Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



quarta-feira, 20 de junho de 2012

carochas, bicicletas & biplanos - 15

Oh, os poemas!... Há tanta coisa a dizer acerca dos poemas dos outros. O problema não são os poetas consagrados mas os amigos que fazem poemas. O que lhes dizemos? Como o dizer?
“- O teu poema é tão denso que não consigo lá entrar.” Por vezes é o que acontece, a densidade de uma vida num só poema. Um nevoeiro impenetrável. Um prodígio literário, mas inacessível. E por isso, inútil. Ninguém come um pão com a densidade de uma pedra.
“- O teu poema é tão mau que nem escrito por uma criança. Se uma criança o escrevesse pelo menos um pouco do seu maravilhoso mundo teria.” Um mundo naif verdadeiramente ingénuo e irreal. Fingir realidade com fantasia. Pretende-se dos poemas e dos poetas que sejam sábios a lidar com o impossível. Se não o são, para que servem?
“- Gostei do teu poema embora o não tivesse entendido mas os poemas não são para perceber, não é?” Um primeiro passo para um poema e um poeta entrar na nossa vida e deixar marca. Um poema só, não faz um poeta. Tudo pode acontecer a partir daqui, dar um passo em frente ou muitos para trás. Por vezes, um poema é muito, noutras vezes, nada.
“- Isto é um poema!?” Mas afinal o que é um poema? Reconhece-se e não se sabe porquê. Mas aprende-se a não saber.
“- Não percebi, um poema em prosa ou uma prosa poética? De toda a forma, cheio de bela linguagem.” Nada melhor que um poema cheio de bela prosa e até o contrário. Não há fronteiras. Há fronteiras. Mas não há fronteiras.
“- Gostei mas cheio de lugares comuns, metáforas belas mas muito usadas. Cheio de beleza mas muito dejá vu, entendes?” Entendo. Aqui o poema morre ou já vem nado-morto. É altura de desistir. Largar o poema à beira da estrada, para que os abutres o comam depressa.
“- Uma porcaria, desculpa!” Acabas de perder um amigo. E o mundo um poeta. O primeiro golpe é sempre incerto. Quantos maus poemas fez Camões até acertar? Os amigos das pessoas não são os melhores amigos dos poetas. Os poetas estão sós. Só assim sobrevivem.
“- Mais ou menos uma insignificância. Sem mensagem, sem mundo, sem gente dentro, confuso.” Um contra censo: se é confuso, alguma coisa contêm. Mesmo habitando um deserto.
“- Oh, os poemas que escreves! Penso cair num exagero mas escreves expressões tão ricas e belas que fazes avançar a Língua cem anos.” Assim como Herberto Helder. E nós, em divida com ele. Saldamo-la, lendo-o.
“- Tanto dia a dia e tanta melancolia. Fica registado os nossos piores momentos nas tuas palavras. Dói ler-te. Mas não deixamos de o fazer.” Uma grande crítica a um poema. Poesia desta lê-se e ouve-se em dezenas de bandas rock, mesmo que não saibam escrever. A catarse pura sempre alimentou a poesia. Enfurecendo-a. Matando-a. Mas pondo-a a mexer. Espécie de big bang criativo e não ocasional ou caótico, se é que isso existe.
“- Desculpa lá, sei que gostas de poemas de amor mas gostavas que alguém te dissesse ao ouvido o que acabaste de escrever? Gostarias de viver esse amor como o descreves? Ou fugirias a sete pés? Então, porque escreves sobre isso…” O amor essa forma de ódio. Um bom poema de amor parece sempre uma coisa fácil de fazer mas impossível de o concretizar nós próprios. Coisa de poeta a sério. Poema de postal para oferecer a quem está doente ou em qualquer outra ocasião tradicional isso sim está disponível ao homem que conduz o arado, a mim e a ti, a todos.
“- Faltou-te o fôlego a meio, não foi? O teu poema tem o ritmo de uma locomotiva endiabrada ou duma banda speed metal enlouquecida. Se não consegues manter o ritmo, tu que escreveste, como haverá o leitor de o fazer? Coloca-se a questão, porque fazer um poema que ninguém consegue ler até ao fim, porque tem uma síncope a meio? Mantem o ritmo elevado mas faz pontuadas pausas assim como numa canção. Podemos aqui aprender algo com o Howl do Ginsberg, eu sei que aquilo é difícil de digerir mas um portento de ritmo elevadíssimo.” Está tudo dito, ou não dito.
“- Chamas poema a isso? Eu chamo: uma nódoa. Lê-se como forma de a apagar e eliminar.” Assim se lê um poema ou um livro que queremos apagar da nossa memória futura, rápida e velozmente. E depois oferece o livro. A outro e não ao mesmo.
“- Oh, que poema tão rude e cheio de negatividade! Mas verdadeiro, é tudo verdade embora chutado na cara do leitor. Vai sobreviver, penso.” Pedaços de Bíblia na ponta dos nossos dedos. Diz lá que não queres, registar assim o teu mundo todo?
“- Nunca li um soneto tão belo. Métrica perfeita e cada palavra no sítio certo. Como conseguiste?” Como foi Shakespeare, Vasco Graça Moura ou Florbela Espanca?
“- Lançar tanto vernáculo sobre um texto é como estragar uma caldeirada com malaguetas a mais. Ninguém a vai comer. Lamento. Um pouco menos, por favor.” Ninguém é Bukowski excepto o próprio. Repetir aquilo é impossível e fica muito mal. Só ele sabia. Sorry!
“- Escreves sempre o mesmo poema. Mas cada vez melhor. Acho que nunca vou deixar de te ler.” Será um poeta? Um autor? Estima-o e não o adestres. Não pode haver melhor opinião.
“- Surpreendes-me sempre. Mas hoje não. Igual. Igual.” Injusto. Até Camões chateia em certos dias de chuva e soleira quente cá dentro.
“- O teu poema é um denso pomar com tanta árvore que para colher uma simples laranja cansa tanto que não voltamos a repetir. Poemas complicados mas descartáveis. Para se ler uma única vez e cansam que se fartam. Mais um pouco e deixarei de ler poesia. Qualquer poesia.” Vai e desiste. O valor do poema é que nos ensina a desistir e a voltar. E a desistir outra e outra vez. Ensina-nos a cair, e quem disse isto? Vai e pesquisa. Quem o disse tem mais para ensinar.
“- Poema negro como a morte. Difícil de esquecer. Uma estocada na alma.” Digamos que pensei em Poe. E em dezenas de seus discípulos. Todos de negro e nevoeiro. Dylan Thomas é uma negritude á parte.
“- Oh, Camões mais Camões! Socorro!...” O problema do nosso maior poeta é o que se faz com a sua poesia, sufocando-a e repetindo-a à exaustão, quer para fins políticos ou publicitários. E ele, bardo incorrigível a tudo sobrevive. Mas dói a forma como é utilizado.
“- Oh, Florbela Espanca mais Florbela Espanca! Socorro!... Não posso ficar com uma só, a original?” Aprende-se a falar mal dela e aprende-se a imitar o que é impossível às centenas. Ai se ela soubesse a horda de seguidores, neste caso de seguidoras, era poetisa para fazer um belo soneto acerca disso. Acredito que era.
“- O teu poema transtornou-me. Marcou-me. Vou ter de o ler várias vezes. Posso demorar anos.” Talvez Poe outra vez. Dylan Thomas é outra coisa mas se calhar aplica-se também. Afinal em que ficamos?
“- Não consigo classificar o que escreveste. E não consigo parar de ler.” Um passo para outro passo e a seguir mais um passo e fica-nos a poesia entranhada, sem sabermos porquê.
“- …” O silêncio diz tanto.
“- Perfeito no sentido de que me fez escrever poemas. Se um dia escrever um poema que seja, como resposta ao teu poema, então não me importo que me chamem isso: escrevinhador de poemas ou…” António Ramos Rosa e o seu funcionário cansado, faz-nos pesar a alma, lá no escritório, lá na firma cheia de Kafkas.
“- Nunca li um poema como este. Nunca.” Nunca. Nunca.
“- Um poema tão longo quanto o cosmos. A tua respiração faz pensar numa qualquer ideia de eternidade. Como um solo de John Coltrane.” São poucos os poetas com esta respiração longa e feliz, intensa e incansável. Fora os poemas de amor, Neruda é um poeta assim. E por isso vive para sempre. Mas não dá para ler com Coltrane como fundo. Poema em cima de poema é uma espécie de caldeirada picante de mais para ser ingerida. A menos que se separem os diversos elementos e o vinho seja bom.
“- Eu queria viver esse teu haikai. E ficava lá.” Um bom haicai é um lugar para se viver a vida toda. E nunca mais o abandonar. É ou não é, mestre Bashô?
“- Poesia, mas o que é poesia.” Lamento mas não tenho opinião a dar. Ignorante - eu sou.
(Jan. – Jun. 12)

