Manifesto do coletivo Pó de Poesia

O Poder da Poesia contra qualquer tipo de opressão
Que a Expressão Emocional vença.
E que o dia a dia seja uma grande possibilidade poética...
Se nascemos do pó, se ao morrer voltaremos do pó
Então queremos Renascer do pó da poesia
Queremos a beleza e a juventude do pó da poesia.
A poesia é pólvora. Explode!
O pó mágico da poesia transcende o senso comum.
Leva-nos para um outro mundo de criatividade, imaginação.
Para o desconhecido; o inatingível mundo das transgressões do amor
E da insondável vida...
Nosso tempo é o pó da ampulheta. Fugaz.
Como a palavra que escapa para formar o verso
O despretensioso verso...
Queremos desengavetar e sacudir o pó que esconde o poema...
Queremos o Pó da Poesia em todas as linguagens da Arte e da Cultura.
O Pó que cura.
Queremos ressignificar a palavra Pó.
O pó da metáfora da poesia.
A poesia em todos os poros.
A poesia na veia.


Creia.


A poesia pode.


(Ivone Landim)



sábado, 13 de março de 2010

O POETA



O POETA
(Poesia postada em homenagem ao dia da poesia, parabéns a todos os poetas e poetisas)

É aquele que ama um pouco mais
E nunca ama por amar
E sonha um pouco mais, voa um pouco mais alto
E um pouco mais longe
Chega onde poucos conseguem chegar

Entra nos labirintos da mente
Conhece o passado e presente
Deduz o futuro com tanta exatidão
Que parece viver um passo a frente

Nele existe um pouco mais de emoção
Um pouco mais de atenção
Um pouco mais de alegria
E um pouco mais de solidão

Um pouco mais de sinceridade
Coisa pouca dentro de muita gente
Um pouco mais da louca igualdade
Que o faz assim, tão diferente

Ele tem um pouco mais de quase tudo
Guardado dentro da mente
De tudo faz um poema, revela tudo que sente

Assim é o poeta
Ama sem ser amado, espera sem ser esperado
E muitas vezes, morre abandonado

Por vezes, só depois da morte
Tem seus poemas lembrados...

Autora: Silviah Carvalho

POESIA E A FLOR



POESIA E A FLOR

(Poesia em homenagem ao dia da poesia)

Eu queria inventar uma flor
Mas que tivesse seus olhos
Que tivesse sua brisa
Que tivesse seu calor

Eu queria inventar uma poesia
Mas que fosse meiga como uma flor
Que fosse delicada como seus versos
Que fosse uma poesia feita de ilusão
Como a flor do coração

Eu queria inventar uma flor
Que saciasse a sede no riacho de água pura e cristalina
Que tivesse assim pétalas de cristais
Que tivesse botões com pontas de estrelas
Que não sofresse com a dor
Que fosse feita de amor

Eu queria inventar uma poesia
Como se inventa uma flor
Mas que não tivesse espinhos
Que tivesse apenas carinho

Eu queria ser uma poesia
Que colorisse sonhos
Para espalhar uma paisagem
Iluminada por todas as flores
Nos seus sonhos

No fundo
Eu apenas queria
Ser só uma flor de poesia
Que nada mais inventasse
Que nada mais precisasse
Além de enfeitar o seu dia

Autor: Arnoldo Pimentel

sexta-feira, 12 de março de 2010

Soneto do avião

















Tão refulgente por estes espaços,
Luminoso aerólito, avião,
Vai cruzando janelas e terraços
De um céu azul sem nuvem ou senão,

Pluma com toneladas de fio e aço
Que, leve, leva em si tanta vanglória,
Não há ninguém que o alcance, nenhum traço
Que o desvie de sua trajetória,

Senão quem inaugura a própria história
Rasgando os corações de conjunturas
Repletas de terror e sepulturas,

Ao som de uma feroz jaculatória,
Homem que encheu os céus de precipícios
E de horizontes sub-reptícios.


Felipe Mendonca -

Todos os direitos reservados.

terça-feira, 9 de março de 2010

TUDO QUE EU QUERIA TER



TUDO QUE EU QUERIA

Tudo que eu queria ter
Era um pedaço de papel e uma caneta
Para escrever minha própria vida
Minhas próprias escolhas
Minha própria sorte

Tudo que eu queria encontrar
Era uma garrafa boiando no mar
Trazendo uma carta sua que me desse esperança
E me fizesse sonhar, viajando no meu próprio tempo
Vencendo barreiras e fronteiras a nos separar

Tudo que eu queria sonhar
Era com minha própria aquarela
Pintar meu próprio céu, aonde na
Realidade estivesse você e que
Nosso encontro deixasse de ser um conto

Tudo que eu queria ser
Era o papel que está escrito minha vida
Para poder ficar na chuva, para molhar
Até a tinta sumir até deixar de existir
Pois a vida não é vida, se você não está aqui

Autor: Arnoldo Pimentel

Dos homens sem cor

Os dias sem você são noites em claro
em que cegamente me calo
para ouvir minha voz.

Mas já não há razão na própria certeza
da minha indócil nobre pobreza
de Mágico de Orós.

Dei-me como açoite a negra sorte
das nuvens brancas do norte
que inundam as folhas do açaí.

Seresteiras como moscas brejeiras
incestuosas e carniceiras
no meu corpo de faquir.

No refluxo ancestral me deito
por entre togas jaz o meu leito
em espasmos venéreos.

Porém nada há de apagar o que nunca foi escrito
no som perfuro-cortante de um beijo ilícito
da amancebidade dos restos.


Todos direitos reservados à Sergio-SalleS-oigerS

domingo, 7 de março de 2010

Ladrão



Um ladrão com arma
De grosso calibre,
À noite e sorrateiro,
Invadiu-me a casa.
Vasculhou-a toda,
Armários e gavetas
Tão impetuoso,
Hábil invasor,
Que até do cofre,
Atrás de um dos quadros,
Revelei-lhe o segredo.
E ereto ante a mim,
Pôs-me então na boca
A arma que tinha
Na mão empunhada.
E assim dominada,
Sem palavra alguma,
Deixei que invadisse
Outros interiores.
No fim, foi embora,
Largando-me ali
Estática e nua
Toda revirada,
Indenunciável,
E aguardando calada
Que então retornasse,
Acompanhado de outros,
Para novos delitos,
Cativa que sou
Agora de toda
A sua quadrilha,
Aprendizado do crime
Para também integrá-la
E do alheio roubar
Gozosos delíquios.

Felipe Mendonça -

Todos os direitos reservados.

sábado, 6 de março de 2010

Razaõ de ser

A poesia é meu grande rio interno e inteiro
Não causa-me transtorno
pois não discuto minha poesia-rio
Não avalio
Não submetu-a aos meus caprichos
Permaneço quieta ela transborda e flui
poeticamene brota na rede de minha razão de ser
É assim que me confesso


(Ivone Landim)

DOMINGO SEM CAFÉ OU BOLA DE FUTEBOL SEM REDES



DOMINGO SEM CAFÉ OU BOLA DE FUTEBOL SE REDES

Sei que tenho me perdido na prorrogação
Ou talvez meu domingo já não exista faz tempo
E não dei conta ainda que as luzes se apagaram
Quando eu estava dormindo longe do violão

Sei que não tenho olhado pela janela
As nuvens sendo levadas pelo vento da incerteza que norteia
Meus dias de domingo a sábado sem café na esquina
Sem palavras que poderiam indicar um caminho sem pranto

Acho que vou correr atrás da bola aos domingos pela manhã
Mesmo sabendo que não alcançarei as redes da vitória
Ou da esmola que venho buscando na banca de jornal
Que fica bem de frente da estrada que segue o rumo sem vida

Sempre vejo apenas os melhores momentos do jogo
Mas os gols que balançam as redes não são os mesmos gols
Que deveriam acontecer no dia a dia de quem se levanta
Para ir atrás do pão sem felicidade que alimenta nossas ilusões

Ou atrás da quentinha que é distribuída pelas almas sem almas
Que pensam apenas nos aplausos que vão receber quando mostrarem
As fotografias dos necessitados recebendo o prêmio que vai alimentar
Seu dia de descrença que passará sentado no paralelepípedo da vida

Bem sei que a noite vem me presentear com a mordaça da solidão
E ainda estarei sentindo o êxtase da fumaça do cigarro do cara do lado
Que ficou assistindo os melhores momentos como se fossem eternos
E se esqueceu que o pior está por vir com a velhice que por azar chegará

Autor: Arnoldo Pimentel

quinta-feira, 4 de março de 2010

Invertido

Que tal peixes voadores
Constelações marítimas
abastados os sonhadores
gananciosos como vítimas?

