Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



domingo, 15 de julho de 2012

[poema 12]

.


algures alguém em extremo desencante (assinalável) propício
resvalado em céus da boca ou alturas desmedidas de vício

que esse alguém torcido (em letras) procurasse às cautelas
dos ímpares o par muitas plumas e a rodos amor dentro delas

que no fim acerado grotescamente metade hélice e metade fera
voasse aos confins e voltasse algarismo locomotiva (mário) ou quimera


.


Poema de Mario Revisited

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sábado, 14 de julho de 2012

Cântico

Malgrado digam:
Tudo o que cantas
Não inspira,
Não me importo.
Vivo assim:
Dentre tantas mentiras,
Escolho uma ou duas
Que, ao menos,
Façam sentido pra mim.
Por isso, amigos,
Se quiserem,
Me acusem de poeta cínico
Ou de ter partido
As asas do querubim.

Malgrado digam:
Tudo o que cantas
É mentira!
Não me importo.
Em verdade tudo transformo
Ao som da lira,
Porque gosto
De verdades mentidas
E gozo
Ao ver aqueles
Que ainda crêem
Em coisas absolutas
Na vida.

Malgrado digam:
Tu és louco!
Teu canto
É nada ou pouco,
Não me importo.
Torno-me os versos
O meu reverso
E os ofereço a todos
Sem esperar nada,
Nenhum troco
Ou que percebam
O próprio engodo.

Malgrado digam:
Tudo o que cantas
Está morto
Ou morrendo está,
Com isso me rejubilo,
Por saber
Que componho um hino
A todos fraterno,
Que nos deixa isentos
E desnudos do fardo
De sermos eternos.

Malgrado digam:
Vives da rapina
Do dia-a-dia,
Transformas a poesia
Na nossa ruína,
Não me abato;
Escrever só nos lancina
E nos inocula
Com o mundo
E a estricnina.

Malgrado digam:
Tudo o que cantas
Faz-me sentir
Num exílio,
Não há encanto,
Nada de sublime
No teu canto,
Não me espanto.
Não há como atingi-los
Sem antes
Cometer-se um crime,
Expor numa vitrine
Tudo o que nos reprime
Para a quebrarmos
Beligerantes.

Malgrado digam:
Só amas o chão,
O parco instante,
Não me importo.
A terra, o céu,
O sol radiante,
O corpo vão,
Tudo o que vês
Perecerá
Nesta láctea via
De fluidez.

Malgrado digam:
Tudo o que cantas
Te vai mandar
Para o inferno,
Não me importo.
Sei que nada é fixo
Ou sempiterno
E que, como todos
Que se persignam
Com crucifixos
Ou que não crêem
Na parasceve,
Em breve,
Me tornarei pó, lodo,
Enquanto cantam
Os rapsodos.


Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados

Uma morte azul

... comprimir – lhe o pescoço em meio aquele azul estonteante , o céu como se fixado por um prego, a brisa marinha hesitando sobre um mar que seria até macio em seu azul e poemas,perceber a vida esvaindo-se e a entrega do corpo ao próprio destino , ao fim comum e desejado por nós, por ela principalmente, que não mais desejava a angústia medida do saco plástico e meus polegares a constringir - lhe a traquéia . Transfigurada , consoante ao azul maravilhoso que nos protege e envolve de cima a baixo ; o mar , arremate final da pequena morte ensaiada em tantos quartos de hotel dispersos pelo mundo , luxuriante forma adiada de morrer sucumbindo ao orgasmo convulso, á estripulia de sensualidade (o que é um nome?),a camisola de seda meticulosamente dobrada,creme sobre o corpo perfeito e macio,
- Por que não três gotas de Chanel número cinco ?.
Mesmo não sendo um homicídio (que de certa forma era) , antes suicídio consumado a quatro mãos (duas da bela assassina de si mesmo) nem assim o queria plágio :
- Não sou a Marylin
Gostosas e tépidas mãos do seu mais louco amante, disposto a ir onde os outros recuaram por não compreender que aquele morrer era um supremo gozo , inigualável porque definitivo em seu impacto de vagalhões de prazer a submergirem o seu corpo, azul da cor do mar, entre aquelas tão pequenas ilhas, onde tudo isso poderia ser um filme (nós e apenas o sol por testemunha) mas o sol não era nada, apenas figurava naquele equador , no esvair-se da vida comum para a liquidez que dissolvendo, acrescenta-nos ao todo maior.Então lembrei da primeira vez que me ordenou o suplício,aquela pequena introdução á asfixia, em meio ao gozo, sacudida e inundada por mim , aríete e fonte , a serviço do tesão infinito, multiplicado á cada compressão do pescoço sedoso, luzidio ,untado,perfumado e cheirando a sol , minhas mãos deslizando na mesma cadencia em que lhe percutia o interior, a caminho do prazer oceânico , seguido do largo e profundo sono dos amantes .
Então , que o mar te receba , azul em todo resplendor que um veranico poderia nos oferecer ; agora toda inércia e serenidade, atingiste o teu nirvana ; percebo o sangue nos meus braços lanhados por tuas unhas que apenas eu sei resultado do prazer supremo , não do medo nem do tolo apego á vida que sempre censuraste , pois toda maneira de amor vale a pena ; entre nós, a vida tangenciando a morte anos e anos ,em que te completava e seduzia, pelas mãos mais fortes e precisas já vistas nas tuas andanças pelo mundo . Descobri a proximidade de viver e findar-se , no momento do gozo , onde morremos para nós mesmos e para o mundo na brevidade casual e humana que nunca te satisfez. Escolheste hoje, o gozo supremo , sob este céu sem nuvens e um sol agora meio escorregadio para a curva do horizonte,deslizando,como indo ao teu encontro, no cemitério marinho .
Ligo o barco ,faço- o descrever um adeus em larga e preguiçosa parábola ; sigo sem olhar a esteira do meu caminho , vezo e sina de vida breve .

Conto de André Albuquerque


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sexta-feira, 13 de julho de 2012

mnemosine

mas na verdade eu queria mesmo era falar contigo. dizer apenas um olá. um bom dia. um como está passando? e os sorrisos? encantados como sempre – e então quando tomamos um cafezinho naquele botequim feito de palavras? estou ansioso para te mostrar dois verbos novos que encontrei a fazer uns arrumos à vida que já passou - irias gostar de os conhecer - estavam amarrados a dois adjetivos que nunca adjetivaram coisa nenhuma – confesso. eram tão maus que nunca os levei à rua. acabaram por ficar esquecidos - o tempo passou e agora tudo é diferente. estou mais velho. e o cheiro das palavras já não é igual - no passado estava mais à procura de coisas novas e agora quero achar tudo que é velho dentro de mim e não encontro - não guardei nada da vida. os beijos foram esquecidos. os abraços perdidos. as pessoas foram morrendo dentro de mim. e a saliva presa ao céu da boca rodando de um lado para o outro e eu sem encontrar um lugar digno para poder cuspir esta azia que me vem de dento de uma moela seca - e o verbo era é agora o começo de uma história - era uma vez um abril - era uma vez um dia com uma nuvem tão louca que sugou toda a água do mundo. e todos os peixes se fizeram pássaros. e todas as flores se fizeram sonhos. e tudo que era mundo era afinal um pontinho num espaço que nenhum mês do ano sabia que existia - era uma vez eu e mais tu e mais os teus amigos e os meus amigos e os teus vizinhos e os meus e o teu mundo e o meu mundo e tudo é mundo e nós somos mundo e em cada pedaço de mundo. um mundo mais completo - nunca esquecerei mais nenhum segundo do mundo - escrevo cada sorriso. escrevo cada momento. escrevo mundo



* comentário a um texto da vânia lopez que. carinhosamente. faz o favor de ser minha amiga preenchendo os silêncios da escrita com palavras de incentivo ao meu louco amadorismo de tentar escrever
Autor: Sampaio Rego

