Manifesto do coletivo Pó de Poesia
O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.
Creia.
A poesia pode.
(Ivone Landim)
terça-feira, 17 de julho de 2012
"perfil"
por este tempo..
à névoa da têmpora sem o brilho-crente e/ou desigual..
só
este exemplo. por intuito..(e forma)
quisera dar-lhe às asas, e. roubar-te: o sol.
e,
já refém do barco suposto, a tempestade..
ao alvitre de coleccionar os modos à sensação
serve-me, à perdida noção!! e guia-me aos olhos..
poderiam estes espasmos, consultarem-te?
à comum impressão de letargia e psicodélico confronto..
poderiam? às avessas re-voltas em sequestro de ar teu, a..
decifrarem-te.. a devastarem o canto além da tua vez?
pois,
te seja à carta que não quis ver
te seja às costas dos lapsos em mãos e solução
e
te seja à hora
do blefe
do preço.
do ensejo que te toma em febre
pois,
à página. te é.
por meu exemplo de glórias
minha conduta em exceção
por rescindir-me
já, aqui..
tempo.
à palavra que define um ponto
e
breve sonho.
e de ti, então,
a separar..
Poema de Azke
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carochas, bicicletas & biplanos - 28
Não gosto de livros com grandes capas a ilustração a ouro e capa rija de pele para durar século e meio. A não ser a Bíblia. Nem Camões. O meu exemplar de Lusíadas, funcional e que está comigo no trabalho é uma edição de bolso que me custou 1 euro. Gosto de livros em edição paperback, baratos, que se podem comprar nos aeroportos e nas bombas de gasolina. Livros que se podem pôr a chávena de café em cima, enquanto se conversa e se faz outra coisa. Livros que não se lamenta que caiam ao chão ou se encham de areia. Mas não gosto de livros com folhas dobradas nem manchados de gordura. Isso não. Gosto de usar um livro, estimá-lo e sempre mantê-lo em condições que o possa emprestar. Detesto livros mal colados. Servem para se deitar fora e não se deita fora livros. Teoricamente. O livro caro porque a capa é boa é como as antigas aparelhagens monstruosas que serviam para ouvir música sofrível a todos os níveis. Gastar muito dinheiro num livro corrente não faz sentido. Seja a divina comédia ou um policial de agatha christie, por sinal gosto de ambos. Mas não sou contra as capas duras, nem os livros grandes. É só que eu gosto de ler na rua, no metropolitano, em viagem, no carro, no banho, na sanita, na cama, na mesa, em todas as refeições, na praia, na piscina, no futebol, no concerto, no bar, na discoteca (detesto discotecas mas houve sempre um período em que se frequentava para se ganhar uma dor de cabeça e ficar com os pés amassados das pisadelas), na igreja só em visita, pois não frequento igrejas religiosamente, no deserto, na montanha, em fuga, sentado e em pé, a correr e parado, acordado e a dormir (um exercício cansativo mas na fronteira entre acordado e desperto é possível). Claro que o livro de cartão e papel vai sendo reduzido até acabar em tablets e outras formas de livro, virtual e como objecto mas sem papel, pois as árvores não aguentam mais e eu gosto de árvores mais do que livros ou equiparável. Não sei como vai ser amanhã mas hoje contento-me em ser barato no meu gosto por livros.
Jul. 12
Autor: Carlos Teixeira Luís
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carochas, bicicletas & biplanos - 27
Jul. 12
Autor: Carlos Teixeira Luís
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domingo, 15 de julho de 2012
[poema 12]
algures alguém em extremo desencante (assinalável) propício
resvalado em céus da boca ou alturas desmedidas de vício
que esse alguém torcido (em letras) procurasse às cautelas
dos ímpares o par muitas plumas e a rodos amor dentro delas
que no fim acerado grotescamente metade hélice e metade fera
voasse aos confins e voltasse algarismo locomotiva (mário) ou quimera
.
Poema de Mario Revisited
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sábado, 14 de julho de 2012
Cântico
Não inspira,
Não me importo.
Vivo assim:
Dentre tantas mentiras,
Escolho uma ou duas
Que, ao menos,
Façam sentido pra mim.
Por isso, amigos,
Se quiserem,
Me acusem de poeta cínico
Ou de ter partido
As asas do querubim.
É mentira!
Não me importo.
Em verdade tudo transformo
Ao som da lira,
Porque gosto
De verdades mentidas
E gozo
Ao ver aqueles
Que ainda crêem
Em coisas absolutas
Na vida.
Teu canto
É nada ou pouco,
Não me importo.
Torno-me os versos
O meu reverso
E os ofereço a todos
Sem esperar nada,
Nenhum troco
Ou que percebam
O próprio engodo.
Está morto
Ou morrendo está,
Com isso me rejubilo,
Por saber
Que componho um hino
A todos fraterno,
Que nos deixa isentos
E desnudos do fardo
De sermos eternos.
Do dia-a-dia,
Transformas a poesia
Na nossa ruína,
Não me abato;
Escrever só nos lancina
E nos inocula
Com o mundo
E a estricnina.
Faz-me sentir
Num exílio,
Não há encanto,
Nada de sublime
No teu canto,
Não me espanto.
Não há como atingi-los
Sem antes
Cometer-se um crime,
Expor numa vitrine
Tudo o que nos reprime
Para a quebrarmos
Beligerantes.
Malgrado digam:
Só amas o chão,
O parco instante,
Não me importo.
A terra, o céu,
O sol radiante,
O corpo vão,
Tudo o que vês
Perecerá
Nesta láctea via
De fluidez.
Malgrado digam:
Tudo o que cantas
Te vai mandar
Para o inferno,
Não me importo.