Que tal pólos quentes
trópicos glaciais
hipócritas impotentes
honrados ascensiais?

Que tal desertos floridos
florestas obscuras
sensatos preteridos
impulsivos de estruturas?

Que tal larvas no firmamento
asteróides vulcânicos
estrategistas sem discernimento
humildes titânicos?

Que tal um novo mundo
de humanos invertidos
com vistas no profundo
só ao amor convertidos?

Giano
Todos os direitos reservados.
O mar
mareia
mareja
os meus olhos...
de tanta
beleza?

Não!
É do sal
mesmo
que me
arde as
vistas!

Jorge Medeiros
Todos os direitos reservados

Único

Nenhum clarão e artifício pirotécnico
iluminam tanto nossas faces
quanto a ebulição intermitente
acesa no beijo, na navegação palmar
sobre o oceano epidérmico
e na penetração visceral do amor.

Sincero, sensorial
profundo e permanente.

Ofuscantes sorrisos
de nitroglicerina hormonal.

Fenômeno único
como único é o prazer de amar.

Giano
Todos os direitos reservados

Conecção

Conectar-me
Exigem-me
Com a internet
Com o novo
Com as tribos...

Minha conecção
É a ausência de tudo
É o trancafiar-me
Dentro de uma alma
Que não é minha.

Minhas conecções
São apenas
Conjecturas.

Jorge Medeiros
Todos os direitos reservados

quarta-feira, 3 de março de 2010

O herói e o piloto




Vasco da Gama
Sem nau capitânia,
Peregrino destes mares,
Te perdeste em Lituânia.

Vasco da Gama
Sem nau capitânia,
Peregrino destes mares
Te perdeste em Mauritânia.

Vasco da Gama
Sem nau capitânia,
Peregrino destes mares,
Te perdeste em tanta insânia.

Vasco da Gama
Sem nau capitânia,
Peregrinos destes mares,
Degredado pela infâmia.

Vasco da Gama,
Te esqueça da fama,
Peregrino destes mares
Naufragado dos azares.

Vasco da Gama,
Cadê tua chama,
Peregrino destes mares
Sem ninguém para velares?

Vasco da Gama
Sem nau capitânia,
Em estranha Lituânia
Há polaca que te inflama.

Vasco da Gama
Sem nau capitânia,
Em perdida Mauritânia
Há um porto que te chama.

Vasco da Gama
Sem nau capitânia,
Peregrino destes mares,
Vê se esquece a Lusitânia!
Vasco da Gama
Sem nau capitânia
Neste mundo de nevasca,
Só te resta mesmo o Alasca.

Vasco da Gama
Sem nau capitânia,
Entra agora em nau anônima
Que se esfuma momentânea.

Vasco da Gama,
Sem Ibn Majid,
Que seria de tua fama?
Que seria dos Lusíadas?

Vasco da Gama,
Sem Ibn Majid,
Que seria de tua gana
Em partir assim valido?

Vasco da Gama,
Sem Ibn Majid
A tornar o mar macio,
Conhecido e navegável!

Vasco da Gama,
Com Ibn Majid,
Deu à história de um império
Larga cópia e uma obra-prima.

Ibn Majid,
Sem Vasco da Gama,
Quase nada contaríamos
Pela história e pelo verso.

Ibn Majid
E Vasco da Gama,
Navegai! Ah, navegai!
Neste mar de tantos ais...

Entrai já em nau anônima
Que se esfuma momentânea,
Porque a história recomeça...
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

terça-feira, 2 de março de 2010

O mendigo que suicidou-se com um prato de comida


                    Com o rosto calado, ele vivia sua vida sem vida. Ausente no amor, ausente no tempo, e sempre, sempre presente na dor. Dor que se fazia carinhosa ao afagar seus cabelos negros tornado-os esbranquiçados. Dor que levava a noite, matava o dia e banhava o homem com a fria-ácida melancolia dos destroços de janeiro-dezembro.
                   ___ Ah, Luz! Oh, Luz! Onde estás? Por que partistes? Por que me deixastes aqui a morrer de amor?
                   Com as mãos calejadas e os pés vendendo feridas, ele sonhava com o tempo em que sonhava. Que poderia haver alegria nos cegos olhos paralíticos; na alma do louco que chora à seco; na voz do desafinado que canta os frutos de uma vida perdida, de uma vida não vivida.
                   ___ Ah, Luz! Oh, Luz! Onde estás? Por que partistes? Por que me deixastes aqui a morrer de amor?
                   O ser que rumina dores; pelo silêncio de sua voz feriu os tímpanos do marciano que se bronzeava no Alasca. Pela frieza de seu olhar fez chorar o galã da novela “das oito” fazendo-lhe morrer de desidratação.
E por seu desejo de amar
fez asa sua mão virar
partindo para um outro mundo,
mundo o qual era seu
por seu nome não estar.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Mito e história




O mytho é o nada que é tudo.
(Fernando Pessoa – Mensagem)

O mito é vivo e traz mistérios.
Em bela estância ele revive,
Se faz concreto e puro espírito
Que a nós se liga identitário.
Não há retórica que o exceda,
Pois se estetiza em bela heróida
Do grande bardo da nação
Que sabe a História reescrever.
E se dissessem: - Só de fábulas
É que teu canto se sustenta!
Retorquiria com firmeza:
- Nem só de fábula ou mentiras
É que se arranja a minha estrofe,
Mas desses fatos e pessoas,
Testemunhados pela História,
E que estetizo em pura idéia.
Por isso, digo que é mais belo
Ouvir história em canto e em verso
Do que por crônica ou compêndio,
Já que no início era o poeta
Quem memorava a todo o povo
Que do destino dos heróis
Se entende o fado coletivo,
A própria vida que se vive;
E, deste modo, em verso e ritmo,
Embalsamava ante os instintos
Do sage experto à plebe humilde
A azada história de uma gente,
O senso histórico da vida,
O presumido antes do verbo,
O raro aroma do que é mítico.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

PENÉLOPE



PENÉLOPE

Minha fidelidade abrandará os temores do meu coração
Os anos passados entre mares de águas desconhecidas
Serão lembranças espalhadas pelos moinhos da planície
Que fecundou a esperança nas minhas madrugadas áridas

Meu passado é passageiro na chuva miúda da ilusão
Prisioneira dos pássaros negros que me afundará no anoitecer
Em que tentarei escalar o amanhã que não existe
Nas cantigas de outono do caderno que esconde o beijo roubado na minha vastidão

Meu remorso é não ter partido para a floresta de diamantes
Quando o navio dos sonhos estava com as portas abertas
Então encontraria o impossível nas montanhas verdes
Que se apresentam como futuro cada dia mais distante

Seus olhos entristecidos refletem a imensidão do seu universo
Que só será habitado pela pureza de um amor eterno
E carente dos carinhos guardados no inverno de desesperança
Espero que o canto das sereias não a leve de encontro aos penhascos do desencanto

Sou prisioneiro dos dias que passarei no castelo de areia
Enquanto esperarei que regresse do inverno
Para sentir toda a devoção que tenho
Para alegrar os olhos tristes que o vento irá colorir

Autor: Arnoldo Pimentel

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Identidade

Se alguém perguntar
Quem eu sou
Diga que sou uma criatura quase humana
Algo entre religioso e monstruoso
Um simples moço.

Se alguém perguntar
Em que dia nasci
Diga que foi num dia
Em que Deus, muito estressado,
Com tanta coisa lhe enchendo o saco
Fez com que minha mãe
Bota-se pra fora
Algo que não fosse nem pergunta e nem resposta
Uma complicada incógnita.

Se alguém perguntar
Qual é a minha cor
Diga que é a do mundo inteiro.
Pintada por festas, sofrimentos de amor,
Muitas revelações e alguns segredos.

Se alguém perguntar
Qual é a minha
Curto carne, frango e sardinha
Ou qualquer outra coisa que esteja na panela.
Curto também pessoas
Muito além do que elas têm entre as pernas.

Se alguém perguntar
Onde moro
Diga que por aí
Chegando de repente
Sem hora pra partir.

(Marcio Rufino)
Todos os direitos reservados.


Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Casal





A Dani com amor.
O melhor que fazemos e pensamos
É o que podemos dar-nos, frágeis ramos
Em meio a tiros, becos e fuzis
Na cidade onde a vida é por um triz.

