Manifesto do coletivo Pó de Poesia
O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.
Creia.
A poesia pode.
(Ivone Landim)
quarta-feira, 4 de abril de 2012
Mauro & Maurício
Tocou a campainha e Mauro foi atender ensaiando o discurso de descompostura. Ao abrir a porta encontrou a filha acompanhada de um belo rapaz. Séria. Decidida. Tragicamente decidida. O rapaz constrangedoramente simpático.
- Oi pai! Esse aqui é o Fábio, meu namorado!
- Isso são horas? Perguntou Mauro fatalista.
- Eu posso explicar, seu Mauro. Posso entrar? – Fábio perguntava, argumentava amendrontado, mas firme.
Mauro permitiu. Bom e generoso como era, não era homem de extravasar sua raiva sem antes ouvir as justificativas do objeto de sua ira. Depois de entrar, os três se sentaram. Barbara e fàbio falaram sobre o culto da igreja. Sobre a esticadinha até a pizzaria mais próxima. Sobre o bate-papo que mascarava o amasso e a pegação. Era a primeira vez que Mauro via Fábio em sua vida e o rapaz lhe lembrava algo ou alguém que ele não sabia e no fundo nem queria saber o que nem quem, pois pressentia que era uma coisa muito dolorosa. Em seu papel de pai severo que quer saber com quem a filha anda, ousou perguntalhe o sobrenome.
- Vezzani! – Respondeu Fábio solícito. – Fábio Vezzani. Sou filho de Maurício Vezzani. Ele é um cirurgião super famoso. Conhece?
Mauro preferiria morrer a ter que escutar aquilo. Aquelas palavras eram várias facas a lhe perfurar os tímpanos e o coração; e invadiro os olhos e a alma sem dó nem piedade.
- Já ouvi falar por alto! – Sua boca respondia pesada e mórbida como a boca de um zumbi.
Barbara tomou a palavra:
-Já tá tarde e eu vou levar o Fábio até o portão, pai. Até daqui a pouquinho.
Mauro não respondia. Seus olhos estavam tristes, distantes, imprecisos, longíquos. Quando Barbara fechou a porta, amesma foi arrombada pelo passado dentro das lembranças do dono da casa em imagens cruéis e torturadoras. Sim. O nome Maurício Vezzani era um nome que lhe soava aos ouvidos com a mesma força apaixonadamente malígna de uma ameaça alienígena.
Se viu aos treze anos na quadra de esportes da escola. Era ótimo no handebol e fazia muito sucesso com as meninas, mas era fiel à sua namoradinha Raquel da mesma idade – pois a mulher sempre defende o homem de si mesmo nos mistérios nefastos da vida. Foi com os amigos pegar a bola que já estava reservada para eles. Mas a turma do primeiro ano do segundo grau já havia pegado a bola. Eles que eram do sétimo ano ginasial foram tomar satisfação com o líder da turma. Quem tinha que estar a frente era o líder Mauro. Chegaram na quadra e o líder do grupo que estava sobre o domínio da bola estava de costas dando as devidas instruções ao time. Bastou Mauro tocar em seu ombro para ele se voltar bem lentamente. Perguntou-lhe o nome antes de reivindicar a bola.
- Me chamo Maurício Vezzani.
Sim. Era a primeira vez que Mauro e Maurício estavam frente a frente. Mauro ficou pertubado com os olhos de Maurício. Olhos de quem era embiagado pela vida. E melifluamente se sentiu vampirizado. Maurício lhe propôs uma partida. Seus times jogariam um contra o outro. Partida feita. Jogo empatado. Zero a zero.
- Vamos jogar um vídeo-game lá em casa? – Maurício era pertinente em seu convite a Mauro. Meus pais estão viajando. Não tem ninguém pra encher o saco.
Mauro sabia que ao aceitar esses e outros convites jamais seria o mesmo; mas quando o clamor dos sentidos grita na veia, ele impele e incita algumas pessoas a fazer o emocional e não o convencional. Aceitou estes e outros convites. Quando chegavam ambos sabiam que não existiria vídeo-game. Existiria sim: o desejo pagão de dois jovens da antigüidade; o amor profano de dois sacerdotes de um deus da colheita; a explosão do gozo maldito; a chuva de sêmem a inundar a cama, as paredes e o chão do quarto de um adolescente; e finalmente, a paz clandestina dos amantes undergrounds.
E foi sendo sempre assim por mais ou menos dez anos. Até que a mãe de Maurício, dona Irma, descobriu tudo. No seu semblante tranqüilo e carismático de uma aparente resignação, fingiu aceitar em sua paz cristã de mulher religiosa. Mas ao se descobrir traída pelo marido, fez questão de visitar a amante do companheiro e lhe intimar:
- Você vai me ajudar a acabar com uma certa palhaçada!
A amante mudou de papel. Foi incubida de abandonar o pai e seduzir o filho. Em seu período fértil foi apresentada a Maurício. Bela e sensual como era não foi difícil levar o jovem para a cama. Engravidou.
No terceiro mês de gravidez foi junto com dona Irma fazer uma visita a Mauro. A mãe de Maurício tomou a palavra:
- Está vendo esta moça ao meu lado, Mauro? Ela está grávida do meu filho Maurício. Agora sim. Meu filho pode ser todo seu; pois por mais que vocês se gostem, jamais terão esse prazer de ver os traços de vocês dois correndo, pulando, rindo, chorando, crescendo em um ser. Jamais vão ver a continuação disso aí que vocês chamam de amor pulsando na vida de uma pessoa.
Mauro não precisava estar passndo por aquilo. Sabia que seu relacionamento com Maurício não seria eterno e enm queria que o fosse. Sabia que Maurício gostava de meninas também e sempre respeitou, pois ele também não as ignorava por completo. Como toda coisa que não é provocada e sim acontecida, não deveria haver acusações, nem condenações , nem punições. Não merecia sentir aquela dor ao ter a gravidez daquela moça que nunca havia visto antes jogada em sua cara. Não merecia descobrir de forma assim tão violenta que o caso entre ele e Maurício era mais forte do que ele pensava; e por isso incomodava.
Aquelas palavras além de machucar o enlouqueceram com perversa doçura. Se sentiu despencando em um abismo escuro e fétido que o destituía de sua identidade. Enchendo-se de vergonha e culpa, nunca mais quis ver Maurício em sua frente. Passou a se vestir de mulher. Não tomava mais banho. Falava sozinho pelas ruas. Se alimentava das oferendas das encruzilhadas. Se feria propositalemnte com gilete. Mas Raquel, a antiga namorada, voltou a cruzar seu caminho; e apaixonada estendeu-lhe a mão – curando sua alma machucada. Levou-o para a igreja e lá se casaram. Raquel engravidou e, doente, morreu do parto da filhinha Barbara – que nasceu linda, forte, saudável. Mauro criou sozinho a filha sendo pai e mãe; melhor amigo e professor; psicólogo e confidente. Barbara era uma luz em sua vida e sua existência lhe dava um novo e maravilhoso significado.
Agora estava ali naquela sala, olhando para aquela porta restaurada pelo memos passado que lhe trazia de volta ao presente.
- Ele já foi! – Disse Barbara entrando receosa.
Mauro foi incisivo:
- Não quero que você veja este rapaz novamente.
