Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



terça-feira, 14 de agosto de 2012

Ejaculo...


Com o Olho de Hórus,
Te observo...
Ejaculo todo seu desafeto.
Feto secreto, me faço!...
Não indago a pobre caça
Desgraçada que tenta o vinho da minha taça.


((( Camila Senna )))

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

é para dizer que parto

Estava
sentado, estaria sempre sentado
e vou escrever-te,
hoje,
que o vento é apenas um leque de flechas
aos pés
e só depois um salmão roendo foi
os teus moinhos de asma
e esse tojo coado para o mar.
E, hoje,
põe-te sentada,
o teu amor tem a urgência de uma metáfora
e essa podia bem ser o chão
do nosso quarto
quando a encontro de repente.
E, hoje,
não vejo os pássaros,
e por ser tarde conseguia ter os carros
como nuvens numa rota do nosso mel,
e correria pelo teu corpo
para dizer que parto
meu amor

Poema de Francisco Eugênio Seixas Trigo

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domingo, 12 de agosto de 2012

"bater, bater.."

é..

parte da soma que te guarda o arremessso?
lépido ensaio de corpos e laços, tal.. conforto-adereço?


é um êxito ao culto dos sonhos-inclusos e fins?
algo deixado em amostras aos controles de ti?


é a fuga?
é a letra-toda-puta que desnivela um acto de pele?
uma noção do inferno que te refere às letras leves e que nao deixei. entrar?


é uma carta-rifada, sem consulta ou inércia operante?
uma criação errante de ilusão e anedóta fria?

é a lua mentirosa no céu linear?
é métrica qual lâmina que nao te pode desfiar?


ou..


é o tempo?
olhos fartos e/ou.é o preço que te compara em um
outro..
..exemplo?

é a lima que te serve em cela da minha vã expiação?
o meu pecado em alvo-consorte de vozes inteiras?
às

mesmas exceções e maneiras, que
um
dia,

o meu lar.. te reclamou?






..



eu cumpri a minha submissão em teu templo de factos
em decidi nao destruir o teu livre início que te faz retrato
eu. nem ao menos, agora sei em que partitura, te aquecer
nao te sei aos meus ensaios, minhas quedas ou te prever

qual lembrança que te seja em mácula da corda que rescindo
à luta mais curta de um hábito todo fixo ou culpa que te insiro
qual conto breve e advertido à forma impressa da que te há
da cena que te abstém, da premissa, de cada porém, deste ar..



..em queda,
em




algum outro lugar.







(toc, toc..)


Poema de Azke

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sábado, 11 de agosto de 2012

[Esqueço-me dos dias, restam noites abandonadas]

Esqueço-me dos dias, restam noites abandonadas,

silêncios alguns,
sombras que voam em frenesim,
quando encontro a minha, apiedo-me sem razão.

Tempos estranhos, delírios
intermináveis,
de nada valeram sonhos, encontros, fugas,

resisto-me.

Descalça te imagino, cousas minhas,
cabelos desfraldados ao vento que vem de norte
tapam o sorriso que sempre sobreviveu em
esconderijos meus,
que sejam secretos qual o invísivel rorejar disperso pelos nossos regaços numa manhã cendrada.

Assim a noite pariu arco-íris, afirmo-te.
Assim a noite escondeu os silêncios das sombras.

Assim se libertou o perfume do rosmaninho que cobre
as falésias por segar.

Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

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sexta-feira, 10 de agosto de 2012

[Bleasby's Street]

.


Céus cinzentos onde desce a cotovia
_Sobre as velhas antenas dos prédios gastos
Poemas de poetas há muito fartos
_Loiça por lavar, a senhora Robinson
________________________e o seu novo marido.]

duzentos dólares pagam a tua renda
_em Bleasby’s Street.


.

Poema de Mario Revisited


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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Vagina dentada


Vagina dentada,
Escancarada
A qualquer fluxo,
Caudal anônimo
De caras e de pênis,
Exibição e charme,
Feito artigo de vitrines,
Mas no fim: solidão,
Camada de carne,
De lábio e asfalto,
Elevando tapume alto
E muros feitos
De cimento e de murros.

A que horas deitar?
A que horas amar?
Mas sempre trabalhar,
Devorados, seta ferina
Na carne encilhada,
Inflamada ferida –
Grito, dorida anti-voz,
Abafada, contra o rito,
Pelo mito,
Pênis mordido
Por dentada vagina.

Boca sifilítica
A excretar purulenta
Pruridos, gonorréias,
Pequenas mortes
Paralíticas,
Virulentas panacéias
Contra o membro
Rígido, ereto
Em busca de afeto
Num paraíso perdido -
Teatro obsceno
De deleite e venenos.

Amor ou tesão?
Apenas fluxo!
Chafariz de repuxos
De pressa e de ódio.
Pergunta-se: - “O que fiz?”
Mas estica sempre a cerviz
Sob a camada dura
De raiva e de murros –
Ferida aberta,
Sem atadura –
Enquanto goza e mente
Semente amputada
Na vagina dentada.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados

Dois homens célebres


A atendente levantou a cabeça da agenda , consultou o relógio ao lado da porta da ante-sala do consultório , fechou o romance que lia e chamou :
- Monsieur Honoré Du Balzac, pode entrar . O homem baixinho e gordo , de aspecto pomposo e lerdo, ergueu-se do sofá , apoiando-se numa bengala muito bonita, talvez , até bonita em excesso, com detalhes demais para um objeto de destinação tão simples. Mancava um pouco com o pé direito e seu rosto apresentava uma palidez esquisita, que lembrava folhas mortas no outono , em busca de um solo macio , para dissolver-se ao léu , entre a aragem e as ainda raras chuvas . Uma rápida parada em frente da atendente , ergueu a cabeça ,trocou de mão a impecável cartola , fuzilou a empregada num olhar de desdém:
- Por favor, madame, Honoré De Balzac .Fui muito claro ao anunciar-me.
- Perdão monsieur...- entre atônita e constrangida, a timidez purpúrea
– O professor Laennec já está á sua espera , na sala em frente. Por favor... A mão suada e agora fria , abriu a porta da ante-sala , inclinando a cabeça em subalterna reverência. Quem diria, aquela ruína engalanada era o grande Balzac ! – pensou e tornou a ocupar o seu posto , voltando aos dramas do seu querido Hugo , encadernado e amado em marroquim e lombada dourada.Claro, presente de madame Laennec.
Um claudicante Balzac adentrou o consultório, trôpego, precocemente envelhecido aos seus quarenta e oito anos , um rosto onde se alternavam a irritação e o tédio . O gabinete do médico, de suntuosidade idêntica á de tantos outros que retratara , um arejado e se g u r a m e n te asséptico ambiente burguês , tão sólido quanto a reputação de seu dono . Mas a doença tinha os seus questionamentos, surgidos das noites de falta de ar , de dormir sentado , da insegurança até em subir num coche mais alto: Tudo o que fizera na vida , não era para ser um burguês superior, um aristocrata do espírito com o melhor que o mundanismo poderia oferecer ? A vida lhe dava um não sinuoso, quase um talvez , acabava-se aos pedaços, insidiosamente , nada definitivo , sem golpes de misericórdia , antes a sensação terrível que sempre acompanha a consciência aguda do próprio fim , sorvida homeopaticamente , administrada por uma providência cruel e indiferente .Sobre a escrivaninha , um inesperado busto de Minerva , contemplava um tinteiro onde Hipócrates reafirmava a legendária fealdade, um deus num corpo de íncubo . Uma venerável cabeça ergueu-se em sua contemplação , um olhar profissional sobre um sorriso de estranha empatia , mediu – o da cabeça aos pés e até um pouco da alma, quem sabe . Honoré sentiu um aperto de mãos firme e saturado de uma autoconfiança até antipática. - Sente-se Monsieur Balzac , por favor - a pálida mão apontou – lhe uma cadeira quase lateral á escrivaninha.
- Em que posso servi – lo ? – continuou , como se contemplando um ponto entre os seus olhos.
O homem pequeno e gordo desfiou um rosário de achaques , descrições de dezenas de outras consultas , tratamentos mal-sucedidos, visões da vida e da morte , onde a morte já se confundia com o viver , tal era sua existência naqueles tempos . Aquele homem era um grande médico , pensou enquanto descrevia os seus males . Só os muito bons conseguem tornar-se invisíveis olhando em nosso rosto e nos fazendo falar livremente, pensou aquele pequeno grande homem .
A torrente de insônias dolorosas e asfíxicas , a trôpega fuga dos credores e agora de si mesmo , os incontáveis bules de café , combustível para sua mente criar os cumes e abismos da comédia humana . A própria história transmutara-se num rascunho que agora narrava , em súbito improviso . Laennec elevara á categoria de arte a escuta das vidas e das algaravias dos corpos dos seus pacientes .Inventara o estetoscópio e os recônditos do corpo e seus sons, eram audíveis áquela mente curiosa e sagaz . Pontuava um calar-se estratégico com pequenas indagações, quase gestos . Os assentimentos de cabeça , d i r i g i a m aquele intenso monólogo .
Em seguida, passou ao minucioso exame físico, sob a guarda de um biombo . Honoré imaginava a procissão de enfermos que haviam passado por ali , naquele silencioso isolamento dos males do mundo. O médico empregou um aparelho tubular para escutar-lhe o peito e as costas. Percutiu-lhe o volumoso e dilatado abdome, extraindo sonoridades bizarras e distintas . Ao final , apontou – lhe o cabide, sinalizando o fim do exame :
- O Monsieur padece de diabetes mellitus . O seu coração e rins me parecem já comprometidos : essa inchação nos pés , essa falta de ar, essa elevada pressão arterial , a palidez terrosa e a urina espumosa e doce , falam por si só.
- Palidez terrosa ? Fantástico ! Já apresento então, afinidades com a terra que me dará guarida , a terra dos cemitérios. Que fazer para que Belzebu me esqueça ? Ou me considere uma empresa além das suas forças ? Laennec sorriu . Fitou novamente aquele ponto entre os olhos de Balzac. Subitamente, relaxou –se na cadeira , esticando o pescoço para trás , falando em direção ao teto trabalhado e burilado , numa passividade que tinha algo de felino em sua calma perspicaz:
- Monsieur, conheço-o de fama e já li alguns dos seus trabalhos. O senhor, á sua maneira , é um grande médico. Pressentir uma doença antes da sua manifestação , é um dom quase divino . Perceber as doenças que a nossa sociedade enferma produzirá, é algo fantástico. O meu trabalho é sobre aquilo já feito, já consolidado, já visível, auscultável e palpável.
- E daí ? Isso me torna mais fácil morrer ou viver ?
- A sua arte o está matando a partir de outro plano, o da imaginação. Seu urinar constante, sua rápida perda de peso e essa fome insaciável ,são o preço das madrugadas sem fim , atravessadas á café forte e exaustão mental , vivendo centenas e centenas de vidas a cada mês , com suas alegrias , frustrações , seres bem e mal amados , homens e mulheres desfilando um cortejo ao mesmo tempo maravilhoso e mortal para o senhor. Em seguida, numa agilidade inesperada e jovial, sentou-se ereto e começou a escrever furiosamente numa longa folha de papel , a caligrafia nítida , equilibrada e sem floreios. Ao final , estendeu a folha ao já surpreso paciente:
- Aqui estão minhas recomendações . Foi um grande prazer conhecê-lo tão intimamente . Sei que nada fará do aqui recomendado, porque é regido por seus personagens e seu mundo, que lhe parecem muito melhores que a sua realidade de hoje , monsieur Balzac. Balzac agradeceu, pegou a cartola e saiu no seu passo trôpego. Laennec permaneceu de pé , mãos nos bolsos , contemplando sua escrivaninha.


