Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



domingo, 7 de outubro de 2012




no mesmo instante

em que

homens escolhem

...

seus

futuros senhores

outros

buscam a senha

do prato

de sopa fria

do pão dormido

da imutável sina

da vida quase não


Nydia Bonetti

apalavrar

Há uma agitação dentro do corpo. os órgãos reclamam liberdade às palavras – não sei se alguma vez serei capaz de largar as palavras das mãos sem perceber o que cada uma de mim leva – tenho medo. tenho muito medo das palavras – há tanta coisa que desconheço das palavras. são sempre tão complicadas. difíceis. problemáticas. com tantos sinónimos. a dizer tanta coisa ao mesmo tempo – as palavras amedrontam-me. assustam-me. como quando ouço o vento norte. anuncia sempre mau tempo e o bater das portas não pára. e vão para lá e vêm para cá. e o corpo sem saber o que entra ou sai – sempre que as palavras partem deixo o olhar fixo à procura de ouvidos que as queiram colher. como se colhe o centeio da terra que mata a fome às bocas – e o medo é um novo adamastor feito de palavras que partem com tudo o que é meu. e o corpo em mar navega com terra à vista. em desassossego. inquieto. receoso afunila a esperança para quem as quer colher: adopta. não adopta – há certezas que desaparecem entre a boca e o corpo de quem escuta. e na caverna auditiva o monstro aparta as palavras. boa. má. boa. má. e tudo é diferente para sempre: deixei partir o que só eu sei dizer e os outros ficaram a saber o que eu nunca disse – não há lábios íntegros nem ouvidos puros – e depois aquela incerteza que trouxe do berço. e tudo sempre tão difícil. e tudo dúvida. e tudo terror. e o dia sempre a puxar para o escuro. e ao longe a nuvem a correr sempre para norte e as mãos sempre pequenas num corpo que quer crescer com as palavras – não consigo descansar desta aflição de saber se escrevo palavras autênticas. e a cabeça a dizer sim. e as coisas no papel a dizer não – a arte do pregador é falar e a do escritor é escrever. e eu não sei nem uma coisa nem outra – porque me castiga deus com tanta palavra hesitante – a cabeça teimosa a dizer que sim com mais força. e acena. e acena. e as lombadas dos livros viradas para a parede. estou de castigo – um escritor é feito por todas as palavras que escreve. mas eu escrevo sempre poucas. para o tanto que quero dizer – e a cabeça continua a acenar. imagino então que todos são como eu. tolos. feitos de palavras que não existem em papel. nunca nenhum escritor escreve em papel o que lhe cai nas mãos. aquela sensação de calor. a falta de ar. o desassossego. os ossos a partir de cansaço e as lágrimas a escorrer por dentro e por fora. os olhos perdidos do corpo lutam por cada página do dicionário. e folha para trás. e para a frente. e da boca um raios parta isto. não encontro sinónimo para a palavra felicidade sem esta maneira de dizer as coisas – e o corpo reclama escrita. e escrevo resmas e resmas de papel para dizer nada. nada que os outros entendam – e a loucura é agora reconhecida. atestado por um médico 

- - está louco. já não reage à medicação. não consegue abandonar a obsessão de que um dia todas as palavras terão sentido – façam o favor de internar este pseudoescritor. não esqueçam. colete de forças e sala branca por tempo interminável até que faça outra avaliação do seu estado mental –

sempre que junto palavras invento-lhes uma nova vida. ricas. poderosas. fortes. elegantes. viajadas. a falar francês. inglês. bem vestidas. reconhecidas e sempre a apontar para mim – mentira. tanto quero dizer e no fim do parágrafo o que sobressai é apenas o ponto final – também eu tenho que por um ponto final nesta forma de escrever. tenho que largar as palavras tal e qual como elas me erguem do chão. não posso senti-las de uma forma e depois entregá-las ao leitor de outra. têm que partir sem erosão. sem polimento. sem brilho. sem maquilhagem. têm que partir do que sou. do que sinto em silêncio. quando encostado ao pulmão coloco as pernas em cima do coração. para facilitar a circulação sanguínea. incham-me os pés e com os pés inchados as palavras incham também. e fico com os canais lacrimais entupidos e eu não sei escrever sem chorar – se as palavras fossem choro era fácil. uma música. uma voz e a liberdade do corpo era a grândola vila morena – se as palavras fossem gaivotas era fácil. um dia de sol. um pouco de vento e a liberdade eram asas – se as palavras fossem peixes era fácil. um oceano. uma onda. e a liberdade eram barbatanas – se as palavras fossem saudade era fácil. um dia de sol. uma foto na mão e a liberdade era o passado – se as palavras fossem vento era fácil. uma criança. uma praia e a liberdade era um papagaio de papel – se as palavras fossem um homem era fácil. um papel. um poema e a liberdade eram as metáforas – não há liberdade para as palavras que escrevo. elas são eu. e eu estou preso a cada palavra – eu sou a prisão das palavras e as palavras as grades da vida