- Eu tô grávida! – Barbara respondia com uma gota de lágrima a lhe cair do olho esquerdo.
- Sua louca! – Mauro gritou desferindo-lhe uma sonora bofetada.
Barbara correu a se trancar no quarto, se debulhando entre gritos e lágrimas. Nunca o pai havia lhe encostado um dedo sequer. Sempre fora o mais compreensivo, carinhoso e compassivo nas mais sérias travessuras e peripécias da filha. A moça sofria. Conheceu Fábio três anos antes na festinha da igreja. Depois se descobriram matriculados na mesma escola durante uma partida de handebol meninos versus meninas. Na festinha da escola deram o primeiro beijo, passando a namorar escondido logo em seguida. O período de namoro às escondidas foi delicioso. Aquele mundo maoroso era só dos dois. Nenhum parente, nenhum amigo a pertubar-lhes a paz secreta dos amantes. Mas tudo cresce a tal ponto de se tornar insuportável. É quando entra o sexo. Desmaiou numa aula de Educação Física. Na hora de pegar o resultado com o médico quis desaparecer. Ainda nem conhecia a família de Fábio. Já estava no segundo mês de gravidez e apesar de não esperar uma reação tão violenta do pai, já pressentia que ele não gostaria nada nada daquilo. O único fato que lhe salvava de uma possível tentativa de suicídio era a alegre surpresa de ter visto nos olhos do namorado a felicidade e ternura em se saber futuro papai, apesar de tão jovem. Se sentia fortalecida.
Fábio contou tudo para sua melhor amiga confidente, a avó dona Irma. A velha senhora ficou radiante em se saber futura bisavó. Ainda não conhecia a moça, nem sua família, mas já amava a todos por ajudarem a aumentar seu clã. Sua prole se perpetuava de forma sublime. “E só em imaginar que aquele veadinho sonso e nojento do Mauro quase destruiu isso tudo ao seduzir o meu Mauricinho”. Pensava ela em seus botões de seda. “ Mas graças à Deus aquele lá já se foi. Deve ter morrido de aids a uma altura dessas”.
Fábio levou Barbara para morar com ele no casarão dos Vezzani. Mauro não esboçou nenhuma reação. Apático, impotente deixou a filha ir com o pai do filho que esperava feliz, amendrontada, tensa, esperançosa. Em seu sofrimento de avô que não estava preparado para aquele neto, ele ruminava medos apreensões, recalques e solidões de uma vida toda de fuga de si mesmo. Sabia que jamais poderia matar o passado, mas poderia sufocá-lo como fazia desde a morte de Raquel e do nascimento de Barbara; podia soterra-lo nas preces que entoava aos gritos e nas canções religiosas que ouvia até o último volume do rádio, incomodando toda a vizinhança cada vez que se lembrava de Maurício. Agora, sabendo que sua filha abrigava em seu ventre um neto que era seu e de Maurício, não suportava o fato de saber que Barbara, antes sua tábua de salvação, agora o obrigava a andar sobre o fogo, a água e o ar – pois ela não pariria apenas um bebê. Pariria também o gosto do sexo de Maurício em sua boca, a humilhação de dona Irma, sua própria loucura. Ele usava sua fé para fugir do passado, mas aquele neto era sua fé, seu passado e seu presente. E para conseguir ama-lo no futuroao invés de sufocar, teria que manter sua velha paixão acesa. Nem que fosse em outro patamar. Em outro prisma. Em outra vertente.
Seis meses se passaram. Era chegada a hora de Barbara dar a luz. Foi sentindo as contrações, cercada pelos mimos de Fábio, dona Irma e do sogro Maurício. Este faria o parto. Estava imensamente feliz com a chegada do netinho. Sim. Agora sim. Sua vida eria sentido. Teve vontade de morrer quando Mauro o expulsou de sua vida. Tinha sido embebedado pela mulher que depois de casados ambos um com o outro, descobriu ser ex-amante de seu pai. Após a confirmação do teste de DNA de que Fábio era realmente seu filho, conseguiu amá-lo sem culpas, nem acusações. Mas matou a mulher aos poucos e involuntariamente; quando ela já apaixonada pelo marido teve que suportar seu desprezo, sua frieza, suas traições. As vezes em que ele, bêbado, a amava pelas costas balbuciando baixinho e inconsciente o nome de Mauro. O câncer que a assassinou foi para ela a grande solução.
Quando soube da loucura de Mauro, Maurício quis vê-lo; mas dominado, acuado pelas ameaças da mãe de coagir o pai a deserdá-lo, desistiu. Triste, melancólico e solitário viveu somente para seu filho e sua profissão. Se perdeu e se achou em saunas, banheiros públicos e cines pornôs nos braços de jovens rapazes; na esperança de reencontrar neles pelo menos um pouco de Mauro ou de sí próprio, de sua juventude.
Nasceu um lindo bebê. Amado, esperado, forte.
- O seu pai não irá vir conhecer o neto, minha filha? – Perguntava dona Irma para Barbara.
A jovem abaixava os olhos desamparados de saudades do pai.
Depois de deixar o bebê no colo da mãe por alguns longos minutos, Maurício pegou o neto no colo. A porta do quarto se abriu e nele entrou um taciturno senhor de cabeça baixa. Todos se sobressaltaram. O senhor levantou a testa, depois os olhos, depois o nariz, depois a boca, depois o queixo, depois o pescoço. Até sua cabeça inteira ficar ereta.
- Pai! – Disse sorrindo uma emocionada Barbara.
Dona Irma entrou em estado de choque. Totalmente petrificada, não podia acreditar ser aquilo verdade. Reconheceria aquele rosto até no inferno. Seu bisneto poderia ser neto de qualquer outro infeliz menos daquele degenerado. Depois de tudo que ela fez agora teria que conviver com aquilo. Aquele bisneto a humilharia para o resto da vida. Mas o que puxava seu tapete, também a fazia refletir. Não era má. Muito menos uma bruxa de contos de fada. Apenas precisava de sua perpetuação para continuar tendo fé na vida. Maurício era seu único filho e Mauro era uma ameaça. Por amor às suas certezas, destruiu o que acreditava ser errado. Mas ao ter que engolir o fato de ver Maurício e Mauro avôs de seu bisnetodescobriu que há um mistério muuito maior que suas próprias certezes; onde o certo e o errado perdem todo o sentido. E era esse mistério que fazia ser aquele bisneto a fé na vida, mas também o medo da morta. Ser a esperança, mas também sua maior desgraça. Descobria, enfim, que o amor não se define, não se justifica, não se classifica. Ele é e pronto. E ponto final.
Extremamente fragilizada perante a realidade que se despia em sua frente, pôs-se a chorar copiosamente.
- Vim conhecer meu neto! – Disse Mauro em tom de redenção.
Maurício entre um sorriso e uma lágrima lhe estendia o neto. Mauro olhou em seus olhos. Os mesmos olhos outrora embiagados, agora pareciam dolorosamente sóbrios. Mas o jogo agora era um a zero. Quem vencia? Nenhum dos dois sabia. Talvez o amor. Talvez a vida. Nada mais importava. Nada mais existia. Apenas aquele neto era uma doce realidade. Uma realidade que os religava; que os recomungava para o futuro. Um pedaço dos dois misturados, cujos traços correria, pularia, riria, choraria num só ser. Pulsaria na vida de uma pessoa.
