Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



sexta-feira, 16 de março de 2012

[estranho]

Sempre quis o silêncio, aquele onde os sons se suspendem, onde, nem o respirar liberta sussurro, por um dia só que seja,

e lá, nas fendas que se querem
em lavas,
entram ilusões que revejo,

palavras em imagens,
isso, eu sei.

Agarro então o ar
que as orquideas libertam, inspiro-o,
sinto a terra raiz de que me libertei,
regresso, rapidamente,

ao pó,
e as minhas mãos colhem searas outrora ondeadas pela brisa da primavera que por ali ficou estancada,

e o tempo passou,
isso, eu já sabia,

renascem as visões repetidas, gastas
partidas sem piedade, porquê a piedade que se parte como cristal ao amanhecer? [ou pelo canto de uma prima-dona inspirada que ouvia nos domingos adolescentes...]. Sim, partidas.

E do amar que o escrito procura, resta o mar no suave ondear das vagas que se quebram em areais cobertos por girassóis ou por algas ou por corais ou...,

estranho,

como se tudo fosse estranho, sem cor,
abanam-se os sorrisos,
abrem-se as rotas naqueles hemisférios que se depenam como garças no além mar em silêncio.

Quanto ao silêncio que me inunda, por este dia só, que seja, regurjito alguns versos,
apenas alguns versos no silêncio do papel.

Isso, desde sempre o soube, desde o sempre.



Como o cavalo louco, sem freio, acendo o cigarro sem filtro que se cola aos meus lábios, teus, estranho.



Autor: Transversal

quinta-feira, 15 de março de 2012

"(qual-breve.)Sortilégio",

alimenta o meu posto.
dá-me trégua de mãos aladas e. em costumes de afronta
bate às trevas em minha porta
apressa-me o passo de ir
de vir
quase julgado de ti e por derrota
eleja-me. em:
lajeado-penitência por rescindir-te
eleja-me fim.




conforma o meu coração
fecha bem os meus ensejos e me conte lá, o teu nome
ou
diga-me pra correr..
ria-me aos escombros e tombos, e assombros de lépidos declínios
à curia que te fiz ao meu lapso
(já agora.. o)meu
acaso.
aos
(in)versos (in)férteis de (in)glórias mundanas e vis..







diz
a que devo ser, em presente..
liquida o que te resta ao meu palco servil, demente(, doente..)
e
acende-te à estopa.













..







traga os meus olhos pra te verem aos de antes
comprima o meu ciúme à uma sala fixa e fria.
desminta-me. quando em sonhos, eu nem(mais) te quiser
à espera da chuva que (ora.)me levará..




exemplifica-me.



qual anedóta de pertences e palavras
às escursões que fiz ao inferno só pra te deixarem, por lá, passar..
(ilesa)




ah,
cortina..

deita-me em linha repetente de tragédias e cenas
às de-limitações de um apenas, "enfim"
lentidão.. seja-me. dos ademais adereços em tua permuta
posto que
não me calarei. até q vc me "escolha"
ou.
até que ao ver-te, eu..









esteja desperto.
(ou não mais te esteja)



ah-eu(nunca!) te serei..

Poema de Azke

segunda-feira, 12 de março de 2012

recaída irrelevante

os olhos não chorarão:
hão de, lentamente, morrer,
e serão invernos na mão.

os lábios serão frios
e não haverá rio a correr:
serão costurados ao frio.

não haverá mais verão,
e o sangue há de escorrer
uma última vez ao chão.

hei de morrer assim:
quando enfim ela beber
o último gole de mim.

Poema de Caíto

sábado, 10 de março de 2012

As gôndolas nas grandes luas de Plutão

Se
ainda nos víamos, foi numa sombra:
é uma noite nos teus olhos e nos meus,
sem ramos, sem braços, sem ser tua:
é um bosque quase perfeito,
e passando por ela vejo os teus olhos
quase sempre,
o véu das tardes, esta neve árida
num forno sem filhos,
a tinta desses chocos loucamente luminosos,
onde as estradas passam
pelos poentes


Poema de Francisco Eugênio Seixas Trigo

sexta-feira, 9 de março de 2012

Mulher

Ser mulher
É não querer do mundo
Jamais provar apenas
Uma colher,

Muito menos
Deixar de sofrer
A dor ao gozar
De prazer.

Ser mulher
É matar em si
Quem se troca
Por uma vida qualquer,

É ser o que se quer ser,
Mulher, desejo fundo
De jamais ser mãe
Senão de um novo mundo,

É querer ser muito mais,
Amar meninos
E vagabundos,
Poetas e assassinos,

Ser mulher
É coser
Para emaranhar-nos
Inda mais no querer,

Ser mulher:
Madalena, Lilith
Ou Helena a amar-nos
Como hiena ou menina,

Ah mulher,
São luas cheias
Tuas nádegas
E minha boca as pleiteia!

Ah mulher,
Esparjo-me
No teu seio e sexo
Sedento e gago.

Ah, e minha língua
Bebe teu gozo e saliva
Toda a vida
Que em ti nunca míngua!

E nos teus cabelos
Sorvo o perfume
Que me transporta
Aos altos cumes...

Sorvo tudo
Em longos haustos
O teu corpo desnudo
Onde me farto exausto.

É alongado espasmo
O meu gozo
É cair, transe, orgasmo,
Num fundo poço.

E quando descanso
Enfim
É porque te traduziste
Em mim...

E só descanso
Quando sei
Que foste além da colher
Que te impede mulher!

Quando sei
Que enfim
Cumpriste o teu mister
E te tornaste, sim!, a Mulher.

E o teu mister
É amar,
É querer beber
Todo o mar!

É saciar
Desejos inconfessos,
É quebrar
Os votos professos,

É rezar
Para o Diabo
E deixar que te amem
Toda, de cabo a rabo!

Ah mulher,
Que fizeste?
Estamos nus
E é a nossa nudez o que nos veste.

Mulher,
Que fizeste
Senão amar tanto
Santos e cafajestes,

A ver neste chão
No qual piso
Tudo que é sublime
E celeste?

Ah mulher!

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

quarta-feira, 7 de março de 2012

[nos reflexos do sorriso]

Cantam-me as manhãs de luz,
iluminadas,
e nos reflexos do sorriso, teu,
desapareceram as ansiedades, minhas,

mudam-se os ventos, molda-se
o barro, e da água constroem-se
castelos de núvens que ficam
como os de areia, aguardando.

Aguardo-me no tempo da viagem,
que o tempo me esqueça,
que março termine,
que o mar acalme,
e nestes tempos que o tempo
tenta desfazer,
brotam corais nas lagoas paradas,
trotam cavalos loucos pelos
campos de linho,e o sol
destapa-se da noite em aurora.

Posso não compreender as faces
do mar, nem as alturas das ondas,
nem o cantar da baleia azul,
posso,

do tempo que me escasseia olho-o,
sem temor, sem nostalgia,
que o raio seja breve,
e que da terra sem margens
ou barreiras, sossegue a flor de lótus.

No sorriso, só teu,
ficou o olhar, só meu,
e,
no tempo de todo o sempre tempo,
se encurtem as viagens,
que regressem as andorinhas,

por fim.

[Afinal, a tua primavera, está tão tatuada em mim],
[...]
final: nada mais me interessa,
resta-me o mar, e o som de um violino,
que o tempo então, me esqueça.