Autor: Carlos Teixeira Luís

segunda-feira, 18 de junho de 2012

carochas, bicicletas & biplanos - 14

Faz um poema. “Faz um poema.” Nada mais se pode dizer a um poeta. É inútil as recomendações, faz um poema disto e daquilo e que tenha isto e aqueloutro. Que faça sentido, seja bonito ou que se perca em divagações e surrealismos. Perfeitamente inútil. “Retira-lhe o desperdício e os floreados. O que fica?” Liberta o haikai que há em cada poema. “Retira-lhe o tema. O que fica?” Fica o haicai da própria essência. Não é o tema um condicionador do poema? Um defeito e uma fragilidade? “Retira-lhe a autoria. O que fica?” O poema da árvore, como podes dizer que és tu o autor e não a árvore diante de ti. “Espreme-o, deixa a essência – a poesia, a mensagem, se a houver, ou o momento, ou a ideia. O que fica? Espreme-o mais um pouco – algum suco sairá. Agora refina-o e purifica-o. Deita fora a escória, não a aproveites. O que fica?” Um novo haicai liberto de sílabas, como uma oliveira e a sua sombra. “Não sabes classificar o que fica? Óptimo. Fizeste poesia.” Não é a poesia o indizível dentro das coisas. Um dia o indizível torna-se discernível e claro. E termina o poema. Passa a ser outra coisa. “Agora dá a ler. Como reagem? Gostam? Estranham? Conseguem ler até ao fim, agarrados ao poema? Como se sentem os que leram? Estranhos? Com dúvidas e interrogações?” Óptimo amigo. Espalhaste poema no espírito alheio. “Desconfia dos que apenas gostaram.” Foge, diria. “Não perceberam e não lhes merece atenção suficiente para se esforçarem a perceber.” Foge dos que fogem do poema, desistindo poema a poema. “E um poema não se percebe. Apenas acende qualquer coisa em nós que nem sempre identificamos.” Chamada coisa que se acende. Se tivesse nome não faria poema. “Para contar uma história escreve um romance. Para contar um episódio ou um momento escreve um conto.” “Um poema é mais e é menos do que isso. Escrevemos um poema para descobrir o que queremos. E vamos sempre escavando mesmo que não encontrando nada.” Simplista a ideia de que o poema nos serve. Pode ser substituído por qualquer outra coisa. “Apenas temos de continuar a escavar. Um poema faz-se enquanto se trabalha e por vezes arduamente. E escreve-se depois. É mais digno para o poema assim.” Viver o poema, antes. Assassina-lo e enterra-lo. Desde que gere os seguintes. “E agora? Bem, agora, meu amigo, faz o teu próprio poema e dá-me a ler, se achares por bem.” Ou faz outra coisa qualquer.
12 Jan. – 18 Jun.


Autor: Carlos Teixeira Luís

Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=224831#ixzz1yBwt77rh
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carochas, bicicletas & biplanos - 13

Um Pensamento Repentino e Libertador de Kjell Askildsen. Autor norueguês, Kjell Askildsen é considerado um mestre na narrativa breve ou conto. Este livro de 1987 ganhou o Prémio Riksmal, no seu país. O livro é uma recolha de alguns dos seus contos inclusive um dos seus primeiros publicados: “A partir de agora acompanho-te a casa”, editado em livro com o mesmo título nos anos cinquenta. Gostei de particularmente dos últimos 4 contos: “Ingrid Langbakke”, “Carl Lange”, “Últimas notas de Thomas F. para o público em geral” e “Um repentino pensamento libertador”. Reflexões sobre a solidão, a velhice, a aproximação da morte, os estranhos e perdidos relacionamentos entre pessoas, no casamento e no dia após dia. Gente que se cruza e gente que vive em conjunto mas não sabe nem consegue ser feliz em comunidade ou em família. Um grande escritor. Com um sentido de humor refinado, negro e irónico. Este livro comprado em troca de três almoços que não comi, já tem uma pequena lista de amigos à espera de um empréstimo para o lerem. Acho que farão muito bem. Boa leitura é o que lhes desejo. E vida longa.
23 Jan.

Os desenhos de Ramos Rosa trazem palavras descobertas na raiz do traço. Vão-se descobrindo a cada curva como uma lenta estrada de província. Às vezes estou no Alentejo e faz sol. Noutras vezes não sei onde estou e faz sol. Estar não me parece o verbo adequado para tanta inquietação mas é um verbo como outro qualquer. Senhor Ramos Rosa, as suas figuras femininas são tão divinas e suaves e doces. Como o seu sol, os seus desenhos, estimado senhor, deitam luz de sorriso, uma fonte que não incendeia mas enternece. Leva-me a colinas longe, muralhas, escarpas e dorsos de história. São tão belas as mãos, ágeis e corcéis de vento. Os desenhos de António Ramos Rosa, trazem pétalas deitadas com o perfume de brisa de um fim de tarde feliz.
01 Mar.



carochas, bicicletas & biplanos - 12

Quando nasceu o dia, já Eva tinha acordado. De repente, o paraíso pareceu-lhe um belo sítio para se estar. Mas por onde andava Adão? Serviu-se de um chá e enxotou o gato das pernas. Aproximou-se da janela e pensou que iria chover não tarda. Voltou a pôr a agulha no princípio do disco de Monk e sentou-se novamente do sofá. O gato voltou ao seu colo.
22 Fev.

Não tenho uma história para contar. Uma história que seja relevante e interessante. Só tenho uma história banal para ser vivida. E é tudo.
29 Fev.

Estou farto da teoria impossível que é repetida sempre que se anseia uma parca teoria. Da postura que é aceite e é tão feia. Da palavra política, era bom ouvir duas pessoas a conversar, apenas isso. Do homem que é mulher. Da criança que é mulher. Da mulher que parece criança. Do rapaz que é mulher. Do homem que é cão. Do cão que come mulheres e da razão que acompanha a violência e o contrário. Da estupidez da morte e da sua beleza. Estou farto duma série de coisas que não o são. Mas chateiam.
01 Mar.




[...e quando cortas o verso a meio


...
e quando cortas o verso a meio, as partículas
que o vento arrasta, partilham-se por entre as núvens

no ocaso silencioso,
insites nos barcos a arder na baía,
insistes nas vozes que assombram as sombras,
insistes nos sonhos que eu não vislumbro, que não os meus

quão exaltados pelas síncopes do olhar.

Tudo e nada, como se o desejo prevalecesse,
assustam-me as coisas que sinto [que insistem].

Quando colas o verso pelo meio escaqueiro-me ao tormento,

recolocas as palavras que se reordenam sem pensar,
sem espantos, sem espantalhos,

e nesse contentamento teu que se me apega,
perpetua-se o esquecimento, que cá já não me pode alterar.

E insistes nos barcos, nas vozes e nos sonhos,
que não os meus.

Perdoa-me,
se me perco pela rota das açucenas em flor,
ou que me esqueça de ti por este instante apenas

[que seja].

Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

domingo, 17 de junho de 2012

O farol


O velho Gaspar era o sujeito mais solitário do mundo, disso eu não tinha a menor dúvida. E o farol: convento e bordel da alma do cara. Viúvo aos sessenta anos, os filhos em debandada geral: aposentado, grana curta, reduzido a pentelhação obrigatória de fim de semana. E percebeu isso, percebeu sim. Surgiu faroleiro, ninguém sabe como nem por obra de que ou de quem; somente porque. Ei-lo , visto meio de lado.

Procurei e nunca encontrei quem tivesse feito concurso para faroleiro; mesmo na capitania, nunca reparei nisso. Faróis são feito elefantes, grandes e em extinção. Vi na TV, outro dia, um farol removido sobre trilhos de sua posição original, num país da Europa; bizarro demais, o troço andou uns cem metros em cima de uma parafernália de eixos, molas, macacos hidráulicos, o escambau. Atingida a distancia segura da falésia, (é, ele estava quase despencando lá de cima) foi reinstalado - espero que tenha sido assim mesmo. Então, farol é um troço cheio de nove horas, não é mesmo?

Imagino que viagens o Gaspar fez de seu farol, olhando aquele mundo sempre velho e sempre diferente, as passagens dos navios; com o tempo talvez fizesse algum tipo de amizade com as embarcações; com as tripulações, duvido, mesmo se pudesse. Prezava muito sua solidão. Não parecia esperar nada do mundo nem de ninguém. Dizia que seus salários se escondiam no fundo das gavetas, para não ser vistos. Bobagem. Que necessidades teria ele? Vez por outra recebia uma inspeção da capitania dos portos e os caras nunca reclamaram lhufas de nada: tudo certo, limpo, espanado, arrumado, nenhum barco perdido ou à deriva na área do coroa. E tinha sorte.