Autor: Sampaio Rego

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FEITO COMO




um boi trôpego
de partida
no esparramo do asfalto quente

...

espanando o poeiriço cinza
de tardes espartanas

um espantalho
meio espantadiço
simulacro de crucifixo
um triste querubim
dos roçados do sem-fim

um vergalhão
corroído pelas ferrugens
prestes a permitir
a demolição do edifício
um osso fraturado do ofício

de doar centenas
de vezes
o coração


Felipe Rey

Imagem: Sr. do Vale

CIDADE DOS HOMENS





( Para o amigo Erick Moraes )


Cidade dos homens :
O calendário vestido
em quarta-feira e Cinzalha .

...

As avenidas fumam petróleo enlatado______
pescoços braços e pernas batem cabeça
num trânsito regido
pelo dragão da maldade .

Quando anoitece
várias estrelas faltam ao trabalho
( vento sopra uns trombones de chuva próxima )

e os trens retornam aos subúrbios
levando quem não se acaba de morrer .


Adiron Marcos




Eu quero desacelerar minha vida

Eu quero diminuir meu passo
Transar bem devagar
Morte lenta

Eu quero deixar esse frisson
Que cansa meu corpo
Que não liberta mais

Vou ler alguma coisa antiga
Aprender a escrever
Ler sonetos

Parnasianar
bem devagar
sem farinha
pedinha
pó.

Mas por enquanto falta métrica.

Monique



Máquina de Seduzir




Me fintou num instante
Com olhos intrigantes
Num convite sedutor
A mergulhar-te fundo
Pela porção Afrodite
Que se despia lentamente

Tinha íris cor de mel
O corpo de contornos delineados
Pelas curvaturas ousadas
Um passear a caminhar-te
Pelo dorso, cada pedaço de pele

Passo a passo entorpecido
Explorando tuas arestas
Nas fendas mais distantes
Entregando-me inteiro
As tuas cálidas mãos
Que inquiriam o íntimo
Usando-me

Desnudo a tua frente
Namorando clandestinamente
Sendo tragado num único gole
Pela tua janela de Vênus
Que tomava tudo

Feito conhaque

Causando palpitações
De puro êxtase
Na tua boca levemente úmida
Entreaberta, Escorria veneno mortal
De víbora serpente
Enfeitiçando o lugar
Como se Pedisse:

"Atreva-se"

Nem parecia mulher
Era anjo ou demônio
Surrupiando almas
Possuindo tudo
Fazendo gozar
Sem ao menos perceber
O quanto é imensa
Essa coisa mágica
Vestida de mulher

Allima





aldeia velha





despenco
como um barranco
aberto em beira de estrada
pelos pastos ressecados
meus desejos, os bois magros
nosso projeto, aquele ipê
derretendo amarelo
idéias que piscam no escuro
erodir por completo
aos urubus minha carcaça
que reste somente o ipê
amarelo como um farol
em nossas insustentáveis
pastagens

Lucas Viriato

sábado, 6 de outubro de 2012

soneto incompleto



para o poeta Marcio Rufino

então de cobra caninana 
passo a ser cobra Norato
eu sinto o cheiro verde da cana
e você gosta do verde do mato

eu me chamo Dona Leopoldina
e o vosso nome é Donana
tinha uma pedra de turmalina
no meio do caminho ou profana

gambiarra acendida que alumia
a Baixada como ode que Pode Poesia
fazer nessa nossa Cidade uma arte soberana

