Pó de Poesia - 3 anos
Blog oficial do coletivo cultural da Baixada Fluminense "Pó de Poesia":
Manifesto do coletivo Pó de Poesia
O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão.
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugáz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretencioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.
Creia.
A poesia pode.
( Ivone Landim )
quarta-feira, 30 de maio de 2012
[... e enquanto me espraio longe
enquanto me espraio longe dos lusitanos areais
em mares tão distantes, para além dos imaginados,
acorda-me alguma canção sem refrão,
de um amor para sempre arrastado pela ondulação,
amor, ou desamor que ficou algures, nostalgia ou mesmo interdição,
mas o desejo ainda se mantem, assim, assim...
Tocam os sinos a repique, ainda os ouço da partida,
como um fado que revisito na memória, que se repete,
que se arrasta sem permissão,
e que invade, que sufoca ainda mais que a saudade.
Tão longa a longitude percorrida.
Rogo pela mansidão do amanhecer, sem sons ou síncopes,
doutos os que esperam sem pressas,
e que celebram o renascer sempre anunciado, que se repete,
e se multiplica pelo tempo,
eu, renuncio-me ao acordar,
e jazo-me,
longe dos lusitanos areais em marés distantes que se espraiam
por mim adentro,
[sem fim, sem ti, assim, assim...].
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Vidas em perigo no fogo inimigo
É o fogo inimigo
Lambendo
Derretendo a terra
O morro
A planicie
Moitas nas serras
Grito na floresta
Eitos
E mais eitos
Em chamas
O beija-flor
Um tamanduá bandeira
Denunciam
Reclamam
Clamam
Um tiziu denuncia
Aos pulos
Trancos e barrancos
Revoltado
Sentinela de beira de estrada
Revoltado por tanto crime ecológico
Aos gritos conclama
Help
Help
Uma solução
De salvação
Tem fogo na mata
No topo
Nas ciliares
Na relva
Fúria de ventos quente
Circunda malhadas
Quintais
Muralharas da china
Por ali
Ninguém cisma
Em denunciar
A vida assada
Cozinhada
Em brasa viva
E feroz língua de fogo
Queimando
Assando
Expulsando tudo
Por léguas tiranas
Onde a vista alcança
Muito bicho morto
Tem ninho queimado
Goto
Preá
Jiboia
Saracura
Macaco prego
Morcego
Tamanduá
Doidos
Sem pra onde ir
E vir
Na grota do angico
Na mata do cipó
Nas nascentes do Curralinho
No nicho do guigó
Uma cobra silva
Rebolando
Tonta com tanta fumaça
O bem-te-vi apavorado
Diz que viu
Tudo partir da li
Do aceiro mal preparado
Da queimada do canavial
La das bandas do piranji
Diante de tanta produção insustentável
Parece não se contentar
Para as repetidas denuncias
Das vidas em fogo
Uma válvula de escape se acha
Um monumento de vida
O ícone guigó da Mata atlântica
Seres e vidas da mata que matam
Devoram
Atacam
Devastam
Mal tratam
Por bem prazer e deleite
Do império da cana
No consumismo de espécie humana
Contexto macabro
Que esse modelo superado de desenvolvimento
Encarna
Quando ignora nichos de bichos e florestas
Irmanados
Em festa biodiversa
Poema de Lizaldo Vieira
sábado, 26 de maio de 2012
a palavra e tua boca
o que me queima por dentro
é o silencio do céu
o cigarro que alucina em tragadas lentas
assombra-me
a palavra e tua boca
a chuva que adorna seus cabelos
costurando teu cheiro rente ao peito
teu sorriso criando eco
da vida que bate contra o chão
(do) resto que o peito consome
o que me devora saber
que o vento é o resto
num envelope fechado
o que arde e treme (é saber)
que a imensidão lá fora
é a singela mão do tempo
num envelope que voa.
Poema de Vânia Lopez
sexta-feira, 25 de maio de 2012
[...satura-me o sonambolismo com que a noite se veste
satura-me o sonambulismo com que a noite se veste
e mesmo que se disfarçe no canto de uma sereia,
mantem-me o olhar distante, não me afaga de mar,
e tudo acontece sem inicio, repentinamente
sem cor, sem tempo delimitado.
