Manifesto do coletivo Pó de Poesia
O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.
Creia.
A poesia pode.
(Ivone Landim)
domingo, 1 de julho de 2012
Talvez
Um vislumbre de volta de quem nunca foi. Registros de um Lápis sem ponta, faz de conta que somos heróis, que somos bedéis, berberes de um deserto de inspiração e então, talvez esses versos sejam esquecidos, ou nunca saiam de moda.
Tremula entre os dedos a incerteza, o medo a insegurança, alimentos de uma coragem cega e voraz. Mó de um moinho de vento, talvez sejam como a roda, que ninguém sabe quem inventou. Talvez seja apenas uma teoria “quixoteana”.
Talvez sejam como eu sou.
Caminhando pra onde eu não sei se vou.
Autores: Lápis sem ponta e Toth
Gosto de alguns autores aqui no Luso, claro, que sem desmerecer ninguem, muitas vezes me falta tempo para ler a todos e com mais frequencia.
Bem, recebi uma mensagem do Poeta Toth, que tentou postar um comentário no texto PRESENTE e não conseguiu; e um poema, que tomei a liberdade de diluí-lo em um texto [Nosso].
Toth, agradeço-lhe imenso as palavras de incentivo e o "presente", que deitarei a seguir para o deleite de todos.
(Abraços)
Lápis sem ponta
"Um dia talvez esses versos sejam letra morta
Ou apenas mais uma porta
Quem sabe se de saída ou de entrada
Quem sabe o primeiro passo na estrada
Ou aquilo que não vale nada
Lápis sem ponta, faz de conta
Talvez esses versos sejam esquecidos
Ou nunca saiam de moda
Talvez sejam como a roda
Que ninguém sabe quem inventou
Talvez sejam como eu sou
Caminhando pra onde eu não sei se vou"
Toth
Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=225780&com_id=872405&com_rootid=872405&com_mode=nest&com_order=0#comment872405#ixzz1zOc5ENGk
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives
[... e quando me morro contorce-se o cansaço
e quando me morro contorce-se o cansaço
Que se encabrita pela pele já gasta.
E morro-me tantas vezes como as ondas do mar.
E morro-me tantas vezes longe da terra
Que sangra desnudada dos queixumes
Deixados pelo grito meu, esquecido no meio das searas.
Fulgem repentinas tempestades que se acalmam,
Quando ressurge o fugidiço poente pela proa,
Regressam os recantos que ainda sobrevivem.
Agonizantes.
Morro-me assim, tantas são as vezes,
Quão longe estou das orquídeas tuas.
Quanto mais perto do mar estou, mais longe de ti sou,
Assim me morro. Pudesse eu morrer-me de vez.
O coração?
Adiei-o.
Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=225757#ixzz1zMpjwd5i
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives
quinta-feira, 28 de junho de 2012
carcohas, bicicletas & biplanos - 21
Vamos ao jardim, a menina calça-se e põe o seu chapéu de sempre, escolha dela. Saem. Caminham na rua até ao seu fim, atravessam uma parte de mato e uma avenida movimentada. O homem antes de atravessar a estrada, testa mais uma vez com a filha as regras de se atravessar uma estrada em segurança. A menina age como qualquer criança com o seu foco no jardim e os seus estímulos. Não liga nada ao seu pai. Mas o homem sabe que a repetição é amiga da retenção. Sucedeu assim com ele e com o seu próprio pai e irá suceder com a geração seguinte. Atravessam um parque de estacionamento sem carros junto ao campo de ténis, um pequeno lago onde a pequena descobriu um sapo preto num destes dias, o campo de futebol cheio de gritos e chutos, a zona dos escorregas e balouços. A menina fez logo uma amiga e brincaram por uma boa hora inventando novas formas de explorar um simples e monótono escorrega. O homem refugiou-se numa das sombras vigiando-a e cumprimentou um velho conhecido que passava na relva lá ao fundo. De vez em quando semicerrava os olhos e escutava os sons, isolando-os do resto que observava. Pássaros, gritos de crianças, pais que dão ordens como treinadores, automóveis e mais pássaros.