Ele devia saber mesmo das coisas, ter aquela inteligência alimentada pelo lado animal e peixe, que vai assumindo a pessoa que mergulha inteira naquilo tudo. E ele mergulhou, ah, se mergulhou! A essa altura vocês devem estar se perguntando quem sou eu, deitando toda essa falação sobre Gaspar e o farol da Prainha. Chamem–me Ubiratan,
do jeito daquele cara da baleia branca, que também pedia chamem-me, mesmo nessa história mais simplesinha, mais pra golfinho que baleia. Uma vez por mês eu levava suprimentos para o farol e para o velho. Papeávamos um bocado, conferíamos o material enviado e partilhávamos uma cachaça do Rio Grande do Norte, que sabe Deus como ia parar ali, naquele fim de mundo, tão gostosa que imaginei-a um grande vinho que tivesse decaído, feito anjo, reencarnando ou reliquidificando (pouco importa) feito cachaça; quando falei isso pra ele, o velhote riu um riso amarelo de nicotina e alcatrão, combinando com o amarelo dos dedos e disse que vinho era vinho e cachaça era cachaça e que um troço chamado de metempsicose não se aplicava às bebidas, que tinham um espírito próprio.

Perguntei-lhe se já fora psiquiatra, ele riu de novo, um riso de enfisema e engraçado ao mesmo tempo, pois parecia sair da barriga dele, feito um boneco de borracha, quando você fura ele e fica apertando, sabe? Não me diga que nunca teve um brinquedo de borracha, que eu digo que você não vale o que o gato enterra e que não teve infância ou qualquer coisa que lembre que você passou pela infância e não viu. Entre uma tossida e outra, zoou com minha cara, dizendo que nossa conversa, tava parecendo um diálogo dos irmãos Marx: gente da qual nunca ouvi falar; já me bastava o cara barbudo que escreveu a bíblia comunista.

Aquela história toda de metempsicose era meio esquisita; talvez a solidão tivesse aloprado Gaspar; mas não parecia, falou-me que metempsicose não tinha nada a ver com loucura e sim com a transmigração da alma (outro calo no meu cérebro)... olhei pra cara dele, enrugada, engelhada num engelhamento bonito, que passava uma moral estranha para as pessoas, quero dizer, uma moral meio mortal, feito a dos bruxos, mas Gaspar era só um faroleiro que o GPS estava quase pra aposentar. Virou outro copinho daquela aguardente e ficou a olhar pro horizonte, sem barcos ou navios, só água e algumas gaivotas. A nicotina brilhante nas unhas fazia-o parecer nascido daquele jeito, com aquelas unhas amarelo–verniz. Falei pra ele e ele riu, agora só da boca pra fora, um riso simples, raso. Parecia vestir a mesma roupa todos os dias ou melhor, não sei se ele vestia aquele jeans e aquela camisa de gola rolê que lembrava os cantores da jovem guarda-sacumequié: velhas tardes de domingo, etecetera, etecetera, apenas para receber os suprimentos ; espécie de traje alinhado, sei lá. Uma vez, tiramos uma foto juntos, com o mirante do farol ao fundo e dei pra ele, que colou na porta da geladeira, onde guardava a cachaça. Desconfio que os cigarros eram seu referencial interno de tempo; quase sempre meia hora entre um e outro; não usava relógio além daquele do farol. E aquela cicatriz no peito, que ele atribuía a uma facada, rindo e olhando minha cara incrédula; sentia-me incapaz de imaginá-lo esfaqueado, simplesmente por falta de alguém suficientemente louco ou blasé para fazê-lo. Isso, na única ocasião em que o ouvi queixar-se do calor e despir a camisa, ali na Prainha.

Os olhos azuis do cara ás vezes mudavam de cor quando ele descrevia as coisas que já tinham pintado na sua área, a maioria bobagens, golfinhos mortos que encalharam nos escolhos ou de quando um barco vazio espatifou-se contra as pedras do seu pequeno reino. Imagino zilhões de neurônios zumbindo na imaginação dele e coisa e tal. Raro o amor da solidão pelo solitário, pensei. O sujeito é meio que escolhido por ela, num jogo complicado de afinidades e desafinidades. Ele nunca falava da família; o que eu sabia, era pelo pessoal de terra, da capitania, que tinha a ficha dele e parecia aproveitar a chance de ter o que seria um tipo doido manso, inteligente, que dava conta do recado, vivendo a vida sobre um farol de escolhos, escutando o resto da vida o barulho do mar e limpando cocô de gaivota das redondezas e jogando no mar , como se alimentasse aquela criatura líquida que um dia abandonaria antes que o mar o percebesse já distante e solitário de outro jeito, de outra forma e com sede de outro lugar, não mais farol.

Outro dia, convidou-me a entrar no seu quarto durante uma conversa sobre mapas; meu Deus: uma figura enorme e redonda na parede, segundo ele, uma mandala; uma porrada de livros antigos, muito manuseados, pareciam coisa comprada em sebo chinfrim, dezenas de reproduções de antiqüíssimas cartas de navegação e mapas, muitos mapas pelas paredes, uma incrível carta de navegação atribuída a Marco Pólo; mostrou–me o Diário de Viagem de um Filósofo, de um tal Conde Von Keyserling, do qual nunca ouvi falar (ia dizer–lhe isso, mas lembrei que nunca fui muito bom com livros nem eles comigo), afirmando que dar a volta ao mundo era a melhor forma de conhecer-se a si mesmo. Gaspar tinha o corpo no mar e a cabeça nas nuvens, lendo aquelas coisas, ali naquela solidão azul, falando da necessidade do homem de se escutar, de resgatar o que tinha dissipado do Eu ao longo do caminho da vida. Tempo para ouvir a si mesmo e para ouvir o mundo. Gaspar lembrava alguém a quem o mundo devia muita coisa, muita alegria, muita tristeza, muita paz, muito pesar, tudo zerado na cinza do dia a dia; o homem sem cor que ao perceber a falta de cor, resolveu ficar sozinho para absorver o mundo e absorver-se nele. Passaram–se anos, ficamos amigos, na medida em que era possível alguém sentir–se amigo de figura tão estranha e admirável.

Lembro de sua despedida, seu olhar líquido, o sorriso benfazejo, mochila às costas, entrou na minha sala e fez um arremedo engraçado de continência, levando dois dedos à testa; falou-me que sua missão estava cumprida, perguntei–lhe para onde ia, respondeu-me não saber ainda. Seguiu em frente, batendo levemente com o punho nas paredes do corredor, após um abraço de despedida distraído e fugaz, feito ele.

Uma tarde, Flavinha, da Tesouraria, mostrou-me numa revista aberta, uma foto do Gaspar; o texto informava dos cem anos do nascimento do escritor Samuel Beckett. Perguntou–me se não era o Gaspar. Gelei da cabeça aos pés: a mesma camisa de gola rolê, a calça jeans que parecia saída de uma garrafa; li a reportagem, esbarrei no relato da facada (agressor desconhecido,em Paris ,1938, afirmava a revista) e respondi que não, era apenas uma incrível e notável semelhança. Gaspar nunca esperou nada ou ninguém, nem mesmo Godot. Ela riu feito uma doida e beijou-me entre os olhos.


Conto de André Albuquerque

dois dedos e meio de segundos...


o vento do secador
afastava o perfume da nuca
antes de sair pela janela
o hidratante ignorando
o brilho da lua correndo na pele

o olhar intermediário
atravessou o espelho sem parar

súbita e suavemente
a sombra pairou sobre o carpete
a caminho da roupa
saiu pela porta e foi até a rua

minguando voce num rastro de saudades
deixou seu coração raso
e o mundo (jaz)
parece não respirar...



Poema de Vânia Lopez

sábado, 16 de junho de 2012

[... do anti-verso que se exaspera



do anti-verso que se exaspera, como o alazão
puxado pelo freio, se quedam as palavras indomáveis,

mesmo as que carregam as cores,
mesmo as que carregam os sons,

e das nenhumas imagens que desejo, [consigo] visionar,
tropeço nos desassossegos,
nos recantos que ficam por preencher,
nas pedras angulares que nada sustêm, nem pós.

Explica-me os labirintos de mim por onde me perco,
explica-me o sorriso,
explica-me o inexplicável, por onde me desnovelei inda agora
nesta maré de sizígia que jamais vogará
pelo poema afora. Desnuda-me.

Adensam-se os cirros em círculos que envolvem os lábios
que imagino entreabertos,

confesso-te;

dormiria ao relento nos labirintos por onde me perco,
se as tuas mãos me escorassem.


Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

sexta-feira, 15 de junho de 2012

carochas, bicicletas & biplanos - 11


Alisei a barba e bati à porta. A bela holandesa veio abrir. Solicitei se podia dormir um pouco e comer alguma coisa. Precisava dum banho mas isso seria pedir muito. Perguntou-me como me chamava. Bem, Fred, tens ali um anexo onde podes fazer isso tudo e de manhã vais embora, não quero que assustes as crianças. Aceitei com muitos agradecimentos e a bela senhora de sardas e vestida como uma hippie antiga conduziu-me a um barracão com um automóvel lá dentro. Apontou-me uma casa de banho, uma espécie de estufa onde podia dormir e disse que já trazia comida. Perguntei se ela queria que eu fizesse algum trabalho ou limpeza como paga por aquela hospitalidade. Ela sorriu. Venho já. Entrei na estufa, uma espécie de sala com um sofá, candeeiro, móvel com livros e um aquecedor a gás. Nem sombras de plantas, apenas umas caixas num dos cantos. Do lado de fora da estufa um Ford Capri verde em excelente estado de pintura mas com os pneus em baixo. Não devia andar há muito tempo. Entrei na casa de banho, pequena, limpa, com um duche a um canto e muita luminosidade. Podia viver ali sem incomodar ninguém. Apenas não havia onde fazer comer. A linda holandesa dos seus bem conservados quarenta anos surgiu com umas calças, uma camisa aos quadrados de pescador, um par de sapatos de sola de borracha e uma grossa camisola. Disse que era do ex-marido e que me devia servir. Quer que lhe dê uma vista de olhos no carro, perguntei. Não anda há séculos, há aí ferramentas mas não vale a pena. Já lhe trago comida, pode ligar o aquecedor que a estufa é fria e já lhe trago umas mantas para o sofá. Agradeci tudo e entrei na casa de banho. Tomei um duche frio e vesti as roupas do ex-marido da mulher. Lavei com sabão as minhas roupas e pendurei-as pelo do Ford numa corda. De manhã estariam secas. A mulher apareceu com umas mantas e uma almofada. Foi lá dentro novamente e trouxe num tabuleiro duas fumegantes sandes com carne e duas garrafas de cerveja. Guardanapos e duas maçãs. Não sei como lhe agradecer, apenas queria um lugar para descansar. Sorriu e desejou-me uma boa noite. Comi uma das sandes de carne assada e bebi uma das cervejas. Abri o capô, comecei a limpar o motor. O óleo parecia estar bom. Enchi os pneus, tirei-lhe as teias de aranha. Limpei o filtro do ar, sacudindo-o. Dei um aperto a alguns tubos. Vi todos os níveis. Só faltava a chave para ver se o conseguia ligar. A roupa ia secando. A noite encheu de sombras todo aquele lugar. A estufa não era assim tão fria. Não liguei o aquecedor. Mexi nos livros. Tudo velharias. Descobri uma Bíblia e comecei a ler o livro de Job. Comi a outra sandes e a cerveja. Tapei-me com uma das mantas e uma simpática escuridão abateu-se-me sobre o meu corpo. Sonhei ou penso que sonhei com gatos, moinhos de vento e com um estranho personagem vestido de pirata que conduzia um Ford que ia mudando de modelo e de cor ao longo de planícies sabe Deus de que país. Acordei cedo com a explosão de luz e calor. Um gato malhado olhou-me e fugiu. Lavei a cara e reconheci os meus olhos. Doía-me o corpo. Juntei a roupa e arrumei-a na mochila. Fazia intenções de me ir. Arrumei o livro e ajeitei as coisas mais ou menos como estavam. Que horas seriam? A mulher surgiu e agradeceu o que fiz ao carro. É capaz de pegar ou a bateria está descarregada. Não interessa, quer tomar o pequeno-almoço lá dentro? Não será um abuso, não me sentirei bem, as crianças… Não tenho crianças, apenas disse isso por uma questão de segurança, mais um pouco e diria que era casada com um polícia mas pareceu-me boa pessoa. Entramos na cozinha, onde o gato comia da sua gamela e um agradável cheiro a café e ovos mexidos pairava. Qual é a sua história, porque anda por aí? Perguntou Eve apresentando-se, enquanto me servia café para uma chávena com figuras de um desenho animado qualquer.

23 Jan.



Autor: Carlos Teixeira Luís

carochas, bicicletas & biplanos - 10


O velho fundou uma banda de jazz. Na primeira jam session convidou um baterista e percussionista brasileiro, um contrabaixista português e um pianista americano. O contrabaixista despediu-se por confusão alcoólica, foi o seu argumento. O baterista vivia num mundo de ritmo próprio que os outros tentavam acompanhar. O pianista era louco o suficiente para aceitar todas as sugestões free. Mas esgotava-se e entrava em colapso. Saiu com um pesado esgotamento após duas únicas sessões de quatro a cinco horas cada. Foi substituído por um guitarrista do Mali. Mas os ritmos não acertavam com a percussão. O baterista não quis adaptar-se e o guitarrista foi emprestado a uma banda de world music. Entraram dois saxofonistas, alcoólicos e suaves, quase irmãos gémeos na abordagem dos temas mas lentos para o percussionista. O velho quis manter assim disfuncional e livre. Entrou novo contrabaixista com muita experiência, homem que nunca falava a não ser através do seu usado contrabaixo. Entendia-se com o baterista louco e colava as improvisações aos solos divagantes dos dois saxofonistas. Mas o velho queria um pianista. Nenhum dos que se apresentaram para fazer testes se encaixaram na secção rítmica. Apenas uma organista muito jovem e de ar angélico. Mas o som era excelente e viciante. O velho aceitou-a. A miúda, de apenas dezanove anos em certas faixas cantava o que deu ideias ao velho de ter uma vocalista. Entre os que surgiram ao anúncio, que foram muito poucos, só uma rapariga de grande porte, africana e de ar hip-hop se aventurava nos velhos standards de jazz que o grupo alterava. Fizeram um concerto memorável e louco. Depois cada um foi para o seu lado. O velho iniciou outra banda de jazz. Na primeira entrevista recebeu um famoso pianista desempregado. O velho ouviu por horas a fio. Mudou de ideias e decidiu gravar um disco mas precisava de um contrabaixista e de um baterista. Procurou e entrevistou milhentos músicos e escolheu o velho guitarrista do Mali. Ele aceitou tocar baixo e a usar uma caixa de ritmos. Fizeram um concerto brilhante e o grupo acabou por falecimento súbito do guitarrista, na noite pós-espectáculo. Após o funeral o velho iniciou os preparativos para uma nova banda, neste caso uma big band.

23 Jan.

Autor: Carlos Teixeira Luís

certidão de pele


façam bem amplo esse peito
e que os relógios parem de contar as horas
enquanto o coração passa pelo juízo final

façam esse peito engarrafar o vento
os dias que não são meus
e nele aguardem as chuvas esparsas

deixem as asas a ponto de tocar o céu
de tanto me afundar nesse leito

façam-me cair do ponto mais alto
e que nada interrompa esse solo

que eu não possa negá-lo
antes possuí-lo sob a pele febril
como gelo correndo nas veias...

façam esse peito com medo
no emaranhado de sua loucura
da profundeza do momento
sem zelo ou perguntas
peito é sujeito à certidão de pele.



Poema de Vânia Lopez

quinta-feira, 14 de junho de 2012

carochas, bicicletas & biplanos - 9


Um gato esperava por uma sombra no vão da escada. A casa tinha heras por todo o lado. Paredes cobertas de tijolo centenário. Um fumo suave e contínuo sai pela chaminé. Levanta-se vento e as folhas caídas no alpendre voam. O gato passa pelo espaço entre a porta e a ombreira como se fosse pecado no mundo dos gatos tocar na madeira ou na pedra e entra. A velha senhora atira a ponta do cigarro para um jarrão com areia. Entra em casa, puxando a gola do casaco mais para si. Dentro de casa, há um chá quente à sua espera e problemas com cadáveres para resolver. A noite abraçaria o bairro dentro de pouco tempo e a inspiração mais fértil. O gato ainda enfiou os bigodes fora da porta como que despedindo-se da tarde. A porta fechou-se.

10 Jan.

Ando triste. Vivo num país triste. As pessoas não são pessoas. Nem números são. Não existem umas para as outras. Tenho a certeza que se disser a um transeunte qualquer: - Tenho uma bomba potente, se não me der uma moeda, ela explode! A resposta seria: - Tenha paciência. Vai trabalhar! Qualquer ideia que possa ser dita: - Estou com fome. – Vou-me matar. – Vou matar alguém. A não ser: - Dá cá o dinheiro ou espeto-te esta faca de cozinha! A menos que vejam a faca, a resposta será: - Não me chateies! Deixa passar! Este país morreu e ainda não sabe disso. Vive uma crise monetária, económica e financeira. Mas a verdadeira crise de que sempre sofreu é de tristeza. Um povo triste. Não acredita em si. Mas que vai dar a volta. Com certeza. Mas vai sempre parar ao mesmo sítio. É sempre uma volta penosa de cento e oitenta graus. Fica-se apenas um pouco mais à frente. Melhor seria, romper a direito.
Por isso ando triste. Sou um desses que andam por aí. Tal e qual.