Desilumina-se o céu, e o cheiro da terra
é moldado pelas mãos no barro, mãos sem sina,
sem ternura, mãos de pedra,
e a dor pergunto-me;
não a sentirei mesmo que me atravesse o peito
e se crave na mais profunda saudade?
Dá-me a chave da porta por onde a noite entrou,
desferrolha-a mesmo,
racha-a de vez, relembra-me como é
a luz do dia em sol,
e, enquanto o céu azul se inunda de mar em cor,
repara nas núvens, velas enfunadas,
soltas,
vogando sem pressa, sem pressas,
esperando, que o destino aproe a sotavento.
Queimam-se as imagens de tantas as miragens nenhures,
nas recusas a este crepúsculo, regurgito da luz frouxa,
impludo-me então,
mais uma vez.
[que a última seja...]
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Na estrada
O velho ônibus parou e o motorista abriu a porta . Subi , segurando a alça de alumínio . Segui em frente .Mais um naquele pandemônio . Carro lotado . Índios aculturados , aspirantes á garimpeiro ,garimpeiros ostentando um sorriso dourado , rostos vincados pelo sol e anos de bateia. Pairavam cheiros de todo tipo , crianças choravam , um velho reclamava e praguejava , ninguém entendia a sua ira cheia de cuspe e o l h o s vermelhos , injetados .
Arranjei um canto no fundo do carro e aboletei – me.Ao meu lado, uma mulher morena , de idade indefinida, olhos castanhos .Na cabeça , um lenço estampado evocava as longínquas calçadas de Copacabana . No colo, uma velha bolsa de lona . Um ocasional olhar de soslaio , por cima dos ombros magros . Do rádio de alguém , Teixeirinha enlutava o coração , de Amazônia afora . Que país ! Pensei nas últimas horas e nas estrepulias da guerrilha : quem não debandava , morria com tiro na cabeça, feito cachorro doido , pelo Brasil grande , em nome da integração e integridade nacionais, quem sabe, por Guevara , Mao, Trotsky , pelo socialismo, pelo declínio do Ocidente , sabe-se lá mais por quem e porque .
Vinha já há dois dias fugindo do A r a g u a i a, vivo ainda, graças ao cadáver de Heriberto , tombando baleado sobre mim , numa matança sádica e frenética . Sequer checaram os mortos. Aí , eu não seria o único para contar a história .Alisei o bigode postiço e o ray-ban . Puxei o chapéu sobre a testa. Camisa estampada , calça de brim : posseiro da cabeça aos pés. O calor castiga e entorpece . M e u cochilo precário e solavancado, termina por estancar num ponto , onde sobe alguém vendendo refrigerante. Nunca o imperialismo ianque foi tão festejado : bendita coca-cola de goela abaixo e volto ao torpor suado e trepidante naquele fim de mundo. Do banco da frente , um garoto ri , dedinho em riste e desdentada inocência:
- Mãe , o bigode do homem tá caindo ! O suor tá desmanchando a cara dele ! - Cala a boca , menino !
Deixa o rapaz cochilar – trovejou ao meu lado , a mulher de lenço.
Ajeito o bigode e enxugo o rosto na manga da camisa . A mãe , um olhar frio e doloroso feito facada . O garoto , matraca fechada e vez por outra , um olharzinho maroto para o rosto que parou de desmanchar-se.O sobe e desce do ônibus é interrompido pela voz anasalada que deu bom-dia e subiu no carro : um jovem capitão do Exército , cara suada de b e b ê johnson e olhinhos d e c a s c a v e l .C o t u r n o s brilhantes , seguidos por três soldados com cara de cachorro sem mãe , perdidos de arma na mão no meio do nada sobre quatro rodas , vindo em minha direção. Bebezão continuou a falar . Na mão , um cartaz com fotos de Terroristas Procurados.
_ Bom dia. Sou o Capitão Felisberto. Algum dos presentes viu ou conhece alguém daqui ? – aponta o cartaz, o dedo manicurado e lustroso. Um balançar de cabeças, um não generalizado, traz-me a respiração de volta . No olhar de serpente , o chocalho do ódio : - Olhem com cuidado...esse aqui ó, Carlos Borromeu Linhares , o Téo , pode estar por aí, por perto .Escapou fedendo, esse terrorista safado .Em São Paulo , jogou um fusca cheio de bomba num quartel , matando um sentinela de serviço. Olhem bem ! – o dedo lustroso cutucava a minha cara assustada da carteira de estudante.
