Manifesto do coletivo Pó de Poesia
O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.
Creia.
A poesia pode.
(Ivone Landim)
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
O pregador
Conto de André Albuquerque
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Brasis de meus polegares
Eu nunca vi terras de Vera Cruz que não fosse pelas fotografias que sempre existiram nos açores de outros voos.
Eu nunca vi India tão para lá do Ganges do meu bidé.
Eu nunca consegui domar este meu pé imperialista, esta minha sede de ser maior que um oásis, este meu camelo dorso onde me aninho.
Eu nunca consegui ser água de lágrima, rio de pó.
Sou preta feia, sou Cesária bem morna com o meu país.
Sou as Franças da menina puta, que um dia, por não saber a quem endereçar a angústia, se diluiu num rio e por via disso os peixes, mais secos que enguias, tiveram que mendigar o pão pelas portas, escorregadios.
Eu sou a miséria de um grito sem fronteiras. Um trapo arregaçado, um prepúcio.
E raios se não me rasgo, se não me caravelo, se não me enfuno nestas velas lusas.
Dane-se esta merda doce de ser português, comida às colheres no jardim florido de uma cigarra vadia.
Era prima de uma formiga, mas foice*.
*Símbolo com que se representa o Tempo e a Morte.
Autor: José Ilídio Torres
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
"acto-definido"
qual rescisão e colheita das minhas obsoletas páginas
ao exercício. ao costume referido e ora, frente ou subtil
se for.. seja o acaso de preferências às outras cartas
então me fiz acreditar em revelia de reles putas-mentiras
ao conto da corda refém e breve, já nítida quanto pérfida
por elegia deste eco entregue e que não perdurou dois dias
ou às noites vazias que declinavam-se em poesia-nua/léxica
ah, eu.. tão tolo como sou, me deixei trafegar o pouco-sonho
qual arremesso de impulsão à morada alheia do desencontro
e na palavra retocada, maquilada de vileza, (afora)me deitei..
ah, eu.. em esboço desta vénia, ainda assim, me previ à queda
tal etérea imagem da planificação em costura e reles-oferta
e. na palavra desfiada, pincelada de impurezas, (agora)te sei
Soneto de Azke
domingo, 18 de dezembro de 2011
façam-me esse favor de imediato
Fiquem com esta merda os caçulas
que sempre encontram pedra no sapato
Não tenho mais paciência para isto
tenho o luso a gangrenar-me a alma
começou por um pequeno quisto
tamanho de um dedo e agora da palma
Não volto mais aqui, é de vez, eu juro
tira-me o tesão, quebra-me a vontade
Vejo túneis onde dantes havia um furo
Fiquem por isso com a vossa puberdade
que eu aninho num broche ao futuro
Poema de José Ilídio Torres
sábado, 17 de dezembro de 2011
Lascas
Poema de Maria Verde
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
Mama

Ah, Mama África...
Por que nos separamos?
Os olhos brilhantes em Kilimanjaro
conseguem ver os filhos flutuando
nos oceanos e mares em seus navios continentais?
Com que memória você nos percebe
- nós, que te vimos chover o rosto
quando partimos para adolescer
entre os rios no Crescente Fértil?
Nós mesmos que buscamos
amadurecer entre os dois sóis?...
Consegue ver o que guardamos
da sensibilidade dos mundos do Nascente?
Pode notar tudo o que orquestramos no
pensamento
entre as pedras e arbustos das Polis ocidentais?
Porque foi assim, Mama África, com essa
infância, juventude
e vida pronta, que nos deixaste partir de vez para
esse mundo
de terra, água, fogo e ar...
Marcos Afonso
A luz dos olhos de Luci
A distância dum pensamento a percorrer milhões de anos.
Camadas da matéria adâmica, são ossos e sentimentos.
Oh, Luci! Luz vinda das cinzas embalada por vulcões,
Num magma de sonhos sob um céu miocênico incandescente.
Ampulhetas do Tempo, somam-se as estalactites e nascimento,
Quando o teu semblante olhava o futuro de teus descendentes,
As constelações desenhavam sobre a Terra, os contornos do destino.