Conto de André Albuquerque

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terça-feira, 7 de agosto de 2012

Roteiros do Início da Europa (III)

.


no lago cismigiu
pela doce mão de ioanna
contarás todos os nomes que essa paris de leste
guardou para ti -

eminescu (o maior), odobescu, maiorescu, caragiale, cosbuc,
losif, creangã, vlahutã, zamfirescu, hasdeu,
balcescu e vasile alecsandri.

(e tu sabes que és o único poeta vivo, aquele que resta,
tu herdaste-lhes o castelo de vlad III)

depois, tranquilo, no bairro radu vodã,
todos os teus novos amigos no intervalo de um jogo do rapid
e a mesma vontade indecisa nos rostos,
a mesma europa aqui, tão próxima da tua mostar solarenga
ou do teu duende verde, além;]

ioanna (tão bela) dir-te-á amor nessa língua,
quando acenderem os luzeiros sobre o dâmbovita;

- onde bartók procurou a canção primitiva, ajustada
a uma dominante trémula, há tanto
e tanto; -

te iubesc


te iubesc


.


Poema de Mario Revisited

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sábado, 4 de agosto de 2012

Roteiros do Início da Europa (II)

.


quando chegares a cork city deixa-te levar
pela alegria do velho irlandês que entoa o «get on bord!»
ao partir do ballygarvan enquanto tu
o cruzas ainda confuso pelo antigo gaélico segredo;

esta viagem deves fazer sozinho;
atravessarás a winthrop street até a contornares e entrares
na contemporânea phonehouse - não deves esquecer os teus
amigos, longe na solarenga Mostar ainda;

no Ryan’s pub junto das docas, uma fresca guiness de espuma tão leve,]
que o rapaz encherá três vezes, esperando um minuto e meio
entre cada gesto, far-te-á compreender como o mundo
não é mais do que aquilo que tu trazes contigo;
e tu não trazes nada, tu és o começo de tudo,
neste aroma céltico.

um texano hippie, de longa cabeleira, notará como trazes
a aliança do anarquismo no fio do teu pescoço; e quando ele
te perguntar «you’re one?», dir-lhe-ás simplesmente
«I just pretend so», porque queres conhecer;
tu queres desaprender tudo o que europa de te ensinou tão mal
sobre si própria, afinal

na outra margem, deves passear ao longo do river lee;
tu sabes bem como te poderias perder nele para sempre
naquelas águas tão escarpadas e miúdas ao mesmo tempo
onde duendes e gnomos banhavam
os seus arcanos mistérios

nem deste por isso, mas entraste já no countryside
onde tudo é tão verde
tão verde e tão espontâneo, que só o lee
te acompanha agora, à tua direita

sente o sangue a circular pelo teu corpo
consegues escutá-lo, correndo;
agora entendes tudo pela tua pele e não pelo pensamento
que é como se deve saber das coisas com amor

a noite começa e acaba cedo aqui,
com belas raparigas tão loiras e de sorriso tão perfeito;
também aqui a europa em copos de plástico pelo centro da
cidade, que morre pelas onze horas logo e
estranhamente

mas tens ainda tempo
e trazes Mostar ainda no coração, sorris orgulhoso,
porque o amor nos torna orgulhosos

e quando pela noite encontrares o ritual celta nos lábios
saberás que tudo fará sentido daqui a muitos anos, que a juventude]
é essa meia consciência;
mas não agora


não agora, em cork city



.


Poema de Mario Revisited

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Roteiros do Início da Europa (I)

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nas ruas de Mostar
podes caminhar de alma lavada e o sol
de toda a europa aquecer-te-á os dedos relaxados
quando tirares um belo cigarro do teu maço
e na ortodoxia do dia claro
o acenderes pronto

belas raparigas não te devem fazer esquecer
como é bom com os velhos amigos de sempre
descansar sob a ponte do Neretva
de toalha na doce erva e rir
de ti próprio e de como eras o mesmo
há tanto tempo;

cortarás um bom queijo, com pão, maravilhosas azeitonas]
que só o mediterrâneo te dá
e o laranja pôr-do-sol fará encantar os olhares
das virgens de Medugorje
sobre ti

tranquilo, deixa que a noite caia
que a europa não seja mais
do que aquela rapariga que veio agora ter contigo

e segue-a como se segue

a um deus





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Poema de Mario Revisited


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uma notícia para meus leitores

Hoje serei a noite, debaixo do sol, a dançar, e, hoje,
dir-me-ás sempre que nunca o vento me levou tanto
a descendência do teu moinho sublinhada pelo
pólen, e, só hoje, suavemente sublinhada quando é
a madrugada um vinagre amputado de braços, ou
dir-me-ás sempre que a água é um fio que gosta
de atirar as flores para o céu, ou que gosta
de perder-se com pequenas charruas dentro
dos setembros com sol, e até ao parto desse espelho
agarrado pela noite ou até a esse parto num ramo
de onde alto sairá o mar e que quis sempre dar-to

