Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



sábado, 12 de janeiro de 2013

Dois Estranhos



Desde quando casou
Ela nunca mais apareceu.
Apenas sua imagem viva
Que não era mais a mesma de antes,
Pois aquele sentimento
Que era uma brincadeira
Agora é uma realidade
E como toda verdade,
Reprimida e duvidosa.
Então, toda vez que ela aparece
Ela não é mais aquela
Como eu não sou mais aquele.
Somos dois fantoches indiferentes
Perdidos na paisagem


Marcio Rufino

E QUE VENHA A PALAVRA




Que a palavra adentre o verso
em suaves movimentos
sem requintes, nem propósitos
pura e simplesmente escoe
como a fina areia de uma ampulheta
escorre sutilmente e sem pressa

Que a palavra entre como o vento
pelas frestas da janela entreaberta
e se acomode sobre as mobílias
formando uma fina camada de pó
encontrando seu lugar e seu momento
na casa da memória e do esquecimento

Que a palavra nos tome de surpresa
e se encaixe no quebra-cabeças
revelando todos os sentidos ocultos
todos os mistérios do não dito
nesse silêncio que cobre distâncias
nessa fera que habita o desconhecido

Que a palavra brilhe em súbito reconhecimento
como um eco sempre ouvido mas distante
como tudo que começa sem aviso
como o amor que de repente chega
sem que sequer se perceba quando
sem que se saiba onde estava guardado


Ianê Mello



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Restos da América


Este poema é baseado no relato de Frei Bartolomé de Las Casas sobre a conquista da América e é a ele dedicado.

A ti, América, restaram somente
As avançadas furiosas,
O preclaro comandante à frente
Das hostes guerreiras
Ávidas de ouro e sangue!
Restaram-te somente
A pele trigueira ensangüentada,
Os crânios partidos
E os miolos esmigalhados
No solo calcinado.

Magua de Guarionex,
Marien de Guacanagari,
Maguana de Gonabo,
Xaraguá de Bechechio
E Higuey de Higuanama,
Reinos da Ilha Espanhola,
Outrora ricos e populosos,
Fecundos e abundantes,
De altas montanhas
E férteis riachos e ribeiros,
Tão grandes como o Ebro,
O Duero e o Guadalviquir,
Restaram-te somente
Tuas mulheres violadas,
Teus príncipes enforcados,
Os golpes de espada,
Os rumores de tantos prantos,
De tantos ais e gritos de pavor!
Restaram-te as lâminas perfurando
Os ventres grávidos,
Gargantas degoladas,
Os cães do preclaro comandante
A estraçalharem teus filhos,
As apostas cruéis sobre quem
De um só golpe de espada
Abriria um índio ao meio!
A ti, América, restaram somente
As chicotadas, as bastonadas,
As bofetadas, os socos e as maldições.

Sangrentas matanças nas ilhas
De São João e de Jamaica,
O sêmen corrupto
Do estupro e do assassínio
Na ilha de Cuba, do grão-senhor Harthuey.
Enfim, Neruda tinha razão!
A ti, América, restaram somente
A espada, a cruz e a fome!
Homens reluzentes
Que só conseguiam grunhir:
“- Donde está la plata? Donde está la plata?”
E a peste, e a morte e o terror
Que acompanhavam teus algozes!

De Nicarágua à Nova Espanha,
De Cholula à vila de Tepeaca,
Das províncias de Tupeque,
De Ipilcingo e de Columa,
De Guatamela, no mar do Sul,
A Naco, Honduras
Ou Guaiamura, no mar do Norte,
Sangue, tripas e extermínios
Consagraram tantas hóstias
Entre cânticos e louvores entoados
Sobre teu solo já abençoado, América!
Solo da onde brotou também
A carnificina e a perfídia,
A dissimulação e a mentira
A tirania e a devastação
Na prisão de Montezuma,
Na destruição de Viclatã,
Nas parturientes e velhos
Lançados às fossas
De estacas pontiagudas,
No escárnio do comandante
Que queimou os teus senhores,
Dizendo prestar-lhes homenagens.