Autor: Transversal

terça-feira, 6 de março de 2012

ave maria Cheia de Graça

mulher é Eva
garra que agarra
terra acolhedora
luxúria no corpo
sonhos de conhaque
reflexos do infinito
por centímetro ou quilometro
devoram caminhos

costela de Adão gerada no útero
choram intensidades
para saborear com seus chinelos
sufocam abismos com um biscoito

há algo poético quando afastam o mundo
ajeitando os cabelos
quando a primavera reflete-se
no canto dos lábios
teme-se a doçura da cor

passam como séculos
mas se eu disser a você
... tudo desaparece
(como se se esconde-se de Deus)


Uma pequena homenagem
as mulheres.




Poema de Vânia Lopez

segunda-feira, 5 de março de 2012

rubor

Sai de ti um pincel perfeito
pintando a aquarela perdida
nas sete cinzas do meu peito

Caem as gotas na minha teia
de sangue em veios da ferida
que me atingem de lua cheia

Abro abraços em sete léguas
mediando noites entre vida
e adormeço flores nas águas

Reino por sobre o escombro
da paz feita árvore vencida,
esperança partida no ombro

Lançam as cores que me deste
amor em véu e terra abatida
no azul do céu, nada celeste

Entram mais umas inocências
na paleta à guache escorrida
cores e gestos de infâncias

Trabalham meus fios de trigo
misturando em rima à medida
o pão de verso que é consigo

Poema de Caíto

sábado, 3 de março de 2012

Tinta e raiva

achei que descobriria o gosto das manhãs, o pôr de sol castanho, o batom com cheiro de flor de maça, o significado do seu nome, frágil e doce. mostrar como se voa ou como o vento penteia seus cabelos enquanto me olha menos... que teus olhos. choram os lírios como guitarras emudecidas, outra noite se desdobra, pequeno grão de nada, morto por trás desses olhos. vá! diga-me porque posso odiá-la mais e mais em doce desespero, como cicatrizes voltando e minha voz torna-se tinta e raiva sem nunca amá-la menos... como se nuvens estivessem
vagando em seus olhos arranhando o céu
(da minha alma).



Autor: Vânia Lopez

UM VENTO NA NOITE DO TENNESSE (Arnoldo Pimentel)

UM VENTO NA NOITE DO TENNESSE

                                 

     Abriu a porta e saiu para a varanda, queria sentir o frescor do anoitecer, ficaria por ali olhando a estrada de terra que passava em frente ao portão. A varanda era grande, com algumas plantas, assim como o quintal daquela tranqüila casa de campo. Caminhou até a cadeira de balanço do lado esquerdo da mesa de madeira e sentou-se. Do outro lado da estrada havia uma casa, do lado esquerdo uma curva e do direito uma reta até o centro do bairro.  Ali é tudo quieto, vez por outra passava um automóvel e podia-se ouvir os pássaros e o som do riacho lá no fundo após a curva da estrada de terra. Seu coração já não era tão forte como em tempos passados e por isso não se sentia bem na cidade, não se sentia mais um homem urbano. Depois de alguns minutos sua esposa, companheira há mais de cinqüenta anos veio sentar-se ao seu lado, com passos também curtos, um tanto cansados, atravessou a distância entre a porta e sentou na cadeira de balanço ao lado da sua. Ficaram alguns minutos em silêncio admirando o anoitecer. Ela sabia que ele gostava de sentir o toque do vento em seu rosto sem muitas palavras. Assim ficaram e a noite cobriu o quintal, ela levantou, acendeu a lâmpada e voltou a sentar.
- O que você pensa quando está aqui? Perguntou Maria
- Sinto que algo escapa de mim aos poucos.  – Respondeu José
- Algo como?
- A vida, talvez.
- Sente-se infeliz?
- Não, sinto-me feliz pela vida que tive.
- sente saudades de quando éramos mais jovens?
- Acho que não, tudo tem seu tempo, agora só me resta esperar enquanto fico aqui sentado observando a natureza.
- Eu sou feliz por todo tempo que vivemos juntos.
- É tão bom ouvir isso de você.
Ficaram novamente em silêncio, quem sabe não estavam lembrando cada um ao seu modo tudo que passaram juntos. A noite era fresca e as estrelas piscavam, talvez para a lua cheia que ilustrava com sua beleza aquele pedaço do céu.

- Quer um refresco? Perguntou Maria
- Quero sim, uma laranjada sem açúcar – Respondeu José
- Vou preparar.
- Enquanto espero ficarei observando a lua e as estrelas.
Maria levantou-se para ir à cozinha e José ficou na cadeira de balanço, balançando e ouvindo a voz das estrelas cantando pra lua. Era apenas um lugar, que ficou escondido no tempo em que a cadeira balançava na varanda, tocada pelo vento, protegida do sol, protegida da chuva, dos olhares ermos que passavam na estrada, dos sonhos que vagavam perdidos, enquanto o outono não dobrava a esquina pra deixar a manhã vazia.

Maria voltou com a laranjada e colocou sobre a mesa, ao lado de José, mas ele não esticou as mãos para pegar, ela sentiu um aperto no coração quando viu seus olhos fechados.

- “Talvez tenha dormido” – Pensou
- José
- José
Ela tocou seu ombro e sua cabeça caiu para o lado
- Meu velho, não me deixe sozinha
- Não me deixe sozinha meu amor, não me deixe sozinha
O vento parou de balançar a cadeira e lua escondeu-se atrás das nuvens que deixaram as lágrimas caírem na noite.


Arnoldo Pimentel

quinta-feira, 1 de março de 2012

uma guitarra de pecados

Irás sozinha,
como se perdesses a noite e sempre a noite
que faltou aos campos
no meio das tuas mãos e poderei,
também eu, ver o que não vi: a geada dos
cordeiros ou a surdez da lua
dominada pelas nuvens.
Eu sei que o teu amor está fechado,
e que é sempre cedo para tê-lo: parece que
o vento é das cegonhas que salvam as jóias
do teu seio e às vezes é de noite, às vezes é
de manhã e o vento prende-se com pequenas
chamas, com a meia urze dos cálices
no horizonte para onde ias: às vezes são
gestos, rosas, uma guitarra de pecados,
os papéis assinados às fontes,
os papéis assinados pelo Novembro, sobre
os degraus para as ilhas que anoitecem,
ou o sol que as segue até tão longe.
Eu já não te escrevia nada e está sempre
vento e quase sempre o lugar
vaginal do quarto crescente,
como um vitelo sobre as marés,
e um vitelo em vigas sóbrias
depois sobre a seda
que um dia trouxe
das harpas e se
como os teus dedos
à volta o dissessem tão suaves
voando, como voando vai um
poente de veias na evocação dos cristais
que alguém atirou para o céu, ou as lágrimas
dessas esmeraldas onde durmo e para onde eu
ia com a tua urgência,
Meu Amor


Poema de Francisco Eugênio Seixas Trigo

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

"quase"

refém,


(d)esta! queda-pátria de mim, hora absorta de fins e meios
e termos.. já obsoletos por denotada conduta(e freio..)
ao lapso que te ascende em céu abstracto, parte e pecado
à fé.. por centímetros de linhas, e sinas a este tolo acto..

já nao é a curva que me tomba, nem às rodas que bem sei..
nem à mácula da mentira-pia que te vence, (oh!)não há lei..
não há terras, não há contos e tampouco a predilecção
destes dias inconstantes, quais te perco, de fins e nãos

eu nao aceito que te queiram, eu(já) não quero te aceitar
nem à minha carta que te queimo, nem este lado de mar..
eu.. tenciono deixar-me à deriva, ora, se não me perderei

ao meu teatro de casos impossíveis, letrado, privado, à vez
qual íliada repartida, minha guerra vencida, minha lâmina febril
é este pacto de corpo, de outro consolo que não te seguiu..


e
eu(quase!)
não(te)
quero(mais..)