Hoje serei a noite, debaixo do sol, a dançar, e, hoje,
dir-me-ás sempre que nunca o vento me levou tanto
a descendência do teu moinho sublinhada pelo
pólen, e, só hoje, suavemente sublinhada quando
a madrugada ia levando o sol como o pedias,
e dir-me-ás sempre que o sol é o última planeta do
nosso sangue que se vê em pecado até os rios que
chegarão à Sesimbra numa corrida de fundo para
as rosas, e que chegarão num loureiro de hálito
diferente doado ao vento, doado e quase como uma
boina para um instante de seda, Meu amor



As gôndolas nas grandes luas de Plutão será brevemente
editado em Espanha. E, só graças a vocês, isso foi possível.
Hoje, eu sou um poeta feliz por isso, e também curioso
para ver a musicalidade que o tradutor irá imprimir…

um abraço a todos
Deixei-vos um poema, que é dos últimos que escrevi.
E isto é um privilégio, penso eu

http://www.bertrand.pt/ficha/as-gondo ... uas-de-plutao?id=13053296


Poema de Francisco Eugênio Seixas Trigo

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quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Declaração

.

a antónio josé forte



eu bric-à-brac na ilharga em imenso escroque
cingido por três varandas a dar para uma rua de noite
muito confiante pelo mapa-múndi à tiracolo
porque cor-de-rosa em extremo;

ela (e não outra) apenas dedicada ao poeta inútil
e aos seus versos sem unidade e desde há muito prometidos
por ocasião das vespas (K.320);

(que esta ninguém a esperava assim tão baixa num poema
fabricado a toques-de-asa)

isto ou o que for
para glória da poesia local e bastantes plumas a rodos eméritas]
sirva de exemplo ou guilhotina

quer para árvore dextra (mário) ou
_____________________a muito azulada estrumpfina.


.


Poema de Mario Revisited

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quarta-feira, 1 de agosto de 2012

[...sejam-me símiles à espuma do mar


sejam-me símiles à espuma do mar olhares teus,
quais santelmos anunciadores de bonança.

Segrego-me de aluviões, remoinhos, tormentas,
ameaças,
e quedo-me pelos sargaços distantes de terra
que me abrigam.

Pelo alto mar habito-me entre um mastro e o vento,
revejo a praia deserta

onde se espraiavam ondeares teus,
onde as mãos entrelaçadas eram âncoras fundeadas.

Sentir-te-ei sempre quão perto este mar é de mim,
mesmo que numa breve noite se afoguem sonhos,

mesmo que numa breve noite me olvide para sempre de mim.

Que seja.

Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

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terça-feira, 31 de julho de 2012

santos, anjos e bicicletas

houve tempos em que acreditava em deus - era criança. e por cada pai nosso rezado. ao cair na cama os sonhos apareciam feitos de fé. o sol despertava com tanta força dentro do corpo que o pecado era não aproveitar a esperança da água baptismal – acordar sem pecado e crescer para pecar - hoje não acredito em nada e quando digo nada é mesmo nada - deus foi desaparecendo com os ciclos contínuos do nascer e morrer dos dias. e com ele os santos milagreiros. o advogado dos dentes. o dos cravos. o das causas impossíveis. o da memória. a da trovoada e mais uns quantos que por nunca ter precisado deles acabei por abandonar – mais tarde acabei por esquecer os anjos. o primeiro foi o anjo da guarda. ao deitar costumava rezar sempre três orações. três vezes a mesma. por ser pequena e ficar com medo de que uma significasse pouca fé para um anjo que se queria sempre alerta aos perigos diários que um catraio sempre é capaz de fabricar – confesso que na altura tinha medo de zangar o anjo da guarda. era um anjo importante. aparecia em todos os livros da catequese. e mesmo nas igrejas estava sempre presente na maior parte das telas pintadas a óleo. preenchia as paredes ao lado de todos os santos e na minha igreja estava mesmo ao lado da nossa senhora. num dos altares mais importantes de oração – ainda me recordo de ouvir dizer em casa um provérbio que sempre me deixou a pensar: ao menino e ao borracho põe deus a mão por baixo – eu queria ter este deus por perto. queria ter o meu anjo da guarda a meu lado. precisava deles. precisava de crescer devagar e em segurança. não os podia zangar. porque zangados podiam atirar-me abaixo da bicicleta que um dos meus amigos me emprestara. e se então partisse a cabeça destruía a esperança de que o meu pai. mais tarde ou mais cedo. acabasse por me realizar o sonho de ter uma bicicleta só minha. uma onde eu pudesse pedalar para lá dos montes da minha cidade. eram altos para a idade que não imaginava sequer que tinha. mas não me saía da cabeça nunca poder subir ao cimo daquelas colinas com a minha bicicleta – mas as pernas não paravam de crescer e eu sempre a rezar. sempre a fazer o correcto. sempre a tentar ser justo. sempre a ver os defeitos e nunca a valorizar as virtudes. queria ser todos os dias melhor. queria crescer. queria ser livre. queria ser dono da minha vontade. queria ir onde o corpo me quisesse levar – não adianta rezar quando deus não te quer ouvir – nunca caí abaixo da bicicleta. mas também o meu pai nunca caiu abaixo daquele medo que hoje sei que era amor – acabei por morrer de tristeza. ainda hoje estou morto desta tristeza – talvez para os filhos o melhor seja mesmo morrerem a pedalar de felicidade – aos meus filhos dei-lhes bicicletas. sei que tudo é ainda igual ao meu tempo. a única coisa que mudou foi o tamanho dos montes. hoje são muito mais difíceis de transpor. as estradas são mais perigosas. mais artimanhas. mais curvas. mais tudo que por ser mais velho já não tenho a certeza do que seja – mas nem tudo é pior. em contrapartida vou atrás a empurrar. a pé. mas feliz por os ver em cima das minhas bicicletas


-

anjo da guarda

minha companhia

guardai a minha alma

de noite e de dia

-

anjo da guarda

minha companhia

guardai a minha alma

de noite e de dia

-

anjo da guarda

minha companhia

guardai a minha alma

de noite e de dia

Autor: Sampaio Rego

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Origami

Como em um dia de descuido que aventa por entre meus pensamentos, essa tarde em que decidi desistir de tudo. Estou como uma folha pousada na beira do canal, dentre tantas misturadas na calçada. É um dia comum, com nuances de céu avermelhado crepuscular e as ondas soçobram seu vai e vem manso lambidas pela brisa preguiçosa. Minha alma não está mais intacta, fora despedaçada, bem como, foi partido ao meio o nosso acordo de não nos magoarmos.
Fico observando o sol indo deitar-se sentindo o carinho da noite nos cobrindo como amantíssima mãe. Percebo que já estávamos embriagados pelo orgulho e dormiremos o sono do absinto eterno e só despertaremos quando os sonhos escancararem as suas janelas para que dentro deles possamos saltar.
Deixo que o vento me varra por dentro e por fora, me arremessando nas pedras desalinhadas e pontiagudas que me vincavam e me marcavam em dobraduras. Quem um dia não se sentiu um origami nas mãos do destino, que me julgue e me condene a voar esse vôo solitário.
Estou aqui como em vestimentas de pássaro colorido ensaiando seu primeiro vôo no abismo, salve-me antes que eu me atire para bem longe de ti!

Autor: Lápis sem ponta

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segunda-feira, 30 de julho de 2012

rosa sacra

tua unha vestida ergue ruínas
pede o silencio e a faca
um altar e o pecado de desejar

qualquer paixão que houver
entre o rubi da boca
e o momento exato da tua nuca, fora de qualquer mapa

dá-me um murmúrio escrito
para que eu siga como um barco em La Paz

sem qualquer nome, mulher de sempre
leve abismo

teu ventre uma oração cantada
o sol contornando o ombro
no final, o verbo

dá-me um lugar, um duelo de cor
entre a penumbra e a luz
para a alma estar de joelhos
tira-me a carne, os ossos
finda a cobiça da noite por tua pele
no abandono de uma prece

Poema de Vânia Lopez

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sexta-feira, 27 de julho de 2012