O que era úmido e verde, tornou-se árido, corrosivo, restos de cascalhos.
Hoje são apenas memórias escavadas, no vento aquecido pelo passado.
O que viria a existir após se extinguir a última centelha dum olhar iluminado?
Seriam as estrelas, vindas de olhos ingênuos, a derramar sangue e destruição.
A sabedoria latente, como uma semente de gente, preste a explodir.
Mentes abstratas a procura de Deus, através de mares de incertezas.
Animal bípede e marinheiro ancorado no fundo da alma de todos nós.
Escavar o Tempo, expor teus ossos ao relento, além da eternidade,
Procurar desejos soterrados a milhares de Luas e estrelas fugidias.
Do nascer das auroras até as infinitas primaveras, tua luz irá florir,
Sonho onde o homem jamais irá pousar, seja dum sputnik, ou apolo.
Uma Deusa da fertilidade, se sobreporá aos Deuses do Olimpo.
Poema de Airton Parra
segunda-feira, 12 de dezembro de 2011
Morro-me
Em cada alegria, em cada desgosto
Em cada copo vazio
Morro-me de fome pela barriga cheia
Morro-me
Num sol-posto, numa chuva em pleno Agosto
Num cálice de veneno que se bebe como vinho
Num suspiro prolongado
Morro-me por centímetro quadrado
Morro-me em milhas, em polegadas
Nas encruzilhadas dos caminhos
Morro-me em quarteirões, em alqueires
Morro-me em Alentejos tão grandes como Minhos
E nesta consciência de que me morro satisfeito
Tiro-me medidas, escolho a madeira
Faço um poema do melhor tecido
Fumo-me
in: «Os poemas não se servem frios» Temas Originais 2010
Poema de José Ilídio Torres
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
"(ela.)Niveal,"
desvia meu pêndulo sob o restante deste alarido alvo-coração
lacerado. e posto às páginas de letras deferidas por obsessão
ora, habita-me à pele que te possui um lapso de filme em torpor..
aqueda-me! qual emancipação de lar obstuso, tal um enigma irreal
cala o meu desejo de sequências e pecados, e(de) tentar ainda mais..
meu exercício, meu arbítrio de continuar-te à metade de ti(tão..) voraz
ah.. aqueda-me em escultura do teu corpo livre em nú desfile carnal
ora.. não me vê em correntes que te seguem com as pontas dos olhos?
não concede o teu tempo a este pátio de pilhérias e paragem de espólios?
incidência. de tentar-te à uma fracção imersa em dependência que te curva..
ah.. eu, deixaria os meus arremessos de lado, culparia meus (todos)pecados
minhas breves decisões, ora dormentes, deste inapto alvo/palco/pacto vago
ah..qual ilusão à pele que te toca?ao sonho que te sobra?(e.chuvas/e.chuvas?)
Soneto de Azke
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Retrato
Queria encontrar o mesmo sorriso em seu rosto...
Quem sabe tudo seria diferente?
O retrato amarelado diz que o tempo passou rápido demais e sequer me esperou... E eu fiquei para trás.
No entanto seus olhos não perderam o brilho; Continuam iluminando meu estranho caminho.
O coração congelou e a alma partiu arrastada pelas águas do rio...
E eu fiquei só. Eu e você no retrato amarelado.
O sofá marrom, seu short curto e camisa xadrez.
Deixe-me mentir que você é a mesma criança.
Deixe-me inventar qualquer esperança...
Porque o sol ainda toca teu rosto e o céu finge não ver tantos desgostos...
Eu ainda posso ouvir a chaleira apitar e posso ouvir suas risadas no jardim...
Não! Não jogarei seu retrato na fogueira. Te esquecer? Nem que eu queira!
Um anjo sempre vem me ver, larga meu cálice de fel e vai embora;
Já nem olha mais em meus olhos; Cabisbaixo, chora do lado de fora...
Enquanto eu fico só... Eu e você no retrato amarelado.