Soneto de Azke

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

[Há noites escuras]

Há noites escuras,
mais escuras que outras,
noites sem a lua dos amantes,

há noites que escrevo sem pensar,
tudo é possível, cometas
no quarto, corais na cama,
caravelas no copo de água
baloiçando,
noites.

Noites que removo o coração,
noites que dispo esta pele tatuada,
e o sangue espalha-se pelo
soalho, e o papel avermelha-se
também.

Há noites que escrevo nas paredes,
sentimentos,
histórias de alguém,
podem ser histórias minhas,
podem ser histórias,

e olham-me as sombras, assim,
apenas assim, que fazer?

Há noites que as saudades corroem,
queimam o que resta,
como labaredas desenfreadas,
línguas de fogo sem aurora boreal,
sem,
sem explicar.

Há noites tão escuras,
sem soluços, com todas as lágrimas,
que toda a minha vida me reaparece,
novamente, sim,
novamente,
só não a consigo agarrar,
só não a consigo tocar,
não consigo.

Há essas noites mais escuras ainda,
as noites das lembranças,
as noites das recordações,

esqueço-me dos dias,
esqueço-me do sonho,
esqueço-me,

e tudo revejo,
até a cor do dia,
até a cor daqueles dias
que antecedem estas noites tão escuras.

Há noites,
há tantas saudades,
são tantas as minhas saudades,
são tão escuras as noites.


Autor: Transversal

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Flor Camila





para a poeta Camila Senna

Camila menina,
Camila mulher,
Camila poeta,
Camila camélia
Senna entra em cena
E mostra ao que veio.

Em sua doce rebeldia.
Melancólica em sua poesia.
Guerreira em sua ousadia.
Musa, ninfa que não precisa
Perguntar nada ao pó,
Pois o pó já lhe declara todo o amor
E ela como toda mulher-flor
Se abre inteira.
Tesa em sua beleza.
Fenix restaurada das cinzas.
Cinza que faz, desfaz e refaz Camila.
Cinza do pó de poesia.

Marcio Rufino

hidróxido de alumínio

engulo a rodovia, frentes.
o ponto de fuga
quer meu sorriso de canto,
minha fome,
a metamorfose das metáforas.

mas toda rodovia tem duas,
quatro vias
engolindo, engolidas...

e no refluxo da volta
o verde do oeste,
meio a poeira densa do piche,
revela o sono letárgico das gentes.



Poema de Edilson José

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

[apenas quis]

Apagam-se algumas estrelas
e mesmo que sextantes as encontrem,
ficam vazios os horizontes,
desconhecidos, descreverei então,

perdi-me de ti,
desconhecia
como se encontram as águas,
como se de um rio nascesse mar.

Voam as sedas vermelhas além,
além do mar,
e no teu colo me deitava,
assim seja, dizias-me,
na imensidão de sonhos.

Quis-me o destino partida,

apenas quis,

nem uma gota de água transbordou
as margens só nossas,
onde banhávamos os pés cansados,
dos nossos caminhos, disseste-me,
no dia em que o beijo
afastou o vento norte.

Quis-me o destino partida

apenas quis,

sorriste quando escrevemos
poemas no areal que o mar,
um dia, escondeu,

recordar-me-às sempre,
disseste-me.

Jamais me esqueci do mar,
jamais me esqueci do nosso mar,
e hoje, escrevo-te amar,

apenas quis, digo-te,
apenas quisemos, dirás.


Autor: Transversal

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

sempre-viva

Meus devaneios são rasos,
neles não me afogo nunca
e as vontades sem podas
sempre-vivas
ornam o cesto do balão – imenso cachepô.

E não há cotovelos gastos sobre peitoris de janelas
ou lugar fixo,
o longe, o perto
ficaria, ficará, ficarei sem rigores nem minúcias.
Não meço espaços entre mim e o mundo.




Poema de Maria Verde

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Ciranda....



Canto sozinha no estio de frente pro mar
E aquela sua ciranda sempre a me rodear
Fazendo brotar a semente ardente
Duma paixão veloz que sem esboçar,
Causou alvoroço sem se esperar

O poema li antes mesmo de você chegar...
Mas com o tempo e seus desencontros
Esqueci de declamar
Mas também não sabia para quem
Além do sentimento profundo
De contigo de mãos dadas cirandar....

Hoje entendo sem proteger meu coração
Larguei toda minha razão no vento
Do esquecimento milenar...
Sem querer saber da aprovação do mundo.

Nessa ciranda encontrei você,
Cirandeiro do amor...
Que ao me olhar, desnudou...
A mais preciosa flor de um sonhador.

Cirandeiro do amor,
No seu recanto junto com seu canto e seu violão
Eu quero estar, deixar desaguar em mim o mar de verão
O mesmo que desde do início aqueceu minh'alma
Deixando marcas, deixando frisson.


((( Camila Senna )))

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Fevereiro

Será que um dia ele vai rir de tudo isso? Quais serão os comentários póstumos direcionados à sua descendência? Seu pai era um grande homem? Seu pai era um filho da puta? Seu pai era muito louco? Mas, por que póstumos se está vivo e não tem filhos? O que o aflige, afinal? A morte do sentimento e o crescimento e rebelião do que parece inadequado? A persistência no erro? O fim de seus dias de celebração à vida? A mutilação? Ou seriam os julgamentos de uma sociedade cuja percepção quase sempre foi distorcida? Mas, o que acontece? Quando foi que sorrir se tornou um fardo? Quem roubou aquele sorriso? Ele mesmo? Para que tantos anos de autopunição disfarçada de euforia? Por que essa sede, esse apetite que nunca encontra um fim? E a obsessão pelo inadequado, de onde veio, quando tudo parecia sob controle? E toda a compaixão, alivia ou joga sal sobre sangue e carne que não são só dele? Aprisiona? Conforta? Por que o incomodam as demonstrações de afeto que se sobrepõem à barbárie? Seria a descoberta de que o amor do próximo machuca, afinal? Mas, o que tanto incomoda? O que seria esse apego insano pelo frescor de uma juventude que não lhe pertence? É o que deseja, transformar-se em deformidade e aberração, agora que já é monstro? Conviver com o incômodo que atravessa a alma e envenena os pensamentos? Há quanto não dorme direito? Mas, para que dormir senão para reviver os sons, cheiros, cores, texturas, gritos e sussurros perdidos no ar da madrugada? Quando o prazer se fundiu com a dor? Quando todas aquelas luzes foram engolidas pela sombra que, agora, estende-se por todos os pedaços de sua vida? Como pode um ego tão gigantesco ser destroçado pela rejeição e inferioridade que sempre estiveram ali? Quanto mais poderá aguentar? Qual o sentido de todo aquele sentimento, todo aquele sofrimento que não é só dele? Por quanto tempo mais o diabo o provocará com seus convites e apostas? Quando, afinal, chegarão os bárbaros? Por que amor nenhum é suficiente para aplacar o apetite insaciável pelo que ele nem sabe o que é? O que deseja? Por que deseja tanto assim? Quanto desconhece a respeito daquela natureza?Quantos miligramas são suficientes para dar fim a todas as perguntas?