11 Jan.

Acho que já contei esta história. Eu e ele, parecido com um dos Ramones, o que canta, íamos a um apeadeiro ferroviário esperar o outro que vinha de Vialonga e apanhávamos um lento autocarro até à Encarnação, onde numa vivenda um afável ex-hippie alugava a cave e instrumentos para malta como nós fazer uns barulhos. Chamava-se a Harpa. Assim estava escrito no gradeamento de metal da porta de entrada. O Joey Ramone ficava com um baixo e berrava, sempre de cigarro ao canto das beiças. O de Vialonga, na bateria e eu a solar. Os solos eram longos e cheios de eco. A bateria demolidora.
- Lembras-te do filme Blue in the Face, em que aparece Lou Reed – alguém perguntou.
Algo se passa com esta memória, decorria os meados dos anos oitenta e o filme saiu em noventa e cinco. De toda a forma, teve vida curta a banda Outsiders Revolution Blues Band. Durou uma cassette gravada, algumas tardes e muitas canecas de cerveja.

11 Jan.




Autor: Carlos Teixeira Luís

quarta-feira, 13 de junho de 2012

[...e perco-me nesta terra tão de palavras



e perco-me nesta terra tão de palavras que as tormentas
fundearam,

pecado capital antes fosse,
seja-me em vendaval repentino, então,

que toquem as trompetas anunciando o fim,
como um fado negro sem comiseração, sem voz,

que o crepúsculo se refugie por entre nebulosas que pontificavam num céu, antes azul,
que os primeiros ondulares do mar se ombreiem, sem resistência.

Os destroços da madeira, antes seiva, debruam o areal,

rarefaça-se a dor,
as vozes jamais se alterarão.

Hoje sei, o quanto me amaste,
mesmo quando minha alma crepitava, qual sal no fogo,

acreditava ouvir o som de um piano algures
que me atormentava,

perco-me nesta terra tão de palavras jamais ditas,
enquanto estas minhas todas tormentas, fundeiam nenhures,

porque só hoje, sei,

[o quanto me amaste].




Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

terça-feira, 12 de junho de 2012

carochas, bicicletas & biplanos - 8


O homem encostou-se à parede de madeira da velha estação e morreu. Os últimos pensamentos foram um belo corpo de mulher a surgir dum nevoeiro citadino e um campo de batalha onde um dos corpos era o seu. Levava numa das mãos uns papéis sujos que se espalharam entre as folhas de erva.
Tiraram o corpo do homem e referiram-se ao seu sorriso. Um sorriso tão acriançado para um corpo tão velho e desfeito. Fazia sol e sombra por entre os passos da multidão que aumentava para verem o homem velho de barba grisalha que simplesmente faleceu onde se assentou.
10 Jan.

Na peça todos os actores estavam empenhados. E ninguém morreu no fim. Saíram todos do teatro com frio. Espalharam-se pelos bares da zona e sentaram-se nos seus automóveis polidos e muitos arrancaram para longe. Só ficou um vagabundo encostado a uma árvore perto da entrada do velho teatro, à espera que o mandassem embora. Mas ninguém apareceu. As portas do teatro fecharam. O frio da noite instalou-se. Certas luzes apagaram-se e o vagabundo acabou por adormecer envolto no seu grosso sobretudo. Morreu congelado à espera dum milagre.
10 Jan.


Onde estavam ondas agora rolam pedras. Como marés. Aonde estava o peso de muitas pedras está um sorriso. Tímido e cheio duma tristeza por catalogar. Melancolia única e de jardim enfeitado. Sabem, aqueles jardins muito bonitos mas sós de gente e crianças. Assim como um corpo nu mas sem ninguém que lhe pegue. Há jardins de cemitério sem gente sepultada. E muitos nos rostos de quem passa. Quem serão essas pessoas? Espelhos andantes? Que diria Virginia de tudo isto?
10 Jan.

Não tenho dinheiro para te dar, mas tenho ali dois pães de hoje. O pão mata a fome. Não mata as noites frias mas aquece o interior. Mas é só pão. E tu só tinhas uns papelitos para me pagar ontem e hoje? Tens mais algum poema? Dou-te os pães na mesma. Ficas-me a dever. Dois poemas dos pequenos, com a tua luz.
Agora as ruas não são as mesmas. Morreram um pouco, torcidas pela memória e sujas pela culpa. A noite matou-te sobre a forma duma motorizada mas os teus poemas são a nossa noite dividida. Entre as tuas sábias expressões e a nossa agonia dos dias. Sabias que tinhas conselhos que nunca os vivestes?
10 Jan.


Autor: Carlos Teixeira Luís

carochas, bicicletas & biplanos - 7


Eva - Anda, deita-te.

Ivan - Não consigo, as costas não endireitam…

Eva - Oh, céus e agora…

Ivan - Ajuda-me só a deitar-me de lado. Empurra-me.

Eva – Oops … e agora?

14 Mar.


Ivan - Eva?

Eva - Ivan, onde estás?

Ivan – Aqui. Olha para baixo. Acho que está a passar. Chamas o médico?

Eva – Mais uma injecção. Tens de pensar na operação, Ivan. Não podes continuar… assim.

Ivan – Tenho medo de ficar impotente ou paralisado. Tu sabes. Vou aguentando.

Eva – Isso é aguentar?

Ivan – Agora deixa-me só ficar aqui um pouco…

Eva – No chão?!

Ivan - … enquanto o médico… Fico aqui à espera de Godot.

Eva – Oh, não comeces… Vou já ligar ao médico. Sabes que horas são? Vou trabalhar daqui a 2 horas.

Ivan – Falta hoje por mim. Diz que estás doente.

Eva – Doente, eu?

Ivan – Sim, das costas e que esperas o médico. Que não te podes mexer. Depois telefona para o meu trabalho, diz que tenho de ficar contigo enquanto o médico chega.

Eva – Porque não ligas tu?

Ivan – Mas eu não me posso mexer. Tens de ser tu.

Eva (liga) – Estou, doutor Samuel? Por acaso não se chama Beckett também? Estou?

(risos)

12 Jun.



Autor: Carlos Teixeira Luís

ORQUÍDEAS NA JANELA


Já se conheciam
Mas nunca se sentiram assim
Com aquele desejo cor de jasmim

Os lábios se procuraram
E se acharam
Línguas entrelaçadas
Libido adocicada

Sussurros cobrindo a noite
As mãos deslizando pelos corpos
Entregues ao amor
Poros arrepiados sem pudor

Corpos sob lençóis se entregando
Seios misturados
Mamilos se beijando
Lábios se tocando
Suas orquídeas molhadas se amando

Sendo admiradas pela lua
Que timidamente
Olhava pela janela

Arnoldo Pimentel

carochas, bicicletas & biplanos - 6


rouco diz o louco

mouco não ouve o que diz o louco e continua a comer os seus torresmos com gordura e tempo, beberica o seu tinto de algures e mofo, sabe-lhe a pouco

rouco teima o louco que coça o toco

- nem por isso, já foi mais

o que o louco discorda e se põe a milhas – rouco, rouco… profere longe o louco

e nem uma moeda nem pouco

rouco cada vez mais

voz sem reboco e fica assim

6 Jan.


Todos os dias os vagabundos precisam de comer.

Todos os dias os vagabundos precisam de dormir.

Todos os dias os vagabundos precisam de beber.

Todos os dias os vagabundos vão pedir até conseguir.

Todos os dias até morrer.

12 Jan.




Autor: Carlos Teixeira Luís

carochas, bicicletas & biplanos - 5


Gostou dos personagens zangados. E dos que envelhecem e são irascíveis. Quando envelhecer… Quando envelhecer mais, vou ser assim: maldisposto e insolente. Posso muito bem não ser capaz. Mas tentarei. Uma bengala e umas cãs darão uma ajuda. Bem as cãs… Falta a bengala. Feita de pau-teimoso-e-rezingão. Então a vida valerá a pena. Afaste-se que eu vou passar. Vá, despache-se.

4 Jan.

Quer dizer que este senhor norueguês que escreve brilhantemente os seus contos e outros escritos, era um perfeito desconhecido por não haver quem o traduzisse, o que é pena e esta frase já está muito grande. Kjell Askildsen, nascido em 1929, premiado autor – comparado a Raymond Carver e também a Beckett (descubram porquê) não tem frases assim, grandes e com desperdício. Escreve o que é preciso e chega. Simples? O tanas. As suas personagens, cruzamo-nos com elas todos os dias – gente. Tu e eu. Velhos e novos. Doentes e saudáveis. Sóbrios ou nem por isso.

5 Jan.

Dois homens estavam à espera de um outro. Que chegou já de madrugada. Receberam-no perto da luz dum cadeeiro de rua e as sombras de uma grande árvore. Abraçaram-se e atravessaram uma grande avenida. Foram esperar uma mulher num bar dum velho teatro. Sabiam que estava aberto o bar, só para eles. Instalaram-se a um canto bebericando os seus portos. O dia chegou e a mulher não.