Sei que nada é fixo
Ou sempiterno
E que, como todos
Que se persignam
Com crucifixos
Ou que não crêem
Na parasceve,
Em breve,
Me tornarei pó, lodo,
Enquanto cantam
Os rapsodos.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados
Uma morte azul
- Por que não três gotas de Chanel número cinco ?.
Mesmo não sendo um homicídio (que de certa forma era) , antes suicídio consumado a quatro mãos (duas da bela assassina de si mesmo) nem assim o queria plágio :
- Não sou a Marylin
Gostosas e tépidas mãos do seu mais louco amante, disposto a ir onde os outros recuaram por não compreender que aquele morrer era um supremo gozo , inigualável porque definitivo em seu impacto de vagalhões de prazer a submergirem o seu corpo, azul da cor do mar, entre aquelas tão pequenas ilhas, onde tudo isso poderia ser um filme (nós e apenas o sol por testemunha) mas o sol não era nada, apenas figurava naquele equador , no esvair-se da vida comum para a liquidez que dissolvendo, acrescenta-nos ao todo maior.Então lembrei da primeira vez que me ordenou o suplício,aquela pequena introdução á asfixia, em meio ao gozo, sacudida e inundada por mim , aríete e fonte , a serviço do tesão infinito, multiplicado á cada compressão do pescoço sedoso, luzidio ,untado,perfumado e cheirando a sol , minhas mãos deslizando na mesma cadencia em que lhe percutia o interior, a caminho do prazer oceânico , seguido do largo e profundo sono dos amantes .
Então , que o mar te receba , azul em todo resplendor que um veranico poderia nos oferecer ; agora toda inércia e serenidade, atingiste o teu nirvana ; percebo o sangue nos meus braços lanhados por tuas unhas que apenas eu sei resultado do prazer supremo , não do medo nem do tolo apego á vida que sempre censuraste , pois toda maneira de amor vale a pena ; entre nós, a vida tangenciando a morte anos e anos ,em que te completava e seduzia, pelas mãos mais fortes e precisas já vistas nas tuas andanças pelo mundo . Descobri a proximidade de viver e findar-se , no momento do gozo , onde morremos para nós mesmos e para o mundo na brevidade casual e humana que nunca te satisfez. Escolheste hoje, o gozo supremo , sob este céu sem nuvens e um sol agora meio escorregadio para a curva do horizonte,deslizando,como indo ao teu encontro, no cemitério marinho .
Ligo o barco ,faço- o descrever um adeus em larga e preguiçosa parábola ; sigo sem olhar a esteira do meu caminho , vezo e sina de vida breve .
Conto de André Albuquerque
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sexta-feira, 13 de julho de 2012
mnemosine
* comentário a um texto da vânia lopez que. carinhosamente. faz o favor de ser minha amiga preenchendo os silêncios da escrita com palavras de incentivo ao meu louco amadorismo de tentar escrever
Autor: Sampaio Rego
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quinta-feira, 12 de julho de 2012
basta um olhar atirado ao peito
Autor: Vânia Lopez
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quarta-feira, 11 de julho de 2012
carochas, bicicletas & biplanos - 26
Só há bem pouco tempo é que descobri um certo tema recorrente em todos os meus escritos. Todos. E não sou eu. Não escrevo sobre mim, mesmo que o faça na primeira pessoa, como acontece na maioria das vezes. É sempre sobre outro eu que não exactamente eu. E quando coloco esses textos em locais virtuais sujeitos a comentários, esses mesmos comentários, leituras e interpretações levam o sentido do texto a paisagens novas nunca sonhadas por mim. Isso dá-me um certo prazer, embora nem sempre, ler o que outros lêem daquilo que escrevo. Confesso que brinco muito com a realidade e a memória, partindo do real para o pressuposto, do normal para o absurdo, daqui para ali e a viagem de volta. E o real tem tanto de improviso e impossível que não precisa ser inventado. Tudo existe para ser observado. Saibamos como.
Jul. 12
Autor: Carlos Teixeira Luís
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segunda-feira, 9 de julho de 2012
Poema dos três cachimbos
essa intercalar voz rouca de telefonista
o meu nipónico desejo por às terças a rodos cintilante
e aquele propício segurança do parque de estacionamento
em aceradas e concretas suspeitas de
.
Poema de MarioRevisited
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Ela dança...
sexta-feira, 6 de julho de 2012
[...descansam as amendoeiras do inverno
descansam as amendoeiras do inverno
com alguns pássaros escondidos pelos ramos vazios,
vazias as mãos que seguram todas as águas por momentos,
vazio o dia que se atormenta ao se esconder,
vazio o beijo, dir-me-às,
e como é bela a amendoeira em flor pelo inverno,
renova-se,
vazia a nudez dos nossos corpos, dir-te-ei.
Salso o mar que as brumas esvaziam,
quão distantes as cousas por escrever,
talvez o amar, talvez a saudade,
cruel olvidar que se adianta a tudo, eu sei.
…
[… e hoje, amanheceram-se repentinos os ventos a norte,
apenas eles conseguem despentear as ondas,
apenas eles me acordaram distante,
que eu crepite, que eu arda...]
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"Acesso.."
assim, ao tempo. e descaso retrátil, em obtuso erro (ao)que te compreende o provocar
ao olhos, o exemplo.
em leito privado qual, conto. e(este..) fim!
vê. esta linha que te devolve à canção inteira de um outro dado/supor
(suponha..) às vezes insanas da história mais breve que um dia, te absorveu
suponha os teu passos em lados opostos. e livres. de ti
em derredor
e
queira..
minha linha desfeita ao que te aguarda o exercício
queira ocupar-se de gravuras
a um. ensaio de presságios
qual ímpeto que te (ora/ou-outra..)serviu
à luta mais eleita(a: aceita de ti.)
ou império..
convulsão e entrevista acima da minha tola/total impressão
e conforto
seja-te(lei) ao total esboço que(,sim!) darei o exemplo
oh minha,
magdalena..
desde ao castelo de ar
árido controle deste credo e período composto
se for..
a ser-te. aos poucos
minha febre que te desnivela o veto
minha boca calada da toda mentira privada de ti
minha letra criada
em chamas
em queda e lápide de forma que te aprende
tal(à)
esta
fé..
e,
nada te compara ao lado em outro ponto qualquer
(nada! do que te ser/ter em outro corpo, que não
o teu.)