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quinta-feira, 12 de julho de 2012

basta um olhar atirado ao peito

falar do voo de uma ave é algo sagrado, entro por portas em um feriado na Irlanda do Norte. colho o ontem com os olhos, onde bem ali adormecia em seus braços. onde dois braços é uma multidão colorindo o deserto de verde. estendo uma mesa ampla com castiçais, tempero a alma, tudo sonha... do mar a cada noite ao piano roxo. vá menino! colha minhas lágrimas, ensine-as a migrar ao teu peito com a força de uma rosa. me aninhe junto à sombra de tudo que cala. oferte-me as mãos para que me abandone atravessando o dia. faça do oceano nossa horta, cuide que sua alma floresça no frio, onde quero ser enterrada viva... pétala por pétala.

Autor: Vânia Lopez

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quarta-feira, 11 de julho de 2012

carochas, bicicletas & biplanos - 26

Estranho certas atenções. Sobretudo porque sei que no fundo não as mereço. Todos sabemos essas coisas. O que merecemos ou não. Mesmo com perturbações na avaliação, se tivermos baixo amor-próprio ou o oposto. Escrever sobre essas coisas é um prazer perverso que também tem de sofrimento, por isso o chamo assim.

Só há bem pouco tempo é que descobri um certo tema recorrente em todos os meus escritos. Todos. E não sou eu. Não escrevo sobre mim, mesmo que o faça na primeira pessoa, como acontece na maioria das vezes. É sempre sobre outro eu que não exactamente eu. E quando coloco esses textos em locais virtuais sujeitos a comentários, esses mesmos comentários, leituras e interpretações levam o sentido do texto a paisagens novas nunca sonhadas por mim. Isso dá-me um certo prazer, embora nem sempre, ler o que outros lêem daquilo que escrevo. Confesso que brinco muito com a realidade e a memória, partindo do real para o pressuposto, do normal para o absurdo, daqui para ali e a viagem de volta. E o real tem tanto de improviso e impossível que não precisa ser inventado. Tudo existe para ser observado. Saibamos como.

Jul. 12


Autor: Carlos Teixeira Luís

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segunda-feira, 9 de julho de 2012

Poema dos três cachimbos

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essa intercalar voz rouca de telefonista
o meu nipónico desejo por às terças a rodos cintilante
e aquele propício segurança do parque de estacionamento
em aceradas e concretas suspeitas de


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Poema de MarioRevisited


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Ela dança...


Cigana colorida
Coloca a tristeza retalhada de chita
Na ponta da saia
E sai...
Sai sorrindo,
Cantando,
Deixando a fênix renascer.
Não se encolhe, se espalha
Mesmo com a alma cicatrizando,
Ela persiste e dá um novo verso ao rosto.
Encanta, diz sim!
Sente cheiro de alecrim
Mesmo estando numa relva com frio e apaixonada,
Paixão daquelas febris, perigosas...
Com o coração explodindo feito estopim.
Ela dança, se permite, se encanta...
Mesmo carregada de lembranças!

Ela dança!...


((( Camila Senna )))

sexta-feira, 6 de julho de 2012

[...descansam as amendoeiras do inverno


descansam as amendoeiras do inverno
com alguns pássaros escondidos pelos ramos vazios,

vazias as mãos que seguram todas as águas por momentos,
vazio o dia que se atormenta ao se esconder,

vazio o beijo, dir-me-às,

e como é bela a amendoeira em flor pelo inverno,
renova-se,

vazia a nudez dos nossos corpos, dir-te-ei.

Salso o mar que as brumas esvaziam,
quão distantes as cousas por escrever,
talvez o amar, talvez a saudade,

cruel olvidar que se adianta a tudo, eu sei.

[… e hoje, amanheceram-se repentinos os ventos a norte,
apenas eles conseguem despentear as ondas,

apenas eles me acordaram distante,
que eu crepite, que eu arda...]
 
