arribação buscando rumo, aquela conversa sem fundo nem boca, um lero

–lero de encher até pneu de trem, que nem tinha pneu, olha só. Mas de

supetão, o pau d’ água debruçou-se no balcão e sussurrou, um bafo de

onça filho de todos os alambiques - segredo de bêbado também não tem

dono:

- Manézinho, hoje eu mando Doca Faustino pras profundas dos infernos,

pra derreter os chifres até dar um circuito no zumbi dele, porque corno não

tem alma...

Agora o encachaçado era Manézinho, sem cachaça nem nada, a

confidência entrou no ouvido e começou a dar canga pés, lá dentro do

juízo. A boca secou mas a curiosidade não, debruçou junto dele e

cutucou a onça:

- João, desculpe, não ouvi direito, você vai fazer o que, mesmo?

- Fazer o mundo mais maneiro, mandando Doca Faustino pro inferno,

porra!

Mais uma lapada de cana, outra virada, agora uma lasca de queijo de

coalho, puxou um bolo de dinheiro do bolso, pagou a conta, de gorjeta,

bem, pra que falar na gorjeta agora? Saiu, de cabeça baixa, a Rua do

Carvão estreita pra tanta brabeza movida à cana. Manézinho matutava,

João Caboclo era um bêbado completamente diferente, tombava mas

não conversava miolo de pote, mentira então, muito menos. Assuntou a

vida, olhando pra balança velha, o queijo ainda lá encima, olhou o

prato ainda reluzente por fora e já escuro por dentro. Viuvez à vista,

tiroteio á vista, Elza ainda gostosa, mesmo cheia de menino, aqueles

olhares constrangidos, relâmpagos de desejo mal-satisfeito? Ainda o

queria? Se aquele miserável não acabara com o corpo, a cabeça ainda

dava conta? E a humilhação, depois de tanta esfregação, juração de

amor e ainda fazer sua semente deitar à terra, um medo mais pra nojo que

medo, mesmo. Agora, seis filhos nas costas, a prima raparigando com

o esposo e .... E? Que a vida resolva suas próprias broncas, ele continuava

naquela solteirice viúva, vivendo com a irmã meio louca, na doidice de

ficar na janela da sala, acalentando o filho que só no pano e naquele fundo

destrambelho da cabeça existia. Foi invadido por um cansaço, embalado

no calor de janeiro, sentou num tamborete, escorou-se numas sacas de

feijão, o sono pegou–o de cheio mas desabou correndo de dentro dele,

com os gritos de Neco Gato, de braços abertos, segurando-se no portal,

anunciando que quase agora, no final da tarde, João Caboclo matou Doca

Faustino, e vice-versa, mais pra vice do que versa, pois João Caboclo

levou cinco tiros e só acertou dois, mas no coração de Doca. Manézinho

levantou-se, foi até à porta, olhou para o alto da ladeira da Rua do Carvão,

a tempo de ver duas redes ensangüentadas, transportadas lado a lado.

Os carregadores tentavam proteger o rosto do sol, os chapéus não ajudavam;

mesmo no final da tarde, o sol de janeiro ainda era uma fornalha ardente.


Conto de autoria de André Albuquerque.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Passeio sem rumo

Na praça

Vi uma florzinha resistindo à neve que arroxeava os lábios das crianças

Na rua

Vi um pássaro perdido nos galhos secos e chorosos de uma árvore branca

Nos homens

Não vi sorrisos, apenas esgares, caminhantes de rostos enregelados

Olhando o céu escuro

Sorri feliz por estar viva entre tantos pontos de luz envidraçados


Este poema é de autoria de Paola Rhoden, escrito por ela em dezembro de 2010 quando visitava o Salon du Livre onde será lançada uma Antologia da qual ela faz parte de 18 a 21 de março de 2011.