Texto de Bruno Clemente Machado

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

[e quando as tuas pétalas caem]

e quando as tuas petalas caem
das nuvens azuis,
e quando as tuas petalas se
misturam com o mar,
os ventos que sopram sossegam,
as calmarias regressam,

os adamastores, em bojadores
floridos,
respiram os odores das madressilvas,
e das tulipas que lá plantaste.

Queria-se o poema assim,
apenas assim,
sem tormentas, vulcões,
sem tempestade, furacões,

e no tocar do teu cabelo,
e no tocar do teu seio,
e no colar-me ao teu corpo,
[nesse teu aroma de canela],

nasce um arco-iris na noite,
e rasga-a,
na escuridão do inverno.


Não sei se é amor, não sei,
nem sei de mim, não sei,
sei da ondulação do teu corpo,
desta minha tatuagem de ti,
sei, que

me ondeio nas tuas ondas,

sei, que

quando te penso, penso-te
mar,

sei, que,

sempre assim será.

[Queria-se este poema...assim],
apenas,
assim...


Autor: Transversal

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Haikai da Catástrofe




A catástrofe só interessa
Antes de se desfazer a demanda
Depois de já feita a merda.

Marcio Rufino

[Relembro-te]

Relembro-me,

das cerejas que se queriam
em cor,
das árvores descoloridas
cobertas por sombras, de núvens
que vogavam sem rumo,

relembro-me,
dos dias que seguiam noites,
e o piar do mocho, que se escondia
nos ramos despidos,

relembro a terra nos castanhos
da madeira que rangia,
no sal que se entranhava
nas entranhas do meu corpo.

Relembro um mar em fevereiro,
longinquo, longe,
onde o cheiro a canela
invadia espaços fechados,
invadia o ar decompondo-o,
como o prenúncio de uma rota
qualquer,
seguida nas estrelas brilhantes,
adormecidas.

Relembro-te nos sorrisos do areal,
no meio do frio vento,
olhando imensidões,

distâncias jamais percorridas,
nem pelo sonho.Rasgava
então os mapas,
e sem caminhos,
adormecia no teu colo,
sossegava-nos, relembro-me.

Relembro-te em saudades distantes de um mar em fevereiro nas distâncias jamais percorridas... relembro-me dos dias que seguiam as noites e dos meus olhos que se fechavam... esqueci-me da forma das núvens que vogavam sem rumo.


Autor: Transversal

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Digestais

o que sei de meus dedos finos
quando os olho, enternecido:
na mão leve, cinco bandidos
transfigurados em meninos.

uma mão procura o fogo-fátuo,
o verso que se relê no ventre,
permitindo, ao verbo incauto,
que, riscando seu nome, entre.

e há leveza em outros dedos
quando voam, pássaros ateus
ao céu do aceno, sem nuvens,
perdidos em gestos de adeus.



Poema de Caíto

domingo, 12 de fevereiro de 2012

"pós-dia"

face.
à face com um produto exigido
amor..
eterno confronto da minha recém-acepção
da minha mentira
aversão
modo operante por manipular-me
acaso do corpo
do ponto previsto

todo..
..quisto.

lado e preparação ao absurdo..

pouco tempo pra te contar
minhas resistências mundanas
quais simetrias de catálogos
das fileiras e fileiras de giz..

asfalto
chão
queda.

por ensejo daquilo que te traria o nome
por inserção ao sonho que te comove
ao proveito desta noite
da última parte que nos importa
ao exílio
ao açoite que me devora..

o teu nome solto
a tua imprecisão
a voz doce
a
minha

ilusão..













..






jaz este período.

composto
oblíquo
minhas cenas trágicas
minha comédia de viver
meu aplauso retirado
ou
até

do teus laços,
esquecer-me..





jaz este posto.

em lado-pouco
coercivo
intrépido
abusivo


jaz este pacto que te queria
ora,
agora
é apenas:



cena.
(apenas isto.)













..





deito os meus olhos à terra que te cobre.
prego a minha seta na lembrança que te aproxima
e
então,



assim,
eu:






deixarei.


Poema de Azke

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Escrever

Escrever poesia
Como quem escreve
Um livro tombo,
Ter olho pra tudo,
Pra quem corre certeiro
Ou toma um tombo.
Ter olho pra tudo,
Até mesmo pro pombo.

Escrever poesia
Como quem chora
Ou se devora
Louco sem deus ou memória,
Culto de súplica e prece
Sem pai, pão ou perdão,
De quem não vive sem pressa
E só crê e obedece
Ao rito livro das horas
De um herege.

Escrever poesia
Onde nada é imorredouro
E tudo é sujo, sujo, sujo
Como um matadouro
Mundo imundo,
Sorvedouro.

Anotar todo nome
E a garatuja suja,
Vasto palavrório
Inútil
E o palavrão
Sempre útil
Na rua ou no escritório
Da massa inconsútil
Comedida e comezinha.

Escrever poesia,
Todo o logradouro
Ilustre ou anônimo
De gente, topônimo,
Escol, escória
Que aparece e some
Cadente
Neste livro de ouro.

Escrever poesia
Em confronto
Com um dia e breviário
De fadiga e soluço
Que nos varam, translúcidos,
Com a luz dos semáforos;
Que só nos querem lúcidos
E sempre prontos
Para labuta
E o livro de ponto.

Escrever poesia
Para gente perdida,
Sem porto ou caminho,
Homens tortos,
Dos descaminhos
Para quem não há
Guia ou oração,
Via ou confissão,
Exorcismo ou escaninho,
Nenhum livro
Seja dos vivos,
Seja dos mortos.

Escrever poesia
No meio da rua
Sentindo no estômago
Queimação, azia,
Trazendo no peito
Crônico,
Ânsia, taquicardia
E a aflição
De quem fala, fala, fala
Sem ninguém
Que lhe ouça a voz e o pleito,
De quem cansa e se cala
Na multidão.

Escrever poesia,
Códice, gravura,
Xingamento e mesura,
Pergaminho no estojo,
Página e rolo
De náusea e de nojo.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados

sábado, 4 de fevereiro de 2012

[diz-se]

Quebram-se os galhos secos
puxados pela terra castanha,
quebra-se o vento contra as
asas dos rouxinois,
apaga-se a luz quando acordam
os pirilampos,
e do mar que se quebra contra a
rocha,
diz-se: um dia, assim será.

Quebram-se as promessas de uma
noite, noite em sobressalto,
noite quebrada pelo silêncio
de um beijo,
e na sonolência do olhar,
perde-se a visão num horizonte
sem astros, sem rastos,
quebram-se os passos perdidos,
sem eira, sem lirios.

Restos descritos ao acaso,
no ocaso das viagens, nas
escuridões das manhãs sem céu,
manhãs que não quebram as núvens,
por mais que insistam,

assim,
quebrando o barco contra
as ondas, apenas partindo,
quebrando o amar, talvez longinquo,
neste suspiro de mar que
se quer vulcão.