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)
 

"Acesso.."

vê. é a parede que te forma o desenho em par abstracto(se for..)
assim, ao tempo. e descaso retrátil, em obtuso erro (ao)que te compreende o provocar
ao olhos, o exemplo.
em leito privado qual, conto. e(este..) fim!
vê. esta linha que te devolve à canção inteira de um outro dado/supor
(suponha..) às vezes insanas da história mais breve que um dia, te absorveu
suponha os teu passos em lados opostos. e livres. de ti
em derredor
e
queira..
minha linha desfeita ao que te aguarda o exercício
queira ocupar-se de gravuras
a um. ensaio de presságios
qual ímpeto que te (ora/ou-outra..)serviu
à luta mais eleita(a: aceita de ti.)
ou império..
convulsão e entrevista acima da minha tola/total impressão
e conforto
seja-te(lei) ao total esboço que(,sim!) darei o exemplo
oh minha,








magdalena..





















desde ao castelo de ar
árido controle deste credo e período composto
se for..
a ser-te. aos poucos
minha febre que te desnivela o veto
minha boca calada da toda mentira privada de ti
minha letra criada
em chamas
em queda e lápide de forma que te aprende
tal(à)
esta





fé..









e,
nada te compara ao lado em outro ponto qualquer
(nada! do que te ser/ter em outro corpo, que não



o teu.)

 
Poema de Azke
 

quinta-feira, 5 de julho de 2012

História Sucinta da Antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (U.R.S.S)

.



Martelo
e
Foi-se



.


Poema de MarioRevisited

carcohas, bicicletas & biplanos - 25

O romance “Revolutionary Road” de Richard Yates (1926-92), editado em 1961, é um tratado de melancolia suburbana. Um romance que deita por terra o american way of life como supostamente foi utopicamente idealizado. Alguns momentos angustiantes na vida de Frank e April Wheeler, um jovem casal com dois filhos pequenos, vivendo num confortável subúrbio. A aparência duma vida perfeita. A acção desenrola-se entre uma peça de teatro comunitária e um acontecimento trágico com um dos principais personagens. O vazio duma existência de conforto e sossego, entre martinis e bourbons, entre chás e conversas de fim de tarde com outros exemplares de uma extinta classe-média em meados dos anos cinquenta. Infidelidades, traições e obsessões diversas. Casas de madeira com alpendres floridos, jardins e garagens, onde espreitam os pára-choques cromados de Buicks e Chevrolets, crianças fogem dos aspersores ligados e mulheres preparam repastos perfumados para os seus maridos que chegam no final da tarde do escritório. Frank Wheeler com um futuro promissor na firma de máquinas de escrever Knox. April uma feliz dona de casa a ver a sua vida passar com rapidez e lentidão.
Não vi o filme de Sam Mendes de 2008, com Leonardo di Caprio e Kate Winslet. Mas confio no realizador para filmar esta história digna de ser realizada, de enredo suburbano e tristonho, realista como se atribui quando a alegria de viver não é convidada para dançar.
Depois do romance, não tardarei a atirar-me aos contos do escritor, editados cá pela Relógio D’água, havendo essa oportunidade.

(Jun. 12)
Autor: Carlos Teixeira Luís

quarta-feira, 4 de julho de 2012

carochas, bicicletas & biplanos - 24

 
 
 
Eu também acho. E melhor: soube recentemente, tem alguns exemplares à venda de “Histórias do Deserto” desse autor marginal e louco, que é… como se chama? Bem, não interessa.

Uma livraria nas instalações duma antiga fábrica. Tudo em metal. A escada para o primeiro piso. Um espaço amplo, onde o livro se sente com dignidade. E o visitante anda por ali. Vendo e mexendo. Inserido num complexo de ateliers e escritórios, com ligações à moda e às artes. Edifícios entre a ruina, o antigo, o pós-moderno, há uma frescura apesar da estrada de paralelepípedos centenários que nos obriga a sempre um passo em falso como que atravessando uma ventania ou outros ventos simbólicos que se referem a quando a altas horas da noite o equilíbrio das pernas é titubeante devido a alguma excessiva reserva etílica no organismo.