Enquanto apenas lembrança

“Minha anti-Lolita foi uma comoção de saias,que iniciou (sem querer) na vida dos homens, quem tinha o medo de ser homem sem nenhuma causa de ter o medo de ser homem ;deu-me um convívio de formação (também sem querer) belo, árido, terrível,espinhoso,terno,maravilhoso.
Deixou-me interiormente andrajoso e vagabundo, perdido no mato sem cachorro, em terras sem mato e sem cachorro, muitas vezes.Minha anti-Lolita de hoje,apenas belo monumento sob a cinza dos anos ,mesmo enquanto apenas lembrança, excita e intumesce uma vida que apenas quer ser vivida em paz e recolhimento de quem muito já sofreu e já se deu ao mundo e quase nada o mundo lhe deu, em tépida indiferença; vida morna de sentimentos frios, onde esbarrei na flor da minha obsessão , na alegoria então desbotada dos vinte e seis anos de minha vida ,que seria obsessão aos cinqüenta , aos setenta e cinco, (sim , com certeza será) porque fui tardiamente atirado ao aprendizado de ser homem, com todos os seus afetos de medo, alegria,tristeza ou de simplesmente ficar á espreita de mim mesmo.
Enquanto comoção , forte demais para mim e para si mesma, passou , avassaladora como chegou.Hoje, apenas grata recordação num recesso da mente, onde guardo os rebotalhos da existência,tal uma roupa velha,sapatos de destino incerto,bonecos mutilados, livros sediciosos á minha impaciência,recordações de vocação ao pó que não juntam poeira, porque constantemente manuseadas , reviradas pelo pensamento crítico que um dia não o foi ; por isso mesmo, feito passageiro da stultifera navis , embarcado sem bilhete de retorno , sentindo-se desgraçado e maravilhoso , vivo como nunca dantes .
O telefonema de um vizinho , avisou-me de sua morte ,numa tarde de frio aziago e sonolento,enquanto eu via na TV,National Kid exterminar os Incas Venusianos. Falou que ninguém até o momento reclamara o corpo ; do caixão e flores comprados numa cota entre vizinhos . Ah , sim : morrera de infarto, o segundo. Agradeci , liguei para uma sua irmã em Mato Grosso que enviou dinheiro para o traslado do corpo .
No aeroporto, ao lado de um avião ,penso na vida e na sua morte: uma tapa na cara a lembrar-me da própria finitude .Da carcaça podre do verbo, ergue-se a árida certeza : o ataúde aguardando transporte, ladeando o avião em transito para lugar nenhum.Ventos conhecidos de outras paragens, abraçavam-se e rolavam pela pista , como filhotes de cães , agitando a grama ao redor . MP,1966. “

NOTA: Texto por mim encontrado , entre as páginas do diário do professor Manasses Paletakis , após minha mudança para o apartamento onde residiu durante sua longa vida de solidão plácida e erudita , até suicidar-se aos noventa anos, atirando-se no vão da escada interna do prédio, estranhamente com um charuto havana aceso entre os dedos e um exemplar de Tabela Periódica, de Primo Levi, num dos bolsos internos do seu casaco, junto a um bilhete de suicídio ; informação prestada á polícia, pela senhora R.S, vizinha de pavimento e suposta amante do falecido , conforme insinuação do síndico do prédio, em depoimento também prestado na Delegacia do Bairro de C.


Autor: André Albuquerque

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quarta-feira, 25 de julho de 2012

sílabas em seu fino véu e gesto acabam de cair...

dar-te-ia um exílio
uma casa com nuvens e sol
um lar para tua alma
pernoite com café da manhã
comprando o jornal
e o hoje em letras minúsculas

e tu voas amor de todo tempo
um evangelho resguarda tua pele
tua unha veste os caminhos
(como um quadro de Frida)

dar-te-ia uma rede
para caçar moinhos de vento
esses, que escapam de seus olhos
o mais obstinado perfume
urrando o inferno de tua boca
com uma faca entredentes
suspirando um céu de intensidades

dar-te-ia o tempo
mas é um mero gracejo em movimento
mal se dá conta que cabe em uma bolsa
como um poema bupreste

mas tu... tu eras homem eterno
e te queimei sem luto
e teu rosto sereno de tempo algum
recolhe desatinos
despertando em mais uma manhã do meu peito
como quem espera o chamado de um voo

Poema de Vânia Lopez

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terça-feira, 24 de julho de 2012

Poema 23

.

à elsa



essa mulher em extremo primavera
de pólen e totens à ilharga cingidos imenso
que disfarçadamente acende colibris
plantados no ventre;

ela (e não outra) que me traz feliz e irreverente
até ao artelho do coração e há muito casulo
e uma certa rotina (extenuante, valiosa) que ao poeta
não lembra;

essa mulher, finalmente, na gare propícia,
acenando adeus, de olhos tingidos por muitos eucaliptos avessos;

ela (e não outra)
disfarçadamente sinceríssima // pronta

essa mulher em extremo

primavera


.

Poema de Mario Revisited

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carochas, bicicletas & biplanos - 32

Oh, a música Jazz. Será uma filosofia? Bem, na verdade não existe um género chamado música jazz. Desde que o termo foi inventado o conceito alterou-se e irá continuar a modificar-se. No fundo, continua a ser música de improvisação, seja com que instrumentos. Ensinamos às crianças de que um grupo de músicos composto por um baterista, um pianista, um baixista, um ou mais saxofonistas ou trompetistas, são um grupo de jazz. E se tocarem Bach pela partitura? Ou se tocarem música para filmes, para baile, apenas música, serão sempre um grupo de jazz? Não, a menos que improvisem e trabalhem qualquer tema, desmontando e montado-o de novo. Mesmo que seja um baterista, um baixo eléctrico, uma guitarra eléctrica e um vocalista cabeludo. A grande qualidade da música jazz é que é progressiva, mutante, sempre em movimento, intemporal, sem barreiras, sem credos, multirracial, sem fronteiras, aberta, livre e o que mais possamos pensar. Coltrane nunca gravou ou deu um concerto repetindo uma faixa sequer. Miles Davis nunca parou de se modificar até morrer, melhorando ou apenas fazendo diferente. Sonny Rollins continua a fazer isso sempre que grava ou dá um concerto, se é que ainda o faz mas transforma-se constantemente por décadas. Dexter Gordon nunca deixou que o alcoolismo lhe barrasse a criatividade e para o fim ficou saborosamente lento mas sempre brilhante. Um grupo de jazz pode ter músicos de qualquer idade, de qualquer cultura, interpretando qualquer tema, usando a linguagem reconhecida por todos, a melodia, a harmonia e o ritmo, enfim a linguagem da mãe das artes – a música. Se não é uma filosofia, improvise-se uma filosofia e já. Mas claro já foi inventada e não foi hoje. Transformemo-la mais uma vez. Um pouco eu, agora tu e depois os outros. Repetimos o ciclo tantas vezes quanto o sol se põe e nasce novamente.
Jul. 12

Autor: Carlos Teixeira Luís

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carochas, bicicletas & biplanos - 31

Li, não acabei, não sei se vou acabar e não gostei. Refiro-me ao livro: O Último Segredo do jornalista José Rodrigues dos Santos. Segredos que não são segredos, simplesmente não são oficiais no cristianismo católico, explorados numa intriga infantil com personagens - caricaturas mal desenhadas. E por amor de Deus, as vezes que o autor repete a expressão: “promontório”, numa página chegou a três - sempre que a intriga se passa numa cidade diferente e com o raio da elevação, lá vem a expressão. Outra expressão é: “traça”, não o insecto mas o perfil dos edifícios que identifica a corrente de arquitectura utilizada. Isso são pormenores, apenas uns breves exemplos mas há muito mais e contribuem para não se levar a sério o livro e mais, acaba por ser um livro chato e com nada de novo. Jesus foi judeu? Ora qualquer religião protestante ou testemunhas de jeová pregam isso há décadas. Assim como a “santíssima” trindade não ter base na Bíblia ou no cristianismo primitivo assim como outros aspectos. Falta um enredo que use estes aspectos de investigação, aliás toda ela documentada, o autor ou não fosse jornalista, apresenta as referências donde tirou as suas teorias. E esta é a única qualidade do livro – a investigação. Devia-se ter ficado por aí. Mas não, temos uma peça ingénua de acção e suspense ao virar da página de cariz juvenil e naif. É isto que o faz ser muito lido? Então as pessoas gostam, nada em contrário mas eu não gostei. E ainda não cheguei ao fim porque não quero chegar ao fim. Livro posto de parte. Devolvido ao dono que me emprestou. Tragam-me Raymond Chandler (um clássico de referência, melhor não há, opinião pessoal), Stieg Larsson (li os 3 livros da saga Millenium em 2 curtos meses num frenesim que não conhecia há anos, agarra literalmente a nossa atenção, tem esse mérito e tendo em conta que a saga são 3 livros num total de 2000 páginas) ou Crichton (investigação misturada com ficção, mundos desconhecidos (quer a moda dos dinossauros, de que não sou grande apreciador ou outros exemplos de intriga internacional sempre com um suspense viciante, vão lá experimentar) tudo menos isto. Claro que há muitos outros autores de referência, centenas e este escritor-jornalista tem outros livros bem conseguidos e bem trabalhados. Mas este enfadou-me. Bem, gostos são gostos. Um abraço.