Foi difícil arrancar a miúda do parque. Não quis ir ver os animais. É realmente uma chatice ver patos, galinhas, cabras, uma vaca, dois burros, um cavalo, dois galos e um gato, da cerca sem lhes passar a mão por cima. Já passou da hora de entrar no recinto dos animais. É hora de voltar. O sol aperta. A filha está cansada. Atravessam uma área de relva e a avenida e entram num pequeno supermercado. Compram batatas, leite, massa e salsichas. O pai dá o dinheiro à filha e ela paga. Confere o troco e aceita. Dá as boas tardes e sobem uma rampa para o prédio. A miúda abre a porta do prédio lembrando-se do código da porta com destreza e sobem no elevador até ao último andar.
Vai lavar as mãos e brinca um pouco que o pai vai fazer o almoço. A menina liga a música no seu quarto. O homem abre uma cerveja e começa num bailado de tachos e louça digno de Igor Stravinsky. Como um poema de meio-dia passado. O homem escreve alguns poemas e por isso costumam chamá-lo de poeta.
Jun. 12
Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=225545#ixzz1z5dXhpBS
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives
carochas, bicicletas & biplanos - 20
Jun. 12
Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=225541#ixzz1z5VtOh6z
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives
terça-feira, 26 de junho de 2012
carochas, bicicletas & biplanos - 19
Um exemplo desta poesia. Um poema da poeta - Nobel da Literatura de 1996. Um mundo mais pobre, sem dúvida mais pobre, pobre também o lugar comum da expressão mas a sua poesia dança com uma certa saudade de quem existe para lá da sua existência física. A poesia como árvore plantada no nosso peito. Uma metáfora para quem não abusava delas. Uma poesia de observação, ironia e simplicidade, ou nem por isso.
“EXEMPLO
Um vendaval
despojou todas as folhas das árvores ontem à noite
com a excepção de uma folha
deixada
a baloiçar sozinha num ramo nu.
Com este exemplo
a Violência demonstra
que sim, senhor –
gosta da sua piadinha de vez em quando.”
Lamento a repetição para quem não gosta de vira o disco e toca o mesmo. Eu repito, tenho esta necessidade, para observar melhor. Este poema foi traduzido por um dos autores do blogue: Poesia & Lda, ambos poetas de excepção. João Luís Barreto Guimarães e Jorge Sousa Braga, médicos de profissão e poetas com obra editada, amantes da arte da palavra polida, crime não conhecer. Quando publiquei no Luso Poemas esta citação, recebi este comentário que me sensibilizou (a propósito do poema da poeta polaca). Republico-o:
“Querido amigo,
compartilho da sua dor pela morte de Wisława Szymborska. Hoje, o meu quarto também parece mais escuro, pois esta grande poeta morreu. Os grandes poetas são assim: acendem luzes iluminando cantos escuros da nossa alma. Nas semanas passadas, eu publiquei aqui no Luso 4 poemas de Wisława Szymborska (Nada acontece duas vezes, Amor à primeira vista, As três palavras mais estranhas, Gato em apartamento vazio). A sua poesia vai viver para sempre.
Um abraço,
Manuela”
(Jun. 12)
Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=225407#ixzz1ytmTZM24
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives
sábado, 23 de junho de 2012
...moço bonito
Autor: Vânia Lopez
Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=225176#ixzz1yd4hgLmQ
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives
quinta-feira, 21 de junho de 2012
é tudo mentira... ou sim os dois
na caneta só palavra
deixar a alma passar cheia de capítulos
no instante que não falta nada
manter o coração inocente
ser feliz aos poucos
entre o chá e o jantar
desviar das nossas roupas juntas
enfrentar o céu e o inferno
(nos olhos) o mesmo endereço
uma cor que ruge aparecendo na boca
invadir seu maço de cigarros
oferecer preço ao silencio
despir o sorriso no velório do teu eu
orar em outro idioma
comentar o fim da novela
diante do céu abandonar meu corpo
sem hora marcada
aceitar uma carona sem pressa de voltar
grávida de lápis, pincéis e tesouras
ser de me imaginar...
Poema de Vânia Lopez
Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=225034#ixzz1yQgl0pJK
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives
carochas, bicicletas & biplanos - 18
E agora:
(Novas) Histórias do Deserto by Carlos Teixeira Luís
Histórias do deserto, porquê?