A ti infligiram malditos estancieiros,
Terríveis calpisques,
Vis mineiros
Sedentos de ouro vil –
Eldorado manchado de sangue –
Malditos
A trucidar, a destruir,
A injuriar, a perturbar,
A prejudicar, a inquietar,
A atormentar, a oprimir a tua gente,
Enquanto se persignavam
Viciados, corrompidos
Desonestos e desordenados
Como um certo João Colmenero
Em Santa Marta.

Oh, pobres almas aflitas
Em tormentos, em angústias,
Em tristezas e aflições,
Oh, pobres almas amarguradas
Sob o jugo de mil aborrecimentos,
Sob o martírio de loucos enraivecidos,
De furiosos inimigos
Como a tenra carne estraçalhada
Entre os cornos de touros enfurecidos,
Como presas amarradas
A lobos, leões e tigres esfaimados –
Doze milhões de índios trucidados,
Quinhentos mil Lucaios expatriados,
Três mil léguas de terras,
Repletas de gente, arrasadas, desoladas.
Só Pedrarias, qual um lobo esfaimado
Que se lança sobre um rebanho de ovelhas pacíficas,
Tornou desertas mais de quarenta léguas,
De Darien à província de Nicarágua,
Matando, destruindo, queimando,
Seqüestrando, torturando, defraudando,
Roubando, aniquilando,
Desolando tudo e todos,
Tantos e tão grandes reinos
Desde o ano de 1504.

Oh, quantos órfãos deixados para trás,
Quantos homens e mulheres seqüestrados,
Quantas abominações execráveis,
Quantas calamidades e angústias,
Quantos suspiros e vagidos,
A liberdade roubada,
O corpo e a alma assassinados,
Os templos profanados
Por demônios, súditos
A servirem quem vive
De carne e sangue humanos.
Oh, toda tua riqueza
Na mão de gente iníqua,
Dos agualizes do campo
A perseguir e a caçar tua gente nas montanhas,
A manter toda a terra
Sob comenda cruel e tirânica
Todo o teu povo como se fosse
Paus, pedras, cães ou gatos
Vergastados com anguilhas, até a morte,
Por teus carrascos!


Oh, malditos e desnaturados
Que obrigavam reis e senhores
Homens e mulheres,
Crianças e velhos,
Tornados escravos e cortesãos,
A trabalharem dias inteiros, a fio, sob o sol,
Sem direito a descanso, água ou comida.
Malditos desmesurados
A separar famílias inteiras,
Maridos de suas mulheres,
Pais de seus filhos,
Mães de seus rebentos,
Tornando a vida tão desesperadora
Que as próprias mães
Esganavam e matavam seus filhos
Ou tomavam ervas para abortar
Ao sentirem-se grávidas.
Malditos responsáveis pela morte
De mais de sete mil crianças
Na ilha de Cuba, pela partilha
E pela fome de todo um continente,
Por tantos índios doentes,
Caídos pelos caminhos
Na desesperada tentativa
De encontrarem o caminho de volta para casa.

Oh, América de Panuco e Jalisco,
Do Reino de Iucatã
E da província de Santa Marta e Cartagena,
Da Ilha da Trindade ao Reino da Venezuela,
Dos Grandes Reino do Peru e de Granada,
Teus rios limpíssimos de súbito
Tingiram-se de rubra cor,
Teus campos férteis e formosos
Tornaram-se açougue de carne humana,
Alimento para abutres e soldados.

Não houve nem haverá
Tribunal que os condene,
Ação ou julgamento que reparem
Tamanho dano e destruição
Contra aqueles que diziam matar por direito.
América, não há quem te restitua
A riqueza roubada,
A glória perdida.
Agora, há somente
Um paraíso destruído,
A sangrenta história das matanças,
Tua nudez saqueada
Ante os mercados internacionais.

E hoje...
Hoje eu não vejo as edificações modernas,
Não vejo os autos passando velozes,
Nações fantasmas e a Plaza Mayor!
Não vejo conquistadores ou libertadores,
Pedro, Cortez, Alvarado, Montejo, Bolívar.
Vejo somente a História General de las Índias,
Generais e usurpadores!
Terra escravizada, grilhões nos meus pés,
Canudos!
Vejo somente o que restou
De um ato de violência,
Os filhos do estupro e da destruição,
As ruínas de Tenochtitlan,
Tua história, floresta e povo
Estarrecidamente dilacerados, América!