Jul. 12

Autor: Carlos Teixeira Luís

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segunda-feira, 23 de julho de 2012

[...leva-me pela mão até onde as roseiras bravas


leva-me pela mão até onde as roseiras bravas
tapam as trilhas empedradas. Leva-me

até ao rio que dizias nascer no salso mar,
onde as lágrimas ficavam à superficie,
e um solitário arco-íris escondia os cintilantes refúgios lá longe.

Leva-me assim.

Deixa este corpo exausto, tão singrado sem rota,
arrojar-se do cendrado promontório
sentindo os aljôfares da fria noite.

Leva-me assim.

Quão longe hoje sou dos nossos sonhos pela excelsa
primavera algures no tempo,

e se conseguisse regressar-me um segundo que fosse,
pedir-te-ia:

- leva-me até onde as roseiras bravas libertaram
o aroma teu, que ainda hoje me inunda.


[Leva-me contigo, assim, só].


Poema de Ricardo Pocinho

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domingo, 22 de julho de 2012

O passado não registrou
em minha alma
referências certeiras
elas se perderam
no espelho empoeirado
da sala de estar.

          Jorge Medeiros
O CENTRO CULTURAL DONANA tem a honra de convidar a todos, amigos e afins, a participar da comemoração do 4º aniversário do Grupo Pó de Poesia, que acontecerá no dia 28\07\2012 as 19 horas no endereço do centro cultural aqui citado. Contamos com sua valiosa presença.


P.S.Na foto acima constam apenas alguns integrantes do Grupo Pó de Poesia.

sábado, 21 de julho de 2012

"perante.."

qual..

quimera-pulsante de tentativas ilícitas
qual ilíada representada mil vezes, nunca vista
algo em demanda por insolução e atraso
e

qual..

este término de cena im.presente
(lago-raso..)
qual retrato cadente, premente e desigual


à curva da manhã por abstenção do sol
à pena da letra que te define
que te releva e


entrega-te o nome.







qual percepção anunciada
horas e horas e..
..nada.
(nada..)




abre-te, volúpia! é deste lado em fé e consequência!!
cobre-me aos relapsos actos quais nao te falharei mais
corta-te aos exemplos por indecisão em linhas finais
pois é tarde.. tão tarde, quanto à tuas outras evidências

minha (tola)asa nivelada nao te segue, nem à parte de chão
a minha contenda de adstringir-te em metade, não mais te é
qual corpo conforme, qual hábito das somas, ou: o que houver
não é a minha morada e nao é a minha lima que te diz não..

é o meu erro! em tempo de chegada, em preço quase fixo
ilusão intitulada.. lâmina de conselhos desviados, palco-livro
cai à metade.. cai à tua mesma proporção e eu ainda vejo..

pois te é a noite dos meus olhos avessados, ah, eu.. insisto
um passo de cada vez.. um pouco da vénia acima da que te sirvo
não é um ponto qualquer, à minha exceção, prece ou emprego..



é a tua porta que nao quero entrar, mas..
também nao posso sair..
(não.consigo.)


Poema de Azke

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[...por vezes não sinto o que sinto


por vezes não sinto o que sinto,
tento esquecer-me.
Esperguiço-me num mar chão, ondula-se o corpo
que voga pela mansa maré,

como se para sentir tivesse de saber, ser,
ser-me-ei apenas, tão longe tantas as vezes de mim,
ser-te-às assim, tão perto tantas as vezes foste de mim.

Quando o nosso sangue estremecia,
e o grito trespassava as paredes amarelecidas pelo sol de verão,
um corpo único metamorfoseado
renascia da promessa, da saudade,
das despedidas que sangravam pelo outono,

[… verão mar, outono terra …]

Que eu me esqueça da poesia que nos cobria,
que eu me esqueça de sentir o que sentia então,
que seja profecia também,

mas,

que no final da rota inversa que seguimos,
as mãos se voltem a tocar, sem tempo,

[… mar terra …].


Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

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sexta-feira, 20 de julho de 2012

Sarau Donana

Sarau Donana

Aniversário de 4 anos do

Grupo

Pó de Poesia
* Recital com poetas da Baixada Fluminense.
* Exibição de Vídeos.
* Exposição de livros e fanzines.
* Música - Dida Nascimento canta poemas.


Entrada Gratuita

Dia 28/07 À partir das 19:00

Centro Cultural Donana

Rua Aguapeí, 197 - Piam - B. Roxo

quinta-feira, 19 de julho de 2012

"pós.."

tarde..
(tão tarde,)

à temperatura abstracta de alguma suposição
água da sede que descobre o corpo(aos olhos..)

e.
um conto breve..
e: fim,











..






seja à marca da precisão/impulso que se orienta
sejam os passos caídos de uma rescisão qualquer
ou mesmo retrato
tão..
posto
tão hábito fácil de criar-te
de dias
de noites
coincidentes(prementes..)
à letra repente(a que te tenta..)

em partes da cena(cortina) que(nem.) te servirá..














..










qual lado: retrátil.
pretérito de ti:
acto!
sopro-perfeito
ponto preciso
algures
lados
teus
inteiros..







qual sentido da métrica e fim?
qual eclosão de métodos por lembrar-te(assim..?)
das minhas mentiras decifradas
tais ilhas, tais..


preces
de
cada










eu já nem tenho um pacto de lâminas
e as minhas decisões, eu te entreguei
eu já fechei a porta dos meus olhos que te dormem
eu


nem espero ter o que te sei..











breve ilusão
à marca da linha passageira
breve conto fictício, me seria
este,

se
as minhas quedas,






nao te procurassem mais..










..









"eu olho você afundar..
eu vejo os meu ecos te revelarem
eu olho as tuas pálpebras enfileiradas
e são as minhas contendas em queima
eu olho os teus passos sumirem
e as minhas tintas nao me deixam ir
eu olho você afundar, (...)"



















..











tal êxito de compreensão abstracta
minhas verves
minhas. páginas




...


Poema de Azke

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carochas, bicicletas & biplanos - 30