Quebram-se alguns sonhos em
vagaroso acordar,
sem fim,
sem fim diz-se,
assim seja, alguém dirá.



Autor: Transversal

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Sargaços

Escala os sulcos do meu quadril, amor
e escolhes ao chegar no fastígio,
mar de vapores ou céu desnudo.

Toca meus cabelos despenteados, amor
antes que a próxima onda
os drague contíguo aos sargaços,
estes traiçoeiros
acostados nas vagas do nosso (a)mar.




Poema de Maria Verde

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Sem meu quasar...


Por que eu escrevo?
Para não morrer de dor
Uma dor na alma abusada,
Latente, insistente,
Essa dor me atira a queima roupa,
Me tira a calma, me estapeia a alma.

Escrevo o não vivido,
Escrevo por escrever,
E numa dessas escritas
Depois entendo o porquê!

Rabisco meus traços
Que se fundem com meus fracassos
Que se fundem com minhas paixões
Que se fundem com minhas quimeras.

Escrevo o meu inconsciente
Escrevo o absurdo de mim
A mentira de mim,
As atrocidades de mim.

Escrevo todo meu sexo
Todo meu amor
Derramo sobre meus versos...
Pitadas de charme, rebeldia e melancolia.

Queria ser cruel
Queria ser fria
Queria ser escorregadia
Queria ser fel.

Mais sou emoção
Sou quente
Sou apaixonada
Sou mel.

Mas estou vivendo
Sem a pedra indicada
Sem o mar perfeito
Sem meu quasar.


 ((( Camila Senna )))
 
 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Na ponta do meu cigarro

acesa a tua presença em meus cigarros,
vejo passar entre meus dedos a tristeza.
me embebedo de oração, pois vim do barro
e verto lama em vez de choro, com certeza.

meu choro é pedra num sapato deserto
e não me importa mais qualquer carícia.
se sentimos a dor e a delícia do perto,
procuro o longe e a primeira, vitalícia.

há mais escuridão, pois vim do barro
e ao barro voltarei com minha certeza.
retenho a lágrima, a lama e a tristeza:
já te apaguei na ponta do meu cigarro

Poema de Caíto

"alusão"

excelência..

repto por exemplo e segredo
(cor. e devaneio, ou.)
por indulto despencado em outro ponto
à tendência de corpos(e vícios)




ao qual interesse, se negado seja
ao profundo mar de providência e "amanhãs"
interino-lar. é: água pra "decidir"(é fogo!)
é a marca da verdade que te corta
à porta aberta e alheia de ti..







excelência e consumo..



um:
lado possível.
é este aprume de crime, se for a convites
aos limites e versões intermediárias de tua verve
à voracidade de peles
às reles preces recitadas
em páginas e(raras) de-composições..




à letra fria que te navega um terço:
é. a crua condição de Eva por arbítrio

à maçã que te delimita:
é(também..) curvatuta do quadril que te define
ao


exacto modo contrário
e
assim,



próximo.
(deste lado que te peca.. e te quer abstrar.)

Poema de Azke

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Apagar, sim porque... nem todo mundo pensa igual e não é obrigado a engolir as verdade de ninguém!

Quem tem fórmula certa e a regra que dá alguém liberdade na escrita? A razão da escrita é um elogio, uma crítica, o prazer da escrita são os comentários ou interferem no escrever os números das leituras?
Nada disso importa e me choca os que se dizem esclarecidos literatos preocuparem-se mais com a capa do que o conteúdo do livro.
Quem tem a razão sobre o que eu disse no meu tempo não vive o meu tempo, logo as respostas das perguntas acima são as próprias perguntas para quem escreve pensando nisso.
Nunca vou saber se quando eu não mais existir, o que eu disse servirá para alguém além de mim, se irá se relacionar com uma realidade que nunca imaginei, é esse um dos muitos senão o principal propósito da escrita, ainda que algo que eu tenha escrito já tenha obtido reconhecimento atual.
Meu pensamento é que: o bom escritor (diga-se bom escritor o que as idéias permanecem por gerações) já nasceu póstumo e o ruim também, assim como os profetas mortos. Ao escritor a sua alma diz: as palavras são vontades somente minhas, meus pensamentos, o meu sentir, minha visão do mundo com todas as ilusões, textos, versos e rascunhos lançados no espaço, onde me liberto da gravidade da vida mortal, onde me torno em interpretações alheias, onde vago no esquecimento da vacuidade com questões filosóficas e onde meu corpo de pensamentos mutila-se até o fim ou até loucura.
Não compreendo quem não escreve assim, quem não se expõe em praça pública e quer definir o certo e errado com uma utopia para o significado da liberdade, não entendo a mania de descobridor dos outros quando deveria encontrar o nirvana em si, o deixar de viver para analisar o ideal de viver a liberdade, e à distância e buscar a solução sem reconhecer o problema em si, mostrar o caminho a todos e não ser o exemplo, buscar mudanças e não mudar.
Não aceito ideologias pra escrever, atos alheios de bondade e maldade ou crítica como impulso para mover minha vontade de descrever a visão do mundo ao meu redor, e parâmetros para definir o que é agradável ou não de dizer, mas confesso, sou mortal e todas as coisas me afetam e ainda que eu as ignore elas permanecem ali, como uma semente que brota nas rochas.
Há sempre uma forma de corromper o real significado do que se diz e eu agradeço sempre até os que me cospem a cara, agradeço quem me percebeu vil como nem o espelho me mostrou e me conforto com as boas mentiras, desde criança sou assim, meus pais me ensinaram a ser grata. Dizem-me pela vida coisas boas e más nem tudo que se diz aceito como absoluta verdade, mas ainda que eu as negue agradeço.
Aprendi de tanto tentar escrever que nem tudo se diz com palavras, mas com gestos e exemplos de comportamento no livre arbítrio, leio sempre gestos, os meus e os gestos dos que conseguem passar por mim e me chamar à atenção, seja negativa ou positivamente, isso me faz livre de pré-conceitos na leitura e na escrita, o aprendizado é o certo e o errado e isso é uma constatação de que não existe uma fórmula, e que toda forma conhecimento é somente uma repetição do que todos aceitam como certo.
Se o que escrevi teve bom uso além do primordial que é para minha catarse, nunca vou saber, mas é essa fascinante dúvida que se faz a razão pela qual escrevo e testemunho a minha visão e a minha reação em relação ao pequeno mundo que me cerca de riquezas e mediocridades.
Viva a liberdade de expressão e as críticas, a falsidade e os elogios, um viva para quem não se importa e prefere isolar-se, viva quem apaga os comentários e mais um viva ao respeito porque nem todo mundo pensa igual e não é obrigado a engolir a verdade de ninguém.

Texto de Aline Capistrano

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Ocaso

No tempo em que eu mal te olhava
Nem eras tão belo assim
As flores que tu beijavas
Sempre pensando em mim
Fizeram de ti ilha e só
E só ao te ver ilha
Quis navegar entre mares
Quis conhecer teus lugares
Quis me fazer por do sol

Poema de Isabela Vital

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Conteúdo imanifesto

Formas perfeitas?
As Lins-fordianas.

Fazem girar e atiçam cobiças.
Toda solta
toda solta
toda solta
marinho de pé nas gares metafóricas.