Uma livraria para ser visitada como local estranho e sublime. Para se estar e não apenas passar. Daqueles locais em que apetece que anoiteça e as horas se instalem como gatos furtivos e lentos. Ficar por ali na conversa. Sobre livros. Que se sabe que é sobre a vida. Tudo é sobre a vida. Venha de carocha VW do outro século. Venha de bicicleta pasteleira e ferrugenta. Venha de biplano guiado pelo barão Von Richthofen. Mas venha ler e estar à Ler Devagar. Em Alcântara, não muito longe dos bares. Tropece e caia por ali. Nas páginas dum belo poema ou nas ruas escuras dum livro de viagens. Vale a pena a viagem. Pode ser que me veja por lá. Se for, toque-me no ombro e beberemos uma ginginha ali por perto, para os lados do largo do Calvário.

(Jun. 12)

Autor: Carlos Teixeira Luís


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terça-feira, 3 de julho de 2012

[...e tantas foram as manhãs que me escureci


e tantas foram as manhãs que me escureci
sem me amanhecer,
cousas que me habitavam, promessas fossem,
da sede que não se estancou, arribaram-me desertos.

… E se por um beijo teu que fosse,
Mesmo estranho e provisório,
Mesmo nesta vida que jamais me modificará,
Me desabitasse de vez,
Haveria de me lançar do promontório
Que um dia desafiei. Cumprir-se-ia silêncio.

Cessar-me-ia.

… E tantas foram as noites que não presenciei
O teu sonho interrompido.
 
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Insensa Tez Revisited

.



ninguém sabe porque escreve
ou porque o céu desflorou a virgem;
ou quanto sal nesse beijo nos foi
que a ampulheta virou rosa
pegou de assalto a velha locomotiva
e nesse instante tu sorriste;

chorem por mim que eu só quero
____________o que dói ou não existe



.
 
Poema de Mario Revisited
 
 

carochas, bicicletas & biplanos - 23

Matei Morri Sequei Voei Nasci Adoeci Finalizei Orei Morri Nasci

E haverá de ser sempre assim. No poema morre-se várias vezes e ressurge-se vezes sem conta. A figura poética é alguém que ou não morre ou morre sofredoramente quantas vezes o autor queira. A própria Literatura um vão desejo de imortalidade, quando não de mortalidade em vida. Aqui pode-se morrer antes de nascer. E depois ressuscitar mais além. Querem que dê exemplos? Vá, vão lá pesquisar. Saibam que dá um trabalho dos diabos. Por isso se poupa na pesquisa.

Fui rato ave de rapina urso crocodilo de bairro vi ninfas ou parecido amei oliveiras e muito mais antes que o dia nascesse

Acusa-me de usar a prosa e poesia na mesma frase, no mesmo texto, na mesma sinapse. Faço-o por impossibilidade. É assim que gosto, sei e quero. Pune-me. Expulsa-me. Faz o que quiseres.
Já fui street boy até ás finas e tecidas roupagens da fria madrugada e sobrevivi, não muito bem mas como foi possível. Sei lá de poesia. Vou falando e escrevendo.

Sol Poeira Rocha Caminho Nudez Sol Noite Geada Mulher Cão e Pão

(Jun. 12)
 
Autor: Carlos Teixeira Luís

Carochas, bicicletas & biplanos - 22

Deve-se modificar um poema. Deve-se modificar um poema até não poder mais. Até ele nos derrotar. Ou até o destruir. Destruir um poema. O maior medo. Pensar que a inspiração nos bateu à porta e ao querer melhorar o poema apenas o destruímos. Mas destruir um poema é de criador. Só destrói quem constrói. A aprendizagem e o lamento é a nossa escola. Mesmo que o poema fique pior do que antes. Tudo isto é sem roteiro e uma grande aventura. Afinal não queres tu ser poeta? Se lhe vestes a pele tens também de amargar o acto de artífice de esculpir palavra a palavra o poema nem que seja para o deitar fora a seguir. Nunca te dês por satisfeito. Isso não é de poeta.
E isso da inspiração vem da religião. Uma entidade que nos envia mensagens sabe-se lá como. Hoje sabe-se que inspiração divina não é para todos. E tu queres para ti, não é? Tem calma, amigo, também eu queria. Se queres fazer poemas não esperes o além, trabalha e transpira. Trabalha mais do que nunca e depois podes dizer o que quiseres. Se sair bem, dizes que foi a inspiração, ninguém dirá o contrário. Acredita. Melhor, experimenta. Vai e faz melhor, é a lição dos grandes poetas. Eu brinco a isso, e por isso mudei este poema e nunca saberei se para melhor:

E depois de Neruda

Nunca mais o amor será tão fogo líquido e solar
chama antiga rubra depois de Neruda

Tão mulher e colina deusa de Lisboa
muralhas com dorso deitado ao rio em rubor

E depois de Neruda como fica o amor dos corpos lunares
e todo o fogo vulcão veias de leite e mel

Como ficam as mãos secas de calor em festa
e as ruas a calcorrear em corpos de suor depois de Neruda

(Maio – Junho 12)
 
Autor: Carlos Teixeira Luís

domingo, 1 de julho de 2012

O maçarico

O maçarico descascava e cortava a chapa de aço ; um tosco retângulo tomava forma rente ao piso brilhante , recendendo a desinfetante barato e pano de chão ; Eufrásio dirigia a chama ; o medo e a máscara protetora á frente do rosto ,guardando-o das fagulhas intermitentes , ajoelhado sobre o piso polido e regular .

Quinze minutos sem romper uma chapa que não resistiria a dez : algo errado ; uma olhada em torno , flertou com a penumbra e seus habitantes : móveis de aço com revestimento imitando madeira , ar parado , em recesso letárgico . Na parede, a foto oficial do poderoso de plantão , velhas e feias cadeiras ; numa delas,um paletó branco com uma gravata preta a guarnecer um ombro , calendários de mesa , fotos familiares emolduradas de algumas pessoas parecendo ridiculamente felizes , veladas pelo silencio obsequioso e ladeando computadores desligados , no sono de pálpebras escurecidas .

O cilindro de acetileno, mais leve ,contrariava as expectativas , começando a dar sinais de cansaço e esgotamento . Agora , pegar o outro cilindro amarrado no bagageiro da bicicleta , escondida num canteiro, lá na rua. Praguejou , emputeceu-se em surdina na fúria seca e estéril .A noite , em primeira infância, repleta de possibilidades , deslizava sob os ponteiros dos relógios de parede e de pulso,na marcação do tempo desperdiçado .

No terraço, o vigia idoso sentava, escorando encosto e pernas traseiras da cadeira contra a parede , arriava a aba do quepe sobre os olhos , retomando a longa peregrinação de trinta e quatro anos , em busca da grande milhar jamais sonhado do jogo do bicho , de animais fugidios tal a matéria que tece os sonhos , sempre de laços soltos , a desmanchar-se e refazer-se, até a consciência recoser tudo . Na mesinha ao lado , caderneta e esferográfica já destampada ,aguardando o palpite feliz.

Um muro pálido e gretado, ainda não era obstáculo para Eufrásio e o sonho da grana a vinte metros de distancia .Trocou de cilindro, testou a chama e prosseguiu a faina desbastante no metal que não se entregava.

Outra olhada para os relógios de parede e de pulso . Dalí há vinte minutos , o foguetório de ano novo e a liberdade de trabalhar com o gás mais aberto . Agora , ao segundo tempo do jogo de arromba ; a um palmo , alegria e dinheiro , a fuga da vida merduncha e abespinhante , uma respirada acima do sufoco .