Charles Bukwoski é um escritor rude, frontal, cru. O meu primeiro contacto com o escritor foi por acaso. Sabia dum escritor assim mas nunca o tinha lido. Vi o filme Barfly, nos anos oitenta (87), com Michey Rourke (quem mais) a fazer de Henry Chinaski, personagem alter-ego do escritor nos livros e Faye Dunaway. Comecei a interessar-me pelos escritos originais do escritor. Não havia nada tão extremo e rude como ele. Nem Henry Miller, este é outro caso aparte, um escritor brilhante com uma visão acutilante da realidade com romances repletos de sexo para vender e pagar as contas, uma fórmula que o fez viver da escrita. Bukwoski é diferente. Perdedor que passa a vida em bares e a beber, com todo o aspecto de quem faz isso mesmo – igual a milhares sobre milhares de perdedores que desistem do mundo que os rodeia e se refugiam no seu alcoolismo mas ainda com energia para se empenharem nalguma coisa extra, geralmente as coisas erradas para si e para outros. A maior parte das famílias tem familiares assim, que se tenta corrigir ou esquecer que existam. Todas as cidades e aldeias do mundo estão cheias de seres humanos que perdem e se deixam estar onde estão, esperando que os levem e enterrem. Existem e vivem. Estão ai nos cantos dos submundos. Pensamos sempre ser outros que não vemos diariamente mas um dia a vida atropela-nos e olhamos para o lado e vemos um Charles Bukwoski a nosso lado a meter conversa com o claro objectivo de nos cravar uma bebida ou um cigarro. Eles olham para nós e nós olhamos para eles. O que vemos? Um pobre bebedor que vive e dorme e acorda no mesmo bar, a menos que seja expulso ou não possa pagar o que deve. O que vêem quando olham para nós, ali a beber? Eu era assim. Eu comecei assim. Agora sou assim. E largamos tudo e corremos avenida abaixo, são três da manhã e procuramos uma ponte para nos atirar. Eu sou um deles. Um alcoólico, um perdedor, um falhado. Mas ninguém liga a um gajo aos gritos numa das piores zonas da cidade, a não ser a polícia que o trave para curar a bebedeira na prisão. Para eles é mais um bêbedo e menos um problema nas ruas.
Charles Bukwoski descreve sexo gratuito com mulheres ocasionais e prostitutas. A maior parte das pessoas não querem ser apanhadas a ler porcarias dessas. A maioria dos frequentadores do metropolitano não anda com um Bukwoski debaixo do braço. Nunca vi Women, ou Post Office a ser lido, nessas viagens. No entanto, é lido. Por estudantes universitários vestidos de negro ou miúdas em confronto com a sociedade carregadas de piercings? Matronas de idade e peso, divorciadas e a viverem uma nova juventude? Lê-se nos bares? Nas esquinas do negócio do corpo? Quem lê Buk? Isso para mim não me interessa. Eu sei que por mais contra a prostituição que eu seja, não deixarão de existir mulheres a venderem sexo, hoje, amanhã e amanhã. Por mais que eu repudie o público que alimenta a indústria do aluguer do corpo da mulher para a fantasia dos prazeres, na rua e nos seus submundos, que alimentam outros submundos de toxicodependência e alcoolismo e todos os seus efeitos adversos, hoje e amanhã e amanhã, homens e mulheres (não?) de todos os quadrantes sociais, nas sombras da noite continuarão a alimentar esse monstro devorador de vidas que é a industria do sexo à venda nas esquinas e nos antros de má música, más e caras bebidas. Bukwoski anda à vontade nesses mundos e relata-os tal e qual como são. Não é um monstro, é apenas um homem feio de barriga saliente que enfrenta a vida como ela se lhe apresenta. E escreve sobre isso. Não existe em português de Portugal ou Brasil, por exemplo, nenhum escritor semelhante. Temos Kafkas, Nerudas, Dickens e até Henry Millers mas Bukwoski não.
Há gravações no YouTube, de Bukwoski bêbedo a bater numa mulher tão ébria quanto ele. Ler Bukwoski não me faz um apreciador de violência doméstica que repúdio até ao extremo. Ler Buk não nos transforma em Buk. Apenas reconhecemos que há um mundo assim. E aconselho veemente a sua autobiografia parcial: Ham on Rye, onde tudo começa, como Bukwoski se torna Bukwoski. Tudo mergulhado numa franqueza, frontalidade e sinceridade desarmante.
Este é apenas um texto, portanto um ou outro ponto de vista pois há muito mais a considerar. E se pensam que por ser leitor de Bukwoski serei parecido a ele ou o imito, paciência, não se pode ter tudo – leitores que filtrem e interpretem de forma perfeita o que se dá a ler são raros e todos esquimós, e se acharem que através de Bukwoski me conhecem então é semelhante a atravessar o oceano pacífico via Paris. Mas nunca se sabe. Posso estar enganado. Um abraço.

Jul. 12

Autor: Carlos Teixeira Luís

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carcohas, bicicletas & biplanos - 29

Paul Auster, escritor e cineasta. Este é um exemplo de um escritor que conseguiu desenvolver uma literatura americana, bairrista, de grande qualidade e absolutamente legível. E por isso mesmo, como é legível é considerado de menor qualidade em relação a outros autores seus contemporâneos. É o problema dos escritores legíveis. A sua narrativa por vezes minimalista e labiríntica tem uma familiaridade e originalidade reconhecível. O que é um feito. A sua Brooklyn particular faz-nos sentir um certo dejá vu, e para isso eu recomendo menos filmes americanos e mais atenção à escrita do homem em causa. Lá por se passar em Brooklyn grande parte da acção dos seus livros, não quer dizer mais do mesmo.
Não basta ler um livro de Auster, não basta ter lido a Trilogia de Nova Iorque, não basta ter visionado um dos seus filmes. No conjunto há uma obra, pronta a ser explorada como um turista apanhado numa rede de enganos e que se perde para nunca mais querer ser achado. Só assim se apanha o âmago da questão e em seguida entra-se em dúvida, rodopia-se numa roda obsessiva de quarteirão em quarteirão. Paul Auster não é Brooklyn mas habita-a e Brooklyn habita-o. E como leitores atentos, passa a habitar-nos.

Gosto muito dos seus filmes, produzidos ou realizados, em parceria com Wayne Chang, Lulu on the Bridge, com o habitual Harvey Keitel, Mira Sorvino, em volta de um saxofonista que leva um tiro, o seu Smoke, com o excelente William Hurt, Harvey Keitel, Forest Whitaker, e muitos outros, gente que se junta à volta duma loja de tabaco, este filme tem um prolongamento na espécie de documentário de bairro, que é Blue in the face, destaco uma participação de Lou Reed a falar do que gosta em Nova Iorque, e muito mais.
Há uma América que salta dos seus livros para o mundo, autêntica mas que não deixa de sonhar.

Paul Auster é casado com Siri Hustvedt, de ascendência norueguesa também ela escritora singular e de grande profundidade. Diferente de Auster como da noite para o dia. Os seus escritos são reflexivos e por vezes muito perto do ensaio. Um caso de um casal dedicado á Literatura e de grande talento. A História não repetiu muitos exemplos destes como se sabe. Mas este texto é sobre Paul Auster. Apenas para acrescentar que devia ser obrigatório ler este escritor. Experimentem. Comecem pela Trilogia de Nova Iorque, ou Loucuras de Brooklyn ou qualquer outro. Em Portugal são todos editados pela casa Edições Asa, agora no grupo Leya. Aposta do ex-editor da Asa e agora editor-responsável pela Porto Editora, Manuel Alberto Valente, homem de livros e autores, como antigamente.

Jul. 12

Autor: Carlos Teixeira Luís


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quarta-feira, 18 de julho de 2012

dia zero

o tempo vai mudar – sinto. sinto porque sinto. sempre senti tudo na vida. e o tempo deu-me razão – sinto – talvez me corra nas veias algum sangue de nostradamus. ou então sangue cigano. e a sina não se encontra na leitura das mãos mas na forma como a vida me entra pelos olhos. pelos ouvidos. pela pele. pelo cheiro. pela boca com que beijo os corações que batem ao pé do meu – sentir é saber – eu sei. sei pelo o olhar. o pestanejar. o tossir. o mover do pescoço para o lado esquerdo. quando o normal é virar para a direita. a mão que entra no bolso. o olhar para o chão. o sorriso que não o é. o sim de não assentimento. o limpar os óculos. e todas as palavras que não servem para coisa nenhuma nem os cinquenta dicionários que guardo na memória de um relógio que nunca parou de trabalhar. que bate um tic tac que é um coração a rasgar a carne. tentando chegar à superfície para respirar – tudo o que me transmitem serve para fazer do amanhã uma certeza inalterável – sei tudo o que sinto. sei que sinto e não sei dizer como o sinto. nem porque o sinto – e o corpo reclama a paz. o vento. o perfume. o futuro incerto. o dia sem fantasmas. e tudo o que parece sombra é afinal o sol a crescer num horizonte que está por detrás de mim – e sinto. e sinto mãos. e sinto os sinos a tocar. e as velas a gotejar cera por um pavio que ainda arde e a luz trémula corre por uma brisa que não é certeza – sinto. sinto se estou só. sinto ainda mais se estou só com os meus eus. e por não estar também sinto. e tudo o que é sentir é arrastar à força o amanhã para hoje. e o sofrimento vivido duas vezes. e o choro ouvido duas vezes. e a dor contínua entre o que sinto pela antecipação e a dor feita certeza porque finalmente está no centro do corpo – e a razão satisfeita. orgulhosa de tanto saber – sinto. sinto a história que construí à minha volta como se fosse uma corda de enforcado – chegam os amigos. os inimigos. os cães. os pássaros e até os deuses de uma mitologia que não serve para nada – resta-me a certeza de que o hoje é a verdade. sou hoje porque vim de ontem e o ontem chegou não sei de onde. talvez do corpo que me trouxe ao mundo e deu rigidez ao que sou. porque sou e nada posso fazer para que não o seja – sinto. sinto um corpo que teima em ver defeitos até nas dobras da pele que cobre a carne que sempre me cheirou a podre – mas não pedirei nada a ninguém. nem ajuda. nem mar. nem água. nem sequer um ombro para chorar – nunca o fiz. nunca o farei – os amigos servem para rir. para ser o que não sou. para dizer que tudo vai bem. para enganar o copo de vinho fermentado em pipos de madeira protegidos pelo sarro da vida – gosto da morte. nunca percebi o motivo porque os homens choram os homens que optam por morrer – morrer é descansar. morrer é sossegar os amigos. morrer é deixar um abraço de felicidade em quem conhece o sofrimento de um homem enganado pelo tempo – jamais pedirei conforto. nunca o fiz e nunca o farei – aos amigos não os quero nem no funeral. a terra cairá da pá do coveiro e no final. depois de bem calcado. talvez um punhado de ervas aromáticas resolva a existência do meu cheiro em vida