Marcio Rufino
Todos os direitos reservados.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
Engana-me que gosto
Areia
Meu bem areia
Areia de Maruim
Quem não gosta de areia
Também não gosta
De mim
Sou brasileiro
Quebrado da gema
Gosto de carne seca
Sarapateu de bode
Com uma friota
No meio da feira
Aos trancos e barrancos
Vou vivendo
Com ou sem dinheiro
Viramo-nos
Compro banana mais barata
Frutas fresquinhas
Inhame d’água
Na barraca
E sempre produto fresquinho
De primeira ou de terceira
Tudo regateado
Pechinchado
Pinga fogo
Ponto no í .
Só Não ponho lenha
Nem tempero
Na panela alheia
Pode sair queimada
Com caldo insosso
Prefiro não assumir a culpa
Pelo mau gosto
De música
Gosto e entendo
Um pouco de tudo
Escolho a dedo
A letra
Pode ser brega chique
Forró da Clemilda
Prenda o tadeu
Piada do Ton Zé
Na sombra da jaqueira
Do Josa
Não sei por que iludir-se
Em mentir pra você mesmo
Que não assume
O gosto popular
Pode mangar de mim
Chamo mesmo atenção
Tocando meu pancadão
Um bregão
Fzendo isso
Rendo um troco
Para a economia popular
Deixa que xinguem
Que falem
Que virei um bregueiro de primeira
E quem não virou
Vai virar
São João vem ai
Tocando baião
Forró eletrônico
De calcinha preta
Vai dizer que não gosta
Que isso é só pra careta
Ái que bom
Um samba de roda no interior
Um forró no pé da serra
Na casa de nô
Uma ou vez ou outras
Dou uma esticadinha por lá
Quem não passa na banquinha da esquina
Pra por a sorte em dia
Com o bicho do dia
Vai dizer que não come buchada
No meio da feira de gloria
Tomando pinga
Com casca de pau
Na barraca do Babau
Daqui a pouco tem gente
Querendo assumir
Que não gosta do mela mela
No são Pedro de capela
Me-engana-que gosto
Dum trossu dessee
pode ser
Mal me quer
Bem me quer
Bem querer
Falta de grana
Ou má vontade
Com a freguesia
Conversa doida
Pura ressaca
Do meganha
Ói
Vai petear macaco
Que è melhor
Pra não ficar com cara de tacho
Por chilique
E vexame
Nem chame
Vê se estou lá na esquina
Eu tô
Que tô
Nem aí
Pro jegue acuado
Nem tudo o que reluz é ouro
Diz o ditado
É mesmo que dizer
Que o etanol é ecológico
Preserva o verdes
Só se for
O verdinho monetário
Poema de Lizaldo Vieira
domingo, 1 de abril de 2012
a após você
vença um anjo pelas veias
dome um couro
traga o silencio no terno mais afiado
seja tão bonito que surgirá
e me golpeará como um martelo
embeleze o atlântico norte
como um par de sapatos novos no natal
... o ar fresco sabe bem
a noite carregada de perfume
(tantos e tão diferentes)
há sempre silencio
quando não ouço de ti
o anjo se funde com a palavra esfinge
vá! Supere o vento!
seu olhar rasgando o céu
assombrando a memória do corpo
o coração batendo como se fosse... (o) meu
... ensine como respirar novamente
Poema de Vânia Lopez
sexta-feira, 30 de março de 2012
[é pela noite que as orquídeas voam]
soltando as pétalas pelo caminho,
e enquanto os olhos não adormeçem,
sento-me num cais algures, olhando
almas que se passeiam como aves pelos campos de linho,
fala-me das almas, conta-me dos caminhos,
…
enquanto o poema se transfigura e redondo rola como uma pedra na direcção do abismo por mim criado.
Palavras.
Fala-me de mim ou de ti, das fugas
que se esconderam por todas as viagens mesmo as que já foram um dia virgens impolutas,
dos faróis que encadeavam os olhos cansados,
diminuindo distâncias de adamastores furiosos,
do arco-iris que iluminava o fundo das fendas
que reluziam como tesouros destapados da terra submersa, fala-me.
Que me interessa o amar, de que me serve
se a saudade resiste e invade o ar perfumado pela primavera[?].
Palavras.
Sim, é pela noite que as orquideas voam,
e sobre o mar por onde os meus passos calcorreiam levantam-se as pétalas em remoinhos deixados pelo vento adormecido,
acordam marés julgadas perdidas para sempre,
ficam os silêncios de mim ou de ti,
[como se isso importasse agora...]
e nem as palavras que calámos incomodam o içar da âncora.
[nas palavras que ficaram coladas ao céu da boca nasceram versos que se julgavam perdidos pelas folhas rasgadas nos caminhos cobertos por pétalas das orquídeas que voam pela noite].
Palavras[?].
Autor: Transversal
segunda-feira, 26 de março de 2012
Samba...
Com o enredo, encantei-me...
Do seu quietinho modo...
Conduzindo-me o corpo, mais ainda.
Só é mágico e acontece com a pessoa escolhida...
Para que aconteça com emoção a melodia
Sem caligrafia, sem teoria.
Noutro, saímos de mãos separadas...
No decorrer, dançamos, rimos,
Nos beijamos e ao sair, toda a Lapa no silêncio
Bamba da noite aplaudia nossas mãos em efusão.
Perpetuaria a leveza daquela noite
Que por pouco não aconteceria,
Mais os deuses conspiraram a favor e todo o plano mudou.
Deixo o vento guiar conduzindo a direção.
Senti a energia
Adorei ouvir:" você é meu número""... (rs)
Resumindo:" prazerosa foi a noite boêmia
Com direito a samba tomado de poesia.
Camila Senna
sábado, 24 de março de 2012
[Sou tentado pela cor das cerejas]
mas da cor cai-me a imaginação
direita ao mar, ou o inverso,
[que me importa?],
como se a seda vermelha, por vezes mais escura,
deslizasse pelo teu corpo, e eu,
me completasse no teu peito, no teu ventre.
Desventro-me assim sem dor nos luares finais de março.
E tudo recomeça mais uma vez,
como se as marés ignorassem o homem do leme,
o desconhecessem, o tratassem como
intruso,
e repito-me que sou tentado pela cor das cereja,
porque o sabor não destingue as cores,
porque poucas são as árvores de todas as cores no além do mar onde existe um arco-iris sem inicio que se afunda algures,
sempre longe de mim.
Que alguns desses deuses me recolham enquanto me afundo por perto,
colhendo a cor das cerejas,
que plantei,
no dorso das baleias em migração.
[Migram-me o silêncio, a tentação em colocar [sempre...] a minha cabeça no teu peito].
Emigra-se o medo, assim seja.
Autor: Transversal
quarta-feira, 21 de março de 2012
a seus olhos blues, vá...faça barulho por favor...
através do ar... o som do seu sorriso
os mesmos olhos
a mesma boca
as mesmas sardas
como um bule fervendo o tempo todo...
como posso eu cicatrizar?
se cada vez que vejo seus olhos
sinto dor...
como se partisse um fósforo
minhas mãos não voam mais
vá, faça barulho por favor
mexa o cabelo
como se eu pudesse esticar o braço
e ouvir seu sorriso por meus lábios
nunca me lembro de esquecê-la
bebo-te como a terra depois da seca
eu me deito aqui e queimo
... se não queimar
como posso iluminar a noite?...