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

pelo sombreado emaranhado, (embreado) desses seus cabelos

brincou com as palavras atiradas no céu da boca
como quem acorda, sorri e sonha em ser Cinderela

abstrata em meu sangue
logo aprendeste a desprezar
a presença afiada de uma lembrança

hipnotizou e mudou as listras do tigre
com um grampo recolheu os cabelos no alto da cabeça
atacou-me como uma divina revelação
tocou-me com os olhos
dividiu-me em lados, sentada na varanda desse poema
com as palavras passando entre os dedos
sorriu... só pra mim

sem olhar pra trás, desmentiu meus olhos
sumiu para o passado
deixou o vento sussurrando por aí...
o som mais alto de todos:
o silencio (em cativeiro)

... o resto é a alma fotografada andando de um lado pro outro


Poema de Vânia Lopez

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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

,abana os ventos

,revela-me a noite

(I)

como se a perfeição existisse,
sem adjetivo, sem palavra,

e envolve-me nesse manto feito teu corpo.

,sempre soube das pedras perdidas pelo mar,
das montanhas submersas, inóspitas,
isoladas,

quais armadilhas de navegante
,as visões.
...
(II)

,abana os ventos, abana-os em rodopios, revira-os,
que quebrem os mastros libertando as velas gastas,
e,
no final, que o barco se arpoe mar adentro.

,revela-me o dia,

(III)
...
um dia,

a cada segundo, em cada momento,

faz-me recordar o que sempre quis
esquecer,

este esquecimento de mim.

(IIII)

,[e envolve-me nesse manto feito corpo teu],

só.


Poema de Francisco Duarte

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Biscoito recheado de arte




nos divertimos muito naquela noite e quando saímos do sarau nossos pés tinham asas e o nosso coração pleno de poesia e canção pois a arte tem esse poder de nos fazer voar e de elevar nossa alma que dança como bailarina e flutua em piruetas no ar e tudo passa a ser mágico nesse momento até o pacote de biscoitos recheados de morango que nos oferece um amigo não importando que só um único biscoito caiba a cada um de nós por sermos muitos enquanto caminhamos até a estação de metrô e até mesmo perceber que fizéramos o caminho mais longo nos faz achar graça mesmo sendo tarde da noite e correndo o risco de perdermos o último metrô pois não existe cansaço nem sono quando nos sentimos revigorados pela  arte que tem mais essa propriedade  de nos fazer sentir renovados e felizes



Ianê Mello



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sábado, 5 de janeiro de 2013

Canções Estrangeiras



Não preciso que falem
A mesma língua que a minha
Para me fazer entender
Pois nas armadilhas sentimentais
Que a nossa mente cria
O coração emana sutilezas
Surpreendentes e magníficas
É por isso que existem
As canções estrangeiras
Para nos lançar a lugares míticos
Mitigando interesses, iras e conflitos
Pois não precisa entendimento
Para a frenética persuasão dos sentidos

Marcio Rufino

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

,e chovem estrelas

-uma vez”,

(I)

e como o som dos violinos,
abarca,

o que as mãos e os braços não cingem.

,tem anos que começam assim,
ímpares ou não,

com som

,e chovem estrelas, meteoros cansados

que me arrepiam,
sem arrependimentos,

apenas me esqueço, apenas me precipito, apenas

possíveis futuros reaparecem, entorpecidos.

,e, se me recordo desfraldam-se as velas,

morrer-me-ei então, pela viagem, pelo tempo,

“-mais uma vez”.

(II)

seja-me a visão única do horizonte,
clara, sem promontórios distantes ou rochedos submersos,

“-nessa única vez”,

(III)

,que me seja permitido, ir,

além.


Poema de Francisco Duarte

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sábado, 29 de dezembro de 2012