Eu e você e um coração despedaçado...
Poema de Léia Carmona
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Era uma vez outra vez
Afasto os órgãos que não interessam
Irrompo pelo estômago das palavras
Aspiro o sangue, limpo as impurezas
Rasgo-o com precisão pela boca
Retiro-o de uma só vez vitorioso
Clampo a ferida aberta e morro
Um dia serei árvore e novamente papel
E estômago e bisturi afiado
E uma pleura aberta até ao chão
E depois palavra e depois página
Veia e artéria
E agarrado aos pulsos um coração
Bisturi afiado para começar tudo de novo
Se valer a pena, estou disposto a autopsiar-me
Órgão a órgão para cima de uma marquesa
E aprender a começar as frases por era uma vez
in: «Os poemas não se servem frios» Temas Originais 2010
Poema de José Ilídio Torres
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Prosas poéticas
Vou suicidar-me no primeiro raio de sol. Já testamentei os meus parcos haveres: todo o sal do mar e as sereias pornográficas que copulam com o vento norte. Uma gaivota de crude.
Já me despedi de quem gosto: poetas sem lei, que vivem para além da morte, ledos.
Dei carta de alforria às prostitutas que trabalhavam nas esquinas dos meus olhos, encerrei os bordéis sujos nos meus dedos.
Promovi os pedintes a monarcas, fiz dos enjeitados nobres patriarcas.
Deixei dito que mais nenhuma criança cresceria antes do tempo, que a única lei vigente passaria a ser a da brincadeira e dos afectos.
Que o poema fosse a única matéria leccionada nas escolas, sítios amplos sem portas, janelas ou tectos.
Assinei papéis doando os meus orgãos: o fígado para ser transplantado num homem são, mas azedo e sem coração.
Os pulmões experimentados num réptil, os meus rins enxertados em árvores de fruto.
Paguei adiantado às carpideiras com o dinheiro sujo que ganhei amamentando o sistema, mesmo não tendo tetas, pregador de certezas, pastor crente de um rebanho de petas.
Espero que chorem, esperneiem, larguem baba e ranho por mim, e no final das exéquias se sirvam canapés, se leiam poetas malditos e o vinho esgote.
Para onde vou não preciso de memória, a palavra saudade deixará de fazer sentido, o próprio verso, mote.
Vou suicidar-me no primeiro raio de sol. Espero que me trespasse de luz o coração.
Ninguém morre e vai para o céu
Ninguém morre e vai para o céu.
Até se pode morrer e ir para um lugar abaixo de nós. Raiz de árvore, seiva de flor, estômago de pássaro.
Nesse caso a alma não levita, entranha-se na terra fecundando-a.
Há um espírito universal em tudo o que vive. Provavelmente até numa pedra. Na conjugação de todas as coisas. Há um espírito que vive numa obra de arte, nas páginas de um livro, na anatomia da memória. Na história.
A passagem de cada um de nós pela vida alimenta esse espírito, o que nos coloca a todos como irmãos. Filhos de uma mesma mãe.
Estar à espera de um céu depois de morrer, seja por via de uma licença passada pela igreja, seja por via da própria espiritualidade de cada um, é um pensamento profundamente redutor.
A função de cada ser nesta vida, é ser melhor. Signifique isso a capacidade de irmos perpetuando a beleza das coisas e das suas emoções, a nobreza dos gestos e da partilha, mesmo que cada um cometa erros, ou sinta que falhou num determinado momento.
O espírito de cada um realiza-se num todo. Não existe um qualquer lugar marcado no céu, não existe propriedade nem o seu direito.
A capacidade destrutiva do Homem faz parte do ciclo infinito da vida. A terra será uma rocha um dia, mas haverá sempre uma semente de liberdade a romper o chão, a vir da água, a trepar às árvores, a nascer do ventre de uma mulher, seja até num outro lugar.
A história da terra escreve-se em poema, a vida… é uma prosa só.