Idiossincrasias,
despropositais hipérboles vaidosas
castradas pelo ciúme.



Poema de Maria Verde

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Oração

Ó Pai,
Governante angelical deste mundo,
Habitante das esferas mais sensíveis do desejo
Conhecedor íntimo dos círculos de Sophia,
Nenhum panarion te curou da nossa alma,
Nela habitas a despeito de tantos santos e heresias,
De tantas exprobações e excomunhões,
De tantas fogueiras e perseguições
Arraigado como estás em cada coração e intento.

Ó Pai,
Governante angelical deste mundo,
Senhor dos rebeldes com causa de Sodoma
Dos amantes devassos de Gomorra,
Místicos a galgar os fastígios do sublime,
O êxtase erótico do nirvana e do crime,
Ensinaste que toda a trave sobre o corpo,
Que todo o grilhão contra as formas do amor
Só nos leva à guerra, à infelicidade e ao terror.

Ó Pai,
Governante angelical deste mundo,
Soberano de toda a raça de Adão,
De todo o fugitivo e errante pela terra,
De Nimrode, poderoso caçador,
Edificador de cidades, da imensa Torre,
Ensinaste que toda a salvação
É inimiga íntima do controle
E que só pode ser salvo quem é livre para sê-lo;

Ó Pai, sim!
Governante angelical deste mundo,
Livre para comer e amar,
Livre para ler e conhecer,
Para destruir e odiar, para construir
E novamente destruir e, então, reconstruir
Quantas vezes forem necessárias o homem, o mundo
E, sobretudo, livre para matar e vingar-se
Setenta vezes sete de quem nos mata.

Ó Pai, Senhor,
Governante angelical deste mundo,
Incompreendido por todos que crêem
Nas nuvens inúmeras havidas por Deus,
Pelo demiurgo megalomaníaco deste mundo
Que, a muito custo, tenta extinguir
A centelha insondável, pó primevo e fecundo,
Que todos carregam dentro de si, Pai Nosso,
Assassino e construtor, raça dos cainitas!

Ó Pai, Senhor,
Homem demasiadamente humano
Que teve a oferta mais pura recusada,
Primícia da terra, límpida e incruenta,
Obra de tuas mãos calejadas de lavrador,
Trabalho de quem edificou todo orbe antigo:
Ur e Enoque, Sodoma e Gomorra, Babel e Babilônia,
Tebas, Nínive e Calá, Sidom, Roma e Pasárgada,
Habitante de Node, Oriente do Éden!

Ó Pai, Senhor,
Preterido, proscrito e amaldiçoado,
Perseguido e fustigado pelo inferior,
Hostilizado e marcado pelo sangrento sacrificador,
Pelo Deus da gordura e do sangue de tantos altares,
Luminar acossado pelo desejo, libertino
Livre para mal proceder, para pecar e conhecer-se,
A tua oferenda, vida e alimento, foi rejeitada
Em favor da morte, do sangue e da dissolução.

Ó Senhor, o mais belo ninivita, obstinado,
A tua centelha ninguém jamais apagará,
Pai adâmico, Pai-Mãe, sabedoria incorruptível,
Restaurada pela revolta, pela ímpia verdade
Que desde o início tu sempre conheceste,
Aquela mesma que levou todos a enlouquecerem
E a te acusarem de Judas, apóstata e execrando.
Sabes bem que toda a divindade é uma caixa de Pandora
E que Deus reiventou-se o Diabo reiventando.

Poema de Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

O poeta esteve a beber

Esteve a beber num bar qualquer até ao momento em que lhe surgiu uma ideia e teve que a escrever.
De vez em quando prime duas teclas ao mesmo tempo, mas como é perfeccionista, volta de imediato atrás para apagar.
Bebe como escreve. Bem.
A história daquele dia era sobre um homem a quem os médicos proibiram a escrita.
Causava-lhe imensa ansiedade, provocando-lhe arritmia cardíaca, pelo que o acto de escrever não lhe era recomendado. Emocionava-se com aquilo que escrevia e havia alturas até em que dificilmente continha as lágrimas.
Definhava dia após dia. Não comia, andava triste e apagado.
Numa ocasião, um amigo seu de longa data, vendo-o desaparecer progressivamente, disse-lhe:
- Ouve lá ò João, tens que beber uns copos e mandar isso para trás das costas…
Assim fez, começando logo naquela hora.
Passou uma tarde fantástica, divertindo-se e fazendo divertir os outros. Nem parecia o mesmo.
No dia seguinte repetiu a dose, e depois, e depois, e depois.
Bebia e esquecia que um dia escreveu poemas de uma lucidez tal que lhe doíam.
Mas uma hora, deu-lhe vontade de escrever.
Correu para casa para passar a ideia para o seu computador com pó.
De vez em quando prime duas teclas ao mesmo tempo, mas não volta atrás para apagar.
Um dia começou a sentir-se mal. Arrepios pelo corpo, tonturas, visão dupla.
O mesmo médico que o tratou da maleita anterior, após observação minuciosa, disse sério do alto da sua magistratura:
- Se continuar a beber para escrever, vai acabar por morrer. Não de arritmia, mas de cancro no fígado…
João não bebeu nessa noite, nem nas seguintes, e nas seguintes, e nas seguintes.
Definhava da cura novamente.
Até que um dia, contemplando infeliz o rio que corria na sua alma, sentiu no ombro uma mão que o cumprimentava.
A cara era conhecida e parecia envolta em luz, mas não era dali.
Abraçaram-se e começaram a caminhar até a um ponto do horizonte, onde criador e personagem são um só.
Depois desapareceram, e eu escrevi.


Conto de José Ilídio Torres

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

poema

na ventoinha do condensador
existe um poema
suado & surrado.

no sentido figurado da ventoinha
existe - mais - um poema volúvel
in( ventado ),

ventando para os longes de mim.


Poema de Edilson José

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

ensaio para agarrar seu sorriso

o brunch em uma garrafa e minha alma rodando num redemoinho d’água... se a água acalma o ferimento cobra o preço. curvo-me a fina combinação de um par de sombras, minhas mãos se abrem as suas que como anjos fazem-me especial. o sol a água a lenha são livres, mas só posso confiar no vento para que leve minhas palavras, esse ventos são felizes e tristes, proíbem de nos vermos... sinto saudades a todo o momento, esse lugar vira terra seca no cantil e apenas o céu para confirmar onde andas adormecido... pai preciso que venhas chorar comigo, muitas e muitas vezes como se fosse um ensaio para agarrar seu sorriso...



Autora: Vânia Lopez

domingo, 8 de janeiro de 2012

Piano-poema

Afino os dedos nas teclas da escrita como se de um piano se tratasse
Depois, sorrateiros, os martelos quase silenciosos, crescendo
Na cauda do instrumento há um homem de fato que se deita
Ninguém sabe de onde vêm os dedos nem importa

A melodia do amor
Até se pode ouvir afinal numa pipeta de mercúrio
Basta que os amantes aqueçam a noite com champanhe gelado
E os gatos atrevidos se sirvam das sombras nos telhados
Sejam de zinco os sussurros

Para afinar um piano de escrita é preciso um bar disponível
De homens sem beira e mulheres à espera
De outras coisas quaisquer que sejam sem tempo

Um desafinado por perto
Um passo dado num doble incerto

Escrever é compor canções aos medos
É saber quase todos os segredos
E não restar alternativa que não seja morrer

Refastelado num piano-poema a sobrar dos dedos

Poema de José Ilídio Torres

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Hoje, sem nós

Hoje,
Nem sou arquipélago, tampouco constelação
Sou estrela solitária, sou ilha de solidão.
No viés do tempo, perdi a linha de bordar
Não costurei um sorriso, furei o dedo da mão
Larguei longe a sianinha,
Larguei longe minha musa,
Hoje sou só eu.
Só hoje
Só eu...
Amanhã estarei nós.