A guerra dos sessenta anos

Anjinha no tanque de roupa , a esbravejar ; arma no varal colorido , o ódio multicor . No fogo , a carne queimada de repulsa e raiva , as brasas temperando em fogo bem vivo , a garganta e o tição de uma fúria impotente .Contempla a parede descascada,abrigando fotos do mundo lá fora e de filhos que nunca teve:uma desdita que não renderá herança . 
Tomé conserta sapatos na bancada reluzente de velhice ; de madeira centenariamente enrugada , na pobreza artesã de pai para filho ; tachas no canto da boca , em riso sardônico e metálico . O silencio : ensurdecedor , o martelo malha um solado no pé de ferro - bem poderia ser a cabeça da desgraçada, martela- lhe o cérebro na ira cotidiana ; mãos odiadas e hábeis,trazem o projeto em couro até a realidade .
Um polimento em graxa preta e aziaga, lustra uma guerra de sessenta anos de de pequenos ódios e grandes silêncios . Anjinha vive de luto ; por quê ? Ninguém sabe, nem ela nunca disse. T o m é coloca os cadarços no sapato preto , agora devolvido á bancada , alinhado entre os outros em luzidia e caprichosa submissão . Levanta a gola do casaco, a proteger-se do inverno da indiferença : o ódio conjugal inoxidável em sua frieza , aço resfriado de tantos anos ; nem discutem mais , um grita á cada vez de seu canto e o grito paira no ar e sai pela janela ganhando o campo de futebol em frente, sensações grisalhas arremetem contra a grama e as andorinhas.
O balde de cólera que nunca enche ,sempre a receber cada gota de fúria contida ; a comoção virou cebola velha ,dependurada sobre o fogão de pedra .Hoje , a gota d’água: 
_ Não tem feijão para o almoço de hoje – resmunga a Anjinha colérica , em riso maroto de ruindade antiga e bem curtida. 
Tomé levantou da bancada , tomou da velha mala de madeira de desenho em xis na tampa retangular e pegador enferrujado , de repente acolhendo mudas de roupa e sapatos , despojos da vida de infelicidade medida em dedais , copos e baldes . Olha distraído o fundo ensebado do seu chapéu ; o suor e o nome do fabricante em arabesco amarelo ; coloca-o inclinado sobre a fronte , abre a porta , caminhando em direção a lugar nenhum , cruza o campo de futebol, interrompe a pelada em sua marcha ; a rapaziada estática , em muda indignação ,contempla o velho desempenado em passo acelerado e inédito sorriso , de alma leve e flanante , no ocaso da tarde de domingo .


Conto de André Albuquerque

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segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Nesta data especial

Nessa data especial
poderia escrever lindas mensagens
para muitos a quem amo
mas  meu coração e pensamento
teimam em brigar comigo
e só me fazem mirar você.
                   Jorge Medeiros

Por isso não tenho condições
de tentar poetizar,
acho que minhas palavras
não fariam jus a você e ao sentimento
que me domina o peito...
utilizo então as palavras de uma amiga:

              HOJE É VOCÊ

Hoje, no tempo do agora,
e no espaço, até,
que ficou para trás
da hora em que estamos,
é você.

Os ziguezagues da vida
nos afastaram do encontro.
E os vaivéns do destino
nos aproximaram do depois.

Em outras eras, talvez,
(se é que elas existem)
acho,
fomos amantes-amados.
Os dois de nós dois.
Sem interferências.
Corpo e alma se unindo
e corações se abrindo.

Os dois seres num só,
amando-se em todas as horas.
Na hora lilás
do crepúsculo que desce
ou, e mais ainda,
no descortinar
das madrugadas que sorriem
luz,
na silenciosa papoula
do sol,
quando todos os sentidos
despertam
em ânsia de amar...

Deveria ter sido você
mas não foi.
Hoje é.
E agora, eu sou...

                   MARIA FEIJÓ


(Essa é em especial pra vc, e vc sabe de quem me refiro. Não se zangue, não dá pra escolher o que sentir...não tem jeito, e o que sinto é por vc... o máximo que pode fazer é ficar em silêncio... como sempre esteve)


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Perdido


Perdi-me na combustão do dia.
Fui mosca tonta dos pés-sujos,
Mariposa louca e incendiária,
Sensualidade e ávida cupidez,
Fastio feito de misoneísmo,
Dias em que habitam tardes
Quase mortas de passageiros sonolentos
Nos bancos encardidos dos coletivos.
Ah, se alguém gritasse...
Ah, se alguém se incendiasse
E se matasse e explodisse
Uma bomba feita de sangue e dor
De grito e pavor
Ante as basílicas repletas de eco
De cada coração!
Ah! se alguém se sentasse ao meu lado,
Ouvisse-me as queixas e alegrias,
E acolhesse, em compaixão,
Minhas inúteis solicitudes e favores...

