Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Três anos de muito Pó de Poesia....



Bolo dos três anos do Grupo Cultural da Baixada Fluminense (((   PÓ DE POESIA  )))  Um Salve!


 É big, é big, é big é big é big.. rs






 Fulaninha Ana Júlia.. Ela também é poeta. rs









 Só Fulanas de Tal... Viva!







 Márcio Rufino, Divino.





 Ivone sempre Landim... Linda.



Sempre pra cima...



Ele me viu pequena... rs







sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Apologia da poesia

A Poesia é a minha primeira esposa
Eu não sou bom de prosa
Há uma pérola no casulo da mariposa
Eu não sou bom de prosa
Depois de um dia de cão banho e tosa
Eu não sou bom de prosa
Meu fracasso deixa minha família orgulhosa
Eu não sou bom de prosa
Pelo conjunto da obra menção horrorosa
Eu não sou bom de prosa
O cravo brigou com a rosa é a rosa é a rosa
Eu não sou bom de prosa
Mas que coisa ruim mais gostosa
Eu não sou bom de prosa
Nobel de 2010 Mario Vargas Llosa
Eu não sou bom de prosa
Agora é a hora do mote e da glosa
Eu não sou bom de prosa
Menina moça com poeta fica toda prosa
Eu não sou bom de prosa

Eu
Espectador de
Entrevistas de
Escritores
Espectros
Expectorantes

Fora o que está expresso em versos
Não tenho mais nada a dizer
Confesso
Não temo
Peixe grande morre pela boca
O escritor confunde literatura com falação
Senhor de si
Ser dominante em todos os assuntos
Abarca o mundo e outros mundos
Arrota uma simplicidade complexa
Esbanja erudição e simpatia
Parece um padre porco ou um político poltrão
Tentando angariar mais fiéis e mais e mais eleitores entre os fiéis eleitores
Nada a declarar
E tenho dito

Poema de Andri Carvão

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Este lado para cima

não se deixe enganar caro leitor,

para ler este poema é necessário
CUIDADO
muito cuidado

sua arquitetura branca e
FRÁGIL
pode não impressionar no princípio

afinal, para compreendê-lo a fundo é preciso
familiaridade e um manual prático
para interpretação de tipos

porque nem toda surpresa vem embrulhada
em papel de presente

nem toda surpresa
inclui pilhas

nem toda surpresa
chega lacrada com um
cartão: de: para:

que nem todo entregador não
consiga violá-la

porque o poema, caro leitor,
é um eterno convite

conteúdo que cabe
numa embalagem que se abre

Poema de Caio Carmacho

domingo, 7 de agosto de 2011

Negro Éden



Da floresta negra ao redor de mim
Só vejo a penumbra de uma luz vazia
Só sinto o calor gelado de um serafim
Só canto o que restou de uma vida luzidia
Há vultos que perambulam cabisbaixos
Pisando em galhos secos emaranhados.

Estrelas dançando um balé mórbido
Cinzentas nuvens vagando imponentes
A fauna se agitando num grito sórdido
A flora se erguendo, seguindo em frente.
Há rios vermelhos de groselha e de sangue
Há margens sinistras de areia e de mangue.

O azul-marinho desse intenso céu
paira lento no ar sedutor
Que rasga seu estranho e denso véu
Numa fracassada tentativa de sufocar seu fulgor.
Frutos que não alimentam, mas matam a fome
Sementes que não brotam, mas erguem um homem.

A folha seca é a roupa nua
O caroço carcomido é o alimento minguado
Ah quem dera ver tua carne crua
Ser violada por um pensamento alado.
Gozo que te jogue no inferno
Sofrimento que te erga ao paraíso eterno.

Mundo orgulhoso por vencer o bem e o mal
De servir e de se negar a toda essa gente
Que supera o sabor insípido do açúcar e do sal
Mundo livre; protegido de Deus e da serpente.
Ambiente puro por reconhecer sua perversão
Ambiente resolvido por assumir sua questão.

Marcio Rufino
Todos os direitos reservados
Imagem: Foto de Christian Cravo

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Movediças em interiores da casa

brutas são as horas
um vulcão em temperamento
saindo dos ponteiros
roçando pela última ceia da mesa
nas contas a pagar
mistura ovo e bife no prato
alterna momentos raspando o azulejo
esticando a noite como um bárbaro
(repara por dentro)
na boca cheia da vontade de lhe ver
passeiam pelo quarto para testar a alma

de ainda me procurar
no horizonte dos seus olhos...