Da sacola, tirou a garrafa de cachaça ; na boca ressequida pelo medo, um gole decidido e brusco.Esperaria o início do foguetório. Roma não se fez num dia , aquilo tudo lhe custara um mês de trampo ; avaro na confiança ,ninguém além dele mesmo e o escapulário da Senhora da Conceição , que beijava tremulo , antevendo a misericórdia colossal da Protetora, compreensiva da aflição com que esperneava para sair do buraco , aquele dinheiro a redimi– lo da pobreza e das desgraças menores á reboque ; imagina , até cornudo se tornara , pela mocréia imprecadora ; tratando - o de preguiçoso e cachaceiro até aboletar-se no caminhão de Liberato, o mineiro branquela , macio, risonho e de língua enrolada , á essa altura,nos quintos dos infernos, de brasilsão afora , traçando- a feito galo , tal foram flagrados na boléia do caminhão , nus e felizes ; velhos ódios , mortos de inanição pelo tempo .
Sequer um motel ; sem – cerimônia total , chifrado á frio .Sem muita convicção , ainda bateu mão á faca , mas o peso da idade colocou perguntas de difícil resposta ; a primeira, se valeria a pena o furdunço pensado : ter de esconder-se da possível vingança de gente que sequer conhecia , vinda não sei de onde ; segundo , mulher galheira hoje, tava mais que bem amparada ; homem virou mercadoria sem valor e sem regateio ; preso , teria de virar-se com os advogados oferecidos pelo governo , logo ele , que nunca acreditara em nada que não lhe saísse suado de dentro do bolso , até agora , nesses sessenta mal vividos .

Mais uma lapada ; a cana desceu – lhe incandescente , explodindo no estomago em fúria vulcânica ; subindo, atiçou-lhe o fogo meio morto do cérebro , que começaria a ratear um dia e não mais pegaria nem no tranco da pinga. Lembrou do fim do velho pai e benzeu-se . Outro olhar ansioso para os relógios , agachou – se ; acocorado trabalharia mais relaxado . Pior a emenda que o soneto : do cilindro reserva , um chiar fino e humilhante .Mesmo testado e recarregado ,a válvula liberava aqui e ali , um débil e azulado lampejo de angústia sussurrada e intermitente .

Meia – noite , os fogos pintavam o céu escuro , agora rendilhado multicor na janela e os sibilos seguidos de explosão, abafando os gritos da multidão ao longe . Válvula aberta ao máximo, o lampejo engrossou um pouco , mas a área de luz ao seu redor , foi aumentando e isso poderia ser muito ruim , chamando a atenção do velhote , caso despertasse .Cogitara uma parceria propinosa com o vigia ; mas percebera apenas orgulho babaca de passar trinta e quatro anos e seis meses , dormindo numa cadeira de repartição pública, confessado enquanto ele fingia aplicação na lanternagem daquele passat em petição de miséria , na oficina do Matuto.A cada um , conforme a sua imbecilidade, filosofou entre dentes.

O mesmo sujeito , de graça e ao acaso, falou do caixa automático dentro daquele prédio antigo e maltratado, a dois quarteirões,na hora de pagar o conserto , com um talão de cheques zerado . Da idéia ao plano , apenas meia hora a matutar sobre a vida . Na volta do imbecil , embolsou a mixaria em espécie, decidindo onde e quando , puxaria o pé da merda . E tiraria de vez , claro .

A alma do acetileno minguava , a chama sequer expandia em abertura máxima .
Retornara ao filete de luz , quase chama de isqueiro . O desespero, saía do seu canto escuro infiltrando – lhe a mente ; pensava em ziguezague, uma estranha fé lhe invadia a natureza , empilhando - se por cima de tudo : ir em frente , o mundo muito lhe devia ,era credor de muita coisa , vivia uma vida cada vez mais aparentada com a morte , ir em frente , de qualquer jeito . O tempo avançou e estancou em parada brusca , no relógio de parede ; falta de pilha ou cansaço , palavra chave daquele universo estagnado e mesmo assim , ridiculamente bem posto . O relógio de pulso continuava ; sincronia perfeita com uma angústia suada e tresandando á cachaça .

O salão onde ficava o caixa , de alto pé direito, tinha recessos agora subitamente iluminados e logo escurecidos pelo foguetório ; via em relances os terminais de consulta desligados , tal animais postos em sossego pela escuridão , vigiando-o de suas baias.
No relógio de pulso, meia – noite e quarenta . O foguetório , a essa altura morto e enterrado, deu lugar á boa e velha lua que não mais lhe pacificava a natureza agitada e embotada de aguardente . Agora , restava arrancar a chapa no bico da talhadeira.
A lâmina avançava e recuava ; uma obsessão em aço . Retirou da sacola a garrafa do conhaque reservado ao descanso . Um gole do tamanho da angústia , da frustração , do medo do fracasso e do medo de ter medo. A mente girava , o corpo acompanhando , ensaio de cambalhota sobre o abismo .