Olhou os soldados, ordenou a descida ,saíram todos. Entraram num jipe , pegaram a estrada de Marabá. Brasil , ame – o ou deixe – o . Impossível, de tão simples. Mais duas horas de viagem e chegamos á Marabá. A parada do ônibus cheia de gente, em outras pessoas a mesma cara de enfado e tristeza nos adultos, a calma resignada dos velhos, dois gêmeos chupando picolé. Escafederam-se a minha companheira de assento e seu garoto. Nem sinal . Bem , e agora ? Sozinho, leve , muito leve,leve como a pluma, que fazer senão pensar ? Atravesso a rua poeirenta, entro no bar do Miguel e peço uma cachaça. No meio do gole, um voz anasalada e já familiar me ordena erguer as mãos.
Conto de André Albuquerque
quarta-feira, 23 de maio de 2012
Marcio Rufino e a Dita
Dita
Quando eu nasci
A dita não era cuja
E sim dura.
Aos poucos ela foi fingindo que amolecia,
Mas algo embaixo ainda ardia.
Hoje a dureza da dita
Está escondida
Omitida
Embutida
Nas línguas
Nos sorrisos
Das titias da política
Nos bons-sensos dos patrões
Na proteção de alguns falsos guardiões.
Que a gente supere
A sopa amarga;
O dinossauro na pele de sapo
Que a gente tem que engolir.
Todo o poema engavetado
Pelo dedo decepado,
Mas ainda em riste
Levantado pela dureza triste
Da dita.
Marcio Rufino
ensaio das indefinições
o poeta é qualquer coisa
que se move
seta
pedra
para-quedas
paralelepípedo
o poeta é fogo ou algo
que se bole
mato
visgo
bússola
aneurisma
o poeta é tudo quanto
faz faísca
risco
seixos
anagrama
luz do sol
o poeta é tudo
quantas voltas
se lhe dê
vida
morte
sombra
luz
copo de coca-cola
ferida cheia de pus
esconderijo
abrigo repulsa
e nada do que digo
o poeta
é doença
o poema
é úlcera.
Poema de Caíto
segunda-feira, 21 de maio de 2012
[...e como sinto o vento que insiste
…
e como sinto o vento que insiste em levitar-me pelas falésias acamadas como núvens escuras dispersas,
e como sinto o vento tocando-me na face
pelo sorriso desta manhã adormecido,
adormeceram-se as longas distâncias,
adormeceram-se as longas histórias,
adormeceram-se as súplicas.
E como sinto o vento que insiste em repetir-se levemente,
como um linho que me toca,
qual algodão,
e como sinto o vento espraiando-se pela claridade
nesta terra castanha escura que piso,
como o sinto.
Reluzem as pegadas que o vento não levou,
o que restou do amor, talvez,
que as monções resistam nas tatuagens eternas do mar,
que a memória resista como o vento que insiste,
insiste,
ah... como insiste o vento em levitar-me de mim.
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
domingo, 20 de maio de 2012
caso não haja depois
pode entrar como um grande soco de nocaute ou invadir com delicadeza todas as horas, todos os dias. ofereça seu ombro à minha sombra, afugente, me faça sentir sua falta, que transporto na memória nossos dias, vingo- me. banhe-me com surpresas, solidão e uma caneta que crie caminhos inesgotáveis, entardeça em uma igreja, rapte-me como se fosse o Mississipi, ferindo-me com as coisas que disse, faça promessas de flores, enlouqueça a realidade. cultive as pétalas que caem no sopé das montanhas. Seja um apache em meu coração, nunca se renda. aprendi a comer espinhos, tocar as ondas, mover-me como o vento, alçar voo, pega-ló através da neblina. encha o peito de bordados, ruas, praças, fogo, água. enquanto estiver dentro da sua cabeça, caso não haja depois, cuide da minha vida como se o cabelo sem a pele pudesse se quebrar...
Autor: Vânia Lopez
cá entre nós
devidamente penteada
maquiada e bem vestida
um bom salto para dar moral
(de primeira necessidade)
dou uma geral no quarto
abro a janela para ventilar
(saio) pronta para me tornar amiga de infância
da atual do meu ex
felicidade maior que o ser humano pode sentir!