Felipe Rey

ESTRANHA COISA





Era preciso tecer a teia
de ardis e malícias

Era preciso de mais que dois olhos
para antever os vieses da vida
para dissipar os véus da dúvida

Era preciso urdiduras e tramas
desfeitas em manhãs claras
descosturando o véu da ignorância

Era preciso engolir o espanto
a revelar segredos inconfessos

Era preciso coragem e fé
para sair do luto e da profundidade das coisas

Era preciso aventurar-se no desconhecido
descortinando novos e refrescantes sentires

Mas essa coisa morna que em mim habita
que me aprisiona numa gruta escura
Essa coisa que comigo mesma se confunde
Essa coisa que me invade e me tira o ar
...
Ah, essa coisa que me divide e me parte em duas!...



Ianê Mello

(15.09.12)

*
Fotografia de Pavel Mirchuk

___

Labirintos da Alma:

http://labirintosdaalma.blogspot.com.br/

Réptil Poeta



Para o poeta Felipe Rey

Serpenteia em minha mente
Ainda mais
Feliz Peregrino
Em tua língua-caneta
Escreve em meu coração
Os versos pertubadoramente suburbanos
Cujas cores das tintas mimeticamente mudam
Assim como tua alma-pele
Ora cabocla, ora negra, 
ora branca, ora pele vermelha.
Ora salgada, ora doce, ora agridoce
Jamais sem gosto, jamais sem cor, jamais sem graça
Jamais gratuita, jamais despresível, jamais esquecível.
Máscula camaleonice
Cobra Norato
Saindo das páginas molhadas de Raul Bopp
E seduzindo toda a cidade
Rei dos honrados rastejantes
Pois és da estirpe dos que rastejam através da poesia
E encanta com sua mais autêntica idiossincrasia
Pois então tome seu trono
E reine no bares
Ou em outros lugares
Nas rodovias
Nas Avenidas
Até mesmo na periferia
Nos grandes centros
Nos saraus do Rio de Janeiro
Ou quiçá do Brasil inteiro
Sem se importar
Em que terreno pisas
Pois o chão do poeta
Ao invés de estrelas
É feito de sonhos.

Marcio Rufino

O BAILE



entre confetes e serpentinas
e mais caras descoloridas
todos com suas más caras
todos com suas máscaras
e o baile anuncia um carnaval
mas não é fevereiro
nem feriado nacional

numa parede cheia de espelhos
as máscaras vão protegendo
e quebrando inibições
eu por minha vez
descubro a minha tez
descortinando os teus doirados pêlos
como sempre fiz em outras ocasiões

então quem cheira essa felicidade
repentina nos salões
endoida a dançar até dormir
bebendo o último gole de gozo seu, moça
sem te tomar sem carinho sem carícia à força
devolvemos nossas máscaras emprestadas
porque agora nossas fantasias serão realizadas

Felipe Rey

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Dia do Poeta


Sarau Donana do mês de setembro

                                                                   O cenário do sarau

                        A grande poeta e líder do movimento Pó de Poesia Ivone Landim se diverte no sarau

                           Os artistas Naldo Calazans, André Luiz Gonçalves e Ivone: altos papos

                                          A platéia curte os artistas que se apresentam no sarau

                                              Vicente Freire, Dida Nascimento e André Luiz

                                                                       Naldo e Dida

                                                             O poeta Cezar Ray

                                                                 Os artistas se divertem

                                                Dida solta a voz com André Luiz na percussão

        André Luiz, Camila Senna, Ivone, nosso convidado especial Euclides Amaral e Cassia Cabral



O Sarau Donana realizado na noite de sábado do dia 29 de setembro foi um sucesso. Amigos do lendário grupo Desmaio Públiko - coletivo de poesia que agitou a cena cultural da Baixada Fluminense nos idos da década de 1990 - confraternizaram com a trupe do Pó de Poesia numa festa contagiante que teve as participações especialíssimas do escritor e músico Euclides Amaral e da Banda Seu Mathias e Panela Zen.