Poema de Isabela Vital

Dissertação estapafúrdia sobre a arte de escrever tomando em conta o que me disse o pintor João Gonçalves

Vem um pássaro poisar na mão da tela. Traz no bico aguardente de medronho para incendiar o tempo.
Uma virgem quase nua cobre os pelos púbicos com uma funda.
Disparando perde a virgindade e o pássaro poisa.
E é nesse momento em que o pincel é um gargalo de dedos, que se suicidam as prostitutas mais belas.



Autor: José Ilídio Torres

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Lacraram as portas (e a felicidade)

Ninguém sabia por onde entrar na casa grande.
Portas em todos os quadrantes,
o norte a repetir-se ao sul
leste oeste.

Claridades ofuscantes
ainda teimam entrar pelas frestas das tábuas
que lacram o que fora portas e janelas
da velha casa perdida em calendário.

Às vezes penso que a felicidade trancou-se lá dentro
ou é refém em papel de inventário.

A grande casa,
hoje pertence a todos e a ninguém.


Poema de Maria Verde

sábado, 31 de dezembro de 2011

Retrospectiva 2011

Retrocedemos ou avançamos?
O que fizemos de bom juntos
É disso que estou falando
Não falo dos sonhos individuais
Das metas profissionais
Dos amores que amamos
Qual o total de todos os anos
Na sociedade que inventamos
Fomos massa manobra
No velho e novo continente?
Para os pobres não houve sobra
Nem a paz alcançou a gente
Quantas vezes a vista grossa
Fez de conta não ver o errado
E a boca se fez torta
Por não dizer o que devia dizer
Estamos no velho mundo novo
E ainda não posso entender
Quem me dá feliz ano novo.

Poema de Aline Capistrano

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Entredentes

Um Favo de Mel pode ser azedo e amargo,
Depende do modo que traço.
Nessa doçura se esconde
Um amargor de passado.
Se esconde também entre os dentes,
Entre a língua e o sorriso
Um coração intranquilo
Um passarinho sem laço.
Nesse entredentes se esconde,
Nos entreabertos lábios,
Um desespero de gôzo,
Um doce que se torna amargo.

Poema de Isabela Vital

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

As nuvens não são mais de algodão
Marcam o céu em linha reta
No rastro químico da avioneta
Entre as de formato de coração
Poderia ser alucinação
Uma conspiração sobre o fim
Mas a estranha aparição
Sempre paira por cima de mim

Poema de Aline Capistrano

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Namorada do menino

Ontem eu vi a minha namorada,
estava tão linda e bem arrumada.

Minha namorada mora “loonge”
quase se esconde.

Ela é branquinha e leve uma mistura
da lua com a neve.

Minha namorada não me chama de
meu amor e ainda não disse que me
ama.

É bela feita uma linda flor perfumada.
Ela é minha paixão sutil e inflamada.

“Ó” não conta pra ela que ela é minha
namorada, ela ainda não sabe de nada.


Poema de W.Marques

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

LUAR TÊNUE



Luar tênue
Sobre amor na relva
Doce pecado

Arnoldo Pimentel


Este poema é parte integrante do livro NUVENS
Para adquirir entre em contato
Email: arnoldopimentel@gmail.com

 

Quer uma dica de boa leitura poética?
Visite e siga o blog do Fabiano Soares da Silva
http://fabianopoe.blogspot.com

sábado, 24 de dezembro de 2011

DEUS É FRÁGIL (MENSAGEM DE NATAL)

Ainda há pouco
Eu estava bebendo uma cerveja num bar
Algumas crianças estavam brincando por ali
E uma menininha de cabelos louros
E olhos azuis
Mostrou-me como o Super-Homem e o Batman são frágeis
Os pais das crianças estavam do outro lado da rua
Da rua tão deserta
Um deserto tão ermo que não tinha nem Esfinge para nos olhar
Ou proteger as crianças
As crianças estavam tão sozinhas
Que pude perceber o quanto Deus é frágil
Deus é tão frágil quanto o Super-Homem e o Batman
As portas estão fechadas
E as luzes logo irão se apagar
Deus vai proteger sim
As crianças que estão em seus lares
E não as que estão pelas ruas a vagar
É tão triste ver crianças num bar

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

O pregador

Ainda cedo, o sol meio acanhado de agosto deu lugar ao vento que embaralhava nuvens e cabelos.Caminhava pela praia quase deserta,dedo em riste,o livro de capa preta debaixo do braço, fato já amarfanhado ,gravata torta,olhar orgulhoso,sobranceiro.Tentaria caminhar sobre as águas ? Não,caminhava ao léu,gritando aos ventos as maravilhas daquele livro : parava,lia e seguia em frente,uma cadencia devota.Concentrados jogadores de vôlei ignoravam os presságios da chuva e o vigor da sua oratória.Não parecia transtornado, apenas alguem que cumpria o seu papel,numa praia esvaziada de uma tarde cinzenta.Um homem na meia idade,cabelos grisalhos e assanhados em estrelada confusão em órbita da cabeça , olhar cansado e determinado,arengando ás ondas,a massa líquida a beijar-lhe os sapatos,no barulho obsequioso do mar.Isaías e a Tessalonica entre os últimos e friorentos banhistas,fugitivos da chuva e do anoitecer rastejante.Marchava contra o vento, ladeando os garis,em mansa determinação.Voz clamante na praia deserta,deu por fim a sua lida,encostou na velha barraca e ordenou uma lapada de cachaça , na profundidade bíblica de sua voz, sedenta de Deus e de aguardente.

Conto de André Albuquerque

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Brasis de meus polegares

Gangrenou-me um índio na boca, tive que me operar por um sisal de cactos. Meu pai, fumando um cachimbo de pátria que de vapores era fumo, teve que ser padeiro.
Eu nunca vi terras de Vera Cruz que não fosse pelas fotografias que sempre existiram nos açores de outros voos.
Eu nunca vi India tão para lá do Ganges do meu bidé.
Eu nunca consegui domar este meu pé imperialista, esta minha sede de ser maior que um oásis, este meu camelo dorso onde me aninho.
Eu nunca consegui ser água de lágrima, rio de pó.
Sou preta feia, sou Cesária bem morna com o meu país.
Sou as Franças da menina puta, que um dia, por não saber a quem endereçar a angústia, se diluiu num rio e por via disso os peixes, mais secos que enguias, tiveram que mendigar o pão pelas portas, escorregadios.
Eu sou a miséria de um grito sem fronteiras. Um trapo arregaçado, um prepúcio.
E raios se não me rasgo, se não me caravelo, se não me enfuno nestas velas lusas.
Dane-se esta merda doce de ser português, comida às colheres no jardim florido de uma cigarra vadia.
Era prima de uma formiga, mas foice*.