Autor: Sampaio Rego

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restos de bolacha

eram tranças tremulando
o babado da saia brincava de vento
a paineira carregadinha
provinha sombra que o sol não alcança
o céu era o esconderijo de Deus
os olhos faziam pausa
para uma joaninha passar
o rio era música baixinha
para brincar de ser feliz por nada
o final do dia continuava no sorriso
com que minha avó me acolhia
restos de bolacha até o quarto
colcha de crochê beirando o chão
o travesseiro quentinho
aguardando os sonhos de menina


Poema de Vânia Lopez

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terça-feira, 17 de julho de 2012

"perfil"

só.
por este tempo..
à névoa da têmpora sem o brilho-crente e/ou desigual..

este exemplo. por intuito..(e forma)

quisera dar-lhe às asas, e. roubar-te: o sol.






e,
já refém do barco suposto, a tempestade..

ao alvitre de coleccionar os modos à sensação
serve-me, à perdida noção!! e guia-me aos olhos..


poderiam estes espasmos, consultarem-te?
à comum impressão de letargia e psicodélico confronto..
poderiam? às avessas re-voltas em sequestro de ar teu, a..
decifrarem-te.. a devastarem o canto além da tua vez?





pois,






te seja à carta que não quis ver
te seja às costas dos lapsos em mãos e solução
e
te seja à hora


do blefe
do preço.
do ensejo que te toma em febre
pois,






à página. te é.













por meu exemplo de glórias
minha conduta em exceção
por rescindir-me
já, aqui..
tempo.





à palavra que define um ponto
e





breve sonho.
e de ti, então,







a separar..



Poema de Azke

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carochas, bicicletas & biplanos - 28

Vamos a livros. Leio o que quero. Livros maus de propósito e bons também. É preciso ler um mau livro para se dar mais valor a um livro bom. Assim como um poema. Gosto de ler maus poemas. Depois leio os meus poetas e fico extasiado.

Não gosto de livros com grandes capas a ilustração a ouro e capa rija de pele para durar século e meio. A não ser a Bíblia. Nem Camões. O meu exemplar de Lusíadas, funcional e que está comigo no trabalho é uma edição de bolso que me custou 1 euro. Gosto de livros em edição paperback, baratos, que se podem comprar nos aeroportos e nas bombas de gasolina. Livros que se podem pôr a chávena de café em cima, enquanto se conversa e se faz outra coisa. Livros que não se lamenta que caiam ao chão ou se encham de areia. Mas não gosto de livros com folhas dobradas nem manchados de gordura. Isso não. Gosto de usar um livro, estimá-lo e sempre mantê-lo em condições que o possa emprestar. Detesto livros mal colados. Servem para se deitar fora e não se deita fora livros. Teoricamente. O livro caro porque a capa é boa é como as antigas aparelhagens monstruosas que serviam para ouvir música sofrível a todos os níveis. Gastar muito dinheiro num livro corrente não faz sentido. Seja a divina comédia ou um policial de agatha christie, por sinal gosto de ambos. Mas não sou contra as capas duras, nem os livros grandes. É só que eu gosto de ler na rua, no metropolitano, em viagem, no carro, no banho, na sanita, na cama, na mesa, em todas as refeições, na praia, na piscina, no futebol, no concerto, no bar, na discoteca (detesto discotecas mas houve sempre um período em que se frequentava para se ganhar uma dor de cabeça e ficar com os pés amassados das pisadelas), na igreja só em visita, pois não frequento igrejas religiosamente, no deserto, na montanha, em fuga, sentado e em pé, a correr e parado, acordado e a dormir (um exercício cansativo mas na fronteira entre acordado e desperto é possível). Claro que o livro de cartão e papel vai sendo reduzido até acabar em tablets e outras formas de livro, virtual e como objecto mas sem papel, pois as árvores não aguentam mais e eu gosto de árvores mais do que livros ou equiparável. Não sei como vai ser amanhã mas hoje contento-me em ser barato no meu gosto por livros.

Jul. 12

Autor: Carlos Teixeira Luís


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carochas, bicicletas & biplanos - 27

Rolling Stones. Agrada mas também chateia. Já lá vão uns anos, penso que Junho de 1990, quando tu ó Mick te abanaste como um macaco no estádio José Alvalade, o antigo, o que tinha a pala de cimento a cair, podia ter caído naquela noite tendo em conta o barulho que fizeram os então desconhecidos Gun na primeira parte, o público só rejubilou, naquele frenesim de concerto de multidão possessa com o seu quê de religioso e demente, quando o guitarrista solou um pouco do Satisfaction, já lá vão uns anos, quando te vi a abrir o concerto com as tuas mãos grandes numa espécie de dança e o resto da trupe parados a tocar e mais os bonecos insufláveis, um deles um cão que Mick decide picar os testículos com uma forquilha insuflável, tudo parte do espectáculo, no fim o corredor da bancada central onde estava arrumado tilintava com as muitas latas de cerveja espalhadas, valeu a pena ver e ouvir e cantar os velhinhos palhaços do rock na sua representação de estilo-junkie que perpetuam faz décadas, embora fosse a digressão à volta dum álbum sofrível e falhado mas o reportório dos glimmer-twins tudo aguenta e suporta, e não é que fizeram cinquenta anos de concertos, começando na estreia em 12 de Julho de 1962 no Marquee de Londres até agora em pleno século XXI, o século das naves espaciais e das viagens intergalácticas, pensávamos nós nessas décadas anteriores, pode ser que ainda venha a ser, por enquanto é o século da queda de todas as utopias – as que restavam, que não eram muitas e o século das grandes crises económicas, de valores, até aos limites não conhecidos e até se inventar novas expressões para classificar situações extremas nunca antes vividas, esperem que as expressões não tardam, e os rolling stones continuam, o que é uma espécie de milagre que agrada mas também chateia.

Jul. 12

Autor: Carlos Teixeira Luís


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domingo, 15 de julho de 2012

[poema 12]

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algures alguém em extremo desencante (assinalável) propício
resvalado em céus da boca ou alturas desmedidas de vício

que esse alguém torcido (em letras) procurasse às cautelas
dos ímpares o par muitas plumas e a rodos amor dentro delas

que no fim acerado grotescamente metade hélice e metade fera
voasse aos confins e voltasse algarismo locomotiva (mário) ou quimera


.


Poema de Mario Revisited

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sábado, 14 de julho de 2012

Cântico

Malgrado digam:
Tudo o que cantas
Não inspira,
Não me importo.
Vivo assim:
Dentre tantas mentiras,
Escolho uma ou duas
Que, ao menos,
Façam sentido pra mim.
Por isso, amigos,
Se quiserem,
Me acusem de poeta cínico
Ou de ter partido
As asas do querubim.

Malgrado digam:
Tudo o que cantas
É mentira!
Não me importo.
Em verdade tudo transformo
Ao som da lira,
Porque gosto
De verdades mentidas
E gozo
Ao ver aqueles
Que ainda crêem
Em coisas absolutas
Na vida.

Malgrado digam:
Tu és louco!
Teu canto
É nada ou pouco,
Não me importo.
Torno-me os versos
O meu reverso
E os ofereço a todos
Sem esperar nada,
Nenhum troco
Ou que percebam
O próprio engodo.

Malgrado digam:
Tudo o que cantas
Está morto
Ou morrendo está,
Com isso me rejubilo,
Por saber
Que componho um hino
A todos fraterno,
Que nos deixa isentos
E desnudos do fardo
De sermos eternos.

Malgrado digam:
Vives da rapina
Do dia-a-dia,
Transformas a poesia
Na nossa ruína,
Não me abato;
Escrever só nos lancina
E nos inocula
Com o mundo
E a estricnina.

Malgrado digam:
Tudo o que cantas
Faz-me sentir
Num exílio,
Não há encanto,
Nada de sublime
No teu canto,
Não me espanto.
Não há como atingi-los
Sem antes
Cometer-se um crime,
Expor numa vitrine
Tudo o que nos reprime
Para a quebrarmos
Beligerantes.

Malgrado digam:
Só amas o chão,
O parco instante,
Não me importo.
A terra, o céu,
O sol radiante,
O corpo vão,
Tudo o que vês
Perecerá
Nesta láctea via
De fluidez.