Talvez tivesse uns 19 anos na altura, trabalhava num segundo andar numa sala nos fundos dum andar com escritórios onde havia uma janela para um canto na Praça dos Restauradores em Lisboa. A vista não era muito nobre, via-se a caca dos pombos nas janelas fechadas dum velho hotel, caca dura como cimento de décadas onde os pombos faziam inclusive os seus ninhos. Esse hotel histórico veio a ser restaurado e a imagem suja e decadente dos pobres pombos foi anulada mas não da memória. Foi a olhar por essa janela fechada que nunca se abria por causa do som ensurdecedor do trânsito e da curiosidade ágil dos mesmos pombos que ia inventando histórias para não enlouquecer. Trabalhava numa espécie de depósito duma multinacional de óptica ali perto da baixa de Lisboa, onde o meu trabalho consistia em atender telefones, gerir o stock de lentes oftálmicas e fazer colorações em lentes graduadas para óculos de sol. Colorir lentes era um trabalho estranho, rudimentar e repetitivo. Mas era bom neste tipo de serviço, sustentado por um pequeno rádio e leitor de cassetes onde ouvia sem parar a minha escolha musical que me levava o espírito longe dali. Por vezes, lia às escondidas, quando fazia os degradés que consistiam em segurar as lentes numas pinças de aço e com um movimento calculado do pulso, mergulhá-las numa solução de água e químico com cor, numa das tinas de metal aquecidas a óleo. Respirar aqueles fumos diariamente durante 8 a 12 horas deixou uma marca na minha saúde. Lia e fazia isso ao mesmo tempo, escondendo o livro assim que chegava alguém. Trabalhava incansavelmente ultrapassando todas as dificuldades, nunca dizendo não a qualquer desafio. Ficava até às dez da noite, quando o trabalho apertava, não recebendo por isso. Suando as estopinhas. E sonhando acordado. Com histórias do deserto. Metáfora profunda duma condição social e pessoal.
Logicamente um tempo de imensa e profunda solidão e desencanto. Que não tinha nada que ver com a falta de gente à minha volta. Mas uma solidão melancólica que vem de dentro, sem aviso. Soube-o mais tarde, sem remédio.
Jun. 12
Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=225041#ixzz1yQZdfwcL
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives
carochas, bicicletas & biplanos - 17
Maio - Junho 12
Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=225036#ixzz1yQYPpxBS
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Presente
Farei desse tinteiro negro, uma caixa de pandora em que mergulharei a alma para que transborde palavras como big bang em tempo de criação.
Serei sim, a pena fagueira e insistente que marca o papel em branco, borrões do nosso amor, como se estivéssemos aqui, agora, maculando a alvura dos lençóis com nossas sagradas luxúrias.
E quando o vento transpassar as cortinas dessa janela entreaberta que é o nosso passado, fará tremular mais uma vez sobre a mesa em que adormeço as linhas - curvas e traços paralelos - memória que lhe peço, leve, leve sim, mas não ouse tentar apagar!
Autor: Lápis sem ponta
Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/comment_new.php?com_itemid=224988&com_order=0&com_mode=nest#ixzz1yNOCeIKz
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives
Paideia
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
carochas, bicicletas & biplanos - 16
02 Fev.
Falhamos. As nossas democracias falharam. Produzimos mais pobres e mais multimilionários. A utopia igualitária está condenada a falhar. Os poucos diferentes não deixam diferença nenhuma para os muitos iguais. O capital tornou-se o grande papão inquisidor dos nossos dias, que já não são nossos, pois foram vendidos, trocados e emprestados a taxas de juro elevadas. Tudo falhou e falha sem parar. Falhamos todos por ainda esperar que este sistema venha a funcionar. Olhamos ao espelho e já não nos vemos. E não sabemos mais o que fazer. Voltamos a Deus e nunca tivemos nada mais. Somos os mesmos mas sofrendo muito mais. Uma das consequências da consciência. Voltamos mas diferentes. Melhores?
Chegou a hora de dar. De perdoar para não falir. Para salvar. Trocar e dar em vez de vender ou comprar. E rir com prazer e gente, muita gente. Esta realidade assim destrói-nos.
Por isso inventei este capital feliz. Foi um momento e a ideia agradou-me. Fez-me feliz por um escasso momento.
19 Jun.
Autor: Carlos Teixeira Luís
Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=224957#ixzz1yKsphaQD
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives
carochas, bicicletas & biplanos - 15
“- O teu poema é tão denso que não consigo lá entrar.” Por vezes é o que acontece, a densidade de uma vida num só poema. Um nevoeiro impenetrável. Um prodígio literário, mas inacessível. E por isso, inútil. Ninguém come um pão com a densidade de uma pedra.