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quinta-feira, 5 de julho de 2012
História Sucinta da Antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (U.R.S.S)
Martelo
e
Foi-se
.
Poema de MarioRevisited
carcohas, bicicletas & biplanos - 25
Não vi o filme de Sam Mendes de 2008, com Leonardo di Caprio e Kate Winslet. Mas confio no realizador para filmar esta história digna de ser realizada, de enredo suburbano e tristonho, realista como se atribui quando a alegria de viver não é convidada para dançar.
Depois do romance, não tardarei a atirar-me aos contos do escritor, editados cá pela Relógio D’água, havendo essa oportunidade.
(Jun. 12)
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quarta-feira, 4 de julho de 2012
carochas, bicicletas & biplanos - 24
Uma livraria nas instalações duma antiga fábrica. Tudo em metal. A escada para o primeiro piso. Um espaço amplo, onde o livro se sente com dignidade. E o visitante anda por ali. Vendo e mexendo. Inserido num complexo de ateliers e escritórios, com ligações à moda e às artes. Edifícios entre a ruina, o antigo, o pós-moderno, há uma frescura apesar da estrada de paralelepípedos centenários que nos obriga a sempre um passo em falso como que atravessando uma ventania ou outros ventos simbólicos que se referem a quando a altas horas da noite o equilíbrio das pernas é titubeante devido a alguma excessiva reserva etílica no organismo.
Uma livraria para ser visitada como local estranho e sublime. Para se estar e não apenas passar. Daqueles locais em que apetece que anoiteça e as horas se instalem como gatos furtivos e lentos. Ficar por ali na conversa. Sobre livros. Que se sabe que é sobre a vida. Tudo é sobre a vida. Venha de carocha VW do outro século. Venha de bicicleta pasteleira e ferrugenta. Venha de biplano guiado pelo barão Von Richthofen. Mas venha ler e estar à Ler Devagar. Em Alcântara, não muito longe dos bares. Tropece e caia por ali. Nas páginas dum belo poema ou nas ruas escuras dum livro de viagens. Vale a pena a viagem. Pode ser que me veja por lá. Se for, toque-me no ombro e beberemos uma ginginha ali por perto, para os lados do largo do Calvário.
(Jun. 12)
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terça-feira, 3 de julho de 2012
[...e tantas foram as manhãs que me escureci
e tantas foram as manhãs que me escureci
sem me amanhecer,
cousas que me habitavam, promessas fossem,
da sede que não se estancou, arribaram-me desertos.
… E se por um beijo teu que fosse,
Mesmo estranho e provisório,
Mesmo nesta vida que jamais me modificará,
Me desabitasse de vez,
Haveria de me lançar do promontório
Que um dia desafiei. Cumprir-se-ia silêncio.
Cessar-me-ia.
… E tantas foram as noites que não presenciei
O teu sonho interrompido.
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segunda-feira, 2 de julho de 2012
Insensa Tez Revisited
ninguém sabe porque escreve
ou porque o céu desflorou a virgem;
ou quanto sal nesse beijo nos foi
que a ampulheta virou rosa
pegou de assalto a velha locomotiva
e nesse instante tu sorriste;
chorem por mim que eu só quero
____________o que dói ou não existe
.
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carochas, bicicletas & biplanos - 23
E haverá de ser sempre assim. No poema morre-se várias vezes e ressurge-se vezes sem conta. A figura poética é alguém que ou não morre ou morre sofredoramente quantas vezes o autor queira. A própria Literatura um vão desejo de imortalidade, quando não de mortalidade em vida. Aqui pode-se morrer antes de nascer. E depois ressuscitar mais além. Querem que dê exemplos? Vá, vão lá pesquisar. Saibam que dá um trabalho dos diabos. Por isso se poupa na pesquisa.
Fui rato ave de rapina urso crocodilo de bairro vi ninfas ou parecido amei oliveiras e muito mais antes que o dia nascesse
Acusa-me de usar a prosa e poesia na mesma frase, no mesmo texto, na mesma sinapse. Faço-o por impossibilidade. É assim que gosto, sei e quero. Pune-me. Expulsa-me. Faz o que quiseres.
Já fui street boy até ás finas e tecidas roupagens da fria madrugada e sobrevivi, não muito bem mas como foi possível. Sei lá de poesia. Vou falando e escrevendo.
Sol Poeira Rocha Caminho Nudez Sol Noite Geada Mulher Cão e Pão
(Jun. 12)
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Carochas, bicicletas & biplanos - 22
E isso da inspiração vem da religião. Uma entidade que nos envia mensagens sabe-se lá como. Hoje sabe-se que inspiração divina não é para todos. E tu queres para ti, não é? Tem calma, amigo, também eu queria. Se queres fazer poemas não esperes o além, trabalha e transpira. Trabalha mais do que nunca e depois podes dizer o que quiseres. Se sair bem, dizes que foi a inspiração, ninguém dirá o contrário. Acredita. Melhor, experimenta. Vai e faz melhor, é a lição dos grandes poetas. Eu brinco a isso, e por isso mudei este poema e nunca saberei se para melhor:
E depois de Neruda
Nunca mais o amor será tão fogo líquido e solar
chama antiga rubra depois de Neruda
Tão mulher e colina deusa de Lisboa
muralhas com dorso deitado ao rio em rubor
E depois de Neruda como fica o amor dos corpos lunares
e todo o fogo vulcão veias de leite e mel
Como ficam as mãos secas de calor em festa
e as ruas a calcorrear em corpos de suor depois de Neruda
(Maio – Junho 12)
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domingo, 1 de julho de 2012
O maçarico
Quinze minutos sem romper uma chapa que não resistiria a dez : algo errado ; uma olhada em torno , flertou com a penumbra e seus habitantes : móveis de aço com revestimento imitando madeira , ar parado , em recesso letárgico . Na parede, a foto oficial do poderoso de plantão , velhas e feias cadeiras ; numa delas,um paletó branco com uma gravata preta a guarnecer um ombro , calendários de mesa , fotos familiares emolduradas de algumas pessoas parecendo ridiculamente felizes , veladas pelo silencio obsequioso e ladeando computadores desligados , no sono de pálpebras escurecidas .