Poema de Vânia Lopez

Maria ninguém...


Sou uma boneca retalhada de chita,
Triste e colorida.
Não me faço de vítima,
Quando erro boto a cara, não nego.
Sou uma criatura carente com dentes...
Sou uma abandonada de pai,
Uma alma perturbada o tirou de mim,
Foi precoce a perda, como tudo na minha danada vida. 

Uma jovem que tem pinta de doida,
Mas é responsável com aquilo que semeou.
Uma garotinha que sonha acordada tentando fazer do amor um conto de fadas.
Tenho certeza, o amor existe!
Fadas?
- Na minha vida, só a da minhas costas, a mesma é tatuada, talvez por querer tanto ser uma. 

Uma poeta sem batismo
Que escreve o que lhe vem à mente...
Com palavras e alguns palavrões...
Umas inocentes, outras indecentes.
Aquela que nunca imaginou em ser poeta, que sonhava em ser bailarina e cantora. 

A poesia me escolheu, fui pega pela mão a andarilhar por meu passado, presente e devanear por meu futuro.
No início, poesia tímida sem muitas palavras, rimas medrosas.
Hoje, o barulho do meu mundo interno nu, sem querer saber da aprovação do mundo.
Confesso que sou explosão!...
Escrever e procurar me entender fez bem ao meu jeito,
Fez bem ao meu coração. 

Sou uma alegria em vida,
Mas quando deprimida, perco o ritmo, deixo cair no chão meu semblante...
Esqueço minha essência, me vejo num motim, dou de cara com a morte,
Minha casa vira uma espelunca,
A lua vira puta,
O passado, triste e errante,
Os amores, todos fracassados,
O presente, precipitado.
Fico louca por uns dias... No decorrer vou varrendo toda a rua do meu coração, recolho lixo por lixo....
Tentando deixar fluir a beleza dos sentimentos bons. 

Uma menina que na infância
Teve tudo para ter uma estrutura familiar...
Mas não teve!
Tive que traçar e escolher quem eu queria ser...
Tive que me reinventar para não ficar na margem de lá,
Margem dos fracassados, viciados...
Com o futuro ameaçado.
Corri do mal, chorei todo o inferno astral, passei o pão que o diabo pisou.
A única coisa boa que eu via eram as estrelas...
Quando chorosa corria para laje para chorar todas as minhas lágrimas...
Deixando as estrelas me ninar, me acalmar.

Uma mulher que não cansa de ser mulher,
Mas que entende que para ser mulher
É necessário ser forte, sagaz, intrépida.
Entende que esse mundo vagabundo é uma selva
De animais racionais gemendo por dentro, querendo seu lamento.
Entende que nem tudo é véu, flores na janela, lua-de-mel, primavera...
Muitas coisas são crueis...
Viver a dois sem sintonia,
Viver só sem melodia,
O ser humano e seus sentimentos mesquinhos,
Morrer sem ter visto de perto a cara da gostosa alegria...
Virando cinzas e nada. 

Derramarei então todo meu pó de poesia nas entrelinhas dos meus poemas...
E que se dane a teoria,
E que se dane a opinião dos que me detestam, não fico puta, não fico virgem, não fico nada!
Falo o que quero na hora certa ou na hora errada.
Não ganho nada, mas também não perco.
Sobrevivo nesse mundo de palhaços sofridos, onde muitas das vezes me vejo... 

Sou generosa, sonhadora, persistente, e quando sobra tempo, atraente.
Mãe de filhos que ergueram minha vida solo e vazia.
Uma mortal que tem horror à rotina,
Uma esquisita que se coça toda só de pensar em conversar com pessoas explicadinhas em demasia.
Uma humana cheia de defeitos, mas que não suporta hipocrisia. 

Regras não rimam com a minha vida.
Quando faço uma receita, nada é medido; no final, tudo sai gostoso, apetitoso.
Tenho algumas roupas que eu mesma corto e refaço.
Saio despojada, de boina, de tênis, sem pensar em nada.
Mas tem dias que a vaidade me condena, me visto como princesa...
Princesa sem eira, nem beira, sem castelo, sem cavalo, só com meu sorriso largo. 

Quem sou eu?
Uma imediatista que não curte saber da meteorologia e nem dos próximos dias.
Uma tatuada na vida, oito externas e várias internas (rs).
Sofro de insônia e sou viciada em café.
Adoro correr na chuva,
Sentir e receber amor...
Janeiro e fevereiro são meus meses preferidos...
Levo minha vida retalhada e colorida sem muito roteiro.
Penso que a paz é o melhor presente que alguém possui no seu âmago. Desejo-a tanto...
Quem sou eu?
Ah, só mais uma Maria ninguém para esse mundo de tantos gostos, rostos, olhares, pensamentos e tal.