Fazedoras de filhos fracassadas





Kátia estava triste a passar roupa. Pensava na vida como que pisasse em cacos de vidro e fosse obrigada a engolir a seco o choro de dor. Sua fome de vida estava lhe trazendo conseqüências desagradáveis, dolorosas. Mãe de três filhos, cada um de um relacionamento diferente, e já grávida do quarto - após várias aventuras amorosas - voltava a viver sob as hospitalidades da amiga Noêmia que já havia a acolhido antes na gravidez do primeiro filho em sua casa na rua Aguapeí, no bairro Piam, em Belford Roxo. Kátia tinha sido sempre muito afoita em tudo. Muitos homens entre adolescentes, rapazes e até mesmo alguns senhores casados de todas as cores, idade, peso e altura já tinham sentido na pele do corpo inteiro sua ânsia por prazer intenso em fugidas, pegações, ficadas, noitadas e orgias entre uma batida de funk e uma roda de pagode; entre um copo de cerveja e um cálice de vinho; entre um e outro tapinha num cigarrinho de maconha. Mas como tudo tem seu preço quando o cuidado não faz parte da rotina de um ser-humano, ela agora esta ali... Sem trabalho, sem homem. Respirando o que não queria; comendo o que não queria; ouvindo o que não queria.



Noêmia teve que fugir de casa aos dezessete anos por causa da irmã mais velha que queria rasgar seu rosto com gilete, invejosa de sua beleza. Mas conheceu um homem bom e remediado que se casou com ela e lhe deu um nome, um lar e uma filha. Só que em seu casamento faltou o amor e uma pitada de paixão e com isso Noêmia numa bela tarde se descobriu traída pelo marido. Revoltada, se separou pondo-o para fora de casa. Então passou a aturar cobranças não só dos credores - já que o ex não lhe ajudava em um centavo - mas também do atual namorado que exigia uma relação mais séria e da filha que, já adolescente, crescia exigindo a presença do pai dentro de casa. Tudo isso além de criar o filho mais velho de Kátia.



Kátia e Noêmia agora estavam ali, passando roupa naquela casa velha; precisando de uma reforma. Com o telhado quase caindo em suas cabeças. Ouve-se um barulho de portão se abrindo; passos pela varanda. A porta se abre e naquela sala quente entra Verônica, comadre de Noêmia, acompanhada de seu jovem filho Marcelo, afilhado de Noêmia. O papo corre solto e animado até que Verônica fala da ex-cunhada Edilene. Outrora, Noêmia havia tomado conta de Miltinho, filho de Edilene, sobrinho de Verônica.



- Hum! Essa aí se deu bem, minha filha. - Dizia Verônica com sarcasmo e um pinguinho de inveja. Tá com seis filhos. Cada um de um homem diferente. Botou todos eles na justiça e hoje recebe pensão dos seis. Agora tá morando num casarão em Miguel Couto. A mordomia da nega é tanta que os filhos vão levar o café da manhã pra ela na cama. E você pensa que é café e pão com manteiga? Nada disso! É suco, frutas, queijo, presunto, geléia... Tudo na bandeija.



Ao ouvir aquilo, Noêmia deu um tapa no braço de Kátia que da sala a outra quase foi parar na cozinha.



- Tá vendo Kátia? - Perguntava a anfitriã numa fúria intolerante. - Tá vendo, sua fazedora de filho fracassada? Mulher que quer ser piranha tem que ser piranha esperta. Piranha burra fica é pastando pela casa dos outros igual você. Mulher burra tem mais é que tomar no c... pra deixar de ter o grelo no lugar do cérebro.



Marcelo caiu na gargalhada dada a teatralidade histrionicamente humilhadora do esbravejar da madrinha. Constrangida, Verônica começou a beliscar discretamente o filho para que parasse com as risadas.



- Deixa ele rir, Verônica! - Determinou Noêmia ao notar o embaraço da comadre. - Pode rir, Marcelo. Você está na minha casa.



Ao perceber a lágrima invisível que rolava no rosto de Kátia, Marcelo cessou o riso e, sentindo-se culpado, quase despencou da gargalhada escrachadamente histérica para o choro desesperadoramente comovido.



- Bom! Eu já vou indo. - Disse Verônica levantando e puxando Marcelo pelo braço. - Foi só uma visitinha rápida.