(só quem tem ex pode entender)
já não tem a menor importância (verdade)
num rompante decido deixar a fome na África
Beethoven e Wagner proibidos
Vodca muita vodca, água nem pensar!
quero matar.
amizade com atual do ex?!
é como futuro: não chaga nunca!
beira a desumanidade...
(é pouco provável, mas nunca se sabe)
tão mais simpático olho por olho...
misturando “você” com “tu”
chego perto e sussurro: “vadia” (fica divino)
junto os flanelinhas para te chamar de tia
numa questão de bom gosto
indico uma dieta da lua
numa fazenda ao sul do Afeganistão
(dificilmente vai encontrar uma vaga para estacionar)
oro com força para que ela permaneça nos 34
com cara de 100...
no dia seguinte mando um bilhetinho:
“amiga, se no pileque fiquei estranha, esqueça!
foi tudo para facilitar... tive medo de você cair
quebrar uma perna. esse sofrimento não tem explicação...
antes eu do que você. (juro)”
com tal convicção que até eu mesma acredito!
(aprendam) fica mais barato e não se perde o ex!
cá entre nós (Deus):
Elegância é isso, gente!
fico esperneando de alegria...
e não se fala mais no assunto.
Poema de Vânia Lopez
Ah, é?
num quase-silencio
juntei aquela saia preta justa
de causar reboliço quando passa
o ursinho de vítima de terrorista
mas o que mais dói é a jaqueta di-vi-na
(de contrabando)
o sobretudo bordado por criancinhas da Indochina
a camiseta de passeata pela paz
o óculos finíssimo de camelô
a meia extremamente extravagante
que tu comprou na loja da esquina
rasguei (todas) as nossas fotos que atravancavam o PC
a tua amor, limpei com saliva
mais redonda que cachaça, desapeguei de tudo!
não pergunte por quê...
(puro atraso de vida)
consegui colocar tudo na bolsa importada de Marrakesh
bíblia, terço, jejum, o Corão
naquela bolsa companheira de tantas aventuras
que a alça não caí e o zíper não emperra
tudo na mais perfeita ordem
nesse dia coloquei meu vestido mais sexy
(de ressaca) enviei um buquê de lírios-de-santa-rita
num míssil de generosidade
doei tudo para um bazar de (ex)
com dois tubos de cola
entupi as fechaduras do bazar...
e tome vingança.
esse tipo de vingança é um verdadeiro primor,
(a ser aperfeiçoado, se for o caso)
(vingança) dedicada às bonitinhas
que se engraçam com ex-namorado
... que elas prescrevam (todas)
Glória essa que saberei agradecer ouvindo Vivaldi
(coro) gentilmente Amém!
Poema de Vânia Lopez
sábado, 19 de maio de 2012
da mão ao verso em ciclo eterno
as mãos são versos:
nasceram
versos,
gestos,
gostos,
gritos
sem valor;
pousam
e pesam
sobre os olhos...
tornam-se agudas,
(tornam-se grito)
tornam-se mudas
(tornam-se mito):
nada posso dizer
(criticá-las)
se elas querem
vôo,
malas
se preferem
vidros,
vultos
se me têm nas mãos,
ventres.
Poema de Caíto
sexta-feira, 18 de maio de 2012
me venha sem saber... (ou) antes de ir, venha cá!
talvez eu seja só uma menina
com os pés entrelaçados na meia soquete
que na saída da escola
diminuí dois dedos da saia
acariciando um sonho ou dois dentro do uniforme
tentando esticar o braço e tocar a lua
que ainda deita na sua cama
e acha o melhor lugar do mundo
orando baixinho pelos cantos dos cafés pintados de dourado
deixando em paz à noite
de pileque no carro
com o vestido vermelho vibrante
um par de sapatos de couro
esperando um flagrante
mas se Deus, ao invés de me dar o inferno
fique aguardando minha chegada
eu prometo de qualquer maneira
a partir de amanhã
não passarei mais na sua rua...
antes de entrar em casa
que a sombra alinhe meus cabelos
enquanto ainda não é mentira
(amor, meu ex-grande amor)
quem sabe eu seja só uma menina...
Poema de Vânia Lopez
Assinar:
Postagens (Atom)