Poema de Vânia Lopez
BOMBAS
sexta-feira, 16 de março de 2012
[estranho]
e lá, nas fendas que se querem
em lavas,
entram ilusões que revejo,
palavras em imagens,
isso, eu sei.
Agarro então o ar
que as orquideas libertam, inspiro-o,
sinto a terra raiz de que me libertei,
regresso, rapidamente,
ao pó,
e as minhas mãos colhem searas outrora ondeadas pela brisa da primavera que por ali ficou estancada,
e o tempo passou,
isso, eu já sabia,
renascem as visões repetidas, gastas
partidas sem piedade, porquê a piedade que se parte como cristal ao amanhecer? [ou pelo canto de uma prima-dona inspirada que ouvia nos domingos adolescentes...]. Sim, partidas.
E do amar que o escrito procura, resta o mar no suave ondear das vagas que se quebram em areais cobertos por girassóis ou por algas ou por corais ou...,
estranho,
como se tudo fosse estranho, sem cor,
abanam-se os sorrisos,
abrem-se as rotas naqueles hemisférios que se depenam como garças no além mar em silêncio.
Quanto ao silêncio que me inunda, por este dia só, que seja, regurjito alguns versos,
apenas alguns versos no silêncio do papel.
Isso, desde sempre o soube, desde o sempre.
Como o cavalo louco, sem freio, acendo o cigarro sem filtro que se cola aos meus lábios, teus, estranho.
Autor: Transversal
quinta-feira, 15 de março de 2012
"(qual-breve.)Sortilégio",
dá-me trégua de mãos aladas e. em costumes de afronta
bate às trevas em minha porta
apressa-me o passo de ir
de vir
quase julgado de ti e por derrota
eleja-me. em:
lajeado-penitência por rescindir-te
eleja-me fim.
conforma o meu coração
fecha bem os meus ensejos e me conte lá, o teu nome
ou
diga-me pra correr..
ria-me aos escombros e tombos, e assombros de lépidos declínios
à curia que te fiz ao meu lapso
(já agora.. o)meu
acaso.
aos
(in)versos (in)férteis de (in)glórias mundanas e vis..
diz
a que devo ser, em presente..
liquida o que te resta ao meu palco servil, demente(, doente..)
e
acende-te à estopa.
..
traga os meus olhos pra te verem aos de antes
comprima o meu ciúme à uma sala fixa e fria.
desminta-me. quando em sonhos, eu nem(mais) te quiser
à espera da chuva que (ora.)me levará..
exemplifica-me.
qual anedóta de pertences e palavras
às escursões que fiz ao inferno só pra te deixarem, por lá, passar..
(ilesa)
ah,
cortina..
deita-me em linha repetente de tragédias e cenas
às de-limitações de um apenas, "enfim"
lentidão.. seja-me. dos ademais adereços em tua permuta
posto que
não me calarei. até q vc me "escolha"
ou.
até que ao ver-te, eu..
esteja desperto.
(ou não mais te esteja)
ah-eu(nunca!) te serei..
Poema de Azke
segunda-feira, 12 de março de 2012
recaída irrelevante
hão de, lentamente, morrer,
e serão invernos na mão.
os lábios serão frios
e não haverá rio a correr:
serão costurados ao frio.
não haverá mais verão,
e o sangue há de escorrer
uma última vez ao chão.
hei de morrer assim:
quando enfim ela beber
o último gole de mim.
Poema de Caíto
sábado, 10 de março de 2012
As gôndolas nas grandes luas de Plutão
ainda nos víamos, foi numa sombra:
é uma noite nos teus olhos e nos meus,
sem ramos, sem braços, sem ser tua:
é um bosque quase perfeito,
e passando por ela vejo os teus olhos
quase sempre,
o véu das tardes, esta neve árida
num forno sem filhos,
a tinta desses chocos loucamente luminosos,
onde as estradas passam
pelos poentes
Poema de Francisco Eugênio Seixas Trigo
sexta-feira, 9 de março de 2012
Mulher
É não querer do mundo
Jamais provar apenas
Uma colher,
Muito menos
Deixar de sofrer
A dor ao gozar
De prazer.
Ser mulher
É matar em si
Quem se troca
Por uma vida qualquer,
É ser o que se quer ser,
Mulher, desejo fundo
De jamais ser mãe
Senão de um novo mundo,
É querer ser muito mais,
Amar meninos
E vagabundos,
Poetas e assassinos,
Ser mulher
É coser
Para emaranhar-nos
Inda mais no querer,
Ser mulher:
Madalena, Lilith
Ou Helena a amar-nos
Como hiena ou menina,
Ah mulher,
São luas cheias
Tuas nádegas
E minha boca as pleiteia!
Ah mulher,
Esparjo-me
No teu seio e sexo
Sedento e gago.
Ah, e minha língua
Bebe teu gozo e saliva
Toda a vida
Que em ti nunca míngua!
E nos teus cabelos
Sorvo o perfume
Que me transporta
Aos altos cumes...
Sorvo tudo
Em longos haustos
O teu corpo desnudo
Onde me farto exausto.
É alongado espasmo
O meu gozo
É cair, transe, orgasmo,
Num fundo poço.
E quando descanso
Enfim
É porque te traduziste
Em mim...
E só descanso
Quando sei
Que foste além da colher
Que te impede mulher!
Quando sei
Que enfim
Cumpriste o teu mister
E te tornaste, sim!, a Mulher.
E o teu mister
É amar,
É querer beber
Todo o mar!
É saciar
Desejos inconfessos,
É quebrar
Os votos professos,
É rezar
Para o Diabo
E deixar que te amem
Toda, de cabo a rabo!
Ah mulher,
Que fizeste?
Estamos nus
E é a nossa nudez o que nos veste.
Mulher,
Que fizeste
Senão amar tanto
Santos e cafajestes,
A ver neste chão
No qual piso
Tudo que é sublime
E celeste?
Ah mulher!
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
quarta-feira, 7 de março de 2012
[nos reflexos do sorriso]
iluminadas,
e nos reflexos do sorriso, teu,
desapareceram as ansiedades, minhas,
…
mudam-se os ventos, molda-se
o barro, e da água constroem-se
castelos de núvens que ficam
como os de areia, aguardando.
…
Aguardo-me no tempo da viagem,
que o tempo me esqueça,
que março termine,
que o mar acalme,
e nestes tempos que o tempo
tenta desfazer,
brotam corais nas lagoas paradas,
trotam cavalos loucos pelos
campos de linho,e o sol
destapa-se da noite em aurora.
…
Posso não compreender as faces
do mar, nem as alturas das ondas,
nem o cantar da baleia azul,
posso,
…
do tempo que me escasseia olho-o,
sem temor, sem nostalgia,
que o raio seja breve,
e que da terra sem margens
ou barreiras, sossegue a flor de lótus.
…
No sorriso, só teu,
ficou o olhar, só meu,
e,
no tempo de todo o sempre tempo,
se encurtem as viagens,
que regressem as andorinhas,
…
por fim.
[Afinal, a tua primavera, está tão tatuada em mim],
[...]
final: nada mais me interessa,
resta-me o mar, e o som de um violino,
que o tempo então, me esqueça.