Perdi-me no seio forte,
No aroma doce e fétido,
Bêbado do néctar suarento
Que se escorre dos corpos da estiva,
Do soro enjoativo
Dos escritórios e repartições,
Da fadiga odorífica das noites de verão,
Dos pagodes incansáveis dos subúrbios
E do carrossel orgiástico dos puteiros.
Perdi-me no seio da grande cidade
Que grita contra si
Na face muda e silente
Dos que retornam do trabalho.
Perdi-me com o peito arquejante,
Com todos os sentidos e pensamentos alterados
Em noite lúbrica de narcóticos.
Perdi-me sexualmente,
Com o beneplácito de Cristo,
Sem raízes ou entendimento
Na curva acentuada das estradas
Da cidade mundial.

Transviei-me em suas luzes:
Brilhei e me ofusquei entre vapores
Expelidos por canos pretos
De gargantas e escapamentos.
Incendiei-me, louco, consumindo-me,
Consumindo-te
Nas sendas do fascínio e do tédio,
Tonto da mesmice
Das caras sufocadas dos bípedes enfadados
A se rastejarem por concreto
De vidas desprovidas de sopro animador.
Perdi-me em mil cabeçadas, em milhares
De lâmpadas, janelas, caras,
Em quibes frios e enjoativos
Para estômagos ulcerados.
Perdi-me nalgum sexo doente, nalgum regato poluído,
No quilômetro da saída anunciada,
Mas lá só havia mais estrada, mais cidade.

Corri nu por vielas irreais,
Desfraldei bandeiras, organizei comícios,
Berrei no megafone, deitei na avenida
Pela qual hoje passo mudo e depurado
Por faixas, sinais, apitos e a moda.
Quis atear fogo ao próprio corpo
Para que minha miséria fosse uma tocha
Na noite espectral desta cidade
Feita de alarido e escuridão.
Já quis muitas coisas, inclusive
Que todos quisessem tanto quanto eu,
Já até, ateu, clamei a Deus, no escuro,
Sob pancadas e coturnos...
Mas só obtive a traição
De quem nunca requereu minha fidelidade,
O tumulto de uma multidão incompreensível
Atropelando-me num tropel
De concreto, asfalto, avenida, indústria e comércio.
Tornaram-me um canalha sem sonhos
Ou eu me tornei um
E agora circulo por aí, desgarrado
Nos refugos urbanos,
Ostentando na estampa da camisa
O rosto de Che
Ao lado da menina que traz no peito
Um I love New York
Ou outra que vai pela pista
De camisa vermelha com a foice e o martelo
Sobre o seio esquerdo sem ser incomodada
Na cidade capitalista!

Alguém pode me dizer
Em que lâmpada dei minha última cabeçada,
Quando deixei de dar murro em ponto de faca,
Quando passei a seviciar meninos
E a me entregar a atos masturbatórios
Com meninas de dez anos?
Aquele pulha tinha razão quando disse
Que a Babilônia é o fim e o recreio de toda a vida
E que nunca fomos trombetas ou colunas de fogo
A anunciar e proteger a Éden socialista.
Agora temos apenas esta Babel sobre nossas cabeças!

Perdi-me...
Hoje, estou em silêncio
No formigueiro de concreto e asfalto,
Arranhando a languidez do azul,
Consumido por aranha sempre a tecer, infatigável,
Dominando tudo, todos com sua sombra
E ética confusas, impondo sua urdidura cruel,
Sempre disposta a ganhar mais dinheiro,
A excluir mais viventes,
A inocular outros corações...
Dia a dia, sua rede cresce,
Ramifica-se em todas as direções,
Unindo cada ser e lar,
Cada coração e alma,
Tornando irmã toda a vida
De teia que urdiu.

Já desafiei ruas e avenidas contra o conformismo,
Esquinas e arranha-céus,
Imprecando contra carros e semáforos.
Hoje, retorno de ônibus para casa,
Fraterno a todos, em conformidade,
Compreendendo inteiramente
O cansaço e a solidão de cada classe e profissão.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

Banquete



É de água, vinho, cerveja e comida
Que se faz poesia, filosofia e boemia
Os poetas da rua se confraternizam na varanda
Num Brasil feito de Grécia, Arábia e povo de Aruanda.