9 Jan.

Empurrou a mulher pelas escadas abaixo e chamou a polícia. Amava-a mas não a suportava. A polícia chamou a ambulância e levou a pobre mulher. Já não a suportava, repetiu o homem algemado a entrar no carro de polícia. Não mudou de argumento e ficou preso. Ninguém se lembrou do gato. Esse saltou a vedação e entrou na cozinha da velha senhora da casa ao lado. Aninhou-se num alguidar cheio de roupa lavada. A velha senhora sorriu:
- Estás em casa, gato…

10 Jan.


Autor: Carlos Teixeira Luís

segunda-feira, 11 de junho de 2012

muito embora


uma lágrima só desce de um olho.
perco o sono e o sonho perde vida.
se meu olho queima à tua partida,
a tua ida não sou eu quem escolho.
recolho o verso que canta despedida;
não sou nada alegria, se me encolho.

quem dera um não fizesse aquele verso
e que, disperso, o poeta, fosse vento
pois, se eu fosse vento, tão diverso,
não passaria de poesia e encantamento.

ai, meu vento breve! me leva em tua mão
e então nela me faz sonho e verso eterno!
meu desejo sangra as folhas do caderno
enquanto a folhagem viva vai ao chão...

a esperança de menino ainda é forte,
os desesperos é que soam mais meninos.
quisera eu que, os beijos, entre mortes,
em minutos de silêncio, fossem hinos.

não poderei esconder a saudade
pelos dedos que dançam ao piano;
se quiseres ficar só por vaidade,
vai-te logo, pois te trago desengano.

tenho planos de futuro e brevidade.
a idade conta, no relógio, as horas,
e as demoras falam muito de saudade...

serei feito de lama, caos e auroras
se por acaso tu ficares sem vontade.



Poema de Caíto

sábado, 9 de junho de 2012

para que eu seja mais que um lar


guarda-me
entre minha alma e a tua

me pega ao colo
e a tudo que existe

revele-me pelas retinas
e o que vejo a todo momento

faça-me história
acaso o dia acorde
dá-me sonhos para velejar

despe-me a alma
para que eu nasça

respira-me detrás do peito
para que eu seja mais que um lar

ponha minhas roupas junto aos sapatos
deixe o tempo que arruína tudo
o encargo de colocar esse amor no passado

mesmo que me esvaia em teu olhar profundo
enterra essa maldita felicidade no deserto
que levantarei sem que haja chuva alguma...



Poema de Vânia Lopez

O garçom


- Bem , eu só sei que o nome dele era Rui, o resto, não sei ou não lembro se ele me falou alguma vez. Chegou numa manhã garoenta, falando que viu a placa dependurada na entrada, dizendo da precisão de um garçom. Tinha trabalhado uns tempos num restaurante, lá para as bandas da Augusta. Entendeu-se com o seu Horácio e começou logo a trabalhar. Sotaque nordestino, já meio amaciado, lá de Pernambuco. Simpático, atencioso, mas de simpatia medida aos palmos, bem controlada, sabe? Ria, mas sem mostrar os dentes. Eu, que não nasci ontem, reparo logo essas coisas. Êita, cabra escorregadio. Pontual, nunca faltou um dia em dois anos, nem por doença. Entrava e saía na hora, mas não enjeitava hora extra, não. Falava em tudo, menos de si, da vida dele mesmo. Quando a gente pensava ouvi-lo falando de si, já estava era discutindo a escalação do Corinthians ou os engarrafamentos na Marginal. Vaselina todo, o Rui. Servia muito bem as mesas, dizia nunca ter freqüentado senac nem escola de garçom nenhuma. Claro, a gente pensava que fosse mentira, pabulagem besta. Ah! Bom de serviço mas ruim de bola. Jogava de atacante nas nossas peladas. Meio barrigudo, mais levava baque que jogava bola. Mas sempre bem-humorado. Acho que aquela doidice era o jeito dele jogar mesmo. Grande figura o Rui. Todo mundo gostava dele. Na noite de seis de março, chegou um senhor já meio coroa no restaurante. Tinha telefonado e reservado mesa para três pessoas, ele e mais dois caras mais jovens, parecidos com ele, cara de um, focinho do outro, dizem lá na minha terra. O coroa falava num sotaque nordestino muito forte, puxava de uma perna... não lembro qual. Olhava todo mundo de cima, cara acostumada a mandar, a gente conhece logo, servindo esse povo há anos. O Rui atendeu, ficou meio sem jeito quando encarou o velho, mas não disse nada. Trabalhou muito bem, como sempre. O jantar foi normal, igual a todos os outros. Pediram sobremesa para os três. Fui até à entrada, papear com o Nonato, o manobrista, aquele cearense que esteve aqui também. Retornando ao salão, vejo o Rui trazendo uma compoteira grande, enorme e pouco usada. Pôs em cima da mesa do coroa, fez uma mesura e destampou-a. O coroa olhou para ele, vermelho feito uma manga-rosa. Levantou-se, o guardanapo no pescoço todo enrugado. Rui puxou um revólver não sei de onde, sapecou-lhe três tiros,um champanhe de sangue pipocou no peito do velho, mais um tiro em cada acompanhante e no derradeiro, estourou os próprios miolos... meu Senhor do Bonfim, que bagaceira... mas foi assim mesmo. Olhe, só de maitre tenho já vinte anos. Vi de tudo na minha vida, menos alguém servir compota de merda aos assassinos da sua família, com aquele sangue frio e ainda por cima, dar chumbo grosso de saideira. Desculpe a minha fala, mas esse mundo é muito estranho, doutor delegado.



Conto de André Albuquerque

sexta-feira, 8 de junho de 2012

"minha(...)"


dívida. e excesso. em plenos actos às formas de pares
dentre lados regidos qual igual ponto por arremesso
laço.. teu desenho! em previsível corpo de acto, e. erro
e erros.. e lares. carta em letra/libra à marca que te sabe

mas é..

cada parte de um indício e prévio limite por algum resultado
à luz da menção fugídia que te brilha em reverso pois, advém
combina. pactua.. emerge de tão.. ínfima, em subtítulo predicado
é a lua da manhã(o lado..) à sombra do sol. e à noite e. ao desdém

mas, ainda é..

cada lápide da parte entregue onde reina(já.) o interesse oblíquo











..







toda esta.. prece. que carrega o passo da tua mesma (im)presença
carne da lição em lei que te absorve o meu pensamento.. império!!
meu campo de guerras e lanças e cantos ao redor da tua venda
sou. este cego.. sou. tal conto prévio contínuo e tormento deste verbo

da palavra que te é..

métrica e lima. à tarde acesa da chuva mais carregada d'onde me sei
em vendavais à altitude obscena por reinar em ar aberto, mas perto..
qual olho que te compre, acto que te vem e corrompe.. -"carta", levar-te-ei!!
hoje! e, aos meus dias de queimas e águas.. em, páginas deste repto

da palavra que te faço..





nem à morada por um palmo deste dia
nem à vénia que te bate à porta(e bate/bate/bate..)
seja(me) de noites desiguais em alvoroço
seja(me!) das minhas lâminas, o meu apreço

meu
próprio(e único..)








sopro.


Poema de Azke

[...e quão perto se quer o mar em mim


e quão perto se quer o mar em mim,
e quão inerme me deixa quando longe se espraia.

Era-me o vento bonança quando o pisavas descalça
anunciando chegadas, e repetias;
“- o mar não tem quintais, nem latifúndios, as pessoas não moram lá, morrem-se por lá!”

Pudesse eu deslizar-me pelas espumas do mar
sem ruído,
pudesse o céu abrir-se de par em par, como um sorriso
inocentado pelas derivas constantes das correntes,

pudesse eu morrer-me por ti,
perto do mar.

Fundeei-me nesta letargia momentânea, sem visão,
apenas restaram algumas orquideas que vogaram até mim,

suavemente,
silenciosamente,

e,
enquanto as recolhias descalça e núa,
era-me longinquo o marulhar do mar em mim,

tão perto dos silêncios teus.

Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

quarta-feira, 6 de junho de 2012

transformas o que fere em arte...


entrou pela porta aberta
gentil tal qual toque de brisa
pousou em torno da cintura
como se fosse um cinto inevitável

um canto atrevido, sagrado
quase um mistério
meigo e cruel lado a lado dentro dos segundos
capturou a paisagem com uma inocência
ostentando o céu nas mãos
o dia reaprendeu seu lirismo

arranhou meu peito esta tarde!
livre como uma flor delicada
domando pétala por pétala
tudo foi junto

José cada vez que canta morre um pouco
do ocre e do azul turquesa
do ponto mais alto da jabuticabeira
açucenas floridas de voos
meus dedos deslizam quando o vento sopra
carregada tão fácil teu canto José
como uma folha
se aninha com uma calma menina
transforma o que fere em arte
pela porta que espera.