Ser e amar sobejados de reclamos
É um risco, mas aqui nos enleamos
E nos amamos loucos nos perfis
De rostos fractais, de chuva e giz.

Fingidas faces? Corpos encenados
Debaixo dos lençóis de linho e sangue,
Em meio à tanta gente morta e exangue?

É o que somos – atores enganados
Co’as máscaras partidas por cidade
Anônima que nosso quarto invade.
12.06.2009.
Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

NÃO DOEU



NÃO DOEU


Foste embora pensando que eu ia sofrer
Eu mesmo achei que não iria sobreviver
Mas, agora que já foste, trate de me esquecer

Num dia disse: Te amo
No outro disse: Foi engano
Na verdade enganado ficou você

Não perdi você, você me perdeu
Achava que era amor, engano seu
Não pode ser amor, uma perda que não doeu

Autora: Silviah

SEM LEMBRANÇAS BOAS NA MOCHILA



SEM LEMBRANÇAS BOAS NA MOCHILA

Vou partir sem olhar pra trás
Esquecer todo o bem que foi feito
Porque os ladrilhos quebrados
Sempre cortam mais fundo a carne crua

As lembranças boas não servem na estrada
São apenas ítens que farão a mochila pesar mais
Enquanto a sede agrava a solidão que deveria morrer logo
Para não deixar vestígios na poeira

Talvez eu não tenha mesmo direito de viver na lua
Tenho perdido água durante a noite sem desejo de viver
Meu coração já não sente o bater da aurora
Bem sei que o dia não amanhece no meu bosque

Sou filhote de lobo faminto sem presa para caçar
Sem vírgula para separar as frases sem sentido
Um grito solto no deserto escuro
Tentando ser ouvido nos muros do paraíso

Meu paraíso naufragou numa noite sem chuva
Nem meus braços puderam alcançar uma ilha
Vou padecer sem lembranças boas na mochila
As lembranças saciavam minha sede e escorreram para o chão seco

Meu corpo deixará de ser meu abrigo
Vou vagar no deserto longe do sol
Serei o ato descartado no final da peça
Palco vazio que ficou sem vida

Autor: Arnoldo Pimentel

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Jardim

Neste jardim em que há muito
Não cultivo, passo ou cuido,
Quero plantar, pôr botas
E mexer na terra,
Lançar fora
Seixos e abrolhos.
Nele quero labutar,
Reconstruir minha sebe
Ver minha gota de bile
Irrigando a terra.
Quero regá-lo pela manhã
E segá-lo com afã.
Quero levantar bem cedo,
Preparar meu espírito,
Pegar na pá e no ancinho
Cuidar do solo maninho
E não deixar que o sono
Prolongue o verão e o estio
Para despertar minha esposa
E dar bom exemplo ao meu filho.
Não quero ver de novo
O trabalho perdido,
O mato crescendo
E o espírito alquebrado
Sem saber recomeçar.
Assim quando a primavera chegar
E eu já estiver morto,
Depositem no meu túmulo
Tanta rosa e gente vingadas
Que um dia disseram fanadas.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

Jardim

Neste jardim em que há muito
Não cultivo, não passo ou cuido,
Quero plantar, pôr botas
E mexer na terra, lançar fora
Seixos e abrolhos.
Nele quero voltar a labutar,
A amar e a cantar,
Ver minha gota de bile
Irrigando a terra.
Quero regá-lo pela manhã,
Embalá-lo no berço do solo maninho
E contemplá-lo do meu alpendre.
Quero levantar bem cedo,
Preparar meu espírito,
Pegar na pá e no ancinho
E não deixar que o sono
Se prolongue
Para despertar minha esposa
E dar bom exemplo ao meu filho.
Não quero ver outra vez
O trabalho perdido,
O mato crescendo
E o espírito alquebrado
Sem saber como recomeçar.
Assim quando a primavera chegar
E eu já estiver morto,
Depositem no meu túmulo
Tanta rosa e gente vingadas
Que um dia disseram fanadas.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

POESIA SEM LADOS



POESIA SEM LADOS

Minha poesia se desencantou
Como o mamão maduro que caiu
No chão molhado pela chuva ácida
Maduro
E sem futuro

Minha poesia não é mais encanto
É o pranto
Que foi iluminado na paisagem sem lados
Sem o azul céu
Sem gostas de mel

Minha poesia voltou para o gueto
Onde viu os pombos desalinhados
Procurando caminhar descalços
Sem saber escrever um soneto

Minha poesia morreu
No meio da vastidão sem palco
Sem campo para pousar
Sem corda para se enforcar

Autor: Arnoldo Pimentel

domingo, 14 de fevereiro de 2010

MINHA BANDEIRA

Minha bandeira tem verde
Que representa toda a mata
Amarelo que representa o ouro
Branco que representa a paz
Azul que representa as águas
E as estrelas que representam
As malas brancas indo viajar
Seja para a Suiça ou outro lugar

Minha bandeira é a mais bela
Mas o verde foi queimado
O amarelo foi roubado
O azul está imundo
E o branco ensangüentado

Minha bandeira é a mais bela
Mas está em meio mastro
Em algum lugar
Pelas mortes que nós
Não conseguimos evitar

A bandeira que é a mais bela
Representa todo o povo
Povo brasileiro, povo orgulhoso
Representa tua esperança
Que morre, no ato de votar

Mas sei comigo mesmo
Que minha bandeira
O povo quem irá costurar

Autor: Romulo Pimentel

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

POESIA

já imaginou se
um porco construísse uma igreja
já imaginou se
um urubu construísse um avião
já imaginou se
um cachorro construísse um poste
já imaginou se
uma tartaruga construísse um edifício
já imaginou se
um ben-te-vi construísse uma orquestra
já imaginou se
um galo construísse um navio
já imaginou se
um mosquito construísse um hospital
já imaginou se
uma formiga construísse uma casa

já imaginou se
uma coruja construísse uma noite
já imaginou se
um escorpião construísse um hospício
já imaginou se
se um boi construísse um grito
já imaginou se
um peixe construísse uma fábrica de águas
já imaginou se
um cavalo construísse uma oficina
de conserto de asas

incrível mas tudo isso e mais é possível
basta você se aproximar da poesia


Rubervam Du Nascimento

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Fuga

Ah, eu queria apenas
Uma exígua porção
Da rara antimatéria
Capaz de devastar
Todo bairro onde moro,
E a excelsa espaçonave
Lançá-la nos confins
Do espaço sideral.

Partículas tão raras
Presentes nos primórdios
Da nossa formação,
Imagem especular
Do que não nos tornamos,
Matéria negativa
Que enfim se consumiu
Em luz e em energia.

Ah, eu queria apenas
Atingir os limites
Deste imenso universo
Finito, mas sem margens,
Contemplar enlevado
A máquina do mundo,
A primordialidade
De seu funcionamento.

Ah, eu queria apenas
Ver todas as estrelas
Que nascem lá nas Nuvens
De Magalhães, pilares
De outros mundos e sóis.
Contemplar as moléculas
Chocando-se entre si
Em espirais sem fim.

Canópus e Capela,
Vega, Rigel e Prócion,
Poláris e Altair,
Aldebaran e Pólux,
Betelgeuse, Castor,
Sírius e Belatrix,
Dossel de astros que apontam
De Cão a Ursa Menor.

Ver todas as estrelas
Verrumando nos céus
Noturnos das cidades
Que também se iluminam
De luzes e néon
Nas ruas e avenidas
Em que os homens se perdem
Feito estrelas cadentes.

A mim basta só isso.
Da deusa não preciso,
Nem de revelação
Na estrada pedregosa
Daquele ancião de Minas.
A mim basta só isso:
A energia que possa
Lançar-me neste espaço.

Porque a realidade
Não é um teorema,
Nem clara se desvenda
Em rápido relance,
Nem a reinos nos chama,
Porque já estamos nela
Sem sequer se importar
Se a queremos ou não.

Oh, este mundo! Sim
É possível medi-lo,
Entender seus princípios,
A origem e o destino
Do que nos concebeu:
A primeva matéria,
Ínfima e subatômica –
Os quarks e antiquarks,

Matéria e antimatéria
No espaço colidindo,
Gerando mais partículas
No caos das incertezas
Que fez as quatro forças
Então se separarem
E enfim impulsionarem
A máquina do mundo.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Lágrimas

Estás sentado calado e sem despistar o choro, suas lágrimas caem ao chão.
Estás sentado nesta pedra que te faz viajar ao tempo sem rumo e sem volta.
Estás sofrendo de uma forma imunda e sem razão.
Na beira deste rio movimentado com o seu choro.
Escondido entre as árvores que balançam com sua dor.

