Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



quinta-feira, 31 de maio de 2012

Medo


Amanheço. Por entre as dobras do ninho dos cobertores, travesseiros e lençóis, silenciosas mãos côncavas que me escondem como capa mágica da invisibilidade. Arranho por dentro o meu céu e ele, ainda, me sopra estrelas. Queria poder guardá-las na cadencia das horas em que me acho, mas, me perco.
Destranco a janela da alma e avisto os meus medos ao longe confabulando com o cinza do dia. E tudo se cala como uma silenciosa oração desenhada com baforadas no vidro. Meu corpo deságua raios e trovões, convulsão de um vulcão que quer expelir as sombras da caverna.
A neblina dissimula as carícias das mãos frias do medo.
Vou queimando por dentro e amontoando as cinzas em um canto, a espera que algum pássaro voe até a colina mais alta e espalhe o meu olhar inocentemente.
Encaminho-me com passos sonâmbulos como oferenda prestes ao sacrifício. De um lado, a solidão que estende a mão morna; do outro, a incerteza que escancara a sua voraz boca de abismo.
- Não quero mais ter medo de sentir medo!
Estendo os dedos como um cinzel pontiagudo e contorno, descolando, a face da solidão. Não saberei hoje dizer, se como o último ou o primeiro gesto, antes de anoitecer.


Autor: Lápis sem ponta

[...e ouvi alguns velhos do restelo clamando


e ouvi alguns velhos do restelo clamando;
“Que famas lhe prometerás? que histórias?
Que triunfos, que palmas, que vitórias?”,

e vi duas sílfides dançando por entre o perfume das flores em primavera,
levando e trazendo suaves brisas,

e vi alguns poetas queimando palavras incrustadas em folhas preenchidas,
outros não riam, outros viravam as costas ao caminho,

e ouvi militares alteando a voz, encurralados na ilha de Kheros;
“Antiguidade é um posto, antiguidade é um ...”,

ah... e mais vi, e mais ouvi,
declamavam-se elogios, e mais elogios, como se a salvação fosse aqui tão perto;
- vai-te anjo rebelde expulso dos céus, expurgo-te do amanhã, do hoje, do sempre, “rasteja para a terra, possa ela salvar-te do nada”,

e alguns fizeram as pazes, mesmo com os dedos cruzados atrás das costas, alguns suspiraram não sei o porquê, outros guardaram as adagas de istambul ainda a brilhar,
libertaram-se os cheiros da amêndoa e do café.

E tudo vi, e tudo ouvi,
seria esperança, seria morte, seria o fim das trevas [?],

não sei,

sei que ainda ficou uma sílfide,
dançando por entre o perfume das flores em primavera,

[e o silêncio anoiteceu-me a voz, jamais o poema],



...
[que por aqui deposito? jamais].

Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

quarta-feira, 30 de maio de 2012

[... e enquanto me espraio longe


enquanto me espraio longe dos lusitanos areais
em mares tão distantes, para além dos imaginados,

acorda-me alguma canção sem refrão,
de um amor para sempre arrastado pela ondulação,

amor, ou desamor que ficou algures, nostalgia ou mesmo interdição,
mas o desejo ainda se mantem, assim, assim...

Tocam os sinos a repique, ainda os ouço da partida,
como um fado que revisito na memória, que se repete,

que se arrasta sem permissão,
e que invade, que sufoca ainda mais que a saudade.

Tão longa a longitude percorrida.

Rogo pela mansidão do amanhecer, sem sons ou síncopes,
doutos os que esperam sem pressas,
e que celebram o renascer sempre anunciado, que se repete,
e se multiplica pelo tempo,

eu, renuncio-me ao acordar,

e jazo-me,
longe dos lusitanos areais em marés distantes que se espraiam
por mim adentro,

[sem fim, sem ti, assim, assim...].




Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Vidas em perigo no fogo inimigo


É o fogo inimigo
Lambendo
Derretendo a terra
O morro
A planicie
Moitas nas serras
Grito na floresta
Eitos
E mais eitos
Em chamas
O beija-flor
Um tamanduá bandeira
Denunciam
Reclamam
Clamam
Um tiziu denuncia
Aos pulos
Trancos e barrancos
Revoltado
Sentinela de beira de estrada
Revoltado por tanto crime ecológico
Aos gritos conclama
Help
Help
Uma solução
De salvação
Tem fogo na mata
No topo
Nas ciliares
Na relva
Fúria de ventos quente
Circunda malhadas
Quintais
Muralharas da china
Por ali
Ninguém cisma
Em denunciar
A vida assada
Cozinhada
Em brasa viva
E feroz língua de fogo
Queimando
Assando
Expulsando tudo
Por léguas tiranas
Onde a vista alcança
Muito bicho morto
Tem ninho queimado
Goto
Preá
Jiboia
Saracura
Macaco prego
Morcego
Tamanduá
Doidos
Sem pra onde ir
E vir
Na grota do angico
Na mata do cipó
Nas nascentes do Curralinho
No nicho do guigó
Uma cobra silva
Rebolando
Tonta com tanta fumaça
O bem-te-vi apavorado
Diz que viu
Tudo partir da li
Do aceiro mal preparado
Da queimada do canavial
La das bandas do piranji
Diante de tanta produção insustentável
Parece não se contentar
Para as repetidas denuncias
Das vidas em fogo
Uma válvula de escape se acha
Um monumento de vida
O ícone guigó da Mata atlântica
Seres e vidas da mata que matam
Devoram
Atacam
Devastam
Mal tratam
Por bem prazer e deleite
Do império da cana
No consumismo de espécie humana
Contexto macabro
Que esse modelo superado de desenvolvimento
Encarna
Quando ignora nichos de bichos e florestas
Irmanados
Em festa biodiversa



Poema de Lizaldo Vieira

sábado, 26 de maio de 2012

a palavra e tua boca


o que me queima por dentro
é o silencio do céu

o cigarro que alucina em tragadas lentas

assombra-me
a palavra e tua boca

a chuva que adorna seus cabelos
costurando teu cheiro rente ao peito

teu sorriso criando eco
da vida que bate contra o chão
(do) resto que o peito consome

o que me devora saber
que o vento é o resto
num envelope fechado

o que arde e treme (é saber)
que a imensidão lá fora
é a singela mão do tempo
num envelope que voa.



Poema de Vânia Lopez
Quando o dilúvio atingiu o sentimento
Retirei o sol da escuridão
Estendi o coração no varal

                          Jorge Mdeiros

sexta-feira, 25 de maio de 2012

[...satura-me o sonambolismo com que a noite se veste


satura-me o sonambulismo com que a noite se veste
e mesmo que se disfarçe no canto de uma sereia,

mantem-me o olhar distante, não me afaga de mar,

e tudo acontece sem inicio, repentinamente
sem cor, sem tempo delimitado.

Desilumina-se o céu, e o cheiro da terra
é moldado pelas mãos no barro, mãos sem sina,
sem ternura, mãos de pedra,
e a dor pergunto-me;
não a sentirei mesmo que me atravesse o peito

e se crave na mais profunda saudade?

Dá-me a chave da porta por onde a noite entrou,
desferrolha-a mesmo,

racha-a de vez, relembra-me como é
a luz do dia em sol,

e, enquanto o céu azul se inunda de mar em cor,
repara nas núvens, velas enfunadas,
soltas,

vogando sem pressa, sem pressas,
esperando, que o destino aproe a sotavento.

Queimam-se as imagens de tantas as miragens nenhures,
nas recusas a este crepúsculo, regurgito da luz frouxa,

impludo-me então,
mais uma vez.

[que a última seja...]


Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Na estrada


O velho ônibus parou e o motorista abriu a porta . Subi , segurando a alça de alumínio . Segui em frente .Mais um naquele pandemônio . Carro lotado . Índios aculturados , aspirantes á garimpeiro ,garimpeiros ostentando um sorriso dourado , rostos vincados pelo sol e anos de bateia. Pairavam cheiros de todo tipo , crianças choravam , um velho reclamava e praguejava , ninguém entendia a sua ira cheia de cuspe e o l h o s vermelhos , injetados .

Arranjei um canto no fundo do carro e aboletei – me.Ao meu lado, uma mulher morena , de idade indefinida, olhos castanhos .Na cabeça , um lenço estampado evocava as longínquas calçadas de Copacabana . No colo, uma velha bolsa de lona . Um ocasional olhar de soslaio , por cima dos ombros magros . Do rádio de alguém , Teixeirinha enlutava o coração , de Amazônia afora . Que país ! Pensei nas últimas horas e nas estrepulias da guerrilha : quem não debandava , morria com tiro na cabeça, feito cachorro doido , pelo Brasil grande , em nome da integração e integridade nacionais, quem sabe, por Guevara , Mao, Trotsky , pelo socialismo, pelo declínio do Ocidente , sabe-se lá mais por quem e porque .

Vinha já há dois dias fugindo do A r a g u a i a, vivo ainda, graças ao cadáver de Heriberto , tombando baleado sobre mim , numa matança sádica e frenética . Sequer checaram os mortos. Aí , eu não seria o único para contar a história .Alisei o bigode postiço e o ray-ban . Puxei o chapéu sobre a testa. Camisa estampada , calça de brim : posseiro da cabeça aos pés. O calor castiga e entorpece . M e u cochilo precário e solavancado, termina por estancar num ponto , onde sobe alguém vendendo refrigerante. Nunca o imperialismo ianque foi tão festejado : bendita coca-cola de goela abaixo e volto ao torpor suado e trepidante naquele fim de mundo. Do banco da frente , um garoto ri , dedinho em riste e desdentada inocência:

- Mãe , o bigode do homem tá caindo ! O suor tá desmanchando a cara dele ! - Cala a boca , menino !
Deixa o rapaz cochilar – trovejou ao meu lado , a mulher de lenço.

Ajeito o bigode e enxugo o rosto na manga da camisa . A mãe , um olhar frio e doloroso feito facada . O garoto , matraca fechada e vez por outra , um olharzinho maroto para o rosto que parou de desmanchar-se.O sobe e desce do ônibus é interrompido pela voz anasalada que deu bom-dia e subiu no carro : um jovem capitão do Exército , cara suada de b e b ê johnson e olhinhos d e c a s c a v e l .C o t u r n o s brilhantes , seguidos por três soldados com cara de cachorro sem mãe , perdidos de arma na mão no meio do nada sobre quatro rodas , vindo em minha direção. Bebezão continuou a falar . Na mão , um cartaz com fotos de Terroristas Procurados.

_ Bom dia. Sou o Capitão Felisberto. Algum dos presentes viu ou conhece alguém daqui ? – aponta o cartaz, o dedo manicurado e lustroso. Um balançar de cabeças, um não generalizado, traz-me a respiração de volta . No olhar de serpente , o chocalho do ódio : - Olhem com cuidado...esse aqui ó, Carlos Borromeu Linhares , o Téo , pode estar por aí, por perto .Escapou fedendo, esse terrorista safado .Em São Paulo , jogou um fusca cheio de bomba num quartel , matando um sentinela de serviço. Olhem bem ! – o dedo lustroso cutucava a minha cara assustada da carteira de estudante.