Poema de Vânia Lopez

segunda-feira, 4 de junho de 2012

poeta maldito, eu?


não tenho vocação
pra poeta maldito
ainda há precisão -
e mesmo bonito é -
de aceitar no pão
e aquiescer no café

Poema de Caíto

domingo, 3 de junho de 2012

...é tudo tão injusto!


dói tanto quando você está comigo, sinto-me tão perto que não sei onde acabo ou você começa... a almofada arrasta seus cabelos, quebro-me, como um vaso chinês. tropeço nas palavras troco o verbo perco o disfarce, me dando trabalho noite e dia. como um pássaro teimoso empinando asas em seus olhos me esforço tanto em te esquecer, fico em pedaços. deve ser errado, o corpo em claro como febre, que só se acalma dentro do seu peito... é tudo tão injusto! é tão injusto alguém ter os olhos dessa cor... que me calo.



Autor: Vânia Lopez

sábado, 2 de junho de 2012

O teu pulso é um dia de chuva


Nunca
sei onde nasce o sol,
e nunca o céu que tem o teu vestido,
quando os barcos partem num horizonte oposto:
eu só tenho o véu das tuas chamas,
o suave véu quando sobes a voar a mesma lua
ou a água que ao mar chegava,
e o vento é ainda este pesado crocodilo
quando a noite o perde, quando a noite é ainda uma
úlcera em seda já explicada às cortinas,
ou essa vírgula do céu
a flutuar um poente de rosas
apedrejado ao teu
parto
... »


Poema de Francisco Eugênio Seixas Trigo

Sina

Se há algo
Que me ensina
É que tudo
Nesta vida
Sempre cisma.

Se há algo
Que me ensina
É que tudo
O que cisma
É por sina

E que a sina
De cismar
Faz a vida
Pressupor
Para si

Um sentido,
Um propósito
E destino
Presumidos
Para todos.

Mas se tem
Um sentido,
Por que cisma
Esta vida
Tão sentida?

Mas se tem
Um destino
Por que cisma
E se abisma
Esta vida?

Se ela cisma
É por sina
De não ter
Um sentido,
Um juízo,

Por saber-se
Sem propósito
E destino
Quando cisma
Em surdina.

Por saber
Que cismar
É buscar-se
Bem acima
Dos sofismas

De um destino,
De um sentido
Tão mentido
E fingido
Pelas gentes.

Pois se cisma
Malsinada
E repleta
De sentidos
Presumidos

Nos ensina,
Na verdade,
Que viver
Esta vida
É a sina

De perder-se
Em cismar,
Em amar
E a arriscar-se
Sem sentido.


Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados

[...quando esqueces as palavras



quando esqueces as palavras pela noite tardia,
tacteias à deriva pelas marés os sons dos sussurros,
que,

fugitivos,

se escondem pelas frestas da parede em madeira,

e por mais que queiras adormecer,
os ventos esculpidos no teu peito perscrutam,
aquelas outras ondas que dançam em mim.

Também eu me morrerei sem lápide, nesta imanência longe de mim,
desconhecida, que me oprime,

e se o amar um dia se saciar, mesmo sangrando
das palavras que esqueceste pela noite tardia,

que siga as migrações distantes da borboleta monarca
que um dia sobreviveu ao inverno.

Hoje o dia amanheceu mais cedo, sequioso de claridade,
o mar ficou mais vazio sem ti,


[que o olhar dos barcos esteja sempre pintado na proa].



Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

sexta-feira, 1 de junho de 2012

delírios de uma gota de espuma


baila a gota de espuma
sob o olho atento
do vento

ainda ontem
quando era criança
meu maior segredo
era a felicidade

a gota de espuma
baila sob o vento
de olhos atentos

a gota de espuma
é uma criança
com a felicidade
nos bolsos...

Poema de Caíto

FULANAS DE TAL...



FULANAS DE TAL
 

-Criado em 2010, o grupo feminino cultural da Baixada Fluminense Fulanas de Tal
é formado por cinco mulheres de grande personalidade, e com muito conhecimento sobre arte e cultura. São elas, as poetisas Ivone Landim, Camila Senna, Aline Merilene, e Gabriela Boechat, que também é artista plástica; e a estudante de Cinema, Yasmin Thayná.



O grupo surgiu da ideia de Ivone Landim, que não se conformava com a situação e a posição da mulher em nossa sociedade, e resolveu formar com mais quatro amigas, um coletivo que agregasse pessoas interessadas pela natureza humana, voltado tanto para homens como para mulheres, mas com um olhar feminino, carinhoso, atento e sagaz. Dessa primeira formação foram reunidas, poetisas, críticas, pesquisadoras e artistas fluminenses, com o objetivo de promover intervenções culturais em todo o território da Baixada Fluminense. O nome “Fulanas” é uma homenagem a um poema escrito pela artista. A comunicação entre elas é realizada por e-mail, e cada uma é encarregada de exercer uma função no Grupo.

A formação original do grupo Fulanas de Tal é composta por Ivone Landim, poetisa, professora de Literatura Brasileira, e ativista cultural desde a adolescência. É a adjunta pedagógica da Coordenadora da FAETEC de Nova Iguaçu; e educadora do Ensino de Jovens e Adultos - EJA na Escola Municipal Heliópolis, em Belford Roxo, com o Projeto “Gramática Afetiva”. Fundou em 2008, com Dida Nascimento, Márcio Rufino, Jorge Medeiros, e outros poetas, o grupo Pó de Poesia. Participou do grupo poético Desmaio Público, criado na década de 1990, por César Ray e Eud Pestana, onde despertou seu interesse pelas letras. Ganhou em 2010, o Prêmio Especial de Literatura da Baixada com o projeto Entre Linhas. Começou a despertar o interesse por debates, quando começou a participar de grupos de mulheres, que discutiam sobre a reflexão de gênero, e garante ter aprendido muito com elas. Obteve grande sucesso com “Aprisco da Palavra”, um fanzine criado para combater a intolerância religiosa, debatendo a religião de maneira mais abrangente. Nascida e criada em Mesquita, veio de uma família humilde, e desde criança sempre foi apaixonada pela leitura. Ivone é a responsável pelas matérias culturais publicadas no Fanzine.

O termo Fanzine é derivado das palavras inglesas fanatic (fan + maga [zine]). Ele se caracteriza por uma mistura de gêneros da imprensa alternativa, ou seja, uma forma de veicular a produção artística ou a informação sobre temas variados. O que define o fanzine é aquilo que o editor deseja compartilhar com seus leitores. Para Ivone “os fanzines são Pontos de Leituras que circulam nos territórios de forma alternativa, em relação às mídias já existentes, caracterizando-os como equipamentos pedagógicos para difundir a leitura entre os seus alunos. Os fanzines possuem a proposta de trabalhar o recorte e a colagem unindo, assim, as artes visuais e a literatura. A intenção é promover de forma sociocultural, o compromisso com a leitura e a escrita, estimulando a juventude a produzir textos e a utilizá-los como forma de divulgação, expondo suas ideias e a sua criatividade.”

A segunda integrante é a poeta Camila Senna, que cuida do Blog das Fulanas de Tal. Camila já escreveu várias poesias, entre elas, O tempo passa, mas não apaga; A melodia da Vitória; A natureza e sua essência; Vento, Assim é Paraty; Caminhando; Para os destemidos; Não quero ser figurante; Falta tudo, menos veneno; Negro de Valor; Suas digitais em mim; Criatura etérea; e Maria Ninguém. ”Mãe, por ser abençoada. Mulher por natureza e puro ímpeto! Sou ponto. Sou vírgula, Sou reticências... Sou loucura serena, intensa e quente exclamação!... Meu sorriso largo mascara a ausência, a carência. Sou todo esse barulho dos meus versos desnudos. Sou urgência! Prazer”. Camila faz parte das seguintes Antologias: III Prêmio Litteris de Cultura com Amor – Ontem, Hoje e Sempre; Papo Cabeça, coletânea juvenil; Do Brasil para Frankfurt, mais que um país uma inspiração; Do Brasil para Guadalajara, o melhor da nossa terra; Palavras sem fronteiras, do Brasil para Buenos Aires; Poesias Encantadas 1ª e 2ª edição.

Aline Merilene é a terceira integrante do Grupo Cultural Fulanas de Tal. Escreve desde seus 14 anos de idade. Toda sua formação acadêmica se deu na rede pública de ensino. Concluiu o Ensino Médio na Escola Técnica Estadual João do Nascimento (FAETEC) em Nova Iguaçu, onde teve a oportunidade de fazer parte do projeto Entre Linhas, criado e coordenado pela sua professora de literatura, Ivone Landim, onde mais tarde se tornou editora-chefe, atualmente não participa mais desse Projeto. Fez parte também do grupo Pó de Poesia. Já escreveu cerca de 50 poesias, e continua compondo outras novas, para um dia publicar seu livro cujo título Delírio Poético, já está definido. Entre outros poemas de sua autoria estão: Desabafo, Mistério, Morada da Poesia, Telas Paralelas, O Mar, e Nostalgia. Aline é estudante de Letras; e amante de filosofia, psiquiatria e psicologia.