Seu olhar frio e violento pelo brilho
Me faz temer sua nova versão de seu novo ser.
Felicidade por um fio e os dias contados daquele menino
O que eu posso fazer?
Cercado com carinho estirado em seu silêncio
Amargurastes neste vazio.
Quê será de você?

Não queres comer
Não queres beber
Não queres dormi
Que serás de ti, meu caro amigo?
Serás capataz de sua própria tristeza?
Me deixas acrescentar a felicidade neste coração.
Levarei para caminhos que possa sentir esperança.
E rejuvenescer para o novo mundo que estás em sua espera.
Pois só há razão em viver se houver esperança de crescer,
Através de cada lágrima.

- Cristiano Soares Moura

sábado, 6 de fevereiro de 2010

ENTARDECER



ENTARDECER

Os ventos já não balançam as flores
Já não sinto o toque das pontas do mar
Estou sentindo meu entardecer ancorar
Nas bordas do porto exausto de tanto esperar

Meu mergulho lívido já não é profundo como quando buscava tesouros
E as sombras do fundo do mar norteiam a superfície com pouco sol
Que está escondido entre as nuvens partidas que se assemelham com o fim da lua
Desnuda pelos olhares de marte

O horizonte já perdeu o tom avermelhado que o diferencia da manhã
Onde os ventos eram fortes e os moinhos viviam a plenitude
Nas planícies repletas de amores furtivos e vazios que transbordavam o coração
Nos celeiros escuros e cobertos pelos olhares inocentes que vinham de longe

Os ventos já não movem meus olhos na esperança de vislumbrar
A fada que iluminava meus dias com sua sedução tímida
E mãos de seda que passeavam pelo corpo sem descaminhos
Descobrindo o amor na sensualidade exprimida entre beijos atrás da estrela cadente

O anoitecer é a desilusão do dia
Tudo que era claro fez-se escuridão
Parece que a vida vai deixando de existir aos poucos, lentamente
Enquanto o sol se esconde entre nossos sonhos

Já não sinto os ventos no meu rosto entristecido pela palidez
Minha sedução virou lembrança entre as paredes do meu oceano
Meu dia está enfraquecendo enquanto o entardecer toma forma
A noite vai cobrir meu corpo e dormirei o sono sereno da quietude sem fim

Autor: Arnoldo Pimentel

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Deuses

Se existe um deus
Que se interessa
Por tanta gente,
De certo é o sol

Com seu calor,
Feixe de fótons
De labaredas
Por vasto céu.

Se existe um deus
Ínclito e forte,
Só pode ser
Alfa Centauro,

A Betelgeuse,
Gigante prestes
A desabar
Sobre si mesma,

Cisne X-1
Ou os pulsáres
Como faróis
A irradiarem

Raios letais
Por todo o espaço;
Ou os quasáres
A propagarem

Luz e matéria
Pelo infinito;
Ou os severos
Buracos negros

A devorarem
A própria luz
Que me ilumina
Do firmamento.

Se existe um deus,
Só pode ser
As centilhões
De estrelas vivas

Que vão morrer
Numa explosão
De gás e pó,
Matéria à vida

À formação
De novos sóis
E novas terras,
Ao chão e ao berço

De mais espécies
Que indagarão
Se não surgimos
Do pó de estrelas.

Deuses que não
Protegem, cuidam,
Que não se alegram
Com quem formaram,

Que não te julgam
Por não ter fé,
Tão pouco amor
A Deus e ao próximo,

Porque são gases,
São reações
Que geram luz,
Toda energia

Que faz do solo
Nascer o trigo
E o pasto ao gado,
Enquanto rezas,

Enquanto pedes
Sem perceberes
Que a vastidão
Não tem memória

Não tem vontade,
Sequer um plano
Diverso disto:
Do que formou

E destruiu
Pela entropia,
Por tantas vezes,
Teu firmamento.

Por isso, eu peço,
Aos deuses, rogo:
- Vem, contra mim,
Ó imensa Andrômeda,

Chocar-se toda
Devoradora
E canibal
Para formar

Do caos, a lei,
Novas galáxias
E aglomerados
De leite e luz.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Faltou luz

Faltou luz na rua.
Estou na escuridão.
Estou nas trevas.
Estou no vácuo.
Refletindo o que me resta.
Que uma só estrela
não ilumina toda a terra.
Ouço vozes.
Vejo vultos.
Sinto pessoas.
Reclamando
cantando
conversando
xingando.
Busco um sentido.
Procuro um sentimento.
Viro um nó cego
na garganta do mundo
que me move parado no breu
e se divide
entre o medo e a volúpia
o receio e a malícia
o pavor e a luxúria
o terror e a cobiça.
O quero eu desse lugar?
O que quero eu de mim?
Porque permito que o que eu não quero
venha me humilhar
e rebaixar toda a idéia e vida
parida em fim?
Cada coisa tem seu tempo
firme ou nublado
limpo ou nuveado.
Não me preocupo com o que já era para ter chegado
mas com o que está para chegar.
No meio do nada
recobro um verde-esperança
vindo de um sonho azul-céu
trazendo a luz que volta, mansa-branca
dentro dos seus olhos castanhos de mel.

(Marcio Rufino)

domingo, 31 de janeiro de 2010

Poesia

Hoje te vi!

Passavas pela calçada... ao longo!

Pensei em chamá-la entre tantos,

o ímpeto forte do pensamento ecoou abafado

enquanto o olhar seguia-te mudo

Rompi com volúpia o branco do papel,

procurando descortinar a mensagem

por detrás das palavras escritas

e do desejo não realizado, naquele instante,

de gritar o teu nome em público

e depois desmaiar.


Henrique Souza

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

CÉU AZUL

A cidade é a mesma
A cachoeira a mesma
Desfigurada por mãos inocentes
Cortadas e ausentes

Olhares esquecidos
Despidos
Desiludidos
Pelo fim da puberdade

Céu azul
Mergulho lívido e fundo
Em busca do tesouro perdido
Com o fim da idade

Carícia trêmula
Na carne ansiosa
Por toques dos ventos
Da saudade.

(Arnoldo Pimentel)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Teu cheiro

Teu cheiro
De suor curtido, dormido,
De sol a pino sobre andaimes,
Escadas, bueiros
Brita e betume.

Teu cheiro –
De quem sua de frio,
De medo, de náusea;
De quem transpira de gozo
De quatro sobre corpos
E camas,
O das putas e meninos
No batente de seus leitos,
Suando de medo, de frio.

Teu cheiro
De pressa sob o sol,
De apitos aflitos,
De corpos e gritos
Suarentos, esforçados
Por fito do qual se ignora
O motivo: puro rito
A ser seguido
Nos vigores do dia.

Teu cheiro
Desaba sobre mim
Em torrente,
Viscosa corredeira
De um vau sem fim,
Enterra-se fundo
Em minhas narinas
Por uma extensa avenida
Trescalante de rastos
E fétidos ares.

Teu cheiro:
Odor citadino
Do estranho que passa
Nos misteres diários,
Em pegajosos coletivos
Transpirando fadigas
E vasilhas vazias
Dos almoços e bares.

Teu cheiro
Pendurado nas marquises
Dos homens de macacão
E boné,
Sujos de tinta e estuque –
Como fedem sorridentes
Sob a torridez tropical!

Teu cheiro
Contra os perfumes
De meio ambiente:
Rosa, lavanda, baunilha,
Sachês aromáticos
Difundindo
Climas artificiais.

Teu cheiro:
Odor de cerrado ambiente
E sudorífera seiva –
Essência das horas
E trabalho
Que fica no assento,
Na roupa, no braço
Querendo ganhar os espaços,
A rua, o tráfego, intruso,
Feito um teto de febre e laje
Sobre exausta cidade.