O cilindro de acetileno, mais leve ,contrariava as expectativas , começando a dar sinais de cansaço e esgotamento . Agora , pegar o outro cilindro amarrado no bagageiro da bicicleta , escondida num canteiro, lá na rua. Praguejou , emputeceu-se em surdina na fúria seca e estéril .A noite , em primeira infância, repleta de possibilidades , deslizava sob os ponteiros dos relógios de parede e de pulso,na marcação do tempo desperdiçado .
No terraço, o vigia idoso sentava, escorando encosto e pernas traseiras da cadeira contra a parede , arriava a aba do quepe sobre os olhos , retomando a longa peregrinação de trinta e quatro anos , em busca da grande milhar jamais sonhado do jogo do bicho , de animais fugidios tal a matéria que tece os sonhos , sempre de laços soltos , a desmanchar-se e refazer-se, até a consciência recoser tudo . Na mesinha ao lado , caderneta e esferográfica já destampada ,aguardando o palpite feliz.
Um muro pálido e gretado, ainda não era obstáculo para Eufrásio e o sonho da grana a vinte metros de distancia .Trocou de cilindro, testou a chama e prosseguiu a faina desbastante no metal que não se entregava.
Outra olhada para os relógios de parede e de pulso . Dalí há vinte minutos , o foguetório de ano novo e a liberdade de trabalhar com o gás mais aberto . Agora , ao segundo tempo do jogo de arromba ; a um palmo , alegria e dinheiro , a fuga da vida merduncha e abespinhante , uma respirada acima do sufoco .
Da sacola, tirou a garrafa de cachaça ; na boca ressequida pelo medo, um gole decidido e brusco.Esperaria o início do foguetório. Roma não se fez num dia , aquilo tudo lhe custara um mês de trampo ; avaro na confiança ,ninguém além dele mesmo e o escapulário da Senhora da Conceição , que beijava tremulo , antevendo a misericórdia colossal da Protetora, compreensiva da aflição com que esperneava para sair do buraco , aquele dinheiro a redimi– lo da pobreza e das desgraças menores á reboque ; imagina , até cornudo se tornara , pela mocréia imprecadora ; tratando - o de preguiçoso e cachaceiro até aboletar-se no caminhão de Liberato, o mineiro branquela , macio, risonho e de língua enrolada , á essa altura,nos quintos dos infernos, de brasilsão afora , traçando- a feito galo , tal foram flagrados na boléia do caminhão , nus e felizes ; velhos ódios , mortos de inanição pelo tempo .
Sequer um motel ; sem – cerimônia total , chifrado á frio .Sem muita convicção , ainda bateu mão á faca , mas o peso da idade colocou perguntas de difícil resposta ; a primeira, se valeria a pena o furdunço pensado : ter de esconder-se da possível vingança de gente que sequer conhecia , vinda não sei de onde ; segundo , mulher galheira hoje, tava mais que bem amparada ; homem virou mercadoria sem valor e sem regateio ; preso , teria de virar-se com os advogados oferecidos pelo governo , logo ele , que nunca acreditara em nada que não lhe saísse suado de dentro do bolso , até agora , nesses sessenta mal vividos .
Mais uma lapada ; a cana desceu – lhe incandescente , explodindo no estomago em fúria vulcânica ; subindo, atiçou-lhe o fogo meio morto do cérebro , que começaria a ratear um dia e não mais pegaria nem no tranco da pinga. Lembrou do fim do velho pai e benzeu-se . Outro olhar ansioso para os relógios , agachou – se ; acocorado trabalharia mais relaxado . Pior a emenda que o soneto : do cilindro reserva , um chiar fino e humilhante .Mesmo testado e recarregado ,a válvula liberava aqui e ali , um débil e azulado lampejo de angústia sussurrada e intermitente .
Meia – noite , os fogos pintavam o céu escuro , agora rendilhado multicor na janela e os sibilos seguidos de explosão, abafando os gritos da multidão ao longe . Válvula aberta ao máximo, o lampejo engrossou um pouco , mas a área de luz ao seu redor , foi aumentando e isso poderia ser muito ruim , chamando a atenção do velhote , caso despertasse .Cogitara uma parceria propinosa com o vigia ; mas percebera apenas orgulho babaca de passar trinta e quatro anos e seis meses , dormindo numa cadeira de repartição pública, confessado enquanto ele fingia aplicação na lanternagem daquele passat em petição de miséria , na oficina do Matuto.A cada um , conforme a sua imbecilidade, filosofou entre dentes.
O mesmo sujeito , de graça e ao acaso, falou do caixa automático dentro daquele prédio antigo e maltratado, a dois quarteirões,na hora de pagar o conserto , com um talão de cheques zerado . Da idéia ao plano , apenas meia hora a matutar sobre a vida . Na volta do imbecil , embolsou a mixaria em espécie, decidindo onde e quando , puxaria o pé da merda . E tiraria de vez , claro .