Olhou os soldados, ordenou a descida ,saíram todos. Entraram num jipe , pegaram a estrada de Marabá. Brasil , ame – o ou deixe – o . Impossível, de tão simples. Mais duas horas de viagem e chegamos á Marabá. A parada do ônibus cheia de gente, em outras pessoas a mesma cara de enfado e tristeza nos adultos, a calma resignada dos velhos, dois gêmeos chupando picolé. Escafederam-se a minha companheira de assento e seu garoto. Nem sinal . Bem , e agora ? Sozinho, leve , muito leve,leve como a pluma, que fazer senão pensar ? Atravesso a rua poeirenta, entro no bar do Miguel e peço uma cachaça. No meio do gole, um voz anasalada e já familiar me ordena erguer as mãos.




Conto de André Albuquerque

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Marcio Rufino e a Dita




Dita

Quando eu nasci
A dita não era cuja
E sim dura.
Aos poucos ela foi fingindo que amolecia,
Mas algo embaixo ainda ardia.
Hoje a dureza da dita
Está escondida
Omitida
Embutida
Nas línguas
Nos sorrisos
Das titias da política
Nos bons-sensos dos patrões
Na proteção de alguns falsos guardiões.
Que a gente supere
A sopa amarga;
O dinossauro na pele de sapo
Que a gente tem que engolir.
Todo o poema engavetado
Pelo dedo decepado,
Mas ainda em riste
Levantado pela dureza triste
Da dita.

Marcio Rufino

ensaio das indefinições


o poeta é qualquer coisa
que se move

seta
pedra
para-quedas
paralelepípedo

o poeta é fogo ou algo
que se bole

mato
visgo
bússola
aneurisma

o poeta é tudo quanto
faz faísca

risco
seixos
anagrama
luz do sol

o poeta é tudo
quantas voltas
se lhe dê

vida
morte
sombra
luz

copo de coca-cola
ferida cheia de pus

esconderijo
abrigo repulsa
e nada do que digo

o poeta
é doença

o poema
é úlcera.

Poema de Caíto

segunda-feira, 21 de maio de 2012

[...e como sinto o vento que insiste



e como sinto o vento que insiste em levitar-me pelas falésias acamadas como núvens escuras dispersas,

e como sinto o vento tocando-me na face

pelo sorriso desta manhã adormecido,

adormeceram-se as longas distâncias,
adormeceram-se as longas histórias,
adormeceram-se as súplicas.

E como sinto o vento que insiste em repetir-se levemente,
como um linho que me toca,
qual algodão,

e como sinto o vento espraiando-se pela claridade
nesta terra castanha escura que piso,

como o sinto.

Reluzem as pegadas que o vento não levou,
o que restou do amor, talvez,

que as monções resistam nas tatuagens eternas do mar,
que a memória resista como o vento que insiste,

insiste,


ah... como insiste o vento em levitar-me de mim.


Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

domingo, 20 de maio de 2012

caso não haja depois


pode entrar como um grande soco de nocaute ou invadir com delicadeza todas as horas, todos os dias. ofereça seu ombro à minha sombra, afugente, me faça sentir sua falta, que transporto na memória nossos dias, vingo- me. banhe-me com surpresas, solidão e uma caneta que crie caminhos inesgotáveis, entardeça em uma igreja, rapte-me como se fosse o Mississipi, ferindo-me com as coisas que disse, faça promessas de flores, enlouqueça a realidade. cultive as pétalas que caem no sopé das montanhas. Seja um apache em meu coração, nunca se renda. aprendi a comer espinhos, tocar as ondas, mover-me como o vento, alçar voo, pega-ló através da neblina. encha o peito de bordados, ruas, praças, fogo, água. enquanto estiver dentro da sua cabeça, caso não haja depois, cuide da minha vida como se o cabelo sem a pele pudesse se quebrar...