vão chamando coisas

por uma série de pequenos textos

já me chamaram pretensioso, poeta, gentil, nervoso, bêbedo, vaidoso, egotista, frustrado, escritor, senhor, puto, imitador, actor, reles, rude, naif, feio, débil, inveterado, nulo, triste, sorumbático, sujo, negligente, pedante, egoísta, parvo, pateta, invisível, maquiavélico ou manipulador, lisboeta, filho da puta, nada, deus, anjo, pelintra, do povo, padre, pregador, miúdo, velho, monge, corajoso, elitista, luso, de esquerda, de direita, fascista, agitador, sublime, dono, maravilhoso, bondoso, mau, diabo, vizinho, solto, fadista, ensimesmado, fanático, tarado, humilde, simples, puro, burro, ingénuo, escrevinhador, falso, coisa, grato, sui generis, censurável, podre, sem jeito, ruinoso, dúbio, estúpido, vagabundo, grande, melancólico, génio, subtil, tudo, cristo, prima-dona, maricas, degenerado, nulo, merda, simplório, areia, caca, gato, mulher, periquito, homem, mar, terra, estrada, sol, sexo, pénis, ambíguo, inútil, suicida, negro, árabe, cobarde, caldo Knorr, ídolo, jovem, e muito muito mais

tudo em cerca de 4 anos

que seria se fizesse poemas – que me chamariam mais

apresentei-me como sou – tratam-me como personagem, que seria se me apresentasse como personagem? acreditariam em tudo como real e literal? se o contrário é que vale então adoptemos o absurdo - o famoso teatro do absurdo de Beckett que acaba por ser a mais realista e exacta descrição da realidade

não se esqueçam - ao porem (pormos) a pele de poeta-lobo nos vossos lombos de ovelhinhas – sujeitam-se ás consequências inevitáveis da vida real – não a virtual – um dia cai a pele mal colada às costas e surge o pelo brilhante e branco dum animal que ensinamos às crianças que faz mée-mée e uma ovelha nunca será um lobo com pele ou sem pele mais não pode fazer do que em contacto com a sua frustrada inevitabilidade de balir de desgosto

portanto, sempre apareci aqui sem máscara e escusam de puxar pela pele da minha cara que isso dói e não sai – por baixo é só sangue nervos e esqueleto

e se isso não basta – nada mais tenha a dizer

mas fico feliz por ao tentar escrever poesia – vivi tudo isto

e por isso – obrigado

out. 12



Autor: Carlos Teixeira Luís

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quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Batoré