“- O teu poema é tão mau que nem escrito por uma criança. Se uma criança o escrevesse pelo menos um pouco do seu maravilhoso mundo teria.” Um mundo naif verdadeiramente ingénuo e irreal. Fingir realidade com fantasia. Pretende-se dos poemas e dos poetas que sejam sábios a lidar com o impossível. Se não o são, para que servem?
“- Gostei do teu poema embora o não tivesse entendido mas os poemas não são para perceber, não é?” Um primeiro passo para um poema e um poeta entrar na nossa vida e deixar marca. Um poema só, não faz um poeta. Tudo pode acontecer a partir daqui, dar um passo em frente ou muitos para trás. Por vezes, um poema é muito, noutras vezes, nada.
“- Isto é um poema!?” Mas afinal o que é um poema? Reconhece-se e não se sabe porquê. Mas aprende-se a não saber.
“- Não percebi, um poema em prosa ou uma prosa poética? De toda a forma, cheio de bela linguagem.” Nada melhor que um poema cheio de bela prosa e até o contrário. Não há fronteiras. Há fronteiras. Mas não há fronteiras.
“- Gostei mas cheio de lugares comuns, metáforas belas mas muito usadas. Cheio de beleza mas muito dejá vu, entendes?” Entendo. Aqui o poema morre ou já vem nado-morto. É altura de desistir. Largar o poema à beira da estrada, para que os abutres o comam depressa.
“- Uma porcaria, desculpa!” Acabas de perder um amigo. E o mundo um poeta. O primeiro golpe é sempre incerto. Quantos maus poemas fez Camões até acertar? Os amigos das pessoas não são os melhores amigos dos poetas. Os poetas estão sós. Só assim sobrevivem.
“- Mais ou menos uma insignificância. Sem mensagem, sem mundo, sem gente dentro, confuso.” Um contra censo: se é confuso, alguma coisa contêm. Mesmo habitando um deserto.
“- Oh, os poemas que escreves! Penso cair num exagero mas escreves expressões tão ricas e belas que fazes avançar a Língua cem anos.” Assim como Herberto Helder. E nós, em divida com ele. Saldamo-la, lendo-o.
“- Tanto dia a dia e tanta melancolia. Fica registado os nossos piores momentos nas tuas palavras. Dói ler-te. Mas não deixamos de o fazer.” Uma grande crítica a um poema. Poesia desta lê-se e ouve-se em dezenas de bandas rock, mesmo que não saibam escrever. A catarse pura sempre alimentou a poesia. Enfurecendo-a. Matando-a. Mas pondo-a a mexer. Espécie de big bang criativo e não ocasional ou caótico, se é que isso existe.
“- Desculpa lá, sei que gostas de poemas de amor mas gostavas que alguém te dissesse ao ouvido o que acabaste de escrever? Gostarias de viver esse amor como o descreves? Ou fugirias a sete pés? Então, porque escreves sobre isso…” O amor essa forma de ódio. Um bom poema de amor parece sempre uma coisa fácil de fazer mas impossível de o concretizar nós próprios. Coisa de poeta a sério. Poema de postal para oferecer a quem está doente ou em qualquer outra ocasião tradicional isso sim está disponível ao homem que conduz o arado, a mim e a ti, a todos.
“- Faltou-te o fôlego a meio, não foi? O teu poema tem o ritmo de uma locomotiva endiabrada ou duma banda speed metal enlouquecida. Se não consegues manter o ritmo, tu que escreveste, como haverá o leitor de o fazer? Coloca-se a questão, porque fazer um poema que ninguém consegue ler até ao fim, porque tem uma síncope a meio? Mantem o ritmo elevado mas faz pontuadas pausas assim como numa canção. Podemos aqui aprender algo com o Howl do Ginsberg, eu sei que aquilo é difícil de digerir mas um portento de ritmo elevadíssimo.” Está tudo dito, ou não dito.
“- Chamas poema a isso? Eu chamo: uma nódoa. Lê-se como forma de a apagar e eliminar.” Assim se lê um poema ou um livro que queremos apagar da nossa memória futura, rápida e velozmente. E depois oferece o livro. A outro e não ao mesmo.
“- Oh, que poema tão rude e cheio de negatividade! Mas verdadeiro, é tudo verdade embora chutado na cara do leitor. Vai sobreviver, penso.” Pedaços de Bíblia na ponta dos nossos dedos. Diz lá que não queres, registar assim o teu mundo todo?