Camila Senna


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

domingo, 31 de julho de 2011

O rei da chuva

O REI DA CHUVA


Apenas um louco, era o que diziam. O maluco oficial da cidade, se antiguidade

na doidice, fosse posto. Cabelos imemorialmente grisalhos, coroando a testa ampla e

enrugada, que avançava tal promontório sobre dois abestalhados olhos azuis, de olhar

triste;não daquela tristeza dos que têm olhos tristes por profissão(já falava alguém),

mas uma tristeza que era a toda hora jogada pra fora pelos olhos, assim parecia

funcionar sua natureza: jogando aquela ganga ruim contra a cara dos outros e as

pedras da rua; ainda assim uma tristeza intrigante, porque sábia e aparvalhada era o

que também parecia e tudo de uma vez só, confundindo as pessoas, que passavam a

vê-lo só de baixo pra cima. Ah, sim: chamavam-no de Biu do Cego, ironia de

vida ou de morte, o possuidor de tão diferentes olhos, filho de um cego. Sentava–se por

horas a fio, na ponta da calçada do mercado, sempre no final da tarde, cismando sabe

Deus lá sobre o que, tirando do bolso esfarrapado, grãos de milho pegados do chão

escuro do mercado, que atirava no pátio, na festa dos pombos, alternando as mãos,

jogando ora por cima da cabeça, ora de costas, por cima dos ombros, arrulhando feito

pombo, com a pronta resposta deles, à sua louca generosidade; vez por outra, um

mais afoito segredava-lhe em vôo rente ao ouvido, Biu escancarava aquele riso de

porteira velha desconjuntada e a ave partia rápida, em direção ao ocaso do sol. O riso

apombalhado - porque não? Cansava-se, às vezes. Dava lugar ao rosto crispado e

ausente, angústia demente e silenciosa, barragem de pensamento, sem suspiro pra

correr. Nesses dias, parecia desligar-se do mundo, puxando um fio que só ele via,

trepando-se na velha jaqueira da entrada da cidade - quem sabe, pra ele uma saída? Ali,

matutando horas naquele juízo desleriado e pacífico, naquela doidice só pra uso dele

mesmo. Depois, dava por encerrada a questão e descia faceiro como um sagüi de tronco

abaixo, rindo, homem menino satisfeito consigo mesmo e com o mundo. Às vezes,

alguma mão caridosa, quem sabe negociando um lugarzinho lá no céu, deixava um de

comer pro miserável,lá entre as velhas raízes, sem dizer nada; se chamasse ele fazia –

se de mouco. Depois, descia, comia e voltava ao seu adoidado filosofar de pé-de-pau.

Não lembro mais quando - já sou promissória vencida nesse mundo de Deus, mas sei

que Biu do Cego já estava há quase quinze dias na jaqueira, sem comer nem se mexer.

Aboletou–se num galho e disparou um olhar de canhão enferrujado no horizonte, dias,

semanas. Depois, ficou olhando pra barriga, como se tentando entrar em si mesmo

pela porta do umbigo. Então, começaram as chuvas, que viraram aguaceiro, depois

cheia, depois flagelo de Deus ou do Diabo contra nós e ele mesmo, pois não é tudo

natureza? A correnteza levava tudo: homem, mulher, menino, jumento, todo tipo de

criação, nem a imagem do padroeiro agüentou, o cemitério virou campo sem porteira,

já não tinha vivos para enterrar os mortos, em muitas léguas. Os políticos vieram,

depois que a desgraça já era passada, engravatados, tirando retratos mais deles mesmos

que do arraso, muito dinheiro se prometeu. Os poucos sobreviventes ouviam, mas eu

sabia que o destino do palavrório era o mesmo do vento que lambia as serras, uma ida

sem retorno. Desci do abrigo do meu roçado no Morro do Agudo e caminhei feito

barata tonta, dando voltas, fazendo com os pés o que na cabeça já fazia desde há muito.

Na entrada da rua, vi a velha jaqueira, ainda de pé sabe por obra de Deus ou do

Tinhoso. Num dos galhos mais grossos, aboletava-se Biu do Cego, chorando de tanto

rir.