Autor: Vânia Lopez



cá entre nós


devidamente penteada
maquiada e bem vestida
um bom salto para dar moral
(de primeira necessidade)
dou uma geral no quarto
abro a janela para ventilar
(saio) pronta para me tornar amiga de infância
da atual do meu ex
felicidade maior que o ser humano pode sentir!
(só quem tem ex pode entender)
já não tem a menor importância (verdade)
num rompante decido deixar a fome na África
Beethoven e Wagner proibidos
Vodca muita vodca, água nem pensar!
quero matar.
amizade com atual do ex?!
é como futuro: não chaga nunca!
beira a desumanidade...
(é pouco provável, mas nunca se sabe)
tão mais simpático olho por olho...
misturando “você” com “tu”
chego perto e sussurro: “vadia” (fica divino)
junto os flanelinhas para te chamar de tia
numa questão de bom gosto
indico uma dieta da lua
numa fazenda ao sul do Afeganistão
(dificilmente vai encontrar uma vaga para estacionar)
oro com força para que ela permaneça nos 34
com cara de 100...

no dia seguinte mando um bilhetinho:
“amiga, se no pileque fiquei estranha, esqueça!
foi tudo para facilitar... tive medo de você cair
quebrar uma perna. esse sofrimento não tem explicação...
antes eu do que você. (juro)”
com tal convicção que até eu mesma acredito!
(aprendam) fica mais barato e não se perde o ex!

cá entre nós (Deus):
Elegância é isso, gente!
fico esperneando de alegria...
e não se fala mais no assunto.


Poema de Vânia Lopez



Ah, é?


num quase-silencio
juntei aquela saia preta justa
de causar reboliço quando passa
o ursinho de vítima de terrorista
mas o que mais dói é a jaqueta di-vi-na
(de contrabando)
o sobretudo bordado por criancinhas da Indochina
a camiseta de passeata pela paz
o óculos finíssimo de camelô
a meia extremamente extravagante
que tu comprou na loja da esquina
rasguei (todas) as nossas fotos que atravancavam o PC
a tua amor, limpei com saliva
mais redonda que cachaça, desapeguei de tudo!
não pergunte por quê...
(puro atraso de vida)
consegui colocar tudo na bolsa importada de Marrakesh
bíblia, terço, jejum, o Corão
naquela bolsa companheira de tantas aventuras
que a alça não caí e o zíper não emperra
tudo na mais perfeita ordem
nesse dia coloquei meu vestido mais sexy
(de ressaca) enviei um buquê de lírios-de-santa-rita
num míssil de generosidade
doei tudo para um bazar de (ex)
com dois tubos de cola
entupi as fechaduras do bazar...
e tome vingança.
esse tipo de vingança é um verdadeiro primor,
(a ser aperfeiçoado, se for o caso)

(vingança) dedicada às bonitinhas
que se engraçam com ex-namorado

... que elas prescrevam (todas)
Glória essa que saberei agradecer ouvindo Vivaldi

(coro) gentilmente Amém!


Poema de Vânia Lopez

sábado, 19 de maio de 2012

da mão ao verso em ciclo eterno


as mãos são versos:

nasceram

versos,
gestos,
gostos,

gritos
sem valor;

pousam
e pesam

sobre os olhos...


tornam-se agudas,
(tornam-se grito)

tornam-se mudas
(tornam-se mito):

nada posso dizer
(criticá-las)

se elas querem

vôo,

malas

se preferem

vidros,

vultos


se me têm nas mãos,

ventres.

Poema de Caíto

sexta-feira, 18 de maio de 2012

me venha sem saber... (ou) antes de ir, venha cá!


talvez eu seja só uma menina
com os pés entrelaçados na meia soquete

que na saída da escola
diminuí dois dedos da saia
acariciando um sonho ou dois dentro do uniforme
tentando esticar o braço e tocar a lua
que ainda deita na sua cama
e acha o melhor lugar do mundo

orando baixinho pelos cantos dos cafés pintados de dourado
deixando em paz à noite
de pileque no carro
com o vestido vermelho vibrante
um par de sapatos de couro
esperando um flagrante

mas se Deus, ao invés de me dar o inferno
fique aguardando minha chegada
eu prometo de qualquer maneira
a partir de amanhã
não passarei mais na sua rua...

antes de entrar em casa
que a sombra alinhe meus cabelos
enquanto ainda não é mentira
(amor, meu ex-grande amor)

quem sabe eu seja só uma menina...