Marcio Rufino

Sarau Donana África-Brasil de Consciência Negra


                                               O poeta Marcio Rufino apresenta o evento


                                                                      Ivone Landim


                                                                     Ramide Beneret


                                                                     Camila Senna



                                                                Anderson Leite Lima


                                                            O poeta Henrique Souza



                                                              O poeta Cau Bastos



                                                                         Valnei Ainê



                                                             André Luz Gonçalves


                                                                       Chico Reis



                                                      A produtora cultural Ane Alves



                                           A bela educadora Joseane Ainê admira o evento



                                                               Roda de capoeira


                                                                     Roda de samba


                                    Fanzine do Pó de Poesia homenageando os poetas negros



                                     O poeta Marcio Rufino pouco antes de começar o evento









                                             O público de Belford Roxo prestigia o sarau



                                                                            Idem    


 A poeta e professora aposentada Dona Luíza presta sua homenagem à Semana de Consciência Negra



Marcio Rufino e o cantor, compositor, músico, artista plástico e gestor do Centro Cultural Donana Dida Nascimento




Na noite de sábado do dia 24 de novembro de 2012 aconteceu no Centro Cultural Donana no bairro Piam em Belford Roxo o Sarau Donana Especial África-Brasil de Consciência Negra com o coletivo Pó de Poesia e convidados. O evento apresentado pelo blogueiro que vos escreve - o poeta, ator, escritor e educador Marcio Rufino - também contou com a batuta de outros poetas integrantes do coletivo cultural como Ivone Landim, Dida Nascimento, Ramide Beneret, Camila Senna e Anderson Leite Lima, o mais novo integrnate do grupo; que leram poemas de poetas negros que têm na questão racial sua principal temática como Solano Trindade, Conceição Evaristo, Cuti e Éle Semog. Esta plêiade de poetas, inclusive foi a grande homenageada do fanzine do Pó de Poesia deste mês.

Como convidados especiais contamos com as participações dos músicos Valnei Ainê, André Luz Gonçalves e Chico Reis. Para encerrar a noite com chave de ouro tivemos performances de capoeira e samba de roda com artistas da Associação Palmares. O cenário do sarau foi os quadros pintados por Dida Nascimento. A chuva que caiu nesta noite só serviu para abrilhantar e abençoar ainda mais o Sarau Donana que encerrou suas atividades de 2012 e agora só volta em fevereiro de 2013.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

,escuto-me


(I)

quero saber-me assim quieto, em sossego,
neste meu inóspito e distante desaconchego,
seja da canção cendrada,
seja-me da noite iluminada,
que seja deste meu sonho em desassossego.



(II)

da saudade.

surdo, mudo, e nada muda,
nem o desassossego, 
nem os passos tidos por perdidos,
distâncias.

,escuto-me.

,morrem-me as saudades de tão gastas,
de tão repetidas,

esfarelam-se,
e quando regressam impiedosas,
agito-me, revolto-me, rendo-me, 
,como se a lua só tivesse uma face, 
,como se a lua só tivesse uma fase,
e só escuridão pernoitasse no meio.

(III)

,o meu mar jamais será umbroso,
reflete o azul do céu, 

reflete-me,

e repito-me no desassossego que quero em sossegos,

“- deixa-me vogar pelas vontades das ventanias”.

[, o sal seca-me, engelha-me, arrasta-me].


Poema de Francisco Duarte

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domingo, 16 de dezembro de 2012

Imaginei uma guerra enquanto as armas descansam

Imaginei uma guerra enquanto as armas descansam.
Tenho a chuva de Novembro nos braços
E um frio sem ciúme do sol a namorar-me os ossos.
Revolvo com os dedos o bolso da farda
Para te encontrar entre a lama e os cigarros só mais uma vez
Inventar o momento, tocar-te o rosto, sentir-te o cheiro
E perguntar-me se ainda te lembras de mim.
Imaginei que vinhas, ainda esta noite antes do fim
Imaginei que vinhas antes das balas, enquanto as armas descansam.

Imaginei uma guerra entre as guerras reais a que sobrevivo.
Matei todas as bestas dentro de mim e nem lhes soube os nomes
Todas as palavras que não souberam dizer coragem
Todas as lágrimas trancadas nos olhos até ao fim da dor
Todas as horas inúteis queimadas no fumo dos cigarros
Matei todas as acções imperfeitas para me tornar perfeito
E enterrei tudo, sete palmos abaixo da minha memória.
Matei todas as bestas dentro de mim e pergunto-me se ainda te lembras
Se ainda me reconheces, depois da guerra.