A cidade acordou ao som dos Beatles ; Eleanor Rigby atropelava o sino da igreja em doce heresia , as pessoas apuravam o ouvido; naquela manhã de 1966 , nascia o serviço de alto – falante da Prefeitura Municipal da Várzea Pequena.Dentro do mercado público uma cabine de madeira e Eucatex marcavam os domínios de Batoré , metro e cinqüenta (e cinco) de musculatura marombada , cabelo Black Power de rebelde sem causa , calça jeans contrabandeada sabe Deus de onde, “Make Peace Not War“ na camiseta modeladora do peito minimalista e musculoso , um cavanhaque atrevido avançando em direção á boca carnuda , de riso fácil , um tesouro em dentes dourados ; a animação movida a salário mínimo , dois olhos convergindo para a ruga circunflexa e perene na testa curta , um baita cordão de prata segurando o brucutu marretado do fusca do cunhado , agora simulacro de medalhão pacificista; enfim ,um homem de estilo . 
Cantarolava enquanto limpava as capas dos elepês, o primeiro lote de animação subvencionada pela prefeitura ; Waldick Soriano acotovelava Teixeirinha que escorava os Golden Boys e a versão 66 das Quatorze Mais. Aceitamos doações, trombeteava o cartaz lá na porta . No braço automático da vitrola , aguardando vez ,o disco mais recente dos Incríveis , chorando alguém morto em plagas vietnamitas e a guerra dos seis dias , na não menos remota Israel. 
E a vida corria , em gonzos azeitados . Na tarde mormacenta do mês de outubro , dedicado á Santa Padroeira , a Kombi velha , branca em melhores dias , maracujá sobre rodas envolto em poeira e estranheza , chegou , á reboque do caminhão da roda gigante . Um alto–falante aposto aquela precariedade, anunciava aos quatro ventos a excelência do Elixir de Mastruço e a força do Professor Asa Negra, o magnífico , campeão inconteste de luta livre americana , flagelo dos cabras frouxos e versão tropicalizada de Sansão , ao seu alcance , naquela noite , no Clube Municipal, por meros quinhentos cruzeiros de entrada , com direito a vistosas demonstrações de sua arte, inclusive o temível tacle , a arte de voar sem asas , estraçalhando o oponente .
Em frente á Praça do Fundador , a Kombi estrebuchou e calou-se .Desceu do veículo um homem alto ,musculoso, queimado pelo sol , feições esculpidas á faca cega em sua notável feiura , pernas torneadas por uma justíssima calça Topeka , sobre um par de botas com adereços prateados , bigode decaindo pelos cantos da boca , camiseta preta , cavada ,ensopada de suor , exalando um bodum misturado á desodorante Avanço ; da nuca , precipitava-se um frondoso e luzidio rabo de cavalo cheirando á Glostora , caindo- lhe sobre as costas robustas ,enquanto de megafone em punho , prosseguia na louvação do Elixir e as bravuras de Asa Negra , ele mesmo, alardeando seus atributos , encarando a meninada da praça , que freava as bicicletas, na contemplação do “portento brasileiro e internacional de força e vigor” , entre a perplexidade e o riso fácil das infâncias despreocupadas .
Após uma hora naquele sol que não estava para brincadeira, entrou no mercado publico, aboletou-se numa mesa do bar do Antonino e ordenou uma cerveja , traçada sem mais delongas entre um pedaço de carne-de-sol e uma lasca de queijo de coalho , regurgitados e arrotados com a presteza e sonoridade dos estômagos privilegiados e apressados. Liberando um hálito mais pra urubu dispéptico que qualquer outra coisa , indagou da localização do serviço de alto-falante, enquanto pagava ao desconfiado Antonino , que via das dúvidas, dava na sua foice um trato de esmeril , sob o balcão, enquanto indicava o cubículo no final do corredor . O troco deslizou sobre o balcão de fórmica arranhado pelo transito rastejante da aguardente, do copo ao bico da freguesia. Um punho envolto em pulseira de couro e metal reluzente, bateu na porta entreaberta. Dessa vez, o hálito demolidor despachava um boa tarde sorridente e de mão direita estendida , com direito ao fétido complemento :
- Epitácio Nepomuceno , vulgo Asa Negra, lutador , mágico e andarilho . Toque aqui os ossos , meu distinto . Falo com o grande Quincas Galdino , fera saltitante e premiada do agreste da Paraíba ? Orgulho da Academia Princesa do Capibaribe ?
Batoré ergueu-se da cadeira entrevada , alisou o braço esquerdo , a cabeleira exaltada e confirmou-se , num riso só .
- Meu nobre professor, a que devo a honra , após tantos anos? 
- Irmãozinho, estamos em turnê há três meses; a grana tá curta , estou dando beliscão 




em azulejo e nó em pingo d’água por dinheiro ; até a Vilma se mandou com um prestamista . Imagina o futuro de um corno liso : merda granulada ou não é ? Vim propor uma luta , amanhã á noite, no Clube Municipal .A gente faz só a munganga , o povão gosta , você ganha , ganho eu e tudo bem .
- Estou nessa. 
E foi mesmo , ou melhor, foram mesmo.O resto do dia, foram peripécias do professor a encher as pequenas ruas : rebocar um jipe com o ensebado e duvidoso rabo de cavalo , imobilizar o mesmo o jipe ,engrenado em primeira marcha,com as mãos e outras sansônicas tarefas das quais resolvemos poupá-lo, amigo leitor , pois afinal de contas a luta entre Batoré e Asa Negra já era anunciada em megafone, cartaz grudado e serviço de alto – falante , aos quatro ventos e mais alguns adicionais se a diminuta cidade os comportasse em sua pequenez .
Comentava-se da sacristia do circunspecto padre Eduardo ao forro verde da mesa de bilhar, onde Neco Gato desfolhava os otários dos seus parcos cruzeirinhos entre uma talagada da incandescente Serra Grande e a tacada precisa tal bote de cascavel ; num bilhar onde até o giz era viciado, o comentário era um só:quem venceria a grande luta, de preferência para contar a história de um arranque só , entre uma cerva e outra,de queixo inteiro , no bar do Antonino?
È , de queixo inteiro sim , pois no último embate registrado nos arquivos muito vivos da cidade ,dois anos atrás, Batoré derrotara Maciste de Oliveira, com o saldo de uma graciosa fratura na tábua do queixo do adversário , região teimosamente chamada de mandíbula pelo rubicundo e luzidio doutor Toninho,(habilitado nas artes médicas, na vizinha Campina Grande) testemunha ocular e manual da fragorosa derrota infligida ao alquebrado e desde então desqueixado Maciste . 
Ingressos vendidos em tempo recorde, ás oito da noite , a multidão comprimia-se no pequeno porém decente e superfaturado clube municipal , na expectativa suada e confusamente fedorenta , mistura de perfume Lancaster , pum de batata doce e cheiro de sabonete Vale-Quanto-Pesa , entremeado á fumaça de cigarro Astória ,Gaivota,roliúde , pé de Judas e quejandos , conforme bolso , gosto e pulmão do freguês.