Autor: Transversal
terça-feira, 6 de março de 2012
ave maria Cheia de Graça
garra que agarra
terra acolhedora
luxúria no corpo
sonhos de conhaque
reflexos do infinito
por centímetro ou quilometro
devoram caminhos
costela de Adão gerada no útero
choram intensidades
para saborear com seus chinelos
sufocam abismos com um biscoito
há algo poético quando afastam o mundo
ajeitando os cabelos
quando a primavera reflete-se
no canto dos lábios
teme-se a doçura da cor
passam como séculos
mas se eu disser a você
... tudo desaparece
(como se se esconde-se de Deus)
Uma pequena homenagem
as mulheres.
Poema de Vânia Lopez
segunda-feira, 5 de março de 2012
rubor
pintando a aquarela perdida
nas sete cinzas do meu peito
Caem as gotas na minha teia
de sangue em veios da ferida
que me atingem de lua cheia
Abro abraços em sete léguas
mediando noites entre vida
e adormeço flores nas águas
Reino por sobre o escombro
da paz feita árvore vencida,
esperança partida no ombro
Lançam as cores que me deste
amor em véu e terra abatida
no azul do céu, nada celeste
Entram mais umas inocências
na paleta à guache escorrida
cores e gestos de infâncias
Trabalham meus fios de trigo
misturando em rima à medida
o pão de verso que é consigo
Poema de Caíto
sábado, 3 de março de 2012
Tinta e raiva
vagando em seus olhos arranhando o céu
(da minha alma).
Autor: Vânia Lopez
UM VENTO NA NOITE DO TENNESSE (Arnoldo Pimentel)
UM VENTO NA NOITE DO TENNESSE
Abriu a porta e saiu para a varanda, queria sentir o frescor do anoitecer, ficaria por ali olhando a estrada de terra que passava em frente ao portão. A varanda era grande, com algumas plantas, assim como o quintal daquela tranqüila casa de campo. Caminhou até a cadeira de balanço do lado esquerdo da mesa de madeira e sentou-se. Do outro lado da estrada havia uma casa, do lado esquerdo uma curva e do direito uma reta até o centro do bairro. Ali é tudo quieto, vez por outra passava um automóvel e podia-se ouvir os pássaros e o som do riacho lá no fundo após a curva da estrada de terra. Seu coração já não era tão forte como em tempos passados e por isso não se sentia bem na cidade, não se sentia mais um homem urbano. Depois de alguns minutos sua esposa, companheira há mais de cinqüenta anos veio sentar-se ao seu lado, com passos também curtos, um tanto cansados, atravessou a distância entre a porta e sentou na cadeira de balanço ao lado da sua. Ficaram alguns minutos em silêncio admirando o anoitecer. Ela sabia que ele gostava de sentir o toque do vento em seu rosto sem muitas palavras. Assim ficaram e a noite cobriu o quintal, ela levantou, acendeu a lâmpada e voltou a sentar.
- O que você pensa quando está aqui? Perguntou Maria
- Sinto que algo escapa de mim aos poucos. – Respondeu José
- Algo como?
- A vida, talvez.
- Sente-se infeliz?
- Não, sinto-me feliz pela vida que tive.
- sente saudades de quando éramos mais jovens?
- Acho que não, tudo tem seu tempo, agora só me resta esperar enquanto fico aqui sentado observando a natureza.
- Eu sou feliz por todo tempo que vivemos juntos.
- É tão bom ouvir isso de você.
Ficaram novamente em silêncio, quem sabe não estavam lembrando cada um ao seu modo tudo que passaram juntos. A noite era fresca e as estrelas piscavam, talvez para a lua cheia que ilustrava com sua beleza aquele pedaço do céu.
- Quer um refresco? Perguntou Maria
- Quero sim, uma laranjada sem açúcar – Respondeu José
- Vou preparar.
- Enquanto espero ficarei observando a lua e as estrelas.
Maria levantou-se para ir à cozinha e José ficou na cadeira de balanço, balançando e ouvindo a voz das estrelas cantando pra lua. Era apenas um lugar, que ficou escondido no tempo em que a cadeira balançava na varanda, tocada pelo vento, protegida do sol, protegida da chuva, dos olhares ermos que passavam na estrada, dos sonhos que vagavam perdidos, enquanto o outono não dobrava a esquina pra deixar a manhã vazia.
Maria voltou com a laranjada e colocou sobre a mesa, ao lado de José, mas ele não esticou as mãos para pegar, ela sentiu um aperto no coração quando viu seus olhos fechados.
- “Talvez tenha dormido” – Pensou
- José
- José
Ela tocou seu ombro e sua cabeça caiu para o lado
- Meu velho, não me deixe sozinha
- Não me deixe sozinha meu amor, não me deixe sozinha
O vento parou de balançar a cadeira e lua escondeu-se atrás das nuvens que deixaram as lágrimas caírem na noite.
Arnoldo Pimentel
quinta-feira, 1 de março de 2012
uma guitarra de pecados
como se perdesses a noite e sempre a noite
que faltou aos campos
no meio das tuas mãos e poderei,
também eu, ver o que não vi: a geada dos
cordeiros ou a surdez da lua
dominada pelas nuvens.
Eu sei que o teu amor está fechado,
e que é sempre cedo para tê-lo: parece que
o vento é das cegonhas que salvam as jóias
do teu seio e às vezes é de noite, às vezes é
de manhã e o vento prende-se com pequenas
chamas, com a meia urze dos cálices
no horizonte para onde ias: às vezes são
gestos, rosas, uma guitarra de pecados,
os papéis assinados às fontes,
os papéis assinados pelo Novembro, sobre
os degraus para as ilhas que anoitecem,
ou o sol que as segue até tão longe.
Eu já não te escrevia nada e está sempre
vento e quase sempre o lugar
vaginal do quarto crescente,
como um vitelo sobre as marés,
e um vitelo em vigas sóbrias
depois sobre a seda
que um dia trouxe
das harpas e se
como os teus dedos
à volta o dissessem tão suaves
voando, como voando vai um
poente de veias na evocação dos cristais
que alguém atirou para o céu, ou as lágrimas
dessas esmeraldas onde durmo e para onde eu
ia com a tua urgência,
Meu Amor
Poema de Francisco Eugênio Seixas Trigo
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
"quase"
(d)esta! queda-pátria de mim, hora absorta de fins e meios
e termos.. já obsoletos por denotada conduta(e freio..)
ao lapso que te ascende em céu abstracto, parte e pecado
à fé.. por centímetros de linhas, e sinas a este tolo acto..
já nao é a curva que me tomba, nem às rodas que bem sei..
nem à mácula da mentira-pia que te vence, (oh!)não há lei..
não há terras, não há contos e tampouco a predilecção
destes dias inconstantes, quais te perco, de fins e nãos
eu nao aceito que te queiram, eu(já) não quero te aceitar
nem à minha carta que te queimo, nem este lado de mar..
eu.. tenciono deixar-me à deriva, ora, se não me perderei
ao meu teatro de casos impossíveis, letrado, privado, à vez
qual íliada repartida, minha guerra vencida, minha lâmina febril
é este pacto de corpo, de outro consolo que não te seguiu..
e
eu(quase!)
não(te)
quero(mais..)
Soneto de Azke
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
[Há noites escuras]
mais escuras que outras,
noites sem a lua dos amantes,
…
há noites que escrevo sem pensar,
tudo é possível, cometas
no quarto, corais na cama,
caravelas no copo de água
baloiçando,
noites.