Poema de Vânia Lopez

terça-feira, 15 de maio de 2012

[despojam-se algumas estrelas...



despojam-se algumas estrelas dos fátuos brilhos,
que celestes sejam as ténues cores,

que os olhares

se quebrem silenciosos pelas teclas de um piano com cauda.

Ficará um, ou ficarão outros pontos

envolvidos pelo breve nevoeiro nenhures,

pensar-se-à então na imensidão de todos,
e os que rastejam [como serpentes, que sejam],
içar-se-ão contemplando os ecos que restarão das pedras angulares

despidas de tijolos.

Ao longe um breve azul colora as copas
que cobrem a floresta,

azul mar, azul céu, apenas azul,
que interessa

se os sinos já não tocam
anunciando as meias horas. Despojam-se alguns homens e mulheres da pele que os sufoca nos areais ainda em rocha,

esquece-se o tempo,
os corpos, o teu e o meu,

deixaram o espaço,
[desamarraram-se, desamaram-se]

Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

sábado, 12 de maio de 2012

[Finalmente]


(que o vulcão irrompa rápido...)


I

que se terminem as saudades, os rios, e
que o mar seja chão de terra,

que o silêncio seja buraco negro no meio de nenhures
onde a luz é um fio de linho sem cor.

Renascam novamente as orquideas, os cravos vermelhos,
e que as pétalas sejam doces como o mel,

os pássaros que encontrem poisos nas árvores perfumadas em ilhas escondidas pelo poente do sol.

Que o circulo termine em fogo de artificio,
jamais num breve fogo-fátuo,

e,

se a terra parar por um instante que seja,
que os deuses a rodopiem como o pião das crianças.


II

[Finalmente]
descansam os ventos alisios no sopé de uma montanha que pariu
o rio em dor,

ininterruptos os ecos que se repetem, estranha
a noite que não termina, mas que terá um fim,

reina um luar enevoado, adormecem as flores nos vasos,
na terra,
talvez cantem algures algumas sereias desapaixonadamente,
e os olhares fixam outros olhares mais perto,

partirei, sim, partirei
com a primeira maré do amanhecer.

[Que seja finalmente, que seja, que se cumpra o ciclo dos ventos, das primaveras, de mim, talvez de ti meu amor, jamais o saberei, que o vulcão irrompa, finalmente].


Poema de Ricardo Pocinho

quinta-feira, 10 de maio de 2012

As Gôndolas nas grandes luas de Plutão


Há quem
te veja presa ao anoitecer dos ramos:
os relâmpagos vão a escrever nos rosários,
quando se despenham até às novas tabernas
no centro de uma nuvem.
Há quem te veja presa
ao anoitecer dos ramos: perde-me outra vez,
hoje, suavemente, perde-me os teus
copos de lagos frágeis ou um altar
de mães nestas estações rápidas;
se fores pelos rios, verás o tardio Junho
numa noite de casas, a dele, a nossa, uma
estrela agarrada a um ramo quase a
desfazer-se, luminosa, sobre
a noite


Poema de Francisco Eugênio Seixas Trigo

quarta-feira, 9 de maio de 2012

(minha alma é um rio de nuvens para quando suas lágrimas vierem cair)


sou como um barco em silencio
lentamente me abandonando
nesse mundo de meu peito

inala navalhas
encarando os espelhos
como uma lembrança do jardim

colada em minha pele
uma roupa que não me segue mais
noites e cercas
mar que não volta... leve minha voz!
como sol no quintal
em seu todo e suas formas

minha alma é feita de areia
corre atrás da bola
atravessa seu inferno
como quem colhe estrelas
sob a luz do teu cigarro

ouça o vento que arrebenta suas correntes!

em um poema branco leve minha vida
pois minha alma é como um veneno delicado
onde o sangue teme o ar fresco (da sombra)
tanto quanto como quando você apareceu
(em meus olhos...)