Teu cheiro
Azáfama, faina e labuta
Epidérmica,
Sobre a musculatura do dia
Que perdura
Em absconsas regiões
De bílis, de afeto e quimera,
Mesmo após o banho
E uma noite sem sonhos.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

sábado, 23 de janeiro de 2010

PÉROLA DE ROSAS

Se abre como pérola
Como pérola perfumada
Seduz como seios
Sonhados no frio da madrugada

Inspira como os olhos
Os olhos da minha amada
No meio do jardim florido
Com flores estreladas

Ilude como o coração
Da mulher apaixonada
Que deseja como uma menina
Ser eternamente amada

(Arnoldo Pimentel)

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Translação

Do Amor vou carregar a eterna esperança

De que cada flexão verbal ouvida

Um dia ganhe forma em minha vida

Para que nenhuma das vezes que acreditei no que foi dito

Tenha sido uma mera expectativa em vão...

E desse sonho vou guardar cada papel escrito,

Cada frase sublinhada nos meus livros

Por entender que há de chegar um dia em que elas realmente farão algum sentido

No abismo que se estende entre os cotidianos e as coisas do coração...

E por ser assim, hei de relevar cada passo dado ao revés

Todos os calos que há nas solas dos meus pés,

Já que andar é a metáfora da evolução experimentada

E o destino é o trajeto que te leva de volta para casa

Seguindo o curso normal das voltas que a vida dá...

Pois um dia alguém ousou dizer que amava,

Mas te deixou...

Para que um dia alguém viesse e não te dissese nada...

E nesse silêncio encontrarias o real significado daquilo que buscavas entender

Pois o amor não é algo que se pode medir em um punhado de palvras

Pois não há palavra que se atreva a explicar tudo aquilo que o amor pode ser...


Maurício MT

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O Amor Anormal

Sentir o proibido não é nada
Pior é aceitar o proibido
Num rumo qualquer de estrada
Ou na dolorosa manha da libido.

O outro não quer minha atormentada insônia
Muito menos que eu mude meus misterioso hábito
Só quer sentir o sufoco e o cheiro de sua agonia
Dentro do denso aroma que sai de dentro do meu hálito.

Não é nada atender o desejo do outro
Pior é fazer com que esse desejo seja também seu
E ver dentro da lama do outro o ouro
Acreditando que o calvário é um doce himeneu.

Entregar-se à perversão passiva
É muito difícil como cômoda intolerância
Que revertida em condição da vida
Brota em nosso peito uma vacância.

Da janela da minha casa
O vento me beija numa linha retílinia
Mas vejam: estou sem graça.
Lembrei-me que esta casa não é minha.

Olhe só toda a beleza
Que a morte desta tarde nos oferece
E preste atenção em toda destreza
De me encantar com seus olhos de quem não me conhece.

O futuro me assusta muito
Com a ajuda do tempo me aride
Com ameaças de sérios infortúnios
Onde o chão sob meus pés resiste.

O outro também que me dominar
Como o futuro e o tempo ele também é assim
Com frieza e crueldade quer me usar
Sem saber que também será vilipendido por mim.

Com seu cinismo ele comanda a brisa louca
Transforma nosso encontro num fato casual
Ele quer sentir o odor de seu sêmen em minha boca
Mas isso são sonhos imundos que povoam minha cama de casal.

Em seu feitiço ele busca uma corda de banjo
Em seu silêncio ele busca um bocal de clarineta
Pares de asas vermelhas de anjo
Pares de chifres brancos de capeta.

O outro sou eu num idílio híbrido
o outro somos nós num dilacerado momento.
Que desenha o amor anormal e ilícito
Num papel invisível rasgado pelo vento.

Esse amor que por se ousar existir
Subvive a margem do planeta
Prestes a se deixar cair
E ser amparado por um rabo de cometa.

Não sei o porquê de todo esse desprezo
Se tudo que aí está é amor
Queria falar de todo o meu desejo
Sem causar deboche nem horror.

Pois o outro me reconhece como um mero conhecido
Me cumprimenta como um qualquer que por acso me vê
Conversa comigo como um velho e intímo amigo
E pede meus carinhos com a carência e dengo de um bebê.

Dedico esse texto a memória de Clarice
E continuo sufocando a minha agressividade
Pois a anormalidade me disse
Que o amor e a arte é que salvarão a humanidade.

Marcio Rufino
Todos os direitos reservados

domingo, 17 de janeiro de 2010

Tipos

I

Quando algo se parte entre nós,
Bem sei.
As marés em ti convulsionam-se
Teus continentes estremecem,
Obrigando a imensa
População de teus sentimentos
A fugirem desesperados
Para todos os recantos do teu corpo.
É então que,
Como se algo de ti perdesses,
Como se algo em ti partisse,
Precipitando-se escada abaixo,
Choras francamente.
As lágrimas rolam simultâneas,
Lado a lado, de teus olhos,
A lembrar o que éramos,
Nas faces límpidas de um rosto.
Quando algo em ti se parte,
De imediato, sei,
Pois todo teu corpo delata-te,
Fica qual pregoeiro
Anunciando tua viuvez.


II

Quando algo em mim se parte,
Não há aparência
De nenhum mar que se revolta.
A rocha cede apenas
Um pouco mais de seu material,
Ante a outra onda procurando
Praia serena para espumar-se,
E a velhice reduz-me a sombra
Sob o sol inexorável dos dias.
Quando algo em mim se parte,
Apenas sentes,
Sonhas o que a consciência
Sussurrou-te antes do sono:
Silêncio de abismo,
Filosofia sem objeto,
Uma árvore desfolhando-se em prados desconhecidos.


III

Quando enfim o que pensamos em nós
Ser ouro e diamante partir-se e partir,
Talvez tu, de tanto expor-me
Os restos daquela que conheci,
Sejas outra, nova,
Desconhecida pisando nua
Sobre cacos do que sonhara para si,
Sem nada mais sentir,
Deixando-me apenas
Pingos de sangue sobre a face
Feita em incontáveis pedaços.

Inês

Ó Inês, a morta,
Em mim tu vives
Febril e plena.

A sempre-viva,
A morta-viva
Tu és um entre.

Tu és um ventre
Materno e triste
Que quer parir-me.

Tu és lugar
Sem locus certo:
Entrelugar...

Pra sempre vives
Em quem se move
Febril, partido –

Inês de Castro,
Rainha póstuma,
Mesquinha nunca!

Inês é morta!
Mas não aqui
Em peito frágil.

Inês é viva!
Em quem sem fé,
Sem fé e amor

Só traz grilhões,
Um corpo asceta
Que se amesquinha,

Que espada alguma
Jamais sentiu
Na tenra carne,

Um corpo asséptico,
Que em vida ainda
É quase morto.

Inês Rainha,
Com quem caminha
Tão só, perdido,

Tu vais cantante
Tu vais cortante,
Mulher tão trágica

Em mim, o mudo
De corpo ocluso
Tão pouco lido;

Em mim, sem canto,
O quase morto
De tumba em tumba.

Entanto, tu
Embora morta
Na escrita vives.

Inês tão viva,
Malgrado morta,
Me faz teu Pedro!

Defunta viva,
Tu te coroas
Na minha vida

De vivo morto
Que quer ser pleno
Ainda vivo.

Desespero

O desespero de vidas vazias.
Quanto tempo se passou
Até que chegássemos aqui?
Todos os caminhos
Tornaram-se terríveis,
Monstruosas quimeras
Prontas a nos devorar
Com a boca desdentada de fábulas.

O desespero de vidas vazias.
Alguém está sempre
Prestes a cair, a tombar
Num asfalto em chamas
Após um dia tórrido, hórrido,
Repletos de cacos desesperados,
De homens já no bagaço
Na volta para casa.

O desespero de vidas vazias,
O alarido das discussões
Ao telefone, a verborragia
Muda em frente ao pc,
As caras não se transmudam
Iluminadas por tantas luzes?
O corpo quer transigir,
Mas só encontra o que secreta.

O desespero, os morteiros,
O corpo é pequeno demais,
Mas teima em sentir,
Para logo calar, e como cala
Todo um país em chamas,
O que desejou tanto sentir,
Porque agora só há a profusão,
Profissão e tecnicismo.

Olha as cartas, os e-mails,
Uns queimamos, outros
Apagamos com um simples
Toque, tudo tão fácil
Como lavar as mãos
Antes da refeição,
Como lavrar a vida
Repartida e burocrática.

Onde foi que nos perdemos?
O desespero de vidas vazias
Com água encanada,
Com carro na garagem,
Com bate-papo na internet,
Com tv a cabo e comprimidos,
Num labirinto secular
De programas e utensílios.

Toda a ameaça para fora
Dos muros da cidade,
Mas não há muros!
Para fora dos portões,
Que hoje são só um monumento.
Para fora de nós mesmos,
Mas não há mais nenhuma alcatéia
E é narciso quem nos mata.