A venda de pipoca , cachaça , mungunzá e amendoim corria solta ; na bolsa de apostas Batoré vencia em três para um . No centro do dancing, nasceu um ringue cercado por cordas , agora inspecionado pelo velho Otílio Cegueta,caolho de espinho de angico,óculos redondinhos que lhe davam um ar meio vago de Virgulino apombalhado, único expert regional em luta livre por consenso próprio e árbitro auto-referendado e aceito para a refrega que se aproximava.
Na tribuna de honra, confabulavam o prefeito João de Toninho e os vereadores da situação, sobre a necessidade urgente e imperiosa de início da quinta reforma do clube , para melhor conforto e segurança dos cidadãos e grande alento nas contas bancárias dos políticos, considerando-se ainda que a cidade não comportava mais praças além das cinco já existentes nas suas três ruas simultaneamente principais e secundárias.
Ás nove da noite em ponto, chegam os lutadores,acompanhados das respectivas equipes,com direito á lata d’água e gelo municipais.Batoré, engalanado em roupão de seda,com letras brancas, Asa Negra fazendo jus ao nome, roupão de seda preta que já vira dias melhores,nas costas uma duvidosa águia bordada pelo método da tentativa e erro.Segundos fora,vão ao centro do ringue, xingam-se e ameaçam-se de estraçalhamento mútuo entre mugangas mil ,conforme combinado.
Otílio morde o charuto de pacaia e dá início ao combate,quinze assaltos de três minutos por um de descanso , os oponentes se estudam , arrodeam – se , cenhos franzidos e muita força para não gargalhar, Asa Negra acerta o batorêico Black Power num sonoro tapa, prontamente revidado por um chute no quadril ; a platéia urra e pede mais ; a concentração é grande, a seqüência de porrada combinada não pode ser esquecida; Batoré negaceia o corpo e toma um sonoro bofetão no pé-do-ouvido, corcoveia , fuça o ar, recupera-se e arremata em tacle sobre o antagonista ; Asa Negra segura a perna no ar e empurrando-lhe o pé para trás, faz Batoré aterrissar em graciosa cambalhota ; termina o primeiro assalto, ecoa a primeira vaia : o pouso foi suave demais ;Otílio recomeça ; temos uma seqüência de rasteiras e simulacros de rabo de arraia ; Asa Negra sai de bandinha feito caranguejo ; o nanico Batoré já bronzeando de suor consegue aproximação ; agarra-o pelo pescoço ; saraivada de socos e cotoveladas no atarantado 