“- Nunca li um soneto tão belo. Métrica perfeita e cada palavra no sítio certo. Como conseguiste?” Como foi Shakespeare, Vasco Graça Moura ou Florbela Espanca?
“- Lançar tanto vernáculo sobre um texto é como estragar uma caldeirada com malaguetas a mais. Ninguém a vai comer. Lamento. Um pouco menos, por favor.” Ninguém é Bukowski excepto o próprio. Repetir aquilo é impossível e fica muito mal. Só ele sabia. Sorry!
“- Escreves sempre o mesmo poema. Mas cada vez melhor. Acho que nunca vou deixar de te ler.” Será um poeta? Um autor? Estima-o e não o adestres. Não pode haver melhor opinião.
“- Surpreendes-me sempre. Mas hoje não. Igual. Igual.” Injusto. Até Camões chateia em certos dias de chuva e soleira quente cá dentro.
“- O teu poema é um denso pomar com tanta árvore que para colher uma simples laranja cansa tanto que não voltamos a repetir. Poemas complicados mas descartáveis. Para se ler uma única vez e cansam que se fartam. Mais um pouco e deixarei de ler poesia. Qualquer poesia.” Vai e desiste. O valor do poema é que nos ensina a desistir e a voltar. E a desistir outra e outra vez. Ensina-nos a cair, e quem disse isto? Vai e pesquisa. Quem o disse tem mais para ensinar.
“- Poema negro como a morte. Difícil de esquecer. Uma estocada na alma.” Digamos que pensei em Poe. E em dezenas de seus discípulos. Todos de negro e nevoeiro. Dylan Thomas é uma negritude á parte.
“- Oh, Camões mais Camões! Socorro!...” O problema do nosso maior poeta é o que se faz com a sua poesia, sufocando-a e repetindo-a à exaustão, quer para fins políticos ou publicitários. E ele, bardo incorrigível a tudo sobrevive. Mas dói a forma como é utilizado.
“- Oh, Florbela Espanca mais Florbela Espanca! Socorro!... Não posso ficar com uma só, a original?” Aprende-se a falar mal dela e aprende-se a imitar o que é impossível às centenas. Ai se ela soubesse a horda de seguidores, neste caso de seguidoras, era poetisa para fazer um belo soneto acerca disso. Acredito que era.
“- O teu poema transtornou-me. Marcou-me. Vou ter de o ler várias vezes. Posso demorar anos.” Talvez Poe outra vez. Dylan Thomas é outra coisa mas se calhar aplica-se também. Afinal em que ficamos?
“- Não consigo classificar o que escreveste. E não consigo parar de ler.” Um passo para outro passo e a seguir mais um passo e fica-nos a poesia entranhada, sem sabermos porquê.
“- …” O silêncio diz tanto.
“- Perfeito no sentido de que me fez escrever poemas. Se um dia escrever um poema que seja, como resposta ao teu poema, então não me importo que me chamem isso: escrevinhador de poemas ou…” António Ramos Rosa e o seu funcionário cansado, faz-nos pesar a alma, lá no escritório, lá na firma cheia de Kafkas.
“- Nunca li um poema como este. Nunca.” Nunca. Nunca.
“- Um poema tão longo quanto o cosmos. A tua respiração faz pensar numa qualquer ideia de eternidade. Como um solo de John Coltrane.” São poucos os poetas com esta respiração longa e feliz, intensa e incansável. Fora os poemas de amor, Neruda é um poeta assim. E por isso vive para sempre. Mas não dá para ler com Coltrane como fundo. Poema em cima de poema é uma espécie de caldeirada picante de mais para ser ingerida. A menos que se separem os diversos elementos e o vinho seja bom.
“- Eu queria viver esse teu haikai. E ficava lá.” Um bom haicai é um lugar para se viver a vida toda. E nunca mais o abandonar. É ou não é, mestre Bashô?
“- Poesia, mas o que é poesia.” Lamento mas não tenho opinião a dar. Ignorante - eu sou.