Se alguns atiram e matam,
Nós calamos, os olhos
Se fecham para o sono dos justos,
Mas todos delinqüimos
E acusam-nos disso padres e profetas.
Ainda há beleza em salvar-se
Num mundo sem salvação?
Ainda há beleza? Deleite?

O desespero, e ele é mudo!
As fábricas funcionam, regulares,
Como os maridos em suas camas.
Os prostíbulos apinhados
Funcionam regulares
Como as missas nos altares.
A tarde se oferece sangüínea,
Venenosa e sem alarde...

O desespero, e ele é mudo!
Fauces abertas sobre todos,
A verdade nos calcina!
E a mentira chega lívida em aspirinas.
As hipóteses trêmulas naufragam
Sob o peso incomensurável do silêncio
E da inorgânica acidez da chuva
Desabando intransigente sobre a terra.

O desespero, e ele é mudo!
O destino das mãos se conflagra.
Na esteira das cifras
Os olhos se cifram diante
De apólices, títulos e debêntures
E o resto do corpo não decifra
O que em si segue inominado,
Inominável sob o peso do mercado.

O desespero de que tudo já foi
E não há nada mais a dizer.
O desespero de que não aprendemos,
Que desaprendemos e que queima
Inutilmente em nosso peito
Toda a biblioteca de Alexandria.
O ancião morto me disse:
“Os homens se matam feito percevejos.”

Mas eu calei, mas eu sangrei
Vendo aquela flor de asfalto
Irrompendo-me os nervos e os versos.
O desespero me silenciou,
Depurou-me o próprio silêncio,
Enquanto meu filho vai nascer
Nesta cidade de bruxas e elefantes,
O filho, o filho que vou ter, infante...

O desespero, e ele é mudo!
Tantas vozes e nenhuma
É nossa, a cidade nos abafa
Com alarido e promessa de prazer.
E sob dióxida atmosfera,
Nos quedamos sem saber
Que toda a estrutura provém
Da agonia dos céus de outrora.

Felipe Mendonça -
Todos os direitos reservados.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Choquei!...
Sem cor nenhuma
na palidez de um momento.

Não sei dizer se foi cometa
um caminhão, um bongue 747...
foi certeiro
como um toque
no pára-choque
atroplelou minha razão
não sei o que dizer
se sigo ou paro
me diga!
Não! Não!...
me ame...
mesmo que por telefone
mesmo que de mentirinha.

Jorge Mediros (5-12-09)

Soterrado

A fúria do mundo explode diante de mim. É duro ver a terra deixar de ser a mãe conformada, resignada; e passar a ser a fêmea irada, revoltada em sua razão. Puta contestadora, indgnada a se rebelar, a esbravejar contra a exploração abusiva de seu corpo. E nós não passamos de vírus, de bactérias amargando sua auto-defesa.

É bom se sentir sozinho na Baixada Fluminense, pois assim quando ela estiver submergida sob as águas das enchentes - Atlântica contemporaneizada entre o teatro do absurdo e o humor negro - o controle de mim mesmo que implica na cruel sensação de não ter feito o suficiente, de não ter amado o suficiente vai doer menos. Assim como vai doer menos a descoberta de que não se é parte do mundo e sim o próprio mundo.

Os livros soterram palavras, pensamentos e sentimentos, mas a natureza soterra pessoas e livros. As casas viram capas de livros semi-abertos sobre o chão, desabados sobre histórias inacabadas; tramas não concluídas; personagens que não se definiram.

Quantas vezes fiz amor com meu travesseiro para calar o faminto felino predador que tentava sair de dentro do meu coração-jaula e devorar sua petitosa presa sobre as poças d'água, sobre os pântanos, sob a chuva. Quantas vezes violentei meu travesseiro para no fim acreditar que era um passarinho a se equilibrar sobre o mais leve graveto, na mais alta abóbada de uma gigantesca árvore qualquer na esperança de poder presenciar melhor a promiscuidade dos relâmpagos e das trovoadas. Tudo isso antes das catástrofes fugirem das telonas de cinema norte-americano e me ameaçarem. Mas agora lembro que não é a todos que meus pensamentos e sentimentos interessam.

Os morros-bibliotecas-encostas desabam sobre casas-livros-enciclopédias onde vivem pessoas-sentimentos-pensamentos-idéias.

Marcio Rufino
Todos os direitos reservados
Acesas estão todas
as lamparinas...
lógico que não são
as do juízo
o que acendeu
em mim
não foi a lenha
nem a brasa
foi fogueira certeira
no hímem
de minha
razão.

Jorge medeiros (5-12-09)

Vi

No início de tudo
vi céu e mundo
só não vi o teu olhar
vi os meses passarem
e esse encontrar.

Vi meu coração ascender
vi este se apaixonar por você
Mas vi meu coração chorar
só querendo te amar.

Vi meu coração leviano
cair em prantos
por não poder te amar.
Vi o que vivi.

(Romulo Pimentel)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Espera não é meu estilo
mordo os lábios,
pisco os olhos,
remexo o quadril,
nada me escorre
pelas mãos.

Em novembro
num café na Colombo
embriagou-me
as vias todas
da vida

Disse adeus
ao isto ou aquilo

Não quero
saber de anões
nem os de jardim
nem o tal plutão...
sou de Júpiter

Dor é um momento
sublime
no vermelho
dos seus lábios
que mordem,
esfolam
meus mamilos
úmidos.

Jorge medeiros (5-12-09)

O Morro, a Igreja e as Crianças


Era como se fosse uma miragem
Era como se fosse além da paisagem
O enorme morro verdejante
Que ficava na frente da igreja delirante
Crianças produziam cambalhotas
Em desesperadas e dionisíacas galhofas.
O sol escondia a cara atrás da nuvem preta.
Depois a mostrava por baixo da nuvem fazendo careta.
Era como num filme de faroeste.
A gente chegava numa romaria
Numa viva imagem de tela campestre
Quando começava a adoecer o dia.
Os meninos ansiosos sufocavam o grilo
Na mesma mão que perseguia a borboleta.
Os olhos avistavam a enorme cruz
Que abrigava o pombo negro
Que descansava impávido em cima da igreja.
Mas as cambalhotas, as gritarias, as correrias,
O futebol, as bagunças
Não se podia pisar no capim escandalosamente verde
Apesar de a grama querer ser amada pelos pés nus das crianças
E uma menina comia assaí como se fosse sorvete.
O urubu dançava no ar seu vôo solo
Profetizando, encenando e anunciando intensa chuva
Algo em minha natureza pedia colo.
Outra menina andava pra traz por todo o quarteirão da rua.
O urubu
O ourobú
O ouro burro que nascia das palavras do garoto
Que insistia em pular com um só pé
Depois lançava escandalosos arrotos
Por cima da oferenda de candomblé
A oferenda servida no chão da esquina
O banquete exposto no chão da encruzilhada
É a revelação da multiplicidade divina
De que Deus não diversifica só as massas.
O sonho se estabelece no agora
De um instante que brincava com seu centro
A menina me pede pra brincar lá fora
E eu digo à ela que lá fora é aqui dentro.


(Marcio Rufino)

Todos os direitos reservados

Paixão

Não sei nada de você
Por que veio
que estradas...
Seguirei seus atalhos?
ou seus trilhos?

Não sei mais nada

Que passos seguir?
que traços?
que tropas?

Preciso saber de algo?...

Me mostre o caminho
um atalho
não me negue o trânsito
que imagino fazer
por sua pele,
por seus fios...

O que me cabe?
o que fica?
pra onde vai?

Ah!... Não sei mais nada!

Me leve... me deixe... leve...

Jorge medeiros (5-12-09)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Poema Coletivo

Caminho e encontro
na distância incerta
As marcas eternas
da minha espera
Estão latentes a tua espera.
Sem olhar o frio que vem
Através da poeira da estrada deserta
Em rítmo lento e frenético
Ainda que o meu corpo refreie na repulsa
Vai ficar para os homens a carapuça
Dos sentimentos dos homens, mulheres incertos
Penso inusitado onde vim parar
Para onde vou e de onde vim
Não importa, mas o importante
É que estou aqui!
Meu coração equilibrante flutua sobre cores alegres
e ainda assim não quero disfarçar o que sinto.
No brilho dos seus olhos sacio a sede que brota em meu querer
e ainda assim não quero disfarçar o que sinto por você...
Assim meio brilho, meio fosco
Espalho minha semelhança
Se eu morrer amanhã
nada ficaria
Apenas das mãos de vocês
o Pó de Poesia.