A alma do acetileno minguava , a chama sequer expandia em abertura máxima .
Retornara ao filete de luz , quase chama de isqueiro . O desespero, saía do seu canto escuro infiltrando – lhe a mente ; pensava em ziguezague, uma estranha fé lhe invadia a natureza , empilhando - se por cima de tudo : ir em frente , o mundo muito lhe devia ,era credor de muita coisa , vivia uma vida cada vez mais aparentada com a morte , ir em frente , de qualquer jeito . O tempo avançou e estancou em parada brusca , no relógio de parede ; falta de pilha ou cansaço , palavra chave daquele universo estagnado e mesmo assim , ridiculamente bem posto . O relógio de pulso continuava ; sincronia perfeita com uma angústia suada e tresandando á cachaça .
O salão onde ficava o caixa , de alto pé direito, tinha recessos agora subitamente iluminados e logo escurecidos pelo foguetório ; via em relances os terminais de consulta desligados , tal animais postos em sossego pela escuridão , vigiando-o de suas baias.
No relógio de pulso, meia – noite e quarenta . O foguetório , a essa altura morto e enterrado, deu lugar á boa e velha lua que não mais lhe pacificava a natureza agitada e embotada de aguardente . Agora , restava arrancar a chapa no bico da talhadeira.
A lâmina avançava e recuava ; uma obsessão em aço . Retirou da sacola a garrafa do conhaque reservado ao descanso . Um gole do tamanho da angústia , da frustração , do medo do fracasso e do medo de ter medo. A mente girava , o corpo acompanhando , ensaio de cambalhota sobre o abismo .
Adormeceu . Um bico de maçarico frio e uma garrafa de conhaque, vigiavam – lhe o sono profundo e tranqüilo. Ao amanhecer , preso , sem oferecer resistência , por dez policiais portando fuzis e colete á prova de balas . Na saída do prédio , a alma vazando pelos olhos, na dor de cabeça do ressacante fracasso ; chutou nos testículos um fotógrafo que lhe disparou um flash quase á queima – roupa , levando o primeiro empurrão do tira parrudo e sisudo. Reviravam-se a alma e o estomago dolorido e faminto .Entrou no camburão algemado, na dignidade ainda ébria e empertigada .
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Talvez
Um vislumbre de volta de quem nunca foi. Registros de um Lápis sem ponta, faz de conta que somos heróis, que somos bedéis, berberes de um deserto de inspiração e então, talvez esses versos sejam esquecidos, ou nunca saiam de moda.
Tremula entre os dedos a incerteza, o medo a insegurança, alimentos de uma coragem cega e voraz. Mó de um moinho de vento, talvez sejam como a roda, que ninguém sabe quem inventou. Talvez seja apenas uma teoria “quixoteana”.
Talvez sejam como eu sou.
Caminhando pra onde eu não sei se vou.
Autores: Lápis sem ponta e Toth
Gosto de alguns autores aqui no Luso, claro, que sem desmerecer ninguem, muitas vezes me falta tempo para ler a todos e com mais frequencia.
Bem, recebi uma mensagem do Poeta Toth, que tentou postar um comentário no texto PRESENTE e não conseguiu; e um poema, que tomei a liberdade de diluí-lo em um texto [Nosso].
Toth, agradeço-lhe imenso as palavras de incentivo e o "presente", que deitarei a seguir para o deleite de todos.
(Abraços)
Lápis sem ponta
"Um dia talvez esses versos sejam letra morta
Ou apenas mais uma porta
Quem sabe se de saída ou de entrada
Quem sabe o primeiro passo na estrada
Ou aquilo que não vale nada
Lápis sem ponta, faz de conta
Talvez esses versos sejam esquecidos
Ou nunca saiam de moda
Talvez sejam como a roda
Que ninguém sabe quem inventou
Talvez sejam como eu sou
Caminhando pra onde eu não sei se vou"
Toth
Ler mais: http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=225780&com_id=872405&com_rootid=872405&com_mode=nest&com_order=0#comment872405#ixzz1zOc5ENGk
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[... e quando me morro contorce-se o cansaço
e quando me morro contorce-se o cansaço
Que se encabrita pela pele já gasta.
E morro-me tantas vezes como as ondas do mar.
E morro-me tantas vezes longe da terra
Que sangra desnudada dos queixumes
Deixados pelo grito meu, esquecido no meio das searas.
Fulgem repentinas tempestades que se acalmam,
Quando ressurge o fugidiço poente pela proa,
Regressam os recantos que ainda sobrevivem.
Agonizantes.
Morro-me assim, tantas são as vezes,
Quão longe estou das orquídeas tuas.
Quanto mais perto do mar estou, mais longe de ti sou,
Assim me morro. Pudesse eu morrer-me de vez.
O coração?
Adiei-o.
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quinta-feira, 28 de junho de 2012
carcohas, bicicletas & biplanos - 21
Vamos ao jardim, a menina calça-se e põe o seu chapéu de sempre, escolha dela. Saem. Caminham na rua até ao seu fim, atravessam uma parte de mato e uma avenida movimentada. O homem antes de atravessar a estrada, testa mais uma vez com a filha as regras de se atravessar uma estrada em segurança. A menina age como qualquer criança com o seu foco no jardim e os seus estímulos. Não liga nada ao seu pai. Mas o homem sabe que a repetição é amiga da retenção. Sucedeu assim com ele e com o seu próprio pai e irá suceder com a geração seguinte. Atravessam um parque de estacionamento sem carros junto ao campo de ténis, um pequeno lago onde a pequena descobriu um sapo preto num destes dias, o campo de futebol cheio de gritos e chutos, a zona dos escorregas e balouços. A menina fez logo uma amiga e brincaram por uma boa hora inventando novas formas de explorar um simples e monótono escorrega. O homem refugiou-se numa das sombras vigiando-a e cumprimentou um velho conhecido que passava na relva lá ao fundo. De vez em quando semicerrava os olhos e escutava os sons, isolando-os do resto que observava. Pássaros, gritos de crianças, pais que dão ordens como treinadores, automóveis e mais pássaros.