(Jan. – Jun. 12)
Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=224910#ixzz1yKsD85aR
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives
segunda-feira, 18 de junho de 2012
carochas, bicicletas & biplanos - 14
12 Jan. – 18 Jun.
Autor: Carlos Teixeira Luís
Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=224831#ixzz1yBwt77rh
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives
carochas, bicicletas & biplanos - 13
23 Jan.
Os desenhos de Ramos Rosa trazem palavras descobertas na raiz do traço. Vão-se descobrindo a cada curva como uma lenta estrada de província. Às vezes estou no Alentejo e faz sol. Noutras vezes não sei onde estou e faz sol. Estar não me parece o verbo adequado para tanta inquietação mas é um verbo como outro qualquer. Senhor Ramos Rosa, as suas figuras femininas são tão divinas e suaves e doces. Como o seu sol, os seus desenhos, estimado senhor, deitam luz de sorriso, uma fonte que não incendeia mas enternece. Leva-me a colinas longe, muralhas, escarpas e dorsos de história. São tão belas as mãos, ágeis e corcéis de vento. Os desenhos de António Ramos Rosa, trazem pétalas deitadas com o perfume de brisa de um fim de tarde feliz.
01 Mar.
Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=224818#ixzz1yBvzlXuW
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives
carochas, bicicletas & biplanos - 12
22 Fev.
Não tenho uma história para contar. Uma história que seja relevante e interessante. Só tenho uma história banal para ser vivida. E é tudo.
29 Fev.
Estou farto da teoria impossível que é repetida sempre que se anseia uma parca teoria. Da postura que é aceite e é tão feia. Da palavra política, era bom ouvir duas pessoas a conversar, apenas isso. Do homem que é mulher. Da criança que é mulher. Da mulher que parece criança. Do rapaz que é mulher. Do homem que é cão. Do cão que come mulheres e da razão que acompanha a violência e o contrário. Da estupidez da morte e da sua beleza. Estou farto duma série de coisas que não o são. Mas chateiam.
01 Mar.
Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=224815#ixzz1yBzpdajn
Under Creative Commons License: Attribution Non-Commercial No Derivatives
que o vento arrasta, partilham-se por entre as núvens
no ocaso silencioso,
insites nos barcos a arder na baía,
insistes nas vozes que assombram as sombras,
insistes nos sonhos que eu não vislumbro, que não os meus
quão exaltados pelas síncopes do olhar.
Tudo e nada, como se o desejo prevalecesse,
assustam-me as coisas que sinto [que insistem].
Quando colas o verso pelo meio escaqueiro-me ao tormento,
recolocas as palavras que se reordenam sem pensar,
sem espantos, sem espantalhos,
e nesse contentamento teu que se me apega,
perpetua-se o esquecimento, que cá já não me pode alterar.
E insistes nos barcos, nas vozes e nos sonhos,
que não os meus.
Perdoa-me,
se me perco pela rota das açucenas em flor,
ou que me esqueça de ti por este instante apenas
[que seja].
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
domingo, 17 de junho de 2012
O farol
O velho Gaspar era o sujeito mais solitário do mundo, disso eu não tinha a menor dúvida. E o farol: convento e bordel da alma do cara. Viúvo aos sessenta anos, os filhos em debandada geral: aposentado, grana curta, reduzido a pentelhação obrigatória de fim de semana. E percebeu isso, percebeu sim. Surgiu faroleiro, ninguém sabe como nem por obra de que ou de quem; somente porque. Ei-lo , visto meio de lado.
Procurei e nunca encontrei quem tivesse feito concurso para faroleiro; mesmo na capitania, nunca reparei nisso. Faróis são feito elefantes, grandes e em extinção. Vi na TV, outro dia, um farol removido sobre trilhos de sua posição original, num país da Europa; bizarro demais, o troço andou uns cem metros em cima de uma parafernália de eixos, molas, macacos hidráulicos, o escambau. Atingida a distancia segura da falésia, (é, ele estava quase despencando lá de cima) foi reinstalado - espero que tenha sido assim mesmo. Então, farol é um troço cheio de nove horas, não é mesmo?
Imagino que viagens o Gaspar fez de seu farol, olhando aquele mundo sempre velho e sempre diferente, as passagens dos navios; com o tempo talvez fizesse algum tipo de amizade com as embarcações; com as tripulações, duvido, mesmo se pudesse. Prezava muito sua solidão. Não parecia esperar nada do mundo nem de ninguém. Dizia que seus salários se escondiam no fundo das gavetas, para não ser vistos. Bobagem. Que necessidades teria ele? Vez por outra recebia uma inspeção da capitania dos portos e os caras nunca reclamaram lhufas de nada: tudo certo, limpo, espanado, arrumado, nenhum barco perdido ou à deriva na área do coroa. E tinha sorte.