(Ivone Landim, Sergio Salles-Oigers, Marcio Rufino, Iraci Jovanholi, Arnoldo Pimentel, Vicente Freire, Davi das Virgens Bragança, Ramide Beneret e Dida Nascimento)


Na noite de sábado do dia 19/12/2009 o Pó de Poesia teve a honra de reunir alguns amigos poetas no centro cultural Donana para uma poética confraternização de fim de ano. Como não poderia deixar de ser, rolou uma prazeroza roda de leitura que varou noite adentro. O poema coletivo acima é fruto deste antológico, inesquecível e agradável encontro.

O Pó de Poesia deseja a nossos leitores um Feliz 2010 e agradece as visitas, a amizade e o apoio, encerrando aqui suas atividades do ano de 2009. Saudações!!!


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Procissão

Solo
Sentado no meu pano aqui no chão enxergo o passo deste povo caminhar rumo ao tempo, procissão vai se passando.

Coro
Vai passando um a um...
Vai passando um a um...

Solo
Nos tempos mais remotos que se perdem na História de um planeta habitado por humanos está passando!

Coro
Está passando um a um...
Está passando um a um...

Solo
Em tempos mais antigos, os hebreus já escreviam as contagens, os astecas, os maias que sumiam.
Sopra o vento, espalha as cinzas vulcões adormecidos pelo tempo. É a terra que girava Galileu já me dizia.

Coro
Está passando um a um...
Está passando um a um...
Está passando homem a homem.

Solo
Sentado no meu pano aqui no chão enxergo o passo deste povo, caminhar rumo ao tempo.

(Ramide Beneret)


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O Cravo Nu


Por que tua flor rebelde
Insiste em desabrochar na minha frente?
Acariciarei-te. Oh, flor
Para te deleitares com meus mimos
Lamberei tuas pétalas
Apertarei os teus espinhos
Eu ousado zangão
Beberei teu doce-amargo néctar
E te caberei inteira dentro de mim
Até morreres sufocada
Com o calor do meu desejo
Para que assim os campos
Nos libertem e nos mostrem
A verdadeira face da vida
Pois tudo aquilo que a princípio
Não se identifica, com o tempo
Vai se deixando revelar aos poucos
Mesmo que involuntariamente.

(Marcio Rufino)

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Diante de muitos dogmas compreendidos por minha limitada capacidade humana, já enfiei meu nariz sintéticas e vãs filosofias que me levaram a lugar algum.

Já fui poeira dispersa pelo vento...

Hoje sou o pó condensado em alegria e sofrimento.

Mas não o pó vil que passa frio pela laringe e invade o cérebro, o pó da violência que corroi e elimina.

O pó vulgar que me ouvindo falar, te fez lembrar.

O que se fantasia com brilho e traz após sí o julgo da escravidão.

Falo com tesão! De um pó diferente, de uma onda mais pura.

Nem tudo é cocaína. As pessoas também ficam resfriadas.

Vou continuar respirando, metendo a napa, cheirando, indo a vera nesse pó...

De poesia.

(Ramide Beneret)

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O Homem-Peixe

Pulou para fora do aquário
Rastejou-se no carpete
Procurou um mar imaginário
Sem que ninguém soubesse.

Rolou da escada
Querendo alcançar a rua
Chegou até a escada
Saiu embaixo da chuva.

Seguiu pegadas
Deixou vestígios
Descamou-se em estradas
De delírio.

Atravessou pistas
Chafurdou na lama
Prejudicou as vistas
Machucou as barbatanas.

Mergulhou em poças
Refugiou-se no cais do porto
Esbarrou em louças
Sem nenhum conforto.

Buscou um barraco
Um pedaço de vitirne
Uma peça de teatro
Um roteiro de filme.

Um conto
Uma canção
Ficou sem ponto
Sem noção.

Nada encontrou
Nem mesmo um tema
Só se encaixou
Neste poema.

(Marcio Rufino)


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sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Flores

flor da pele

flor da vida

flor de lótus

flor de lis

flores todas

não me levem

ao portal

da morte

quero os umbrais

dos templos

dos desejos

do almiscar

da menina

da esquina

Jorge Medeiros (05-12-09)




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Baleiro na CD

Só o Baleiro

que diz que me ama

na insistência

do replay do cd

a tocar pra me animar...

continuo solitário,

não como um paulistano

mas como um carioca

no fim de campeonato

torcendo pro flu

ou pro bota

pra não descer...

E o que não desce

é minha pressão

ao lembrar de suas

fotos imprudentes

expostas no celular

no cantinho

da cantina

Jorge Medeiros 05-12-09




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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Ícaro Pós-Moderno

Nem tão alto,
a ponto do Sol
derreter a cera
que me prenderia as asas;
nem tão baixo,
que as águas do mar
enxarquem-nas,
ao voo, tornando-as impróprias.

Assim quero voar!
Oclusivo desejo de libertar-me,
singrar os ares,
fugindo da dor
e das mesmices cotidianas;
escape planejado
de mim mesmo,
libertação total
das minhas dúvidas,
flerte despudorado
entre o bem o bem e o mal.

Mas, eis que não encontro cera;
eis que chove:
nuvem cinzenta e pesada
apenas sobre minha cabeça.
Também, o vento espalhou as penas,
arduamente recolhidas,
frustrando, assim, o meu acalentado intento
de tornar-me um Ícaro pós-moderno.

O que fazer então?
Quedar-me silente?
Prostrar-me em oração?
Tomar um ansiolítico?
Desnudar-me feito louco?
Em fúria, possesso,
drenar o obsesso
que me nasceu no coração?

Ou tudo isso, ainda, seria muito pouco?

- por JL Semeador

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domingo, 20 de dezembro de 2009

Bailarina

Ao abrir as cortinas do teatro
Do meio da platéia sorrateiramente
O Ébano roubou meu olhar
Seu perfume de madeira
Transpassou minh'alma
Tranformando-se em vento
Cai sobre seu corpo com
A intimidade infantil do amor
O corpo de dança encantava a multidão
A magia das pétalas de rosas
Acariciavam os jovens enamorados
E no êxtase da valsa da primavera
A chuva molhou minhas sapatilhas
A orquestra entoou a marcha fúnebre
As luzes do palco apagaram
Solitária entre as cores da sinfonia
A bailarina ficou...
Seu olhar procurou...
Mas a chuva... para sempre o levou.

(Gheysa Moura)


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Silêncio

Todo um sentimento
Resume-se em silêncio
Em silêncio penso em você
Em silêncio sinto sua falta
Em silêncio sinto o calor da sua presença
Em silêncio oro a Deus e peço graça
Para que em silêncio te ame
Ou para que em silêncio
Te esqueça.

(Silviah Carvalho)

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Um canto torto que é a vida

Ele soltou seu canto torto
Pelo mundo para cortar minha carne
Seu canto é a vida
E a vida cortou minha carne
Me deixou desesperado
Pelas veredas incertas das pessoas

Ando pelas ruas
Que se parecem um sertão
Sentindo sede de felicidade
E morrendo cada minuto
Que vivo em vão

Ele soltou seu canto torto feito faca
E meu sangue derramou
E através dos anos me desespero
Sem nenhuma saída
Apenas alucinações me cercam

Me escondo dentro de mim
Mas o espelho reflete minha aflição
Tenho medo
Se a vida me cortar outra vez
Ficarei esquecido.

(Arnoldo Pimentel)


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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Pó de Poesia na 4ª Jornada Cultural da Baixada Fluminense

À frente do grupo Ivone Landim lê seu poema "As deusas".


No dia o5 de dezembro de 2009 o Pó de Poesia marcou presença no teatro SESC de São João de Meriti, na 4ª Jornada Cultural da Baixada. Ciceronados pela stand up comedy Camila Velazques e com a participação especialíssima do maravilhoso poeta caxiense Lazana Lukata, Ivone Landim, Marcio Rufino, Jorge Medeiros, Vicente Silva, Arnoldo Pimentel, Cristiano Soares e Eduardo Costa brindaram o público com seus poemas.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A AGONIA DE VIVER SEM PODER DESFRUTAR A VIDA

Antes que os raios risquem
e os trovões soem meu corpo,
me deixem tragar o último gole de whisky
e extasiar-me de prazer na última foda.
Banhar-me no doce sal do azul do mar.
Tocar pela última vez
os espinhos das flores campestres.
Admirar a negritude brilhante
da lua crescente.
Beijar as prostitutas
sentindo pela primeira e última vez, o amor.
Dar o último suspiro
no que me restou de vida.