[...]


Poema de Nuno Marques

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Poesia depois da queda



Minha poesia


Saltou de cima da estratosfera

Sem rima, nem métrica

Sem roupa de astronauta

Muito menos paraqueda

E se espatifou

Na Av. Presidente Dutra

Perto dos travestis e das putas

Minha poesia

Pulou do espaço

Sem jump, nem isca

Se partiu em pedaços

Quase caindo

Por cima dos parasitas

Minha poesia

Vadia

Esquartejada

Rolou asfalto a fora

Sem rítimo

Nem metafora

Sem charme

Nem a menor graça

Parecia ter comido

A poeira da via láctea

Minha poesia

Dividida

Caiu sem gozo

Nem dor

Parecia ter sido cuspida

Por uma espaçonave

Ou um disco voador

Minha poesia

Esquisita

Baixou sobre o planeta

Mais imprecisa

Que uma certeza

Mais certeira

Que uma dúvida

Mais suave

que uma maldição

Mais densa

Que uma benção

Minha poesia

Lá de cima

Viu a gigantesca

Bola verde e azul

Sem deixa, sem arte

Dentre as várias partes

Parte dela foi rolando

Até a Joaquim da Costa Lima

A outra até a Av. Brasil

Minha poesia

Voraz

Veio despencando, despencando

Atravessou paraísos e umbrais

Sem se preocupar

Com seus rins

Nem com seu corpo

Atropelou anjos e querubins

Almas penadas

E espirítos de porco

Minha poesia

Suicida

Caiu e cai

Provando cada vez mais

Que nunca foi minha

É da disponibilidade

Da casualidade

Espiritual

É da vontade

Do movimento

Social.


Marcio Rufino
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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Iniciação


             I

Tu que esperas o estro das cinco,
Como o inglês o seu chá
E o crente, o angelus...
Tu que esperas o estro das cinco,
Para compores alguns versos
Plangentes de amor e flor –
Vê-me! Pousa os olhos sobre mim,
No rebanho ignoto de minhas carnes!
Eu caminhava quase ao teu lado,
Entanto preferiste apreciar
O decote e a bunda de mais uma qualquer.
Vê-me! Pousa os sentidos sobre mim,
Mesmo que ainda delirantes,
Mesmo que ainda enfastiados,
Porque já não tens o que cantar.
Olha quando bocejo,
E a náusea impele-me aos banheiros infectos;
Quando reconheço tua firma
Ou peço-te o protocolo,
Após um bom dia em dias maus.
Volve teu rosto ao meu opaco e habitual,
Para teus versos encherem-se de sombra.
Vê-me! pois a lua agora
É dos cientistas e burocratas,
As estrelas há muito se apagaram
E nenhum brilho restou nestas faces, nestes céus,
Enquanto, sobre nossos lares,
Pesam monóxido de carbono, pressa
E celas esquecidas com sangue e vergonha.
Toque-me, se puderes,
Pois há muros entre nós,
Tijolos de indiferença e anonimato,
Grito abafado e delação.
Toque-me! Sinta-me! Cheira-me! Escuta-me!
Pois o poeta torto
Que te pede chaves e decifração
Tinha razão:
O amor resultou inútil,
Homens se matam feito percevejos.

Restou-te só a mim,
Indesejada companheira,
Habitual aparição – fantasma,
Enquanto caminhas solitário,
Acompanhado por tantos de nós:
Multidão.


                 II

Agora que o estro das cinco
Chegou, pega minha mão e vem!
Quero mostrar-te tudo e nada.

Não temas, demente,
Não receies a verdade;
Ela reside no desconhecido.

Vem comigo, confia em mim;
Afinal despertarás, assustado,
Babando de teu frágil sonho.

Libertarás teus versos
De musas e ideais há muito
Desfeitos. Vem, pueril!

Vês aquela que passa?
Ela não te ama! De fato, ela passou...
Deixa que se vá como tantos...

Sei que ainda guardas
Dela as parcas palavras
Como recompensa e ilusão.