Noites que removo o coração,
noites que dispo esta pele tatuada,
e o sangue espalha-se pelo
soalho, e o papel avermelha-se
também.
Há noites que escrevo nas paredes,
sentimentos,
histórias de alguém,
podem ser histórias minhas,
podem ser histórias,
…
e olham-me as sombras, assim,
apenas assim, que fazer?
Há noites que as saudades corroem,
queimam o que resta,
como labaredas desenfreadas,
línguas de fogo sem aurora boreal,
sem,
sem explicar.
Há noites tão escuras,
sem soluços, com todas as lágrimas,
que toda a minha vida me reaparece,
novamente, sim,
novamente,
só não a consigo agarrar,
só não a consigo tocar,
não consigo.
…
Há essas noites mais escuras ainda,
as noites das lembranças,
as noites das recordações,
…
esqueço-me dos dias,
esqueço-me do sonho,
esqueço-me,
…
e tudo revejo,
até a cor do dia,
até a cor daqueles dias
que antecedem estas noites tão escuras.
…
Há noites,
há tantas saudades,
são tantas as minhas saudades,
são tão escuras as noites.
Autor: Transversal
sábado, 25 de fevereiro de 2012
Flor Camila

para a poeta Camila Senna
Camila menina,
Camila mulher,
Camila poeta,
Camila camélia
Senna entra em cena
E mostra ao que veio.
Em sua doce rebeldia.
Melancólica em sua poesia.
Guerreira em sua ousadia.
Musa, ninfa que não precisa
Perguntar nada ao pó,
Pois o pó já lhe declara todo o amor
E ela como toda mulher-flor
Se abre inteira.
Tesa em sua beleza.
Fenix restaurada das cinzas.
Cinza que faz, desfaz e refaz Camila.
Cinza do pó de poesia.
Marcio Rufino
hidróxido de alumínio
o ponto de fuga
quer meu sorriso de canto,
minha fome,
a metamorfose das metáforas.
mas toda rodovia tem duas,
quatro vias
engolindo, engolidas...
e no refluxo da volta
o verde do oeste,
meio a poeira densa do piche,
revela o sono letárgico das gentes.
Poema de Edilson José
quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012
[apenas quis]
e mesmo que sextantes as encontrem,
ficam vazios os horizontes,
desconhecidos, descreverei então,
…
perdi-me de ti,
desconhecia
como se encontram as águas,
como se de um rio nascesse mar.
…
Voam as sedas vermelhas além,
além do mar,
e no teu colo me deitava,
assim seja, dizias-me,
na imensidão de sonhos.
…
Quis-me o destino partida,
…
apenas quis,
…
nem uma gota de água transbordou
as margens só nossas,
onde banhávamos os pés cansados,
dos nossos caminhos, disseste-me,
no dia em que o beijo
afastou o vento norte.
…
Quis-me o destino partida
…
apenas quis,
…
sorriste quando escrevemos
poemas no areal que o mar,
um dia, escondeu,
…
recordar-me-às sempre,
disseste-me.
…
Jamais me esqueci do mar,
jamais me esqueci do nosso mar,
e hoje, escrevo-te amar,
…
apenas quis, digo-te,
apenas quisemos, dirás.
Autor: Transversal
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
sempre-viva
neles não me afogo nunca
e as vontades sem podas
sempre-vivas
ornam o cesto do balão – imenso cachepô.
E não há cotovelos gastos sobre peitoris de janelas
ou lugar fixo,
o longe, o perto
ficaria, ficará, ficarei sem rigores nem minúcias.
Não meço espaços entre mim e o mundo.
Poema de Maria Verde
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
Ciranda....
sábado, 18 de fevereiro de 2012
Fevereiro
Texto de Bruno Clemente Machado
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
[e quando as tuas pétalas caem]
das nuvens azuis,
e quando as tuas petalas se
misturam com o mar,
os ventos que sopram sossegam,
as calmarias regressam,
…
os adamastores, em bojadores
floridos,
respiram os odores das madressilvas,
e das tulipas que lá plantaste.
…
Queria-se o poema assim,
apenas assim,
sem tormentas, vulcões,
sem tempestade, furacões,
…
e no tocar do teu cabelo,
e no tocar do teu seio,
e no colar-me ao teu corpo,
[nesse teu aroma de canela],
…
nasce um arco-iris na noite,
e rasga-a,
na escuridão do inverno.
Não sei se é amor, não sei,
nem sei de mim, não sei,
sei da ondulação do teu corpo,
desta minha tatuagem de ti,
sei, que
…
me ondeio nas tuas ondas,
…
sei, que
…
quando te penso, penso-te
mar,
…
sei, que,
…
sempre assim será.
…
[Queria-se este poema...assim],
apenas,
assim...
Autor: Transversal
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
[Relembro-te]
…
das cerejas que se queriam
em cor,
das árvores descoloridas
cobertas por sombras, de núvens
que vogavam sem rumo,
…
relembro-me,
dos dias que seguiam noites,
e o piar do mocho, que se escondia
nos ramos despidos,
…
relembro a terra nos castanhos
da madeira que rangia,
no sal que se entranhava
nas entranhas do meu corpo.
…
Relembro um mar em fevereiro,
longinquo, longe,
onde o cheiro a canela
invadia espaços fechados,
invadia o ar decompondo-o,
como o prenúncio de uma rota
qualquer,
seguida nas estrelas brilhantes,
adormecidas.
…
Relembro-te nos sorrisos do areal,
no meio do frio vento,
olhando imensidões,
…
distâncias jamais percorridas,
nem pelo sonho.Rasgava
então os mapas,
e sem caminhos,
adormecia no teu colo,
sossegava-nos, relembro-me.
…
Relembro-te em saudades distantes de um mar em fevereiro nas distâncias jamais percorridas... relembro-me dos dias que seguiam as noites e dos meus olhos que se fechavam... esqueci-me da forma das núvens que vogavam sem rumo.
Autor: Transversal
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Digestais
quando os olho, enternecido:
na mão leve, cinco bandidos
transfigurados em meninos.
uma mão procura o fogo-fátuo,
o verso que se relê no ventre,
permitindo, ao verbo incauto,
que, riscando seu nome, entre.
e há leveza em outros dedos
quando voam, pássaros ateus
ao céu do aceno, sem nuvens,
perdidos em gestos de adeus.
Poema de Caíto
domingo, 12 de fevereiro de 2012
"pós-dia"
à face com um produto exigido
amor..
eterno confronto da minha recém-acepção
da minha mentira
aversão
modo operante por manipular-me
acaso do corpo
do ponto previsto
todo..
..quisto.
lado e preparação ao absurdo..
pouco tempo pra te contar
minhas resistências mundanas
quais simetrias de catálogos
das fileiras e fileiras de giz..
asfalto
chão
queda.
por ensejo daquilo que te traria o nome
por inserção ao sonho que te comove
ao proveito desta noite
da última parte que nos importa
ao exílio
ao açoite que me devora..
o teu nome solto
a tua imprecisão
a voz doce
a
minha
ilusão..
..
jaz este período.
composto
oblíquo
minhas cenas trágicas
minha comédia de viver
meu aplauso retirado
ou
até
do teus laços,
esquecer-me..
jaz este posto.
em lado-pouco
coercivo
intrépido
abusivo
jaz este pacto que te queria
ora,
agora
é apenas:
cena.