Adormeceu . Um bico de maçarico frio e uma garrafa de conhaque, vigiavam – lhe o sono profundo e tranqüilo. Ao amanhecer , preso , sem oferecer resistência , por dez policiais portando fuzis e colete á prova de balas . Na saída do prédio , a alma vazando pelos olhos, na dor de cabeça do ressacante fracasso ; chutou nos testículos um fotógrafo que lhe disparou um flash quase á queima – roupa , levando o primeiro empurrão do tira parrudo e sisudo. Reviravam-se a alma e o estomago dolorido e faminto .Entrou no camburão algemado, na dignidade ainda ébria e empertigada .
 
 

Talvez

Traços de um lépido amador, despretensiosas pegadas que talvez, nem deixem marcadas pelos caminhos. Um dia talvez esses versos sejam letra morta, esparramados pelo chão como folhas de um outono adormecido - ou apenas mais uma porta. Quem sabe se de saída ou de entrada, daquela cabana abandonada na beira da estrada. Lugar sem endereço, estalagem de moradores retirantes, quem sabe o primeiro passo na estrada. O marco de um início ao retorno. Planos bem traçados abraçados no cruzamento da esperança, ou aquilo que não vale nada ser lembrado.
Um vislumbre de volta de quem nunca foi. Registros de um Lápis sem ponta, faz de conta que somos heróis, que somos bedéis, berberes de um deserto de inspiração e então, talvez esses versos sejam esquecidos, ou nunca saiam de moda.
Tremula entre os dedos a incerteza, o medo a insegurança, alimentos de uma coragem cega e voraz. Mó de um moinho de vento, talvez sejam como a roda, que ninguém sabe quem inventou. Talvez seja apenas uma teoria “quixoteana”.
Talvez sejam como eu sou.
Caminhando pra onde eu não sei se vou.



Autores: Lápis sem ponta e Toth






Gosto de alguns autores aqui no Luso, claro, que sem desmerecer ninguem, muitas vezes me falta tempo para ler a todos e com mais frequencia. 
Bem, recebi uma mensagem do Poeta Toth, que tentou postar um comentário no texto PRESENTE e não conseguiu; e um poema, que tomei a liberdade de diluí-lo em um texto [Nosso].
Toth, agradeço-lhe imenso as palavras de incentivo e o "presente", que deitarei a seguir para o deleite de todos.
(Abraços)
Lápis sem ponta


"Um dia talvez esses versos sejam letra morta
Ou apenas mais uma porta
Quem sabe se de saída ou de entrada
Quem sabe o primeiro passo na estrada
Ou aquilo que não vale nada
Lápis sem ponta, faz de conta
Talvez esses versos sejam esquecidos
Ou nunca saiam de moda
Talvez sejam como a roda
Que ninguém sabe quem inventou
Talvez sejam como eu sou
Caminhando pra onde eu não sei se vou"


Toth


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[... e quando me morro contorce-se o cansaço


e quando me morro contorce-se o cansaço
Que se encabrita pela pele já gasta.
E morro-me tantas vezes como as ondas do mar.

E morro-me tantas vezes longe da terra
Que sangra desnudada dos queixumes
Deixados pelo grito meu, esquecido no meio das searas.

Fulgem repentinas tempestades que se acalmam,
Quando ressurge o fugidiço poente pela proa,
Regressam os recantos que ainda sobrevivem.
Agonizantes.

Morro-me assim, tantas são as vezes,
Quão longe estou das orquídeas tuas.

Quanto mais perto do mar estou, mais longe de ti sou,
Assim me morro. Pudesse eu morrer-me de vez.

O coração?

Adiei-o.
Poema de Ricardo Pocinho (Transversal)