Poema de Vânia Lopez

domingo, 6 de maio de 2012

anjos


tenho os meus pulsos
cortados por anjos
não me resta nada
a não ser esperar
a chegada da morte
refreando meus impulsos

anjos não tem culpa
das culpas da minha vida
esfarrapadas em desculpas
cerzidas entre meus pulsos

anjos não sentem raiva
anjos não sentem ciúme
anjos não sentem sangue
nem sentem o gosto do meu

anjos não devem desculpas
pelas tantas penas que trago
minha dor sangrada e oculta
anjos não causam estragos

anjos são feitos de éter
anjos são feitos de luz
anjos são quase etéreos
anjos serão minha cruz

anjos não pedem socorro
agem sempre com honradez
me pergunto enquanto morro
serei eu anjo alguma vez?

nos domínios dos demônios
sou mais um em suas hostes
não sou casto como os anjos
minha iluminação vem de postes.




Poema de Caíto

sábado, 5 de maio de 2012

as velas


I

fala-me dos nenúfares que as núvens
cobrem,

nos barcos naufragados em terra onde nasceram flores silvestres,

das cores soltas pelo pôr-do-sol
que levantam alguns ventos sem direção,
escondem-se outros.

[Ou...],

nessas palavras em que o verso grita sem destino,
aurora seja,
ou...

qual a cor do amar[?]. Pinta-o numa parede em ruínas,
eu,

II

as velas
libertam-se dos mastros de carvalho, regressam com as migrações
das aves,

liberta-me de mim,

e envolve-me o olhar cansado, arrastado-o como num tango em circulos,

os passos tocam-se levemente,
apenas levemente.

Sabes, eu nunca esqueci
porque sonhava naquelas noites com o mar,
era-me maremoto sem as margens que oprimiam, delimitavam.

Liberta de mim o mar que ainda me restou.


Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

quinta-feira, 3 de maio de 2012

saudade


I

desaguarei não como um rio
que jamais termina [...] nem pensamento,
como um mar, sim,
desaguarei como esse mar,

um desaguar repentino, violento,
[no teu colo],

e mesmo que não me sossegue
abrevia a distância em mim de nós.
Soltam-se as missangas que enfeitam os pulsos outrora cortados,
cicatrizes que a pele guarda,


ancoro-me num areal desconhecido.

II


saudade

não como o destino das viagens ou da pele que seca,
senta-te bem perto, lê-me o fado nas linhas da mão,

não ligues à linha da vida, fala-me do amanhã,
de algum ou outro sonho impossível, possível,

engana-me com o amar, jamais com o mar,
e no compasso dos pontos cardeais já apagados,
delimita as latitudes que as longitudes fiquem.

Horizontes sem as cataratas que imaginei,
sempre o saberei,

que os ventos despenteiam o mar em espuma esqueço-me,
o olhar fica-me sempre aprisionado

na dança das baleias

que ladeiam o barco que range.

Soltam-se as velas.



Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

quarta-feira, 2 de maio de 2012

flui a saudade em minha boca


sem você a vida voa de galho em galho
sorri o dia a desfolhar-se na hora incerta
... esperando por nada
Uma coleção de arranhões das horas

marimbondos girando ao redor de um copo de vinho
este cantar como ramificações de um rio, de tantos lábios
dando de comer, de beber
acolhido em minha mesa

as noites nada negam
exceto quando chuvisca
e as folhas esvoaçam
as lágrimas escorregam das nuvens
umedecem sua sombra
caem vencidas...
entre o olhar e a soleira da porta



Poema de Vânia Lopez