Sei que ainda conservas
A lembrança opiária
Que te engana dia-a-dia...

Vês aquele que passa
Na boléia de um caminhão,
Levando fria marmita?

Foi ela que a preparou
Para a fome fria de um ser
Frio, frígido que ama na tábua fria.

Deixe que passem. Tudo passa,
Tu, inclusive. Pobre lembrança
Que nem sabe mais o que inventar.

“ - O que me resta, então,
Senão esquecer? Esquecer!
Esquecer! Esquecer!”

Vês estes comendo
Devorados pelo tempo?
Tua família: pai, mãe e irmã.

Sabes do resto?
Creio desconfiares. Desejas
Saber? Suportarás?

Claro. Não há qualquer
Melodrama; telenovela
É o que tens de melhor ao coração.

Vês teu pai? Quem te ensinou
A amar os livros
E a odiar a todos?

Ele não te ama! Alimentou-te
Por mera obrigação
Paterna e olha-te com dó.

De fato, não tentaste muito
Te tornar filho e ele, pai. Ambos nunca
Tiveram pendor para filiação.

Não importa se te amou.
Faltou-lhe a paternidade
Que os piegas têm de sobra...

Não te revoltes, nem queres...
Aceita os homens e as coisas,
Livra-te de culpa ou rancor.

Na identidade, tens os campos,
Para a tua tarefa social,
Todos preenchidos – és homem!

“- O que me resta, então,
Senão matar? Matar!
Matar! Matar!”

Vês esta te embalando,
Como te acalanta zelosa,
Infatigável em seu dever.

Ela te ama. Missão outorgada.
Antigo ritual tantas vezes
Repetido, signo vazio: maternidade.

Disso não tem muita consciência,
Por isso te ama, te cobra
Pode apresentar tua dívida.

E tu? Não respondas nada.
Silêncio... atrapalhar-te-ias
Com a verdade e as palavras...

“ - O que me resta, então,
Senão esquecer?
Amar e esquecer...”

E tua irmã? Lembras das tardes
Fagueiras, das manhãs primaveris,
Do efêmero fugidio?

Não, não há nada para lembrares;
Na escuridão do quarto de hoje,
Procuras uma mão, mas nada encontras...

“ - O que nos resta, então?
Nada resta!
Nada presta, irmãos meus!”

E, agora, o que tens? Fantasmas
E feridas com que dialogas,
Expostos na galeria destes versos?

Onde ficou o inefável, o mistério?
Tuas mãos contristam-se por reflexo...
Guarda estas lágrimas – pura sensaboria.

Aceitas tudo conformado,
Calas tua fúria e rebeldia,
A raiva de ti, de todos.

Solta teu grito de silêncio,
Teu canto dissonante,
Tua palavra-eco aos surdos.

Vê a multidão: eis uma certeza!
Tu a amas e estamos nela –
Tua amada e família também. Cidade...

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

,disfarçam-se alguns outros

(I)

,é na orla que se escondem os corpos,
simples,

e as fuligens que restam, tão longe,
amontoam-se em pântanos,
apavoram-nos

esses interiores escuros, fingidos, frágeis,
finge-se.

,disfarçam-se alguns outros.

(II)

,tem vezes que anseio noite,
como fuga, arrojo exausto
símil à travessia gasta, desgastante o dia,

e quando as palavras, se destecem ponto por ponto,

perdidas como o vinho vomitado, inquieto-me.

, inquieta-me o odor do jasmim que se liberta
além

,além do mar.

,despontam pétalas que se espalham, invadem
as tardes de outono acastanhadas,

aquém-terra,

e já ali, mergulho, por este mar acima,
sem destino, sem pressa,
simples,

singro-me,

ou esqueço-me.

(III)

[a quem importa, se nem a mim?]



Poema de Francisco Duarte

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segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Amor sigiloso

Amei tanto, tanto
E não soube amar
Amar o desejo
Desejar o amor
Não soube...
brigar pelo amor
ficar com um amor
Não soube jogar
os jogos de adultos
usar os disfarces
cruzar os pés
por debaixo da mesa
usar as mãos bobas
nos momentos exatos.
O que é fato
e não fálico
é que não soube
usar a língua
flexioná-la
na hora X
no ponto G
e gritar para o mundo:
-Te amo menino!

                  JORGE MEDEIROS