sábado, 7 de novembro de 2009

Mãe D'água


As gotas caem no azul


Tão indecentes como um beijo na boca


Molho o meu corpo


Como se a água fosse saliva


E brotasse dos orifícios da minha pele.


O velho rabo de peixe mexe e remexe


A espuma de água-doce.


Mas a benção desse refrigério


Está na humildade em que eu


Bebo do leite de seus seios


Que foram feitos para amamentar crustáceos.


Água; verdadeiro corpo da terra.

(Marcio Rufino)

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Paradoxo


Agora que te conheço
Nada me falta
Tudo finda

(Ivone Landim)

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Recomeçar


É só uma sombra sob a árvore
Vazia desde o dia em que partiu
Mas esconde as pedras encabuladas
Que amargam minhas lembranças

É só uma sombra que clareia meu passado
Que aflige os dias inexistentes que virão
Trazendo a saudade que se acumulou no tempo
E que cortará a penumbra da minha gaiola

É só uma sombra que balança perto da varanda
Movida pela velocidade silenciosa do vento
Onde folheio as páginas viradas
Que capotaram no caminho para a felicidade que eu não acreditava

É só uma sombra que se estende por mais um dia que espero minha partida
Partida que me encontrará sentando à sua espera
Sentindo meu olhar perdido nas sobras que ficaram na estrada de areia
Saboreando o chiclete de fruta
Fruta da minha terra

(Arnoldo Pimentel)

domingo, 25 de outubro de 2009

A morada dos raios de fumaça


Pasmem os amantes da paz, pois eu a conheci em meio a uma guerra: Linda, irresistível, simplesmente maravilhosa com seu traje branco amarelado pela poeira da estrada.

E com sua cútis tão branca quanto a pureza dos arcanjos celestes, que se alimentam de luz, ela fisgava a curiosidade daqueles que ansiavam encontrar a felicidade. Como eu fazia parte desse ansioso-desesperançado grupo, não me contive, quis logo me aproximar para sugar seu doce perfume que era tão forte quanto toda nicotina e poluição contida no ar.

Em pouco tempo nos unimos. Ela já controlava meu cérebro e adoçava meu sangue; éramos um só ser: “O corte e a navalha suja de sangue numa noite de chuva”.

E em nome de nossa união comecei a viver somente para ela. Passamos a ser fiéis um para com o outro e infiéis para conosco. Eu fui expulso de casa, briguei com os amigos, comecei a roubar e a me prostituir para sustentar o nosso romance.

Hoje faz onze anos que o nosso amor começou, vivemos isolados do mundo porém vivemos juntos, isso é o que nos importa; é isso o que nos faz felizes...

___ ... não é mesmo, cocaína, meu amor?

(Sergio-Salles-Oigers)

A Tempestade


Coração duro feito pedra, cabeça erguida
É mais fácil seguir em frente quando não se precisa olhar pra trás
Seria mais simples em nem pensar na vida
Mas as coisas não funcionam desse modo, coisas simples demais

Atormentado por coisas que nem sei
Vivendo um dia de cada vez
Sem esperanças? Ou sem esperar nada do futuro?
Só há decepção com expectativas frustradas
Não quero mais me decepcionar

Lutando comigo mesmo todos os dias
O anoitecer me dá mais esperanças do que o amanhecer
E falta coragem para levantar às manhãs frias
Questiono-me sempre sobre o sentido de ser

Vejo dias nebulosos à frente,
Enquanto tento sobreviver a essa tempestade.
Nuvens negras, vento forte, ruídos latentes...
Tempestade em mim..

(Eduardo Costa)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

A Serena Tragédia


A SERENA TRAGÉDIA
DE QUEM SE AVENTUROU
A MOLHAR A PONTA DOS PÉS
NUMA SOPA DE CRUSTÁCEOS.

Das lágrimas tudo se espera
e nelas deposito toda a confiança
de quem não mais confia,
a ingenuidade de quem acredita
que a tristeza seja o pseudônimo da alegria
fisicamente abalado pelos 30 minutos de prorrogação
e psicologicamente aprisionado pela falta de ilusão.
À esmo vejo emergir do sal da lágrima
a cartada final que irá definir
o destino do que se decompõe em mim
na presumida morte astral
onde para o que não será vitória
como sempre não terá festa,
pois apenas haverá de ser uma segunda-feira
após um dia de domingo
em que, ao invés de, eu me pôr a chorar,
fiquei a beijar um jiló
e a me masturbar com um limão.

(Sergio-Salles-Oigers)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Off

Desliguei
Não o celular
Desliguei
as lembranças
o forno que me aquecia.

Desliguei
as sinapses
que faziam
me encontrar
com você.

Sei que agora
simplesmente
Desliguei.

(Jorge Medeiros - 17/09/2009)