Ele devia saber mesmo das coisas, ter aquela inteligência alimentada pelo lado animal e peixe, que vai assumindo a pessoa que mergulha inteira naquilo tudo. E ele mergulhou, ah, se mergulhou! A essa altura vocês devem estar se perguntando quem sou eu, deitando toda essa falação sobre Gaspar e o farol da Prainha. Chamem–me Ubiratan,
do jeito daquele cara da baleia branca, que também pedia chamem-me, mesmo nessa história mais simplesinha, mais pra golfinho que baleia. Uma vez por mês eu levava suprimentos para o farol e para o velho. Papeávamos um bocado, conferíamos o material enviado e partilhávamos uma cachaça do Rio Grande do Norte, que sabe Deus como ia parar ali, naquele fim de mundo, tão gostosa que imaginei-a um grande vinho que tivesse decaído, feito anjo, reencarnando ou reliquidificando (pouco importa) feito cachaça; quando falei isso pra ele, o velhote riu um riso amarelo de nicotina e alcatrão, combinando com o amarelo dos dedos e disse que vinho era vinho e cachaça era cachaça e que um troço chamado de metempsicose não se aplicava às bebidas, que tinham um espírito próprio.
Perguntei-lhe se já fora psiquiatra, ele riu de novo, um riso de enfisema e engraçado ao mesmo tempo, pois parecia sair da barriga dele, feito um boneco de borracha, quando você fura ele e fica apertando, sabe? Não me diga que nunca teve um brinquedo de borracha, que eu digo que você não vale o que o gato enterra e que não teve infância ou qualquer coisa que lembre que você passou pela infância e não viu. Entre uma tossida e outra, zoou com minha cara, dizendo que nossa conversa, tava parecendo um diálogo dos irmãos Marx: gente da qual nunca ouvi falar; já me bastava o cara barbudo que escreveu a bíblia comunista.
Aquela história toda de metempsicose era meio esquisita; talvez a solidão tivesse aloprado Gaspar; mas não parecia, falou-me que metempsicose não tinha nada a ver com loucura e sim com a transmigração da alma (outro calo no meu cérebro)... olhei pra cara dele, enrugada, engelhada num engelhamento bonito, que passava uma moral estranha para as pessoas, quero dizer, uma moral meio mortal, feito a dos bruxos, mas Gaspar era só um faroleiro que o GPS estava quase pra aposentar. Virou outro copinho daquela aguardente e ficou a olhar pro horizonte, sem barcos ou navios, só água e algumas gaivotas. A nicotina brilhante nas unhas fazia-o parecer nascido daquele jeito, com aquelas unhas amarelo–verniz. Falei pra ele e ele riu, agora só da boca pra fora, um riso simples, raso. Parecia vestir a mesma roupa todos os dias ou melhor, não sei se ele vestia aquele jeans e aquela camisa de gola rolê que lembrava os cantores da jovem guarda-sacumequié: velhas tardes de domingo, etecetera, etecetera, apenas para receber os suprimentos ; espécie de traje alinhado, sei lá. Uma vez, tiramos uma foto juntos, com o mirante do farol ao fundo e dei pra ele, que colou na porta da geladeira, onde guardava a cachaça. Desconfio que os cigarros eram seu referencial interno de tempo; quase sempre meia hora entre um e outro; não usava relógio além daquele do farol. E aquela cicatriz no peito, que ele atribuía a uma facada, rindo e olhando minha cara incrédula; sentia-me incapaz de imaginá-lo esfaqueado, simplesmente por falta de alguém suficientemente louco ou blasé para fazê-lo. Isso, na única ocasião em que o ouvi queixar-se do calor e despir a camisa, ali na Prainha.
Os olhos azuis do cara ás vezes mudavam de cor quando ele descrevia as coisas que já tinham pintado na sua área, a maioria bobagens, golfinhos mortos que encalharam nos escolhos ou de quando um barco vazio espatifou-se contra as pedras do seu pequeno reino. Imagino zilhões de neurônios zumbindo na imaginação dele e coisa e tal. Raro o amor da solidão pelo solitário, pensei. O sujeito é meio que escolhido por ela, num jogo complicado de afinidades e desafinidades. Ele nunca falava da família; o que eu sabia, era pelo pessoal de terra, da capitania, que tinha a ficha dele e parecia aproveitar a chance de ter o que seria um tipo doido manso, inteligente, que dava conta do recado, vivendo a vida sobre um farol de escolhos, escutando o resto da vida o barulho do mar e limpando cocô de gaivota das redondezas e jogando no mar , como se alimentasse aquela criatura líquida que um dia abandonaria antes que o mar o percebesse já distante e solitário de outro jeito, de outra forma e com sede de outro lugar, não mais farol.