Foi difícil arrancar a miúda do parque. Não quis ir ver os animais. É realmente uma chatice ver patos, galinhas, cabras, uma vaca, dois burros, um cavalo, dois galos e um gato, da cerca sem lhes passar a mão por cima. Já passou da hora de entrar no recinto dos animais. É hora de voltar. O sol aperta. A filha está cansada. Atravessam uma área de relva e a avenida e entram num pequeno supermercado. Compram batatas, leite, massa e salsichas. O pai dá o dinheiro à filha e ela paga. Confere o troco e aceita. Dá as boas tardes e sobem uma rampa para o prédio. A miúda abre a porta do prédio lembrando-se do código da porta com destreza e sobem no elevador até ao último andar.
Vai lavar as mãos e brinca um pouco que o pai vai fazer o almoço. A menina liga a música no seu quarto. O homem abre uma cerveja e começa num bailado de tachos e louça digno de Igor Stravinsky. Como um poema de meio-dia passado. O homem escreve alguns poemas e por isso costumam chamá-lo de poeta.
Jun. 12
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carochas, bicicletas & biplanos - 20
Jun. 12
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terça-feira, 26 de junho de 2012
carochas, bicicletas & biplanos - 19
Um exemplo desta poesia. Um poema da poeta - Nobel da Literatura de 1996. Um mundo mais pobre, sem dúvida mais pobre, pobre também o lugar comum da expressão mas a sua poesia dança com uma certa saudade de quem existe para lá da sua existência física. A poesia como árvore plantada no nosso peito. Uma metáfora para quem não abusava delas. Uma poesia de observação, ironia e simplicidade, ou nem por isso.
“EXEMPLO
Um vendaval
despojou todas as folhas das árvores ontem à noite
com a excepção de uma folha
deixada
a baloiçar sozinha num ramo nu.
Com este exemplo
a Violência demonstra
que sim, senhor –
gosta da sua piadinha de vez em quando.”
Lamento a repetição para quem não gosta de vira o disco e toca o mesmo. Eu repito, tenho esta necessidade, para observar melhor. Este poema foi traduzido por um dos autores do blogue: Poesia & Lda, ambos poetas de excepção. João Luís Barreto Guimarães e Jorge Sousa Braga, médicos de profissão e poetas com obra editada, amantes da arte da palavra polida, crime não conhecer. Quando publiquei no Luso Poemas esta citação, recebi este comentário que me sensibilizou (a propósito do poema da poeta polaca). Republico-o:
“Querido amigo,
compartilho da sua dor pela morte de Wisława Szymborska. Hoje, o meu quarto também parece mais escuro, pois esta grande poeta morreu. Os grandes poetas são assim: acendem luzes iluminando cantos escuros da nossa alma. Nas semanas passadas, eu publiquei aqui no Luso 4 poemas de Wisława Szymborska (Nada acontece duas vezes, Amor à primeira vista, As três palavras mais estranhas, Gato em apartamento vazio). A sua poesia vai viver para sempre.
Um abraço,
Manuela”
(Jun. 12)
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sábado, 23 de junho de 2012
...moço bonito
Autor: Vânia Lopez
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quinta-feira, 21 de junho de 2012
é tudo mentira... ou sim os dois
na caneta só palavra
deixar a alma passar cheia de capítulos
no instante que não falta nada
manter o coração inocente
ser feliz aos poucos
entre o chá e o jantar
desviar das nossas roupas juntas
enfrentar o céu e o inferno
(nos olhos) o mesmo endereço
uma cor que ruge aparecendo na boca
invadir seu maço de cigarros
oferecer preço ao silencio
despir o sorriso no velório do teu eu
orar em outro idioma
comentar o fim da novela
diante do céu abandonar meu corpo
sem hora marcada
aceitar uma carona sem pressa de voltar
grávida de lápis, pincéis e tesouras
ser de me imaginar...
Poema de Vânia Lopez
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carochas, bicicletas & biplanos - 18
E agora:
(Novas) Histórias do Deserto by Carlos Teixeira Luís
Histórias do deserto, porquê?
Talvez tivesse uns 19 anos na altura, trabalhava num segundo andar numa sala nos fundos dum andar com escritórios onde havia uma janela para um canto na Praça dos Restauradores em Lisboa. A vista não era muito nobre, via-se a caca dos pombos nas janelas fechadas dum velho hotel, caca dura como cimento de décadas onde os pombos faziam inclusive os seus ninhos. Esse hotel histórico veio a ser restaurado e a imagem suja e decadente dos pobres pombos foi anulada mas não da memória. Foi a olhar por essa janela fechada que nunca se abria por causa do som ensurdecedor do trânsito e da curiosidade ágil dos mesmos pombos que ia inventando histórias para não enlouquecer. Trabalhava numa espécie de depósito duma multinacional de óptica ali perto da baixa de Lisboa, onde o meu trabalho consistia em atender telefones, gerir o stock de lentes oftálmicas e fazer colorações em lentes graduadas para óculos de sol. Colorir lentes era um trabalho estranho, rudimentar e repetitivo. Mas era bom neste tipo de serviço, sustentado por um pequeno rádio e leitor de cassetes onde ouvia sem parar a minha escolha musical que me levava o espírito longe dali. Por vezes, lia às escondidas, quando fazia os degradés que consistiam em segurar as lentes numas pinças de aço e com um movimento calculado do pulso, mergulhá-las numa solução de água e químico com cor, numa das tinas de metal aquecidas a óleo. Respirar aqueles fumos diariamente durante 8 a 12 horas deixou uma marca na minha saúde. Lia e fazia isso ao mesmo tempo, escondendo o livro assim que chegava alguém. Trabalhava incansavelmente ultrapassando todas as dificuldades, nunca dizendo não a qualquer desafio. Ficava até às dez da noite, quando o trabalho apertava, não recebendo por isso. Suando as estopinhas. E sonhando acordado. Com histórias do deserto. Metáfora profunda duma condição social e pessoal.