Malgrado digam:
Tudo o que cantas
Te vai mandar
Para o inferno,
Não me importo.
Sei que nada é fixo
Ou sempiterno
E que, como todos
Que se persignam
Com crucifixos
Ou que não crêem
Na parasceve,
Em breve,
Me tornarei pó, lodo,
Enquanto cantam
Os rapsodos.


Felipe Mendonça -
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Uma morte azul

... comprimir – lhe o pescoço em meio aquele azul estonteante , o céu como se fixado por um prego, a brisa marinha hesitando sobre um mar que seria até macio em seu azul e poemas,perceber a vida esvaindo-se e a entrega do corpo ao próprio destino , ao fim comum e desejado por nós, por ela principalmente, que não mais desejava a angústia medida do saco plástico e meus polegares a constringir - lhe a traquéia . Transfigurada , consoante ao azul maravilhoso que nos protege e envolve de cima a baixo ; o mar , arremate final da pequena morte ensaiada em tantos quartos de hotel dispersos pelo mundo , luxuriante forma adiada de morrer sucumbindo ao orgasmo convulso, á estripulia de sensualidade (o que é um nome?),a camisola de seda meticulosamente dobrada,creme sobre o corpo perfeito e macio,
- Por que não três gotas de Chanel número cinco ?.
Mesmo não sendo um homicídio (que de certa forma era) , antes suicídio consumado a quatro mãos (duas da bela assassina de si mesmo) nem assim o queria plágio :
- Não sou a Marylin
Gostosas e tépidas mãos do seu mais louco amante, disposto a ir onde os outros recuaram por não compreender que aquele morrer era um supremo gozo , inigualável porque definitivo em seu impacto de vagalhões de prazer a submergirem o seu corpo, azul da cor do mar, entre aquelas tão pequenas ilhas, onde tudo isso poderia ser um filme (nós e apenas o sol por testemunha) mas o sol não era nada, apenas figurava naquele equador , no esvair-se da vida comum para a liquidez que dissolvendo, acrescenta-nos ao todo maior.Então lembrei da primeira vez que me ordenou o suplício,aquela pequena introdução á asfixia, em meio ao gozo, sacudida e inundada por mim , aríete e fonte , a serviço do tesão infinito, multiplicado á cada compressão do pescoço sedoso, luzidio ,untado,perfumado e cheirando a sol , minhas mãos deslizando na mesma cadencia em que lhe percutia o interior, a caminho do prazer oceânico , seguido do largo e profundo sono dos amantes .
Então , que o mar te receba , azul em todo resplendor que um veranico poderia nos oferecer ; agora toda inércia e serenidade, atingiste o teu nirvana ; percebo o sangue nos meus braços lanhados por tuas unhas que apenas eu sei resultado do prazer supremo , não do medo nem do tolo apego á vida que sempre censuraste , pois toda maneira de amor vale a pena ; entre nós, a vida tangenciando a morte anos e anos ,em que te completava e seduzia, pelas mãos mais fortes e precisas já vistas nas tuas andanças pelo mundo . Descobri a proximidade de viver e findar-se , no momento do gozo , onde morremos para nós mesmos e para o mundo na brevidade casual e humana que nunca te satisfez. Escolheste hoje, o gozo supremo , sob este céu sem nuvens e um sol agora meio escorregadio para a curva do horizonte,deslizando,como indo ao teu encontro, no cemitério marinho .
Ligo o barco ,faço- o descrever um adeus em larga e preguiçosa parábola ; sigo sem olhar a esteira do meu caminho , vezo e sina de vida breve .

Conto de André Albuquerque


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sexta-feira, 13 de julho de 2012

mnemosine

mas na verdade eu queria mesmo era falar contigo. dizer apenas um olá. um bom dia. um como está passando? e os sorrisos? encantados como sempre – e então quando tomamos um cafezinho naquele botequim feito de palavras? estou ansioso para te mostrar dois verbos novos que encontrei a fazer uns arrumos à vida que já passou - irias gostar de os conhecer - estavam amarrados a dois adjetivos que nunca adjetivaram coisa nenhuma – confesso. eram tão maus que nunca os levei à rua. acabaram por ficar esquecidos - o tempo passou e agora tudo é diferente. estou mais velho. e o cheiro das palavras já não é igual - no passado estava mais à procura de coisas novas e agora quero achar tudo que é velho dentro de mim e não encontro - não guardei nada da vida. os beijos foram esquecidos. os abraços perdidos. as pessoas foram morrendo dentro de mim. e a saliva presa ao céu da boca rodando de um lado para o outro e eu sem encontrar um lugar digno para poder cuspir esta azia que me vem de dento de uma moela seca - e o verbo era é agora o começo de uma história - era uma vez um abril - era uma vez um dia com uma nuvem tão louca que sugou toda a água do mundo. e todos os peixes se fizeram pássaros. e todas as flores se fizeram sonhos. e tudo que era mundo era afinal um pontinho num espaço que nenhum mês do ano sabia que existia - era uma vez eu e mais tu e mais os teus amigos e os meus amigos e os teus vizinhos e os meus e o teu mundo e o meu mundo e tudo é mundo e nós somos mundo e em cada pedaço de mundo. um mundo mais completo - nunca esquecerei mais nenhum segundo do mundo - escrevo cada sorriso. escrevo cada momento. escrevo mundo



* comentário a um texto da vânia lopez que. carinhosamente. faz o favor de ser minha amiga preenchendo os silêncios da escrita com palavras de incentivo ao meu louco amadorismo de tentar escrever
Autor: Sampaio Rego

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quinta-feira, 12 de julho de 2012

basta um olhar atirado ao peito

falar do voo de uma ave é algo sagrado, entro por portas em um feriado na Irlanda do Norte. colho o ontem com os olhos, onde bem ali adormecia em seus braços. onde dois braços é uma multidão colorindo o deserto de verde. estendo uma mesa ampla com castiçais, tempero a alma, tudo sonha... do mar a cada noite ao piano roxo. vá menino! colha minhas lágrimas, ensine-as a migrar ao teu peito com a força de uma rosa. me aninhe junto à sombra de tudo que cala. oferte-me as mãos para que me abandone atravessando o dia. faça do oceano nossa horta, cuide que sua alma floresça no frio, onde quero ser enterrada viva... pétala por pétala.

Autor: Vânia Lopez

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quarta-feira, 11 de julho de 2012

carochas, bicicletas & biplanos - 26

Estranho certas atenções. Sobretudo porque sei que no fundo não as mereço. Todos sabemos essas coisas. O que merecemos ou não. Mesmo com perturbações na avaliação, se tivermos baixo amor-próprio ou o oposto. Escrever sobre essas coisas é um prazer perverso que também tem de sofrimento, por isso o chamo assim.

Só há bem pouco tempo é que descobri um certo tema recorrente em todos os meus escritos. Todos. E não sou eu. Não escrevo sobre mim, mesmo que o faça na primeira pessoa, como acontece na maioria das vezes. É sempre sobre outro eu que não exactamente eu. E quando coloco esses textos em locais virtuais sujeitos a comentários, esses mesmos comentários, leituras e interpretações levam o sentido do texto a paisagens novas nunca sonhadas por mim. Isso dá-me um certo prazer, embora nem sempre, ler o que outros lêem daquilo que escrevo. Confesso que brinco muito com a realidade e a memória, partindo do real para o pressuposto, do normal para o absurdo, daqui para ali e a viagem de volta. E o real tem tanto de improviso e impossível que não precisa ser inventado. Tudo existe para ser observado. Saibamos como.

Jul. 12


Autor: Carlos Teixeira Luís

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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Poema dos três cachimbos

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essa intercalar voz rouca de telefonista
o meu nipónico desejo por às terças a rodos cintilante
e aquele propício segurança do parque de estacionamento
em aceradas e concretas suspeitas de


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Poema de MarioRevisited


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Ela dança...


Cigana colorida
Coloca a tristeza retalhada de chita
Na ponta da saia
E sai...
Sai sorrindo,
Cantando,
Deixando a fênix renascer.
Não se encolhe, se espalha
Mesmo com a alma cicatrizando,
Ela persiste e dá um novo verso ao rosto.
Encanta, diz sim!
Sente cheiro de alecrim
Mesmo estando numa relva com frio e apaixonada,
Paixão daquelas febris, perigosas...
Com o coração explodindo feito estopim.
Ela dança, se permite, se encanta...
Mesmo carregada de lembranças!

Ela dança!...


((( Camila Senna )))