A quarta integrante é a artista plástica e poetisa Gabriela Boechat, que contribui com o Coletivo Cultural com suas ideias e trabalhos. Muito atuante na região da Baixada Fluminense, é formada em Educação Física e professora da Rede de Ensino de Mesquita. Segundo Gabriela, “apesar de sempre ter observado o mundo ao meu redor com outros olhos e outras cores, a inspiração para pintar aconteceu de repente e tem se mantido contínua e progressiva desde então.” No ano de 2010, organizou com outras pessoas, uma exposição no Centro Cultural Donana, cujo trabalho O Nu da minha Voz ilustrou a Gambiarra Profana, grupo de artistas que participa. O trabalho "ventos na primavera" ilustrou a capa o livro de poesias homônimo do artista Arnoldo Pimentel. Gabriela trabalha com telas, paineis, ilustrações, e caricaturas, em técnicas variadas.

Yasmin Thayná, estudante de cinema é a quinta integrante do Coletivo Cultural. “Menina, mulher, sagaz. Eletrotécnica, literata, cineasta. Cabelos com flor, com cor, cabelos únicos! Sorriso sincero, olhar tímido, estilo próprio. Chaveiros exóticos, mochila pesada, livros e filmes na cabeça. Yasmin conta que, desde que foi apresentada por Miguel Nagle ao curta “Um Dia de Laura”, foi inserida no mundo do cinema. “Fui fazer um curso com o Miguel, em janeiro de 2010, chamado ‘Do Roteiro à Prática’; e juntos fizemos o curta-metragem ‘Ciclo Eterno das Mudáveis Coisas’. Posteriormente se candidatou a uma vaga para produção de roteiro, e passou. Escritora assídua, roteirista, leitora, cinéfila, e ativista cultural. Este é o perfil de Yasmin, que com mais duas componentes das Fulanas de Tal, é responsável por disponibilizar matérias e ideias que contribuem para o sucesso do grupo.

O Grupo Cultural Fulanas de Tal, permite que outras mulheres, cujo perfil tenha identificação com o trabalho desenvolvido pelo Coletivo, entrem na Rede Mundial e façam parte do elenco, pois o foco do seu trabalho é estimulação da leitura, e a comunicação alternativa. Para mais informações acesse http://poesiasfulanasdetal.blogspot.com.br/

Por Ludimila Bernardes e Seny Fonseca
Revisão: Seny Fonseca
Fotos: Ludimila Bernardes e Divulgação.






poema para um dia de chuva


no naylon preto
do guarda-chuva
tina-tinindo canção.

canção
flechada do céu,

senta a pua
no peito do pé,
molha o sossego do gueto.

chuva-chovendo canção:
percussão nas poças da rua.


Poema de Edílson José

vai-se o tempo em meus olhos


as noites silenciosas
correm como um mar de vinho
odor de rouge e perfume dançando pelo ar
o trigo secando lá fora
a luz do jardim atravessa a cortina
como um sino dos ventos

quanto mais longe fico de mim
mais nego teu nome como lembrança
respiro o nada
o que não se pode expressar
lenta e apaixonadamente
de forma que não se cale




Poema de Vânia Lopez

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Medo


Amanheço. Por entre as dobras do ninho dos cobertores, travesseiros e lençóis, silenciosas mãos côncavas que me escondem como capa mágica da invisibilidade. Arranho por dentro o meu céu e ele, ainda, me sopra estrelas. Queria poder guardá-las na cadencia das horas em que me acho, mas, me perco.
Destranco a janela da alma e avisto os meus medos ao longe confabulando com o cinza do dia. E tudo se cala como uma silenciosa oração desenhada com baforadas no vidro. Meu corpo deságua raios e trovões, convulsão de um vulcão que quer expelir as sombras da caverna.
A neblina dissimula as carícias das mãos frias do medo.
Vou queimando por dentro e amontoando as cinzas em um canto, a espera que algum pássaro voe até a colina mais alta e espalhe o meu olhar inocentemente.
Encaminho-me com passos sonâmbulos como oferenda prestes ao sacrifício. De um lado, a solidão que estende a mão morna; do outro, a incerteza que escancara a sua voraz boca de abismo.
- Não quero mais ter medo de sentir medo!
Estendo os dedos como um cinzel pontiagudo e contorno, descolando, a face da solidão. Não saberei hoje dizer, se como o último ou o primeiro gesto, antes de anoitecer.


Autor: Lápis sem ponta

[...e ouvi alguns velhos do restelo clamando


e ouvi alguns velhos do restelo clamando;
“Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?”,

e vi duas sílfides dançando por entre o perfume das flores em primavera,
levando e trazendo suaves brisas,

e vi alguns poetas queimando palavras incrustadas em folhas preenchidas,
outros não riam, outros viravam as costas ao caminho,

e ouvi militares alteando a voz, encurralados na ilha de Kheros;
“Antiguidade é um posto, antiguidade é um ...”,

ah... e mais vi, e mais ouvi,
declamavam-se elogios, e mais elogios, como se a salvação fosse aqui tão perto;
- vai-te anjo rebelde expulso dos céus, expurgo-te do amanhã, do hoje, do sempre, “rasteja para a terra, possa ela salvar-te do nada”,

e alguns fizeram as pazes, mesmo com os dedos cruzados atrás das costas, alguns suspiraram não sei o porquê, outros guardaram as adagas de istambul ainda a brilhar,
libertaram-se os cheiros da amêndoa e do café.

E tudo vi, e tudo ouvi,
seria esperança, seria morte, seria o fim das trevas [?],

não sei,

sei que ainda ficou uma sílfide,
dançando por entre o perfume das flores em primavera,

[e o silêncio anoiteceu-me a voz, jamais o poema],



...
[que por aqui deposito? jamais].

Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

[... e enquanto me espraio longe


enquanto me espraio longe dos lusitanos areais
em mares tão distantes, para além dos imaginados,

acorda-me alguma canção sem refrão,
de um amor para sempre arrastado pela ondulação,

amor, ou desamor que ficou algures, nostalgia ou mesmo interdição,
mas o desejo ainda se mantem, assim, assim...

Tocam os sinos a repique, ainda os ouço da partida,
como um fado que revisito na memória, que se repete,

que se arrasta sem permissão,
e que invade, que sufoca ainda mais que a saudade.

Tão longa a longitude percorrida.

Rogo pela mansidão do amanhecer, sem sons ou síncopes,
doutos os que esperam sem pressas,
e que celebram o renascer sempre anunciado, que se repete,
e se multiplica pelo tempo,

eu, renuncio-me ao acordar,

e jazo-me,
longe dos lusitanos areais em marés distantes que se espraiam
por mim adentro,

[sem fim, sem ti, assim, assim...].




Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Vidas em perigo no fogo inimigo


É o fogo inimigo
Lambendo
Derretendo a terra
O morro
A planicie
Moitas nas serras
Grito na floresta
Eitos
E mais eitos
Em chamas
O beija-flor
Um tamanduá bandeira
Denunciam
Reclamam
Clamam
Um tiziu denuncia
Aos pulos
Trancos e barrancos
Revoltado
Sentinela de beira de estrada
Revoltado por tanto crime ecológico
Aos gritos conclama
Help
Help
Uma solução
De salvação
Tem fogo na mata
No topo
Nas ciliares
Na relva
Fúria de ventos quente
Circunda malhadas
Quintais
Muralharas da china
Por ali
Ninguém cisma
Em denunciar
A vida assada
Cozinhada
Em brasa viva
E feroz língua de fogo
Queimando
Assando
Expulsando tudo
Por léguas tiranas
Onde a vista alcança
Muito bicho morto
Tem ninho queimado
Goto
Preá
Jiboia
Saracura
Macaco prego
Morcego
Tamanduá
Doidos
Sem pra onde ir
E vir
Na grota do angico
Na mata do cipó
Nas nascentes do Curralinho
No nicho do guigó
Uma cobra silva
Rebolando
Tonta com tanta fumaça
O bem-te-vi apavorado
Diz que viu
Tudo partir da li
Do aceiro mal preparado
Da queimada do canavial
La das bandas do piranji
Diante de tanta produção insustentável
Parece não se contentar
Para as repetidas denuncias
Das vidas em fogo
Uma válvula de escape se acha
Um monumento de vida
O ícone guigó da Mata atlântica
Seres e vidas da mata que matam
Devoram
Atacam
Devastam
Mal tratam
Por bem prazer e deleite
Do império da cana
No consumismo de espécie humana
Contexto macabro
Que esse modelo superado de desenvolvimento
Encarna
Quando ignora nichos de bichos e florestas
Irmanados
Em festa biodiversa



Poema de Lizaldo Vieira