Autor: José Ilídio Torres
segunda-feira, 5 de dezembro de 2011
Intervenção cultural de conscientização sócio-ambiental



O poeta e ator Marcio Rufino

O ator Ramide Beneret encarna seu personagem Vô Mustafá


A poeta Ivone Landim
Com o apoio da FASE Rio o Centro Cultural Donana realizou na manhã de domingo do dia 4 de dezembro uma intervenção cultural de conscientização sócio-ambiental no bairro Piam em Belford Roxo. O grupo Pó de Poesia com o grupo de Capoeira Palmares se apresentou no evento que teve exposição de Artes plásticas, fotografia e realização de grafites.
Fotos: Caetano Daniel.
domingo, 4 de dezembro de 2011
"mapear-te.."
à cada. procura voraz de entreter um prévio coração
(este!)oh, doce mente.. tão doce e latente concussão
por chamada tarja de quedas, ora quimera.. ora se perde.
por intuito. hábil, de volteio alheio aos livres olhos teus
qual virtude. e deflagração em carne, pois: cópula-de-registro!
a mapear-te.. impulsão. por in.razão absurda, por risco
seja-me à carta que desapego, ou à letra que te escolheu
a este ponto raso, de margem contido: em lago frívolo
se for à hora primária de contacto, oh.. tarde deste palco!
se for à seiva da carne criada de pátrias, oh.. pecado adiado.
conflito.. evitado por inclusão e ruptura de visão alguma
ou, referência.. lista planejada à carga entretetida de lisuras
largue-me!! cubra-me ao véu que te prega ao céu mais ilícito
(algo perto, alvo fixo..)
Poema de Azke
Dois poemas de Aline Capistrano
Dane-se o natal e o novo mundo
Deixem somente as rabanadas
As quais eu nutro amor profundo
Rimem heresias e maldições
Pendurem nas árvores os colhões
Pro inferno a poesia
O amor e a hipocrisia
Matem a razão meia noite
Depois sirvam vinagre
Partam o peru a foice
Sirvam na comadre
Bestas apocalípticas
Vergonha da sua nação
Na boca sempre um palavrão
Uma palavra prostituta
A língua falada é puta
A discórdia azeite
O ego um pedaço de pão.
Toco fogo no céu
Tem anjos demais para pouco céu
Alguns devem ir para o inferno
Abro as asas e aponto os réus
Dou a sentença
O céu é de quem o viu primeiro
O ultimo será mesmo o derradeiro
Comigo não tem ditado
Nem a puta da democracia
Aqui é por ordem de hierarquia
Acaso o céu não me aceite como juiz
Toco fogo nesta bagaceira
E tudo fica como fim de feira
Poemas de Aline Capistrano
serragem é o peito vazio
a poesia era o reino onde ninguém morre
testemunha o inferno
a raiz da ira
um pulso em flores
como uma árvore
que se dobra pelo vento e volta
porém, a mão não poderá jamais
ser maior que a palavra que empunha
destruindo de dentro para fora
como um prego em uma ferradura
ou um céu sem nuvens a trovejar
nesse imenso salão de baile chamado universo
o meu sangue é da mesma cor que o teu
a alma é imortal
e encontrar um motivo para não puxar uma palavra
em vão ou vã
é justo imortal e divino
os fios das harpas são deuses
mantém o vosso chão
para que tenham o ar da liberdade
Poema de Vânia Lopez
terça-feira, 29 de novembro de 2011
Arqueologia
Dou uma espiadinha pela fresta da porta.
Olho o caminho percorrido
E sempre acho, em meio às pegadas,
Um pequeno tesouro esquecido e enterrado.
Uma mão estendida,
Um olhar compassivo,
Um sorriso no momento exato.
Uma palavra...
Encontro, também, remédios amargos,
Intramusculares,
Daqueles que doem muito,
Marejam os olhos e apertam o peito.
Não observo ossos
Deixados pelo caminho
Porque coisas mortas só assombram
Minhas noites de sono tranquilo.
Minha arqueologia é sobre
As coisa vivas, que pulsam
E me ensinam novos caminhos a percorrer.