(Sérgio Salles-Oigers)

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segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Pó de Poesia homenageia Solano Trindade.


Os poetas do "Pó" Marcio Rufino e Ivone Landim dizendo poemas de Solano.


O grupo Pó de Poesia marcou presença no lançamento do livro "Solano Trindade - poeta das artes do povo" da historiadora Mª do Carmo Gregório que abriu a semana de comemorações do "Dia da Consciência Negra" na Baixada Fluminense no dia 5/11. O evento se deu no Espaço Cultural Sylvio Monteiro em Nova Iguaçu e contou com as presenças do poeta Moduan Mattos e do grupo cultural Guetofobia.

O evento organizado pela Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial (Coppir), contou, também, com a presença de autoridades municipais, representantes de movimentos ligados à cultura afro-brasileira e africana, como o Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (Ceap) e do Grupo de Estudo e Ação Social (Gestar), além do secretário municipal da Coppir, Paulo Santana.

sábado, 7 de novembro de 2009

Mãe D'água


As gotas caem no azul


Tão indecentes como um beijo na boca


Molho o meu corpo


Como se a água fosse saliva


E brotasse dos orifícios da minha pele.


O velho rabo de peixe mexe e remexe


A espuma de água-doce.


Mas a benção desse refrigério


Está na humildade em que eu


Bebo do leite de seus seios


Que foram feitos para amamentar crustáceos.


Água; verdadeiro corpo da terra.

(Marcio Rufino)

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sexta-feira, 30 de outubro de 2009

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Recomeçar


É só uma sombra sob a árvore
Vazia desde o dia em que partiu
Mas esconde as pedras encabuladas
Que amargam minhas lembranças

É só uma sombra que clareia meu passado
Que aflige os dias inexistentes que virão
Trazendo a saudade que se acumulou no tempo
E que cortará a penumbra da minha gaiola

É só uma sombra que balança perto da varanda
Movida pela velocidade silenciosa do vento
Onde folheio as páginas viradas
Que capotaram no caminho para a felicidade que eu não acreditava

É só uma sombra que se estende por mais um dia que espero minha partida
Partida que me encontrará sentando à sua espera
Sentindo meu olhar perdido nas sobras que ficaram na estrada de areia
Saboreando o chiclete de fruta
Fruta da minha terra

(Arnoldo Pimentel)


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domingo, 25 de outubro de 2009

A morada dos raios de fumaça


Pasmem os amantes da paz, pois eu a conheci em meio a uma guerra: Linda, irresistível, simplesmente maravilhosa com seu traje branco amarelado pela poeira da estrada.

E com sua cútis tão branca quanto a pureza dos arcanjos celestes, que se alimentam de luz, ela fisgava a curiosidade daqueles que ansiavam encontrar a felicidade. Como eu fazia parte desse ansioso-desesperançado grupo, não me contive, quis logo me aproximar para sugar seu doce perfume que era tão forte quanto toda nicotina e poluição contida no ar.

Em pouco tempo nos unimos. Ela já controlava meu cérebro e adoçava meu sangue; éramos um só ser: “O corte e a navalha suja de sangue numa noite de chuva”.

E em nome de nossa união comecei a viver somente para ela. Passamos a ser fiéis um para com o outro e infiéis para conosco. Eu fui expulso de casa, briguei com os amigos, comecei a roubar e a me prostituir para sustentar o nosso romance.

Hoje faz onze anos que o nosso amor começou, vivemos isolados do mundo porém vivemos juntos, isso é o que nos importa; é isso o que nos faz felizes...

___ ... não é mesmo, cocaína, meu amor?

(Sergio-Salles-Oigers)
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A Tempestade


Coração duro feito pedra, cabeça erguida
É mais fácil seguir em frente quando não se precisa olhar pra trás
Seria mais simples em nem pensar na vida
Mas as coisas não funcionam desse modo, coisas simples demais

Atormentado por coisas que nem sei
Vivendo um dia de cada vez
Sem esperanças? Ou sem esperar nada do futuro?
Só há decepção com expectativas frustradas
Não quero mais me decepcionar

Lutando comigo mesmo todos os dias
O anoitecer me dá mais esperanças do que o amanhecer
E falta coragem para levantar às manhãs frias
Questiono-me sempre sobre o sentido de ser

Vejo dias nebulosos à frente,
Enquanto tento sobreviver a essa tempestade.
Nuvens negras, vento forte, ruídos latentes...
Tempestade em mim..

(Eduardo Costa)


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quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A Serena Tragédia


A SERENA TRAGÉDIA
DE QUEM SE AVENTUROU
A MOLHAR A PONTA DOS PÉS
NUMA SOPA DE CRUSTÁCEOS.

Das lágrimas tudo se espera
e nelas deposito toda a confiança
de quem não mais confia,
a ingenuidade de quem acredita
que a tristeza seja o pseudônimo da alegria
fisicamente abalado pelos 30 minutos de prorrogação
e psicologicamente aprisionado pela falta de ilusão.
À esmo vejo emergir do sal da lágrima
a cartada final que irá definir
o destino do que se decompõe em mim
na presumida morte astral
onde para o que não será vitória
como sempre não terá festa,
pois apenas haverá de ser uma segunda-feira
após um dia de domingo
em que, ao invés de, eu me pôr a chorar,
fiquei a beijar um jiló
e a me masturbar com um limão.

(Sergio-Salles-Oigers)

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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Off

Desliguei
Não o celular
Desliguei
as lembranças
o forno que me aquecia.

Desliguei
as sinapses
que faziam
me encontrar
com você.

Sei que agora
simplesmente
Desliguei.

(Jorge Medeiros - 17/09/2009)

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Hoje tal como ontem eu...

Havia ali na janela um rosto
Que me passando viu
E ao me ver acenou com os olhos
Me fazendo lembrar de você!

Havia ali na janela uma rosa
Que desabrochava e ria
Suas pétalas suavizavam
Minha paisagem já bela
Com você em mim

Eu regava com doçura
E a cada gota caída
Eu imaginava você beijando a pétala fria
Dando sorrisos para mim

Eu a vi e você saiu de mim assim
As pétalas cairam
Mas o botão permaneceu
E eu chorei de noite ao ver...

Que do vaso na janela ficou a sombra
A marca
E da paisagem marcada pela saudade
Faltava você em mim

Chorei e me lembrei
Que antes do seu adeus eu a gravei
Em meu coração com amor
E mesmo seu adeus sonoro
Não me deixará o coração solitário
Pois nele eu a plantei
Para toda eternidade.....
Hoje
Bem mais do que ontem
Eu continuo amando você em mim!!!





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Sem asas para voar.


Escondo-me embaixo da cama
Ouço a voz que me chama
Tenho medo de levantar
De sorrir
E depois chorar
De aventurar-me
De abrir minhas asas
Tentar voar
E como Ícaro
Derreter
No desconhecido
Seu mar

(Arnoldo Pimentel)

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domingo, 18 de outubro de 2009

Negra Loura


Imagem extraída do blog Sapataria DF



Desceu em Belford Roxo
de um ônibus que vinha de Vilar dos Telles.
Sua pele era de feijoada
mas seu cabelo era puro trigo.
Sua pele era de noite
mas o seu cabelo era o horizonte de tardinha.

Falsa britânica.
Nórdica preta.
Africana de cabelo pintado entre o castanho e o dourado.
Zulu disfarçada de branca.

Entrou na padaria
pediu um refrigerante
e cruzou suas grossas coxas
debaixo de um curtíssimo jeans rasgado.

A rapaziada toda olhou e babou
ela toda no pensamento
imaginando estar no século retrasado
e possuir aquele território à revelia
que parece ter saído de uma letra
de Benjor ou Melodia.

Bebeu tudo numa só golada
pagando a conta.
Saiu não só levando
o louro e duro cabelo entrançado
acima do sorriso amarelo
mas também o olhar de todos nós
entre aquele busto
que eram dois maduros jamelões gigantes
embaixo daquele vermelho sutiã.

Sumiu entre pagodeiros e funkeiros
entre credores e devedores
entre viajantes e farofeiros
entre pequenos empresários e vendedores.

Ela saiu do nada
e foi com tudo para qualquer lugar
tomando seu sorvete demais
deixando em sua língua
que nos banhava em sonho
o sabor daquele morno verão.

(Marcio Rufino)

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