Logicamente um tempo de imensa e profunda solidão e desencanto. Que não tinha nada que ver com a falta de gente à minha volta. Mas uma solidão melancólica que vem de dentro, sem aviso. Soube-o mais tarde, sem remédio.
Jun. 12
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carochas, bicicletas & biplanos - 17
Maio - Junho 12
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quarta-feira, 20 de junho de 2012
Presente
Farei desse tinteiro negro, uma caixa de pandora em que mergulharei a alma para que transborde palavras como big bang em tempo de criação.
Serei sim, a pena fagueira e insistente que marca o papel em branco, borrões do nosso amor, como se estivéssemos aqui, agora, maculando a alvura dos lençóis com nossas sagradas luxúrias.
E quando o vento transpassar as cortinas dessa janela entreaberta que é o nosso passado, fará tremular mais uma vez sobre a mesa em que adormeço as linhas - curvas e traços paralelos - memória que lhe peço, leve, leve sim, mas não ouse tentar apagar!
Autor: Lápis sem ponta
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Paideia
Felipe Mendonça -
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carochas, bicicletas & biplanos - 16
02 Fev.
Falhamos. As nossas democracias falharam. Produzimos mais pobres e mais multimilionários. A utopia igualitária está condenada a falhar. Os poucos diferentes não deixam diferença nenhuma para os muitos iguais. O capital tornou-se o grande papão inquisidor dos nossos dias, que já não são nossos, pois foram vendidos, trocados e emprestados a taxas de juro elevadas. Tudo falhou e falha sem parar. Falhamos todos por ainda esperar que este sistema venha a funcionar. Olhamos ao espelho e já não nos vemos. E não sabemos mais o que fazer. Voltamos a Deus e nunca tivemos nada mais. Somos os mesmos mas sofrendo muito mais. Uma das consequências da consciência. Voltamos mas diferentes. Melhores?
Chegou a hora de dar. De perdoar para não falir. Para salvar. Trocar e dar em vez de vender ou comprar. E rir com prazer e gente, muita gente. Esta realidade assim destrói-nos.
Por isso inventei este capital feliz. Foi um momento e a ideia agradou-me. Fez-me feliz por um escasso momento.
19 Jun.
Autor: Carlos Teixeira Luís
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carochas, bicicletas & biplanos - 15
“- O teu poema é tão denso que não consigo lá entrar.” Por vezes é o que acontece, a densidade de uma vida num só poema. Um nevoeiro impenetrável. Um prodígio literário, mas inacessível. E por isso, inútil. Ninguém come um pão com a densidade de uma pedra.
“- O teu poema é tão mau que nem escrito por uma criança. Se uma criança o escrevesse pelo menos um pouco do seu maravilhoso mundo teria.” Um mundo naif verdadeiramente ingénuo e irreal. Fingir realidade com fantasia. Pretende-se dos poemas e dos poetas que sejam sábios a lidar com o impossível. Se não o são, para que servem?
“- Gostei do teu poema embora o não tivesse entendido mas os poemas não são para perceber, não é?” Um primeiro passo para um poema e um poeta entrar na nossa vida e deixar marca. Um poema só, não faz um poeta. Tudo pode acontecer a partir daqui, dar um passo em frente ou muitos para trás. Por vezes, um poema é muito, noutras vezes, nada.
“- Isto é um poema!?” Mas afinal o que é um poema? Reconhece-se e não se sabe porquê. Mas aprende-se a não saber.
“- Não percebi, um poema em prosa ou uma prosa poética? De toda a forma, cheio de bela linguagem.” Nada melhor que um poema cheio de bela prosa e até o contrário. Não há fronteiras. Há fronteiras. Mas não há fronteiras.
“- Gostei mas cheio de lugares comuns, metáforas belas mas muito usadas. Cheio de beleza mas muito dejá vu, entendes?” Entendo. Aqui o poema morre ou já vem nado-morto. É altura de desistir. Largar o poema à beira da estrada, para que os abutres o comam depressa.
“- Uma porcaria, desculpa!” Acabas de perder um amigo. E o mundo um poeta. O primeiro golpe é sempre incerto. Quantos maus poemas fez Camões até acertar? Os amigos das pessoas não são os melhores amigos dos poetas. Os poetas estão sós. Só assim sobrevivem.
“- Mais ou menos uma insignificância. Sem mensagem, sem mundo, sem gente dentro, confuso.” Um contra censo: se é confuso, alguma coisa contêm. Mesmo habitando um deserto.
“- Oh, os poemas que escreves! Penso cair num exagero mas escreves expressões tão ricas e belas que fazes avançar a Língua cem anos.” Assim como Herberto Helder. E nós, em divida com ele. Saldamo-la, lendo-o.
“- Tanto dia a dia e tanta melancolia. Fica registado os nossos piores momentos nas tuas palavras. Dói ler-te. Mas não deixamos de o fazer.” Uma grande crítica a um poema. Poesia desta lê-se e ouve-se em dezenas de bandas rock, mesmo que não saibam escrever. A catarse pura sempre alimentou a poesia. Enfurecendo-a. Matando-a. Mas pondo-a a mexer. Espécie de big bang criativo e não ocasional ou caótico, se é que isso existe.