*Símbolo com que se representa o Tempo e a Morte.




Autor: José Ilídio Torres

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

"acto-definido"

não há, sequer este lado pendente de apostas e frio
qual rescisão e colheita das minhas obsoletas páginas
ao exercício. ao costume referido e ora, frente ou subtil
se for.. seja o acaso de preferências às outras cartas

então me fiz acreditar em revelia de reles putas-mentiras
ao conto da corda refém e breve, já nítida quanto pérfida
por elegia deste eco entregue e que não perdurou dois dias
ou às noites vazias que declinavam-se em poesia-nua/léxica

ah, eu.. tão tolo como sou, me deixei trafegar o pouco-sonho
qual arremesso de impulsão à morada alheia do desencontro
e na palavra retocada, maquilada de vileza, (afora)me deitei..

ah, eu.. em esboço desta vénia, ainda assim, me previ à queda
tal etérea imagem da planificação em costura e reles-oferta
e. na palavra desfiada, pincelada de impurezas, (agora)te sei



Soneto de Azke

domingo, 18 de dezembro de 2011

Expulsem-me deste curral de mulas
façam-me esse favor de imediato
Fiquem com esta merda os caçulas
que sempre encontram pedra no sapato

Não tenho mais paciência para isto
tenho o luso a gangrenar-me a alma
começou por um pequeno quisto
tamanho de um dedo e agora da palma

Não volto mais aqui, é de vez, eu juro
tira-me o tesão, quebra-me a vontade
Vejo túneis onde dantes havia um furo

Fiquem por isso com a vossa puberdade
que eu aninho num broche ao futuro

Poema de José Ilídio Torres

sábado, 17 de dezembro de 2011

Lascas

Decidi. A ti, deixarei o relato das horas meias de fome e sede e os entalos que me fizestes engoli quando minha retina era invadida por rebanhos de luas em noites frias... tão frias que o orvalho nascia cachoeira salgada nas pedras de minha face. Deixarei as fotos dos caminhos que nunca percorri; os risos gravados em um vinil reciclável para que tu possas jogá-lo ao lixo se quiseres, ou pendurá-lo na parede como relíquia de um tempo ultrapassado e antigo, pois não há mais onde tocá-los. Mas se tua lembrança de mim for tão nítida (como tola penso) poderás ouvir estes risos e também o meu pranto ao fechar teus olhos; o barulho dos trilhos de um trem sem gare, sem condutor... sem nós. O vinho deixarei nas taças, aquelas com a digital de nossas bocas na margem, e lembrarás o quanto nos afogamos no tinto emergindo ainda mais vivos. Embrulharei com cuidado dois espelhos com a minha imagem. A mulher que fui e a que sou hoje. Verás a marca de nascença e a marca feita... não, não por ti... Minha infância deixarei em um desenho vivo! Guarda-o. Fecha-o aos sete versos, posto que talvez seja a única coisa alegre que eu tenha e que antes de ti tenha valido a pena. O que sobra de mim é a fumaça dos cigarros, névoa que dilata infinitamente as falhas, o ridículo no monóxido de carbono, o escuro, o silêncio... e isto não se tem como herança....



Poema de Maria Verde

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Mama




Ah, Mama África...
Por que nos separamos?
Os olhos brilhantes em Kilimanjaro
conseguem ver os filhos flutuando
nos oceanos e mares em seus navios continentais?

Com que memória você nos percebe
- nós, que te vimos chover o rosto
quando partimos para adolescer
entre os rios no Crescente Fértil?
Nós mesmos que buscamos
amadurecer entre os dois sóis?...
Consegue ver o que guardamos
da sensibilidade dos mundos do Nascente?

Pode notar tudo o que orquestramos no
pensamento
entre as pedras e arbustos das Polis ocidentais?

Porque foi assim, Mama África, com essa
infância, juventude
e vida pronta, que nos deixaste partir de vez para
esse mundo
de terra, água, fogo e ar...

Marcos Afonso

A luz dos olhos de Luci

Olha o Tempo! Olha o vento, através de tantos zeros!
A distância dum pensamento a percorrer milhões de anos.
Camadas da matéria adâmica, são ossos e sentimentos.
Oh, Luci! Luz vinda das cinzas embalada por vulcões,
Num magma de sonhos sob um céu miocênico incandescente.

Ampulhetas do Tempo, somam-se as estalactites e nascimento,
Quando o teu semblante olhava o futuro de teus descendentes,
As constelações desenhavam sobre a Terra, os contornos do destino.
O que era úmido e verde, tornou-se árido, corrosivo, restos de cascalhos.
Hoje são apenas memórias escavadas, no vento aquecido pelo passado.



O que viria a existir após se extinguir a última centelha dum olhar iluminado?
Seriam as estrelas, vindas de olhos ingênuos, a derramar sangue e destruição.
A sabedoria latente, como uma semente de gente, preste a explodir.
Mentes abstratas a procura de Deus, através de mares de incertezas.
Animal bípede e marinheiro ancorado no fundo da alma de todos nós.

Escavar o Tempo, expor teus ossos ao relento, além da eternidade,
Procurar desejos soterrados a milhares de Luas e estrelas fugidias.
Do nascer das auroras até as infinitas primaveras, tua luz irá florir,
Sonho onde o homem jamais irá pousar, seja dum sputnik, ou apolo.
Uma Deusa da fertilidade, se sobreporá aos Deuses do Olimpo.


Poema de Airton Parra

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Morro-me

Morro-me

Em cada alegria, em cada desgosto

Em cada copo vazio

Morro-me de fome pela barriga cheia

Morro-me



Num sol-posto, numa chuva em pleno Agosto

Num cálice de veneno que se bebe como vinho

Num suspiro prolongado

Morro-me por centímetro quadrado



Morro-me em milhas, em polegadas

Nas encruzilhadas dos caminhos



Morro-me em quarteirões, em alqueires

Morro-me em Alentejos tão grandes como Minhos



E nesta consciência de que me morro satisfeito

Tiro-me medidas, escolho a madeira

Faço um poema do melhor tecido

Fumo-me


in: «Os poemas não se servem frios» Temas Originais 2010

Poema de José Ilídio Torres

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

"(ela.)Niveal,"

habita-me! à dita reverência consumida de qualquer calor..
desvia meu pêndulo sob o restante deste alarido alvo-coração
lacerado. e posto às páginas de letras deferidas por obsessão
ora, habita-me à pele que te possui um lapso de filme em torpor..

aqueda-me! qual emancipação de lar obstuso, tal um enigma irreal
cala o meu desejo de sequências e pecados, e(de) tentar ainda mais..
meu exercício, meu arbítrio de continuar-te à metade de ti(tão..) voraz
ah.. aqueda-me em escultura do teu corpo livre em nú desfile carnal

ora.. não me vê em correntes que te seguem com as pontas dos olhos?
não concede o teu tempo a este pátio de pilhérias e paragem de espólios?
incidência. de tentar-te à uma fracção imersa em dependência que te curva..

ah.. eu, deixaria os meus arremessos de lado, culparia meus (todos)pecados
minhas breves decisões, ora dormentes, deste inapto alvo/palco/pacto vago
ah..qual ilusão à pele que te toca?ao sonho que te sobra?(e.chuvas/e.chuvas?)

Soneto de Azke