Ao sair pelo portão, Verônica assumiu uma aura de tristeza e indignação repreensiva.

- Noêmia não deveria tratar essa moça dessa forma. - Disse ao filho num monólogo inconsciente. - Ela se esquece de tudo que viveu. Ela se esquece que tem uma filha mulher dentro de casa.

Verônica andava pela rua com o olhar parado; misteriosamente distante como o olhar sedutoramente longinquo de uma mulher do Oriente. Marcelo, olhando-a parecia assistir ao filme invisível que passava diante das vistas austeramente melancólicas da mãe através de suas lembranças. Quando ela ajudou Noêmia a fugir da irmã. Neste filme a protagonista era a própria Verônica e as cenas eram dolorosamente cults. Seu pai proibindo-a de continuar seus estudos, ainda menina, para ajudar a mãe a cuidar da casa e tomar conta dos irmãos menores, já que ela era a mais velha de todos. As madrugadas em claro tendo que embalar o sono dos irmãos e tendo que esquentar o leite já que a mãe tinha que atender aos apelos grosseiramente amorosos do pai na fabricação de mais irmãozinhos. Os gritos dos irmãos e o roncar da cama dos pais eram a trilha sonora da infância daquela mulher; somado ao medo de dormir no meio da tarefa e ser despertada por uma surra de moer os ossos.

Na pausa para o intervalo, em frente à banca de jornal, lê na capa de revista de celebridades sobre a famosa socialite da zona sul que acordou numa luxuosíssima cobertura em París ao som de uma orquestra de violinos na manhã seguinte à noite em que disse ao marido, um poderoso empresário, que estava grávida. Isso remeteu-a há alguns anos atrás, num quartinho imundo e abafado do bairro Areia Branca, quando o até então namorado Joaquim arremessou um punhado de dinheiro em sua face para que fizesse o aborto ao saber de sua gravidez; e ela uma vez desobedecendo-o e tendo o filho, tendo que abandonar o emprego de enfermeira dois anos depois para se dedicar integralmente ao pequeno Marcelo, mediante as ameaças do já marido Joaquim de abandonar o lar.

A capa da revista remeteu-a também à casa dos pais de onde foi expulsa aos bofetões pelo pai que não queria uma filha mãe solteira dentro de casa. Ela tendo que se abrigar na casa da amiga Agripina, também grávida, e que mais tarde seria a mãe de leite de Marcelo. É. Se Eva soubesse que a conta que teria que pagar por ter dado o maldito fruto para Adão comer fosse tão alta, teria ela comido a própria serpente assada.

Quando passou em frente à padaria lembrou que tinha que comprar pão. Quando chegou no guichê uma voz melancolicamente doce chegou em seu ouvido como o canto de um anjo:

- Moça, compra uns doce pra me ajudá a dá de comer pros meus fio. É baratinho!!!

Uma bela, mas suja, esfarrapada e maltrapilha jovem negra lhe oferecia uma caixa de bananadas. Duas crianças pequenas e um bebê no seu colo choravam ensurdecedoramente de fome. Os olhos da jovem e das crianças inchados pela violência, desamparo e desesperança eram vários punhais pontiagudos cravados no peito de Verônica.

Marcio Rufino
Todos os direitos reservados

Crédito de imagem: site baixaki

SEIOS CÁLIDOS (Arnoldo Pimentel)



SEIOS CÁLIDOS
Autor: Arnoldo Pimentel (ventosnaprimavera.blogspot.com / haikainosventos.blogspot.com) 

Seios cálidos
Solitários
Como sombras sem holofotes
Como palavras soltas no vento
Suplicando por leves toques

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011


Busca

Busco a santíssima
E idolatrável amizade
Fumegante e carnal
Como a de Jônatas e Davi
No livro santo de Samuel
Que mesmo a morte
Não suplantou tanto ardor
E estima

Busco a amizade plena
Divinamente permitida
Divinamente concedida
E contemprâneamente
Deturpada.

Jorge Medeiros
(04-01-2011 - 01:01 h)