André Albuquerque

CORES DE OUTONO


Com as folhas de outono
Enfeitando o chão
Dá pra sentir
As gotas da chuva fina
Beijarem as folhas
Minhas pegadas se misturam
Com o tom amarelo
Ainda espero o céu se abrir
Para tentar ver entre as árvores
As sobras de nuvens
Que pintam o ambiente
E depois apenas seguir
Enquanto as folhas com som amarelo
Possam secar
Depois que a chuva passar

sábado, 30 de julho de 2011

Teoria dos piercings

De piercing na língua
Gosta de sexo oral
De piercing no dente
Também
De piercing no nariz
Idem
De piercing na sobrancelha
Tem dúvida?

Alargador de orelha
É coisa de arrombador
De cofre

De piercing no umbigo
Prefere sexo anal
De piercing no pau
Sexo animal
De piercing na vagina
Sexo grupal
Hetero homo pansexual

De piercing no cérebro
Masturbação mental

O um que pregou
Para ser pregado
Aquela que furou
Para ser furada

Tatuagem de pirata
Tatuagem de cadeia
Tatuagem de surfista
Tatuagem de playba
Tatuagem indígena
Tatuagem de compromisso
Tatuagem de henna

A pele em exposição
Lá no Japão

AH a teoria dos piercings
É furada

Poema de Andri Carvão

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Seus sapatos são meus

vou cobrir os degraus de pedra
com folhas verdes
tirar o pó do vestido
profundamente marcado pela saudade
depositarei meus pecados
no castelo de um rei
vou abandonar a verdade
queimar a índole
fazer promessa pro milharal crescer

vem meu amor
um dia mais cedo...
vou dormir embaixo das estrelas
vestindo uma alma faminta

venha antes que a última palavra
saia do papel...
(eu peço à noite que espere)

Poema de Vânia Lopez

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Fallujah

persuadidos pelo silêncio
da noite escura
notas de veludo e pólvora
suspensas no ar

entrincheirados e sorridentes
avancemos
por entre os cadáveres
da antevéspera

há menos de um ano
num céu como este
dançávamos
ao som do violino do velho
que tocava sem cessar

avancemos
ainda que retesados e febris
nossos corpos
dentro da noite fria

ao longe o clarão de chamas
famintas flamas ruivas
se debruçando sobre a gare

arrastando-se pela planície
ecoa o chamado do trem
o último a despedir-se do continente

caminhemos
em meio aos escombros incandescidos
da estação

nossa carne febril tocará o fogo
nossas almas delirantes se incendiarão
no calor das estrelas

ainda assim
havidos no medo e na barbárie
sobreviveremos

Poema de Glauber Ramos

terça-feira, 26 de julho de 2011

Criatura etérea...




Quando me vi já era tarde...
Toda minha birra
Se convertera em amor...
Sentimento suave, intrigante, avassalador.
Para os mundanos mesquinhos...
Que pairam feito vírus no ar querendo contaminar,
Sentimento perturbador, criminado, mero deslumbre. 

Mas não...
Eu vi com meus olhos sensíveis...
Castidade nos seus, dois lagos, cujas cores, multicores.
Criatura etérea enviada para tirar-me do casebre fúnebre,
Que muitos vivem, respiram e até gozam. 

O astro Sol coloriu todo o céu de colibri
Teceu a paixão escrita antes de eu descobrir...
Descobrir você, pessoa poesia...
Que faz dos meus tristes dias, grandes alegrias... 

Não tenho medo da peste
Que assombra os seres terrestres,
Que armam ciladas nos caminhos frios...
Tramando embaçar a retina dos olhos com o nevoeiro...
Meus olhos são de margarida, de menina alquimista,
Sempre em busca da melodia do amor. 

Seu feitio lírico preencheu-me um vasto vazio...
Tirou-me do óbvio,
Temperou meu quarto solo,
Abriu com maestria um atalho especial.
Peregrina, adentrei sem temer na sua psique...
Não perdi tempo...
Mergulhei fundo, descobri um universo fecundo
De um ser profundo, que me tem com veracidade em todo seu ser. 



((( Camila Senna )))

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Ao quadrado

Sonhar duas vezes
Sonhar que se sonha
Dentro de um sonho:
Ao quadrado
E deste segundo sonho
Lançar uma corda que
Se prenda ao primeiro

É como pegar na voz de
[um pássaro
E amarrá-la num braço
[de vento
E assim escutar seu canto
Eternamente

Poema de Glauber Ramos

domingo, 24 de julho de 2011

Bem-te-vi...