Outro dia, convidou-me a entrar no seu quarto durante uma conversa sobre mapas; meu Deus: uma figura enorme e redonda na parede, segundo ele, uma mandala; uma porrada de livros antigos, muito manuseados, pareciam coisa comprada em sebo chinfrim, dezenas de reproduções de antiqüíssimas cartas de navegação e mapas, muitos mapas pelas paredes, uma incrível carta de navegação atribuída a Marco Pólo; mostrou–me o Diário de Viagem de um Filósofo, de um tal Conde Von Keyserling, do qual nunca ouvi falar (ia dizer–lhe isso, mas lembrei que nunca fui muito bom com livros nem eles comigo), afirmando que dar a volta ao mundo era a melhor forma de conhecer-se a si mesmo. Gaspar tinha o corpo no mar e a cabeça nas nuvens, lendo aquelas coisas, ali naquela solidão azul, falando da necessidade do homem de se escutar, de resgatar o que tinha dissipado do Eu ao longo do caminho da vida. Tempo para ouvir a si mesmo e para ouvir o mundo. Gaspar lembrava alguém a quem o mundo devia muita coisa, muita alegria, muita tristeza, muita paz, muito pesar, tudo zerado na cinza do dia a dia; o homem sem cor que ao perceber a falta de cor, resolveu ficar sozinho para absorver o mundo e absorver-se nele. Passaram–se anos, ficamos amigos, na medida em que era possível alguém sentir–se amigo de figura tão estranha e admirável.
Lembro de sua despedida, seu olhar líquido, o sorriso benfazejo, mochila às costas, entrou na minha sala e fez um arremedo engraçado de continência, levando dois dedos à testa; falou-me que sua missão estava cumprida, perguntei–lhe para onde ia, respondeu-me não saber ainda. Seguiu em frente, batendo levemente com o punho nas paredes do corredor, após um abraço de despedida distraído e fugaz, feito ele.
Uma tarde, Flavinha, da Tesouraria, mostrou-me numa revista aberta, uma foto do Gaspar; o texto informava dos cem anos do nascimento do escritor Samuel Beckett. Perguntou–me se não era o Gaspar. Gelei da cabeça aos pés: a mesma camisa de gola rolê, a calça jeans que parecia saída de uma garrafa; li a reportagem, esbarrei no relato da facada (agressor desconhecido,em Paris ,1938, afirmava a revista) e respondi que não, era apenas uma incrível e notável semelhança. Gaspar nunca esperou nada ou ninguém, nem mesmo Godot. Ela riu feito uma doida e beijou-me entre os olhos.
Conto de André Albuquerque
dois dedos e meio de segundos...
o vento do secador
afastava o perfume da nuca
antes de sair pela janela
o hidratante ignorando
o brilho da lua correndo na pele
o olhar intermediário
atravessou o espelho sem parar
súbita e suavemente
a sombra pairou sobre o carpete
a caminho da roupa
saiu pela porta e foi até a rua
minguando voce num rastro de saudades
deixou seu coração raso
e o mundo (jaz)
parece não respirar...
Poema de Vânia Lopez
sábado, 16 de junho de 2012
[... do anti-verso que se exaspera
…
do anti-verso que se exaspera, como o alazão
puxado pelo freio, se quedam as palavras indomáveis,
mesmo as que carregam as cores,
mesmo as que carregam os sons,
e das nenhumas imagens que desejo, [consigo] visionar,
tropeço nos desassossegos,
nos recantos que ficam por preencher,
nas pedras angulares que nada sustêm, nem pós.
Explica-me os labirintos de mim por onde me perco,
explica-me o sorriso,
explica-me o inexplicável, por onde me desnovelei inda agora
nesta maré de sizígia que jamais vogará
pelo poema afora. Desnuda-me.
Adensam-se os cirros em círculos que envolvem os lábios
que imagino entreabertos,
confesso-te;
dormiria ao relento nos labirintos por onde me perco,
se as tuas mãos me escorassem.
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)