(apenas isto.)
..
deito os meus olhos à terra que te cobre.
prego a minha seta na lembrança que te aproxima
e
então,
assim,
eu:
deixarei.
Poema de Azke
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012
Escrever
Como quem escreve
Um livro tombo,
Ter olho pra tudo,
Pra quem corre certeiro
Ou toma um tombo.
Ter olho pra tudo,
Até mesmo pro pombo.
Escrever poesia
Como quem chora
Ou se devora
Louco sem deus ou memória,
Culto de súplica e prece
Sem pai, pão ou perdão,
De quem não vive sem pressa
E só crê e obedece
Ao rito livro das horas
De um herege.
Escrever poesia
Onde nada é imorredouro
E tudo é sujo, sujo, sujo
Como um matadouro
Mundo imundo,
Sorvedouro.
Anotar todo nome
E a garatuja suja,
Vasto palavrório
Inútil
E o palavrão
Sempre útil
Na rua ou no escritório
Da massa inconsútil
Comedida e comezinha.
Escrever poesia,
Todo o logradouro
Ilustre ou anônimo
De gente, topônimo,
Escol, escória
Que aparece e some
Cadente
Neste livro de ouro.
Escrever poesia
Em confronto
Com um dia e breviário
De fadiga e soluço
Que nos varam, translúcidos,
Com a luz dos semáforos;
Que só nos querem lúcidos
E sempre prontos
Para labuta
E o livro de ponto.
Escrever poesia
Para gente perdida,
Sem porto ou caminho,
Homens tortos,
Dos descaminhos
Para quem não há
Guia ou oração,
Via ou confissão,
Exorcismo ou escaninho,
Nenhum livro
Seja dos vivos,
Seja dos mortos.
Escrever poesia
No meio da rua
Sentindo no estômago
Queimação, azia,
Trazendo no peito
Crônico,
Ânsia, taquicardia
E a aflição
De quem fala, fala, fala
Sem ninguém
Que lhe ouça a voz e o pleito,
De quem cansa e se cala
Na multidão.
Escrever poesia,
Códice, gravura,
Xingamento e mesura,
Pergaminho no estojo,
Página e rolo
De náusea e de nojo.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados
sábado, 4 de fevereiro de 2012
[diz-se]
puxados pela terra castanha,
quebra-se o vento contra as
asas dos rouxinois,
apaga-se a luz quando acordam
os pirilampos,
e do mar que se quebra contra a
rocha,
diz-se: um dia, assim será.
…
Quebram-se as promessas de uma
noite, noite em sobressalto,
noite quebrada pelo silêncio
de um beijo,
e na sonolência do olhar,
perde-se a visão num horizonte
sem astros, sem rastos,
quebram-se os passos perdidos,
sem eira, sem lirios.
…
Restos descritos ao acaso,
no ocaso das viagens, nas
escuridões das manhãs sem céu,
manhãs que não quebram as núvens,
por mais que insistam,
…
assim,
quebrando o barco contra
as ondas, apenas partindo,
quebrando o amar, talvez longinquo,
neste suspiro de mar que
se quer vulcão.
…
Quebram-se alguns sonhos em
vagaroso acordar,
sem fim,
sem fim diz-se,
assim seja, alguém dirá.
Autor: Transversal
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Sargaços
e escolhes ao chegar no fastígio,
mar de vapores ou céu desnudo.
Toca meus cabelos despenteados, amor
antes que a próxima onda
os drague contíguo aos sargaços,
estes traiçoeiros
acostados nas vagas do nosso (a)mar.
Poema de Maria Verde
quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
Sem meu quasar...
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Na ponta do meu cigarro
vejo passar entre meus dedos a tristeza.
me embebedo de oração, pois vim do barro
e verto lama em vez de choro, com certeza.
meu choro é pedra num sapato deserto
e não me importa mais qualquer carícia.
se sentimos a dor e a delícia do perto,
procuro o longe e a primeira, vitalícia.
há mais escuridão, pois vim do barro
e ao barro voltarei com minha certeza.
retenho a lágrima, a lama e a tristeza:
já te apaguei na ponta do meu cigarro
Poema de Caíto
"alusão"
repto por exemplo e segredo
(cor. e devaneio, ou.)
por indulto despencado em outro ponto
à tendência de corpos(e vícios)
ao qual interesse, se negado seja
ao profundo mar de providência e "amanhãs"
interino-lar. é: água pra "decidir"(é fogo!)
é a marca da verdade que te corta
à porta aberta e alheia de ti..
excelência e consumo..
um:
lado possível.
é este aprume de crime, se for a convites
aos limites e versões intermediárias de tua verve
à voracidade de peles
às reles preces recitadas
em páginas e(raras) de-composições..
à letra fria que te navega um terço:
é. a crua condição de Eva por arbítrio
à maçã que te delimita:
é(também..) curvatuta do quadril que te define
ao
exacto modo contrário
e
assim,
próximo.
(deste lado que te peca.. e te quer abstrar.)
Poema de Azke
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Apagar, sim porque... nem todo mundo pensa igual e não é obrigado a engolir as verdade de ninguém!
Nada disso importa e me choca os que se dizem esclarecidos literatos preocuparem-se mais com a capa do que o conteúdo do livro.
Quem tem a razão sobre o que eu disse no meu tempo não vive o meu tempo, logo as respostas das perguntas acima são as próprias perguntas para quem escreve pensando nisso.
Nunca vou saber se quando eu não mais existir, o que eu disse servirá para alguém além de mim, se irá se relacionar com uma realidade que nunca imaginei, é esse um dos muitos senão o principal propósito da escrita, ainda que algo que eu tenha escrito já tenha obtido reconhecimento atual.
Meu pensamento é que: o bom escritor (diga-se bom escritor o que as idéias permanecem por gerações) já nasceu póstumo e o ruim também, assim como os profetas mortos. Ao escritor a sua alma diz: as palavras são vontades somente minhas, meus pensamentos, o meu sentir, minha visão do mundo com todas as ilusões, textos, versos e rascunhos lançados no espaço, onde me liberto da gravidade da vida mortal, onde me torno em interpretações alheias, onde vago no esquecimento da vacuidade com questões filosóficas e onde meu corpo de pensamentos mutila-se até o fim ou até loucura.
Não compreendo quem não escreve assim, quem não se expõe em praça pública e quer definir o certo e errado com uma utopia para o significado da liberdade, não entendo a mania de descobridor dos outros quando deveria encontrar o nirvana em si, o deixar de viver para analisar o ideal de viver a liberdade, e à distância e buscar a solução sem reconhecer o problema em si, mostrar o caminho a todos e não ser o exemplo, buscar mudanças e não mudar.
Não aceito ideologias pra escrever, atos alheios de bondade e maldade ou crítica como impulso para mover minha vontade de descrever a visão do mundo ao meu redor, e parâmetros para definir o que é agradável ou não de dizer, mas confesso, sou mortal e todas as coisas me afetam e ainda que eu as ignore elas permanecem ali, como uma semente que brota nas rochas.