O pássaro bem-te-vi,
Não me viu...
Eu o vi, até o quis.
Quis ouvi-lo,
Quis estar a voar...
Sem tino,
Perdida,
E sem horas para chegar.

sábado, 23 de julho de 2011

Esferográfica

A caneta de bico entupido
Contrariando sua natureza geratriz
Não incita o verso

Não quer ela romper
Com suas naus de fogo
Dentro dos úberes da noite

Enquanto isso,
No mar espesso de tinta azul
Sonhos coagulam
À falta de brisa

Poema de Glauber Ramos

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Moça de sorriso aberto...



Moça de sorriso aberto...
De sentimentos secretos...
De lágrimas cheias,
De vontade latente de encontrar intensamente...
O cenário dos sonhos, aquele, que outrora fora esquecido no inconsciente.
Mas que hoje é pólvora, queima a carne, dilacera o coração que foi costurado à mão.

Moça de sorriso aberto...
Que não desiste do simples, é forte, é guerreira.
Caminha nas ruas como se nunca houvesse sofrido ou chorado,
Talvez por isso ninguém perceba tamanha urgência.
Ela assusta, tem ar de mistério, respira o tédio sem remédio...
E ainda sorri encantando aos que com alma sensível a sentem por dentro.

Moça de sorriso aberto...
Faz do seu hall estar seu cúmplice andarilhando tudo...
Do coração dos que a amam... Ao chão dos cachorros sujos da rua.
Do seu cordão de jade, fez seu amuleto,
Da sua boina fez seu chapéu de época,
Transcende a moda que se especula em cada esquina, em cada loja.

Moça de sorriso aberto...
Do ego ferido bordado com pano de chita...
Que ilumina sua pele branca tatuada,
Exalando escancaradamente sua falsa brandura.
Mas é persistente e não dá guarida para o preto e o cinza.
O tempo pode fechar, mas seu coração é como mar aberto...
Recebe o sol dourado deixando-o impregnar todo seu interno.

Moça de sorriso aberto...
É mulher, mais insiste em continuar menina...
Vive com a rima na ponta da língua...
Às vezes fica triste por não encontrar a meninice no seu dia-a-dia, na sua rotina.
Exala naturalmente toda sua feminilidade,
Ainda assim é casta e mantém a pureza no olhar sem maldade...
Ansiando brincar, conviver com o simples que muitos não enxergam e não acham atraente.

Seu prazer é o de correr na chuva...
Sentir o sol revigorando, dando nova têmpera a sua alma...
Paquerar a lua ouvindo música com uma taça de vinho...
Podar suas plantas e vibrar, quando a mesma, está a desabrochar.

Tem dias que, por ironia, tudo muda, deixando seu riso mudo no viaduto...
A chuva vira pedra,
O sol cega sua retina,
A lua vira puta,
As plantas, coitadas, por tanta inveja alheia da sua vivacidade e energia, murcham.


Morto-vivo

As drogas me deram asas para voar, depois me tiraram o céu...
(John Lennon)


Fascínio
Vê estrelas
Brilhantes!
Como diamantes

Cria asas
Voa alto
Voa baixo
Voa rasante

É um circulo de gente
Que conhece muita
Gente, mas não te
Vê como gente

Sabe que perderás
A alma
As asas
O círculo se fechará

E a ti
Restará o labirinto
O grito
A dor
O desamor

A adrenalina
Passa da euforia
A depressão
A solidão

Não é mais humano
Emite grunhidos
De um zumbi perdido
No meio dos vivos!

Poema de Sandra Soares

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Os amigos

Ontem andando na rua
Vi vários amigos...
Mas eram mais novos, pensava:
Estão com a aparência velha...

Aquele ali, como está acabado!
Nossa! O Fábio... Não é possível...
Passei a mão na cabeça sem cabelos...
Fui para casa...

Tomei banho, fiz a barba
Achei que estava ótimo
A aparência... É lógico!
Coitados dos meus amigos...

Envelheceram depressa...

Poema de Victorvapf

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Como se soasse firmamento

num peito coalhado de girassóis
a vida tem vista para o mar

onde vivo hospedada
com uma flor atrás da orelha
a beber piña colada

nas mãos em concha
uma alma
já incluída na diária
junto a uma pilha de raízes da estação
só pra descansar a respiração
de borboletas e beija flores

deito no topo do corpo
desço só à noitinha...

cada novo dia
é como mar interior na arrebentação
apaga todos os nexos
toma qualquer forma
em todos os cantos de dentro

(arrepia o espelho...)