“- Desculpa lá, sei que gostas de poemas de amor mas gostavas que alguém te dissesse ao ouvido o que acabaste de escrever? Gostarias de viver esse amor como o descreves? Ou fugirias a sete pés? Então, porque escreves sobre isso…” O amor essa forma de ódio. Um bom poema de amor parece sempre uma coisa fácil de fazer mas impossível de o concretizar nós próprios. Coisa de poeta a sério. Poema de postal para oferecer a quem está doente ou em qualquer outra ocasião tradicional isso sim está disponível ao homem que conduz o arado, a mim e a ti, a todos.
“- Faltou-te o fôlego a meio, não foi? O teu poema tem o ritmo de uma locomotiva endiabrada ou duma banda speed metal enlouquecida. Se não consegues manter o ritmo, tu que escreveste, como haverá o leitor de o fazer? Coloca-se a questão, porque fazer um poema que ninguém consegue ler até ao fim, porque tem uma síncope a meio? Mantem o ritmo elevado mas faz pontuadas pausas assim como numa canção. Podemos aqui aprender algo com o Howl do Ginsberg, eu sei que aquilo é difícil de digerir mas um portento de ritmo elevadíssimo.” Está tudo dito, ou não dito.
“- Chamas poema a isso? Eu chamo: uma nódoa. Lê-se como forma de a apagar e eliminar.” Assim se lê um poema ou um livro que queremos apagar da nossa memória futura, rápida e velozmente. E depois oferece o livro. A outro e não ao mesmo.
“- Oh, que poema tão rude e cheio de negatividade! Mas verdadeiro, é tudo verdade embora chutado na cara do leitor. Vai sobreviver, penso.” Pedaços de Bíblia na ponta dos nossos dedos. Diz lá que não queres, registar assim o teu mundo todo?
“- Nunca li um soneto tão belo. Métrica perfeita e cada palavra no sítio certo. Como conseguiste?” Como foi Shakespeare, Vasco Graça Moura ou Florbela Espanca?
“- Lançar tanto vernáculo sobre um texto é como estragar uma caldeirada com malaguetas a mais. Ninguém a vai comer. Lamento. Um pouco menos, por favor.” Ninguém é Bukowski excepto o próprio. Repetir aquilo é impossível e fica muito mal. Só ele sabia. Sorry!
“- Escreves sempre o mesmo poema. Mas cada vez melhor. Acho que nunca vou deixar de te ler.” Será um poeta? Um autor? Estima-o e não o adestres. Não pode haver melhor opinião.
“- Surpreendes-me sempre. Mas hoje não. Igual. Igual.” Injusto. Até Camões chateia em certos dias de chuva e soleira quente cá dentro.
“- O teu poema é um denso pomar com tanta árvore que para colher uma simples laranja cansa tanto que não voltamos a repetir. Poemas complicados mas descartáveis. Para se ler uma única vez e cansam que se fartam. Mais um pouco e deixarei de ler poesia. Qualquer poesia.” Vai e desiste. O valor do poema é que nos ensina a desistir e a voltar. E a desistir outra e outra vez. Ensina-nos a cair, e quem disse isto? Vai e pesquisa. Quem o disse tem mais para ensinar.
“- Poema negro como a morte. Difícil de esquecer. Uma estocada na alma.” Digamos que pensei em Poe. E em dezenas de seus discípulos. Todos de negro e nevoeiro. Dylan Thomas é uma negritude á parte.
“- Oh, Camões mais Camões! Socorro!...” O problema do nosso maior poeta é o que se faz com a sua poesia, sufocando-a e repetindo-a à exaustão, quer para fins políticos ou publicitários. E ele, bardo incorrigível a tudo sobrevive. Mas dói a forma como é utilizado.
“- Oh, Florbela Espanca mais Florbela Espanca! Socorro!... Não posso ficar com uma só, a original?” Aprende-se a falar mal dela e aprende-se a imitar o que é impossível às centenas. Ai se ela soubesse a horda de seguidores, neste caso de seguidoras, era poetisa para fazer um belo soneto acerca disso. Acredito que era.
“- O teu poema transtornou-me. Marcou-me. Vou ter de o ler várias vezes. Posso demorar anos.” Talvez Poe outra vez. Dylan Thomas é outra coisa mas se calhar aplica-se também. Afinal em que ficamos?
“- Não consigo classificar o que escreveste. E não consigo parar de ler.” Um passo para outro passo e a seguir mais um passo e fica-nos a poesia entranhada, sem sabermos porquê.
“- …” O silêncio diz tanto.
“- Perfeito no sentido de que me fez escrever poemas. Se um dia escrever um poema que seja, como resposta ao teu poema, então não me importo que me chamem isso: escrevinhador de poemas ou…” António Ramos Rosa e o seu funcionário cansado, faz-nos pesar a alma, lá no escritório, lá na firma cheia de Kafkas.
“- Nunca li um poema como este. Nunca.” Nunca. Nunca.
“- Um poema tão longo quanto o cosmos. A tua respiração faz pensar numa qualquer ideia de eternidade. Como um solo de John Coltrane.” São poucos os poetas com esta respiração longa e feliz, intensa e incansável. Fora os poemas de amor, Neruda é um poeta assim. E por isso vive para sempre. Mas não dá para ler com Coltrane como fundo. Poema em cima de poema é uma espécie de caldeirada picante de mais para ser ingerida. A menos que se separem os diversos elementos e o vinho seja bom.
“- Eu queria viver esse teu haikai. E ficava lá.” Um bom haicai é um lugar para se viver a vida toda. E nunca mais o abandonar. É ou não é, mestre Bashô?
“- Poesia, mas o que é poesia.” Lamento mas não tenho opinião a dar. Ignorante - eu sou.
(Jan. – Jun. 12)
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segunda-feira, 18 de junho de 2012
carochas, bicicletas & biplanos - 14
12 Jan. – 18 Jun.
Autor: Carlos Teixeira Luís
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