Asa Negra , que milagrosamente sai das garras do minúsculo algoz e planta-lhe sonoro bofetão na cara lisa ; Batoré cospe a prótese dentaria de cinco mil cruzeiros, agora caída e fraturada na queda em três inflacionados pedaços; a multidão explode num grito de pega-esfola-estoura-e-mata ;reinicia o combate ; coloca-se o protetor bucal esquecido no caneco da água ; agora Asa Negra beija a lona , após engenhosa manobra que lhe imobiliza o braço direito; ruge feito leão e sacode o oponente para o alto, ninguém é perfeito,as cordas do ringue também, Batoré aterrissa ou melhor amerissa de cabeça no caldeirão de mungunzá de dona Mãezinha ; Otílio reinicia o embate, ergue-se Batoré com mungunzá agranelado a adornar-lhe a juba, passa a mão pelos lábios carnudos ; reassume a pose de mini-gostosão no ringue ; mira a coxa esquerda de Asa Negra , que esperava um tacle , o pontapé atinge em cheio os preciosos envirilhados do lutador , que perdendo a compostura, segura os dito cujos com uma das mãos e com a outra varre do ringue o Batoré, com uma tapa de urso que lhe faz deslizar até os pés da primeira-dama; Rosilda, assustada e loura oxigenada caprichando no laquê ; retorna Batoré ao ringue, em fúria saltitante e cabisbaixa .
Otílio faz menção de reiniciar o combate e leva um inesperado dedo no olho, o charuto aceso cai-lhe sobre o peito da camisa modelo Volta-ao-Mundo novinha , puro náilon , agora , pura peneira ; no desespero do calor,ou no calor do desespero,vai de tamborete nas costas de Batoré, que lhe arremessa á platéia em sonoro tacle ; Asa Negra continua avaliando a entornação do caldo, ou melhor, o frigir dos ovos ; a platéia descabela-se e começa a aplaudir ; melhor que o Tele Catch Montilla, grita em uníssono ; Batoré entra de rasteira e Asa Negra sucumbe sob as cordas até as pernas de dona Ana, fornecedora de hóstias da paróquia e mestra no combate com sombrinha e cadeirada ; Asa Negra segura ainda os preciosos, recebe uma cotovelada de Batoré e em certeiro tacle, devolve-o ao ringue , abraçado á velha Ana ; Otílio encontra o apito , a essa altura , no tabuleiro de amendoim, encerrando o combate; nada feito, a platéia tomou gosto pela briga e agora a luta é democrática, digo, agora todos contra todos, depois a gente vê porque foi mesmo ; entra em cena a fleumática guarda municipal , que a golpes de cassetete , botinada nos testículos mais atrevidos e generosas doses de dedos nos olhos, consegue acalmar os ânimos da platéia , porque os combatentes, a essa hora, já rachavam a bilheteria e seu adorado vil metal, dentro da Kombi, a caminho de Deus sabe lá onde , rindo a bom rir.



Conto de André Albuquerque

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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Lançamento do Fanzine Pó de Poesia na Casa de Cultura Sylvio Monteiro

                          Samuca Azevedo do Enraizados recebe o carinho de nossa musa Camila Senna







                                                        Eu, Camila e Jorge Medeiros

                                                 O grupo cultural Fulanas de Tal

                                      Dida Nascimento, Maria Luíza Rodriguez e Camila

                                 O ator e músico Maurício Gallo declamando um poema

                                           Ivone Landim e o secretário Anderson "Batata" Ávila

                                                              Dida Nascimento

                                                                 Ivone Landim

                                                   Yasmin Thainá admira os fanzines 

                                                               O manifesto do coletivo


                                                                      Ivone e Camila


                                                          Jorge, eu e Rogério Lobo
                                O ator e poeta Ramide Beneret representa seu monólogo O Bêbado
 
                                            As belas poetas Aline Corssais e Camila Senna


                                                Eu declamando um de meus poemas


                                            A grande amiga do Pó de Poesia Maria Luíza
                                                                    Eu e Camila
                                                                 Os fanzines


                                               Ramide, Jorge, Dida e Ivone


                              Jorge interpretando magnificamente o poema Cântico Negro de José Régio
                               Banner dos fanzines do Pó de Poesia confeccionados por Ivone Landim


O sarau de lançamento do fanzine do Coletivo Pó de Poesia na noite de sexta-feira do dia 28 de setembro na Casa de Cultura Sylvio Monteiro em Nova Iguaçú foi um grande sucesso. Os integrantes de grupo Ivone Landim, Dida Nascimento, Jorge Medeiros, Camila Senna, Ramide Beneret e o humilde blogueiro que vos escreve brilharam no sarau junto com amigos como Maurício Gallo e Rogério Lobo. Foi tudo uma iniciativa do secretário municipal de cultura da cidade Anderson "Batata" Ávilla que encantado com os fanzines confeccionados através de colagem pela poeta, professora de literatura, ativista cultural e fanzineira Ivone Landim decidiu lançar formalmente os números já editados num elegante coquetel promovido pela secretaria de cultura. O fanzine Pó de Poesia publica poemas não somente de poetas do grupo como de toda a região da Baixada Fluminense e de todo o país. Famosos ou anônimos.

domingo, 30 de setembro de 2012

"memória,"

colisão..

facto.
aparência de consumo imediato por..
(todos!!) os teus dias
ilícitos
pretendidos e-à, 
menção inclinada de um devaneio meu..