Outro dia,
Em um desses passeios,
Encontrei o perdão, só,
A muito tempo esperando por nós dois.
E tento trazê-lo desde então.
Poema de Milton Filho
domingo, 27 de novembro de 2011
Canção da manhã
jipe serpenteando
multidão de bóias-frias em marcha
sol nascente se espalhando
quero-queros em revoada
gado ruminando no pasto
galões de leite fresco nas porteiras
ribeirão cantando sobre os seixos
suave ranger de rodas de carroça
galo cocoricando no galho do abacateiro
aboio de peão barítono apaixonado
brilho e tilintar das enxadas e das foices
pés de cafés sendo colhidos
som de berrante potente
abafando todos os outros sons,
tudo na mais perfeita ordem
e eu, voltando do baile
com a viola nas costas,
chutando as pedras do caminho...
Poema de Betusko
Abutres
vós destes o corpo do meu nome
Sem benzi mento ou caridade
ao voraz esquecimento.
Os dentes onívoros
Dessas aves insaciáveis
não imaginam a ressurreição
do outro corpo nominal
que desenvolvo no útero do verbo.
Poema de Jean Narciso Bispo Moura
sábado, 26 de novembro de 2011
Supernova
(Gn. 3:19)
A supernova
É flor de raios
Apavorando
Floricultores,
A tantos povos
A contemplarem
Imenso brilho,
Origem e fonte
De todo o riso,
Do todo o choro
E da pergunta
Sobre o que somos,
Para onde vamos.
A supernova
É nossa mãe
E nosso pai,
Deu causa a tudo,
Ao teu destino
E à nossa fé,
Gerou profana
Buracos negros
Insaciáveis
E até as unhas
Tão comezinhas
Do nosso pé.
A supernova
É geometria
A ejetar-nos
Um rubro espectro,
Etéreo aspecto,
A quintessência
De todo o cosmo.
A supernova
É substância,
Todo o minério
Do teu planeta,
O claro enigma
Do teu mistério.
A supernova
É ferro e cálcio
Carbono e boro,
Matéria orgânica
Do teu desterro
Em supersônica
Exsudação.
A supernova
É festa e luz,
Tão branca luz,
Tão fero brilho
È vida e morte
A explodir
No céu da China,
Em Cassiopéia
E na Serpente
Ao olho enorme
De Brahe e Kepler.
A supernova
De nada esquece
E a si requer
Matéria outrora
A ti emprestada.
A supernova
Está no fundo
Do altivo céu,
Além do véu
Do firmamento,
Na grande Nuvem
De Magalhães
Que se te espelha
Destino e halo.
A supernova
Não mente ou ri,
Te dá o dente,
Depois o toma,
É tua origem,
É tua esfinge
Espelho e berço
De todo o fim.
A supernova
É muito séria,
Térmico útero,
Fornalha cósmica
Colapsada,
A Sanduleak
Brilhando mais
Que a própria Vésper
A derramar-se
Por vasto céu.
A supernova
Encena os céus,
Condena os céus
Com raios gama
E raios-x,
Ponteia os astros
Do cientista
E do menino.
A supernova
Que tanto amas
Em ti reponta
E te reconta
A própria imagem,
O curso d’água
De toda a vida.
A supernova
É a inflação
De quente lóbulo
Que nos semeia
Novas estrelas,
A sementeira
Evanescente
Que te refaz
E degenera.
A supernova
Põe a serviço
Toda a matéria,
E novas nuvens
E nebulosas
Que te fecundam
E te inoculam
Veneno e pólen
Do céu longínquo.
A supernova,
O bronze e a pátina
De novas vidas
E novas Terras.
A supernova
Deu tempo ao homem
E o subtrai
Do solo ao cosmo.
A supernova
Te dá o câncer
E a rara chance
De redimir-te
Ignorado
E ignorando
O próprio acaso
De toda história.
A supernova,
A destrutiva
A destruir-se,
A destruir-me
E a construir-nos
Do pó sidéreo.
Felipe Mendonça -
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