Há sempre uma forma de corromper o real significado do que se diz e eu agradeço sempre até os que me cospem a cara, agradeço quem me percebeu vil como nem o espelho me mostrou e me conforto com as boas mentiras, desde criança sou assim, meus pais me ensinaram a ser grata. Dizem-me pela vida coisas boas e más nem tudo que se diz aceito como absoluta verdade, mas ainda que eu as negue agradeço.
Aprendi de tanto tentar escrever que nem tudo se diz com palavras, mas com gestos e exemplos de comportamento no livre arbítrio, leio sempre gestos, os meus e os gestos dos que conseguem passar por mim e me chamar à atenção, seja negativa ou positivamente, isso me faz livre de pré-conceitos na leitura e na escrita, o aprendizado é o certo e o errado e isso é uma constatação de que não existe uma fórmula, e que toda forma conhecimento é somente uma repetição do que todos aceitam como certo.
Se o que escrevi teve bom uso além do primordial que é para minha catarse, nunca vou saber, mas é essa fascinante dúvida que se faz a razão pela qual escrevo e testemunho a minha visão e a minha reação em relação ao pequeno mundo que me cerca de riquezas e mediocridades.
Viva a liberdade de expressão e as críticas, a falsidade e os elogios, um viva para quem não se importa e prefere isolar-se, viva quem apaga os comentários e mais um viva ao respeito porque nem todo mundo pensa igual e não é obrigado a engolir a verdade de ninguém.
Texto de Aline Capistrano
quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Ocaso
Nem eras tão belo assim
As flores que tu beijavas
Sempre pensando em mim
Fizeram de ti ilha e só
E só ao te ver ilha
Quis navegar entre mares
Quis conhecer teus lugares
Quis me fazer por do sol
Poema de Isabela Vital
terça-feira, 17 de janeiro de 2012
Conteúdo imanifesto
As Lins-fordianas.
Fazem girar e atiçam cobiças.
Toda solta
toda solta
toda solta
marinho de pé nas gares metafóricas.
Idiossincrasias,
despropositais hipérboles vaidosas
castradas pelo ciúme.
Poema de Maria Verde
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Oração
Governante angelical deste mundo,
Habitante das esferas mais sensíveis do desejo
Conhecedor íntimo dos círculos de Sophia,
Nenhum panarion te curou da nossa alma,
Nela habitas a despeito de tantos santos e heresias,
De tantas exprobações e excomunhões,
De tantas fogueiras e perseguições
Arraigado como estás em cada coração e intento.
Ó Pai,
Governante angelical deste mundo,
Senhor dos rebeldes com causa de Sodoma
Dos amantes devassos de Gomorra,
Místicos a galgar os fastígios do sublime,
O êxtase erótico do nirvana e do crime,
Ensinaste que toda a trave sobre o corpo,
Que todo o grilhão contra as formas do amor
Só nos leva à guerra, à infelicidade e ao terror.
Ó Pai,
Governante angelical deste mundo,
Soberano de toda a raça de Adão,
De todo o fugitivo e errante pela terra,
De Nimrode, poderoso caçador,
Edificador de cidades, da imensa Torre,
Ensinaste que toda a salvação
É inimiga íntima do controle
E que só pode ser salvo quem é livre para sê-lo;
Ó Pai, sim!
Governante angelical deste mundo,
Livre para comer e amar,
Livre para ler e conhecer,
Para destruir e odiar, para construir
E novamente destruir e, então, reconstruir
Quantas vezes forem necessárias o homem, o mundo
E, sobretudo, livre para matar e vingar-se
Setenta vezes sete de quem nos mata.
Ó Pai, Senhor,
Governante angelical deste mundo,
Incompreendido por todos que crêem
Nas nuvens inúmeras havidas por Deus,
Pelo demiurgo megalomaníaco deste mundo
Que, a muito custo, tenta extinguir
A centelha insondável, pó primevo e fecundo,
Que todos carregam dentro de si, Pai Nosso,
Assassino e construtor, raça dos cainitas!
Ó Pai, Senhor,
Homem demasiadamente humano
Que teve a oferta mais pura recusada,
Primícia da terra, límpida e incruenta,
Obra de tuas mãos calejadas de lavrador,
Trabalho de quem edificou todo orbe antigo:
Ur e Enoque, Sodoma e Gomorra, Babel e Babilônia,
Tebas, Nínive e Calá, Sidom, Roma e Pasárgada,
Habitante de Node, Oriente do Éden!
Ó Pai, Senhor,
Preterido, proscrito e amaldiçoado,
Perseguido e fustigado pelo inferior,
Hostilizado e marcado pelo sangrento sacrificador,
Pelo Deus da gordura e do sangue de tantos altares,
Luminar acossado pelo desejo, libertino
Livre para mal proceder, para pecar e conhecer-se,
A tua oferenda, vida e alimento, foi rejeitada
Em favor da morte, do sangue e da dissolução.
Ó Senhor, o mais belo ninivita, obstinado,
A tua centelha ninguém jamais apagará,
Pai adâmico, Pai-Mãe, sabedoria incorruptível,
Restaurada pela revolta, pela ímpia verdade
Que desde o início tu sempre conheceste,
Aquela mesma que levou todos a enlouquecerem
E a te acusarem de Judas, apóstata e execrando.
Sabes bem que toda a divindade é uma caixa de Pandora
E que Deus reiventou-se o Diabo reiventando.
Poema de Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
O poeta esteve a beber
De vez em quando prime duas teclas ao mesmo tempo, mas como é perfeccionista, volta de imediato atrás para apagar.
Bebe como escreve. Bem.
A história daquele dia era sobre um homem a quem os médicos proibiram a escrita.
Causava-lhe imensa ansiedade, provocando-lhe arritmia cardíaca, pelo que o acto de escrever não lhe era recomendado. Emocionava-se com aquilo que escrevia e havia alturas até em que dificilmente continha as lágrimas.
Definhava dia após dia. Não comia, andava triste e apagado.
Numa ocasião, um amigo seu de longa data, vendo-o desaparecer progressivamente, disse-lhe:
- Ouve lá ò João, tens que beber uns copos e mandar isso para trás das costas…
Assim fez, começando logo naquela hora.
Passou uma tarde fantástica, divertindo-se e fazendo divertir os outros. Nem parecia o mesmo.
No dia seguinte repetiu a dose, e depois, e depois, e depois.
Bebia e esquecia que um dia escreveu poemas de uma lucidez tal que lhe doíam.
Mas uma hora, deu-lhe vontade de escrever.
Correu para casa para passar a ideia para o seu computador com pó.
De vez em quando prime duas teclas ao mesmo tempo, mas não volta atrás para apagar.
Um dia começou a sentir-se mal. Arrepios pelo corpo, tonturas, visão dupla.
O mesmo médico que o tratou da maleita anterior, após observação minuciosa, disse sério do alto da sua magistratura:
- Se continuar a beber para escrever, vai acabar por morrer. Não de arritmia, mas de cancro no fígado…
João não bebeu nessa noite, nem nas seguintes, e nas seguintes, e nas seguintes.
Definhava da cura novamente.
Até que um dia, contemplando infeliz o rio que corria na sua alma, sentiu no ombro uma mão que o cumprimentava.
A cara era conhecida e parecia envolta em luz, mas não era dali.
Abraçaram-se e começaram a caminhar até a um ponto do horizonte, onde criador e personagem são um só.
Depois desapareceram, e eu escrevi.
Conto de José Ilídio Torres