à tua porta..

um
ensaio.
em
declínio.
exposto e, de. tragédias semi-fartas
olhos e o dente
rélicas e nadas
a noite
e hoje..




(e)sempre.. 

ou. sequer aonde houver o teu rastro
ou nome
ou mero quadro precedido de tais motes e cortes
às tuas mesmas insinuações
teus sorrisos descidos 
tua pele
teu

lado(fixo),







ah, colisão..

é mera tinta que deitei de ti
é mera aquisição por respirar-te em verdade
quando,
em ápice dos meus registros,
só a tua letra desfaz
este
fim..
este pérfido inferno-início
pois,




é tarde.. e corre o prêmio lá fora
corre.. ainda acima das minhas intenções
minhas médias-perfeitas
minhas






linhas(e ilíadas..)






qualquer pena que te trazer à minha página, me determina
qualquer cena que te verter em ilustração, me condena





não te espero por cobrir-me à chuva
nem te esqueço à curva que não pretendi
eu apenas,




me lembrei..



Poema de Azke

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sexta-feira, 28 de setembro de 2012

ausência

não sinto o gosto da tua boca
arde em mim uma paisagem rara
como os dias feitos de viagem
anda em mim uma memória calma
e meus olhos brilham de nuvem

e assim por não te sentir, sonho
em não cantar tua voz à noite
e não mostrar sob os lençóis
o que, por ser sombra, se descobre

por que não sinto o teu gosto
nas noites que passo em claro
nos dias em que deito e paro
e me oferto ao vento em teu lugar?


Poema de Caíto

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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

fruto extremo

voce atravessando uma estrada de chão
desmanchando o truque das nuvens
se interpondo nos espaços criados pelo tempo
bonita e cheia de belas promessas
entre o céu e a terra
o melhor par de olhos
de perder o véu,

a sobrancelha como uma flecha livre e indomada
mancomunadas entre a fé e o pecado
na mais funda suavidade, no melhor do feminino
de tirar à vida,

você se aproximando em sol e chuva
arrancando os colares do dia
como se a música estivesse vindo através dela
era Deus esboçando o que não pode ser...
rasgando as tiras do silencio
de não se acreditar,

você prenha de rimas 
o cheiro do teu batom corre de castelo em castelo
emoldurando o assombro que dá por dentro
é o som da descoberta da alma
o pecado cai sem aviso,

como se segurasse um pássaro nas mãos...


Poema de Vânia Lopez

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No meio do marasmo
Um mísero verde cospe
Uma gotinha de orvalho

Marcio Rufino

domingo, 23 de setembro de 2012

hoje é a noite que me traz para os teus lábios

Hoje regressas ao mar onde está a luz com um 
degrau para os meus anos, e quem te viu trouxe-
me um rio de flores. Começou hoje o Outono, e
como devia ser. Começou e alguém, meu amor, 
pode ter utilizado o teu espelho e pode ter feito
que a noite ande pela primeira vez debaixo das
árvores. Tenho no futuro um pôr do sol com uma
nuvem branca e o amor abraçará a lua, se os 
teus pássaros forem rápidos e seguirem o sol. E,
hoje, nenhuma rua chegou aos teus dedos contra
mim: hoje, quando me mostras o ar que eu per-
dia, o ar quando o sonhava, ao
...........pé do teu rosto.

E hoje é a noite que me traz para os teus lábios 

E, hoje, é a noite que me aproxima de ti, agora
que as flores nascem mais cedo, e os lagos 
ficam a morrer do teu lado, Meu amor 


Poema de Francisco Eugênio Seixas Trigo

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