Poema de Vânia Lopez

Exagero

Eu quero ser
um Quero-quero:
um teimoso
sincero.

Eu quero ser
um Bem-te-vi
cantando
uma Sucuri.

Eu quero ser
um Papagaio,
pondo meu bico
num balaio.

Eu quero ser
uma Arara,
no deserto
do Saara..

Eu quero ser
uma Gaivota
sobrevoando
uma ilhota.

Eu quero ser
uma Ema:
sul-americana
da gema.

Eu quero ser
um Pica-pau,
e vir a ser
um bacurau.

Eu quero ser
um Pelicano
pescando peixes
por engano.

Eu quero ser
um’Andorinha.
De estatura
pequenininha.

Eu quero ser
um Urubu
sofisticando
o menu.

Eu quero ser
uma Coruja.
Que bela mãe
a dita-cuja.

Eu quero ser
um Beija-flor,
sendo do pólen
o predador.

Eu quero ser
um Periquito,
e na gaiola
dou faniquito.

Eu quer ser
um avestruz
na velocidade
da luz.

Eu quero ser
um Albatroz,
muito voraz,
muito feroz.

Eu quero ser
uma cegonha:
monogâmica
sem vergonha.

Eu quero ser
qualquer ave
e imitar
uma espaçonave.

Eu quero ser
um Quero-quero?
Não quero nada!
Eu exagero.

Poema de Isaac Bugarim

sábado, 16 de julho de 2011

Pó de Poesia comemora três anos e lança zine











O Pó de Poesia comemora três anos de existência e lança seus fanzines de abril, maio, junho e julho com poemas de poetas fixos do coletivo Ivone Landim, Dida Nascimento, Marcio Rufino, Jorge Medeiros, Ramide Beneret, Arnoldo Pimentel, Camila Senna e Felipe Mendonça. A confecção do zine foi realizado através de colagens da poeta, educadora e artista plástica Ivone Landim, também mentora do coletivo.

Terra chamada vontade...


Construimos um altar...
Tinha flores,
Perfume,
Esperança.

Fomos para nosso lar...
Tinha sofá,
Comida na panela,
Primavera.

No caminho...
Tinha espinhos,
Mesquinhos,
Muita maldade.

Continuamos...
Não foi em vão,
Um amor feito pão,
Não termina sem chão.

Estamos aqui...
Com herdeiros,
Com a vontade,
Sempre em busca da felicidade.
Viver em parceria é uma traquinagem
Numa terra chamada vontade.




((( Camila Senna )))

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Como uma navalha

Tão afiada como uma navalha
Ao fazer a barba (cortes, cortes)
Que sangram como sangra n´alma
Da dor das malditas palavras!
Impensadas!
Injustas!
Tão profundas, que o corpo
Se curva
A mente se turva
Teu eu, já não é seu
Perdeu-se...
Foi-se no turbilhão
Desse vermelho tão
Vermelho, como a
Maré vermelha do
Mês de janeiro.

Poema de Sandra Soares

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Spleen

Jogue o meu corpo
numa vala ou no esgoto!
Jogue-o na privada!
Eu sei que eu sou um escroto!

Jogue o meu corpo
num bordel ou no lixão!
Jogue-o na calçada!
Eu sei que eu sou um cão!

Jogue o meu corpo
na Via Dutra ou dum viaduto!
Jogue-o da sacada!
Eu sei que eu sou um bruto!

Jogue o meu corpo
da janela do último andar!
Jogue-o da escada!
Eu sei que eu sou de lascar!

Jogue o meu corpo
num gancho de açougue!
Jogue-o à manada!
Eu não sou eu nada! Jogue!

Poema de Andri Carvão

segunda-feira, 11 de julho de 2011

ANJOS TAMBÉM MORREM


É só um breve caminhar pelas ruas que não existem mais
Algumas pessoas também caminham
A quadra de esporte tem grades cortadas
Vidas pelas ruas com asas amputadas
E o avião apenas passa
Com olhos de águia buscando suas presas
Deixando um rastro de fumaça
Deixando lágrimas nas praças
E o avião apenas passa
Enquanto o anjo ainda insiste
Em falar de esperança
Sem ver que
A rua é o esboço de um quadro
Desenho ainda sendo riscado
Que mostrará a face da solidão
Depois da desilusão
Mostrará nos campos do trigo prometido
A desolação
Visão sem importância para quem está lá no alto
Ou dentro do avião